lolla Foojapalooza (ou como os eventos musicais no Brasil estão afundando)

Lollapalooza: afinal, pra que ir pra Bonito?

A pessoa paga R$ 350 (sério, R$ 350. 10% da população brasileira tem que trabalhar cinco meses para ganhar esse valor) para ir em UM dia de evento e o mínimo que se espera é ter um conforto como se as apresentações fossem na sala da sua casa. Mas a gente é tão bundão no Brasil que aceita na boa coisas como:

- duas horas de fila caso você tenha comprado ingresso para o Lollapalooza pela internet para retirá-lo na porta do evento;

- iguais duas horas (dados que a própria organização do evento divulgou) caso quisesse comprar ingresso na hora;

- lamaçal digno da época de chuvas no Pantanal;

- fila imensa se você tivesse sede, fome ou vontade de ir ao banheiro.

Escrevo com propriedade porque vi tudo isso. As duas primeiras in loco.

A situação é tão bizarra que fui credenciado para o festival, retirei a credencial durante a semana (tá, foi o motoboy que retirou), cheguei lá e fui barrado, porque teria que pegar uma pulseira até 17h e eram 17h15 (nem sabia que teria outra função após fazer pedido de credenciamento, preencher tudo o que pediram, receber aviso e ir retirar o crachá). Mas se até o organizador do Lollapalooza, Perry Farrell foi barrado...

Rachei um táxi com amigo para chegar. Tremendo cidadão consciente, certo? Errado. O táxi ficou parado um bom tempo na chegada, pois as filas começavam e não tinham fim – atravessavam a avenida. Meu amigo teria que encarar uma para retirar o ingresso que comprara pela web, e marcamos de nos falar quando conseguíssemos entrar. Aí resolvi fazer o que não vi jornalistas fazendo – ver qual era a real que o público enfrentava. (As resenhas que você vê por aí só citam as internas. Ao menos as que vi.)

Comecei a tentar acompanhar uma fila e não tinha fim. Perguntei para umas pessoas e estavam lá havia mais que as duas horas “divulgadas”. Molecada bebendo cerveja, tudo era festa.

Voltei e fui para a entrada de imprensa. Tentei saber com o povo das camisetas de “Produção”, mas ninguém soube me informar. Fui tentando a sorte e claro que era o portão 1, mais distante.

Cheguei, tinha uma grade, mostrei a credencial, me deixaram passar e dei dois passos lá até que fui abordado:

- Onde você vai?

- Entrar?

- Entrada de imprensa fechou.

Tentei argumentar, mas o cara chamou umas cinco outras pessoas que conseguiram me dizer não de cinco maneiras diferentes. E se tem uma coisa que me recuso é ser coadjuvante de síndrome de poder temporário – aqueles caras que se acham no comando. E por comando, entenda-se dizer não ou “recebo ordis”. Virei as costas e fui embora.

lollafila Foojapalooza (ou como os eventos musicais no Brasil estão afundando)

Para comprar algo, fila

Aí lembrei que nos últimos 10 anos fui a diversos festivais fora. Grande parte das vezes, pagando (para um dos principais festivais do mundo, o Reading, na Inglaterra, quem quisesse comprar ingressos para os três dias pagava 175 libras. E via uma tonelada de bandas. E era bem tratado. E comia quando quisesse. E bebia quando quisesse. E tinha banheiro para todo mundo).

Quando saí, fiquei assumindo a culpa – pensando que já tinha passado da idade de ir nesse tipo de evento. Mas não é isso. Esse é o jogo dos caras – ou jogam com o fato de que você é jovem o bastante para aceitar qualquer coisa (como as descritas acima) ou você já não tem mais idade para isso.

Aí fico pensando em tentar fazer com que o gosto musical das minhas filhas vá para a MPB, ou algum gênero onde você vai para lugares mais vazios, cômodos. Pois não quero que elas sintam vontade de se divertir e sejam tão maltratadas assim.

Dá para dizer que o Lollapalooza é um festival único. Com direito a tudo o que essa palavra significa.

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