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Livro traz perfis das maiores musas da história do cinema

Brigitte Livro traz perfis das maiores musas da história do cinema

Para o autor do livro sobre as estrelas mais belas das telas', a atriz Brigitte Bardot foi a maior musa da história do cinema

O jornalista Adriano Coelho tem três paixões na vida: rock and roll, futebol e mulheres. Não necessariamente nessa ordem, mas também não necessariamente em outra. Na verdade, não tenho a menor ideia. Só sei que ele foi editor da revista Rock Brigade, organiza um futebol beneficente todo final de ano e escreveu um livro sobre as musas da história do cinema. Na entrevista a seguir, o jornalista fala apenas sobre uma de suas paixões: as mulheres, que renderam o livo 'Musas - O Momento das Mulheres Através do Cinema'.

Por que você decidiu escrever esse livro?

Adriano Coelho - Em 2002 eu estava fazendo um curso de web design, mas queria me dedicar a um tema diferente, já que minha imagem estava muito atrelada ao rock e o futebol. Naquele ano, a atriz Brigitte Bardot estava lançando sua biografia, então aproveitei a oportunidade para fazer uma homenagem às diversas divas do cinema. Escolhi 26 entre uma lista enorme, e mantive os textos em um blog durante um ano. No final desse período, editei os textos e acrescentei outros, e o livro acabou ficando com 62 musas

Quais seriam, na sua opinião, as Top 10 musas da história?

1. Brigitte Bardot

2. Marlyn Monroe

3. Audrey Hapburn

4. Rita Hayworth

5. Debra Paget

6. Anita Ekberg

7. Greta Garbo

8. Jayne Mansfield

9. Sophia Loren

10. Catherine Deneuve.

E entre as brasileiras?

A única grande musa mundial que chega perto do Brasil é a Carmen Miranda, que nasceu em Portugal, mas se considerava brasileira.

Qual é sua favorita?

Brigitte Bardot me encanta demais.

As mulheres do cinema eram mais bonitas no passado? Por quê?

Todas as gerações tiveram mulheres bonitas. Meu livro tem uma mulher que nasceu em 1885, outra que nasceu em 1946, ou seja, épocas diferentes. Mas acho que o período mais marcante do ponto de vista cultural da beleza feminina foi entre os anos 1930 e 1960, caindo um pouco com a liberação feminina no início dos anos 1970.

E se formos comparar as musas do cinema atual com as do passado?

Acho que antigamente elas eram mais vaidosas, mas também com uma necessidade e carência maior de aparecer. Em relação ao talento, sempre houve boas e más atrizes em todas as épocas.

 

musas Livro traz perfis das maiores musas da história do cinema

 

 

 

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70 coisas que você não sabia sobre David Bowie

David Bowie2 70 coisas que você não sabia sobre David Bowie

Depois de lançar 'Blackstar' dois dias depois de sua morte, David Bowie lança o EP 'No Plan' no dia em que completaria 70 anos

Há um ano, morria David Bowie, um dos artistas mais incríveis, talentosos e inovadores que o mundo da música já viu.

Anteontem, quando faria 70 anos, a gravadora de Bowie lançou o EP de inéditas 'No Plan', cuja letra fala sobre "um lugar onde não há música", nem 'planos'. Lembrando que Bowie lançou 'Black Star' dois dias depois de sua morte, no ano passado, a gente começa a desconfiar... em que planeta Bowie está vivendo? Sim, porque a gente só morre quando é esquecido.

E para contribuir para o não-esquecimento de Bowie - e em homenagem a seus 70 anos - segue uma lista com 70 coisas que você não sabia sobre David Bowie. Se sabia 1, 2 ou as 70, não tem o menor problema: você é como eu e aceita a verdade universal de que Bowie não morrerá nunca.

 

1.Nas paradas há mais de 40 anos
Bowie lançou ‘Where Are We Now’, single do disco 'The Next Day', no dia do seu aniversário de 66 anos, 8 de janeiro de 2013. A música entrou direto para o Top 10 na Inglaterra, ficando em sexto lugar. Sua primeira canção a entrar para as paradas britânicas foi ‘Space Oddity’, em 1969. Além de vender mais de 140 milhões de discos em toda a sua carreira, Bowie é um dos raríssimos artistas no planeta que frequenta o topo das paradas há mais de quarenta anos.

2.Presente de aniversário
Bowie lança mais uma vez um disco novo no dia de seu aniversário: hoje, 8 de janeiro de 2016, ele está lançando ‘Blackstar’. Em 2013, na mesma data, havia lançado ‘The Next Day’, seu primeiro disco depois de um hiato de dez anos.

3.Jazz NYC
No final de 2014, Bowie lançou a canção ‘Sue (Or in a season of crime)’, com a participação da Maria Schneider Orchestra. Bowie queria voltar a trabalhar com Schneider em ‘Blackstar’, mas como ela não podia porque estava gravando seu novo álbum, sugeriu o saxofonista Donny McCaslin, figurinha carimbada do jazz de vanguarda de Nova York. Bowie foi assisti-lo ao vivo e gostou tanto que chamou o cara para ser parceiro.

4.Obra de arte no videoclipe
O responsável pelo visual do belo e melancólico vídeo da canção ‘Where Are We Now’, do álbum 'The Next Day', com a cabeça de Bowie inserida no corpo de um boneco, é o artista americano Tony Oursler. Considerado um dos mais criativos ‘videoartists’ da atualidade, Oursler é o destaque de uma exposição inaugurada em fevereiro no museu Tate Modern, em Londres. A letra faz uma viagem por um local pelo qual Bowie tem verdadeira fascinação: a cidade de Berlim.

5.Letras baseadas na história
Segundo Tony Visconti, a temática abordada nas letras de 'The Next Day' eram as mais variadas e complexas da carreira de Bowie. O produtor revelou que o cantor andava obcecado por história medieval britânica e história contemporânea russa, temas que, segundo ele, “são ótimas fontes de inspiração para canções de rock”. Há ainda ‘Valentine’s Day’, sobre os massacres de atiradores em escolas americanas, e ‘I’d Rather Be High’, sobre um soldado da Segunda Guerra Mundial.

6.Segredo levado a sério
Os músicos que tocaram em ‘The Next Day’ – Jerry Leonard, Earl Slick, David Torn e Gerry Leonard (guitarra), Sterling Campbell e Zachary Alford (bateria), Gail Ann Dorsey (baixo) e Steve Elson (saxofone) – tiveram que assinar contratos de confidencialidade, proibindo-os de fazer qualquer comentário sobre a gravação ou o projeto. Eles não podiam nem revelar que haviam se reunido com Bowie.

7.Obsessão pelo sigilo
Bowie gravou ‘The Next Day’ no estúdio The Magic Shop, no bairro do SoHo, em Nova York. Ele estava tão obcecado pela natureza sigilosa do projeto que exigiu que o estúdio desse folga a toda equipe sempre que ele estivesse no local. Apenas dois técnicos de sua confiança puderam acompanhar o processo. Até o técnico de som do guitarrista Earl Slick foi proibido de entrar no estúdio.

8.Em 2013, um novo começo
O produtor Tony Visconti, afirmou que Bowie vive desde 2013 mas “um novo começo”. Em 'The Next Day', ele gravou 29 músicas novas, mas apenas 17 entraram na versão DeLuxe do álbum. Será que 'Blackstar' traz um pouco dessas sobras de estúdio?

9.Segredo com a gravadora
Para garantir o sigilo em relação a 'The Next Day', nem a gravadora de Bowie, a Sony Music, sabia que ele estava em estúdio até o último momento possível. Rob Stringer, presidente da Sony e um dos homens mais poderosos do showbiz mundial, só ficou sabendo sobre o projeto no final de 2012, um mês antes da música ‘Where Are We Now’ ser lançada. Ao questionar Bowie sobre a campanha do lançamento, o cantor foi enfático: “Não haverá campanha. Vamos lançá-la na internet no dia 8 de janeiro e pronto”. Ele fez quase a mesma coisa com 'Blackstar': pouca gente sabia sobre o disco.

10.Equipe reduzida
No auge da carreira de Bowie, nos anos 70, seu empresário Tony Defries montou a empresa MainMan para cuidar de sua carreira e agenciar outros artistas. O problema é que só Bowie dava lucro e a empresa torrava milhares de dólares com limusines, drogas e festas. O resultado foi um caos: Bowie perdeu milhões com os prejuízos e, posteriormente, com os processos trabalhistas. Hoje, seu escritório em Nova York tem apenas dois funcionários: o empresário Bill Zysblat e a ‘faz-tudo’ Corrine ‘Coco’Schwab, braço direito de Bowie desde os anos 70. Bowie confia tanto em Coco que escreveu uma canção para ela, ‘Never Let Me Down’.

11.Medo da esquizofrenia
A mãe de Bowie, Margaret Mary Burns, e suas quatro irmãs tiveram sintomas de esquizofrenia graças aos traumas causados pela Segunda Guerra Mundial. Quando era adolescente, Bowie não se perguntava ‘se’, mas ‘quando’ começaria a ficar maluco. Seu meio irmão Terry, por parte de mãe, não teve a mesma sorte e foi internado diversas vezes com problemas psiquiátricos até cometer suicídio em 1985. Nos anos 70, quando era viciado em cocaína, Bowie desenvolveu uma paranoia típica dos usuários da droga: passou a ter medo de altura, recusava-se a viajar de avião e tinha medo até de entrar em elevadores.

12.Pai foi um fracasso como empresário do showbiz
O pai de David Bowie, Haywood Stenton Jones, tinha outra família antes de se casar com a mãe do cantor. Sua primeira mulher, Hilda Sullivan, tocava piano, cantava e dançava. Jones era tão apaixonado que investiu toda a herança que recebeu após a morte do pai, três mil libras (cerca de US$ 80 mil hoje), na carreira da mulher. O musical de Hilda foi um fracasso, e o casal acabou se separando. Decidido a começar vida nova, Jones trabalhou como porteiro de hotel antes de conhecer a mãe de Bowie.

13.Aniversário com o ídolo
Por uma dessas coincidências do destino, Bowie faz aniversário no mesmo dia que um de seus maiores ídolos, Elvis Presley. O rei do rock era um pouco mais velho: nasceu em 1935 enquanto Bowie nasceu em 1947, doze anos depois. Mais tarde, quando assinou com a gravadora de Elvis, a RCA, os executivos do selo encheram o camarim de Bowie com discos do Rei e deixaram um bilhete: ‘Esse é o tipo de artista que temos nessa gravadora’.

14.Conterrâneo do ‘inventor do amanhã’
Bowie passou a adolescência vivendo com os pais no subúrbio londrino de Bromley. O pequeno bairro teve outro morador famoso: H.G. Wells, um dos pioneiros da ficção científica. Entre outros clássicos, Wells escreveu ‘A Guerra dos Mundos’ e ‘A Ilha do Dr. Moreau’. Ironicamente, o sucesso de Bowie veio quando ele ‘se tornou’ um personagem de ficção científica, Ziggy Stardust. Bowie e H.G. Wells, considerado ‘o inventor do amanhã’, tinham ainda outro sonho em comum: sair de Bromley o mais rápido possível e se mudar para Londres.

15.Primeiro emprego
O pai de Bowie conseguiu para o filho um emprego temporário de eletricista, mas ele se recusou a aceitar. O orientador vocacional da escola sabia que ele queria algo ligado à música – e lhe arranjou um emprego numa fábrica de harpas. Mas é claro que Bowie também não durou muito ali. O professor Owen Frampton, deu mais sorte: pai do guitarrista Peter Frampton, seu amigo de infância, Owen conseguiu para ele um emprego de designer da agência de publicidade JWT, em Londres. Oficialmente, seu cargo era de ‘Visualizador Júnior’ – o que quer que isso signifique.

16.Amizade com o chefe
Apesar de não gostar muito do emprego de designer, Bowie ficou lá quase um ano porque a agência era em Londres. Bowie gostava do estilo dos colegas – corte de cabelo raspadinho estilo Gerry Mulligan e botinhas Chelsea – e ficou amigo do chefe, Ian. Havia, porém, um interesse escondido: Ian não se importava que Bowie passasse as tardes na Dobell’s, a melhor loja de discos de Londres na época.

17.Ao mestre com carinho
Bowie começou a ter aulas com o lendário saxofonista de jazz Ronnie Ross aos doze anos – quatro meses depois, descartou as aulas “porque já sabia tocar muito bem”. Anos depois, Bowie retribuiu o ensinamento: convidou Ross para tocar em uma canção de um cara ainda desconhecido que ele estava produzindo. O solo de sax do antigo professor foi eternizado em ‘Walk on the Wild Side’, de Lou Reed.

18.Maquiagem precoce
A androginia sempre foi um dos traços mais marcantes da carreira de Bowie. Segundo sua mãe, o gosto por usar maquiagem começou ainda criança, aos três anos. “Um dia, enquanto eu conversava com uma visita, ele subiu sozinho até meu quarto e encontrou um estojo com batom, delineador e pó compacto”, contou a mãe de Bowie, repreendendo o filho. Ainda segundo ela, a resposta dele foi simples. “Se você usa, mamãe... por que eu não posso usar?”

19.Música e aritmética
Quando Bowie começou a aprender saxofone e violão, a primeira canção que ele aprendeu foi ‘Inchworm’. Composta por Frank Loesser, ela apareceu pela primeira vez em 1952 no filme ‘Hans Christian Andersen’ na voz de Danny Kaye. Sua letra é famosa entre as crianças pelo refrão ‘matemático’: “Dois e dois são quatro / Quatro e quatro são oito / Oito e oito, dezesseis / Dezesseis e dezesseis, trinta e dois”. É uma música simples, mas serviu de inspiração para muitas das composições que Bowie escreveria ao longo da vida. “Você não acreditaria na quantidade de músicas que foram inspiradas por aquela única canção”, revelou Bowie.

20.Rebelde com causa
Um dos maiores ídolos de Bowie não era músico, mas um astro de Hollywood, e talvez tenha vindo daí o seu amor pela atuação. James Dean exercia um fascínio tão grande sobre Bowie que o cantor passou a dizer em entrevistas que ele e Dean “eram provavelmente muito parecidos”. Bowie contava que ouviu isso de outra estrela, Elizabeth Taylor, que contracenou com James Dean em ‘Assim Caminha a Humanidade’, pouco antes da morte do ator, em 1955.

21.Pioneiro do videoclipe?
Para divulgar o disco ‘Allandin Sane’, de 1973, Bowie já sonhava com uma abordagem multimídia para a sua carreira. Contratou o fotógrafo Mick Rock para fazer o videoclipe da música de trabalho, ‘The Jean Genie’. O roteiro trazia Bowie vestido como o seu ídolo James Dean e contracenando com Cyrinda Foxe, a sósia de Marilyn Monroe. Com pouca experiência como diretor, Mick Rock editou um clipe estranhíssimo, cheio de cortes e com um final totalmente sem sentido. Anos depois, com a criação da MTV, o clipe virou um clássico. O famoso crítico de rock Lester Bangs chegou a afirmar que ‘The Jean Genie’ era “o início do videoclipe moderno”.

22.O primeiro ídolo do rock & roll
Na música, o primeiro ídolo de Bowie foi Little Richard, um dos pioneiros do rock. O pai de Bowie havia ganhado um disco de um soldado americano e o levou de presente para o filho. Como o toca-discos da família funcionava apenas em 78 rotações, o garoto tinha que rodar o disco com o dedo para poder ouvir na velocidade correta a clássica introdução ‘A-wop-bop-a-loo-mop-a-wop-bam-boom!”, de ‘Tutti Frutti’.

23.Matéria no caderno... de esportes
Obcecado pelos roqueiros dos Estados Unidos, Bowie trocou na adolescência o futebol inglês (soccer) pelo futebol americano, que ele acompanhava pelo rádio do pai sintonizado na frequência do exército aliado. Fanático, Bowie escreveu uma carta para a embaixada americana em Londres pedindo informações sobre o esporte, e acabou ganhando brindes como uniformes e chuteiras. O figurino era tão raro em Bromley que mereceu a primeira matéria da vida de David Bowie: uma foto dele vestido de jogador de futebol americano no jornal Bromley and Kentish Times, anunciando que o esporte era a “nova moda entre os jovens”.

24.Sucesso com garotos e garotas
A bissexualidade de David Bowie nunca foi algo que ele se preocupou em esconder, pelo contrário. Em entrevista à Playboy – feita pelo jornalista/cineasta Cameron Crowe em 1976 –, Bowie revelou que teve suas primeiras relações sexuais com garotos e garotas aos catorze anos. Bowie afirmou que não se importava com o sexo da pessoa, contanto que fosse uma boa “experiência sexual”. “Não era difícil levar algum cara bonitinho da classe para casa e transar tranquilamente no meu quarto.”

25.Bowie quase virou um bluesman
Por pouco os fãs não tiveram que engolir um Bowie cantor de blues. Sim, porque no início dos anos 1960 o blues passou a ocupar o espaço do rock & roll na Inglaterra. Sorte que os Beatles e Rolling Stones começavam a ficar famosos, pois os roqueiros americanos viviam uma fase péssima: Little Richard havia se convertido em cristão, Elvis estava no exército, Chuck Berry havia sido preso, Buddy Holly tinha morrido em um acidente aéreo e Jerry Lee Lewis escandalizava o mundo ao revelar que ia se casar com sua priminha de 13 anos.

26.Homens modernos
Apesar de o blues ter se tornado a música da moda por um certo tempo, o estilo de se vestir da juventude britânica nunca seguiu por esse caminho. Depois da onda dos Teddy Boys, que imitavam os americanos dos anos 1950, com casacos de couro de golas levantadas e brilhantina no cabelo, os jovens descolados da Inglaterra se apaixonaram pelo movimento Mod (abreviação de ‘modern’). O estilo Mod exigia calças justas e elegantes ternos de três botões, todos abotoados. Os cabelos eram curtos e as gravatas, estreitas.

27.De onde veio o nome Bowie?
O nome de batismo de Bowie é David Robert Jones. Quando começou a se apresentar tocando violão e sax com seu amigo George Underwood na banda George and the Dragons, Bowie escolheu um nome influenciado por uma banda descolada local, os Jaywalkers e passou a assinar David Jay. Em relação à origem do nome Bowie, há controvérsias. Alguns biógrafos dizem que foi uma homenagem ao coronel James Bowie, o famoso herói texano que morrera na Batalha do Álamo. Bowie, no entanto, também é o nome de uma faca de lâmina curva, popular entre os garotos brigões da Inglaterra na época. Segundo a lenda, um garoto teria usado a faca em uma briga com Bowie, ferindo-o no olho. Isso explicaria o olho ‘vidrado’ de Bowie e o apelido que teria recebido desde então. Bowie nunca chegou a ficar cego: ele teve problemas na vista, mas enxerga normalmente.

28.Bandas obscuras e a primeira vez no estúdio
Antes de decidir ser um artista solo, Bowie fez parte de várias outras bandas que nunca saíram do underground: Kon-Rads, Hooker Brothers, King Bees, Buzz, The Manish Boys e The Lower Third. A primeira gravação de Bowie em um estúdio foi o compacto de estreia dos Manish Boys. A canção ‘I Pity The Fool’, de Bobby Bland, teve participação de músicos de estúdio, prática comum na época. O guitarrista era um jovem chamado Jimmy Page, que pouco depois deixaria a vida no estúdio para montar uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, o Led Zeppelin. Mais tarde, Bowie contrataria outro músico famoso para uma gravação: Rick Wakeman, tecladista do Yes.

29.Cabeludos Unidos Jamais Serão Vencidos
Quando os Manish Boys foram se apresentar pela primeira vez na BBC, o produtor impediu a participação da banda alegando que seus “cabelos eram muito compridos”. O assunto foi parar nos jornais com o título “BBC discrimina grupo de cabelo comprido”. Marqueteiro desde então, Bowie aproveitou a história para anunciar a (obviamente) fictícia criação da Sociedade Internacional para Preservação dos Pelos dos Animais. “É hora de nos unirmos para defender nossos cabelos”, afirmou, bobagem que ao menos lhe garantiu uma participação em um talk show.

30.Primeira namorada, primeira decepção
Hermione Farthingale foi a primeira namorada ‘séria’ de David Bowie. Para poder passar mais tempo com ela, Bowie montou um trio multimídia esquisitíssimo chamado Turquoise. Bowie cantava e fazia uma performance no estilo do mímico francês Marcel Marceau, Hermione dançava e o músico Tony Hill tocava guitarra. O trio era um típico representante do movimento hippie, apresentando espetáculos ‘cabeça’ de graça pelos centros culturais de Londres. Mesmo apaixonado, Bowie continuava tendo vários e várias amantes – o que levou Hermione a abandoná-lo um ano depois. Pouco depois, Hermione casou-se com um antropólogo e mudou-se para a Indonésia.

31.Monge David
Por muito pouco a música não perdeu David Bowie para a religião. No verão de 1967, em início de carreira, Bowie andava frustrado por não conseguir se sustentar apenas com seus projetos musicais. Em pleno auge da ‘Era da Consciência’, o hippie Bowie cogitou raspar o cabelo e se mudar para um mosteiro budista em Edimburgo, na Escócia, onde o mestre zen Dhardo Rinpoche vivia e lecionava. Os fãs agradeceram aos céus por ele não ter feito isso.

32.Produtor, budista e amigo há décadas
Bowie e o produtor americano Tony Visconti sempre compartilharam o amor pelo budismo e pelas roupas espalhafatosas. Bowie conheceu o nova-iorquino do Brooklyn em 1967 e os dois firmaram uma parceria que continua até hoje. Visconti costumava andar por Londres vestindo apenas um roupão amarelo e chinelos. Na primeira reunião, o empresário de Bowie disse a ele: “Você parece ter talento para trabalhar com coisas estranhas.” E o contratou.

33.O emprego de David Bowie
Após se tornar uma celebridade com o sucesso de ‘The Office, o comediante Ricky Gervais disse numa entrevista que Bowie era seu herói. A produção do cantor o convidou para um show, e após a apresentação, o comediante foi até o camarim para conhecê-lo. Bowie não sabia quem Gervais, mas os dois ficaram amigos. No aniversário de 58 anos de Bowie, Gervais mandou um e-mail: “Parabéns! Não está na hora de você arranjar um emprego de verdade?” Bowie respondeu: “Obrigado, já tenho um emprego de verdade. Sou um deus do rock.” Em 2007, Bowie contracenou com Gervais na série ‘Extras’, da HBO.

34.Dando uma mãozinha para Iggy Pop
O ano de 1976 foi péssimo para o roqueiro Iggy Pop. Além do fim de sua banda, The Stooges, ele estava afundado nas drogas e chegou a ser preso por roubar uma casa. O amigo Bowie ajudou a resgatar sua carreira: montou uma banda, agendou uma turnê e ainda tocou teclados em alguns shows da turnê ‘Lust for Life’. O show em Cleveland foi gravado e virou o disco ‘Iggy & Ziggy – Sister Midnight Live at the Agora’.

35.Uma odisseia musical
O primeiro sucesso de Bowie, ‘Space Oddity’, foi inspirado em ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’, de Stanley Kubrick. Lançado em 1968, o filme fez sucesso ao navegar na onda espacial que reinava na época e que culminaria com a chegada do homem à Lua, no ano seguinte. Bowie, no entanto, não teria se inspirado no visual futurista ou na abordagem filosófica que o filme suscitava, mas no simples diálogo em que um dos personagens conversa com a filha por uma tela de vídeo numa versão rudimentar do Skype. “Diga a mamãe que eu liguei”, diz o personagem.

36.Uma pechincha para chegar ao topo
Quem acha que o ‘jabá’ (pagamento feito a rádios ou TVs para tocar determinado artista) é uma invenção recente está enganado. Para emplacar ‘Space Oddity’ nas paradas, o empresário de Bowie, Kenneth Pitt, pagou aos produtores do ‘Top of the Pops’ para ver seu artista no popular programa de TV britânico. “Não aguentava mais ver Bowie reclamando que não conseguia fazer sucesso”, diz o empresário em sua biografa. Considerando o ‘valor’ atual de David Bowie, o investimento foi uma pechincha: apenas 140 libras.

37.Judy Garland do pop
Os amigos de Bowie não gostavam de Kenneth Pitt porque diziam que ele era tão apaixonado pelo cantor que não queria que ele fizesse sucesso por medo de perdê-lo. Assumidamente gay, Pitt não gostava de rock e preferia que Bowie fosse uma versão pop do ícone gay Judy Garland. No funeral da cantora/atriz em Nova York, compareceram mais de vinte mil fãs – na maioria, gays.

38.Um homem em comum
Bowie só conseguiu romper com Pitt quando surgiu no seu caminho uma mulher que mudaria a sua vida: Mary Angela Barnett. Como Bowie conheceu Angie? Ambos saíam com o mesmo homem, o americano de ascendência oriental Calvin Mark Lee. Declaradamente bissexual, Angie chegou a ter um relacionamento com uma mulher chamada Lorraine antes de conhecer Bowie. Questionada sobre o assunto, Angie costumava responder ironicamente: “Comecei a sair com mulheres porque meu pai não queria que eu ficasse grávida”.

39.Um casamento sem amor?
Bowie e Angie se casaram em 19 de março de 1970, em parte porque eram um casal que se completava profissionalmente (ela cuidava de tudo, deixando Bowie livre para criar) e em parte porque Angie era uma americana nascida na Ilha do Chipre e precisava do documento para morar na Inglaterra. Então não havia amor? Angie era apaixonada, mas, pouco antes do casamento, Bowie perguntou a futura mulher se ela conseguiria lidar com o fato de que ele não a amava. Ela respondeu que sim. Em vez de ‘eu te amo’, amigos contavam que o cantor dizia a estranha expressão ‘no seu ouvido’ quando queria demonstrar afeto por ela.

40.Alma gêmea musical
Embora Bowie fosse um excelente compositor, ele contou desde o início com a parceria com um guitarrista genial para transformar suas ideias em canções bem sucedidas. Mick Ronson e David Bowie faziam, nos anos 70, uma dupla de frente (guitarra/vocal) que não fazia feio diante de outras lendas do rock, como Mick Jagger e Keith Richards (Rolling Stones), Robert Plant e Jimmy Page (Led Zeppelin), Roger Daltrey e Pete Townshend (The Who), entre outros. Mais tarde Bowie recriou essa química com outros guitar-heroes, como Carlos Alomar e Reeves Gabrels.

41.Imagina o que os pais dele diriam
O guitarrista e parceiro de Bowie Mick Ronson foi criado em uma família de mórmons, que devem ter ficado em estado de choque ao ver o filho vestido com o visual andrógino adotado no disco ‘Ziggy Stardust’. Antes de tocar com Bowie, Ronson estava indeciso entre se tornar músico profissional ou continuar como... jardineiro da escola. Pouco depois, ele escreveria arranjos de cordas para clássicos como ‘Life on Mars?’, de Bowie, e ‘Perfect Day’, de Lou Reed. Segundo sua mulher, Ronson escrevia os arranjos no banheiro, sem nenhum instrumento, apenas imaginando as melodias.

42.Esposa e figurinista
Angie Bowie era a responsável pelo visual alucinante de Bowie em suas fases mais afetadas. Era comum vê-lo usando vestidos com casacos de pele ou macacão colorido e chapéus gigantescos. Para compor o visual, ela se baseava em figurinos de teatro. Em 1970, Angie sugeriu que a banda mudasse o nome para The Hype e que os músicos se vestissem como super-herois. Bowie era o ‘Homem-Arco-Írs’, o baixista Tony Visconti era o ‘Homem-Descolado’, o guitarrista Mick Ronson era o ‘Homem-Gângster’ e o baterista John Cambridge era o ‘Homem-Cowboy’.

43.Sexo, mamadeiras e rock & roll
Angie e Bowie tiveram um filho em 30 de maio de 1971 e deram à criança o nome de Duncan Zowie Haywood Jones. Além de soar com ‘Bowie’, o nome ‘Zowie era inspirado na palavra grega ‘Zoe’, que significa ‘vida’. Criticado pelo nome ridículo, Bowie disse que o garoto poderia mudá-lo quando fizesse 18 anos. E foi o que ele fez: cansado de ser chamado de ‘Zowie Bowie’, alterou o registro e tornou-se simplesmente ‘Duncan Jones’. Hoje, ele é diretor de cinema e já lançou dois filmes, os premiados ‘Moon’(2009) e ‘Source Code’ (2011).

44.“Mick e David, vocês querem café?”
Uma das histórias mais polêmicas envolvendo Angie Bowie teve como protagonista um outro rockstar mundialmente famoso. Angie contou que um dia chegou de viagem e encontrou na sua cama Bowie e o vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger. Sua primeira reação teria sido casual: “vocês querem café?” A história é confirmada por Ava Cherry, amante de Bowie após o término do casamento com Angie. “David e Mick era obcecados sexualmente um pelo outro. Já fui para a cama com eles, mas na maioria das vezes eu apenas assistia aos dois transando”, revelou Ava.

45.Dançando na rua
Obviamente não há provas sobre o relacionamento sexual entre os dois astros, mas a amizade entre eles era real e gerou inclusive parcerias musicais. Diz a lenda que o sucesso ‘Angie’, dos Rolling Stones, foi uma homenagem de Jagger ao fim do relacionamento do casal de amigos. Mas a maior prova da amizade entre Bowie e Jagger pode ser vista no videoclipe de ‘Dancing in the Street’, que os dois gravaram em 1985. No vídeo, é possível ver o prazer dos amigos dançando e cantando pela rua o sucesso do clássico da Motown gravado originalmente por Martha and the Vandellas. A renda com a comercialização da canção foi revertida para a fundação beneficente Live Aid.

46.David e Andy
O primeiro encontro de Bowie e Andy Warhol foi estranho – o que já era de se esperar. Bowie foi levado ao ateliê de Warhol, a famosa ‘Factory’, e Warhol barrou sua entrada. O artista pop havia sido baleado por um admirador meses antes, então estava paranoico. Quando Bowie finalmente conseguiu entrar – após ser revistado –, achou Warhol todo encolhido, com a pele amarelada, e obcecado por tirar fotos de todo mundo. Os dois só começaram realmente a conversar após Warhol ver que Bowie estava usando sapatos amarelos. Vinte e cinco anos depois, Bowie interpretou Warhol com perfeição no filme ‘Basquiat’, de Julian Schnabel. Quando acabava de gravar as cenas, saía andando pelas ruas de Nova York ainda vestido de Andy Warhol, surpreendendo as pessoas que acreditavam que o artista pop havia morrido.

47.Lugar lendário em Nova York
O lugar mais roqueiro de Nova York no início dos anos 1970 era, sem dúvida, o bar/restaurante Max’s Kansas City, na Union Square. Frequentava o local a turma de Bowie, John Lennon, Mick Jagger, Lou Reed e outros músicos, além de mecenas e artistas como Andy Warhol. A casa foi demolida e hoje, no local, bem ao lado do Hotel W., funciona a Green Deli, uma lanchonete que vende jornais e café barato.

48.Stanley Kubrick, mais uma vez
Além da inspiração em ‘2001: Uma odisseia no Espaço’ para compor ‘Space Oddity’, Bowie também foi influenciado por outra obra do cineasta Stanley Kubrick. ‘Ziggy Stardust’, considerado por muitos o seu melhor disco, foi inspirado no filme ‘Laranja Mecânica’, de 1971. Ziggy é uma versão ainda mais andrógina de Alex, brutal personagem de Malcolm McDowell. A banda de Ziggy, os ‘Spiders From Mars, também se espelhava nos ‘Droogs’ da gangue de Alex. A introdução dos shows na turnê do disco era ‘Ode à Alegria’, de Beethoven, tirada da trilha sonora do filme de Kubrick.

49.Saindo do armário pela imprensa
A primeira vez que Bowie revelou ao público que era homossexual foi em 1972, numa entrevista ao jornal Melody Maker. “Sou gay e sempre fui, desde que era David Jones”, revelou o cantor. Em outras entrevistas, negava tudo. Fontes dizem que seu discurso sobre a homossexualidade era planejado com o objetivo de gerar controvérsia, enturmar-se com os grupos gays que começavam a se tornar cada vez mais populares e influentes, e aparecer nas capas de revistas com declarações polêmicas. Na realidade, segundo os amigos, as relações de Bowie seriam na proporção de cerca 95% mulheres e 5%, homens.

50.Início nada promissor para Ziggy
O lançamento de ‘Ziggy Stardust’ era a maior aposta de David Bowie para obter reconhecimento, fama e entrar de verdade para a lista dos grandes roqueiros britânicos. Mas o primeiro show da turnê aconteceu diante de apenas 60 pessoas no salão dos fundos do pub Toby Jug, onde diz a lenda que o pai de John Lennon trabalhara na cozinha. Quando a turnê terminou, eles estavam tocando para 14 mil pessoas na lendária arena Earl’s Court, em Londres.

51.Todos esses caras jovens agradecem
Além de ajudar na carreira de Iggy Pop e Lou Reed, Bowie salvou o Mott the Hoople. A banda havia acabado de ser dispensada pela gravadora Island Records, mas Bowie gostava do som e era amigo do vocalista Ian Hunter. Para ajudá-los, Bowie foi até o escritório do empresário da banda e disse que tinha uma música de presente para eles. ‘All The Young Dudes’ foi um sucesso mundial e salvou a carreira de Ian Hunter e companhia.

52.Influência do teatro japonês
Como tinha medo de avião, Bowie e Angie foram para o primeiro show no Japão de navio. Embarcaram em Los Angeles no SS Oresay e foram recebidos por uma multidão de fãs. Fascinado por Nô e Kabuki (formas tradicionais do teatro japonês), Bowie aproveitou a viagem para incorporar a cultura oriental ao show: encomendou nove figurinos do designer japonês Kansai Yamamoto. O novo visual trazia casacos de cetim de gola alta e peças modulares, que Bowie mesclava de acordo com as luzes do palco.

53.Roubado pelo Sex Pistols
Após o último show da turnê de ‘Alladin Sane’, a equipe de produção de Bowie se reuniu para uma festa de despedida. Ninguém imaginava que, enquanto os músicos e técnicos estavam bêbados e se divertindo, o equipamento estava sendo roubado. A gangue de ladrões era liderada pelo punk Steve Jones, guitarrista do Sex Pistols. “Queríamos montar uma banda, mas não tínhamos dinheiro. Então roubamos os de Bowie”, afirmou Jones no livro ‘England’s Dreaming’. Ironia do destino: anos antes, na letra de ‘Hang on to Yourself’, Bowie escreveu que “o ritmo fica melhor em uma guitarra roubada”.

54.Excessos de drogas
Nos anos 1970 a cocaína era extremamente popular, principalmente entre as pessoas que podiam ficar dias e dias sem dormir – o que era o caso de Bowie. O cantor, que no início da carreira nem fumava maconha, tornou-se um viciado pesado na droga. Chegou a pesar quarenta quilos (perdia quase um quilo por noite durante os shows) e sobreviveu meses à base de cocaína, café, cigarros (dois maços por dia), pastilhas de menta e leite integral.

55.Influência do cinema, mas também da literatura
Não era apenas o cinema que influenciava os discos e canções de Bowie. ‘Diamond Dogs’ foi inspirado no livro ‘1984’, de George Orwell. As canções contavam a história de uma gangue de punks que vivia nos telhados das casas da caótica Hunger City, um cenário pós-apocalíptico. Ironicamente, Bowie confessou que também incluiu elementos de uma comédia que tratava do mesmo assunto, ‘O Dorminhoco’, de Woody Allen. O cenário da turnê do disco teve ainda influência do expressionismo alemão, com referências ao filme ‘Metropolis’, de Fritz Lang, e a ‘O Gabinete do Dr. Caligari’, de Robert Weine.

56.Composições aleatórias
Em 1974, Bowie foi entrevistado pelo famoso escritor William Burroughs para uma edição especial da revista Rolling Stone. Os dois ficaram amigos. O autor de ‘Almoço Nu’ e ícone beatnik sugeriu que Bowie adotasse um método de composição bastante esquisito: escrever frases aleatórias e as sortear de dentro de um saco, deixando o acaso definir a letra da música. Em meio a uma fase de transição criativa, Bowie aceitou a ideia porque, segundo ele, o método “traria uma nova energia”.

57.Parceria com um ex-Beatle
Nos anos 1970, Bowie passou a conviver cada vez mais com celebridades do ‘seu nível’, como a atriz Elizabeth Taylor e o ex-Beatle John Lennon. Quando decidiu gravar ‘Across the Universe’, dos Beatles, convidou Lennon para ir até o estúdio conferir sua versão e gravar uma participação. A sessão correu tão bem que Lennon, Bowie e o guitarrista Carlos Alomar escreveram uma composição inédita: a canção ‘Fame’, lançada por Bowie em 1975. ‘Fame’ foi direto para o topo da parada Billboard Hot 100 e se tornou o maior sucesso de Bowie nos EUA até então.

58.A ‘Trilogia de Berlim’
Apesar de conviver com diversas celebridades do mundo do rock, a parceria criativa mais importante da carreira de Bowie foi com o produtor Brian Eno. Ao lado do amigo de longa data Tony Visconti, o trio é responsável pela revolução realizada na famosa ‘Trilogia de ‘Berlim’ de Bowie, composta pelos álbuns ‘Low’, ‘Heroes’, e ‘Lodger’. Recheados de sintetizadores, os discos concebidos nos estúdios Hansa são considerados o embrião da música eletrônica. “Eles criaram arte dentro da música popular”, elogiou o compositor erudito Philip Glass, que lançou uma versão sinfônica de ‘Low’ em 1992.

59.Astro de Hollywood
A relação de Bowie com o cinema é quase tão intensa quanto sua relação com a música. Sua primeira atuação em uma grande produção de Hollywood foi em 1976, quando interpretou o personagem Thomas Jerome Newton, um extraterrestre que abandonara um planeta destruído em ‘O Homem Que Caiu na Terra’. Antes de voltar às telas, Bowie atuou na Broadway como protagonista na montagem de 1980 de ‘O Homem Elefante’. Três anos depois, Bowie atuou em ‘Fome de Viver’, onde contracenou com Catherine Deneuve e Susan Sarandon. No mesmo ano, atuou em ‘Furyo – Em Nome da Honra’, dirigido por Nagisa Oshima, o mesmo cineasta do polêmico ‘Império dos Sentidos’. Bowie não parou mais: foi um feiticeiro em ‘Labirinto’, Pôncio Pilatos em ‘A Última Tentação de Cristo’, de Martin Scorsese, e Andy Warhol em ‘Basquiat’, entre mais de 30 produções.

60.Ícone fashion
Bowie não é apenas um ícone dos fashionistas porque tem um sucesso chamado ‘Fashion’, de 1980. Bowie era o padrinho da revista Face, fundada por Nick Nogan e que se tornou rapidamente a voz para os estilistas, fotógrafos e artistas jovens de Londres. Ao longo da carreira, Bowie trabalhou com diversos estilistas, como Alexander McQueen na turnê de ‘Earthling’. Em 2007, aos sessenta anos, Bowie foi finalmente parar nas prateleiras: a loja Target lançou a coleção ‘Bowie by Keanan Duffty’, parceria criativa do designer com o cantor.

61.Bowie na bolsa
Em 1996, o corretor David Pullman, ex-estudante de Wharton e fã de Bowie, teve uma ideia: por que não poderia haver ações baseadas em direitos autorais futuros de grandes artistas? Foi assim que Bowie foi parar na bolsa de valores. Ao antecipar seus royalties, Bowie embolsou milhões de dólares e gerou outra fortuna para grandes investidores do mercado financeiros e fundos de pensão. “Bowie foi parar na capa do Wall Street Journal”, comemorou Pullman.

62.Bowie saudável, Bowie doente
Depois de um problema no coração parcialmente encoberto por sua equipe (atribuído ao consumo excessivo de cocaína, cigarros e péssima alimentação), Bowie passou a se cuidar mais e ficou visivelmente mais saudável. Interrompeu as turnês exaustivas por um tempo e passou a se dedicar a atividades como surfar, fotografar e editar textos. Chegou a integrar o staff da revista Modern Painter, onde entrevistou artistas como Jeff Koons, Balthus e Julian Schnabel. Aos poucos Bowie foi voltando a vida ‘normal’ e passou a reclamar de dores no peito. Em 2004, interrompeu a turnê do disco ‘Reality’ para uma cirurgia de reparação de uma ‘artéria severamente bloqueada’. Ao sair do hospital, declarou: “estou triste porque a turnê estava indo muito bem. Prometo me recuperar totalmente... e prometo não escrever uma canção sobre isso”.

63.Novo casamento, mais uma filha
Um amigo em comum marcou um encontro de Bowie com aquela que seria a mulher de sua vida: a modelo de origem africana Iman Abdulmajid, famosa como modelo de Calvin Kleine e Halston e por ter aparecido no vídeo ‘Remember the Time’, de Michael Jackson. Nascida em 1955, a modelo da Somália era filha de diplomatas que fugiram do país após um golpe militar no país em 1969. Antes de conhecer Bowie, Iman já tinha uma filha, Zulekha. Em 1992, Bowie e Iman se casaram em Florença, na presença de convidados como Bono, Yoko Ono e Brian Eno, entre outras celebridades do mundo da música e da moda. E tiveram outra criança: a filha do casal, Alexandria Zahra (‘luz interior’, em árabe), nasceu oito anos depois.

64.Bowie Esponja
Quando Alexandria fez sete anos, o papai Bowie deu um presente inesquecível à filha: como ela era grande fã do desenho Bob Esponja, Bowie aceitou gravar a voz do personagem Rei da Atlântida em um dos episódios. O programa exibido pelo canal Nickelodeon foi um dos maiores sucessos da TV a cabo em 2007, perdendo em audiência apenas para o último capítulo da série ‘Os Sopranos’.

65.ExpoBowie
Bowie foi tema da exposição ‘David Bowie Is’ em 2013 no Victoria and Albert Museum, o mais famoso museu de design de Londres. Foram exibidas cerca de 300 peças relacionadas ao músico numa área de mil metros quadrados. A exposição era dividida em três partes. A primeira mostrava o contexto em que Bowie nasceu, a Inglaterra destruída pelo pós-guerra, e a evolução do artista desde as primeiras bandas até a composição do primeiro hit, ‘Space Oddity’, em 1969. A segunda parte dissecava seu processo criativo – manuscritos de letras, instrumentos originais e peças de estúdio – e suas influências, mostrando como Bowie foi inspirado pela obra de artistas extremamente variados: do artista pop Andy Warhol ao roqueiro Little Richard, dos cineastas Stanley Kubrick e Fritz Lang ao escritor William Burroughs. A segunda parte trazia ainda uma área dedicada aos figurinos de Bowie e aos seus personagens musicais /performáticos mais conhecidos, como Ziggy Stardust, Alladin Sane e Thin White Duke, além de demonstrar o impacto que eles tiveram na sociedade e na cultura em todo o mundo.
A terceira parte da exposição era voltada para as performances de Bowie, com cenas de shows, equipamentos de turnês, cenários e projeções multimídia. A mostra chegou ao Brasil em fevereiro de 2014, quando foi exibida com sucesso no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo.

66.Pioneiro também na internet
Como sempre foi um visionário, era normal imaginar que Bowie se apaixonaria pelo conceito da internet, e foi isso que aconteceu. Ele já usava computadores pessoais desde 1983, mas com a expansão da web Bowie viu ali um caminho de integração das mídias e da interatividade que ele nunca havia sonhado. “A ideia pioneira de fãs se comunicando diretamente com seu ídolo foi nutrida pelo site Bowie.net”, afirmou Nancy Miller, editora da revista Wired. ‘Telling Lies’, do disco ‘Earthling’, foi a primeira música disponibilizada para download por um grande artista. Em 2007, ao receber o Webby Awards por ‘Inovações em Internet’, Bowie foi informado de que a regra era fazer um discurso curto, ‘umas cinco palavrinhas’. Bowie foi até o microfone: “Só... posso... dizer... cinco... palavras?” E foi embora.

67.Aniversário de 50 anos no Madison Square Garden
Se você acha que comemorar o aniversário no Madison Square Garden é privilégio de presidentes americanos (JFK comemorou seus 45 anos lá, ocasião em que Marilyn Monroe cantou sua famosa versão de ‘Parabéns a você), pode esquecer. Bowie comemorou seus 50 anos no show ‘A Very Special Birthday Celebration’, apresentação que contou com a participação do Foo Fighters, Smashing Pumpkins, The Cure, Lou Reed, Placebo e Sonic Youth, entre outros.

68.Personagem de filme
Bowie não brilhou nas telas apenas como ator, mas também como personagem no filme ‘Velvet Goldmine’, de 1998. Apesar de não poder usar as músicas de Bowie, o diretor Todd Haynes (que depois faria um filme sobre Bob Dylan, ‘Não Estou Lá`) afirmou que a história foi inspirada no canto e na cena glam dos anos 1970. O ator Jonathan Rhys Myers (‘Match Point’) faz o papel de Bowie; Toni Collete (‘Sexto Sentido’) é Angie, e Ewan McGregor (‘Guerra nas Estrelas’) interpreta uma mistura de Lou Reed e Iggy Pop.

69.Bowie recusou convite para cantar na Olimpíada
Apesar de saber que sua canção ‘Heroes’ havia sido escolhida como o hino não-oficial dos atletas ingleses, Bowie recusou convite para cantar na cerimônia de encerramento da Olimpíada de Londres. Sua presença representaria ‘o estilo e a moda’ da Inglaterra, mas os fãs tiveram que se contentar com um desfile de Kate Moss e Naomi Campbell ao som de sua canção ‘Fashion’. Não foi a primeira vez que ele virou as costas para a Inglaterra: em 2003, recusou o título de ‘Sir’ que lhe seria entregue pela rainha.

70. Documentário da BBC vai mostrar os últimos anos de Bowie
A emissora estatal britânica anunciou que ainda este mês exibirá um material "raro e inédito com vídeos e entrevistas" sobre os últimos cinco anos de Bowie, inclusive o vocal inédito que Bowie teria gravado para sua última gravação, a canção 'Lazarus'.

 

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Por Meg Guida

Navios são sempre surpreendentes. A mágica de estar a bordo não é pensar em um transatlântico de cinema, como o Costa Fascinosa, como um meio de transporte. Ele e seu 'irmão' Costa Pacifica vão percorrer até março a costa brasileira, descendo até a Argentina e Uruguai. Deixar o navio para fazer turismo em paraísos como Angra, Búzios e Portobelo, é uma parte interessante da viagem: o mais legal é olhar o gigante da perspectiva do barquinho, quase uma cidade de aço flutuando sobre as águas. Sem deixar de lembrar, claro, que o navio já é um destino maravilhoso e completo em si.

A visão da entrada nas cidades de escala é  mais bonita do convés, com a paisagem desenhada em frames e vento brincando no rosto. Sabe aquela hora mágica de céu rosa indeciso entre o dia e a noite? Em navegação, a linha do horizonte promete grandes cenas. Dá para  ver o sol mergulhando ou escalando o mar da proa ou da popa e ouvir o hipnotizante barulho do navio cortando as ondas. Dá para ver estrelas e até pegar carona sem querer no sinal de wi-fi das plataformas de petróleo no meio daquele nada de marzão. Aí você toma um aperitivo e sai em busca de novidades.

Verdade, se come bem e bastante. O que conta é descobrir o que cada deck reserva de insólito. Regra básica é aprender a andar no navio, saber por onde você chega mais rápido na sua cabine, nos restaurantes, teatros, cassino, bares, discoteca e piscinas. O navio é tão grande que corre-se o risco de caminhar a esmo pelos corredores dos quase três quilômetros de cada um dos seus nove andares.

O Fascinosa homenageia o cinema, de Lucchino Visconti a David Lynch. E muito de Fellini, claro. A principal ponte de acesso às áreas sociais é a Gradisca, no terceiro andar, ode à personagem de 'Amarcord', tão acolhedora em sua fartura. E aí a porta do elevador se abre e você dá de cara com um Marcello Mastroianni com a musa Anita Ekberg de 'La Dolce Vita'. Na companhia deles você continua a viagem -  e escolhe se encara um cafe Illy ou um bichiere de vino Ferrari, marcas que provam por que a Itália, mãe do Fascinosa e de sua tradição em navegação de turismo, é tudo de bom quando o tema é comer com qualidade.

Nessa temporada, aqui e pelo mundo, a frota Costa apresenta o Italy's Finest, festival gastronômico que representa o ato de degustar não só pelo comer, mas como uma experiência sensorial. A marca Barilla, por exemplo, famosa no planeta pelos seus granos duros, faz parte do cardápio criado pelos chefs Fabio Cuchelli e Bruno Barbieri, ambos estrelados pelo Guia Michelin.

O Fascinosa e Pacifica têm ainda postos avançados das pizzarias Pummid'Oro, um must italiano. Servem pizzas com massas feitas 100% com fermento natural, uma colaboração especial com a Universidade de Ciências Gastronômicas de Pollenzo. A bordo, os hóspedes podem ainda saborear sorvetes da marca Agrimontana na Gelateria Amarillo e os hambúrgueres gourmet com carne Fassona 100% italiana.

Nos bares, o destaque são os aperitivos italianos como o Spritz, feito a partir da marca italiana Aperol. Outra inovação  são os bares gourmet dedicados à mussarela de búfala, com queijo produzido diariamente a bordo dos navios.

Em entretenimento, os costumes italianos estão representados pelas festas temáticas La Notte in Maschera (inspirado no carnaval de máscaras de Veneza), La Notte Bianca (festival do branco) e o novo evento Abbronzatissima, que recria a diversão, a música e a atmosfera da Itália dos anos 1950 e 1960. Além disso, há chance de alguém virar astro no shows de talentos The Voice of the Sea. Para as crianças, a companhia da famosa personagem de desenho animado Peppa Pig dão uma folga para os pais curtirem ainda mais a vida, a viagem e o doce balanço do mar. La vita é dolce mesmo.

 

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Soldados nazistas no Museu do Louvre: A ‘Arca Francesa’ de Alexander Sokurov

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'Francofonia': Novo filme do cineasta russo Alexander Sokurov discute a importância da arte na sociedade

Oficiais nazistas caminhando calmamente pelos corredores do Museu do Louvre. Containers cheios de obras de arte caindo de um navio cargueiro em meio ao mar revolto. Napoleão olhando para a ‘Mona Lisa’ de DaVinci e dizendo: “sou eu”.

‘Francofonia’ é o mais recente filme do cineasta russo Alexander Sokurov. Como todos os seus trabalhos, é uma obra surpreendente e perturbadora – no bom sentido.

O cineasta russo ficou famoso em 2002 pela obra-prima ‘Arca Russa’, um filme coreografado milimetricamente como um ballet de 99 minutos em que um aristocrata francês encontra figuras históricas enquanto passeia pelo museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. Um pequeno detalhe que chamou a atenção de todos à época de lançamento: o filme não tem cortes. Sim, é isso que você leu: um filme com mais de 1h30, com mais de dois mil figurantes, feito inteiramente em apenas um take. Nos bastidores, dizem que Sokurov ensaiou o filme durante um ano antes de se arriscar a ligar a câmera.

Depois disso Sokurov fez ‘Fausto’ e ‘Aleksandra’, entre outros projetos. Mas em ‘Francofonia’, por alguma razão que nunca saberemos, ele retomou a temática de ‘Arca Russa’– com outra pegada.

‘Francofonia’ é um filme fácil? Não. Em primeiro lugar porque é um filme impossível de se classificar. Apesar de ser divulgado como documentário, está longe de ser um relato realista de um fato que aconteceu na metade do século XX, mais especificamente durante a 2ª. Guerra Mundial. Para fazer uma alegoria sobre a importância da arte para a civilização, Sokurov imagina a inusitada reunião que em algum momento da história aconteceu de verdade em plena Paris ocupada pelos nazistas: um oficial de Hitler e o diretor do Museu do Louvre se encontram para discutir o que fazer com o museu agora que Paris é propriedade de Hitler.

Imaginar que os nazistas tiveram sob sua gestão o tesouro que é o Museu do Louvre é uma temeridade. Associar nazismo e arte, na verdade, é quase uma contradição em si. Apesar dos filmes de Leni Riefensthal serem lindos e poderosos do ponto de vista da simetria e imagem/propaganda, a estética nazista passa a anos-luz de obras clássicas como a Vitória de Samotrácia ou A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix, por exemplo. Imaginar nazistas dentro do Louvre é como descobrir que há bactérias no corpo de uma criança saudável.

Pois esse é apenas um dos temas do filme. Sokurov alterna a ficção do suposto encontro entre o oficial alemão e o burocrata francês com cenas de um navio cargueiro cheio de obras de arte à deriva. O que isso quer dizer? Não procure respostas fáceis nos filmes de Sokurov, eles são pensados para instigar perguntas. A perda de obras de arte do navio, que parte do Oriente Médio, nos faz pensar que vivemos numa época em que o Talibã e o Estado Islâmico costumam destruir obras de arte para impor sua ideologia fanática.

Em seu escritório, Sokurov em pessoa – sim, o próprio diretor – conversa com um tripulante do tal navio pelo Skype. O marinheiro reclama que nunca deveria ter aceitado uma carga tão valiosa como essas obras de arte. Elas valem, então, mais que as vidas que estão a bordo? Qual é o valor real de uma obra de arte? É o seu valor de mercado ou o que ela representa como retrato de um momento criativo de um artista em um contexto maior, cultural, civilizatório, humano?

É aí que entra a inteligência de Sokurov. Entre a ficção imaginada do encontro entre o alemão e o francês e a realidade inventada do navio naufragando, Sokurov instiga o público com imagens de época da França ocupada, mostrando como a estupidez e arrogância dos governantes franceses levaram à morte milhares e milhares de soldados franceses e permitiram que a Alemanha ocupasse a França. E como poucos e covardes líderes franceses se submeteram ao poder de Hitler em benefício próprio, apenas para obter o poder e subjugar grupos rivais. Lembrando que fizeram isso mesmo sabendo que isso custaria a honra e história de um país que à época era o epicentro da cultura mundial. Como estaria a França hoje se esses governantes não tivessem traído seu povo? Seria a França a maior potência mundial se o destino da guerra tivesse sido outro?

Há outro elemento de provocação: o fantasma de Napoleão Bonaparte. Como se sabe, o palácio do Louvre foi transformado em importante museu exatamente na época do apogeu do imperador francês, o que só foi possível graças aos saques que Napoleão e seu exército realizaram durante suas sangrentas campanhas. Pois bem: se o Louvre se tornou o maior museu da humanidade graças principalmente ao exército saqueador de Napoleão, por que os nazistas não teriam o 'direito' de fazer a mesma coisa na França? Por que Hitler e seus oficiais não saquearam o Louvre e levaram todas as suas obras para os museus alemães? Isso teria sido legítimo? Pagar com a mesma moeda o que os franceses fizeram com outros povos derrotados?

Os alemães, no entanto, não fizeram isso. O filme não responde por quê. Talvez não haja uma reposta. Talvez a resposta seja um lampejo de humanidade por parte de algum nazista como Dietrich Von Choltitz, então governador de Paris, que não cumpriu as ordens do Führer quando este, acuado, mandou o oficial destruir os monumentos de Paris na iminência do nazismo perder a guerra. "Paris está em chamas?", questionou Hitler. Mas Von Choltitz o desobedeceu, mesmo sabendo que isso poderia custar sua vida e de sua família. Salvar uma cidade como Paris vale mais que salvar a vida de sua família? Quantas vidas vale a Mona Lisa?

Claro que muitas obras do Louvre não estavam mais no museu quando os nazistas entraram em Paris; haviam sido transportadas para um território neutro, o sul da França. Os nazistas sabiam disso, e mesmo assim não quiseram roubá-las para levar para a Alemanha. Por quê? É possível haver algum tipo de humanidade mesmo entre aqueles que estão do lado do mal.

Apesar de todas as boas ideias e conceitos que traz, ‘Francofonia’ é um filme um pouco cansativo. A edição é incrível, mas não segura 1h28 no mesmo pique. A narração em off de Sokurov traz excelentes momentos poéticos e altamente reflexivos, mas depois de um tempo se torna arrastada e maçante. Os momentos de ficção que retratam o encontro entre o alemão e o francês são os trechos mais interessantes, mas talvez Sokurov tenha achado isso muito comum para seu cinema de vanguarda. Infelizmente, é um exemplo de que o excesso de visão artística pode ser prejudicial à obra.

De qualquer maneira, ‘Francofonia’ é um filme que vale ser visto. Não apenas pelo contraste entre o Bem (arte, Louvre) e o Mal (opressão, nazismo), mas também para lembrar do valor que a arte tem no momento em que pensamos, hoje, no mundo que queremos deixar para nossos filhos. E não estou falando do valor material da arte, embora este também exista (em um momento do filme, o narrador questiona se o que há dentro do Louvre é mais valioso do que a França inteira). O que vale aqui é o valor da arte como representação da civilização. É bom lembrar que aquelas obras do Louvre, lindas e imortais, são, antes de tudo, criações feitas por homens e mulheres como todos nós. Gente que nasceu, amou, chorou, sorriu, respirou, morreu. Pessoas que, de certa forma, se tornaram eternos graças a seus talentos e a essas entidades sagradas que chamamos de ‘museus’, mas que são, no fundo, edifícios de concreto e vidro construídos para enaltecer a grandeza do pensamento humano.

 

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Ave, Joel e Ethan: O cinema divino dos irmãos Coen

ave cesar Ave, Joel e Ethan: O cinema divino dos irmãos Coen

George Clooney em 'Ave, César': Em um filme repleto de referências, mitos do cinema são retratados como crianças talentosas e mimadas

A reverência ao cinema é tão grande na obra dos irmãos Coen que sempre desconfiei de que eles consideravam fazer filmes uma atividade sagrada. Em ‘Ave, César’, no entanto, eles foram mais longe: o filme mostra que o cinema não é apenas divino, mas Deus em pessoa. Só na sétima arte é possível criar universos sem descansar no sétimo dia, mundos onde o poder sobrenatural dos produtores pode subverter a noção de tempo e espaço, mentira e verdade, realidade e fantasia. Ao anunciar ‘Faça-se a luz’ na introdução do Gênesis, Deus foi apenas a versão bíblica de um diretor de Hollywood gritando ‘luz, câmera, ação’.

É esse culto ao cinema que faz de ‘Ave, César’ um maravilhoso filme sobre filmes. Não é apenas uma declaração de amor dos Coen aos astros e estrelas que há décadas povoam nossos sonhos, mas um reconhecimento da importância do papel dos quase-anônimos ‘homens comuns’ do cinema: editores, iluminadores e figurantes que fazem do cinema o que o cinema é.

O roteiro de ‘Ave, César’ é tão irônico que logo nas primeiras cenas vemos um figurante subjugando o protagonista, espécie de vingança do baixo clero, do ‘homem comum’ contra o ‘deus do cinema’. Como dizia o personagem de John Torturro em ‘Barton Fink’, outra obra dos Coen que reverencia o cinema, “as esperanças e os sonhos do homem comum são tão nobres quanto a de qualquer rei”. Seria o figurante tão importante quanto o astro, para os irmãos Coen? Sob uma perspectiva ‘comunista’, sim – e essa é apenas uma das leituras do filme. Como tudo que leva a assinatura dos Coen, no entanto, fazer uma interpretação literal dessa mensagem é como levar a sério uma comédia italiana.

A ideia de fazer um filme dentro do filme não é exatamente nova, mas os irmãos Coen pegaram o conceito e o elevaram muitos tons acima. Há muitos adjetivos que podem ser usados para descrever ‘Ave, César’. Inteligente, muito engraçado, sarcástico, crítico, bonito de se ver. Mas nada descreve melhor ‘Ave, César’ do que simplesmente dizer que é um filme genial.

Personagens reais

‘Ave, César’ conta a história de Eddie Mannix, personagem real que trabalhou no estúdio MGM em Hollywood nos anos 1950. Embora seja um alto executivo, o que Mannix mais faz no filme é atuar como uma espécie de babá de luxo de astros do cinema, obrigado a resolver problemas pessoais e conflitos entre homens e mulheres vaidosos e egocêntricos. Um deles, Baird Whitlock (George Clooney), desaparece misteriosamente e depois descobrimos que ele foi sequestrado por uma turma de intelectuais comunistas.

A referência aqui é à geração de escritores influenciados pelas ideias dos líderes comunistas pós-revolução russa, uma ideologia que à época parecia romântica e justa. Hoje, quando observamos o que aconteceu e percebemos que ditaduras de esquerda são tão ou mais sanguinárias que as de direita, temos o distanciamento para rir do comportamento ingênuo que norteava tantas mentes brilhantes. Mesmo assim, foi corajoso – e super politicamente incorreto – da parte dos Coen brincar com um episódio que afetou diretamente tantos nomes importantes do cinema mundial, entre eles os ‘Hollywood Ten’, roteiristas que foram impedidos de trabalhar pela comissão criada pelo senador conservador Joe McCarthy porque eram comunistas.

O que torna ‘Ave, César’ uma bela homenagem ao cinema é a dança harmoniosa entre os universos dos filmes, já que cada personagem parece ser pinçado de um estilo cinematográfico diferente. Parece que o roteiro partiu da premissa “vamos criar uma história que envolva cenas de faroeste, épico bíblico, musical, filme noir, espionagem e inventar alguma coisa a partir daí”.

Nas mãos de qualquer um, ou melhor, nas mãos de qualquer dois, ‘Ave, César’ poderia virar uma colcha de retalhos mais interessante pela forma do que pelo conteúdo. Nas mãos dos Coen, no entanto, o filme ganha aquele ritmo sempre alucinante dos filmes da dupla e esconde camadas e camadas de interpretações. Como as atuações também são um tom acima do normal, histriônicas e divertidas, é tudo amarrado de maneira tão crível que acreditamos que tudo aquilo poderia ser ‘real’. Claro que não é. Mas esse ultrarrealismo, rococó e exagerado, é mais uma parte da paródia que relativiza o cinema como atividade de sonho, lúdica, fora da realidade. Uma atividade, como ironiza o filme, de ‘fé’.

Mannix acredita piamente em Deus, mas, mais do que isso, ele acredita no cinema. É um ‘homem sério’, como bem define o livro ‘Are you serious?’, de Lee Siegel: afinal, a seriedade é um dos poucos valores que faz a vida valer a pena. Um conceito que faz muito sentido nos frívolos dias de pós-modernidade. Não é tão à toa que os irmãos Coen tem no currículo um filme chamado ‘Um Homem Sério’: pelo jeito são fascinados pela seriedade – e pelo extremo oposto.

Já que a ideia era fazer uma homenagem ao cinema, vale lembrar algumas curiosidades sobre o filme. Eddie Mannix não foi o único personagem que existiu na vida real; praticamente todo o elenco foi inspirado em atores de Hollywood. Baird Whitlock (George Clooney) nasceu a partir de três lendas do cinema: Robert Taylor, Charlton Heston e Kirk Douglas – o visual de guerreiro romano foi claramente inspirado em ‘Spartacus’, de Stanley Kubrick; DeeAnna Moran (Scarlett Johansson), que faz o papel de uma sereia, é uma mistura de Esther Williams e Loretta Young; Burt Gurney (Channing Tatum) é Gene Kelly; as irmãs Thora e Thesaly Thacker (Tilda Swinton) foram baseadas na repórter de fofocas Hedda Hopper; Carlota Valdez (Veronica Osorio) é Carmen Miranda; Laurece Laurentz (Ralph Fiennes) é Vincente Minnelli; e por aí vai.

Como todo bom filme, ‘Ave, César’ possibilita muitas leituras e é bom entretenimento até mesmo para quem só entende o lado superficial da trama. Mas quem prestar atenção a todas as referências contidas nas várias camadas (layers) da trama vai descobrir que, por trás de um filme supostamente despretensioso e divertido, esconde-se uma emocionante homenagem um século de cinema. Como já haviam feito antes em ‘Barton Fink’, os irmãos Coen usam os exageros da ficção para retratar uma visão da verdade, como uma espécie de documentário do absurdo. Mas quem disse que seria fácil discernir entre a realidade e o sonho quando o tema do filme é o próprio cinema?

Corta!

 

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E o Oscar de Melhor Comediante vai para… Glória Pires

gloria E o Oscar de Melhor Comediante vai para... Glória Pires

Glória Pires comentando o Oscar: ela disse que viu 'a maioria dos filmes'. Aham

O Brasil anda muito estranho, mas tem horas que a picaretagem é tão grande que me surpreende. O culto ao desconhecimento é tão predominante que dizer ‘não sei’ virou sinônimo de ‘sinceridade’, e não de ignorância. E não é um ‘não sei’ com tom de ‘não sei, mas vou descobrir!’ ou ‘não sei, mas vou fazer de tudo para aprender!’. É um ‘não sei’ vagabundo mesmo, preguiçoso, uma desculpa de quinta categoria para uma época em que 'saber' parece ser apenas uma superficialidade desnecessária de quem tem tempo a perder. Imagina que absurdo, tem gente que perde tempo aprendendo alguma coisa, veja só!

Aquela gota que fez a jarra transbordar a minha paciência foi a participação da Glória Pires na transmissão do Oscar na Globo, no último domingo. Sempre fui fã dela como atriz, até confesso que meu sonho sexual durante a adolescência era passar um fim de semana numa ilha deserta com a Ruth e a Raquel, as gêmeas de temperamento e atitude opostas da novela ‘Mulheres de Areia’.

De lá para cá, continuei achando a Glória uma boa atriz, uma mulher interessante, inteligente, talentosa.

O que me deixou estupefato no domingo foi passar horas diante de uma pessoa que não estava nem aí para o trabalho nem para o público. Ela simplesmente ligou o 'F***-se'. Costumo assistir ao Oscar na TNT, porque cinéfilo de verdade assiste em inglês original e de vez em quando coloca em português apenas para se deliciar com os comentários do Rubens Ewald Filho, um cara que entende do que está falando. Rubens representa o contrário do ‘não sei’: o cara sabe tudo, sabe o nome de todos os atores, sabe tudo sobre a carreira deles, sabe contextualizar a produção dos filmes e a época em que foram feitos. Enfim, é um bom profissional.

Glória Pires achou que ia nadar de braçada na cara dura. Ela achou que, para comentar o Oscar, veja só, não precisava ter visto os filmes. Não citou uma única cena de um único filme, assim com não pronunciou o nome de nenhum ator. Para não ser injusto, disse 'com convicção' que ‘Trumbo’ era seu favorito, sem desconfiar que a produção não havia nem sido indicada a Melhor Filme. Peraí, quer dizer que ela não sabia nem quais eram os indicados? Sério?

Como é possível, alguém tratar com tamanho desrespeito o público? Não que a Globo tenha tradicionalmente algum respeito pelo Oscar, cerimônia que a emissora costuma transmitir editada ou a partir da metade, buscando preservar sua interessantíssima dupla na programação formada por Fausto Silva e Fantástico. Programas muito melhores que o Oscar, claro. Muito mais interessantes. Muuuuito, mesmo.

Por um lado, gostei de ver o Oscar na Globo porque nunca ri tanto em uma transmissão. Glória Pires ganhou o Oscar de comediante do ano - infelizmente, um prêmio involuntário. O Oscar na Globo nunca teve tanta audiência: muita gente comentou no Twitter que estava mudando de canal só para poder acompanhar os comentários de Glória. ‘Legal’, ‘bacana’, ‘talentoso’ eram os adjetivos que ela disparava ao vento, para qualquer imagem que aparecesse na tela.

Isso, por si só, já seria um belo atestado de picaretagem. Mas Glória foi além, o que me motivou a escrever este texto. Ela publicou na internet um vídeo se defendendo, dizendo que era uma “pessoa muito séria”. Oi? Uma pessoa muito séria teria visto os filmes, humildemente anotado detalhes, se preparado, estudado as carreiras dos atores, atrizes e diretores. A única coisa séria que ela fez foi gravar um vídeo na varanda de casa, de cabelo molhado, e postar no Facebook.

No vídeo, ela diz que “é sincera” e que viu “a maioria dos filmes”, que apenas não havia visto ‘Divertida Mente’, Oscar de Melhor Animação. Foi o que ela confessou à apresentadora Maria Beltrão. Ela e Artur Xexéo, aliás, devem ter sofrido para não rir diante da colega, que os brindava com comentários profundos como um... deixa para lá. Glória também disse que achou os memes na internet "super interessantes", o que, na prática, significa que provavelmente ela também não viu nenhum deles.

Eu gostaria de saber, então, da Glória: quais filmes você realmente assistiu? Comento todo ano o Oscar e sei como dá trabalho correr atrás para ver os indicados. Mas não reclamo nem um pouco, porque é uma delícia. Peguei sessões duplas, algumas pela manhã, a maioria delas sozinho, só para poder ficar por dentro de tudo e escrever minha opinião.

O resultado do meu trabalho você vê aqui.

Não é nada de mais. É apenas um texto de alguém que se esforçou para escrever algo interessante. E a prova de que o trabalho compensa é que acertei sete dos dez prêmios principais, inclusive Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Sou melhor que os outros críticos? Claro que não. Eu fiz apenas uma coisa simples: eu VI a porra dos filmes.

Antes que você pense em 'mais um linchamento' na internet, quero dizer que isso definitivamente não é um ataque pessoal. É apenas uma crítica à postura da atriz Glória Pires como profissional, o que toda pessoa pública está disposta a receber.

Como se não bastasse a picaretagem do ‘não sei’ e, depois, a do vídeo dizendo que levou tudo no bom humor porque é ‘séria’, Glória Pires agora quer faturar com a própria ignorância. Lançou camisetas de sua loja virtual imortalizando em pano e tinta suas frases épicas, pérolas recentes da filosofia moderna como ‘Eu não sou capaz de opinar”, ‘Sou ruim de previsões” e ‘Eu curti, bacana”. Camisetas a R$ 29,90, tudo devidamente acompanhado pelas hashtags #Sinceridade e #Objetividade.

Sugiro que acrescente mais uma palavra-chave: #Picaretagem. Se ela não é capaz de opinar, por que aceitou o convite da Globo? Ela diz que é ruim de previsões, mas quem disse que o Oscar é uma loteria sem lógica? E como ela pode ter curtido e achado bacana se ela não viu porra nenhuma? E outra coisa, Glória Pires, a hashtag #SomosTodosGloria foi uma ironia.

Sinceramente, mesmo para o Brasil de hoje, lançar uma grife que valoriza a própria ignorância... aí já é ser picareta demais. Até para uma pessoa, digamos, “séria”.

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Em um mundo cada vez mais conectado, Oscar 2016 celebra o isolamento

LeoDiCaprioRegresso Em um mundo cada vez mais conectado, Oscar 2016 celebra o isolamento

Leonardo DiCaprio no ultraviolento 'O Regresso': Provável primeiro Oscar após cinco indicações premiará o sofrimento do ator durante a filmagem

Em maior ou menor escala, os filmes indicados ao Oscar sempre costumam trazer algum tipo de conexão entre si. Não é uma regra rígida, uma vez que essas ligações podem ser apresentadas em graus variados ou, em alguns casos, sem nada a ver um com o outro. Um filme bom é um filme bom, independente do tema que ele aborda. Mas analisando os filmes de maneira geral é possível notar algum tipo de afinidade. No ano passado, por exemplo, tivemos dois temas entre os filmes indicados, um principal e outro secundário: o principal foi a obsessão, retratada em casos como ‘Whiplash’ (bateria), ‘Birdman’ (fama e anonimato), ‘Boyhood’ (tempo); o secundário, a realidade, mostrada em cinebiografias como ‘Sniper Americano’, ‘A Teoria de Tudo’ e ‘Selma’.

Em 2014, já havíamos tido dois temas, que se alternavam entre a condenação aos erros do passado ('12 Anos de Escravidão', 'O Grande Gatsby', 'A Grande Beleza') e a esperança no futuro (‘Gravidade’, 'Ela'). Enfim, cada Oscar reflete um pouco o seu tempo, não apenas porque esses assuntos estão presentes no inconsciente coletivo do zeitgeist, mas porque os grandes artistas são aqueles que percebem isso com antecedência e compartilham, cada uma ao seu estilo, a percepção sobre os temas que a arte cinematográfica deve abordar. Os temas estão no ar, pairando, pairando, até que o artista capta a mensagem e decide interpretá-la.

Não me deixem só

Tudo isso para dizer que identifiquei entre os indicados ao Oscar 2016 um tema que é um verdadeiro paradoxo dos tempos modernos: em meio à época mais conectada da história da humanidade, estamos interessados em histórias sobre... o isolamento. Não apenas o isolamento como fenômeno físico, mas na luta pela sobrevivência que esse isolamento muitas vezes impõe. Os dois casos mais óbvios sobre o tema são ‘O Regresso’, com Leonardo DiCaprio, e ‘Perdido em Marte’, com Matt Damon. Mas há outros, como veremos a seguir.

Nesses dois filmes, ambos os protagonistas lutam para sobreviver em lugares inóspitos e em condições totalmente adversas. Mas há uma diferença em termos de técnica que me levaria a premiar ‘O Regresso’ como Melhor Filme de 2016: a experiência visual que Alejandro Iñarritu nos proporciona. A história do filme não é tão original quanto ‘O Quarto de Jack’, por exemplo, nem o trabalho do elenco é tão afinado e coeso como em ‘Spotlight – Segredos Revelados’. Mas ‘O Regresso’ é disparado uma viagem cinematográfica inigualável entre os competidores, ainda mais em meio a uma safra tão fraca quanto vimos este ano. ‘O Regresso’ é um tour de force como há muito não se via, uma obra corajosa que poucos diretores em Hollywood teriam coragem de levar adiante. A razão para isso é muito simples: o filme em si é uma espécie de 'Apocalypse Now' no meio de montanhas geladas (pós-moderno, ou seja, com água vitaminada no lugar das drogas).

Não foi um mundo recriado pela computação gráfica. Iñarritu, seu elenco e sua equipe tiveram que vivenciar (quase) a mesma experiência vivida por Hugh Glass na tela. Leonardo DiCaprio, indicado pela quinta vez, deve finalmente levar o Oscar. Ele já havia merecido por ‘Lobo de Wall Street’ e até por outros trabalhos anteriores, mas em ‘O Regresso’ o ator sofreu tanto que não premiá-lo seria uma afronta quase pessoal. Não é toda estrela de cinema que topa enfrentar o que Leo enfrentou, como cenas filmadas sob trinta graus negativos, às vezes mergulhando em águas geladas e outros desafios físicos.

Inferno gelado

O que faz de ‘O Regresso’ um filme único é principalmente a paleta de cores usada por Iñarritú em conjunto com seu Diretor de Fotografia, o genial Emmanuel Lubezki. Comecei a prestar atenção nesse cara quando vi ´Árvore da Vida', a obra-prima de Terrence Malick, em 2011. De lá para cá, o mexicano fez apenas 'Gravidade' e 'Birdman', entre outros.

Em 'O Regresso' Lubezki conseguiu se superar. Para alcançar sempre a mesma luz, Lubezki e Iñarritu eram obrigados a filmar pouquíssimas horas por dia – o que gerou um problema na produção que os obrigou a terminar o filme na Patagônia argentina, depois de meses sob o inverno do Canadá, onde a produção iniciou o trabalho. ‘O Regresso’ não é um filme excepcional, mas assisti-lo no cinema e imaginar que aquilo tudo foi filmado em um lugar real, sob as condições que a gente vê na tela, é uma experiência incrível.

Li outro dia um artigo muito interessante da crítica Carole Cadwalladr sobre 'O Regresso' no site do jornal britânico The Guardian. Ela defende que o filme é apenas uma glamourização da brutalidade e da vingança, uma espécie de 'pornografia da violência'. O texto é muito interessante (está em inglês) e vale a pena ler. É um ponto de vista diferente e muito bem fundamentado sobre o prazer que parecemos ter com a realização da vingança. Em alguns aspectos, me remeteu à discussão sobre 'Tropa de Elite' no longínquo ano de 2007. Em uma catarse coletiva escondida pelo anonimato do escurinho do cinema, torcíamos para ver o mocinho não apenas matar o vilão, mas destruí-lo, torturá-lo até a morte. Nada mais atual do que discutir a legitimidade e humanidade da tortura em um mundo onde Donald Trump tem chances reais de se tornar o homem com acesso ao botão vermelho do apocalipse.

CGI, pero no mucho

Outra porrada ultra-agressiva é ‘Mad Max – Estrada da Fúria’, que também segue a temática da luta pela sobrevivência em um ambiente igualmente inóspito e, para piorar, distópico. Apesar de não haver um protagonista completamente isolado, como no caso de ‘O Regresso’ e ‘Perdido em Marte’, 'Mad Max' traz, mais do que isso, uma civilização isolada, um sentimento de todos contra todos que permite ler o filme de acordo com a temática que sugeri na abertura do texto. O visual aqui é igualmente arrebatador: é impossível ficar sentado na cadeira um minuto sequer diante de tanta adrenalina. O que mais gostei em 'Mad Max' foi outra tendência que felizmente vem tomando conta de Hollywood: a redução dos efeitos especiais exageradamente digitais, os famosos ‘CGI’. No lugar disso, houve uma substituição por efeitos igualmente incríveis mas que buscam texturas e ambientes mais vintage, mais ‘analógicos’. ‘Mad Max’ tem muitos efeitos, claro, mas eles se diluem em meio a máquinas de guerra caindo aos pedaços e piratas do futuro. Mais uma distopia hollywoodiana, obrigado.

Se havia dúvidas em relação ao tema do isolamento neste Oscar, ‘O Quarto de Jack’ é a prova final. Ao contrário de ‘O Regresso’ e ‘Perdido em Marte’, no entanto, não há paisagens ou horizontes, apenas a claustrofóbica vida de uma mãe e um filho trancafiados em um quarto. Ironicamente, o nome da personagem principal é ‘Joy’. ‘Joy’, aliás, é o nome de um outro filme sobre isolamento – desta vez um pouco mais metafórico. ‘Joy’ não concorre a Melhor Filme, mas permitiu mais uma vez que Jennifer Lawrence fosse indicada ao Oscar de Melhor Atriz. O filme conta a história da inventora do Mop, aquele modelo de esfregão bastante popular nos Estados Unidos. Antes disso, porém, a personagem Joy nada mais é que uma dona de casa que vive isolada dentro de seu próprio lar. Isolada, mas não sozinha: o filme mostra como alguém pode viver uma existência solitária mesmo convivendo com um monte de gente, no caso uma família paranoica e dependente de sua lucidez.

A bela e determinada Joy, no entanto, também traz à tona o que considero a temática secundária deste Oscar: o empoderamento das mulheres. Veremos este tema com mais força no futuro bem próximo, mas já podemos sentir que ele está pairando sobre Hollywood – e isso ganhou força no ano passado com o discurso de Patricia Arquette, que criticou a diferença salarial entre homens e mulheres quando subiu ao palco para receber o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por ‘Boyhood’.

Mulheres Super Furiosas

‘Joy’, enfim, conta a história de uma mulher extremamente forte e poderosa em meio a uma família de idiotas, sejam eles homens ou outras mulheres - a trama é baseada em uma história real. Também temos um exemplo de mulher poderosa em ‘Carol’, onde Cate Blanchett faz mais um papel maravilhoso. Li críticas dizendo que sua atuação era apática e sem paixão, mas é justamente essa falta de exagero que me agradou: seria bem mais fácil fazer o papel da mulher que larga tudo para viver um grande amor com outra mulher e cair no clichê histriônico da lesbian chic injustiçada. Cate é elegante demais para isso, talentosa demais para isso. Com uma interpretação sutil e delicada, deu o recado sobre a sua versão de mulher poderosa. E, em termos de empoderamento feminino, não podemos esquecer de Furiosa, personagem de Charlize Theron em ‘Mad Max’: se aquilo não é o arquétipo da mulher poderosa, então eu não sei o que é mulher - nem o que é poder.

Holofotes no escândalo

‘Spotlight - Segredos Revelados’ bóia em meio à temática do isolamento. É um bom filme, mas está longe de ter ‘Oscar quality’. Só está entre os indicados porque, volto a repetir, a safra deste ano está muito fraca. É um bom filme sobre o jornalismo e me fez ter vontade de rever meu filme favorito sobre o tema, ‘Network - Rede de Intrigas’, de 1976. ‘Spotlight’ é bem mais realista, mas está longe de ter a mesma força. Apesar disso, a humilhação da Igreja Católica causada pela revelação dos padres pedófilos é um prato tão cheio para o lobby judaico que controla Hollywood que não estranharei se 'Spotlight' levar o prêmio de Melhor Filme.

A pequena aposta

‘A Grande Aposta’ é uma boa prova da má safra que o Oscar trouxe este ano. Não é apenas chato; é um filme pretensioso que comprova apenas o que todo mundo já sabe: que o mercado financeiro é um universo à parte onde se fala uma língua propositalmente excludente com o objetivo de garantir que o resto do mundo não entenda como está sendo enganado. O diretor Adam McKay tentou fazer um épico sobre a crise de 2008, mas fez apenas um filme confuso e fragmentado, onde o envolvimento entre a plateia e os personagens é menor que o valor de uma ação do Lehman Brothers.

Dois fatos

Dois fatos que não tem muito a ver com o lado cinematográfico do Oscar também chamam a atenção para esta edição da premiação. Em primeiro lugar, a mudança do nome do Kodak Theatre para Dolby Theatre mostra que o mundo mudou e o digital (Dolby, som digital) substituiu totalmente o analógico (Kodak, filme analógico).

Em segundo lugar, a ameaça de boicote iniciada por Spike Lee em razão da falta de indicação de atrizes e atores negros. Spike Lee sempre foi meio radical em relação a esse tema e a discussão deve gerar muitas piadas durante a premiação. Acho que é importante ficar atento ao tema, embora, na minha opinião, ter negros entre os indicados não é uma obrigação da Academia, mas uma questão de merecimento dos profissionais. No Emmy, o Oscar da TV, muitos atrizes e atores negros foram premiados. Seria Hollywood mais preconceituosa que o mundo da TV? Ué, mas ’12 Anos de Escravidão’ não venceu o Oscar de Melhor Filme há dois anos? E o apresentador do Oscar não é o comediante Chris Rock? Será preconceito ou será que não havia nenhuma interpretação tão boa assim? Na minha modesta opinião, achei que faltou a indicação de Samuel L. Jackson ao Oscar de Melhor Ator por ‘Os Oito Odiados’. A história dos caubóis isolados numa cabana do velho oeste – olha o isolamento novamente – fez do filme de Tarantino o mais legal do ano.

E por falar em oito odiados, você percebeu que há apenas oito indicados ao Oscar de Melhor Filme? Lembrando que a Academia poderia ter indicado até dez filmes. E estamos falando da edição número 88 do Oscar! Não é muito oito para um Oscar só?

Fico imaginando os oito protagonistas dos indicados a Melhor Filme em uma cabana do velho oeste, isolados, lutando pela sobrevivência... Não seria um bom roteiro para o Oscar 2017?

88ª cerimônia de entrega dos Academy Awards - Oscar 2016
Domingo, 28 de fevereiro

Melhor Filme

Mad Max - Estrada da Fúria
O Regresso
O Quarto de Jack
Spotlight - Segredos Revelados
A Grande Aposta
Ponte dos Espiões
Brooklyn
Perdido em Marte

Quem deveria ganhar: O Regresso
Quem vai ganhar: Spotlight – Segredos Revelados

Melhor Diretor

Alejandro G. Iñárritu - O Regresso
Tom McCarthy - Spotlight - Segredos Revelados
Adam McKay - A Grande Aposta
George Miller - Mad Max: Estrada da Fúria
Lenny Abrahamson - O Quarto de Jack

Quem deveria ganhar: Alejandro Iñarritu
Quem vai ganhar: Alejandro Iñarritu

Melhor Atriz

Cate Blanchett - Carol
Brie Larson - O Quarto de Jack
Saoirse Ronan - Brooklyn
Charlotte Rampling - 45 Anos
Jennifer Lawrence - Joy - o Nome do Sucesso

Quem deveria ganhar: Cate Blanchett
Quem vai ganhar: Brie Larson

Melhor Ator

Bryan Cranston - Trumbo
Leonardo DiCaprio - O Regresso
Michael Fassbender - Steve Jobs
Eddie Redmayne - A Garota Dinamarquesa
Matt Damon - Perdido em Marte

Quem deveria ganhar: Leonardo DiCaprio
Quem vai ganhar: Leonardo DiCaprio

Melhor Ator Coadjuvante

Christian Bale - A Grande Aposta
Tom Hardy - O Regresso
Mark Ruffalo - Spotlight - Segredos Revelados
Mark Rylance - Ponte dos Espiões
Sylvester Stallone - Creed - Nascido para Lutar

Quem deveria ganhar: Tom Hardy
Quem vai ganhar: Sylvester Stallone

Melhor Atriz Coadjuvante

Jennifer Jason Leigh - Os 8 Odiados
Rooney Mara - Carol
Rachel McAdams - Spotlight - Segredos Revelados
Alicia Vikander - A Garota Dinamarquesa
Kate Winslet - Steve Jobs

Quem deveria ganhar: Jennifer Jason Leigh
Quem vai ganhar: Rooney Mara

Melhor Roteiro Original

Matt Charman - Ponte dos Espiões
Alex Garland - Ex Machina
Peter Docter, Meg LeFauve, Josh Cooley - Divertida Mente
Josh Singer, Tom McCarthy - Spotlight - Segredos Revelados
Jonathan Herman, Andrea Berloff - Straigh Outta Comptom

Quem deveria ganhar: Divertida Mente
Quem vai ganhar: Spotlight

Melhor Roteiro Adaptado

Charles Randolph, Adam McKay - A Grande Aposta
Nick Hornby - Brooklyn
Phyllis Nagy - Carol
Drew Goddard - Perdido em Marte
Emma Donoghue - O Quarto de Jack

Quem deveria ganhar: Perdido em Marte
Quem vai ganhar: Perdido em Marte

Melhor Animação

Anomalisa
Divertida Mente
Shaun, o Carneiro
O Menino e o Mundo
As Memórias de Marnie

Quem deveria ganhar: Anomalisa
Quem vai ganhar: Divertida Mente

Melhor Documentário em Longa-Metragem

Amy
Cartel Land
O Peso do Silêncio
What Happened, Miss Simone?
Winter on Fire: Ukraine's Fight fo Freedom

Quem deveria ganhar: Amy
Quem vai ganhar: Winter on Fire: Ukraine’s Fight to Freedom


Melhor Longa Estrangeiro

Theeb - Jordânia
A Guerra - Dinamarca
Cinco Graças - França
Filho de Saul - Hungria
O Abraço da Serpente – Colômbia

Quem deveria ganhar: Não sei
Quem vai ganhar: Filho de Saul

Melhor Canção Original

"Earned It" - The Weeknd - Cinquenta Tons de Cinza
"Manta Ray" - J. Ralph & Anthony - Racing Extinction
"Simple Song #3" - Sumi Jo - Youth
"Writing's On The Wall" - Sam Smith - 007 Contra Spectre
"Til It Happens To You" - Lady Gaga e Diane Warren - The Hunting Ground

Quem deveria ganhar: ‘Earned It’ – The Weeknd
Quem vai ganhar: ‘Writing’s on the Wall’ – Sam Smith

Melhor Fotografia

Carol
Mad Max: Estrada da Fúria
O Regresso
Sicario: Terra de Ninguém
Os 8 Odiados

Quem deveria ganhar: O Regresso
Quem vai ganhar: O Regresso

Melhor Figurino

O Regresso
Carol
Cinderela
A Garota Dinamarquesa
Mad Max: Estrada da Fúria

Quem deveria ganhar: A Garota Dinamarquesa
Quem vai ganhar: A Garota Dinamarquesa

Melhores Efeitos Visuais

Star Wars: O Despertar da Força
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
Ex Machina
O Regresso

Quem deveria ganhar: Mad Max
Quem vai ganhar: Mad Max

Melhor Design de Produção

Ponte dos Espiões
A Garota Dinamarquesa
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
O Regresso

Quem deveria ganhar: O Regresso
Quem vai ganhar: O Regresso

Melhor Edição

A Grande Aposta
Mad Max: Estrada da Fúria
O Regresso
Spotlight - Segredos Revelados
Star Wars: O Despertar da Força

Quem deveria ganhar: Mad Max
Quem vai ganhar: A Grande Aposta

Melhor Trilha Sonora

Carter Burwell - Carol
Ennio Morricone - Os 8 Odiados
Jóhann Jóhannsson - Sicario: Terra de Ninguém
Thomas Newman - Ponte dos Espiões
John Williams - Star Wars: O Despertar da Força

Quem deveria ganhar: Os 8 Odiados
Quem vai ganhar: Os 8 Odiados

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Star Wars: Que a Força do marketing esteja com você

Han Solo Rey Star Wars: Que a Força do marketing esteja com você

Han Solo entrega uma arma para a guerreira Rey: 'O Despertar da Força' traz ícones e autorreferências da saga original, filmada em 1977

Não consegui resistir à Força e fui ver ‘Star Wars’ no fim de semana de estreia. Fica até difícil dizer algo que ainda não foi dito nesse turbilhão de milhares e milhares de páginas, imagens, infográficos, vídeos e todo o tipo de material promocional/editorial/viral sobre o novo episódio da saga criada por George Lucas em 1977. A minha, portanto, é apenas uma opinião a mais.

É bom começar dizendo que o filme é excelente – para quem gosta deste tipo de filme, claro. Me refiro principalmente a adolescentes, vítimas do marketing mais espetacular da galáxia, saudosistas, que buscam na saga alguma válvula de escape para as suas próprias vidas, e gente que gosta simplesmente de um bom filme de ação. Há também as pessoas como eu, que não são tão obcecadas assim pela história, mas que ficaram curiosas com o barulho em torno de seu lançamento. É um fenômeno pop: assistir a ‘Star Wars’ é mais ou menos como comprar um disco da Adele ou ler ‘Cinquenta Tons de Cinza’. Uma tentativa de pertencer a essa época ou, pelo menos, de compreendê-la melhor.

E o que se entende ao ver o filme? Em primeiro lugar, que é um capítulo novo em uma trama complexa que envolve fé, emoção, moral, princípios, filosofia de vida. Em que outro setor da sociedade temos isso em abundância? Quem respondeu ‘religião’ acertou na mosca.

‘Star Wars’ é um fenômeno religioso no sentido pós-moderno, já que apresenta uma história cheia de significados autorreferenciais e explora conceitos 'profundos' por meio das atitudes de seus personagens, heróis e vilões. O filme novo, número 7 da trilogia tripla (1-9) ‘O Despertar da Força, aliás, é uma salada tão grande de referências e citações que poderíamos chamá-lo de ‘O Sci-Fi do Afro-Descendente Doido’: é Freud misturado com Joseph Campbell, Paulo Coelho com Cristianismo, auto-ajuda e cultura pop com budismo, tudo com uma pitada de revolução distópica. “Que a Força esteja com você”, dizem toda hora os apóstolos/fieis/guerreiros Jedi. Só faltava alguém responder: “ela está no meio de nós”. É o Han Solo nas alturas.

Um pai chega para o filho e diz: “Meu filho, pare de brincar com essas bobagens inventadas de ‘Star Wars’ e venha me ajudar a montar o presépio de Natal”. Ou: “Sabe qual é a diferença entre ‘Star Wars’ e o Cristianismo? Dois mil e quinze anos”. Nada mais fácil do que inventar piadas sobre ‘Star Wars’, como fiz aqui, já que a história mexe com tantos ícones da nossa sociedade. Daqui a dois mil anos, certamente teremos igrejas Jedi e templos de culto a Luke Skywalker achando que tudo aquilo foi realmente de verdade. Sim, porque os personagens são extremamente ‘bíblicos’ na forma como exercem uma função clara de inspiração e filosofia em seus 'ensinamentos'. A diferença é que as outras religiões, digamos, 'clássicas', pré-modernas, (Cristianismo, Judaísmo, Islamismo) falam sobre histórias do passado e buscam nelas as lições para a vida em sociedade. ‘Star Wars’ busca a mesma coisa, mas com lendas e mitos que do futuro (mesmo que o filme comece com a frase "Há muito tempo, em uma galáxia distante...." É apenas uma diferença de ponto de vista.

A teoria da cauda longa, popularizada pelo editor da Wired, Chris Anderson, no início dos anos 2000, também pode ser aplicada a essa visão neo-religiosa da cultura pop. Temos diversas ‘micro-religiões’, como podemos ver nas peregrinações em eventos como as Comic-Cons: temos os seguidores de ‘Star Wars’, mas também temos os fanáticos por Marvel; há os fieis que se inspiram em lendas japonesas, outros preferem seguir a 'palavra’ de sagas igualmente teológicas como ‘Game of Thrones’ e ‘Senhor dos Anéis’. A verdade é que esse tipo de religião ‘Long Tail’ tem a profundidade adequada para os tempos de hoje: é rápida e acessível; possui os conceitos de ‘bem contra o mal’ que precisamos para orientar nossas vidas; seus personagens são inspiradores e carismáticos. E quando a luz acende, quando acaba o filme/missa/episódio de série, podemos voltar rapidinho para a realidade do WhatsApp.

A grande igreja, olhando por esse prisma, é a própria Disney, que comprou recentemente a franquia ‘Star Wars’ de George Lucas por alguns bilhões de dólares. Digo que a Disney é uma Igreja porque age como a nave-mãe sob a qual existem várias divisões: Marvel, Star Wars, Pixar, Turma do Mickey, princesas. Não é brincadeira: não pode ser positivo que uma única empresa detenha uma parte tão grande da cultura de massa global, em todas as faixas etárias. Cheira a Império, e quando você vê ‘Star Wars’ percebe que todo império pode ser conduzido para o lado errado. Seria a Disney um Império desta natureza, ironicamente? Ou seria o Google? Facebook? Apple? Estado Islâmico? Quem contar a melhor história, leva. É tudo uma questão de ‘narrativa’ ou, para uma usar uma expressão da moda, ‘produção de conteúdo’.

Mas chega de teoria e vamos à prática: 'O Despertar da Força' é muito bom. É um grande filme de ação, com batalhas incríveis, cenas de luta e um visual 3D que faz tudo isso saltar na nossa cara. Com a Disney à frente, George Lucas passou o sabre de laser para J.J. Abrams, um dos grandes nomes do entretenimento mundial da atualidade. Abrams, entre outras coisas, ficou famoso por ter criado a série ‘Lost’, uma bem-sucedida distopia (olha distopia aí de novo, gente!) que gerou uma expectativa – e audiência – incríveis em todo o mundo. Abrams criou uma história incrível – a única pena é que ele esqueceu de criar um final. Mas as pessoas esquecem rápido.

Abrams é o cara certo no lugar certo. Ele é como uma espécie cinematográfica de Rick Rubin, produtor musical que pega as bandas em decadência e ‘ensina’ (cobrando apenas alguns milhões de dólares) que o que eles devem fazer, mesmo, é voltar às origens. Rubin fez isso com o Black Sabbath, quando a banda voltou com Ozzy Osbourne no disco ‘13’.

J.J. Abrams segue a mesma filosofia que Rubin: o importante é dar aos fãs o que os fãs querem. Esses seguidores – ou fieis, se você preferir – não querem novidades: eles estão atrás de memória, de conexões familiares e seguras. Rubin fez isso ao dizer que o Black Sabbath tinha que buscar a sonoridade de seus primeiros álbuns; em ‘Star Wars’, Abrams faz, com a tecnologia de hoje, um filme como o que George Lucas fez em 1977: humano, (pseudo)analógico, emocional. É por isso que ‘O Despertar da Força’ é muito melhor do que a primeira parte da trilogia, onde Lucas abusou da computação gráfica e fez filmes infantilóides e opacos.

Abrams volta, ironicamente, à estética dos filmes 4, 5 e 6 (que foram lançados primeiro, a partir de 1977), onde a tecnologia ainda não era tão boa, mas que o conteúdo filosófico e simbólico era bem mais forte.

Há referências mais sutis, mensagens subliminares que pipocam pela tela (quase) sem a gente perceber. A Resistência, formada pelos guerreiros bonzinhos que querem libertar a Galáxia dos vilões da Primeira Ordem, é composta por humanos, mas também por outros alienígenas estranhos que falam outros idiomas. Ou seja, a Resistência é tolerante com os ‘imigrantes’ de outros planetas, e agrega todos sob seu manto do ‘Bem’. Já a Primeira Ordem, cuja cena do discurso de seu general para as tropas é digna de Leni Riefenstahl, a cineasta favorita de Hitler, é um arquétipo do fascismo, com seus soldados uniformemente iguais, disciplinados e assépticos. China? Coreia do Norte? Rússia? É a liberdade e a tolerância contra o totalitarismo; o brilho nos olhos contra a rigidez robótica. É o Soft Power norte-americano em ação – e vale mencionar, sem spoilers, que o filme, basicamente, conta a história de um jovem negro e uma mulher contra um vilão com cara de árabe... mas é tudo muito sutil. Arrã.

Seguindo a filosofia Rick-Rubin-J.J.Abrams, ‘O Despertar da Força’ também conta com a volta da ‘formação original’ da saga: Han Solo, Princesa Leia e Luke Skywalker. São papeis menores, ‘pontas’, mas eles estão lá para abrilhantar a história e satisfazer o fetiche dos fãs. Até o Chewbacca os caras ressuscitaram! O primeiro robô gay da história, C3PO também está lá, assim como seu companheiro R2-D2. A obsessão pelas referências é tão grande que há frases no roteiro inteiramente pinçadas do filme de 1977; há até uma batalha de Han Solo e Chewbacca contra os Stormtroopers que tem exatamente a mesma tomada de câmera do Star Wars de 1977. Da formação original está presente também Lawrence Kasdan, roteirista de ‘O Império Contra-Ataca’ e ‘O Retorno de Jedi’. Aqui, Kasdan divide o roteiro com J.J. Abrams e Michael Arndt.

Essa formação original é a responsável pelas melhores cenas do filme. Han Solo, aliás, é o personagem mais legal de toda a saga. Ele é uma espécie de ‘homem comum’ entre tantos guerreiros e heróis perfeitos. É mentiroso, enrolador. Mesmo assim, a Princesa Leia é apaixonada por ele até hoje. O que isso significa, em meio a tantas referências? Nesses tempos de feminismo, prefiro nem tentar interpretar.

A grande verdade é que as mulheres estão cada vez mais poderosas: além de Leia, que é a líder da Resistência, a heroína do filme é a guerreira Rey, personagem de Daisy Ridley. Como Luke Skywalker, ela também não sabe quem são seus pais. Luta para sobreviver no dia a dia, é uma garota comum. Mas diante de tanto mal no mundo, algo dentro dela começa a despertar. E deve se consolidar nos próximos episódios da série, que só termina daqui uns cinco anos.

Mas os fãs podem ficar tranquilos: quando você achar que tudo acabou, que é o fim da saga, veremos nos cinemas ‘Star Wars X Marvel: Luke Skywalker e Capitão América contra o fantasma de Darth Vader'. Imagina a bilheteria?

Que a Força esteja conosco.

Primeira Ordem Star Wars: Que a Força do marketing esteja com você

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'Birdman', com Michael Keaton: O favorito ao Oscar é um exercício de metalinguagem com pitadas de realismo fantástico hollywoodiano

Há muito tempo eu não via uma lista de filmes indicados ao Oscar tão boa quanto a desta safra do Oscar 2015, cuja cerimônia de entrega das estatuetas será realizada no próximo domingo, 22 de fevereiro, em Los Angeles. Como tem sido nos últimos anos, a Academia reuniu filmes que à primeira vista parecem bastante diferentes entre si, mas que em uma análise mais profunda acabam seguindo algum tipo de temática. Não sei se é culpa (no bom sentido) da Academia ou dos próprios cineastas, que como os bons artistas sentem no ar os movimentos e tendências que povoam o nosso inconsciente coletivo cultural.

No ano passado, por exemplo, o ‘tema do Oscar’ se concentrou na condenação aos erros do passado (o esquemático ’12 Anos de Escravidão’) e, ao mesmo tempo, na esperança com o futuro (representado pelo espetáculo visual de ‘Gravidade’). Neste ano há outro tema, bem mais interessante: a obsessão e o poder que ela exerce sobre seus protagonistas. Como a obsessão não é um sentimento que existe sozinho, para haver obsessão é preciso que haja personagens obcecados, fortes e problemáticos, cheios de personalidade, que vão atrás dessas obsessões com determinação (quase) doentia.

É exatamente o que temos este ano: histórias incríveis protagonizadas por homens e mulheres ‘maiores que a vida’ (os famosos ‘bigger than life characters’ da língua inglesa), com ênfase em tramas inspiradas ou adaptadas na realidade. Temos, portanto, não um, mas dois temas: a obsessão e a realidade. Mas seriam esses personagens, então, obcecados pela realidade? Talvez essa seja uma afirmação muito abstrata – melhor dizer que esses personagens são obcecados por pequenas partes específicas de suas realidades.

Isso fica bastante claro quando olhamos a lista de indicados à Melhor Filme. Para começar, dos oito filmes que concorrem na categoria, quatro são baseados em biografias ou histórias reais: ‘Sniper Americano’, ‘O Jogo da Imitação’, ‘Selma’ e ‘A Teoria de Tudo’. Dos outros quatro, três deles ironicamente também contém elementos de realidade tão evidentes que suas histórias não funcionariam em um ambiente 100% ficcional: ‘Boyhood’, ‘Birdman’ e ‘Whiplash’. A lista de Melhores Filmes se encerra com o espetáculo visual de ‘Hotel Budapeste’, um filme tão maluco quanto maravilhoso.

Atirador de elite

‘American Sniper’ conta a história do soldado Chris Kyle, um atirador de elite do exército americano com o maior número de mortes confirmadas pelo Pentágono: 160. O filme dirigido pelo republicano Clint ‘Make my Day’ Eastwood é baseado em uma história recente, portanto estamos falando das intervenções americanas no Oriente Médio, mais precisamente no Iraque.

O fato de ser um filme que trata de ações militares ainda em vigor faz com que ele seja ainda mais interessante, uma vez que a história da guerra está em pleno andamento. Mas embora o filme traga algumas cenas de guerra naquele estilo que já estamos até cansados de ver – ainda mais depois de o tema já ter sido abordado à exaustão em ‘A Hora Mais Escura’ e ‘Guerra ao Terror’, ambos da diretora Kathryn Bigelow – o que vale mesmo é a consequência psicológica imposta a um homem que matou sozinho 160 seres humanos. Como isso afeta um pai de família, que está apenas ‘fazendo o seu trabalho’? Como é possível voltar para casa e cuidar de sua mulher e de seu filho, sabendo que 160 famílias ficaram órfãs graças a esse ‘trabalho’? O soldado Chris Kyle esteve no Iraque quatro vezes – ou seja, ele voltou à guerra mesmo depois de ter sido dispensado. Na verdade, o atirador fez questão de voltar ao campo de batalha. Por quê? Obsessão.

Obsessão em matar mais ‘selvagens’, obsessão por proteger a América, obsessão por ‘fazer seu trabalho’. ‘Sniper Americano’ é sobre isso, mais do que qualquer outra coisa. É disparada a melhor atuação da carreira de Bradley Cooper, um ator que ainda não havia sido levado muito a sério. Mas apesar de seu apelo patriótico ter feito muito sucesso no meio-Oeste americano – o personagem vem do ultra-conservador estado do Texas, terra da família Bush –, o filme levanta uma questão moral que envolve a própria existência dos atiradores de elite. Seria ‘justo’ um soldado que não se envolve na batalha de forma direta, mas que fica apenas no alto dos prédios assassinando inimigos pelas costas? Seria ético um soldado que não suja as mãos – apenas os dedos, vá lá –, que se posiciona confortavelmente a uma distância relativamente segura das tropas inimigas?

Difícil dizer o que é ético ou não em uma guerra, mas a discussão é interessante. Como sempre, o tema já tinha sido abordado de forma mais diagonal por Stanley Kubrick – sempre ele, o maior gênio da história do cinema – no filme ‘Nascido Para Matar’, quando os soldados americanos são mortos por um atirador no Vietnã e vão atrás dele movidos pelo ódio – até descobrirem que esse atirador implacável era apenas uma criança. Há cenas semelhantes em ‘Sniper Americano’, coincidência trágica ou homenagem Kubrickiana.

Nas ondas do rádio

‘O Jogo da Imitação’ também trata do tema da guerra, mas de uma maneira muito mais indireta. É a cinebiografia de Alan Turing, matemático que liderou o projeto cuja missão era ‘apenas’ decifrar o intrincado código ‘Enigma’ usado pelo exército nazista na Segunda Guerra. É um personagem obcecado pelos segredos da criptografia, um homem cuja vida tinha como único objetivo ser bem sucedido em sua missão. A interpretação de Benedict Cumberbatch é simplesmente incrível, perturbada como Alan Turing era na vida real – segundo os relatos.

Turing, um personagem praticamente desconhecido do grande público, pelo menos até agora, tem um papel igualmente fundamental na história da tecnologia: ao criar a máquina que tinha como objetivo decifrar o código nazista, ele também criou o primeiro computador da história. Há um outro componente interessante no filme, embora a meu ver explorado de maneira um pouco melodramática: Alan era homossexual e foi condenado a um ano de prisão por libertinagem – uma espécie de Oscar Wilde da matemática.

O fato tem pouco a ver com sua missão de decifrar o código, embora o filme trate sua opção sexual como parte fundamental de sua personalidade. Claro que era, mas sua participação estratégica na inteligência da guerra foi uma coisa tão extraordinária, que o fato de ele gostar de homens ou de mulheres perde completamente a relevância. Ele não é homossexual ou heterossexual – é um herói, ponto final. Esse tipo de abordagem, embora não seja prejudicial de maneira nenhuma ao filme, mostra que muitas vezes há uma ‘agenda’ escondida nessas cinebiografias que exaltam tanto personagens quanto visões de mundo.

Em ‘A Lista de Schindler’, Spielberg acendeu os holofotes globais para Oskar Schindler, empresário alemão que salvou mais de mil judeus durante a Segunda Guerra. Se Schindler foi um grande herói – e ele foi, obviamente – o que dizer de Alan Turing, que com a descoberta do código nazista impediu a morte de milhões de pessoas e encurtou a guerra em dois anos? Outro detalhe: Churchill, Roosevelt e Stálin podem ter derrotado Hitler no campo de batalha, mas quem realmente venceu os nazistas pela inteligência foi Alan Turing, judeu e homossexual. Pena que Hitler morreu antes de saber disso.

O homem mais inteligente do mundo

Stephen Hawking tinha muito em comum com Alan Turing, além de também ter sido fonte de inspiração para um filme indicado ao Oscar. Os dois são gênios ingleses, viveram quase na mesma época, sofreram com obsessões profissionais e problemas pessoais. Em ‘A Teoria de Tudo’, o físico inglês Stephen Hawking prova que uma ideia é mais forte que qualquer outro valor humano, não importa de onde ela veio. Hawking lutou por sua teoria com a única parte de seu corpo que não o abandonou: o cérebro.

Difícil imaginar por que ninguém havia feito um filme sobre uma vida tão incrível – talvez por divergências ou medo de expor um personagem ainda vivo. Hawking, autor do best-seller científico ‘Uma Breve História do Tempo’, é um homem extraordinário que tinha/tem um único objetivo: criar uma teoria simples que explique quando começou... o tempo. Claro que a teoria é muito mais complexa que isso, mas reconheço humildemente que meu conhecimento sobre o assunto é superficial. Sou um homem de palavras, não de números, e talvez resida aí a minha fascinação por personagens como Hawking e Turing. Como é possível alguém lidar com tantos conceitos abstratos? Ou será que são as palavras que são abstratas, não os números?

Enfim, o filme conta a vida desse homem que, mesmo paralisado em uma cadeira de rodas devido a uma doença degenerativa, conseguiu ter uma vida razoavelmente dentro do normal, com a mulher, filhos, férias no campo em família. E, nas horas vagas, tentava explicar as origens do universo a partir das relações entre a radiação das partículas subatômicas e a termodinâmica dos buracos negros. Quer dizer, acho que era isso. Quem vê a interpretação magistral do jovem Eddie Redmayne não pode acreditar que a Academia daria um Oscar a outro ator que não fosse ele. E, realmente, ele deve levar.

A Academia gosta de premiar papeis onde a pesquisa e o esforço físico na concepção do personagem são fundamentais para seu sucesso – a referência que vem à mente imediatamente é o de ‘Meu Pé Esquerdo’, quando Daniel Day-Lewis assombrou o mundo e levou o Oscar em 1990. Por outro lado, tenho ouvido também muitas críticas em relação à abordagem ‘melodramática’ que o diretor James Marsh deu à história de Hawking e sua mulher, Jane. Talvez tenha sido por isso que ele nem chegou a ser indicado na categoria de Melhor Diretor, embora seu filme tenha sido indicado a Melhor Filme. Isso costuma ser uma vergonha para o diretor ‘esquecido’, uma prova de que o filme é bom apesar de sua direção.

Concordo que o filme é esquemático e dramático um degrau acima do necessário, mas isso pode ter sido graças à fonte em que ele foi inspirado: o roteiro foi baseado na biografia de Jane Hawkings, primeira mulher do físico inglês. Acho que a superação pessoal de Hawking, mas também o esforço sobre-humano que Jane teve para que o casal tivesse uma família ‘normal’, tenham levado a essa versão da história. Embora belíssima, a trilha sonora de Jóhann Jóhannsson, é açucarada demais, repleta de melodias de piano melancólicas e melódicas. Talvez as mesmas melodias tocadas em violoncelo tivessem dado mais sobriedade à vida emocionante e repleta de dificuldades enfrentadas por Hawkings. A última cena do filme – que eu não vou contar aqui por razões óbvias – é tão linda e sensível que nos obriga a perdoar todos os excessos eventualmente cometidos por James Marsh.

Marchando pela liberdade

‘Selma’ é mais uma cinebiografia concorrendo ao Oscar deste ano, no caso a história do ativista negro Martin Luther King Jr. Apesar de estar entre os filmes indicados na categoria mais importante, o fato de a diretora Ava DuVernay e o ator principal, David Oyelowo, não estarem na lista de suas respectivas categorias enfraquece suas reais chances de vitória. Talvez o principal defeito deste filme correto e emocionante tenha sido o timing: o tema da igualdade racial foi destaque no ano passado, com o Oscar de Melhor Filme para ’12 Anos de Escravidão’. Mesmo assim, podemos dizer que há uma obsessão em jogo também aqui: a obsessão de MLK pela liberdade de seu povo, pela igualdade dos direitos entre negros e brancos.

Ao narrar as marchas lideradas por Martin Luther King entre a cidade de Selma, no interior do Alabama, até a capital do estado, Montgomery, o filme pode ser visto como uma prova de que a velocidade do tempo é rápida – porém relativa – na pós-modernidade. Há menos de 50 anos, os Estados Unidos assistia à marcha de MLK exigindo que a comunidade afro-americana tivesse direito ao voto.

Hoje o país tem um presidente negro. Ao mesmo tempo, enquanto ‘Selma’ ficava pronto na ilha de edição, em julho do ano passado, a comunidade afro-americana voltava às ruas para protestar contra o assassinato de Eric Garner por um policial branco em Staten Island, Nova York. A história sempre se repete – mas, ao contrário do que Marx dizia, nem sempre como farsa.

O protagonista é o tempo

‘Boyhood – Da Infância à Juventude’ é meu filme favorito desta safra do Oscar 2015. Reformulando, não apenas desta safra, mas provavelmente é um dos filmes mais interessantes em toda a história do cinema. Não estou sendo exagerado: considero ‘Boyhood’ não apenas um excelente filme, mas uma das mais importantes experiências cinematográficas da história. ‘Boyhood’ não é baseado em uma história real, pelo menos não no sentido stricto-sensu da expressão.

O diretor Richard Linklater demorou doze anos para filmar ‘Boyhood’ porque esse tempo é, de certa forma, o personagem principal do filme – e é por isso que considero ‘Boyhood’ tão interessante. Linklater, que sempre foi obcecado pelo tempo (olha a obsessão aqui mais uma vez), filmou a mudança física dos atores Ethan Hawke e Patricia Arquette, os pais, e Ellar Coltrane, o filho, durante esse período, incorporando o tempo real à trama do filme.

Ou seja: você literalmente vê o garoto crescer diante de seus olhos nas duas horas do filme, mas não apenas isso: você também vê os personagens de Ethan Hawke e Patricia Arquette envelhecendo. Nada daquilo é maquiagem – em doze anos muita coisa muda quando se tem mais de quarenta. O resultado é um filme sensível, mas sem muitos acontecimentos marcantes. Tenho amigos, inclusive, que criticam ‘Boyhood’ porque dizem que ele “não tem história”.

É verdade, não há nada muito interessante acontecendo – mas só se você acha que a vida não é interessante. O filme é um experimento ambicioso, na minha opinião, justamente porque mostra a vida acontecendo de verdade na tela. Os planos que não são concretizados; as desilusões amorosas que todos os seres humanos enfrentam em algum momento; a dificuldade que é crescer.

Acho que é isso: o filme mostra o que é crescer, o que é se transformar de criança em adolescente e, mais tarde, em um jovem adulto. Das brigas com o irmão mais velho ao primeiro dia de aula em uma nova escola; da mudança para outra cidade ao divórcio dos pais; do primeiro gole de cerveja ao primeiro amor. É lindo, incrível, maravilhoso. Mas também é sofrido, duro, complicado. Dizer que ‘Boyhood’ não tem história é como dizer que a vida não tem história, é negar que os momentos que vivemos no dia a dia são menos importantes apenas porque não são dignos de um roteiro de cinema. “A vida é o que acontece enquanto estamos ocupados fazendo outros planos”, disse John Lennon. Esse conceito filosófico tão simples quanto universal poderia ser o resumo do roteiro de ‘Boyhood’.

Disse lá em cima que Richard Linklater é um obcecado pelo tempo, acho justo contextualizar a afirmação. Além da paciência e disciplina para filmar ‘Boyhood’ em doze anos – imagina o trabalho de ter que reunir os atores a cada ano para gravar novas cenas, mantendo a continuidade e profundidade dos personagens –, Linklater já havia nos presentado com outra obra-prima: a trilogia ‘Antes do Amanhecer’/’Antes do Pôr do Sol’/ ‘Depois da Meia-Noite’.

Nessa outra experiência cinematográfica, o diretor fez três filmes sobre um casal que se conhece/se casa/ enfrenta uma crise no casamento (estrelados por Ethan Hawke e Julie Delpy) com intervalo de nove anos entre cada um. Ou seja, vemos nessa trilogia, também, as marcas do tempo sobre os atores e sobre um relacionamento. Adoraria ver uma conversa entre Richard Linklater e o físico inglês Stephen Hawing sobre o tempo e o seu poder de transformação. ‘Birdman – Ou a Inesperada Virtude da Ignorância’ é outro filme incrível e que também trata de obsessão – desta vez pela fama.

Homem-pássaro

O melhor papel da carreira de Michael Keaton é também o mais irônico. O filme, dirigido pelo mexicano Alejandro Iñárritu, é uma meta-experiência cinematográfica, tão interessante quanto ‘Boyhood’. É por isso que defendo que essa safra do Oscar está tão boa – o cinema está se reinventando para poder voltar a competir com a excelente qualidade atingida pelas séries de TV. Isso está forçando os cineastas a encontrar novas formas de contar histórias, novos conceitos e formatos.

E quem ganha com isso é o público que ama cinema – nós. O filme conta a história de um ator que interpretou um super-heroi no passado (Birdman), mas que agora quer resgatar sua credibilidade atuando em uma peça de teatro na Broadway. O irônico é que Michael Keaton também fez o papel de um super-heroi e teve a atuação bastante criticada por isso – ele foi o Batman, dirigido por Tim Burton, em 1989.

O filme é repleto de outras referências, muitas delas críticas em relação aos blockbusters de Hollywood. Por que ele foi indicado ao Oscar, se faz uma crítica justamente ao mundo do cinema? Aí é que está a ironia – Hollywood faz um mea-culpa por várias razões, mas também porque sabe que a autocrítica dá audiência. Em termos visuais, o que atrai em ‘Birdman’ é que ele filmado em um único plano-sequência, ou seja, não há cortes. Como assim, um filme de duas horas sem cortes?

Pois é, Alfred Hitchcock já fez isso na mão em ‘Rope’ ('Festim Diabólico') e agora Iñárritu simula essa falta de cortes usando a tecnologia do cinema digital. O roteiro facilita essa linguagem, já que é filmado quase inteiramente nos bastidores do teatro onde a peça será encenada. Para criar tensão, Iñárritu escolheu uma trilha sonora seca e incômoda: uma sequência de solos de bateria. O que nos remete a outro ótimo filme da lista de indicados.

Em busca da batida perfeita

‘Whiplash – Em Busca da Perfeição’ tem algo em comum com ‘Birdman’: a trilha sonora feita praticamente apenas com solos de bateria. Peraí, mas dá para aguentar duas horas de solos de bateria? Realmente, é um som opressor, barulhento, caótico, mas que imprime aos dois filmes uma tensão que dificilmente seria conseguida se a música fosse orquestrada, por exemplo. Deixei ‘Whiplash’ por último porque ele é o símbolo maior dessa tendência de reunir no mesmo Oscar filmes sobre obsessão. ‘Whiplash’ é a obsessão em estado puro.

O filme conta a história de Andrew Neiman (Miles Teller), um estudante de bateria que leva o estudo do instrumento às últimas consequências graças à cobrança louca de um professor completamente obcecado (Terence Fletcher, interpretado por J.K. Simmons). O filme traz um elemento forte de realidade (olha a realidade aí novamente), uma vez que o diretor, Damien Chazelle, também foi um aluno de bateria e vítima de um professor maníaco. Na hora a gente lembra de outro filme de Stanley Kubrick, 'Nascido para Matar', onde o soldado gorducho que sofre bullying to sargento encontra uma maneira radical de se vingar.

O interessante é que ‘Whiplash’ poderia ser sobre qualquer assunto, qualquer coisa no mundo. Ele é sobre obsessão, não sobre bateria. Poderia ser sobre um colecionador de caixinhas de fósforo que quer ser o melhor do mundo; poderia ser sobre um corredor de Fórmula 1 que quer ser o melhor do mundo. No caso, ele é sobre um baterista, seu professor e até onde pode ir a loucura de um indivíduo quando ele projeta em um jovem o talento que ele gostaria de ter tido mas que nunca terá. Outra coisa interessante sobre o filme é que ele fala especificamente sobre um baterista de jazz, estilo que prima pela inspiração e não pela técnica pura e disciplinada.

O jazz, maior expressão de arte criada pelos Estados Unidos, é feito de liberdade, de improviso. Querer imprimir disciplina ao jazz é como cortar as asas de um pássaro e exigir que ele voe – uma contradição. Bateristas de jazz foram feitos para serem livres, para marcar o ritmo com emoção, não para serem máquinas perfeitas. Esse paradoxo é o que torna o filme uma grande experiência não apenas visual, mas também sonora, dramática, universal.

Um hotel muito louco... e um milionário também

Há outros grandes filmes nessa leva, como ‘Hotel Budapeste’ e ‘Foxcatcher’. ‘Hotel Budapeste’ prova porque Wes Anderson é um dos cineastas mais interessantes da atualidade. Não dá para saber se o filme é uma comédia trágica ou um drama engraçado – talvez as duas coisas ao mesmo tempo. Visualmente, ele é um gênio. Suas cenas são simétricas como as de Stanley Kubrick, mas suas cores são tão exageradas quanto às de um desenho animado. Wes Anderson é o garoto de dez anos nerd e esquisitão que rouba as tintas e pinceis do tio pintor e sai colorindo o mundo.

‘Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo’ traz, por sua vez, mais uma história real: a do milionário americano John DuPont, que, obcecado por luta livre, investiu milhões de dólares para patrocinar a equipe olímpica norte-americana. O filme é tenso não apenas pela história que fica cada vez mais estranha, mas porque não há música para amenizar as cenas mais duras nem para glorificar as lutas. Ótimas atuações de Mark Ruffalo e Channing Tatum como os atletas patrocinados por DuPont, mas a grande surpresa mesmo é ver Steve Carrell atuando em um papel sério. Claro que ele passou por uma transformação física feita pela equipe de maquiagem, do contrário morreríamos de rir toda vez que ele aparecesse em cena.

O cinema é relativo

Há outros filmes extremamente interessantes na safra que disputa o Oscar, mesmo nas categorias mais, digamos, técnicas. ‘Interestelar’, do diretor Christopher Nolan, é outro que trata o tempo como personagem – nesse caso, no entanto, em uma fábula de ficção científica. Nolan já é conhecido por ser um cineasta que adora brincar com a relatividade do tempo-espaço, o que já dava para ver desde seu filme de estreia, o super original ‘Amnésia’.

Para quem não lembra, é um filme contado de trás para frente. E o que dizer do estranhíssimo ‘A Origem’, com Leonardo DiCaprio, em que Nolan monta tantos labirintos de sonhos que temos a impressão de estar vendo um filme com cenários desenhados por M.C. Escher e roteiro escrito por Jorge Luis Borges? De qualquer maneira, é um filme lindo, sensível, mesmo tendo 50% de trechos em que a gente não tem a menor ideia do que está acontecendo.

Como prova de que a safra está excepcionalmente acima da média, temos filmes excelentes até entre os que não estão nas categorias mais nobres. ‘Para sempre Alice’, dirigido por Richard Glatzer, traz uma atuação sensacional (mais uma) de Julianne Moore, que se credencia cada vez mais a ocupar o posto de Meryl Streep como maior atriz do cinema mundial. A própria Meryl, claro, também concorre a alguma coisa. No caso, a Atriz Coadjuvante em ‘Caminhos da Floresta’, um filme infantil e menor em sua carreira gigantesca. Já que estamos falando de atrizes, vale também citar a ótima atuação de Rosamund Pike no tenso ‘Garota Exemplar’, além da bonitinha e determinada Reese Whiterspoon em ‘Livre’, com roteiro de um dos meus escritores favoritos, Nick Hornby.

Relatos maravilhosos

Para fechar com chave de ouro, um filme que nos dá uma inveja (no bom sentido) do cinema argentino: ‘Relatos Selvagens’ não deveria estar concorrendo a Melhor Filme Estrangeiro, mas a Melhor Filme, ponto. Escrito e dirigido por Damián Szifrón, ele consolida um conceito extremamente original. Se levarmos em conta que longas-metragens estão para o cinema assim como os romances estão para a literatura, então ‘Relatos’ seria um filme ‘de contos’.

Ou seja, seis histórias maravilhosas totalmente independentes – ligadas de forma delicada por um único tema: a vingança. Como é um filme argentino, não precisamos nem dizer que um dos atores principais é o onipresente Ricardo Darín, mais uma vez excelente no papel de... Ricardo Darín, mesmo.

Agora só nos resta torcer e esperar a cerimônia de entrega do Oscar, no próximo domingo. Se quiser acompanhar meus comentários ao vivo, basta seguir meu perfil no Twitter @felipemachado. Se você chegou até aqui, obrigado pela paciência em ler um texto tão longo. É que, da mesma maneira que os filmes deste ano, eu também sou um obcecado.

Melhor filme
"Sniper americano"
"Birdman"
"Boyhood: Da infância à juventude"
"O grande Hotel Budapeste"
"O jogo da imitação"
"Selma"
"A teoria de tudo"
"Whiplash"

Quem deveria ganhar: ‘Boyhood’
Quem vai ganhar: ‘Birdman’

Quem ganhou: 'Birdman'

Melhor diretor
Alejandro Gonzáles Iñárritu ("Birdman")
Richard Linklater ("Boyhood")
Bennett Miller ("Foxcatcher: Uma história que chocou o mundo")
Wes Anderson ("O grande hotel Budapeste")
Morten Tyldum ("O jogo da imitação")

Quem deveria ganhar: Richard Linklater
Quem vai ganhar: Alejandro Gonzáles Iñárritu

Quem ganhou: Alejandro Gonzáles Iñárritu

Melhor ator
Steve Carell ("Foxcatcher")
Bradley Cooper ("Sniper americano")
Benedict Cumbertatch ("O jogo da imitação")
Michael Keaton ("Birdman")
Eddie Redmayne ("A teoria de tudo")

Quem deveria ganhar: Michael Keaton
Quem vai ganhar: Eddie Redmayne

Quem ganhou: Eddie Redmayne

Melhor ator coadjuvante
Robert Duvall ("O juiz")
Ethan Hawke ("Boyhood")
Edward Norton ("Birdman")
Mark Ruffalo ("Foxcatcher")
JK Simons ("Whiplash")

Quem deveria ganhar: JK Simmons
Quem vai ganhar: JK Simmons

Quem ganhou: JK Simmons

Melhor atriz
Marion Cotillard ("Dois dias, uma noite")
Felicity Jones ("A teoria de tudo")
Julianne Moore ("Para sempre Alice")
Rosamund Pike ("Garota exemplar")
Reese Witherspoon ("Livre")

Quem deveria ganhar: Julianne Moore
Quem vai ganhar: Reese Witherspoon

Quem ganhou: Julianne Moore

Melhor atriz coadjuvante
Patricia Arquette ("Boyhood")
Laura Dern ("Livre")
Keira Knightley ("O jogo da imitação")
Emma Stone ("Birdman")
Meryl Streep ("Caminhos da floresta")

Quem deveria ganhar: Patricia Arquette
Quem vai ganhar: Patricia Arquette

Quem ganhou: Patricia Arquette

Melhor filme em língua estrangeira
"Ida" (Polônia)
"Leviatã" (Rússia)
"Tangerines" (Estônia)
"Timbuktu" (Mauritânia)
"Relatos selvagens" (Argentina)

Quem deveria ganhar: ‘Relatos Selvagens’
Quem vai ganhar: ‘Relatos Selvagens’

Quem ganhou: 'Ida'

Melhor documentário
"O sal da terra"
"CitizenFour"
"Finding Vivian Maier"
"Last days"
"Virunga"

Quem deveria ganhar: ‘O sal da terra’
Quem vai ganhar: “Virunga”

Quem ganhou: 'CitizenFour'

Melhor animação
"Operação Big Hero"
"Como treinar o seu dragão 2"
"Os Boxtrolls"
"Song of the sea"
"The Tale of the Princess Kaguya"

Quem deveria ganhar: “Uma aventura Lego”
Quem vai ganhar: "Operação Big Hero"

Quem ganhou: 'Operação Big Hero'

Melhor roteiro original
Alejandro G. Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris Jr. e Armando Bo ("Birdman")
Richard Linklater ("Boyhood")
E. Max Frye e Dan Futterman ("Foxcatcher")
Wes Anderson e Hugo Guinness ("O grande hotel Budapeste")
Dan Gilroy ("O abutre")

Quem deveria ganhar: “Boyhood”
Quem vai ganhar: “Birdman”

Quem ganhou: 'Birdman'

Melhor roteiro adaptado
Jason Hall ("Sniper americano")
Graham Moore ("O jogo da imitação")
Paul Thomas Anderson ("Vício inerente")
Anthony McCarten ("A teoria de tudo")
Damien Chazelle ("Whiplash")

Quem deveria ganhar: Graham Moore ("O jogo da imitação")
Quem vai ganhar: Jason Hall ("Sniper americano")

Quem ganhou: 'O jogo da imitação'

Melhor fotografia
Emmanuel Lubezki ("Birdman")
Robert Yeoman ("O grande hotel Budapeste")
Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski ("Ida")
Dick Pope ("Sr. Turner")
Roger Deakins ("Invencível")

Quem deveria ganhar: Robert Yeoman ("O grande hotel Budapeste")
Quem vai ganhar: Robert Yeoman ("O grande hotel Budapeste")

Quem ganhou: 'Birdman'

Melhor edição
Joel Cox e Gary D. Roach ("Sniper americano")
Sandra Adair ("Boyhood")
Barney Pilling ("O grande hotel Budapeste")
William Goldenberg ("O jogo da imitação")
Tom Cross ("Whiplash")

Quem deveria ganhar: Sandra Adair ("Boyhood")
Quem vai ganhar: Sandra Adair ("Boyhood")

Quem ganhou: 'Whiplash'

Melhor design de produção
"O grande hotel Budapeste"
"O jogo da imitação"
"Interestelar"
"Caminhos da floresta"
"Sr. Turner"

Quem deveria ganhar: "O grande hotel Budapeste"
Quem vai ganhar: "O grande hotel Budapeste"

Quem ganhou: 'O grande hotel Budapeste'

Melhores efeitos visuais
"Capitão América 2: O soldado invernal"
"Planeta dos macacos: O confronto"
"Guardiões da Galáxia"
"Interestelar"
"X-Men: Dias de um futuro esquecido"

Quem deveria ganhar: “Interstelar”
Quem vai ganhar: "Interstelar"

Quem ganhou: 'Interstelar'

Melhor trilha sonora
Alexandre Desplat ("O grande hotel Budapeste")
Alexandre Desplat ("O jogo da imitação")
Hans Zimmer ("Interestelar")
Gary Yershon ("Sr. Turner")
Jóhann Jóhannsson ("A teoria de tudo")

Quem deveria ganhar: Alexandre Desplat ("O jogo da imitação")
Quem vai ganhar: Alexandre Desplat ("O jogo da imitação")

Quem ganhou: Alexandre Desplat ('O grande hotel Budapeste)

Melhor canção

"Everything is awesome", de Shawn Patterson ("Uma aventura Lego")
"Glory", de John Stephens e Lonnie Lynn ("Selma")
"Grateful", de Diane Warren ("Além das luzes")
"I'm not gonna miss you", de Glen Campbell e Julian Raymond ("Glen Campbell…I'll be me")
"Lost Stars", de Gregg Alexander e Danielle Brisebois ("Mesmo se nada der certo")

Quem deveria ganhar: "Lost Stars" ("Mesmo se nada der certo")
Quem vai ganhar: "Lost Stars" ("Mesmo se nada der certo")

Quem ganhou: 'Glory'

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Evento vai reunir David Zabel, showrunner da série ‘ER – Plantão Médico’, e Dan Attias, diretor de séries como ‘Os Sopranos’, ‘Homeland’ e ‘House’

Todo mundo sabe que a produção feita hoje para a TV está muito mais interessante do que o que chega aos cinemas, tomados quase que exclusivamente por blockbusters e filmes de super-herois. Parte da responsabilidade por essa qualidade atingida pela TV americana pode ser creditada, entre muitos outros, a dois homens: o showrunner David Zabel, criador de ER – Plantão Médico, e Dan Attias, diretor de diversos episódios em séries como ‘Os Sopranos’, ‘The Wire’, ‘Homeland’, ‘Ray Donovan’, ‘Deadwood’, ‘Entourage’, ‘Six Feet Under’, ‘The Killing’, ‘House’, ‘Alias’, ‘Heroes’ e ‘Walking Dead’, entre outras.

Essas duas feras estarão em São Paulo para participar, no próximo sábado (22 de novembro), do seminário ‘A Arte do Roteiro de Televisão’. Promovido pela produtora Corisco Filmes, o encontro pretende discutir os rumos e apontar as tendências da TV mundial com ênfase na produção de séries.

Já consolidado nos mercado norte-americano, a função de ‘Showrunner’ ainda é rara na TV brasileira. O cargo reúne as atribuições de roteirista e produtor executivo de uma série, praticamente o ‘dono’ do projeto. É sobre isso a palestra de David Zabel, que foi showrunner da série ‘ER – Plantão Médico’ durante os últimos cinco anos do show que alçou George Clooney à fama. Escreveu mais de 45 episódios e, em 2008, recebeu o prêmio Humanitas Prize pelo roteiro que focou na tragédia de Darfur, no Sudão.

Além de ‘Plantão Médico’, Zabel foi showrunner das séries ‘Detroit 1-8-7’ (2010 e 2011), ‘Betrayal’ e ‘Lucky 7’ e roteirista das séries ‘Dark Angel’, ‘Star Trek: Voyager’. Atualente, Zabel desenvolve uma nova série para a PBS que se passará em um hospital do exércio durante a Guerra Civil Americana.
Já o diretor Dan Attias, que já trabalhou em dezenas de séries americanas, vai falar sobre seu trabalho e sobre a importância da parceria com os showrunners de cada projeto.

Attias vai falar sobre o dia a dia à frente de grandes produções para a TV e as diferentes responsabilidades do trabalho do diretor. O diretor já foi nomeado diversas vezes para o Emmy Awards e ganhou o prêmio de Melhor Direção de Série Dramática do Directors Guild of America pela série ‘The Wire’. No início da carreira, foi assistente de direção de nomes como Francis Ford Coppola, Steven Spielberg e Wim Wenders.


Seminário ‘A Arte do Roteiro de Televisão’
Com David Zabel e Dan Attias
Sábado, 22 de novembro, das 10h às 17h
R. Dep. Lacerda Franco, 148 – São Paulo, SP

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