Avenida Brasil

Enquanto isso, num apartamento de classe média em algum lugar do país, em alguma avenida Brasil a moda vai se alastrando.
A esposa se prepara para mais um dia de trabalho e o marido, desempregado, sai do banheiro com uma toalha de rosto na mão e um pouco de creme de barbear debaixo da orelha esquerda.
- Você anda se barbeando todo dia?
- Sempre fiz isso.
- Mas não com tanto capricho. E esse perfume?
- Meu creme pós barba. O de sempre.
A mulher empurra o marido para cima da cama.
- Precisamos ter uma conversinha.
O marido esfrega a toalha pelo rosto a procura de resquícios do creme de barbear. Passa em todos os cantos do rosto, menos atrás da orelha esquerda onde sobrou um pouquinho do creme.
- Eu sei que você anda me traindo.
O marido encolhe os ombros e arremessa a toalha em direção à porta do banheiro. Erra o alvo. A toalha bate no batente da porta. A esposa recolhe a toalha do chão e a leva ao banheiro à medida que vai dizendo:
- Todo mundo sabe que homens são infiéis. Você tem vários amigos que separaram por que foram pegos traindo suas esposas.
O marido, sentado na cama, olha para a esposa com ar perplexo:
- Você tá maluca? O que isso tem a ver com a gente?
- Tudo a ver! Duvido que você não soubesse sobre as puladas de cerca de seus amigos.
- Tá bom, do Paulinho eu realmente sabia, mas o que isso tem a ver com a gente?
- Do Paulinho, do Betão, do Madureira, do Carabina... Não é possível que vocês não conversassem sobre isso.
- Que conversa maluca!
- Conversavam ou não?
- Às vezes.
- Então, conversavam! Não é possível que você fosse o único santinho da turma.
O marido passa a mão no rosto para certificar que a barba esteja bem feita e ergue a sobrancelha direita enquanto mira sua esposa que prossegue com a acusação:
- Nunca engoli aquele apartamento que você mantém lá no Guarujá.
- Esse apartamento de novo, não. O marido se levanta da cama e vai apressado em direção ao banheiro. Chegando lá não sabe o que foi fazer no banheiro com tanta pressa. Olha no espelho e nota o creme de barbear atrás da orelha. Procura pela toalha que a esposa atirou no cesto de roupa suja. Não a encontra e retira o creme de barbear com a mão mesmo.
- Aquele apartamento não é meu. Já falei um milhão de vezes.
-Tem toda cara de matadouro. De certo você empresta para as fugidinhas de seus amigos. Isso quando a fugidinha não é sua.
O marido procura a toalha para limpar a mão suja de creme de barbear. A esposa percebe, mas não avisa onde está a toalha.
- De onde você tirou essa ideia maluca?
- Todo mundo sabe que homens são infiéis. Por que com você seria diferente?
O homem limpa a mão na calça do pijama e vai em direção ao armário pegar uma muda de roupa limpa.
- Outro dia ouvi sua conversa pela extensão aqui do quarto.
- O que? Você anda ouvindo minhas conversas de telefone?
- Vi também sua caixa postal. Quem é Rita?
- Minha prima. Rita, minha prima.
- Chamar a amante pelo nome da prima. Álibi perfeito.
- Eu não acredito no que estou ouvindo.
- Eu também não. Você não percebe que todas as evidências indicam que você tem uma amante.
- Quais evidências?
- Esse apartamento na praia, os recados no celular, sua conversa ao telefone, todos os seus amigos... Não é possível que você seja o único santinho da turma.
O marido vai se trocando.
- Olha, tenho uma entrevista de emprego, tenho toda chance do mundo de pegar essa vaga e não vou me atrasar por causa dessa conversa mole.
A mulher apanha a bolsa na penteadeira e para na frente do marido.
- Você pode ir, mas não volte. Nossos filhos já estão sabendo.
- Sabendo do quê?
- Que você tem uma amante!
O marido senta-se na beirada da cama.
- Você falou essa história absurda para as crianças?
- Para as crianças e pra sua mãe. E já avisei o porteiro que você não está mais autorizado a entrar na garagem. Sai hoje e não volta mais.
- Você deve estar brincando.
- Pode ter certeza que não. Não tenho nada a temer.
- Você inventa uma história e sem prova nenhuma sai me condenando por aí. Você está completamente maluca!
- Maluca não, estou antenada. É absolutamente impossível que você não esteja me traindo. Tudo indica. Tudo! Isso sem falar naquela reforma que você fez no sítio. Não me consultou pra nada. Tá na cara que ali tem dedo de mulher.
- Eu não acredito no que estou ouvindo. Você falou pras crianças?
- Sim. Todo mundo já sabe.
- Sabe o quê?
- Como você é cínico.
- Você tá falando um monte de bobagem, uma série de insinuações. Você não tem prova de nada.
- Não tenho provas, mas tenho convicção! Ponha-se pra fora dessa casa. Meus advogados irão te enviar uma intimação. E para o seu governo, não pagar pensão para ex-esposa dá cadeia.
O marido esfrega as duas mãos no rosto. A esposa sai do quarto. Já no hall do elevador percebe que esqueceu algo. Volta para apanhar uma caixa de preservativos masculinos em seu criado-mudo. Põe a caixa na bolsa e de saída fala alto sem olhar para trás:
- Você afundou a nossa família. Você jogou a nossa moral na lata do lixo. Sai pisando duro e lança os cabelos para trás.
É isso mesmo ou o palhaço está vendo coisas?

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O golpe em versos – Epílogo

abutres O golpe em versos   Epílogo

 

O biltre de extrema direita, que urdia a traição atrás de sorrisos e tapinhas nas costas, segue golpeando o país com suas medidas retrógradas e obscurantistas. Todo esse retrocesso poderia ter sido evitado se o Partido dos Trabalhadores não se aliasse a ratazanas para alcançar o poder.

Faço hoje, para preservar a saúde do meu fígado, uma última referência ao livro de poesias do fascista de plantão que ocupa o palácio da alvorada. Parece mais um livro de confissões premonitórias, e para provar essa impressão reproduzo abaixo o texto – reluto em chama-lo de poesia – o texto no qual expõe como nutre suas relações. Bem serviria como uma carta de intenções endereçada a Dilma quando da formação de sua chapa presidencial:

TEMPO QUE PASSA

Deixo que o tempo passe.

E que os papeis

Percam atualidade.

Superados, rasgo-os.

Também assim

Nas relações.

Deixo que o tempo as consuma.

Exauridas, elimino-as.

Prossegui a leitura enfadonha a busca de mais matéria que revelasse sua predisposição asquerosa em obter poder a qualquer preço e seu distanciamento em relação às questões sociais. Olha só o que encontrei:

ELES

São muitos.

Milhares.

Caminham pelas ruas.

Não me conhecem.

Não os conheço.

É o pronome coletivo desconhecido.

O pronome coletivo desconhecido são os sem-terra, os aposentados, os pequenos produtores rurais, os trabalhadores assalariados, os LGBTs, os negros, os índios, as mulheres, os usuários do sistema público de saúde. O corvo que trama na ante sala não conhece o pronome Eles; disso já sabíamos, o que não sabia era de sua confissão. Nem dá pra culpar ninguém por não ter conhecimento dessas predições, afinal, quem além de mim e do Juiz do prefácio, teria estômago pra enfrentar sua obra.

Já quase me livrando do livro infâme encontrei um alento, que torço seja também premonitório:

PROCURA I

Não tenho mais a quem falar.

Será que você me ouviria?

Não, canalha. Não te ouviria, já ouvi demais.

Evidente que a nossa situação política é mais complexa e aterradora e não se resolverá com a execração de um bode expiatório, mas, em tempos que vão tão cheios de arbitrariedades, ilegalidades, desfaçatez e hipocrisia, se não resolve a situação desopila o fígado.

Por isso, mesmo já no fim: Primeiramente: fora Temer. Fora da vida pública e da minha estante de livros. Passa. Xô. Desejo a você a consumação do texto – dito poema – da página 127:

PENSAMENTO

A solidão é a melhor companhia.

Amém.

 

Nota: os assim chamados poemas de onde retirei essas verdadeiras pérolas para esta crônica e a “O golpe em verso- Parte I” fazem parte do livro “Anônima Intimidade”  de Michel Temer (Argh!), editora Topbooks. Edição 2012.

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O Golpe em versos – Parte I

photo383716647878371325 O Golpe em versos   Parte I

Passei o domingo com minha companheira e meu filho na casa de amigos queridos em Piracaia, no interior de São Paulo. Almoçarmos no restaurante Taiada, nome que rendeu uma verdadeira farra dentro do carro:

- Tá todo mundo com fome?

Meu filho de dez anos responde:

- Siiim!

- Então vamos almoçar no Taiada! Palmas putaiada! Querem comer?

- Siiim!

- Então vamos putaiada!

Depois do almoço, esticamos até à casa de nossos amigos. Fazia tempo que não nos víamos e nossos filhos se tem como melhores amigos. A varanda da casa deles estava entupida de caixa de livros. Haviam recebido uma doação e os livros estavam espalhados a espera de catalogação e seleção.

Ficar folheando os livros, descobrindo raridades, nos surpreendendo com livros esquecidos, e celebrando o achado de grandes obras já animava bastante a nossa tarde. Então veio a cereja do bolo.

- Encontrei um envelope dentro desse aqui!

- Um cartão postal de Porto Seguro em 1971!

- Uma receita de bolo dentro deste aqui.

- Uma foto!!

Seriam coisas comprometedoras? Segredos cabeludos? Cartas de amor picantes enviadas para amantes?

Em pouco tempo estávamos mais interessados nos achados perdidos dentro dos livros do que nos livros propriamente ditos. Para frustração coletiva não nos deparamos com nenhum escândalo, inconfidência ou declaração comprometedora.

Quando os ânimos começavam a esfriar veio a bomba! Algo no qual poderia estar contido tudo e muito mais daquilo que esperávamos vir dos papeis esquecidos nos livros. Um livro de poesias do Michel Temer.

- Deve ser outra pessoa, um homônimo.

Não era. Era dele mesmo. Todos fizeram cara de nojo e atiraram o livro de volta à caixa de papelão.  Fiquei inconformado com a suposta falta de perspicácia dos meus amigos e da minha companheira:

- Vocês estão malucos? Estávamos atrás de flagrantes comprometedores de pessoas que nem sequer conhecemos, talvez já estejam até mortas. E vocês desprezam um livro de poesias do Michel Temer. Isso pode conter pérolas!

Apanhei o livro no fundo da caixa.

- É de 2012! O canalha já era vice presidente.

Comecei a folheá-lo e de cara constatei o que desconfiava. O livro escondia muito pouco. O prefácio do livro era de autoria do Carlos Ayres Brito. Aquele magistrado que, quando foi presidente do STF em 2012, passou a votação do mensalão do PT na frente da votação do Mensalão do PSDB, há quase dez anos em tramitação na casa. Sob o argumento de que o voto do mensalão mineiro “é longo”, o então presidente do STF Ayres Britto disse que o leria depois do lanche da tarde que os ministros fazem. Na volta, o caso que colocou em pauta foi outro, o do mensalão do PT. O do mensalão mineiro desapareceu entre os chás e sanduíches.

O mesmo que escreveu prefácios para os livros do Merval Pereira escreveu o prefácio do livro de alguém que era parte do processo que colocou em votação. E a isenção? E a imparcialidade?

Só essa informação da autoria do prefácio já fez valer a pena ter recolhido o livro de volta. Passei então à leitura dos poemas e rapidamente, como havia imaginado, notei que o golpista era um poeta de quinto escalão. Como quem recolhe comida no lixo, persisti na leitura.

No início do livro, página 17, o pseudopoeta faz uma explicação que mais parece um pedido de desculpas. Avisa ter escrito os poemas editados no livro quando tinha quinze ou dezesseis anos. A despeito da chacota dos amigos insisti na leitura e valeu a pena.

Descobri que se o vice que tramou contra a presidenta não era bom em poesia, tinha alguma espécie de dom premonitório. Ou talvez, o menino de quinze ou dezesseis anos, ao qual se referiu o autor no início do livro, é quem está à frente desse governo golpista.

Abro o livro, aleatoriamente, na página 122 e parece que ele fala diretamente a todos que, nos dias de hoje, bradam “Fora Temer”:

FUGA

Está

Cada vez mais difícil

Fugir de mim.

Leio em voz alta para meus amigos e eles consentem que pode haver algum interesse naquela leitura. Pulo algumas páginas para trás e na página 90 leio isso que poderia ser algo em referência aos escândalos de corrupção nos quais o traíra está envolvido:

SABER

Eu não sabia

Juro que não sabia

Meus amigos até sorriem, mas continuam desdenhando de minha garimpagem. Cada vez mais confiante em minha curiosidade, reabro o livro na página 128. Enfim um alento:

TRAJETÓRIA

Se eu pudesse,

Não continuaria.

Já empolgado e exultante com minha intuição peço ao casal:

- Posso levar esse livro?

- Por favor, desapareça com isso.

Agradeço e meu amigo não se contém:

- Para que você vai querer isso?

- Para alimentar minha coluna de crônicas. Aqui tem muito material.

Esses três poeminhas são só um aperitivo. Li o livro todo. Virá muito mais.

 

 

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Destino revogado

 

 Destino revogado

Estávamos almoçando e conversávamos sobre generalidades. Era meio dia e quinze; logo levaria nosso filho à escola. De repente, minha companheira começou a chorar. Eu e meu filho trocamos olhares surpresos. Demos mais algumas garfadas e como sua mãe não parava de chorar veio a pergunta para a qual quase nenhum homem sabe a resposta:

- Por que mamãe está chorando, papai?

- Não sei filho. Ás vezes amanhecemos mais sensíveis. Nem tudo tem explicação. Mamãe pode ter amanhecido um pouco triste. Não sei, pergunte a ela.

- Por que você está chorando, mamãe?

Ela limpou os olhos com as costas das mãos, chupou o nariz e esboçou um sorriso sem graça antes de responder:

- Não sei. Acho que estou sensível.

Meu filho olhou para mim com ares de cumplicidade. Olhei para o relógio e lancei um comando que nos atirava de volta ao cotidiano:

- Vamos ficar atrasados, filho. Vamos comer.

Do mesmo jeito misterioso que o choro apareceu ele desapareceu e seguimos a vida.

À tarde, enquanto trabalhava, recebi um telefonema de minha cunhada. Estava nervosa, aflita e sua voz embargada.

- Aconteceu algo?

- Meu pai: nossa, que susto!

Gelei e ela prosseguiu:

- Estávamos almoçando na lanchonete e ele se encostou na cadeira com os olhos fechados. Perguntei se não queria dar uma deitada, como costuma fazer depois do almoço. Respondeu que não. Descansaria um pouco sentado. Como o movimento da lanchonete só fazia aumentar corri para a cozinha. Os pedidos não paravam de entrar. Passados cerca de quinze minutos, por volta do meio dia e quinze, fui chamar papai. Ele estava sentado como o havia deixado depois do almoço. Chamei várias vezes e como ele não respondeu toquei em seu braço para acordá-lo. Estava gelado! Meu pai morreu, pensei apavorada. Comecei a gritar.

Fiquei sabendo que foi um tremendo alvoroço na lanchonete, o pai da dona do estabelecimento parecia ter morrido durante o almoço, ali sentado na cadeira diante da mesa. Um farmacêutico, que costuma almoçar por lá, tomou seu pulso e anunciou:

- Ele está vivo! Calma, gente. Ele está com pulso.

Carregaram o homem entre lágrimas e palavras de consolo.

- Deve ter sido uma congestão.

- Já tem noventa e um anos, isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde.

- Ele está bem, deve estar só um pouco cansado.

Foi levado ao posto de saúde e depois encaminhado a um hospital maior. Submetido à uma batelada de exames nada foi encontrado. No final da tarde recebeu alta e voltou para casa um pouco cansado.

Pegamos nosso filho na escola e fomos visita-lo. Minha cunhada disse que o pai havia vomitado logo depois do mal súbito e que a comida estava quase intacta.

- Deve ter sido uma congestão, mesmo. Ele precisa mastigar melhor.

Então sugeri que abandonássemos os ares de pesar, afinal quando tiveram a impressão de que o pai tivesse morrido com certeza, todos pensaríamos e alguns falaríamos:

- Daria tudo para que isso não tivesse acontecido e estivéssemos levando nossa vidinha normal ao invés de estarmos aqui nesse velório.

Comentei com minha cunhada:

- Você acreditou que ele tivesse morrido. Ele estava imóvel havia quinze minutos e gelado. Tudo levava a crer que isso tivesse acontecido. E isso não aconteceu! Seu pai está vivo.

Eu, um ateu convicto, voltei para casa especulando um milagre. Por que não? Quem poderia garantir que não tínhamos recebido uma graça? Talvez tenhamos vivido a dor de sua perda, chorado, nos abraçado, cuidado das formalidades, avisado os amigos, parentes e conhecidos, encomendado coroas de flores, consolado os mais desesperados, lembrado diversas passagens de sua vida, dito que ele não merecia isso mas que aconteceu e que levou uma vida digna, bonita e exemplar. Nunca bebeu, nunca foi da noite, homem trabalhador, pai responsável, marido exemplar, respeitado e admirado por todos que o conheciam. A noite teria avançado, alguns teriam cochilado durante o velório e outros ido até suas casas para se prepararem para o enterro. Então, algo teria acontecido em decorrência das súplicas incessantes, das orações devotadas ou de algum decreto divino e os juramentos segundo os quais daríamos tudo para aquilo não ter acontecido tivessem sido atendidos.

Teria ocorrido uma sessão plenária extraordinária lá no céu, muitos discursos, até mesmo algumas ofensas pessoais, mandados de segurança impetrados, pedidos de habeas corpus, delações premiadas sobre as faltas inconfessáveis de meu sogro, vazamentos de conversas entre um querubim e o diabo tratando do adiantamento da morte do meu sogro, consultas ao STC - Superior Tribunal Celeste e, após uma votação apertadíssima entre os defensores da possibilidades de segunda chance em casos muito especiais - membros do PSC, Partido da Segunda Chance -e os partidários da irrevogabilidade do destino - o PID -, teria sido concedido uma chance especial extraordinária a meu sogro.

Então o tempo teria voltado e todos esquecido de tudo que ocorrera a partir da constatação da morte do meu sogro. Na segunda versão da história, a milagrosa, um farmacêutico tomaria seu pulso e anunciaria:

- Ele está vivo! Calma, gente. Ele está com pulso.

De todas as irmãs, a que teria chorado e se desesperado mais teria sido minha companheira. Teria ficado inconsolável, olhos inchados de fazer dó. Por isso quando, milagrosamente, o tempo voltou para o instante imediatamente anterior à morte de seu pai e o farmacêutico tomou seu pulso, todos voltaram ao estado de espírito anterior ao do óbito sem nenhum vestígio do ocorrido durante o destino revogado. Apenas minha companheira trouxera as lágrimas para a segunda versão da história, tamanho seu sofrimento.

- Por que mamãe está chorando, papai?

- Bem, é uma longa história e talvez ninguém acredite. Provavelmente ela tenha, simplesmente, acordado sensível demais.

Pode ter sido isso mesmo, ou o palhaço está vendo coisas?

 

 

 

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A arte de pedir

 A arte de pedir

Noite gelada e já é tarde. Estamos sentados em torno da mesa de jantar naquele momento em que a inércia comanda. Fim do dia, filho dormindo, tarefas encerradas, despertador programado para a manhã seguinte. O clássico fim de feira.

Ancorado na clássica “o não eu já tenho” arrisco um pedido:

- Você faria um último favorzinho pra mim? O derradeiro?

Ela suspende o olhar da tela do computador por uma fração de segundo para logo em seguida mergulhar lá novamente. Tomei aquele gesto como uma resposta afirmativa e prossegui:

- Você pegaria um copo de água para mim?

- Agora, não.

- Como “agora, não”? A resposta é simplesmente “não”.

- Agora não.

- Por que você tem vergonha em falar simplesmente “não”? “Agora, não” não faz sentido. A resposta é não e pronto, você não é obrigada a pegar o copo de água só por que eu pedi.

Sem tirar os olhos do computador ela repete o mantra:

- Agora, não.

- Acho gozado. Você vive falando que sou orgulhoso e que não sei pedir as coisas, mas quando peço você responde não.

Ela desiste do computador e olha para mim com ar cansado:

- O que foi, Nando? O que você está dizendo?

- Estou dizendo que acho engraçado você viver dizendo que sou orgulhoso e que não sei pedir as coisas e quando te peço algo você diz “não”.

- Eu não disse “não”; falei “agora, não”.

- É a mesma coisa dita de uma maneira envergonhada.

- Mas quem falou que estou envergonhada?

- Ao dizer “agora não” ao invés de simplesmente “não”, você mostrou que tem vergonha de dizer não.

Ela passa a mão no rosto e volta ao computador.

- Ai, Nando, me poupe. Já é tarde.

-Não preciso te poupar de nada, você já se poupou ao responder “não”.

- Eu disse “agora, não”.

- Agora, todas as vezes que você disser que sou orgulhoso e que não sei pedir as coisas, vou te lembrar sobre hoje à noite.

- O que aconteceu hoje à noite?

- Eu te pedi uma coisa e você disse “não”. Então, não sou eu que não sei pedir. O que adianta eu pedir se você não vai atender ao pedido?

- Ai, Nando, que inferno! O que você quer?

- Um copo de água.

- Por que você não levanta e pega?

- É o que eu vou fazer. Só queria mostrar que você não tem razão quando diz que eu nunca aceito ajuda de ninguém.

- O que custa você levantar e pegar o seu copo de água?

- O mesmo que custa para você. Do mesmo jeito que você não quer ir, eu também não quero e como você vive dizendo que não sei pedir ajuda, resolvi arriscar e pedir a água a você.

- Você é muito cara de pau.

- Eu? Você vive dizendo que é difícil me ajudar por que eu sou orgulhoso e quando te peço ajuda você responde que não. E eu sou cara de pau?

- É, você! Um tremendo cara de pau.

- Eu só pedi um copo de água, naquela de “se colar, colou”. Só isso.

- Então, exatamente o que eu disse: um tremendo cara de pau.

- Não tem cara de pau nenhuma. Estou pedindo por que você vive dizendo que gosta de me ajudar, mas não consegue por que sou orgulhoso.

- Então: cara de pau e orgulhoso.

- Desculpa, mas são acusações completamente contraditórias. Ou sou cara de pau ou orgulhoso. Um é o oposto do outro.

Agora ela desistiu de vez do computador. Tanto que o desligou da tomada.

- Você é muito picareta.

- Por que acreditei que você gosta de me ajudar?

- Não, por que você é cara de pau.

- Você já me chamou de picareta, orgulhoso e cara de pau só por que te pedi um copo de água. Depois não venha mais me dizer que não sei pedir.

- Vamos dormir? Já é tarde?

- Vamos.

- Quer que eu te passe as bengalas?

- Não obrigado, eu mesmo pego.

- Vê como você é orgulhoso? Por que não aceita que eu pegue suas bengalas para você?

- Por que eu não preciso que você as pegue para mim. Agradeço sua gentileza, mas não preciso.

- Vê como é orgulhoso?

- Se quer me ajudar, então pega o copo de água que te pedi.

- Não digo que você é cara de pau? Toma as suas bengalas.

- Mas eu não queria tomar as bengalas, queria tomar um copo de água.

Ela volta da cozinha com o copo de água na mão.

- Obrigado.

- Deixa que eu coloco o copo na pia.

- Não precisa, eu mesmo levo.

- Deixa de ser orgulhoso e me dá esse copo.

- Eu não sou orgulhoso, é você quem quer decidir quando preciso de ajuda ou não.

- Vamos dormir?

- Claro. Você pode levar um copo de água para o nosso quarto, por favor?

- Mas você acabou de beber água.

- Olha aí, não falei? Quer decidir quando preciso de ajuda ou não. Quer saber quando terei sede ou não. Eu preciso que leve o copo para o quarto, pode ser?

- Claro que pode. Vou levar seu copo de água. Vamos.

- Posso te contar uma coisa? Esse negócio de pedir o copo de água era só pra te encher um pouco.

- E eu não sei?

- Se sabe, então por que não pegou logo o copo e acabou com a história?

- Por que eu também queria te encher um pouco.

- Ah... Conseguimos!

- O que?

- Um perturbou o outro, para quem estava sem nada pra fazer, até que foi bom.

- Mas que você é orgulhoso, isso você é?

- Não, eu provei por “A” mais “B” que não te peço as coisas por que você reluta em atender aos meus pedidos.

- Vamos combinar que quando chegarmos ao nosso quarto a gente para com essa história?

- Quem apaga a luz?

- Você.

- Você não apagaria pra mim?

- O interruptor fica mais perto de você.

- Imagina! Tem um ao lado do seu criado mudo.

- Você quer que eu apague?

- Quero.

- Aleluia! Que bom que esteja aprendendo a pedir.

- Mas eu não pedi; foi você quem se ofereceu.

- Então voltamos à estaca zero?

- Qual estaca zero?

- A história de que você não sabe pedir.

- A história ou a estaca?

- Boa noite, Nando.

- É gozado você dizer que eu não sei pedir.

- Por que?

- Por que sempre que vamos a um restaurante você comenta que sempre peço melhor do que você.

- Isso é verdade.

- Então você admite que não só sei pedir, como faço isso melhor do que você.

- Admito. No restaurante você sabe pedir. Mas aqui em casa não.

- Mas eu te pedi a água e você trouxe. Então eu sei pedir.

- E eu atendo a seus pedidos.

- Boa noite. Durma bem.

- Quer que eu te cubra?

- Não precisa, obrigado.

- Vê como é orgulhoso.

Smack!

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O contragolpe

 O contragolpe

Palhaços não só gostam que riam deles como se esforçam para que isso aconteça. Mas ontem, a risada foi velhaca demais. Uma risada de quem zomba do país, uma risada de escárnio. A risada da desfaçatez de quem usurpa o poder conferido pelo voto em proveito de interesses alheios ao eleitor.

Patético assistir a um golpe em nome de Deus e da família dos parlamentares. Pouco se importam com a representatividade da qual supostamente estariam imbuídos. Declaravam seus votos em homenagem a vovó Mafalda, aos filhos Huguinho, Zezinho e Luizinho. Só faltou homenagearem cães de estimação e amantes.

Lembrei dos domingos do Silvio Santos: você troca um governo legitima e democraticamente eleito, que promoveu a maior e mais eficiente política de redistribuição de renda da história do país, por um governo ilegítimo, inconstitucional, fruto de um golpe parlamentar chefiado por gangsters, contra os avanços históricos dos trabalhadores, homofóbico e fascista? SIIIIIM!

Faz tempo, desde o julgamento ilegal da AP 470, apelidada marqueteiramente de “mensalão”, que os protagonistas do golpe decidiram que não precisariam de maquiagem, justificativas ou contornos artificiais de legalidade. Optaram por zombar do país e fazer aquilo que bem entendessem à revelia das normas jurídicas e da Constituição.

Uma corja de larápios, quase todos réus por corrupção, peculato, improbidade administrativa, sonegação fiscal e toda sorte de crimes tipificados iam ao microfone do parlamento falar em defesa de princípios morais e contra a corrupção. Ainda foram capazes de aplaudir a fala asquerosa do não menos Jair Bolsonaro que homenageou o mais famoso comandante das torturas do golpe de 64. De certo, julgam a todos nós como débeis mentais. Riram da nossa cara.

A falta de um partido verdadeiramente de esquerda, já que o PT não o é de fato, deixou a discussão política refém de uma pauta extremamente conservadora. Tanto que os movimentos sociais organizados, tais como MST, MTST, lideranças estudantis e sindicais, bem como as periferias, permaneceram de fora das discussões.

O debate acabou restrito a, de um lado, a intelectualidade e aos artistas, e de outro, aos coxinhas golpistas com aspirações fascistas, representantes de uma classe média historicamente reacionária e da elite retrógrada de nosso país.

Ora, para ser contra o golpe jurídico-midiático levado a cabo por um congresso infestado de réus por crimes de corrupção que não representam senão as instituições que financiaram suas campanhas eleitorais, não é preciso ser de esquerda. Defender a democracia liberal representativa deveria ser um ponto de partida, e não um objetivo a ser alcançado. É apenas a antessala do debate que precisa ser travado.

Contudo, existe uma frase emblemática de Dom Quixote de Cervantes, que acredito perfeita para essa segunda feira de ressaca: “Nunca estamos mais perto da vitória, do que quando tudo parece perdido”. Agora, deflagrado o golpe, é hora de alargarmos a pauta da discussão política, até ontem restringida ao combate à corrupção e à luta antigolpista. É uma derrota que pode se transformar em vitória em 2018, desde que, a partir de hoje, os movimentos sociais organizados e as "perifas" ganhem as ruas contra a política neoliberal que será adotada pelo governo ilegítimo e golpista que, fatalmente, trará enorme descontentamento popular.

Uma vez consagrada essa sanha fascistóide que impetrou esse golpe patético, hipócrita e descarado criou-se as condições para que se alargue os horizontes das pautas de nosso debate político.

A corrupção não é, nem de longe, o principal problema de nosso país. O debate focado no combate à corrupção lança uma cortina de fumaça sobre as questões realmente relevantes para a construção de uma sociedade mais justa e equânime.

Os temas relevantes são, e sempre foram, as questões sociais ligadas à educação de qualidade acessível à toda população, à saúde universal de qualidade e gratuita, à mobilidade urbana, ao respeito às minorias, ao resgate da dívida social histórica que temos com os afrodescendentes e os indígenas, à diminuição da astronômica disparidade social, às garantias e ao avanço das conquistas históricas dos trabalhadores assalariados e aos avanços das pautas progressistas ligadas ao movimento feminista – tais como a legalização do aborto, o combate à violência doméstica, a desospitalização do parto etc – à reforma agrária, à reforma tributária que torne nossa tributação progressiva, ao combate à sonegação fiscal, à auditoria da dívida pública, à regulação da mídia, à desmilitarização da polícia, à reforma do sistema prisional, ao papel do estado como indutor do crescimento econômico, à ampliação de mecanismos que promovam a democracia direta, tais como as consultas populares e os plebiscitos, à defesa de políticas econômicas desenvolvimentistas e ao alinhamento diplomático com países comprometidos com o fortalecimento de um bloco alternativo ao imperialismo neoliberal

É urgente trazermos esses agentes e essas questões para o centro do debate. Enquanto permanecemos restritos à luta antigolpista e ao combate à corrupção, estivemos fazendo o jogo conservador das elites e sairíamos sempre perdendo, mesmo que o golpe fosse derrotado.

A hora é agora. O cenário para a luta política nunca esteve tão propício. É hora de colocar o bloco na rua, afinal, todo mundo sabe, até os palhaços, que quem ri por último ri melhor.

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O dedo que aponta

Em tempos de tanta polêmica e convicções exacerbadas, uma dose de autocrítica pode ser bem vinda. Refiro-me aos dois lados, evidente.
Outro dia comemorávamos o aniversário de minha esposa no quintal de casa. Era segunda feira. Um animado grupo de seresta tocava alguns sambinhas. Cerca de dez ou quinze pessoas batiam papo animadamente, mas tudo dentro dos princípios básicos da civilidade, ou seja, sem muito barulho.
Mal o relógio passou das dez da noite chegou um segurança à porta de casa. Nem precisei levantar-me para adivinhar do que se tratava: a vizinha, só poderia ser ela reclamando sobre a lei do silêncio. Impaciente, deixei que alguns convidados mais íntimos fossem resolver a questão e passei a lamentar o mal humor e a rabugice da vizinha. Com tanta gente para morar ao lado fui presenteado com aquele estrupício, pensei.
Decidi não permitir que aquela interferência atrapalhasse nossa festa. Sem que minha esposa tivesse perguntado nada, fui dizendo a ela:
- É a vizinha. Não se incomode. Não estamos fazendo barulho. Não vamos estragar a festa. Se vierem reclamar de novo diga que chamem a polícia. É uma chata.
Comentei com alguns amigos sobre o descalabro daquela reclamação:
- Tem gente que é muito rabugenta. Imagine, nem estamos fazendo barulho.
Meu amigo fez cara de quem não sabia do que estava falando.
- Você acha que esse sambinha, nesse volume, pode incomodar alguém?
- Por que? Alguém reclamou?
Apontei com o polegar para trás em direção à casa da vizinha e torci a boca.
- Você não viu o segurança aí na porta? É inacreditável.
- Puxa, mas o sambinha está tão comportado.
- Pois, é. Respondi e repeti a bravata:
- Mas não vamos parar, não. Deixa ela. Se quiser que chame a polícia. Gente chata demais.
Uma amiga aproximou-se e notando o tom acalorado de meu comentário perguntou.
- O que houve? Está tudo bem?
Contei a ela o ocorrido e, a cada um que se agregava à rodinha, reiterava minha reprovação em relação à atitude da vizinha:
- Você acredita que possa existir gente assim no mundo?
- Por que você não a convidou para a festa? Esse é um antídoto perfeito contra vizinho ranzinza. Infalível.
Meneei a cabeça negativamente e nem comentei a sugestão, como se aquilo fosse uma causa perdida. Quanto mais comentava sobre o assunto, mais aumentava minha indignação:
- Olha, às vezes acho que a humanidade não tem jeito. As pessoas são muito malucas. São incapazes de se colocar na posição do outro, não tem o mínimo de tolerância.
Parecia tão convincente que logo contagiei alguns convidados com minha indignação:
- Espírito de porco.
- Gente chata.
- Que desagradável.
- Nojenta.
Acho até que tinha gente que já reclamava sem nem saber de que se tratava.
- Pelo amor de Deus! Tenha dó.
O que tocava bandolim parou e perguntou:
- Algum problema?
Apontei em direção ao muro do vizinho e torci o nariz enojado:
-Essa daí. Mas não se preocupe. Pode continuar. Ela que chame a polícia. É uma mal amada.
- Tem certeza?
- Agora faço questão que continuemos. Pode tocar.
O amigo que havia saído para conversar com o segurança, finalmente retornou ao quintal. Trazia uma latinha de cerveja na mão e não parecia aborrecido.
- E aí? Resolveu?
- Tudo certo.
Para ele estava tudo certo, mas para mim não.
- Sabe o que acho mais lamentável? É que a pessoa não tem coragem de vir falar diretamente com a gente. Tem que chamar o segurança. É inacreditável.
Meu amigo tentou acalmar-me;
- Fica tranquilo, está tudo certo. Isso é coisa de criança.
Espantei-me:
- Coisa de criança?
- É, eu fazia isso também quando era pequeno. Não esquenta a cabeça. Vamos curtir a festa.
- Como curtir a festa? Não vieram reclamar do som? Não foi a vizinha aí do lado?
Meu amigo sorriu:
- Não, vieram falar que os vizinhos da rua de cima ligaram para a portaria por que seu filho estava tocando a campainha da casa de todo mundo.
Engoli seco. Ele continuou com o relatório:
- Tocava a campainha e saia correndo. O segurança disse que só veio avisar que havia chamado a atenção do seu filho. Contou que vários vizinhos reclamaram do menino.
Olhei para o silêncio sereno e complacente que emanava da casa da vizinha e, num misto de vergonha e arrependimento, tive vontade de, na manhã seguinte, enviar flores a ela.
Meu filho entrou em casa com ar de criança levada e olhou para mim com as sobrancelhas arqueadas em forma de súplica. Tanto que adotei tom de condescendência:
- Amanhã, a gente conversa.
Achei que deveria pensar duas vezes antes de chamar a sua atenção. Queria evitar nova precipitação. Ele aproveitou não ter levado a bronca que imaginou levar e correu para dentro em direção a seu quarto.
Em respeito ao sagrado direito ao descanso da minha vizinha, que agora julgava mais do que merecido, sugeri que entrássemos
- Vamos tocar lá dentro, pessoal? Está ficando tarde.
Apontei em direção ao muro da vizinha com as duas mãos espalmadas como se me dirigisse a uma santa e fiz uma invocação:
- Os vizinhos querem dormir. Não é justo. Afinal hoje é segunda feira. Vamos entrar.
Enquanto nos mudávamos com os instrumentos, as cervejas e as cadeiras para dentro de casa, lembrei-me de uma máxima que li não sei onde:
“O inferno é o outro.”
É isso mesmo, ou o palhaço está vendo coisas?

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Crise política para crianças

Estava diante da tela do computador, em meu escritório, acompanhando as notícias do dia 31 sobre as manifestações contra o golpe pelo site da Revista Forum, quando meu filho chegou:

- O que você tá fazendo, papai?

- Lendo notícias.

- O pai do Marcelinho vê notícias no jornal e na TV, não no computador.

- Mas são notícias diferentes. Quero dizer, o assunto é o mesmo, mas o ponto de vista é outro.

Meu filho estica o olho e vê uma foto da presidente Dilma Roussef na tela do site.

- Ela é bandida, né pai?

- Filho, ninguém pode acusar ninguém sem ter provas.

- Mas todo mundo fala que ela é ladrona. Ela e o Lula.

- Não é todo mundo. Eu não falo.

Ele me olha com ar de quem espera uma justificativa. Como explicar a uma criança de dez anos que não existe nenhum processo contra a Dilma e nenhuma prova contra o Lula?

- Lembra quando sumiu um carrinho do vizinho e ele falou que tinha sido você? O que você achou daquilo?

- Eu não gostei. Não fui eu.

- Você achou justo ele ter te acusado sem ter provas?

- Não.

- É exatamente isso que estão fazendo com a Dilma e o Lula.

- Por que fazem isso?

- Por que... Imagina que você esteja jogando botão. Aí você encontra um amigo que sempre ganha de você. Aí então, ao invés de treinar para jogar melhor e tentar ganhar dele na próxima partida, você resolve melar o jogo. Vira o estrelão, joga tudo no chão e diz que não quer brincar mais. Vai mudar as regras do jogo ou chamar seu pai para dar uma bronca no seu amigo.

Ele parece satisfeito com a metáfora. Mudo de site, vou para o Brasil 247 e aparece uma foto do Sergio Moro.

- Esse é aquele juiz, né?

- É. Aquele.

- Todo mundo fala que se ele fosse presidente do Brasil tudo iria melhorar.

- Todo mundo, não. Eu não acho isso. Eu e muita gente, mais da metade do Brasil.

- Por que?

Como explicar sobre partidarização da justiça, extrapolação de competência, usurpação de poder, princípio republicano de independência dos poderes, de tradição conservadora do poder judiciário? Voltei à metáfora.

- Imagine que na sua aula de futebol, o professor, que apita o jogo, goste mais do outro time do que do seu e comece a roubar. Só marca falta contra o seu time. Marca falta que você fez, mas não marca quando o jogador do outro time faz a mesma coisa. E se você for reclamar, te dá logo um cartão vermelho. E pior, inventasse regras da cabeça dele. É isso que esse juiz faz.

Meu filho ficou pensativo. Mas tinha algo que ainda o incomodava.

- Mas a Dilma vai ser mandada embora, né?

- Estão tentando. Mas acho isso um absurdo. É como se ela fosse aquele jogador de botão que ganhou de você, e você decidisse então melar a partida e mandasse ela embora da sua casa. Te parece justo?

Ele não responde. Ainda com ares desconfiado estica o olho mais uma vez.

- Pe-da-la-da. O que é isso, papai? É igual o Neimar faz?

- Não. É justamente disso que estão acusando a Dilma para poderem melar o jogo.

- E ela é culpada?

- Sim. Não.

- Sim ou não?

Como explicar que pedalada fiscal é uma prática cotidiana. Que o FHC fez, que o Lula fez, que 14 governadores de estado fizeram em 2015, entre eles o Geraldo Alkmin, que aliás deu trinta e uma pedaladas, contra seis da Dilma, que o Michel temer assinou um decreto de pedalada enquanto a Dilma estava em viagem ao exterior? Que mais da metade do congresso, que vai julgar a Dilma, responde por crimes muitíssimos mais cabeludos e que a pedalada da Dilma era tão somente para garantir a manutenção das despesas com os projetos sociais que transformaram o Brasil, segundo a ONU, em exemplo de política redistributiva bem sucedida? Voltei à metáfora:

- É aquela história do professor de educação física que gosta mais de um time do que do outro. Ele só marca falta contra seu time. Imagine que os dois times põem a mão na bola, mas ele só marca falta quando a mão na bola é do seu time. E pior, ainda te expulsa de campo. E os outros que colocaram a mão na bola? Não deveriam ser expulsos também? Por que só você? Ou expulsa todos que colocarem a mão na bola ou não expulsa ninguém. Faz isso por que ele torce para o outro time.

- Você é a favor do Lula e da Dilma, né?

- Nesse caso sou. Eles são do time que o juiz não gosta. Não acho justo.

- Por que você gosta deles?

Como explicar sobre desigualdade social, sobre Estado patrimonialista, sobre política internacional, sobre jogo de forças, sobre projeto político? De novo a metáfora:

- Imagine que o dono da cantina da sua escola só servisse almoço e lanche da tarde para uma ou duas crianças da sua turma, e todo o resto da classe não tivesse direito de comer ou beber nada na cantina. Isso seria legal?

- Seria, se eu fosse um dos dois para quem ele serve comida.

- Mas sua classe tem quase trinta alunos. Como ficariam os outros? E se você não fosse um daqueles dois?

- Eu pegava a comida deles.

- Hum... Pode ser, é uma saída. Mas iria gerar uma tremenda confusão, iria ter briga. Tenho uma ideia melhor: e se trocassem o dono da cantina e colocassem um que dividiria a comida entre todos. Não seria melhor?

Meu filho entendeu meu ponto de vista e perguntou:

- Então, por que você não foi na greve?

- Não era greve filho, era uma manifestação. As pessoas foram para a rua para dizer aquilo que pensam. Para se manifestar. Entendeu?

- Praticamente. E o que eles querem?

- São contra o golpe.

- Que golpe? No caratê tem um muito radical. Assim olha! Dá um chute no ar seguido de um murro.

Recorri à metáfora mais uma vez:

- Lembra da história da cantina? Imagina que depois que entrou o novo dono, o antigo quisesse voltar. Algumas pessoas foram para a rua para dizer que querem que o novo dono da cantina continue por lá. Outros foram falar que aquele juiz não pode marcar faltas só a favor do time que prefere. Tem que ser justo e marcar para os dois lados. Foram falar que o juiz tem que seguir as regras oficiais e não inventar regra da cabeça dele. Outros foram falar que não vale melar o jogo quando a gente perde e que regra é para ser seguida.

- Legal. Posso jogar joguinho no seu computador?

- Mas eu estou lendo, filho.

- Então o computador é só pra você?

- Não. Vamos combinar assim: daqui a vinte minutos te passo o computador. Fica um pouco comigo, um pouco com você.

Ele aprovou a proposta e saiu cantando “tá tranquilo, tá favorável”.

Que inveja das crianças.

É isso mesmo, ou o palhaço está vendo coisas?

 

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Não tem problema

 Não tem problema

A cancela do estacionamento do shopping permanecia imóvel. Logo o carro de trás buzinou. Bufei e minha companheira reclamou:

- Quantas vezes já falei que tem que passar devagar? Se passar rápido essa porcaria não lê.

Nem tive tempo de responder que não tinha problema algum, ela já estava fora do carro pedindo para que os de trás dessem uma rezinha.

- Podem ir um pouco pra trás, por favor? Precisamos passar de novo por que essa geringonça não leu nosso sem-parar.

Era um programa familiar intergeracional. Eu, meu filho, minha companheira e minha mãe escolhemos o cinema daquele shopping por que lá tem cadeira de rodas elétrica, cadeirante não paga e acompanhante de cadeirante paga meia.

Comprados os ingressos, os três foram comprar pipoca enquanto fui indo para a sala.

- Vocês me alcançam. Disse em tom de gracejo.

A sala estava vazia. Havíamos comprado quatro lugares na fileira H. Estacionei a cadeira de rodas elétrica na vaga reservada a cadeirantes e olhei para a tela. Por que reservam esses lugares horríveis aos cadeirantes? Embaixo da tela. Além de ter dificuldade para andar o cara sai com torcicolo se assistir ao filme daqui. Logo me repreendi, afinal a sala era ótima, as poltronas pareciam confortáveis e a tela enorme. Reclamar der quê? Não tem problema.

Mirei a escadaria que dava acesso a fila H e comecei a escalada. Senti a presença de alguém apressado atrás de mim. A escada era estreita e impossibilitava qualquer ultrapassagem.

- Filho, calma. Devagar. Espera. Eu falei espera. Calma. Devagar.

Escorei-me no corrimão da escada e virei-me:

- Podem passar. Mais fácil eu esperar. Não tem problema.Veículos lentos à direita, gracejei.

A mãe agradeceu, mas segurando o menino com as duas mãos em seu ombro, não permitiu-lhe a ultrapassagem.

- Muito obrigado, mas ele tem que aprender. Eu faço questão. Por favor, pode subir com calma, não temos pressa.

Fiz menção de argumentar algo em favor da ultrapassagem e a mulher foi definitiva e gentil ao mesmo tempo.

- Absolutamente. Fazemos questão. É uma questão de cidadania. Ele tem que aprender.

Cheguei à fila H e comemorei ter comprado a primeira poltrona da fila. Sentei feliz com a atitude da mãe que quis ensinar cidadania a seu filho de sete ou oito anos. Nem tudo está perdido, pensei. De passagem ela sorriu para mim e retribui seu gesto. O moleque finalmente pode subir em disparada. Tanto que ultrapassou sua fila.

- É aqui, meu filho. Não é aí em cima. Desce.

Meu filho e minha companheira logo chegaram com aqueles baldes enormes de pipoca e minha mãe com um econômico drops de hortelã.

- No meu tempo não tinham essas pipocas enormes no cinema. Só balas e chocolate.

Todos acomodados com a antecedência que defendo – detesto fazer as coisas na correria – contei à minha companheira sobre o ocorrido entre mim, a mãe da criança apressada e seu filho.

- Vê? A gente parece que só repara nas coisas ruins. Adoramos ver problema em tudo. A atitude dessa mãe não foi incrível?

Antes de qualquer resposta fomos interrompidos por um homem de meia idade que vinha a frente de sua esposa e seu filho pequeno.

- Desculpem, mas estão sentados no lugar errado. Essas três cadeiras são nossas. Apontou para as poltronas nas quais estávamos sentados e abanou os ingressos na frente do próprio rosto com ares de superioridade incontestável.

Nossos lugares de fato não eram aqueles. No afã de me sentar logo, não notei que nossos assentos eram na outra ponta da fila H. Como o cinema estivesse vazio, e a posição entre as duas extremidades opostas da fila H em relação ao centro da tela fosse idêntica, minha companheira tentou argumentar.

- Mas ele usa duas bengalas. Vocês não poderiam trocar de lugar com a gente?

A mulher do casal concordou imediatamente e já se virou para descer as escadas. Não queria perder tempo, afinal as luzes da sala acabavam de ser apagadas. Mas o homem foi inflexível.

- É que nós compramos esses lugares. Chegamos mais cedo e escolhemos essas poltronas. Quero sentar nelas. Parece justo, não?

Decidi não reclamar. Peguei minhas bengalas e me levantei enquanto minha companheira e a esposa do homem dono das poltronas tentavam argumentar a meu favor. Uma indignada e a outra envergonhada.

- Os lugares são iguais. As luzes já se apagaram. Ele usa bengala. Eu não acredito nisso.

E a mulher do dono das poltronas:

- Ai que vergonha. Deixa eles aí. O que custa? O homem usa bengala. Ai que vergonha.

Mas eu e meu oponente nos unimos:

- Tudo bem; o lugar é dele. Fui eu quem não prestei atenção. Vamos trocar, tudo bem. Não tem problema.

E ele:

- Tá vendo? Ele nos deu razão. Vendem lugares numerados exatamente para evitar esse tipo de problema.

De nada valeu ter chegado com tanta antecedência. Descer as escadas, atravessar a frente da tela e subir tudo outra vez quase nos fez perder o começo do filme.

Nos acomodamos novamente e cochichei conciliador para a minha companheira:

- Gentileza é o tipo da coisa que não podemos cobrar de ninguém. Ou a pessoa é, ou não é. Não tem problema.

Ela nada respondeu com palavras, mas a ferocidade com a qual meteu a mão no saco de pipocas indicava sua contrariedade.

Quando deixávamos o shopping havia uma enorme fila de carros na saída. Logo começaram a dar ré. Algum apressadinho não tinha esperado o tempo necessário para que a cancela lesse o tag de seu sem-parar.

Minha companheira fez cara de contrariedade e eu, identificando-me com o infeliz que causava todo aquele transtorno, contemporizei:

- Não tem problema. Acontece.

Minha companheira ligou o rádio. Abaixei o volume e tentei, mais uma vez, contemporizar:

- Tem dia que de noite é assim mesmo.

Meu filho chegou com a cabeça entre os bancos da frente do carro:

- O que vocês estão falando? Qual o problema?

- Não tem problema nenhum, filho. Bobagens. Nem vale a pena. Só bobagens.

É isso mesmo, ou o palhaço está vendo coisas?

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Fraquezas

Cansei.
Sou um ator sem estofo para bancar o personagem que escolhi ser. Quero rasgar minha fantasia de super-herói. Cansei de ser o carinha alto astral e bem resolvido que enfrenta com galhardia as dificuldades impostas pela esclerose múltipla. Cansei. Preciso confessar que sofro bastante. Preciso confessar que choro com propaganda de margarina. Trago uma enorme tristeza dentro de mim. Cansei de ser um estrangeiro dentro do meu corpo. Cansei de ser um palhaço na boca do vulcão. Cansei de viver tanta impossibilidade com alegria e ainda dizer que se fosse fácil, não teria graça ou:
- Tudo bem. Afinal estou vivo, e isso é maravilhoso.
Tive uma noite difícil. Com febre próxima aos 40 graus; entrei num quase delírio. Passei por fluxos de consciência avassaladores e desconcertantes. Foi nesse estado que desabei e comecei a chorar dizendo: cansei, cansei, cansei. Cansei de bancar o super-homem. Naquele momento esqueci que era palhaço, tivesse lembrado teria dito:
- Cansei de ser o Chapolim Colorado.
Nesse verdadeiro torvelinho no qual fui lançado nessa madrugada, lembrei do dia, era ainda adolescente, no qual chorei compulsivamente diante da televisão. Assistia ao fechamento do programa de esportes que ia ao ar na TV Cultura, ao meio dia. Era 82 ou 83, o Corinthians havia disputado uma final de campeonato paulista, e havia ganho. Quem deveria chorar eram os adversários e não eu.
O clip que encerrou aquela edição do noticiário esportivo trazia cenas do Dr Sócrates, camisa 8 do Corinthians e da seleção, correndo incansavelmente debaixo da chuva que caiu durante o jogo. Depois vieram cenas dele caído no gramado, ajoelhado com a roupa molhada colada ao corpo e tudo isso ao som de “Guerreiro menino”, do Gonzaguinha. Não sei por que aquilo me marcou tanto. Talvez uma clarividência da sina que estava prestes a conhecer. Nessa noite relembrei a parte que diz “Guerreiros são pessoas, Tão fortes, tão frágeis, guerreiros são meninos” e, apesar de toda a obviedade e pieguice que a cena contém, não contive meu choro convulsivo.
Foi um momento catártico, desassombrado, revelador. Disse à minha companheira que me amparava em meu chilique ao lado da cama:
- Sinto falta de estar no palco. Sinto falta de estar com meu espetáculo em cartaz. Ele me ajuda.
Dizia isso soluçando e isso dava um quê de infantilidade à coisa toda. Guerreiros são meninos cantava o Gonzaguinha, e quando lembrei disso notei o ridículo da cena que protagonizava. Então meu choro se transformou num riso complacente e carinhoso comigo mesmo.
Os aplausos que recebo, ao final de cada apresentação, são como aquelas garrafinhas com água oferecidas aos maratonistas que as bebem sem parar de correr, para depois despejarem o que sobrou sobre suas próprias cabeças.
Confesso que acho patético levar-me a sério, por isso optei por rir de mim, por isso sou palhaço. Mas nessa madrugada o palhaço teve um chilique.
E agora, escrevendo, revisito mentalmente aquela cena clássica do palhaço que esguicha suas lágrimas contra a plateia e me dou conta de que protagonizei essa gag nessa madrugada. E apesar de toda charlatanice dos melodramas, reconheço que fui um ator bastante visceral.
É isso mesmo, ou o palhaço está vendo coisas?

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