Publicado em 22/07/2012 às 07:48

Faz 25 anos que não lançam disco como este

Rolling Stone cover Faz 25 anos que não lançam disco como este

Appetite For Destruction, do Guns n´Roses, faz 25 anos este final de semana. Não vou ficar fazendo lista mental, mas é pelo menos um dos cinco grandes álbuns do rock deste último quarto de século.

Vendeu 18 milhões de cópias, emplacou quatro músicas no Top Ten, da Billboard e, principalmente, é daqueles discos que você ouve da primeira à última faixa sem precisar pular nada. Vai de Welcome to the Jungle passando por It´s So Easy, Paradise City, Nightrain, Mr. Brownstone e Sweet Child o´Mine

O que sobrou do disco foi usado no Use Your Illusion, 1 e 2, e a banda foi desmoronando na heroína nos anos seguintes. Dos membros originais, o baterista Steven Adler não sobreviveu à gravação de Use.... Foram saindo na sequência o guitarrista Izzy Stradlin, Slash até que o baixista Duff McKagan deixou Axl sozinho com a piada Chinese Democracy na mão até 2008, quando foi lançado.

Piada porque até o refrigerante Dr. Pepper, após mais de década e meia de promessa de lançamento do disco, anunciou em 2008 que, se o disco saísse aquele ano, daria um refrigerante para cada americano. O disco saiu. A empresa não cumpriu a promessa. Mas ninguém ligou, pois Chinese... é bem fraquinho.

Ouça Appetite... para comemorar o aniversário e sempre. É tudo o que você precisa.

Abaixo o clipe da música mais famosa do disco.

 

Guns n´Roses - Sweet Child of Mine por luizcesar no Videolog.tv.

Publicado em 17/07/2012 às 11:54

A falta que Joe Strummer faz

Vai fazer 10 anos que o cara morreu. Não bastasse o The Clash, o cara seguiu fazendo música boa até o final da vida, como mostra este vídeo de 1999, gravado no Roseland Ballroom, em Nova York.

Só o set-list já arrepia, misturando Clash com canções posteriores:

01. Safe European Home
02. Yalla Yalla
03. Rudie Can’t Fail
04. Tony Adams
05. White Man in Hammersmith Palais
06. London Calling
07. Tommy Gun
08. X-Ray Style
09. White Riot

Qualidade está bem boa. Dá pra sentir o cara fazendo o teto do lugar suar. Coloca um fone de ouvido e curta por 45 minutos. Vai te fazer bem. Como ele continuaria fazendo caso estivesse vivo.

Joe Strummer and the Mescaleros - ao vivo no Roseland Ballroom, Nova York por luizcesar no Videolog.tv.

Publicado em 16/07/2012 às 11:51

Abriu o hotel mais legal do mundo, Yellow Submarine

Neste final de semana, na Liverpool dos Beatles.

Custa entre 150 e 350 libras se hospedar. Se eu tivesse chance e a grana, pagaria até mais.

yellow1 Abriu o hotel mais legal do mundo, Yellow Submarine

yellow2 Abriu o hotel mais legal do mundo, Yellow Submarine

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yellow4 Abriu o hotel mais legal do mundo, Yellow Submarine

yellow5 Abriu o hotel mais legal do mundo, Yellow Submarine

Publicado em 16/07/2012 às 11:37

Morrissey e sua eterna depressão

Em 1980, trocar cartas com pessoas de mesmo gosto era um costume. Aqui temos uma de Morrissey para um amigo na depressão escocês.

Os dois se tornaram pen pals (amigos de caneta, troca de correspondência) por meio de anúncio na revista Sounds, e a carta de Morrissey foi escrita no verso de uma foto do ator James Dean, de quem ele é fã (escreveu até um livro sobre o jovem transviado na época).

Três anos depois ele montaria o Smiths.

morrissey Morrissey e sua eterna depressão

Publicado em 15/07/2012 às 06:10

Recomeça hoje o melhor seriado de todos os tempos

Já faz um tempo que as séries bateram por goleada os filmes nos EUA. Breaking Bad, que inicia sua quinta e última temporada hoje, lá fora, é exemplo mais claro disso.

Não há filme que tenha roteiro tão bem amarrado quanto Breaking Bad. Isso chega a um nível que ao final de alguns episódios eu não lembro sequer de ter respirado durante os quase 50 minutos do capítulo.

Um dos trunfos do seriado é ela ser totalmente orgânica.

Resumindo o fio condutor para quem nunca viu, ela trata de um químico genial que, desiludido por câncer pulmonar, emprego de professor que mal e porcamente paga as contas de um filho deficiente e outro por vir, aperta o botão F e decide produzir a melhor meta-anfetamina do mundo.

Essa explicação rasa caminha, claro, para uma série de conflitos, práticos e existenciais. Usar talento e sabedoria para o bem e para o mal, defesa da família legitima qualquer coisa?, como um cidadão tão correto envereda por um caminho ilegal e você continua torcendo por ele...

Quando digo que é orgânica outro ponto salta à vista. Breaking Bad simplesmente não utiliza internet. Nem como muleta. Ainda bem.

Não lembro de qualquer personagem com computador ou tablete ou similar à mão. Isso faz com que tudo seja resolvido no diálogo e na atitude.

Pena que a morte do seriado foi anunciado para ano que vem.

Bom, dá uma olhada na transformação do personagem principal ao vivo em programa na TV americana.

a transformação de Mr. White #breakingbad por luizcesar no Videolog.tv.

Publicado em 13/07/2012 às 05:51

As melhores (e piores) histórias do rock

guitarok As melhores (e piores) histórias do rock

Como não sabia bem o que escrever neste Dia Internacional do Rock sobre um tema tão delicado e vasto e genérico como rock, separei de cabeça algumas de minhas histórias favoritas. Nem vem com: "ah, isso aconteceu em dezembro de 64 e não em novembro", pois escrevo na confiança de minha não tão boa memória.

Elvis, em sua fase gordão com a roupa American Eagle, que simulava quimono de caratê, tinha uma paixão por sanduíche de (anote a receita): bacon frito, manteiga de amendoim e banana amassada. Dizem os que presenciavam os lanches, que ele mandava de 10 a 15 pra dentro.

O Mötley Crüe era o grupo do excesso dos 80. Excesso de drogas, de mulheres, de laquê nos cabelos. Nikki Sixx era o que pegava mais pesado nas famigeradas, até que teve uma overdose de heroína e morreu por dois minutos. Foi reanimado por uma injeção de adrenalina. E no dia seguinte voltou à ativa na agulha.

Entre os produtores, não existe personalidade mais doentia do que a de Phil Spector. Nem o cavalheiro Leonard Cohen escapou de sua loucura. Durante a gravação de “Death of a Ladies Man”, de 1977, Spector apontou uma arma para o peito de Cohen e disse: “Eu te amo, cara”. Ao que Cohen respondeu: “Espero que sim”.

A morte do vocalista do Doors, Jim Morrison, é questionada até hoje. Diz a ex-mulher, Pam, que o encontrou morto na banheira do apartamento em que viviam em Paris. Como o enterro foi na capital francesa e ninguém viu o corpo, nasceu a lenda de que Jim não teria morrido. Mas a melhor história do ex-líder do Doors é de seu casamento em cerimônia pagã com uma bruxa. Troca de sangue e o caramba.

'Mama' Cass, vocalista do Mamas and the Papas, morreu engasgada com um sanduíche. A história é muito boa, pena que não é verdadeira. Havia um sanduíche ao lado da cama onde ela foi encontrada morta em 1974, aos 32 anos. Mas o que a vitimou foi falência cardíaca devido à obesidade.

Onde está o corpo de Richey Edwards, do Manic Street Preachers? Em 1995, aos 27 anos, seus sapatos foram encontrados ao lado de uma ponte onde suicídios eram comuns em seu País de Gales natal. Dono de personalidade doentia, cortou as palavras 4 Real (algo como Pra Valer) em seu braço durante entrevista.

Durante show com lugares (bem) separados para galera e para abonados, John Lennon não resistiu e pediu: “Vocês aí no fundo (galera), vamos acompanhar com palmas. E vocês nos outros lugares (abonados), sacudam as jóias”.

Depois de gravar o lendário “Pet Sounds”, é de conhecimento geral que Brian Wilson, principal compositor dos Beach Boys, pirou. Virou ermitão, recluso, e à base de cocaína por anos. Em 1970, nos bastidores de um show, viu algumas crianças e tentou ser simpático: “Oi, eu sou Brian”. Ao que responderam: “Nós sabemos, somos seus filhos”.

Elvis passou a década de 60 mergulhado no cinema. A ponto de perder a noção de sua realidade (menos famosa) com o cidadão da rua, fã de sua música. Para provar isso, um membro de sua entourage sugeriu passeio na rua. Não reconhecido, Elvis se deu conta e planejou o clássico “Especial de 68”, que marcou sua volta à música.

Gram Parsons era O cara do country alternativo, na mistura do gênero com rock. Morto em 1973, de overdose de drogas em um quarto de hotel, seu corpo foi roubado por um amigo e por seu empresário no Aeroporto de Los Angeles, levado para o local onde fica Joshua Tree, e queimado.

Neil Young sempre teve problemas com gravadoras. Personalidade rebelde, o problema chegou ao ápice em 1984, quando gravou o estranho disco “Trans” e foi processado pela gravadora Geffen “por não soar como Neil Young”.

Marylin Manson, antes de virar esse personagem gótico-sombrio-andrógino era um ator-mirim, o Paul Pfeiffer, do seriado “Anos Incríveis”. Seria uma bela história não fosse boato.

O guitarrista Keith Richards, do Rolling Stones, para se livrar da dependência química trocou todo o sangue do corpo. A história é boa demais pra ser desmentida. Está mais para uma hemodiálise, e o próprio Richards disse que perguntaram tantas vezes para ele sobre se livrar das drogas que ele criou essa história. Mas que ele cheirou as cinzas de seu pai morto, isso é verdade.

Robert Johnson fez um pacto com o diabo numa encruzilhada para fazer sucesso. Só se o diabo for pseudônimo de seu professor, Zimmerman.

Nos loucos anos 1960 e 70 ninguém era mais louco que o baterista Keith Moon, do The Who. Chegou ao auge quando mergulhou em uma piscina com um Rolls-Royce.

Mas uma das minhas favoritas foi contada por Lobão. Ele ficou bem amigo de Nelson Gonçalves, que foi o primeiro punk do mundo. Diz Lobão que Nelson uma época ficou tão viciado em cocaína que sequestrou um boliviano (ou colombiano, não lembro bem a nacionalidade) e manteve o cara em cárcere até que produzisse uns três quilos e tanto da droga.

Publicado em 12/07/2012 às 04:53

Mais um capítulo do livro do heavy metal brasileiro

Na verdade, é o primeiro capítulo, já que o anterior era o prefácio. Segue reprodução abaixo.

Está sendo publicado no portal Wikimetal. E é colaborativo. Ou seja, se tiver contribuição a dar, contando história ou enviando material físico, por favor clique aqui.

Capítulo 1: Nativity In Black

Por Luiz Cesar Pimentel & Wikimetal

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 1970.

Não dá para discutir com essa data. Então, cravemos: Esse é o dia em que o Heavy Metal nasceu, afinal esse é o dia do lançamento do primeiro disco do Black Sabbath, que leva o nome da banda.

A discussão eterna é quem foi o criador do gênero. Argumentos (válidos) pipocam. Mas também não dá para discutir se você mergulhar um pouco mais na questão.

São 37 segundos de um som de chuva de gotas grossas, dramaticamente acompanhada por trovões esparsos e badalar de sino ao fundo. É uma combinação que se torna visual, até que o baixo de Geezer Butler e a bateria de Bill Ward servem de estofo para a guitarra de Tony Iommi extrair a fórceps o Heavy Metal em um dos riffs mais clássicos da música.

Três notas que formam um intervalo musical conhecido como trítono, em efeito dissonante. Tão tensos que na Idade Média era proibida a combinação – “atrai o demônio”, justificavam os religiosos, que batizaram o trítono de “diabolus in musica”.

Tony Iommi não estava nem aí. Sequer fazia ideia disso.

E a letra, composta pelo baixista Geezer Butler, reforçava o clima obscuro.

"What is this that stands before me?
Figure in black which points at me
Turn around quick, and start to run
Find out I’m the chosen one
Oh, no…
Big black shape with eyes of fire
Telling people their desire
Satan’s sitting there, he’s smiling
Watches those flames get higher and higher
Oh, no, no, please God help me.
Is it the end, my friend?
Satan’s coming ’round the bend
People running ’cause they’re scared
The people better go and beware
No, no, please, no.”

image002 300x207 Mais um capítulo do livro do heavy metal brasileiro

A inspiração para a música veio do blues. Black Sabbath, quando era conhecido como Earth, se denominava um grupo de “blues pesado”. Para Butler, a inspiração para a letra veio dos filmes de terror – ele vira filas de pessoas às portas de cinemas para assistirem filmes do gênero e deduziu: “Se as pessoas se interessam pelo tema, vou escrever sobre”.

Quando juntaram todos os elementos acima, formaram o núcleo atômico do metal pesado.
A primeira referência conhecida ao estilo surgiu no romance “Nova Express”, do escritor beatnick William S. Burroughs, em 1964. Um dos personagens do livro ganhou o nome de “Uranium Willy, the heavy metal kid”. Basicamente porque o urânio, como elemento, é um metal pesado.

Quatro anos depois, a cultura pop foi tomada pelo “heavy metal thunder”, da letra de “Born to be Wild”, do Steppenwolf. Mas também era uma referência fora do aspecto musical, ao ronco dos motores de motocicletas.

Como referência musical, a primeira conhecida foi dada pelo célebre crítico Lester Bangs, na revista da qual era editor, “Creem”. Mérito dado, vale lembrar que Bangs detonou o primeiro disco do Sabbath em resenha para a revista que editava, apontando esse como “confuso”, para resumir.

Já entre os músicos, são muitos os que são considerados pais do Heavy Metal. Muitos dizem ser o Led Zeppelin. Ou Deep Purple. Mas eram bandas de rock pesado, sem a combinação de componentes que os elevaria à categoria paterna. O mais próximo que o Zeppelin chegou foi pela obsessão do guitarrista Jimmy Page com o ocultismo e magia negra, que o levou até a comprar a casa do “bruxo” Aleister Crowley (o “Mr. Crowley”, de Ozzy Osbourne). Já o Deep Purple parou nos chapéus de bruxa que o guitarrista Ritchie Blackmore usava à época.

Tanto que um ano antes do lançamento de “Black Sabbath”, o disco, Ozzy ouviu uma cópia do primeiro disco do Led Zeppelin, igualmente homônimo, e perguntou para Tony Iommi:

- “Você viu como é pesado esse disco ?”

Ao que Iommi deu de ombros:
- “O nosso será mais.”

E foi.

Ao custo de 600 libras esterlinas e gravado em dois dias, “Black Sabbath” foi lançado na sexta-feira 13 que abre este capítulo e trazia clássicos como a faixa-título, “The Wizard”, “N.I.B.”, “Behind the Wall of Sleep” e “Evil Woman” (esta, cover do The Crow).

Os quatro integrantes eram da cidade industrial inglesa de Birmingham, todos nascidos entre 1948 e 49, logo após a Segunda Guerra Mundial. Ainda adolescente, Iommi perdeu as pontas de dois dedos da mão direita (é canhoto) trabalhando em uma das fábricas da cidade-natal. Ao se virar para continuar tocando guitarra, inspirado no violonista cigano Django Reinhardt, que tinha apenas três dedos na mão canhota, Iommi criou o estilo pesado, com adaptação de cordas, afinação e ponteiras para os dedos.

Nos Estados Unidos, à ocasião, alguns grupos seguiam a linha do blues pesado igualmente, mas não chegaram a cruzar a linha de gênero. Na igualmente industrial cidade de Detroit (“Detroit Rock City” do Kiss é uma brincadeira com isso, já que a cidade era conhecida como “Motor City”, por conta das fábricas de automóveis) faziam sucesso grupos pesados e violentos como The Stooges e MC5.

O que mais se aproximava era o Blue Cheer, um power trio da californiana São Francisco, formado em 1967 e que debutou em disco no ano seguinte com “Vincebus Eruptum”. A versão pesada de “Summertime Blues” desse disco é a que mais roda conversas sobre ser o primeiro Heavy Metal gravado. Mas, caramba, é “Summertime BLUES”. Ou seja:

- “Foram grupos muito importantes para a cena (Heavy Metal). Mas o estilo de música que faziam era mais pelo volume e pela fúria”, contextualiza com propriedade o baixista do Rush, Geedy Lee.

O lançamento do Black Sabbath chegava em uma hora estranha para a música mundial. O debute chegou ao 8º lugar na parada britânica, em sucesso inesperado. Talvez prenúncio de que tempos difíceis para a música tocavam a corneta.

Em abril daquele ano, os Beatles anunciaram oficialmente a separação. E a partir de setembro de 1970 até o meio do ano seguinte, o rock perdia três de seus principais representantes – Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison, todos vítimas de drogas.

Os anos 1960 acabavam. Os anos 70 prenunciavam, ao lado do Heavy Metal, porém, a época mais evolutiva do rock – foi na década a explosão do rock de arena com Aerosmith, Kiss e Van Halen nos Estados Unidos, o punk dos dois lados do oceano e a música progressiva no meio do sanduíche.

Jimi Hendrix apelidara sabiamente o Heavy Metal de “a música do futuro”.

O “rock” progressivo foi chutado na bunda pelo coturno punk, e porcamente terminou a década em pé. Já o punk teve uma explosão simultânea do meio para o final dos 70 em Londres e Nova York e acabou diluído em hardcore, pós-punk e new wave na virada dos 80. Já o Heavy Metal manteve-se na sombra, onde permanece até hoje, gigante escondido no porão.

A chama permaneceu durante esses anos mais forte na Inglaterra, onde grupos como Judas Priest, Iron Maiden, Def Leppard, Motörhead e Saxon se formaram e engatilharam o que viria a ser o primeiro grande momento do gênero na virada dos 80, o New Wave of British Heavy Metal.

Foi então que o gênero se espalhou virulentamente pelo globo. E ecoou no Brasil.

Aqui, qual no restante do mundo, a paternidade do Heavy Metal é reivindicada e atribuída a muitos grupos. A maioria dos dedos apontam para a Patrulha do Espaço, grupo criado em 1977 por Arnaldo Batista, recém saído dos Mutantes. Mas vale o mesmo princípio quando da criação do gênero – Patrulha era um grupo de rock. Pesado. Mas não possuía cabeça, tronco e membros de metal.

A primeira manifestação do Heavy Metal como um gênero no país, em fator aglutinador, veio com o lançamento de um fanzine, que circula como revista até hoje, “Rock Brigade”, em Março de 1982, em São Paulo.

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Publicado em 11/07/2012 às 05:49

Entrevista com Pitty e Martin (Agridoce)

agridoce Entrevista com Pitty e Martin (Agridoce)

Conheço Martin e Pitty há década, desde que ela morava no Rio, com seus colegas de Pitty, e ele, em Salvador, com os irmãos do Cascadura. O tempo os uniu como banda e agora os separa do quarteto, como duo – Agridoce. Experiência sonora despretensiosa que começou com encontros nos sábados à tarde na casa dela para verem o que saía quando experimentavam terrenos novos.

Por terrenos novos, entenda ela ao piano e voz e ele à guitarra ou violão.

Foram se divertindo até perceberem que tinham repertório na mão, que após período enfurnados em um sítio (a casa, a que ela se refere) virou o lindo, lindo disco de estreia. Talvez o melhor da cena brasileira do ano que passou.
Agora lançam DVD ao vivo e experimentei assistir a ele como se não soubesse nada da trajetória deles como Agridoce para poder fazer a entrevista abaixo.

O mais estranho, visto de fora, é que os dois foram criando uma musculatura dentro de carreira no rock. Em tudo – das tatuagens até postura no palco e posicionamento com a mídia. Do que vocês precisaram se despir para encarar o mundo como Agridoce?

Pitty - De todos os estereótipos, expectativas e projeções externas. Se despir do medo de olhar pra dentro e deixar a coisa fluir sem racionalizar demais sobre o que estava acontecendo.

Martin – Das expectativas de corresponder a essa musculatura, mas não houve um esforço da nossa parte para se despir disso, foi tudo muito natural uma vez que essa perspectiva que temos dentro do Agridoce sempre existiu, só não tinha sido exercida como é agora.

(Para Pitty) O nome da banda é Pitty, a front(wo)man é Pitty, as letras são Pitty, composições, roteiros de vídeo, praticamente todas as decisões. Pitty, você topou dividir igualmente a responsabilidade agora por quê? 1. Se sente menos segura, tendo que encarar gênero e instrumento novos? 2. Como é projeto novo, quis que toda logística fosse diferente? 3. O processo direcionou para isso? 4. Nenhuma das alternativas

Pitty - O projeto direcionou para isso. Nasceu assim, aconteceu assim. E é bom ter com quem dividir as coisas dessa forma. Na minha banda principal eu sempre tive esse delírio de que um dia ia conseguir uma divisão de tarefas, peso e visibilidade; mas a coisa não funciona desse jeito na prática. Por mais que eu tentasse estar sempre com os meninos em fotos e vídeos e mesmo internamente adotando uma política democrática nas decisões artísticas, a demanda e a responsabilidade maior caíam sempre no meu colo- acho que por tudo isso que você citou; é meu nome, estar na "linha de frente" com o microfone na mão, ser compositora. Mesmo no Agridoce ainda é uma batalha para nós deixar claro que é uma dupla, de peso igual. O trabalho constante é os dois responderem entrevistas, eu não aparecer sozinha, firmar essa ideia do duo a cada passo; se deixarmos solto já percebemos que caminha para o lado de "disco acústico de Pitty", ou a divulgação do show apenas como "Pitty". Batemos nessa tecla o tempo todo para deixar claro o que a coisa é. Entendo perfeitamente que isso acontece porque as pessoas já me conhecem e ainda não conheciam tão bem o Martin, meu nome acaba tendo mais peso e é natural que queiram usar isso. Aos poucos, tomando esses cuidados que citei, as pessoas vão entendendo e se acostumando com o fato do Agridoce ser uma dupla.

(Para o Martin) – Você era o guitarrista, e dividia a bronca com baixista, baterista. Agora é você e você – frontman. Como é isso?

Martin – É divertido, novo, empolgante e desafiador. Já tinha experimentado isso numa escala bem menor com o Martin e Eduardo mas agora a coisa vem em outra proporção. Tem sido muito bom e tenho certeza de que vou sair dessa experiência com uma bagagem artística e estratégica muito mais rica. Tanto lidar com o público tão de perto quanto participar das decisões empresariais têm sido a maior e melhor escola que já frequentei.

Vocês falam que começaram meio na brincadeira. Mas com o status de vocês na música, obviamente iriam querer gravar qualquer espirro de vocês. Vocês tinham noção disso? Sem falsa modéstia, por favor

Martin – Literalmente não. Sempre soube que um projeto que envolvesse uma artista do calibre de Pitty chamaria a atenção da mídia e dos fãs mas sempre acreditei que o caráter singular desse projeto se distinguiria dessas expectativas. Temos uma resposta muito distinta nesse trabalho da que tínhamos como banda Pitty, as reações são muito mais específicas, sem um caráter tão explosivo e imediato. Ao contrário do que muita gente diz acho que fizemos um dos discos mais "difíceis" da nossa carreira.

Após, sei lá, dez anos de carreira (é isso, né? Não estou contando Inkoma), já existia uma lógica de reação ao que vocês faziam – público com características e personalidade definidas, turnê, até mesmo reação de mídia (um discurso meio que pronto para qualquer nova ação de vocês). Aí muda tudo – muda dinâmica do grupo, muda público (imagino), muda som...Ou seja, tinham uma estrada conhecida (com seus buracos e curvas e retas), agora encaram uma nova. Como está sendo essa nova e o que mais os surpreende/u?

Pitty - Havia esse desejo de experimentar uma estrada nova, sair da zona de conforto e se arriscar. Tem sido ótimo observar essas mudanças ao redor, especialmente de público e de dinâmica de palco. Reação de mídia considero dúbia; ao passo que alguns realmente pararam para ouvir como uma coisa nova, sem preconceitos, outros ainda continuam atrelados ao discurso pronto e à prepotência de achar que já sabem tudo sobre nós. Mas abriram-se novas janelas, e isso é ótimo. O que mais me surpreendeu foi chegar em palcos populares, de Viradas e festivais e perceber gente interessada e atenta mesmo que não soubesse exatamente o que era aquilo. Gente a fim de prestar atenção, e depois decidir se gosta ou não.

As músicas são de uma beleza em melodia, harmonia, letras irretocáveis. Com todos que falei é meio que unanimidade o bom gosto que vocês atingiram. De onde sacaram essas cartas , pois é a primeira vez (aparente) que arriscam esse caminho de composição?

Pitty - Não sei bem. Da alma, da despretensão, do despojamento, talvez. Fico feliz de saber que bate dessa forma do outro lado. Só havia, na hora de compor, a liberdade de fazer tudo que desse vontade. E resultou em coisas bem particulares, pensamentos e sensações muito íntimos daqueles que você só compartilha com quem você confia. Talvez seja a coisa de fazer música sem ter uma consciência plena de que aquilo será escutado por muita gente. Não sabíamos disso na época, e era só nosso mundinho particular. Mas pensando bem, essa liberdade talvez não seja a única responsável já que ela sempre existiu em todos os discos. Acho que pode se somar aí o tempo, a idade, que vai engrossando o repertório de referências. Na gravação, como já sabíamos que seria lançado e as pessoas iam escutar, as escolhas de timbres, texturas e arranjos foram conscientes; então talvez o tempo seja o cara nesse sentido de te dar mais experiência para fazer escolhas.

Martin – Apesar de já termos algumas parceiras anteriores a coisa nunca se deu tão colaborativamente quanto no Agridoce. Todo o processo foi muito desafiador e a cada momento aprendemos algo novo, seja sobre compor, arranjar ou gravar. Acredito que uma parcela muito significativa desse resultado se deve a esses desafios e a essas dinâmicas novas a que nos permitimos. O Agridoce sempre foi também um ambiente muito acolhedor e isso gera uma sensação de segurança e liberdade que abriu perspectivas criativas de nós dois individualmente. Eu fiquei muito surpreso e encantado com a Pitty que desabrochou ali.

Qual é a história favorita de vocês do Agridoce até agora?

Pitty - Ih, tem várias. Da gravação gosto da história de "130 Anos", que nasceu lá na casa. Estávamos fazendo um som na beira da piscina e era um dia de sol, de repente Rafael desceu com o gravador de rolo e ela acabou sendo registrada ali mesmo, com um microfone, em apenas um canal. Por isso os passarinhos e o barulho de água; isso tudo vazava nesse único microfone. Gosto também da história da bateria inventada de "Rainy". Queríamos uma batida nessa música, e não tínhamos uma bateria. Já havíamos usado samples à beça. Ficamos experimentando até encontrarmos a solução que acabou ficando: uma espécie de "air drums" com uma pandeirola batendo na perna como caixa, um guizo nas mãos como chimbal e uma gaveta como bumbo. Mas a mais inesperada pra mim é a história de "Beethoven Blues"...

Martin - O que poderia ser considerado o nascimento oficial do Agridoce. Cheguei na casa dela umas 14h00 e passamos o resto do dia entre fazer um rango, arranjar a música, beber, gravar, conversar, mixar e por volta de 00h00 postamos "Dançando" no Myspace que tínhamos acabado de fazer (tooosco...). Foi uma experiência muito gratificante, essa sensação de autonomia e autosuficiência, e acredito que ambos saímos tranformados e de certa forma viciados dali.

Pergunta inevitável: Agridoce tomou o lugar da (banda) Pitty, pretendem conciliar os dois, pretendem retornar à banda ou o quê?

Pitty - Não acho que ninguém tomou o lugar de ninguém, pra mim são duas coisas bem diferentes e cada uma tem seu espaço na minha necessidade interna. Pretendo deixar rolar, penso em gravar disco novo de rock com a banda assim que tiver repertório e vontade. Acho possível conciliar, mas nem sabemos se vamos fazer outro disco do Agridoce, ou quando... é deixar as coisas irem acontecendo mesmo.

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