Simplesmente parem de culpar música e seriados por suicídios

o casal que morreu em hotel em SP

Em 1985, dois garotos, de 18 e 20 anos, passaram uma noite bebendo e usando não especificadas drogas, voltaram para a casa de um deles, colocaram o “Stained Glass”, do Judas Priest na vitrola (ouvia-se somente vinil ou fita cassete na época) e resolveram dar um tiro na têmpora cada. Um morreu, outro sobreviveu para assistir dali a cinco anos o julgamento do grupo inglês por ter "enviado mensagens subliminares e serem os culpados pelas tentativas bem e mal sucedidas de suicídio".

Ozzy Osbourne igualmente foi para o banco dos réus, com a sua “Suicide Solution”. O termo "solution", no caso, significa "mistura" e a referência é alcoolismo: “Wine is fine but whiskey's quicker/Suicide is slow with liquor/Take a bottle and drown your sorrows/Then it floods away tomorrows”, e foi feita quando o vocalista do AC/DC à época (início dos 80), Bon Scott, alcoolatra, morreu após entrar em coma alcoólico.

Foram inocentados. Por bom senso. Se você não for o, sei lá, Charles Manson, simplesmente não fará uma obra de arte com a intenção de matar alguém.

Se estas despertam tendências obscuras, é porque algo estava adormecido na pessoa. Mas qualquer coisa pode ser gatilho. Da "mensagem subliminar numa música" (aspas necessárias) ao bullying virtual.

Como aconteceu no final de semana em hotel aqui em São Paulo. Um casal, 18 e 19 anos, pegou a pistola do padrasto da menina, um policial aposentado, se trancou no quarto e aconteceu um assassinato seguido de suicídio.

Aí vou ver o noticiário e já começa: “Casal assistiu '13 Reasons Why’ uma semana antes da tragédia”, referindo-se ao seriado fenômeno que tem um suicídio adolescente como fio condutor do roteiro. Os engajados já começam outra campanha: “Feminicídio seguido de suicídio”. Num grande jornal aí tinha menos informação do casal do que links para se buscar ajuda em caso de depressão ou algo do tipo e sinais que podem indicar que o adolescente (principalmente) pode estar nessa estrada.

Não sou psicólogo mas acho que o primeiro passo é justamente não pisar tanto em ovos e tratar com(o) vitimização absurda potenciais casos. Pois de modo geral é um grito por atenção. E quer atenção maior em época de vitrines sociais escancaradas do que vitimizar?

Todos passam por situações.

Na adolescência, quando a regra é se questionar se viver é realmente melhor que morrer (há exceções, claro), uma das minhas bandas favoritas era o Metallica (continua sendo, aliás). A música mais tocante para os fãs como eu falava de maneira escancarada sobre isso e sobre suicídio. Saca só a letra de “Fade to Black” no final deste post. Ninguém que conheço se matou por causa da música.

Não, não estou defendendo uma promoção ou romantização da morte na arte. É justamente o contrário. Defendo o basta à promoção da morte ou suicídio no noticiário, nessa espetacularização que se vale da analogia artística.

Estive no Japão há uns dois anos e uma das matérias que fiz com o Edu Enomoto foi sobre a floresta dos suicidas por lá. É uma área de floresta na base do Monte Fuji onde as pessoas vão para pensar se vale a pena viver ou morrer, acampam e são deixadas em paz. É triste? É. Pra cacete. Mas tudo é tratado com devido respeito e os alertas sensíveis, placas e mensagens que os japoneses passam, tenho certeza que salvaram várias pessoas. Muito mais do que midiaticamente estamos fazendo.

Segue a reportagem abaixo, caso tenha curiosidade.

E a letra da música do Metallica, em tradução livre

Fade to Black

A vida parece desaparecer
Esvaindo-se todos os dias
Me perdendo dentro de mim mesmo
Nada importa, ninguém mais
Eu perdi a vontade de viver
Simplesmente nada mais a oferecer
Não há nada mais para mim
Preciso do fim para me libertar
As coisas não são mais como costumavam ser
Faltando alguém dentro de mim
Mortalmente perdido, isso não pode ser real
Não posso suportar esse inferno que sinto
O vazio está me preenchendo
Ao ponto da agonia
As trevas crescem tomando a aurora
Eu era eu mesmo, mas agora se foi
Ninguém além de mim pode me salvar, mas já é tarde demais
Agora eu não consigo pensar, penso por que eu deveria tentar
O ontem parece nunca ter existido
A morte me recebe calorosamente, agora eu vou apenas dizer adeus

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