CAPA LP ABAPTISTA LOKI com selo 300x300 “’Loki’ é estupefaciente”, diz Arnaldo Baptista em entrevista exclusiva sobre o lançamento hoje do disco histórico em vinil

Em 1974, Arnaldo Baptista vinha de sete anos de Mutantes que em formato roqueiro (principalmente) mudaram o rumo da música brasileira. Aí se trancou em quarto na Cantareira, arredores de São Paulo, somente com piano e saiu com disco nada roqueiro que alteraria mais uma vez a fuça da MPB, “Loki”. O disco é lançado hoje em vinil, e Arnaldo fala sobre ele com exclusividade abaixo.

Não tem um acorde de guitarra, tem pouquíssimo rock, mas é tão genial que não há roqueiro posterior que não tenha sido influenciado.

Vamos às palavras do autor, que valem mais do que ficar elocubrando aqui.

Sobre o Loki. Está sendo relançado agora, em vinil, e toda a importância da obra já foi dita. Mas eu queria saber, toda essa importância dentro da música brasileira, dentro de uma obra tão importante como a que você tem, como Mutante, como um eterno criador, pessoa criativa, que fez os Mutantes um dos grupos mais importantes da história da música brasileira, qual é a importância do Loki dentro da sua obra?
Para mim a importância é que mostrou o começo da minha independência em relação ao resto dos Mutantes e é nesse sentido que eu estou desde então. É importante para mim neste sentindo.

Entendi, foi o seu primeiro grito de independência, porque até então você era um Mutante e era muito conhecido tão somente pelo seu trabalho dentro dos Mutantes, e de repente eles viram seu trabalho como Arnaldo e o que o Arnaldo poderia produzir. É isso?
É isso mesmo.

Certo. Quando você gravou o “Loki”, você tinha 26 anos. Olhando para trás agora, passados mais de 40 anos, toda a experiência que você ganhou dentro desse período depois que gravou o “Loki”: você faria algo diferente no registro do disco, na gravação, na composição, ou você acha que ele se basta em si mesmo? Que ele é muito bem resolvido e bola para frente?
Atualmente eu não gravaria com o Liminha no contrabaixo. Isso eu mudaria. O baterista é perfeito (Dinho). Naquela época, eu não sabia tocar bateria ainda.

Você preferia, de repente, ter feito todos os instrumentos do “Loki”?
Eu preferiria, mas naquela época eu não sabia tocar bateria ainda. Naquela época eu não conseguiria, mas hoje em dia eu faria sim.

A história diz que ele foi gravado todo de uma vez só, todas as músicas foram gravadas em um take só.
É isso. Isso é interessante, porque de acordo com o meu passado com o Liminha, ele queria que a gente fizesse um som com mais peso, com jazz, tudo elaborado, milimetricamente e eu não queria nada disso, eu queria improvisado. Então a gente acabou improvisando e foi de acordo com o que cada um queria, no total foi o que vingou. Eu adorei assim.

E essa era a intenção desde o princípio? Gravar ele em um take só, de uma maneira quase improvisada? É meio o que o Bob Dylan fez em “Blonde On Blonde”. Ele pegou as músicas e falou para os músicos “Olha, vocês me seguem, essa música é em ré”. Era mais ou menos isso?
É, era mais ou menos isso! A gente não tinha planejado, a gente não falou que ia ser tocado e gravado de cara. Mas foi assim que aconteceu, foi uma espécie de improviso meu. O Liminha até falou para mim, “Arnaldo, tem que fazer de novo, tá muito Sérgio Mendes”. E eu falei “não, deixa assim!”.

O disco tem 33 minutos. Você consegue olhar para ele como se não fosse uma criação sua, como se você não fosse o protagonista do disco, e falar o que você acharia do trabalho se não fosse você quem tivesse composto? Olhando de fora.
Sim. O que eu acharia? Eu acharia ele estupefaciente. (risos)

Podemos dizer que era a obra que você queria fazer, a obra pela qual você queria ser conhecido?
Exatamente. Nesse sentido, a música “Loki” é importante para mim porque retrata de uma forma a minha pessoa, então é isso mesmo.

São dez faixas, tem alguma — além da que você acabou de citar — que tem uma satisfação pessoal e poderia comentar? Ou alguma curiosidade em relação a essas faixas?
Sim, essa música que eu toco violão, é importante para mim nesse sentido de independência, dos Mutantes, porque não toquei guitarra naquele LP. Eu não tinha possibilidade, não tinha amplificador, não tinha nada. Mas eu toquei violão em “É Fácil” e eu pude dar adiantamento para o meu lado como guitarrista.

É outra característica do "Loki", ele não tem uma nota de guitarra, é tudo violão.
Exatamente.

Seus irmãos, um é um grande Luthier e o outro é guitarrista, eles não ficaram bravos com você por isso, por essa negação a guitarra no “Loki”?
Ah, sim. Meu irmão mais velho adora amplificador digital e eu odeio, prefiro usar o valvulado. Os dois adoram guitarra Fender e eu prefiro Gibson. Então não é totalmente de acordo.

loki 180 contra capa 300x300 “’Loki’ é estupefaciente”, diz Arnaldo Baptista em entrevista exclusiva sobre o lançamento hoje do disco histórico em vinil

Eu acho que, em todo o processo do “Loki”, se a gente colocar uma pessoa que merece uma menção especial, seria o Rogério Duprat. Você acha que ele foi importante ou tem mais outras pessoas que foram importantes no processo?
Você tirou isso da minha mente, porque o Duprat foi bem importante para mim. Sempre tem um ou outro, mas foi o Duprat foi perfeito, porque eu chegava com um tipo de pergunta para ele, ele traduzia e sabia o que eu estava pedindo, ele já sabia o que fazer. Para mim é interessantíssimo, porque me completou.

Foi uma relação meio cósmica que você teve com ele.
Isso mesmo, é interessante porque a gente compartilhou isso.

Maravilha. E para finalizar. Tem alguma coisa do “Loki”, que é um disco tão simbólico, ele já foi analisado, virado do avesso.... Tem alguma coisa que nunca foi contado sobre o “Loki” que você poderia contar?
Ah, eu gostaria de deixar isso em suspense, que cada pessoa se encontra em um sentido de descobrimento, de pesquisa, em abordar o “Loki” da própria maneira. Eu acho que a coisa que prende mais atenção é o fato disso, de ele ser uma espécie de pesquisa e descoberta, e cada pessoa se prende em um sentido.

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