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47: Reflexões sobre o passado e um olhar para o futuro

FM Paris 47: Reflexões sobre o passado e um olhar para o futuro

A vida só anda para a frente, mas é bom olhar para trás de vez em quando para lembrar disso

Há inúmeras diferenças entre artistas e filósofos, mas talvez a maior delas seja a capacidade que os artistas têm de transformar conceitos complexos em palavras simples, enquanto filósofos tendem a formular pensamentos igualmente intrincados em teorias belas, porém inacessíveis ao grande público.

Há mais mistérios entre o céu e o mar do que imagina a nossa vã filosofia, e um desses mistérios diz respeito a alguém pensando nas diferenças entre artistas e filósofos enquanto lá fora brilha uma ensolarada tarde de sábado. Não há algum mérito intelectual para quem faz isso, é apenas umas das quase inevitáveis e naturais reflexões que invadem o coração de um homem que acaba de comemorar seu aniversário de 47 anos.

Em momentos de transição como esse, várias ideias nos provocam flashbacks. Uma recorrente é a famosa frase de John Lennon. “Vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro.” Difícil encontrar uma ideia mais profunda sobre a nossa existência, porque quando chegamos ao núcleo mais essencial detectamos que a vida é isso aí: uma sucessão de dias e noites que passam enquanto a gente tenta em vão descobrir com precisão o que o futuro nos reserva.

Não há dúvidas de que somos agentes de nosso próprio destino, nem que a vida também inclui outras coisas além de esperar o que vem pela frente. Afinal, mudanças radicais podem e surgem no nosso caminho com certa frequência, mudando tudo de novo e de novo e de novo. Mas as verdadeiras revoluções são construídas no dia a dia, principalmente no nosso modo de viver.

Nada mais insano do que fazer sempre a mesma coisa e esperar que um dia o resultado seja diferente. A frase é tão boa que costuma ser atribuída a Einstein ou algum outro pensador genial. Mas é verdade: fazemos coisas que gostamos de fazer, mas também fazemos coisas que temos a obrigação de fazer mesmo sem gostar. Achar o equilíbrio entre esses compromissos é um desafio a ser vencido, dia após dia.

A frase de John Lennon é boa não apenas porque ela faz muito sentido, mas porque ela faz mais sentido a cada ano que passa. A vida não é uma viagem para algum lugar dos sonhos, onde o objetivo final é chegar ao destino. O sentido da vida está na viagem em si, na maneira como vivemos essa jornada, até porque ela nos levará, sem exceções, ao mesmo e inevitável destino final.

Somos fruto da maneira que vivemos, das coisas em que acreditamos e nas opções que fazemos ao longo dessa jornada. É isso que nos torna tão únicos: o caminho que escolhemos para nós mesmos. Quer pegar a direita aqui? O caminho vai chegar em um determinado lugar. Prefere pegar a esquerda? Então saiba que a estrada leva para outro destino. O importante é escolher a estrada mais honesta para quem somos, o caminho que proporcionará a viagem mais verdadeira.

Fazer 47 anos é uma coisa meio sem graça. Não é uma daquelas idades marcantes, como 40 ou 50, em que realmente fazemos um balanço de quem somos. Mas é uma idade que permite uma boa visão do que passou e uma expectativa bastante pragmática do que virá.

Há alguns meses viajei ao Rio de Janeiro para receber um prêmio. Meu último livro, ‘Um Lugar Chamado Aqui’, havia sido escolhido o Melhor Livro para Jovem de 2016 pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, o que me deixou muito feliz. Quando cheguei lá e vi a dimensão do evento, foi que me dei conta de que aquele prêmio era realmente uma grande honra. Vi dezenas, centenas de lançamentos para jovens, muitas publicações incríveis. E meu livro, em parceria com o ilustrador Daniel Kondo, havia sido escolhido como ‘o melhor’.

O que faz um livro ser ‘melhor’ que outro? O que havia de tão interessante naquela história a ponto de os jurados dizerem que era o ‘melhor livro para jovens’ que havia sido publicado em 2016? Não sei dizer. Não é falsa humildade, não. Realmente não sei dizer. Porque, no fundo, a gente nunca sabe de onde vêm as histórias. Ou as ideias. Há elementos que nos inspiram, mas nunca sabemos exatamente como essas sinapses se formam no cérebro, gerando o que a gente se acostumou a chamar de histórias ou ideias. E o caminho que essas ideias fazem, desde o momento em que nascem, também é um mistério para mim.

Outro dia, comentando sobre o prêmio para um amigo meu, ouvi a pergunta: “e o livro, está dando dinheiro?” A pergunta foi bastante informal, ele não estava querendo saber valores ou detalhes dos números das vendas. Mas essa pergunta tão óbvia para alguém que não trabalha com histórias ou ideias me fez pensar. Não na resposta, mas em que eu sou.

Me fez pensar porque, apesar de toda a sua obviedade financeira, não era a pergunta que eu faria. Não era nem sequer algo que passou pela minha cabeça. O que eu estava interessado em comentar era a história que eu havia contado no livro, ou o porquê do livro ter sido premiado. Mas meu amigo, uma pessoa mais voltada para outros aspectos mais específicos da realidade, havia se interessado pelo eventual lucro resultante das suas vendas.

É claro que eu quero que o livro dê dinheiro. Não sou um ser de outro planeta que renega a importância do dinheiro, muito pelo contrário. Mas esse episódio me despertou para uma característica da minha personalidade que eu não costumo pensar: o valor que dou para o aspecto criativo da vida e para as coisas que julgo realmente importantes. Não do ponto de vista prático, das contas que temos que pagar ou dos objetos que gostamos de comprar. Percebi que as coisas que eu realmente dou valor não podem ser compradas. Elas não tem sequer valor material. Ao constatar isso, surpreendentemente, fiquei feliz por ser quem eu sou.

Isso não chega a ser exatamente uma novidade para mim. Mas em tempos de reflexão, provavelmente graças ao aniversário, essa ideia ganha força. E se torna um elemento a mais de autoconhecimento. O que vou fazer com essa informação, no entanto, eu não tenho a menor ideia.

Fiz muitas opções ao longo desses 47 anos. Muitas erradas, outras tantas, felizmente, corretas. Mas foram todas as melhores escolhas que pude fazer nas determinadas ocasiões em que as fiz, de acordo com a minha personalidade e com quem eu sou. Outra pessoa teria feito outras escolhas? Sim, é por isso que as outras pessoas são as outras pessoas e eu sou eu. Sou eu que faço minhas escolhas, para o bem e para o mal. E me sinto responsável por todas elas, para o bem e para o mal. E será assim até o momento em que eu não possa mais fazer escolhas, para o bem e para o mal. É isso que faz os homens e mulheres livres. Belos e livres.

Não desprezo os erros ao longo dessa jornada, pelo contrário, procuro aprender com eles. Enfim, o importante é reconhecê-los. E, mesmo lembrando de vários erros que cometi, posso dizer que sou um homem feliz. Sou feliz porque sempre fui honesto comigo mesmo, aos meus valores, à vida que estou construindo há 47 anos. Vejo uma coerência que me deixa leve. Deito a cabeça no travesseiro e durmo tranquilo.

Tenho uma carreira profissional, publiquei livros, lancei álbuns, fiz shows. Escrevi muito, pretendo escrever muito mais. Vivo para expressar meus pontos de vista profissionalmente e criativamente da melhor maneira possível. Tenho uma filha linda, a luz da minha vida. Tenho uma família e amigos que moram no meu coração. Meu pai se foi, mas minha mãe está aqui, linda e forte. Não tenho inimigos, não guardo ódio de ninguém. Não tenho nada a reclamar. A vida está passando enquanto faço planos para o futuro e não vejo nenhum problema com isso.

"Seja sempre um homem de bem", escreveu minha avó em um bilhete que li no avião quando viajei para morar nos Estados Unidos, aos 16 anos. Chorei muito naquele momento e continuo chorando até hoje quando me lembro dele. Por saudades dela, mas também porque o meu maior desejo é que minha filha também me ache 'um homem de bem'. O ciclo da vida se repete, por meio dos valores que passamos em família. É uma puta responsabilidade.

Para finalizar essa reflexão, queria voltar novamente à metáfora da vida como viagem onde o destino não é importante, mas a jornada em si. Enquanto vejo um lindo percurso pela frente, tenho orgulho de olhar para trás e ver que todo esse caminho percorrido também está repleto de belas paisagens. O que mais um cara de 47 anos pode desejar?

 

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Abrindo os olhos aos quarenta e seis

 

MROS3374B Abrindo os olhos aos quarenta e seis

Faço aniversário há quarenta e seis anos e mesmo assim não consigo me acostumar. Toda vez que alguém me pergunta a idade e sou obrigado a pronunciar o número em voz alta sinto que alguma coisa está errada. Como assim, quarenta e seis? Sério, Felipe, você já tem quarenta e seis anos?

Essa pergunta é apenas retórica, claro que não olho para o espelho e faço esse tipo de questionamento ao reflexo. Não, eu não seria tão ridículo assim. Afinal, sou um homem de 46 anos.

Mas quando foi que isso aconteceu? Sei lá. Acho que começou quando eu fiz dezoito, atingi a maioridade e tal. Daí, veja só que estranho, poucos anos depois eu já fiz vinte e um! E quanto eu menos esperava, bum: trinta. Daí para quarenta foi um pulo, nem sei como aconteceu tão rápido. E, antes que eu dissesse ‘não-acre-di-to-que-já-te-nho-qua-ren-ta-e-se-is’... bingo!

Fiz quarenta e seis.

Hoje, quando entrei no carro e liguei o som, começou a tocar uma música do The Killers, ‘When You Were Young’ (Quando Você Era Jovem). Apesar do título, a música não tem nada de melancólica, é bem para cima, bastante irônica até. A letra é meio abstrata, sem nexo, mas tem um trecho que é bem interessante: “And sometimes you close your eyes and see the place where you used to live / When you were young”. Traduzindo: “E às vezes você fecha os olhos e vê o lugar onde você costumava morar / Quando você era jovem”.

Ainda moro praticamente no mesmo lugar onde morava quando era criança, mas não é disso que estamos falando. É do sentimento de fechar os olhos e viajar no tempo. Sim, porque quando não se vê absolutamente nada na frente a realidade não existe, apenas a memória e a imagem que temos de nós mesmos. Posso fechar os olhos e lembrar os meus passos correndo pela areia de alguma praia no Nordeste, antes de ser abraçado e levantado do chão com facilidade surpreendente pelo meu pai; posso fechar os olhos e lembrar a minha mãe sofrendo para se levantar e me levar na escola manhã após manhã, depois de chegar tarde após ter trabalhado até altas horas em uma redação de jornal; posso fechar os olhos e lembrar o meu irmão me abraçando com medo, inseguro, quando descobrimos que nossos pais iriam se separar.

Posso fechar os olhos.

Mas então eu abro rapidamente e vejo apenas esta realidade, uma realidade que não tem nada de abstrato, que não me remete a nenhum lugar além deste sobre os quais pouso meus olhos agora e agora e agora. Do lado direito, tenho uma garrafa d’água, meio cheia, meio vazia; um celular que não para de tocar ou emitir mensagens de ‘pin’, bling’, ‘trim’, aparelho insuportável que já tive de afastar algumas vezes para poder me concentrar no que estou escrevendo; e diante de mim há um computador inteirinho preto, iluminado pela luz branca da tela por onde deslizam palavrinhas e letras de maneira graciosa e coerente graças a um software maravilhoso chamado Word. Nos meus ouvidos, a música do filme ‘The Assassination of Jesse James’, de Nick Cave e Warren Ellis, trilha sonora que sempre ajuda meu cérebro a verbalizar sentimentos e ideias.

Quando fecho os olhos, posso ter a idade que quiser. Posso escolher qualquer um dos meus quarenta e seis aniversários: aquele em que meus pais usavam bocas de sino e do qual só sei que isso realmente aconteceu porque algumas fotografias provam isso de maneira incontestável; ou a minha festa de quarenta anos, quando comemorei na cobertura de um hotel de luxo em São Paulo; ou posso escolher ainda o aniversário do ano passado, que comemorei com uma feijoada entre amigos e familiares – se é que amigos e familiares são duas coisas diferentes.

De olhos fechados posso escolher qualquer aniversário, mas de olhos abertos não tenho nenhuma opção além do aniversário de hoje, quarenta e seis anos. Estou mais perto dos cinquenta do que dos quarenta, me lembram os amigos. Estou mais perto dos trinta do que dos noventa, eu poderia responder. Mas não preciso, porque a minha idade não interessa a ninguém além de mim.

Pensando bem, a hora não é de fechar os olhos, mas de abri-los. Só assim posso olhar para frente e ver o futuro que se desenha de maneira cada vez mais interessante, ao lado das pessoas que eu amo e conheço cada vez melhor, enfrentando o dia a dia com um pouco mais de serenidade e menos desespero.

Temos a idade que imaginamos ter, diz outro clichê. Eu não sei como vim parar nos quarenta e seis, até porque acredito que sou exatamente a mesma pessoa que era quando fiz vinte e cinco. Ou talvez eu não seja mesmo nenhuma dessas pessoas, de dezesseis, de vinte e nove ou trinta e três, mas uma pessoa nova, que acumula tudo o que essas outras eram e ainda acrescenta um monte de coisas novas e experiências legais.

Melhor fazer 46 anos do que não fazer 46 anos, se é que você me entende. Todo esse tempo pelo qual já passei me transformou em quem sou, com todos os erros e acertos que vivi. Hoje, quando olho para a minha filha, sinto que tenho a obrigação de cometer cada vez menos erros e cada vez mais acertos. Se não for apenas para o meu próprio bem, para o bem dela. E para que ela, no futuro, quando fechar os olhos e lembrar de quando era jovem, possa também correr para os meus braços e ser levantada do chão com uma facilidade surpreendente.

 

 

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Hey Ho Let’s Go! Minha semana como um Ramone

Marky Ramone live p Hey Ho Let’s Go! Minha semana como um Ramone

Eu na guitarra e Marky Ramone na bateria: Uma experiência musical emocionante e inesquecível. Foto de Camila Cara

Sim, o título deste texto é uma homenagem à autobiografia do baterista Marky Ramone, ‘Minha Vida como um Ramone’, à venda nas livrarias de todo o país. Ao lado de outros ídolos do rock, Marky Ramone faz parte da minha vida desde que sou adolescente. Na última semana, no entanto, ele saiu dos meus alto-falantes e invadiu meu dia a dia. Não preciso nem dizer que foi uma das melhores coisas que aconteceram comigo musicalmente desde que aprendi a tocar guitarra, aos dez anos.

Tudo começou no estúdio da rádio 89 FM, a Rádio Rock, onde apresento o programa MRossi Rockshow, ao lado de MRossi e Fabiano Carelli. Marcelo Rossi, criador e idealizador do programa, é um dos maiores fotógrafos da história do rock brasileiro e um amigo de mais de 25 anos. Fabiano Carelli é um guitarrista incrível que toca no Capital Inicial e, embora eu o conheça há menos tempo, já posso dizer que também já é um grande amigo. Além de amigos, portanto, dividimos os microfones do programa de rádio que vai ao ar na 89 FM todos os domingos, ao vivo, das 21h às 22h.

Há algumas semanas, Marcelo chegou no estúdio com uma grande notícia: um convidado muito especial participaria da festa de comemoração de seis meses do programa. Quem? Ninguém mais, ninguém menos do que Marky Ramone, baterista que entrou para a história do rock como integrante da banda que ‘simplesmente’ inventou o punk: Ramones. Os Ramones são os Beatles do punk, e quando digo 'punk', não estou falando sobre aquela armação chamada Sex Pistols, a quem o próprio Marky chama de 'Boy Band'. Afinal, o Sex Pistols só existiram porque o empresário Malcolm McLaren frequentava a casa noturna CBGB em Nova York e percebeu que bandas como Ramones e Richard Hell seriam a 'próxima onda'. O empresário voltou para Londres, contratou uns malucos e... bingo! Estava inventado o punk... de butique.

Quando topou vir para o Brasil, Marky concordou em não apenas participar do programa, mas fazer um show na festa do programa ao lado de músicos brasileiros. Entre eles, eu e o Fabiano nas guitarras. Hey Ho Let’s Go!

Começamos os ensaios pouco depois. A ideia era ensaiar com um baterista que soubesse tudo sobre Ramones, afinal teríamos pouco tempo para ensaiar com Marky em pessoa. Quem encarou o desafio foi outro grande amigo, Guilherme Martin, que toca comigo no VIPER e no meu projeto solo. Baixista? É claro que tinha que ser o Mingau do Ultraje à Rigor, um dos primeiros baixistas a tocar punk no país. Nos vocais, Dinho Ouro Preto, Supla e João Gordo.

A única recomendação que o Marky passou para a banda: os guitarristas teriam que tocar apenas ‘downstrokes’, ou seja, apenas palhetadas ‘para baixo’ nas cordas. Explico: o som dos Ramones vinha desse estilo agressivo e direto inventado pelo guitarrista Johnny Ramone. Tivemos que nos adaptar, porque é muito difícil fazer isso absolutamente o show inteiro – o Fabiano que o diga, cujos dedos chegaram a sangrar durante um ensaio.

Depois de alguns ensaios, ficamos sabendo quando Marky chegaria ao Brasil: dia 25 de abril, domingo. Ou seja, dia do programa... Corri para a livraria mais próxima e comprei a autobiografia de Marky, ‘Minha Vida Como um Ramone’. Ambientado na Nova York dos anos 1970 e cheio de histórias e ‘causos’, o livro é divertido e apaixonante para qualquer fã de rock. Devorei as 400 páginas em três dias e virei um expert ainda maior em Ramones.

(Abre parênteses: Em 1995, minha banda VIPER havia tocado com os Ramones em uma turnê brasileira que tinha ainda o Sepultura e os Raimundos. Foram shows incríveis, históricos, principalmente o da Pedreira Paulo Leminsky, em Curitiba, um local que não tem paralelo no planeta. Marky tocou nesses shows, mas confessou que não se lembrava de muita coisa... com exceção da Pedreira. Fecha parênteses.)

No dia 25 de abril, Marky Ramone chegou aos estúdios da 89 pouco antes do início do programa. Ele estava exatamente como nas fotos. Jeans preto justo. Tênis All-Star. Penteado típico dos Ramones, preto, com a franjinha quase cobrindo os olhos. Um pouco mais alto do que eu imaginava e com boa e saudável aparência. Camiseta preta sem manga. Óculos escuros Aviator. Um Ramone, bem na minha frente. Uma história viva em carne, osso e alma.

A entrevista na rádio foi ótima, Marky estava bem humorado e contou em detalhes ainda mais pessoais as histórias do livro. Falou sobre a saudade que sente de seus ex-colegas de banda, todos já no Céu dos Rockstars. Falou sobre a noite em que ele, então um garoto de dezesseis anos, sentou-se à mesa do bar com Jimi Hendrix e Jim Morrison caindo de bêbados - e que no dia seguinte ninguém da sua classe acreditou na sua história. Falou sobre a cena de Nova York nos anos 1970, quando os Ramones eram a maior atração do histórico CBGB. Falou sobre o início da carreira, quando ainda tocava com o Dust e Richard Hell, que para ele foi o primeiro punk da história.

Falou sobre o TOC de Joey Ramone. Falou sobre a personalidade controladora de Johnny Ramone e sobre sua ideologia radical de direita. Falou sobre o abuso de drogas de Dee Dee Ramone. Falou sobre essas pessoas e essas histórias com uma tranquilidade tão grande que alguém menos avisado poderia imaginar que estava diante de uma pessoa normal.

Eu, não. Ele falava, contava, lembrava, e eu pensava: ele é um Ramone. O cara na minha frente é um Ramone.

No dia seguinte, gravamos o programa The Noite, do Danilo Gentili, no SBT. Seria a primeira vez que iríamos tocar com Marky e havia no ar uma certa ansiedade, mesmo sabendo que estávamos afiados. Antes da gravação, ensaiamos com as guitarras desligadas no camarim, com Marky batucando em uma cadeira. Achei curioso ele querer tocar com tudo desligado, mas depois me contaram que os Ramones costumavam fazer isso antes do show, assim mesmo, batucando nas cadeiras e com as guitarras sem amplificador.

No programa usamos o equipamento do Ultraje à Rigor, que é a banda residente do The Noite. Não houve problema nenhum: Roger é um amigo de anos e o guitarrista Marcos Kleine é um querido amigo de infância, da época em que brincávamos de esconde-esconde em vez de tocar guitarra. Se bem me lembro, no início da carreira cheguei a ensinar alguns acordes para o cara... hoje só tenho a aprender com ele.

Tocamos ‘Concrete and Clay’, que o Dinho já havia gravado com Marky, e ‘Sheena is a Punk Rocker’, um verdadeiro hino do rock and roll. Infelizmente não dá para dizer que foi um sonho, porque sonhos duram a noite inteira. Aquilo ali foi no máximo um cochilo, já que durou pouco mais de cinco minutos. Uma pena: por mim, teríamos tocado a tarde inteira.

No dia seguinte, acabei ficando como tradutor na coletiva que Marky daria na loja da Cavalera, na Oscar Freire. Ver um Ramone na Oscar Freire é mais ou menos como ver uma modelo da Chanel em um jogo do Corinthians. A coletiva foi ótima, e de lá fomos para o primeiro – e único – ensaio completo com o Marky.

Tocamos o repertório inteiro do show, inclusive com as participações mais do que especiais dos guitarristas Fabio Yamamoto, do Rhino Head, e Julia Cotrim. Também contamos com a presença de Guilherme Martin, que acabou cantando ‘Commando’ e ‘Havana Affair’. E, claro, sem esquecer (senão ela me mata) da nossa poderosa superprodutora Thais Yamamoto.

Foi um ensaio muito legal. Super corrido, uma música atrás da outra, sem descanso, como um show do Ramones. De vez em quando, eu olhava para o Marky tocando e pensava: eu estou tocando guitarra e o cara na bateria é um Ramone.

Ao final, Marky deu o veredito: “Como diria John Lennon, vocês passaram na audição”. Foi uma referência às últimas palavras do Beatle depois do show no teto da gravadora Apple, quando ele disse: “Espero que tenhamos passado na audição”. Com referência a Lennon ou não, nossa banda estava aprovada por um Ramone.

27 de abril de 2016. Comemorando seis meses no ar do programa MRossi Rockshow na rádio 89, Marky Ramone e amigos celebrariam em grande estilo no palco do Johnnie Wash, oficina de moto-bar-barbearia-balada na Vila Olímpia, em São Paulo. Valor do ingresso? Zero. Festa fechada, apenas para 400 sortudos convidados.

One, two, three, four... Dee Dee não estava no palco para fazer a tradicional contagem dos Ramones, mas Marky representou o amigo. E dá-lhe ‘Sheena is a Punk Rocker”. Depois veio a enxurrada de clássicos: ‘Rock and Roll High School’, ‘Oh Oh I Love Her So’, 'Do you Wanna Dance', ‘KKK Took My Baby Away’ (minha favorita)... até ‘Blitzkrieg Bop’. Não preciso nem dizer que o local veio abaixo.

E qual foi a sensação de dividir o palco com um Ramone? Difícil descrever. Tive a sorte de ficar bem ao lado dele no palco, ou seja, fizemos ‘eye contact’ durante uma boa parte do show. Deu para ver que ele também estava se divertindo bastante com toda aquela bagunça. Acho até mesmo que ele chegou a sorrir - e olha que é quase impossível ver a foto de um Ramone sorrindo. De qualquer maneira, a vibração do lugar estava tão boa e havia tanta felicidade rolando no palco, que Marky deve ter sido influenciado pela euforia que emanava dos músicos à sua volta.

Durante o show me peguei várias vezes lembrando das histórias de seu livro, e isso me deixava ainda mais orgulhoso por estar ali, ao vivo, dividindo aquele palco com ele. Imaginei o jovem Marky e os outros Ramones no CBGB, no Japão ou em qualquer outro ponto do planeta pelo qual eles já tivessem tocado. Lembrei das histórias, das lendas, das canções. Percebi que o protagonista das histórias malucas que eu havia lido no livro – e de muitas outras imortalizadas no grande livro do Olimpo do rock – estava ali do meu lado, tocando seu estilo inconfundível e marcante que influenciou e influencia tanta gente até hoje.

Estou tocando 'Sheena is a Punk Rocker' e o cara na bateria é o Marky Ramone.

Dividir o palco com Marky Ramone foi uma experiência inesquecível que vou levar para sempre. Depois do show, durante a megafesta regada a Jack Daniels que rolou no camarim, eu ainda estava me beliscando. Só me restou dizer mais uma coisa: obrigado, Marky, por topar esse plano maluco do MRossi e aceitar tocar com músicos brasileiros que você nem conhecia. Só uma verdadeira lenda do rock teria a coragem e generosidade de permitir que uns caras que te admiram tanto pudessem ser, mesmo que por apenas uma semana, um Ramone.

 

Johnnie Wash 024 p Hey Ho Let’s Go! Minha semana como um Ramone

Marky Ramone & Friends: A festa que começou no palco e terminou no camarim foi uma balada regada a doses de felicidade, Jack Daniels e rock & roll

 

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Euclides da Cunha, 150 anos: Dos Sertões ao Paraíso Perdido

Hoje é um dia especial para a literatura brasileira: há exatos 150 anos nascia Euclides da Cunha, um de nossos maiores escritores.

Minha relação com Euclides começou há muitos anos, quando eu ainda era criança e via meu avô folheando sua gasta edição de 'Os Sertões', totalmente sublinhada com os trechos que ele mais gostava. Mais tarde, no longo período em que trabalhei no Estadão, lembro de passar pelo sombrio e imponente corredor que levava à Redação e dar de cara com seu retrato, entre tantas outras personalidades que passaram pelo jornal - muitos deles, até então, eu conhecia apenas por serem nomes de ruas.

Eu passava pelo retrato e, todo dia, em silêncio, agradecia a Euclides em nome do meu avô.

Nunca contei isso a ninguém.

Em homenagem aos 150 anos de Euclides, segue abaixo o link para 'Um Paraíso Perdido', documentário que dirigi para a TV Estadão e que foi exibido também pela TV Cultura. O filme retrata a viagem realizada em 2009 pelo jornalista Daniel Piza e o fotógrafo Tiago Queiroz​ ao longo do rio Purus, na reconstituição da expedição amazônica chefiada em 1905 pelo escritor e engenheiro Euclides da Cunha.

Além do visionário Euclides, o documentário nos lembra o talento do saudoso amigo Daniel Piza, um dos grandes colegas que partiram muito cedo. Ele morreu em 30 de dezembro de 2011 e até agora eu não acredito nisso. Fiquei emocionado ao rever o vídeo e imaginar o que Daniel poderia ter feito se ainda estivesse entre nós.

Um grande beijo para a minha querida amiga Renata Piza​ e toda a família do Daniel.

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Todas as famílias felizes do mundo são iguais

Tio Reolando Todas as famílias felizes do mundo são iguais

O patriarca Reolando Silveira aos noventa anos: Um homem do tempo em que os homens tinham tempo para contar suas histórias

No último dia 20 de junho, minha família se reuniu para comemorar uma data especial: os noventa anos do Tio Reolando, meu tio-avô e um dos nossos patriarcas. Não preciso nem dizer que foi um festão, daquelas que a gente passa a noite abraçando pessoas queridas e acorda no dia seguinte com um sorriso nos lábios e a certeza de que o mundo tem jeito.

Engana-se quem imagina que o aniversariante, do alto de seus noventa anos, permaneceu estático na cadeira, apenas esperando os comprimentos pró-forma e o beija-mão dos súditos. Como patriarca de uma família repleta de gente festeira, fez jus ao título: foi o primeiro a chegar e o último a sair. Dançou, fez discurso, degustou o vinho com tanto prazer que parecia que as uvas tinham sido pisadas pelo próprio Baco.

A vida que ele tanto amava, no entanto, lhe pregou uma peça alguns meses atrás. Depois de uma ascensão de nove décadas, veio a queda literal: o homem, cuja vitalidade desafiava o tempo e cujo carisma enganava a sombra, foi hospitalizado após cair na rua dia desses em São Paulo. Na última madrugada, a morte o levou para o panteão dos eternos patriarcas.

Mas não será a imagem do corpo sem vida que ficará dele. A morte o levou, mas não o venceu. A memória é mais forte que o vazio. Por isso lembro hoje e lembrarei sempre da noite em que me reuni com seus amigos de mais de quarenta anos, uma turma de velhos comunistas que tomava cerveja todas as terças-feiras no Bar do Alemão, em Perdizes. Até fiz matéria para o Jornal da Tarde sobre a turma, homens forjados numa época em que os homens tinham histórias para contar. Época em que as pessoas não sentavam numa mesa e passavam a noite consultando seus celulares ridículos, quando tanta vida real acontecia diante de seus olhos. Esses homens tinham tantas histórias, aliás, que juntaram muitas delas em um livro, batizado sem originalidade nenhuma de ‘Sempre às Terças’. Pensando bem, desnecessário se preocupar com um título original em uma coletânea de casos e personagens tão únicos...

Velórios são momentos em que a família tenta se consolar lembrando histórias inesquecíveis de personagens que não podem contestá-las nem proibi-las, numa luta árdua para mantê-los por aqui. Esquecemos que a luta é uma grande bobagem, porque não são apenas as histórias deles que ficam, mas sim o que nos foi ou não foi ensinado. O resto é bate-papo: “Puxa, que engenheiro ele foi...”, “um velho comunista até a morte, hein?”, “seu maior orgulho foi ter construído a hidrelétrica de Barra Bonita” – e por aí vai. E, por aí, foi.

Meu avô teve cinco irmãos, e Tio Reolando era o mais novo deles. O ‘irmão caçula do meu avô’, olha só que descrição curiosa. Esse irmão caçula olhava para meu avô com respeito e orgulho. E minha mãe lembrou ontem de uma história dos dois: ainda jovem, meu tio estava triste porque ia passar o Réveillon sozinho em São Paulo. Meu avô trabalhava no Palácio do Governador, então nos Campos Elíseos, centro da cidade, como Chefe do Gabinete. Não teve dúvidas: convidou o caçula para passar a noite no Palácio, onde conheceu e confraternizou com o governador e seus familiares. A simples menção ao nome do meu avô – a quem ele chamava de ‘Machadão’ – enchia os olhos do Tio Reolando de lágrimas até o dia em que seus olhos não abriram mais.

Lágrimas, aliás, são bem comuns nessa família de chorões. Elas também queriam brincar pelo rosto do Tio Reolando quando ele olhava para mim, para o meu irmão, para a minha mãe. Tudo porque ele se lembrava do meu avô. E não se continha: ‘deixei o bigode crescer por causa dele’, ele dizia, tentando explicar que o respeito ao irmão mais velho era tão grande que ele trazia estampado no rosto. E o bigode o deixava realmente parecido com meu avô, minha grande referência que perdi aos dez anos. Tão novo, que pena, eu e ele. De certa forma, Tio Reolando foi também um pouco meu avô, ou, pelo menos, foi o homem mais perto de ser o avô que eu tanto precisei mais tarde e não pude ter.

Por mais que seja poderosa, a morte não apaga a história. E a história é feita de famílias como a minha, como a sua. Afinal, famílias felizes são sempre iguais. E uma família é feita de seus homens e mulheres, de suas vidas e mortes, de suas histórias e personagens. Nossa família perdeu um grande personagem, mas a história continua. Escrevo isso e já imagino meu Tio Reolando dizendo algo parecido, enquanto abria o sorriso e desarrumava meu cabelo como se eu ainda fosse uma criança.

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Quer me dar um presente de aniversário? Ouça FM Solo

FM Estudio Quer me dar um presente de aniversário? Ouça FM Solo

Felipe Machado, guitarrista do VIPER, lança seu primeiro álbum, 'FM Solo'

Hoje eu faço 45 anos e resolvi comemorar o aniversário de uma forma diferente: eu mesmo me dei um presente. Tudo bem, já imagino que você vai me chamar de egoísta ou algo parecido, mas a verdade é que não é nada disso. Depois de tantos anos tocando em uma banda, o VIPER, resolvi me dar de presente o lançamento do meu primeiro álbum solo.

Pode soar estranho, mas se você pensar bem vai ver que não é tão esquisito assim. Muita gente aproveita o aniversário para comprar alguma coisa que sempre quis, um carro zero, uma guitarra novinha, um relógio dos sonhos. Pois eu não quero nada disso. Para mim, as melhores coisas são abstratas: um projeto novo, um sonho realizado, uma oportunidade de expressar a criatividade.

‘FM Solo’, meu primeiro álbum solo, é isso. E foi por isso que escolhi o dia de hoje para o seu lançamento. Não quero presentes, não preciso de nada que eu já não tenha, não tenho nenhum grande sonho material. Quero apenas que você ouça o disco e me diga a sua opinião sincera. Se gostar, vou ficar muito feliz. Se odiar, obviamente não vou ficar tão feliz assim, mas pelo menos vou ficar satisfeito de saber que você doou um pouco do seu tempo para ouvir e dar a sua opinião. Enfim, se eu pudesse escolher um presente hoje, eu diria que é saber a reação das pessoas.

Como não dá para fazer isso pessoalmente, pode comentar aqui nesse post, usar o Facebook ou me dizer pessoalmente no show de lançamento em São Paulo, dia 10 de setembro, às 21h, no Na Mata Café (R. da Mata, 70, Itaim). Ao vivo a banda é incrível: Val Santos na guitarra, Rob Gutierrez no baixo e Guilherme Martin na bateria. Além de grandes músicos, são grandes amigos. E, pensando bem, a amizade desses caras é um presente que eu quero continuar ganhando todo ano.

Agora vamos lá: se você quiser comprar o CD, baixar o digital ou ouvir no streaming, é fácil:

Para comprar o CD ou a camiseta, clique na loja do Wikimetal.

Para baixar a versão digital, clique aqui para acessar a loja da Apple iTunes Store.

Para ouvir o álbum por streaming, pode acessar qualquer plataforma digital, porque FM Solo está disponível em todas elas.

E se você é comerciante e quer vender FM Solo na sua loja, clique aqui para acessar a distribuidora Voice Music.

Obrigado desde já! Abs, F.

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Dos brinquedos à caixa de memórias

FM barba1 Dos brinquedos à caixa de memórias

4 de agosto de 2013

Engraçado como as palavras mudam de significado de acordo com o tempo. De acordo com o nosso tempo, para ser mais exato. 'Aniversário' é uma delas. Quando a gente é criança, a palavra faz os olhos brilharem e parece trazer um saco de brinquedos pendurado em alguma de suas onze letras.

Na adolescência, os presentes também 'crescem', deixam de ser brinquedos. E as pessoas que te desejam 'feliz aniversário' também são outras. Agora elas são escolhidas a dedo por você, ao contrário da fase anterior, quando você não tinha o menor poder sobre a lista de convidados de sua própria festa.

Como a vida passa cada vez mais rápido, de um dia para o outro você faz trinta anos. E vira um adulto, quase sempre muito diferente do que você imaginava ser na agora distante época em que o saco de brinquedos parecia vir pendurado na palavra 'aniversário'.

Depois dos 40, então, ouvir um 'feliz aniversário' ganha um certo ar de seriedade, de cerimônia até. Como se você não fosse mais aquele garoto que ganhava brinquedos, mas um adulto que dá brinquedos a outras crianças, geralmente filhos dos seus amigos. O problema é que ainda nos sentimos como antes, como sempre, mesmo quando o corpo insiste em nos lembrar que o tempo não significa mais a mesma coisa que significava 40 anos atrás.

Hoje eu faço 43 anos. Já sei que muita gente vai chegar para mim e dizer: 'já está mais perto dos 45 do que dos 40, hein?'. Não precisarei responder, é uma brincadeira óbvia. O que não é tão óbvio é tentar descobrir onde foram parar esses 43 anos que passaram tão rápido.

Eu sei, é só um número. Na minha cabeça, não tenho 43. Devo ter uns 27, no máximo. Li em algum lugar que a gente escolhe uma idade e fica com ela para sempre. É a idade com a qual nos identificamos quando olhamos no espelho, não importa se o reflexo que ele oferece em troca está repleto de espinhas ou rugas.

Não sei dizer se estou sofrendo uma crise da meia-idade, simplesmente porque não sei dizer se estou na metade da minha vida. Gostaria de imaginar que é possível chegar aos 100 anos, embora alguns órgãos do meu corpo deem risada quando esse pensamento passa pela minha cabeça. Acho que eles estão sendo irônicos, mas quem sou eu para discutir? Nunca vou deixar de ser apenas um cérebro conectado a um sistema nervoso, mesmo quando me considero o cara mais calmo do mundo.

Acho que os números 'redondos' (20, 30, 40) provocam mais reflexão sobre a vida do que um simples 43. Meu aniversário, hoje, é apenas uma transição entre quem eu era ontem e quem eu serei amanhã.

E é aí que reside uma pequena dúvida: quem serei eu amanhã? Não muito diferente de quem sou hoje, até porque não dá tempo. E eu nem quero. Dizem que o homem só é feliz quando aceita quem é, quando admite para si próprio seus defeitos e qualidades. Ainda não cheguei lá. Ainda sonho em corrigir meus defeitos e aprimorar minhas qualidades. Talvez seja isso que me incomoda, que me traz certa melancolia quando lembro que estou fazendo 43.

"Mas você tem a vida inteira pela frente, é apenas um garoto", direi para mim mesmo, quando eu estiver prestes a fazer 99. Na verdade, não sei quanta vida terei pela frente, mas tenho orgulho da vida que já deixei para trás.

Motivos não faltam: minha filha maravilhosa, minha família querida, meus amigos inseparáveis e pacientes. Quantas ondas já pulei? Quantos ventos já senti no rosto? Quantos goles de água gelada já tomei quando tive sede? Não posso reclamar. Ainda mais quando começo a entender que a palavra 'aniversário' não traz mais um saco de brinquedos pendurada, mas uma caixa de memórias, ainda cheias de espaços vazios.

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São Paulo, palco das nossas vidas

ponte estaiada São Paulo, palco das nossas vidas

Hoje é aniversário de São Paulo, mas muita gente acha que a cidade não merece festa. Motivos para os críticos não faltam: enchentes, trânsito e violência são as primeiras das várias razões que me vêm à cabeça. Mas permita-me discordar um pouco desse pessimismo e dizer com todas as letras: apesar dos problemas, eu amo São Paulo.

Claro que tudo isso me incomoda. Mas é justo criticar a cidade? Não seria mais honesto admitir que ela é o reflexo do que fazemos dela? As ruas são apenas o palco onde nós, cidadãos, encenamos nossos próprios dramas, alegrias, fracassos, sucessos.

Não, não esqueci dos políticos incompetentes, responsáveis por muitos desses problemas. Mas até nesse caso a culpa também é nossa: eles não chegaram lá por acaso; foram eleitos.

Guarde a raiva na gaveta por um momento e reflita. Você não acha que a culpa pelas enchentes também é do cara que joga lixo no bueiro ou das empresas que poluem o Tietê? E o trânsito, não fica pior graças ao preguiçoso que usa o carro até para ir à esquina ou os ricos que compram outro carro para fugir do rodízio? E o que você acha da garotada (de todas as classes sociais) que usa drogas na balada e daí é assaltada e reclama da violência do tráfico?

São Paulo não tem culpa. Voltando à metáfora do início do texto: a culpa nunca é do palco, mas dos atores. E os atores somos nós.

Uma pesquisa diz que seis em cada dez paulistanos gostaria de deixar a cidade. Por acaso estão acorrentados às suas camas? São Paulo não precisa de gente que odeia a cidade, precisa de gente que quer fazer daqui o melhor lugar do mundo. Não só para nós, mas para nossos filhos. E se esses entrevistados deixassem mesmo a cidade, São Paulo ficaria como no feriado de hoje: mais vazia. E muito mais gostosa.

A minha São Paulo é maior do que os problemas que a afligem: é a cidade onde nasci, onde cresci, onde estão meus amigos e minha família. É por isso que eu te amo, São Paulo. Parabéns para nós, por termos você como palco das nossas vidas.

 

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O maldito e abençoado tempo

F kid1 O maldito e abençoado tempo

Entre morrer e ficar velho, acho que prefiro a segunda opção

Quando eu era criança, homens de 42 anos eram velhos. Ou pelo menos era assim que parecia, já que 42 era um número muito, muito distante da minha realidade de então. Os  adultos tinha cara de adultos, usavam roupas de adultos,  comportavam-se como adultos.

Simplesmente não consigo me ver como adulto - no sentido ‘careta’ da palavra, claro. Engraçado como o futuro chega sempre antes do previsto. Ou talvez o futuro chegue na hora certa, a gente é que devia ter se preparado melhor. O tempo, essa maldita e abençoada entidade divina que  nos move, escreve certo por linhas tortas. Não, não é síndrome de Peter Pan. Só acho que vou morrer com o mesmo espírito adolescente que tem me guiado ao longo des ‘4 de agostos’ da minha vida.

Ontem foi meu aniversário. Obrigado pelos parabéns. Fiz 42, mas garanto que mantenho com disciplina de guitarrista e escritor um corpinho de... 41 e meio, vai. A alma, no entanto, parou na casa dos 20. Como isso é possível? Eu também não sei. Mas é como me sinto.

Será que algum dia a gente vai se sentir realmente com a idade que tem? Ou será que seremos sempre mais jovens do que imaginamos ser, escravos de um desejo inconsciente de viver eternamente?

Olho no espelho e vejo alguns reflexos dessas 42 vezes que fiz ‘X’ no calendário. Uma ruguinha aqui, um pouco de cabelo branco ali.

Tudo bem, tranquilo. “Velho, sim, velhaco, nunca”, como diria Ulysses Guimarães. Mas a verdade é que o nosso corpo, sem dúvida alguma, envelhece mais rápido do que a nossa mente. Pergunte a qualquer um.

O que acho mais esquisito, no entanto, é a maneira como alguns adolescentes olham para mim: como se eu fosse um adulto. Como eles podem estar tão errados? Será que não percebem como isso é absurdo? Adoraria saber tudo que sei hoje e comemorar 23 anos, em vez de 42. Mas invertendo a pergunta, será que eu abriria mão de tudo que vivi para voltar aos vinte e poucos? Claro que não. O que eu fui, o que eu sou, o que eu serei, ninguém tira. Nem essa maldita e abençoada entidade divina que  nos move... o tempo.

 

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Quarenta e um é apenas um número

 

quadro Quarenta e um é apenas um número

Um quadro na parede não sabe a própria idade

Apesar de estar 365 dias mais velho, fazer quarenta e um anos não tem nem de longe o peso dos quarenta. Quarenta é um símbolo, quarenta e um é apenas um número. Maior? Sem dúvida. Mas a carga que ele traz também carrega outras doses superlativas: mais experiência, mais serenidade, mais… idade. E a certeza de que a realidade está escrita, sim, mas somente até a página dois.

Lembro da minha festa de quarenta anos e sorrio diante da minha ingenuidade em tentar prever ou planejar o ano que se iniciava ali. Não é que deixei de ser jornalista e virei toureiro em Madri, nem mudei meu endereço de São Paulo para o Tahiti. Mas o cotidianozinho do meu dia a dia sofreu uma certa revolução, assim como as pessoas ao meu redor passaram a ter rostos diferentes. Não precisei me tornar físico para aprender que um tijolo é tão sólido quanto um sopro de ar. Nunca mais vou subestimar a interferência que pessoas aparentemente insignificantes podem ter no que você acreditava que era apenas seu. Se o mundo é globalizado, imagine então o nosso mundo.

No início tudo causa uma indelicada estranheza, mas depois que as ondas passam o mar se acalma. A correnteza desaparece, e por alguns momentos o oceano vira uma lagoa. Fazer quarenta e um é entender tudo isso, mas tenho certeza de que poderia ter sido aos trinta e oito ou aos quarenta e cinco. É por isso que quarenta e um não é importante: é apenas um número.

Se aos quarenta a vida parecia ser um caminho previsível e tranqüilo, aos quarenta e um a gente pode acordar uma manhã e perceber que esse trajeto é feito também de curvas, não apenas de retas. Mas digo isso sem nenhuma emoção, até porque quem está na direção precisa renovar as energias. Retas longas e monocórdias produzem sono; curvas radicais podem ser mais perigosas, mas pelo menos fazem o coração bater mais rápido. E nos lembram de que estamos vivos. Cada vez mais vivos, por mais contraditório que soe essa percepção – principalmente quando é dita por alguém que acaba de ficar mais velho.

 Enquanto faço quarenta e um, minha filha se prepara para fazer cinco anos. “Como passou rápido” é o primeiro pensamento que vem à mente. “Mas como falta tempo para ela saber tudo o que eu sei” vem logo em seguida, sem nenhum traço de pretensão. Ela ainda terá que aprender matemática, entender como funciona o corpo humano, descobrir quem descobriu o Brasil. Tantas informações necessárias para a vida; outras tantas nem tanto. Todas, porém, devem ter ajudado a construir quem sou, assim como ajudarão a construir quem ela será. Provavelmente uma pessoa muito melhor que eu, segundo os escritos sagrados da evolução. Mesmo assim, aposto que daqui a trinta e seis anos ela descobrirá a mesma coisa que descubro hoje: que quarenta e um é apenas um número.

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