Publicado em 15/12/2012 às 06:04

mais um capítulo de Fúria, a história do heavy metal brasileiro

(mais um capítulo do livro do metal brasileiro, que estou escrevendo com a turma do Wikimetal)

Fúria – a história e as histórias do heavy metal no Brasil

Capítulo 3: A primeira explosão acontece em Belém do Pará

Por Luiz Cesar Pimentel & Wikimetal

Quando o Heavy Metal ganhou status de cult, muitos reivindicaram a paternidade brasileira. Karisma lançou um álbum, havia discos de rock pesado de Made in Brazil, Patrulha do Espaço, mas o primeiro registro de heavy metal mesmo foi de uma banda paraense, o Stress.

A partir deste ponto, a palavra sobre o que aconteceu à gênese do movimento na prática passa para quem praticou de fato.

Roosevelt Bala, líder do Stress há quase quatro décadas conta:

“Em 1975 não tínhamos nenhuma referência de música pesada aqui no Brasil. Em Belém…nem se fala. Os poucos discos de rock que encontrávamos nas lojas chegavam com anos de atraso. As revistas quase nem chegavam. Quando chegavam, ficavam surradas de tanto passarem de mão em mão, emprestadas de um roqueiro para outro. Entre os roqueiros – como eram chamados uns pelos outros os caras que curtiam rock -havia uma união impressionante, era quase uma irmandade – se alguém te dissesse que lá na casa do cacete havia um cara que tinha o mais recente álbum do Sweet, por exemplo, tu pegavas alguns dos teus melhores LPs e ias procurar a casa do elemento. Chegando lá tu perguntavas: “És tu que és roqueiro?” Daí, rolava logo uma sessão de rock na velha eletrola e uma sólida amizade se formava.

Éramos garotos na faixa dos 14, 15 anos de idade, nos conhecemos na escola. Tínhamos algo em comum, a paixão pelo Rock. Isso não era usual por aqui, especialmente no norte do Brasil (Belém do Pará), onde a música regional – o Carimbó, Merengue, Brega – e os modismos vindos do Sul e Sudeste (disco music e MPB) dominavam as rádios locais. Resolvemos montar uma banda para tocarmos nossas canções prediletas, dos nossos ídolos (Stones, Sweet, E.L.P. Pink, Led Zeppelin, U.F.O., Black Sabbath, Deep Purple etc.).

Começamos do zero, ninguém sabia tocar nada, escolhemos os instrumentos e tratamos de aprender. O nome “Pingo D’água” foi adotado inicialmente por acaso, pois, naquela época, tínhamos uma bateria onde o formato do bumbo – ao invés de ser redondo – era quase “oval”, como uma gota d’agua, deitada (de lado), daí o nome Pingo D’água.

Passamos os primeiros dois anos encarando como diversão, tocando em aniversários de 15 anos dos amigos e festivais escolares. O repertório era só de covers, até então. Em 1976, adotamos o nome Stress, perfeito para nossas intenções de tocar rock pesado.

Stress mais um capítulo de Fúria, a história do heavy metal brasileiro

Lá nos primórdios, meados dos 70, passamos por várias fases, pra cada uma delas tivemos individualmente maior influência dessa ou daquela banda. No início ouvíamos especialmente Sweet, Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabath. Como ainda não pensávamos em composições próprias, serviram mais como base de conhecimento harmônico e melódico do que propriamente como influência direta. Quando ouvimos Judas Priest pela primeira vez – o tecladista Leonardo Renda trazia vários discos da Inglaterra antes de serem lançados no Brasil -, percebemos que era aquela linha musical que gostaríamos de seguir: pesado, trabalhado e melódico. Porém, tinha algo em nossas mentes que dizia que faltava alguma coisa pra ficar perfeito: “Temos de ser mais rápidos e mais pesados do que qualquer outra banda no mundo”, “Vamos tocar aquilo que gostaríamos de ouvir”.

Foi com esse pensamento que começamos nossas primeiras composições. Ainda sem saber tocar direito nem mesmo violão – eu era só vocalista na época-, tomei a iniciativa de começar as composições. Parece incrível, mas, consegui compor todas as músicas do primeiro disco, riffs e arranjos, apenas com um conhecimento básico de violão, que adquiri observando os caras da banda tocarem. O André Chamon – batera – se encarregou de fazer as letras, por sinal, fez um ótimo trabalho. Essa parceria é responsável por 98% das composições da banda.

Depois de algumas apresentações em teatros e ginásios de Belém, tocando covers, decidimos que era hora de criarmos nossas músicas.

Começamos a compor freneticamente, nossas músicas de fato eram rápidas e pesadíssimas para aquela época, tínhamos uma visão futurística muito à frente do nosso tempo e espaço, éramos garotos audaciosos e confiantes. Decidimos que as letras das músicas seriam em Inglês, para ficarmos bem sintonizados com o que estava acontecendo no resto do mundo. Mas, depois de uma apresentação, na qual apresentamos nossas músicas pela primeira vez ao público, em 1978 – e fomos muito elogiados pelas composições – alguns fãs vieram nos questionar sobre a temática das letras, pois eles não compreendiam o idioma. Foi a partir daí que resolvemos refazer as letras em português e prosseguir dessa forma. Queríamos que o nosso público entendesse as nossas mensagens clara e diretamente, sabíamos que nossas letras eram excelentes e que mereciam ser absorvidas de imediato. Com um som poderoso e pesado, somados às letras de alto nível, teríamos uma combinação matadora. Decidimos, então, definitivamente priorizar os fãs brasileiros.

Nos anos seguintes a banda tocou nos principais teatros e nos maiores ginásios de Belém, sempre lotando todos os shows. Já não havia mais locais e desafios a conquistar. Era hora de dar um passo maior, hora de alçar voos mais altos. Gravar um álbum autoral. As músicas foram finalizadas, faltava encontrar o estúdio certo para o tão esperado projeto.

(É bom salientar que, nos anos 70, a diferença de nível técnico e de equipamentos era brutal entre as bandas nacionais e as consagradas, imaginem o que acontecia com a gente aqui no norte do Brasil. Com relação aos músicos, considero que no Brasil sempre tivemos alguns dos melhores do mundo, falando sobre a totalidade de estilos. Faltava, de fato, conhecimento e condições operacionais pra se tirar um bom som dos estúdios de gravação.

Hoje temos acesso fácil a instrumentos importados, de ótima qualidade e com preços bons. Nos anos 70 só se via esses instrumentos em fotos, porque nem vídeos tínhamos para assistir. Uma guitarra Fender, por exemplo, era importada por uns U$ 5.000, um valor absurdo pra época, mas era um instrumento que facilitava na hora de se obter um bom som na gravação.

Hoje temos estúdios bons e técnicos com conhecimento pra gravar guitarra distorcida, que era a grande vilã dos inexperientes técnicos do passado.)

No início dos anos 80 já tínhamos as músicas todas prontas e devidamente selecionadas para a gravação do primeiro disco.

Tivemos muitos problemas com a censura na época, quase todas as letras foram vetadas. Foi preciso fazer modificações e adaptações pra driblar os sensores -. Pegamos as composições mais rápidas e pesadas e incluímos duas ou três não tão rápidas, porém, com peso considerável, não queríamos deixar dúvidas sobre o estilo da banda, que chamávamos na época de “rock porrada”, mais que pesado, pois o termo “Heavy Metal” ainda não era difundido.

Reduzimos o tempo das músicas (aconselhados por um amigo – o Profeta), já que a maioria tinha acima de 6 minutos de duração (solos e introduções longas). Os custos de gravação de um LP no início dos anos 80 era altíssimo, o equivalente ao de um pequeno apartamento de um quarto (50.000,00). Gravar independente não era pra qualquer um. Reunimos todas as economias e pegamos um ônibus pro Rio. Antes de irmos contatamos o estúdio Sonoviso, que nos passou o orçamento, garantiu que saberia gravar o nosso som e teriam tudo que precisássemos para a gravação – só não disseram que teríamos de alugar deles (risos).

Depois de 3 dias de estrada (de ônibus), nos alojamos em beliches numa modesta pensão no Catete, tínhamos de economizar ao máximo. Chegando ao estúdio, nos ofereceram uma bateria toda quebrada. Tivemos de amarrar com barbantes e fitas adesivas todas as peças, pra que a bateria ficasse de pé. A gravação em si foi uma correria só, fizemos tudo em dois períodos de 8 horas, alguns erros de execução ficaram sem correção. Foi somente na hora da mixagem que o desapontamento veio, o resultado não era compatível com o que estávamos acostumados a ouvir. Confirmavam-se as nossas suspeitas de que os caras do estúdio nunca tinham gravado rock pesado como o nosso. Imaginem que eles sugeriram que tocássemos com a guitarra sem distorção, que eles tinham uma “máquina” que colocaria a distorção durante a mixagem. Isso era um absurdo! Mas, já era tarde, não tínhamos mais grana pra consertar as coisas, e ainda faltava pagar o tempo de mixagem.

Foi então que, no desespero, esperamos que o técnico fosse ao banheiro, e aproveitamos para fugir com a fita matriz, pois teríamos de pagar extras pela mixagem, mais duas horas de estúdio (já tínhamos pago a grande parte). Saímos do estúdio e corremos para uma estação do metrô. Foi um pequeno calote, em nome do futuro do metal BR (risos). O resultado final não nos agradou em nada, na verdade, foi uma grande decepção, a sonoridade era muito ruim em relação às bandas que estávamos acostumados a ouvir (Iron Maiden, Judas Priest, Saxon…). Nós nos sentimos enganados! Não queríamos nem lançar o disco. No final das contas resolvemos fazer 1000 cópias do disco a título de registro, não imaginávamos a importância que ele teria no futuro. Ele levou o nome da banda, “Stress”.

No show de lançamento dele, em Belém, colocamos cerca de 20.000 pessoas, no estádio da Curuzú, em 13 de novembro de 82, o “Dia Nacional do Metal”, conforme estão querendo oficializar. O destino quis que a nossa decepção se transformasse em gratidão. Pois, esse álbum foi decisivo para a história do Stress e do metal brasileiro. Pois, foi após ouvi-lo que muitas bandas renomadas do metal brasileiro resolveram se formar. Uma delas foi o Sepultura, segundo declarações dos seus componentes em matérias e entrevistas.

Depois do sucesso no show de lançamento em Belém, o André levou algumas cópias do LP para o Rio. Entregou umas para Maria Juçá, produtora do Rock Voador, projeto que estava bombando no Circo Voador, que viria a ser o templo do rock no Brasil. A princípio ela não deu importância, jogando algumas cópias para a plateia, naquela mesma noite. Mas, quando ela chegou em casa, colocou o LP, e imediatamente ficou estupefada, chocada com a pancada sonora (segundo ela mesma). Imediatamente ela marcou uma apresentação da banda. Outra cópia foi parar na rádio Fluminense “A maldita”, “a rádio mais rock do Brasil”, que popularizou a música “Oráculo de Judas” na sua programação. Assim, o show de estréia do Stress no Rio, seria um grande acontecimento.

O termo heavy metal ainda não era tão usado, nos considerávamos uma banda de rock pesado ou rock “porrada” , como eu costumava divulgar em shows e entrevistas. Quando fomos fazer nosso primeiro show no Rio, no Circo, havia uma expectativa muito grande pra conferir se éramos pesados mesmo. A mídia da rádio Fluminense dizia: ” Direto do inferno amazônico…, o Judas Priest brasileiro… Stress…A banda mais pesada do Brasil …” .

No dia do show teve um programa especial sobre a banda onde eles tocavam as músicas do disco e faziam comentários em seguida. Já na passagem de som dezenas de roqueiros procuravam o melhor lugar nas grades do Circo procurando ver e ouvir a tal banda mais pesada. Na saída fomos abordados por eles com dezenas de perguntas, todos queriam ter mais informações sobre a banda. Quando dissemos que éramos de Belém do Pará a incredulidade foi geral: “Vocês têm certeza disso? Vocês não são de São Paulo?”. Até então não estávamos entendendo o que estava acontecendo, o porquê de tanto espanto e curiosidade. Para nós éramos apenas uma banda que teria o privilégio de, saindo de Belém do Pará, tocar no Rio de Janeiro, a coisa tinha a dimensão de um sonho, mesmo, uma grande realização pra nós. Mais tarde eu viria a compreender tudo, minha surpresa seria grande.

Não lembro de todos que “tocariam” naquela noite, mas, recordo que fiquei impressionado com a competência musical do trio Água Brava, a guitarra Gibson do excelente bluesman Tony Roqueiro (não conhecíamos instrumentos, amplificadores e/ou qualquer outro equipamento importado. Ficamos perplexos com um amplificador Fender Twin no palco e a guitarra do Tony. Sem falar que seria aprimeira vez que tocaríamos num PA de verdade).

Porém, uma coisa eu pude observar muito bem: ninguém estava tocando rock pesado, foi rock’n'roll e blues o tempo todo. O Circo estava até o talo de roqueiros (muitas garotas bonitas, também), tinha nego pendurado nas estruturas metálicas que sustentavam a lona. Antes dos shows teve a exibição de um vídeo do Iron Maiden, foi emocionante pra todos, era a primeira vez que um vídeo da banda era exibido no Brasil, foi o que disseram, eu acreditei. Os caras estavam em movimento (risos).

Ficamos muito apreensivos, pois sabíamos que o nosso som era completamente fora daqueles padrões apresentados pelas outras bandas, todas muito boas, mas, tocando rock ‘n’ roll. Chegou nossa vez, abrimos o show com “Mate o Réu”, a resposta do público foi imediata, era “aquilo” que eles queriam ouvir, porrada seca na orelha. Fiquei surpreso em ouvi-los cantando as músicas, os roqueiros cariocas sabiam as musicas do Stress. O show foi muito pesado, sonoridade perfeita a do Circo, e nós tocamos bem. Quando começou o riff de “Oráculo de Judas”, o público gritou forte, conheciam da rádio. Surpreendi-me, não sabia que tocávamos na rádio do Rio. No final da última música, “Sodoma e Gomorra”, a emoção falou mais alto. Olhei pro André e ele já estava tocando em pé, os olhos dele esbugalhados de adrenalina anunciavam o que viria . Não combinamos nada, entrei com o cabo do baixo no meio da bateria, “varri” pra direita e pra esquerda, voaram microfones e pratos, na mesma o André saiu chutando e empurrando o que sobrou de pé da bateria. Quando tudo estava no chão, pulei com o baixo e dei-lhe uma cacetada no chão. Só tem um detalhe: os instrumentos foram alugados pra gente. No final de tudo, o silêncio foi sinistro, numa fração de segundos percebi a besteira que tínhamos feito, imaginei o pior quando ouvi uma explosão sonora de vozes (igual quando sai um gol) e vi pessoas invadindo o palco. Naquele momento achei que fossemos levar um bocado de porrada, fechei os olhos e protegi o rosto instintivamente quando fui seguro pelas pernas. Pra minha surpresa e alívio percebi que os “caras” tinham adorado aquela onda, fomos levantados em seus ombros e exibidos como troféus, de um lado a outro do palco. Foi um momento inesquecível pra nós, poucos artistas no Brasil experimentaram uma situação semelhante. Muitos gritavam que éramos o Judas brasileiro e pela primeira vez fomos rotulados de heavy metal, alguém gritou: “É a primeira banda de heavy metal do Brasil”.

Depois disso compreendi a razão de tanta expectativa em torno da nossa apresentação, ao contrário do que imaginávamos, não havia nenhuma banda no Rio que tocasse heavy metal , nem cover e muito menos som próprio. Mais tarde nos surpreenderíamos ao saber que nem no Rio e em qualquer outro lugar do país se fazia algo do gênero. Só pra esclarecer, a produtora do Circo, Maria Juçá, felicíssima com o sucesso do evento, disse que a produção pagaria os danos com os instrumentos. Ainda bem!

A partir daquele show, o Stress e seu primeiro LP tiveram uma divulgação muito grande. Vários fanzines (xerocados) e revistas de renome (Som Três/Livro Negro do Rock) publicaram resenhas elogiosas sobre aquela obra. Mais tarde ela viria a ser o nosso documento mais importante, o “atestado de pioneirismo”.

Seria um grande erro não lançar esse disco, como relutamos no início. Hoje, 30 anos depois, entendemos que ele foi vital para a história do metal brasileiro, pra todas as bandas que vieram a se formar e a gravar metal depois dele. Devemos tudo a essa obra.”

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