Publicado em 09/09/2012 às 10:26

Primeiro capítulo da autobiografia do Peter Criss (Kiss)

Mais uma que vou ter que ler.

crissmakeupbreakup Primeiro capítulo da autobiografia do Peter Criss (Kiss)

Cápitulo 1
Eu cheguei ao mundo no dia 20 de dezembro de 1945, pelos pés, bunda pra trás, forçado. Eles não tinham cesariana naquele tempo, então tiveram que me tirar com um fórceps, igual àqueles que você usa para saladas. Minha mãe, Loretta, disse que a coisa foi tão dolorosa que ela não quis mais ter mais filhos depois de mim. Claro, ela teve mais quatro.

Eu também era impaciente, saindo da barriga da minha mãe prematuramente, dois meses antes, uma coisinha minúscula com cabelos pretos e compridos até o pescoço. As enfermeiras ficaram assustadas comigo; elas nunca tinham visto um bebê com tanto cabelo. O legal é que eu era uma criança bastarda. Minha mãe tinha engravidado, e daí ela me teve e daí ela e meu pai se casaram alguns meses depois. Mas meu pai, Joe, não estava pronto pra sossegar. Ele era um italiano bonitão que adorava dança de salão. Minha mãe disse a uma de minhas irmãs que meu pai sumira por três anos quando eu era moleque e depois voltou pra família. Mas ninguém nunca me contou isso.

Que família. Me batizaram de Peter pelo nome do pai do meu pai. Ele e a esposa dele, Nancy, se mudaram pros EUA vindos de Nápoles e se basearam em Hartford, Connecticut, onde tinham uma fazenda. Além de seus próprios filhos, eles adotaram um bando, então havia algo como 20 crianças na família. Meu pai nascera na fazenda, mas depois o pai dele comprou um prédio para seis famílias no Brooklyn, onde ele arrumou emprego de pedreiro. Ele era um legítimo italiano que só falava italiano, então um dos caras do trabalho, pra zoar com ele, ensinava frases em inglês pra ele como ‘Vai se fuder, vai tomar no cu, eu gostaria de uma buceta’. Ele não entendia o que aquilo significava. Um dia ele veio pra casa do trabalho e minha avó estava cozinhando e ele disse, ‘Hey, vai se foder, chupa minha rola’. Minha avó surtou e meu pai teve que contar a ele que aquilo não se dizia, e daí o velho ficou puto e no dia seguinte foi até o trabalho e trucidou o colega de trabalho na porrada.

Eu adorava visitar meu avô. No quintal dele havia parreiras, beterrabas e tomates. Eu sentava no colo dele no quintal como se ele fosse “O Poderoso Chefão”. Ele tinha um chapelão, as calças grandes com o cinto, e o suéter grande com furos. Ele era alto, com 1m85, um homem muito bonito. Ele criava pombas, e no sótão ele tinha um monte de coelhos em uma gaiola que eu brincava. Minha mãe me dizia que um dia ela estava comendo o molho de massa dele e ela disse, ‘Está delicioso, vovô. Meio gorduroso, mas gostoso. ’ Daí ela descobriu que era feito com coelho, e ela nunca mais comeu o molho deles de novo.

Ele era um cara casca-grossa. Ele não acreditava em médicos. Ele arrancava os próprios dentes com alicates. Ele era um católico fervoroso até que um dia ele foi até a igreja e pegou um padre comendo uma freira, e foi o bastante para ele. Ele desistiu da religião depois de tomar uma dose boa de realidade. Eu realmente o amava, e tinha orgulho de ter o nome dele.

Mas eu não gostava da mulher dele, a Nancy. Ela costumava me quebrar na pancada. Minha mãe me disse que quando eu era bem novo, ela me suspendeu pelos pés e eu comecei a sangrar e eu literalmente sangrei pelo pênis. Eu me vinguei depois. Minha avó se mudou pra nossa casa mais pro fim da vida dela. Ela sentava na cozinha reclamando, boquejando, o pé sempre de molho em água com sal. Ela sempre queria as coisas, e me xingava em italiano. Um dia meu amigo Vinnie veio pra brincar de cowboy e ela ficou irritada porque estávamos nos divertindo, então fomos até a ferrovia, ficamos pelados e corremos pela casa, atormentando-a. Ela não podia fazer nada porque estava numa cadeira de rodas. Finalmente meu pai chegou em casa e ela grunhiu algo pra ele. Ele veio até nós e disse. “O quê? Você ficou pelado na frente da sua avó?”

“Por que eu faria isso, pai?”, eu disse, todo inocente. “Eu vim pra casa pra largar os livros. Almoçamos e saímos. Ela está vendo coisas.” Ela estava ficando meio senil, então ele abraçou e ela ficou furiosa. Eu me vinguei por todos aqueles anos nos quais ela abusara de mim quando eu era pequeno.

Durante minha infância, eu nunca de fato conheci o pai de meu pai, meu avô George, de quem eu também tinha herdado o nome. Ele era um gigolô que tinha abandonado minha avó quando minha mãe e o irmão dela eram bem novos. O irmão dela, meu tio George, nunca perdoou o pai dele por desertá-los. O velho mal aparecia em Nova Iorque, mas costumava me mandar coisas do mundo todo: botas de cowboy, artesanato. Ele rodava o mundo porque ele ficava se casando com várias mulheres ricas. Depois de alguns anos de casar com uma, ele casava com outra. Ele era bem esperto. Ele lia o dicionário para se divertir. Quando ele se mudou pra São Francisco na casa dos setenta, e acabou fumando com todos os professores em Berkeley, e eles deram a ele um diploma, pra que ele pendurasse na parede.

Quando eu estava morando em Canarsie com minha primeira esposa, ele veio nos visitar com essa mulher bem rica de Amarillo. Ela era colecionadora de arte. Ela tinha comprado um bar pra ele. Daí ele largou dela e fez com que outra endinheirada comprasse um restaurante pra ele em Albany. Quando ele vinha ficar conosco, ele acordava de manhã, colocava uma camisa branca e uma gravata, e colocava uma rosa do lado da mesa onde minha esposa sentava. ‘Bom dia, querida. Como você está se sentindo hoje?’ Ele conhecias as palavras mágicas.

Eu o visitei anos depois em São Francisco quando ele era muito mais velho e tinha encontrado uma mulher boa e estavam morando em um trailer. Tomamos banho juntos no chuveirão do parque do acampamento e daí ele se virou, e ele era dotado como um cavalo. Ele não tinha uma rola, ele tinha o braço de um bebê! Meu avô viu minha cara de surpresa e disse, ‘É por isso que me dou tão bem na vida. Sou um garanhão’ Eu nunca tinha ouvido esse termo antes. ‘É um homem que sabe usar seu pau. Eu nunca trabalhei um dia na minha vida, porque quando uma mulher prova isso aqui, já era’, ele explicou.

Minha avó Clara parecia nunca ter superado o fato de ele tê-la abandonado. Ela era de uma grande família irlandesa de grandes beberrões. A família dela vinha pra casa dela, ficava bêbada como um gambá, e daí ia embora. Quando meu avô chegava em casa do trabalho, eles já tinham ido embora e minha avó estava desmaiada. O problema dela com a bebida ficou de tal modo que minha mãe e o irmão dela começaram a faltar a aula, e quando minha mãe completou 10 anos, o estado os tomou e os colocou em um orfanato. Minha mãe odiava aquilo. Ela nunca falou muito sobre isso comigo, mas certas coisas a faziam surtar. Pro resto da vida dela, se ela chegasse a sentir o cheiro de doce em compota, ela enlouquecia. ‘Não traz essa merda pra perto de mim. Eles me serviam isso todo dia de minha vida quando eu era pequena. ’ Minha mãe nunca perdoou seus tios e tias maternos por não se manifestarem e os ajudarem antes de o Estado ter levado a ela e seu irmão. Eles tiveram uma vida muito dura, e quando eles finalmente foram devolvidos à mãe deles. Clara tinha parado de beber muito, eles tentaram retomar uma vida familiar normal.

E foi esse o mundo louco no qual Peter George John Criscuola foi jogado. Eu só o deixei mais louco. Eu era uma criança perturbada, e fiz minha mãe passar por um inferno. Eu pegava tudo, sarampo, caxumba, coqueluche, um testículo inchado, catapora, infecções de ouvido, a coisa toda. Eu até peguei uma lombriga do gato da minha avó. Quando entrei pra escola, eu era tão anêmico que toda semana eu recebia uma transfusão de sangue e tomava vitaminas. Eu estava zoado. Eu devo ter pesado uns 30kg na época, um moleque magro com uma cabeçona e olhos e orelhas enormes. Felizmente, o padre na minha escola pagou pelas consultas médicas. Nós não tínhamos dinheiro pra isso.

Quando eu não estava doente, eu estava me machucando. Quando eu tinha sete anos, minha mãe foi visitar uma amiga. Elas estavam tomando café e de algum modo eu me distanciei dela e fui pro quintal. Havia um cachorro lá. O cachorro estava comendo, e eu enfiei minha cara no que ele estava comendo e o cachorro achou que eu ia roubar a comida dele, e mordeu minha boca, arrancando metade do meu lábio superior. Minha mãe ouviu o grito e me viu sangrando tanto que me levou correndo pro hospital. Meus pais não tinham dinheiro nem plano de saúde, então era sempre pra sala de emergência, minha segunda casa no começo da vida.

Eu devo ter tido um anjo cuidando de mim, porque havia um grande cirurgião plástico da Alemanha que estava lá pra fazer uma palestra em um seminário. Ele me viu no corredor sangrando pra morrer e ele de pronto disse: ‘Tragam esse menino .’ Eles nem me anestesiaram. Eles só amarraram minhas pernas e minhas mãos e começaram a trabalhar no meu rosto. A sensação era de um milhão de abelhas me picando no rosto. Era de alucinar, a dor era muito intensa.

Eu fiquei enfaixado por meses, comendo de canudo. Meu pai e minha avó culparam minha mãe pela presepada. Eles achavam que eu ia ficar desfigurado pro resto da vida. Finalmente, chegara a hora de tirar as ataduras. Voltamos pro hospital, os médicos e as enfermeiras me cercaram, e minha mãe roia as unhas, como sempre fazia. Eles tiraram a última gaze e eu me lembro de todos olhando pra mim – ninguém espantado por eu ser tão feio ou pelo lábio estar tão bem, eu não sabia o porquê. Minha mãe começou a chorar, e eu olhei no espelho e notei a cicatriz no lábio, mas não parecia horrenda, e com o tempo ela desapareceu completamente. Mas daquele dia em diante, eu não entraria em uma casa se houvesse um cachorro lá.

Minha mãe me mantinha por perto dela depois disso. Eu sempre estava na cama com ela: ela sempre estava segurando minha mão. Éramos inseparáveis. Com meu pai era outra história. Ele sempre estava ou trabalhando ou tentando encontrar emprego, ou estava no andar de cima no telhado com suas pombas. Ele parecia não querer se envolver com a vida de outras pessoas. Ele ficava no mundo próprio dele e era bem infantil, um traço que eu herdei dele. Por mais que ele fosse um garoto italiano casca-grossa, eu acho que ele estava assustado na maior parte do tempo. Ele não tinha educação. Ele tinha largado a escola depois da terceira série, então ele era analfabeto.

Comente

"Primeiro capítulo da autobiografia do Peter Criss (Kiss)"

9 de September de 2012 às 10:26 - Postado por Luiz Cesar Pimentel

* preenchimento obrigatório



Digite o texto da imagem ao lado: *

Política de moderação de comentários:
A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro pelo conteúdo do blog, inclusive quanto a comentários; portanto, o autor deste blog reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Não serão aceitos comentários anônimos ou que envolvam crimes de calúnia, ofensa, falsidade ideológica, multiplicidade de nomes para um mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal / familiar a qualquer pessoa. Comentários sobre assuntos que não são tratados aqui também poderão ser suprimidos, bem como comentários com links. Este é um espaço público e coletivo e merece ser mantido limpo para o bem-estar de todos nós.
Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009- Rádio e Televisão Record S/A
exceda.com