Oscar 2014: Entre a esperança no futuro e a vergonha do passado

 

selfie oscar Oscar 2014: Entre a esperança no futuro e a vergonha do passado

Selfie tirada pelo ator Bradley Cooper durante a premiação - Ellen DeGeneres derrubou o Twitter pelo excesso de compartilhamentos

O Oscar 2014 foi palco de uma disputa entre a esperança na tecnologia do futuro e a vergonha de um passado que não podemos esquecer. De um lado, a ficção científica ‘Gravidade’ humildemente nos lembra de como somos ridiculamente pequenos diante do universo; do outro, ’12 Anos de Escravidão’ expõe a crueldade intrínseca do ser humano, que acredita ter o poder divino sobre a vida do outro. Os dois grandes vencedores da noite de ontem, no entanto, trazem alguns elementos em comum: a superação dos limites físicos do corpo, a luta pela sobrevivência diante da ameaça iminente da morte, a esperança de que o amanhã pode ser melhor do que hoje. Tomara que estejamos certos.

‘Gravidade’ foi o grande campeão da noite, com sete prêmios no total: Efeitos Visuais, Edição, Fotografia, Trilha Sonora e Diretor (Alfonso Cuáron), além dos Oscars técnicos de Mixagem de Som e Edição de Som. ’12 Anos de Escravidão’ ganhou o Oscar principal, Melhor Filme, além de Melhor Atriz Coadjuvante (a maravilhosa Lupita Nyong’o) e Melhor Roteiro Adaptado. Tivemos ainda um Oscar para a excelente história futurística (mas em um futuro não muito distante) de Spike Jonze: ‘Ela’, sobre um homem solitário que se apaixona pelo computador, ganhou Melhor Roteiro Original. ‘O Grande Gatsby’, dirigido pelo esteta Baz Buhrmann e um dos vários remakes já feitos para o livro de Scott Fitzgerald, levou prêmios de Figurino e Direção de Arte.

Entre o futuro e o passado, também tivemos prêmios para o presente – ou pelo menos para um fantasma que ainda nos atormenta. Ao expor o drama da Aids, ‘Clube de Compras Dallas’ teve excelentes atuações e rendeu a Matthew McConaughey o Oscar de Melhor Ator e a Jared Leto o de Melhor Ator Coadjuvante (além de um Oscar por Maquiagem). A Melhor Atriz foi mesmo Cate Blanchett - como todo mundo já apostava - pelo filme ‘Blue Jasmine’, de Woody Allen.

‘A Grande Beleza’, drama ‘Felliniano’ do italiano Paolo Sorrentino, levou Melhor Filme Estrangeiro. E a pequena joia da Disney ‘Frozen’ levou não apenas o Oscar de Melhor Animação, como desbancou a homenagem do U2 a Nelson Mandela e levou Melhor Canção Original.

Resumindo? Como (quase) sempre, a Academia distribuiu os prêmios de maneira mais ou menos equilibrada e ficou bom para todo mundo. Deram a maior parte dos prêmios para uma produção com sotaque latino – o filme Gravidade’ foi dirigido pelo mexicano Alfonso Cuáron –, agradando à comunidade que começa a ganhar cada vez mais força (em importância e influência) nos Estados Unidos. Em relação à comunidade negra, fizeram uma mea-culpa e um auto-elogio ao mesmo tempo. Lembraram o absurdo da escravidão e, delicadamente, deixaram no ar a lembrança de que a América de hoje, poucos anos depois desse capítulo tão vergonhoso, é liderada por um presidente negro, Barack Obama. A escravidão, ao lado do holocausto, são dramas que sempre nos emocionam, não apenas pelo violência inexplicável que pudemos inflingir uns aos outros, mas pela exposição da crueldade com que podemos tratar os nossos semelhantes.

Pensando bem, só não ficou bem para o filme ‘Trapaça’, que teve o maior número de indicações (dez) e não levou nenhum Oscar. E também fiquei com pena de Leonardo DiCaprio, que estava ótimo em ‘O Lobo de Wall Street’, mas perdeu para Matthew McConaughey – que, para fazer o personagem, perdeu vários quilos, fez o papel de um paciente com Aids, etc, esforços que a Academia adora premiar.

Falando em futuro e passado, também, esse Oscar expõe cada vez mais que há em curso uma troca de guarda em Hollywood. A cada ano, a chamada ‘nova geração’ (alguns nem são tão jovens assim) vai tomando conta do pedaço. Atores como Bradley Cooper, Matthew McConaughey, Christian Bale, Michael Fassbender começam a ser considerados os grandes atores da atualidade, ao lado de medalhões já estabelecidos como Brad Pitt, Kevin Spacey e Leonardo DiCaprio. Entre as atrizes, os grandes nomes hoje são Jennifer Lawrence, Amy Adams, Angelina Jolie, Sandra Bullock  e Cate Blanchett, uma espécie de Merryl Streep dessa nova geração.

É assim que Hollywood funciona: quando seus ídolos envelhecem ou já estão cansados demais para se esforçar, o sistema inventa novos deuses e passa a alimentá-los - e a se alimentar deles - para continuar relevante. Os personagens podem ser diferentes, mas, na hora em que as luzes se apagam e a grande tela acende, os papéis continuam os mesmos.

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6 Comentários

"Oscar 2014: Entre a esperança no futuro e a vergonha do passado"

3 de March de 2014 às 11:37 - Postado por fmachado

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Comentários
  • Priscila
    - 05/03/2014 - 08:34

    naum gostei do resultado final deste oscar

    Responder
  • Andreia Fiuza
    - 04/03/2014 - 16:34

    Felipe vc é um escritor que fala direto e sem rodeios, seja aqui no Blog, seja numa tradicional revista feminina (que leio há anos).E é por este jeito de escrever sem blá blá blás, não ficando em cima do muro, que adoro seus textos, pois mostra verdade (seja ela boa ou má). Porém, qdo se escreve algo, a interpretação de quem lê pode variar e ser diferente da de quem escreveu, daí vem as críticas. Eu sempre quis fazer esta pergunta a um jornalista: As críticas sobre suas matérias/textos o incomodam? Antes de publicar, vc pensa nas críticas,e as vezes muda de ideia? Abs Fê (saudades do Viper hein).

    Responder
    • fmachado
      - 05/03/14 - 11:13

      Oi Andreia, tudo bem? Para falar a verdade, não penso muito na repercussão, não. Sempre que escrevo algum texto mais polêmico, até imagino que a minha opinião pode deixar alguns chateados, mas acho que esse é o próprio conceito por trás de um blog. É minha opinião, por isso também acho democrático publicar comentários de quem me critica. Só não publico palavrões ou algum tipo de comentário mais agressivo. Fora isso, acho que, da mesma forma que tenho o direito de gostar ou não gostar de alguma coisa, quem lê também tem o mesmo direito. Obrigado pelo comentário! Bjs, F.

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