Publicado em 09/02/2013 às 05:05

Morrissey entrou pro meu Big Brother pessoal

Acho que TUDO o que acontece no mundo está registrado de alguma forma atualmente.

Escrevo isso porque estava eu dando uma corrida por alguns vídeos e eis que encontro na íntegra um dos shows mais marcantes que já assisti, Morrissey, em 2007, em Los Angeles. (Certa vez pediram pra escrever sobre os shows da minha vida e este texto aqui atesta.)

Preciso falar a verdade. Na real não é o show da noite que fui – Morrissey estava fazendo 10 datas seguidas no Hollywood Bowl, e assisti à primeira apresentação. Sei lá qual das 10 é a que encontrei. Mas, caramba, dá (quase) no mesmo.

Segue abaixo a íntegra do show. E um pouco mais abaixo texto que fiz sobre o show, com tintas da época.

Morrissey - Live at the Hollywood Bowl (Junho de 2007) por luizcesar no Videolog.tv.

Morrissey – Live at Hollywood Bowl (2007)

Está pra nascer alguém com tanto domínio dos três elementos de um show – música, platéia e palco - quanto Morrissey. Mick Jagger? Bono? Estão ali, mas bastam os primeiros acordes de “Satisfaction” ou o ratatá de “Sunday Bloody Sunday” para os estádios os carregarem de cavalinho nas costas. Com Morrissey a música é igualmente excelente, e ele a conduz, junto à performance de palco e soberania sobre a platéia como se estivesse a brincar com um ioiô – joga para cima, para baixo, para frente e para os lados, brinca, sempre tendo a correia atada ao indicador, sob seu domínio pleno. Tamanha segurança que lhe permite fechar o Hollywwod Palladium, casa para lá seus 3.500 espectadores, em Los Angeles, por 10 noites. Cada noite, um set-list diferente, mas o do debute foi impagável.

Com o relógio afiado em 21h, começa uma projeção em uma cortina branca, simples, que cobria a frente do palco inteira. Alguns clipes franceses antigos, da época em que não existiam clipes, mas curtos musicais a preencher a duração da música, um vídeo do New York Dolls, ídolos do ex-Smiths, trechos de filmes antigos e a cortina desaba de repente. A banda toda traja camiseta verde, com uma placa de sinalização de estrada norte-americana onde se lê: “Morrissey 101”. Apenas o líder da trupe veste-se diferente, apesar de obviamente não precisar – entra em cena com uma camisa social em tom pastel de amarelo e calça de lã cinza-chumbo. Dá boa noite e entrega “Stop me if You’ve Heard This One Before” de bandeja, como se pudesse existir melhor cartão de visitas.

A casa não está realmente lotada, o que permite que qualquer um se aproxime do palco sem maior empurra-empurra. O som é absurdamente alto, e mesmo assim cristalino. As cerca de 2.500 pessoas presentes nesta estréia são devotas, urram ao final de cada música. Com Smiths e Morrissey parece não haver meio-termo – ou você é devoto ou não dá bola (não é o caso de música a se odiar). Em “All You Need is Me”, uma fã invade o palco aos pulos e o cantor não percebe sua aproximação até que ela se enrosca em seu pescoço e rouba um beijo na boca. Morrissey passa o restante da canção limpando os lábios e reclamando, sorrindo: “Disgusting”.

Após “London”, ele troca a camisa, ensopada, por uma rosa-salmão e pergunta à platéia se alguém tem alguma pergunta a fazer. Um fã, sem muita criatividade, recebe o microfone e diz que o ama e se ele ama da mesma maneira tocar para seus admiradores: “Não é óbvio?”, responde, gesticulando para que o baterista dê a deixa com as baquetas para “Billy Budd”. “Bom, esta é a resposta”, diz o cantor ao final. Após “Why Don’t You Find Out For Yourself”, ele entrega novamente o microfone para uma fã, que lhe devolve com uma carta (ou algo assim) e diz: “Isto é desta minha amiga, que veio do Japão só para te ver”. E completa explicando do que se trata a “carta”, com um termo japonês. Ele recebe, sorri e responde que a única coisa que conhece de cultura japonesa é (teatro) Kabuki. Fica brincando com a palavra durante “Stretch Out and Wait”.

Mas Steven Patrick Morrissey é um senhor, próximo já dos 50 anos (tem 48) e não tem a mesma agilidade dos tempos de Smiths. O rosto já meio marcado contrasta com o corpanzil sólido, que ele contorce de maneira estranha, como se tivesse alguma dificuldade em coordenar o que o cérebro determina e o que o tronco decide fazer. Principalmente nas músicas mais agitadas, como “First of the Gang to Die”, hit recente. Mas com a voz ele faz o que quer. E canta com ares de canastrão, pingando tintas de cores vivas de emoção. Em “Let me Kiss You”, quando diz “pense em alguém que você admira fisicamente”, rasga os botões da camisa e a arranca qual um gogo-boy.

“Nós nascemos, nós morremos, não se sabe por quê. Mas no meio de tudo isso, existe...”, e apresenta cada integrante do conjunto antes de “In the Future When All’s Well”. Introduz uma música nova, “One Day Goodbye Will be Farewell”, emenda com “Dear God, Please Help Me” e fecha a apresentação com outra célebre dos Smiths, “How Soon is Now”. Após breve intervalo e todo aquele mise en scéne de backstage, voltam todos (inclusive o próprio) trajando camisetas do Chivas USA, time de futebol de Los Angeles da comunidade mexicana, rival do Los Angeles Galaxy, do pop-soccerstar David Beckham. “Nós fazemos qualquer coisa para sermos populares”, brinca meio sem jeito o cantor ao microfone, e fecha a apresentação de exatos 90 minutos com “Irish Blood English Heart”, trocando English por America no trecho “The English are sick to death of Labour”.


Boa noite e ponto final. Morrisey has left the building, afinal ele tem mais nove noites dessas pela frente.

Set-list do show do vídeo
Live at the Hollywood Bowl. June 2007.

Intro
01 The Queen Is Dead 00:37
02 The Last Of The Famous International Playboys 04:38
03 Ganglord 08:30
04 The National Front Disco 13:20
05 Let Me Kiss You 18:07
06 All You Need Is Me 23:08
07 The Boy With The Thorn In His Side 26:48
08 Irish Blood, English Heart 31:04
09 Disappointed 34:19
10 I've Changed My Plea To Guilty 37:35
11 Everyday Is Like Sunday 41:19
12 In The Future When All's Well 45:24
13 I Will See You In Far Off Places 49:22
14 Girlfriend In A Coma 53:52
15 First Of The Gang To Die {não tá sincada}
16 I Just Want To See The Boy Happy 1:00:30
17 You Have Killed Me {não tá sincada}
18 That's How People Grow Up 1:07:08
19 Life Is A Pigsty 1:10:15
20 How Soon Is Now 1:19:02
21 Please, Please, Please Let Me Get What I Want 1:26:40
22 Your Gonna Need Someone On Your Side 1:29:33
23 There Is A Light That Never Goes Out 1:34:16

Comente

"Morrissey entrou pro meu Big Brother pessoal"

9 de February de 2013 às 05:05 - Postado por Luiz Cesar Pimentel

* preenchimento obrigatório



Digite o texto da imagem ao lado: *

Política de moderação de comentários:
A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro pelo conteúdo do blog, inclusive quanto a comentários; portanto, o autor deste blog reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Não serão aceitos comentários anônimos ou que envolvam crimes de calúnia, ofensa, falsidade ideológica, multiplicidade de nomes para um mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal / familiar a qualquer pessoa. Comentários sobre assuntos que não são tratados aqui também poderão ser suprimidos, bem como comentários com links. Este é um espaço público e coletivo e merece ser mantido limpo para o bem-estar de todos nós.
Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009- Rádio e Televisão Record S/A
exceda.com