0e6cea64 c641 4845 bead 5aaeed6e32db lobaolivrocapaguiarock80 Lobão se coloca na posição de vítima em livro que detona Chico e Caetano

Existe um comportamento comum que se repete nas diversas fases da vida e da carreira de Lobão: ele sempre se coloca no papel de vítima. E nessa condição, cria factoides para combater inimigos que inventa, mas que sequer se importaram com a existência do roqueiro, como Chico Buarque (que, se perguntado, não deve ter certeza se Lobão está vivo ou não).

Essa paranoia de perseguição e síndrome de autoimportância estão presentes no novo livro do músico, Guia politicamente incorreto dos anos 80 pelo rock. Com quase 500 páginas, o projeto serve basicamente para Lobão descontar frustrações e detonar seus alvos prediletos desde que começou a carreira: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento e, claro, Herbert Vianna.

Nos 15 capítulos da obra publicada pela editora Leya em parceria com Leandro Narloch, o cantor destila veneno sobre a obra de Chico, avaliando discos do cantor sem nenhum embasamento crítico. Ópera do malandro é rotulado como uma "das mais memoráveis lambanças estético-musicais". Já o samba-enredo Vai passar (Chico Buarque e Francis Hime, 1984), é é avaliado "um sambinha muito do mequetrefe", apenas por que sim.

Essas observações reforçam ainda mais a vontade de causar polêmica gratuita de Lobão, já que álbuns de Chico Buarque nada têm a ver com a história do rock oitentista.

Outro que recebe inúmeras críticas nas páginas do livro é Herbert Vianna, eterno desafeto de Lobão, e pelo menos um compositor de rock mesmo. Na biografia 50 Anos a Mil, o cantor já havia acusado o líder do Paralamas de imitar seu estilo de cantar e se inspirar demais em nomes de músicas dele (como a coincidência entre os sucessos Me Chama e Me Liga).

 Lobão se coloca na posição de vítima em livro que detona Chico e Caetano

Basicamente, em todas as críticas Lobão coloca a culpa em alguém por um eventual fracasso ou sugere que foi boicotado por algumas pessoas da indústria, como Chico e Caetano. O irônico dessa vitimização eterna de Lobão é que o músico parece esquecer que ele mesmo já foi um popstar foi beneficiado por gravadoras, esquemas para tocar em rádio e até mesmo leis de incentivo, quando montou a revista e selo Outra Coisa.

Esse papel de outsider da música nacional não faz sentido principalmente se os números da carreira dele forem levados em conta. Só na década de 80, vendeu mais de 1 milhão de discos. Nos anos 90, o sucesso foi menor, mas seus álbuns mais experimentais (Nostalgia da Modernidade, Noite e A Vida é Doce) tiveram boa aceitação de público e crítica.

Esse êxito não é desprezível, principalmente se for levar em conta que a essa década foi ingrata para quase todo o rock nacional surgido nos anos 80. Ou seja, se Lobão continuasse a fazer o que sabe de melhor, que é música, não estaria na internet criando teorias sobre seu atual fracasso como artista (que, aliás, ele já declarou ser causado de perseguição política, numa autoestima invejável).

Mas nem tudo são críticas negativas no livro. Sobre os amigos, ele rasga seda. E assim, não faltam observações positivas sobre Julio Barroso e Cazuza. O único problema aqui é que as análises não são criteriosas ou rigorosas do ponto de vista técnico. Mas não importa. Essa parte não pode ser desprezada da análise, pois prova que em quase 40 anos de carreira, o cantor só conseguiu manter carinho e respeito por quem infelizmente já morreu.