Publicado em 18/03/13 às 11:47
Pela aposentadoria compulsória de Caetano Veloso
Na semana passada, ele fez uma comparação entre gostar de Justin Bieber hoje e de Beatles em 1963, quando começaram (a fazer sucesso), dizendo ser a mesma coisa. Não é exatamente por causa dessa infelicidade o título deste post. Mas foi o gatilho. Porque sei (ou prefiro imaginar) que Caetano não acredita nisso. Trata-se apenas de mais uma ação do cantor e compositor baiano para manter-se de alguma forma relevante na mídia.
Artifício que vem utilizando desde que sua obra criativa começou a escassear. Como ele supre a necessidade ególatra de relevância, tanto faz para quem quer que seja. Só que ao usar a crítica “inteligente” (aspas necessárias), que ele sabe que come em sua mão a qualquer pio, ocupa espaço que não lhe é merecido. Que é de outro.
Sua obra não serve como peso de papel desde 1991, quando lançou Circuladô. Desde então, sapecou nove discos ao vivo. Cercou-se de banda indie, para dar uma envernizada no som, mas nada que promove musicalmente para em pé desde então – pegue os mais recentes, Cê, Zii e Zie e Abraçaço, e conteste se for capaz. E de tempos em tempos mantém a cadeira cativa na mídia à base de cutucões e farpas (Lobão, Tom Zé, Gilberto Gil...), em fotos dúbias, como na capa da Rolling Stone, ou com frases polemicamente arquitetadas como essa sobre Beatles e Justin Bieber.
Nada que enobreça a obra anterior do compositor. Sim, apesar de não ser ardoroso admirador da MPB, ele é meu artista favorito do gênero. Seus discos, principalmente nos 1970, valem a admiração mundial que conquistou – Tropicália, Transa, Joia, Araçá Azul, Doces Bárbaros, Uns, Outras Palavras (os últimos já nos 80). Caetano tem uma Obra, com ó maiúsculo. Sei que nem se eu vivesse 127 encarnações como crítico musical (coisa que não sou nem nesta) chegaria aos pés de contribuição para a música mundial que ele teceu no final dos 60, 70 e 80.
Mesmo assim não dá para se furtar de outra comparação (já que ele gosta tanto disso). Acaba de sair o disco novo do David Bowie, The Next Day. O cantor, cinco anos mais novo que Caetano, ficou sumido por quase dez anos. Uma década sem que ninguém ouvisse falar dele, sem que lançasse nada, nem sequer uma entrevista para dizer que estava vivo. Nos últimos dois ou três, convocou amigos e pediu sigilo absoluto, e no dia de seu aniversário neste ano, 8 de janeiro, soltou o primeiro single de um disco delicioso que montou no sabático.
Ele está preocupado com a música. Ponto e vírgula. Caetano, não. Ponto-final. Por isso a aposentadoria de Caetano o salvaria. Ao menos, a sua própria obra.
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