Publicado em 13/09/2012 às 12:31

Fúria – a história e as histórias do heavy metal no Brasil (capítulo 2)

Saiu o capítulo 2. É um livro que pretende contar a história do heavy metal brasileiro, que é sensacional e nunca foi contada muito bem.

Projeto é dos amigos do Wikimetal.com.br, Daniel Dystyler, Rafael Masini e Nando Machado, que me convidaram para escrever o livro de maneira colaborativa.

Já tem o prefácio e o primeiro capítulo no site. E a partir de hoje o capítulo 2.

Quem puder espalhar, todos agradecemos. Pois só vai ficar legal com contribuição, gente contando a história da cena em suas cidades etc. Do contrário, ficará restrito a São Paulo, que é a cidade em que o quarteto (eu incluído) vivenciou a cena.

Capítulo 2: Crusader, o Desembarque no Brasil

Por Luiz Cesar Pimentel & Wikimetal

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Talvez seja estranho pontuar a criação de um fanzine como gênese de um estilo. Mas era época em que a circulação de informação escrita, falada ou registrada em disco era igualmente complexa em todas formas.

A partir da “Rock Brigade” nasceu a cena, e ficou claro que os fãs da música pesada circulavam por aí sem um fator amalgamador, e as bandas começaram a se formar.

A edição de estréia da “Rock Brigade” era composta por 12 páginas e assinada por Edu “Schenker” (Eduardo de Souza Bonadia), Roney “Gillan” (Roney Slemer), Ricardo “Di’anno” (Ricardo Oyama), Roger “The Sinner” (Roger Slemer) e Tony “Moon” (Antonio Pirani). As referências nos apelidos são Rudolf e Michael Schenker, guitarristas alemães do Scorpions, o vocalista do Deep Purple, Ian Gillan, o ex-vocalista do Iron Maiden Paul Di’anno e Keith Moon, ex-baterista do The Who.

Na primeira edição do fanzine, textos sobre Deep Purple, AC/DC, Ozzy Osbourne, Uriah Heep, Motorhead, Def Leppard, além de letras traduzidas – “Rock Brigade”, do Def Leppard, e “You Can´t Kill Rock’n'Roll”, do Ozzy. Encartado, uma lista de gravações.

Aqui vale um parêntese para explicar a importância das gravações. O CD fora criado nessa época, mas só viria a se popularizar quase uma década depois. Assim, a forma de cópia musical era a troca das tais gravações, em fitas cassete. Todo fã que se prezava tinha uma lista, batida à máquina.

Lojas, como a já citada Woodstock, não eram apenas locais de venda de discos e merchandising das bandas, mas pontos de encontro onde fãs levavam as listas de gravações que tinham (geralmente uns piratas de cópia da cópia da cópia da 10ª cópia de um show; logo, com qualidade bastante sofrível) e praticavam o escambo.

Existiam até fornecedores oficiais, os caras que tinham as conexões boas fora do Brasil e que recebiam e reproduziam e vendiam os melhores “piratas” (nesse tempo, o termo pirata significava um show gravado e divulgado de maneira não-oficial e não o cara que baixava música ou filmes).
Admito que eu era um deles, e foi minha maneira, durante bom tempo de conseguir dinheiro para comprar os discos importados que chegavam no Brasil a preços quase impraticáveis.

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Os shows do Kiss e Van Halen em 1983 ajudaram a estabelecer a cena no país

Voltemos ao então fanzine Rock Brigade. Aqui vale a reprodução de boa parte do Editorial de estréia:

“Hello, moçada, aqui estamos com o nosso (inclusive vocês) primeiro informativo. Parece que nossa intenção já é sabida, mas vale repetir: procurar de todas as formas possíveis divulgar o HEAVY METAL ROCK. Para tanto, este informativo será o ponto de partida, para levar-lhes as ideias e informações. E esperamos que vocês também participem, quaisquer sugestão, crítica, dica, etc, serão bem aceitas.

(…)Outra coisa importante é que procuramos não ficar dando uma de sabidos, donos da verdade e intelectualóides. Ou seja, tentaremos não ser “críticos”, pelo menos no sentido pejorativo da palavra. Tentaremos, antes de tudo, enaltecer e engrandecer aquilo que gostamos, perpetuar o HEAVY METAL, e não ficar metendo o pau nisso ou naquilo. ‘Simplesmente’ não vai ser importante para nós ficarmos gastando tempo e papel criticando outros “pseudo movimentos musicais” (sabem do que falo, não?) e comparando-os com o eterno H.M.R.

Bem, junto a este segue nosso catálogo para gravações. Logo que possível, lhes enviaremos a relação de piratas. (…)E também é bom deixar bem claro esse papo sobre grana: ninguém aqui está a fim de faturar, mas é claro que precisamos cobrar pela assinatura e pelas gravações, OK? LONG LIVE HEAVY METAL ROCK”.

Para se ter ideia da velocidade da informação no início dos anos 80, o grande destaque do segundo número da Rock Brigade, de Maio/Junho de 1982, era o falecimento do guitarrista Randy Rhoads, que tocava com Ozzy Osbourne, ocorrido três meses antes. Até hoje considerado um dos maiores guitarristas do rock pesado, Rhoads morrera em uma acidente aéreo em 19 de Março daquele ano.

Mas a edição trazia a primeira nota sobre a formação de uma cena de heavy metal no país. Na verdade um toque para o público:

“ROCK SHOW é o nome de um cinema aqui de São Paulo que só passa filmes de Shows de Rock. Já pintaram Black Sabbath, Cream, Kinks, Hendrix, Queen, Stones, Thin Lizzy etc. Fica no Calcenter, vale a pena conferir”.

Não era cinema. Era uma sala em um centro comercial (igualmente não dá pra dizer que o Calcenter é um shopping) localizado à Avenida Brigadeiro Faria Lima, no miolo do tradicional e refinado bairro dos Jardins, em São Paulo.

Na sala, umas 20 cadeiras de plástico sempre ocupadas para transmissão de um show qualquer de heavy metal em qualidade VHS. Era o mais próximo que se chegava de uma apresentação ao vivo. A estrada brasileira para as bandas se apresentarem por aqui seria aberta no ano seguinte, com os lendários shows de Van Halen, no início de 1983, e do Kiss, no meio do ano.

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Van Halen, abrindo a estrada para shows internacionais no Brasil

Numa época em que ao menos dois grupos de rock ou metal se apresentam a cada final de semana no país, é difícil colocar em perspectiva e dar a real dimensão e importância dessas duas séries de apresentações no Brasil.

Mas vamos tentar reproduzindo os fatos da época.

A agenda do Van Halen foi:
21/22/23 de Janeiro: São Paulo – Ginásio do Ibirapuera;
25/26/27 de Janeiro: Rio de Janeiro – Ginásio do Maracanãzinho;
28 e 29 de Janeiro e 1º de Fevereiro: Porto Alegre – Ginásio Gigantinho;

O set list básico dos shows foi:
01) Romeo Delight
02) Unchained
03) Solo de Bateria
04) The Full Bug
05) Runnin’ With The Devil
06) Jamie’s Cryin’
07) Little Guitars
08) Solo de Baixo
09) Beer Drinkers and Hell Raisers
10) Little Dreamer
11) Mean Streets
12) Dance The Night Away
13) Somebody Get Me A Doctor
14) Improviso de Alex & Eddie Van Halen
15) I’m So Glad
16) Somebody Get Me A Doctor
17) Cathedral
18) Secrets
19) Everybody Wants Some
20) Ice Cream Man
21) Heartbreak Hotel
22) Intruder
23) Pretty Woman
24) Eruption
25) Ain’t Talkin”bout love

E vale a reprodução de parte da coletiva de imprensa que o grupo deu e que foi publicada no jornal “Rock´n´Roll News” que mostra a ingenuidade da imprensa em relação ao rock.

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Jornal: Você define o som do Van Halen como Heavy Metal?

David Lee Roth: Eu não acho que o Van Halen toca música Heavy Metal. Heavy Metal é uma coisa muito específica. Se você fizer uma coisa muito específica será como se você trabalhasse num emprego comum oito horas por dia. Não é assim que a gente faz nosso trabalho.

Jornal: Então como é que você define o som que vocês fazem?

DLR: É uma mistura de vários estilos de música. Somos quatro personalidades diferentes, mas a raiz é a mesma: rock’n'roll. Realmente, somos quatro personalidades diferentes. A música que eu gosto, esses caras não aguentam… E o que eles gostam, eu não aguento…

Jornal: De que tipo de música você gosta?

DLR: Bem, a música que eu gosto e ouço não tem nada a ver com rock’n'roll. Eu gosto de música clássica, Billie Holiday, Al Johnson.

A imprensa pede para que os quatro se apresentem. A tradutora diz o nome de cada um deles e eles executam a tradicional apresentação dos três (quatro) patetas… (aplausos)

DLR: As pessoas sempre pensam que o Van Halen tem como formação só rock’n'roll, mas isso seria a mesma coisa que alguém casar sempre com a sua própria família o tempo todo. Você com o tempo provavelmente teria filhos retardados… E isso é o que ocorre com muita frequência com a música rock, disco, ou qualquer outra forma de música. Eu acho que é melhor roubar um pouquinho de outras influências, e vocês estão olhando para os quatro maiores ladrões de música de todos os tempos… (risos). Van Halen sempre carrega a influência de outros países. O Van Halen não é só música, é um estilo de viver, o que queremos é nos divertir, viajar e tentar manter saúde mental. Rock’n'roll é muito superior à apenas a música, porque inclui muito mais, desde a hora em que você se deita; ou talvez você nem se deite, o que geralmente acontece conosco…

Jornal: O que você sabe a respeito da música brasileira?

DLR: Tudo o que eu sei sobre música brasileira é que eu comprei muitas fitas(cassete) virgens e trouxe um (aparelho) estéreo muito bom… (risos)

Jornal: Você não conhece nenhum autor?

DLR: É quase impossível descobrir qualquer coisa sobre a América do Sul, a não ser que a América do Sul é uma grande revolução. E isso é a pura verdade. Os jornais, a imprensa, as rádios comentam. Os Estados Unidos estão muito intimidados com a América do Sul, e isso é possível, porque afinal, o Brasil é maior que os Estados Unidos (risos). Merda, vocês sabem como são os americanos…

Jornal: Como você explica o sucesso do Van Halen?

Eddie Van Halen: O sucesso do Van Halen? Como? Nós estamos morrendo de fome…

DLR: O sucesso do Van Halen é baseado em não tentar alcançar o pote de ouro no fim do arco-íris, mas sim nos divertir enquanto percorremos o arco-íris. É, a gente vai ganhar algum dinheiro nesta turnê, mas cada centavo vai para a produção deste show. Nós queremos é tocar, e enquanto vocês estiverem nos assistindo aqui no Brasil, e quando outras bandas vierem visitar vocês, é exatamente isso que vai acontecer. Nós queremos tocar, e vocês verão isso. Vocês, meninas, provavelmente verão muito mais…

Jornal: Você fez sua própria guitarra, certo? Por quê? Você acha que com ela você pode tirar algum som diferente?

EVH: Ninguém pode dizer que o que faz diferença é a madeira em que a gente toca.

DLR: Todo mundo acha que tiramos o som através do nosso equipamento. Muita gente entra no estúdio e toca o estúdio ao invés de tocar o instrumento.

EVH: Minha guitarra custou duzentos dólares para ser montada, ao passo que eu gastaria 1.200 dólares para comprar uma pronta.

DLR: Na realidade, o que a gente põe no palco é muita luz e muito som. Mas o equipamento é muito barato. O que vocês ouvem como amplificador é o mesmo equipamento que vocês ouvem aqui no bar do Hotel. Todo equipamento é muito barato. Mas você tem que saber como usá-lo. Todo mundo tem um instrumento, é só saber usá-lo… (levanta e rebola).

Jornal: É verdade que você pratica Karatê desde os 14 anos?

DLR: Sim, minha vida pessoal é guiada pelas coisas físicas. Essa é a estética, a combinação mágica. Eu não sou bom em nada especificamente.

Alex Van Halen: Não? Em uma coisa você é…

DLR: Mas eu pratico todas.

Jornal: Com as músicas “Pretty Woman”, “Dancin’ In The Street” e “You Really Got Me” vocês estão expressando um gosto pessoal ou estão querendo apenas reviver um sucesso?

EVH: Eu queria fazer Dancin’ In The Streets, e o David queria fazer Pretty Woman.

DLR: O conceito geral que define o que você está perguntando é muito simples, quando se trata de Van Halen. Não nos importa o que as pessoas pensam. Nós apenas queremos tocar Rock. Não nos importa quem compôs, o que interessa é que é bom Rock. Não faz diferença, nós só queremos nos divertir e tocar nossa música, e todos vocês estão convidados a ouvi-la.

Jornal: Seria possível o retorno do Van Halen, no futuro?

DLR: Nós vamos voltar ao Brasil again, again and again…

Jornal: Como você define o rock’n'roll?

DLR: Rock’n'roll é uma atitude, é uma coisa que você não pode aprender. Não posso lhes dizer como ser roqueiro, mas posso ver pelas suas caras que vocês não são roqueiros…

Jornal: Você fez uma música com Michael Jackson, certo? O que você achou dessa experiência? Por quê você fez isso?

EVH: Eu gosto de todo o tipo de música, e acho que essa é uma prova disso.

Jornal: Como o pai de vocês se sente, tendo dado a vocês uma influência clássica e de repente ver vocês fazendo uma música cheia de gritos, berros, uma música irritante?

EVH: O que você acha que as pessoas pensavam da música clássica enquanto a mesma era composta? Daqui a 300 anos, a música Rock será considerada clássica.

DLR: Eu gostaria de responder a essa pergunta. Vocês já foram a algum culto religioso? Já viram um ritual vodu? Já foram ao circo? Tudo cheio de gritos, berros, pessoas ficando doidas, bebendo demais? Assim como em seus jogos de futebol? E eu acho que a gente não vai renunciar nem ao futebol nem à música. E se vocês querem falar sério, a terapia é exatamente essa. A gente precisa disso. Algumas pessoas precisam procurar a religião, outras precisam do esporte e as demais vêm aos concertos do Van Halen…

Jornal: Ouvi falar que no palco você é muito atlético, acrobático, dando saltos, etc. O que você faz para ficar em forma?

DLR: A idéia é interpretar a música como ela soa. A verdade é que no rock você pode usar a sua própria criatividade e a atitude que você expõe é que se torna rock’n'roll, e nos últimos cinco anos eu fiz ballet, sapateado, música disco, há dez anos que eu pratico Karatê, eu esquio, jogo tênis e todas essas coisas eu levo para o palco. E dessa vez, para vocês, no palco, eu vou jogar tênis durante a primeira música, desse jeito… (Ele levanta e faz os gestos de quem está jogando tênis em câmera lenta, enquanto o Alex reproduz com a boca o barulho da bolinha batendo na raquete de tênis). E essa demonstração vai lhes custar oito dólares.

Jornal: Por que você usa quatro bumbos, enquanto que a maioria dos grupos usam um ou no máximo dois?

AVH: A música que nós tocamos é basicamente simples… Ritmos complicados não podem ser tocados apenas com dois bumbos. Tem também uma diferente modalidade de textura e de vibração… (risos).

Jornal: Assisti a um concerto do Van Halen na América em 1980 e você dizia no palco “Abaixo (ao aiatolá iraniano) Khomeine” e coisas assim. Existe algum senso político em seu trabalho?

DLR: Não, não, não, o que vocês viram em 1980 foi que uma pessoa atirou no palco um cartaz e eu o abri, e ele continha esses dizeres. Vocês nunca vão me ouvir falar sobre religião, política ou raça. Porque vocês sabem que depois que um grupo vende milhões de discos, ele se torna internacionalmente reconhecido e eu acho que seria falta de senso se envolver com tais coisas.

Jornal: A imagem de vocês é vendida comercialmente como um grupo de Heavy Metal, e agora vocês caem em contradição, dizendo que não. Como você explica isso?

DLR: Esta noite eu tive um pesadelo horrível. Eu sonhei que saí da cama e estava com os cabelos todos despenteados, mais ou menos como agora, e no sonho eu saí do quarto e todo mundo olhou pro meu cabelo e disse: “Você não pode sair desse jeito, você está parecendo com o Robert Plant, vão achar que você é heavy metal”. Corri de volta para o quarto e cortei todo o meu cabelo e saí de novo, e eles me disseram: “Isso não, você está parecendo Sex Pistols!”, e eu disse: “OK”. Então o sonho ficou ainda pior. Voltei para o quarto e fiz uma maquiagem para cobrir o rosto e eles disseram: “Não, isso é Kiss!”. Eu acordei, e digo que me conformo em parecer heavy metal…
Afinal, que tipo de música vocês fazem?

DLR: Big Rock é um termo que nós inventamos. E é alguma coisa que soa grande. Nós tentamos inventar a nossa própria categoria, porque assim, quando tudo terminar, quando não houver mais a música do Van Halen, eu tenho certeza de que nos colocarão num lugar especial.

Jornal: Acho que você é considerado um grande guitarrista. Você se sente responsável em querer melhorar a sua maneira de tocar?

EVH: (pensativo) Não! (risos). A razão pela qual eu toco desse jeito é que nunca me ensinaram nada. Acho que a melhor maneira de se aprender as coisas é não ser ensinado.

Jornal: Qual é o seu guitarrista preferido?
EVH: Edward Van Halen (risadas).

Jornal: E depois?

EVH: Alex Van Halen, e depois David Lee Roth e Michael Anthony…

Jornal: O que você acha de Eric Clapton?

EVH: Excelente.

Jornal: E de Jimmy Page?

EVH: Excelente.

Jornal: Todos os baixistas em geral são quietos, como Bill Wyman por exemplo. Você também é assim?

Michael Anthony: É verdade que aqui, atrás do palco, eu estou bem quieto, mas quando vocês me virem aqui no Brasil, não fiquem perto demais de mim… (risos)

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Nem seis meses depois foi a vez do Kiss se apresentar no país, e passar os mesmos perrengues.

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Kiss na capa da extinta Revista Manchete

Os quatro vinham para a turnê comemorativa de 10 anos da banda e lançamento do último disco mascarados nessa primeira fase, “Creatures of the Night/10th Anniversary Tour”.

Os shows aconteceram no Rio (Estádio do Maracanã, em 18 de junho), Belo Horizonte (Estádio do Mineirão, dia 23 de junho) e São Paulo (Estádio do Morumbi, em 25 de junho)

A relação de músicas não mudou entre um show e outro.

01) Creatures of the Night
02) Detroit Rock City
03) Cold Gin
04) Calling Dr. Love
05) Firehouse
06) I Want You
07) I Love It Loud
08) War Machine
09) God of Thunder
10) Black Diamond
11) I Love It Loud
12) Rock and Roll All Nite

Outra condição da imprensa brasileira foi mostrada durante os shows – não apenas a ingenuidade, mas o descaso da intelligentsia vigente em relação ao rock mais pesado e heavy metal. Foi uma marca que vigorou até que a intenet deu voz às pessoas e não apenas àqueles que faziam parte dos cadernos culturais de então.

Isso fica claro na resenha que o jornalista Pepe Escobar fez do show paulistano, no jornal "O Estado de São Paulo", de 27 de junho.

“Um pastiche de missa negra.

Não deixou de ser um alívio: São Paulo finalmente conheceu, no sábado à noite, em uma arena – o cenário mais conveniente – o beijo pesado da orquestração do niilismo tecnológico, réquiem para uma época degradada em sua forma mais degradada.
(…)Massa compacta, ocupando todas as arquibancadas e praticamente todo o gramado: garotos em bando, muitos mascarados, entre 15 e 18 anos, uivando seus temas de guerra; duas ou três belas garotas.

21 horas. Céu encoberto, lua oculta, pingos grossos, seria a ira do Criador? Uma das torres que sustenta o altar está-se inclinando. Escuridão, delírio. Vai começar pontualmente a representação de todas aquelas fantasias coletivas de poder e domínio.

Os quatro Neros estão no altar de 80 metros – mas das arquibancadas ninguém os vê, ninguém os ouve, pois as gigantescas caixas pretas estão mal dispostas, e o som de sua “mensagem” sai totalmente embolado. A cerimônia dura 1h25. De uma certa maneira executam quase tudo o que prometeram: as 450 luzes piscam incessantemente; as fumaças de todas as cores envolvem o Altar. Ouvem-se estampidos que mais assustam do que provocam os fiéis. Um dos sacerdotes engole fogo ao final de um número – mas isso no circo era mais divertido. Outro se dispõe a executar um solo em seu instrumento sacrificial; mas não dispõe da mínima intimidade com o mesmo. Resultado: quem toca mesmo – e isto vale para os outros – é a mesa de som.

(…)Nenhuma melodia, nenhuma harmonia. Quem conseguiria cantar ao menos um daqueles hinos bárbaros? (…)Mas veio o único momento em que as dezenas de milhares de fiéis pelo menos pareciam imergir em um estado de comunhão com este pastiche de missa negra: os sacerdotes repetiram seu mais conhecido hino, o que começa com um grito tribal. E finalizaram com “Rock and Roll All Night” – uma hipótese não cumprida – fogos de artifício dourados e mais estampidos ameaçadores.

(…)Todos foram mistificados, sem dúvida. No entanto, suspeitava-se que esta versão fosse ao menos competente.

Mas foi um sacrifício altamente elucidativo. Claro que rock´n´roll não é nada disso: é uma força vital que nos queima por dentro e extravasa pelo mundo, é o que se ouvia nos Doors, Animals, Velvet Underground e hoje está – são apenas alguns exemplos – em Talking Heads, Echo and the Bunnymen, Gang of Four e David Bowie. Um furor sensual que leva à embriaguez, a dramáticas alegrias, exigência em atingir depressa todos os limites. O que se viu na Arena sacrificial de uma cidade tropical anteontem à noite foi a alegoria de um mundo pobre, mundo com seus anjos cibernéticos, devastações no interior dos mitos, ardentes melancolias de uma perspectiva em que cai a estrela imóvel de um destino longamente amado e que afinal acabou por nos queimar a todos, de alto a baixo, como um fogo elétrico. Mas há um consolo: não é qualquer beijo ensurdecedor que consegue reduzir nossa sensibilidade a cinzas.”

Daí a opção por marcar como o nascimento da cena de heavy metal brasileiro o primeiro número da Rock Brigade.

Entretanto, apenas no terceiro número do fanzine foi publicada a primeira notícia sobre um grupo de rock pesado brasileiro, o lançamento independente do Patrulha do Espaço.

Nem heavy metal era. Mas a cena estava montada.

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"Fúria – a história e as histórias do heavy metal no Brasil (capítulo 2)"

13 de September de 2012 às 12:31 - Postado por Luiz Cesar Pimentel

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