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A canção tema da Copa não me representa: clichê e rap latino de quinta categoria

weareone A canção tema da Copa não me representa: clichê e rap latino de quinta categoria

Imagem de divulgação da canção 'We Are One'. Referências a Gauguin, pintor francês que retratou o Tahiti... em 1891

Fala sério, Fifa.

Acabo de ouvir a patética canção tema da Copa do Mundo no Brasil. A 'originalidade' começa pelo nome 'We Are One'. Que nome genial. 'Nós Somos Um'. Que coisa bonita, que mensagem linda. Nunca tinha ouvido isso antes. Deve ser a 259a. música com esse nome, mas tudo bem. E o subtítulo, então? 'Ole Ola'? Fala sério? 'Ole Ola'? É isso mesmo? Quem canta o backing vocals, Carmem Miranda?

O estereótipo ultrapassado de paraíso tropical está presente até na imagem que acompanha a música na internet: um sub-Gauguin porco e malfeito, uma referência ridícula às obras que o pintor francês produziu no Tahiti quando mudou para lá, em 1891. Fala sério? Para retratar a Copa no Brasil, foram buscar referência no 'paraíso perdido' que Gauguin encontrou em 1891? Estereótipo do estereótipo, voltamos a ser os selvagens de sempre.

'We Are One' não me representa também musicalmente. É um rap latino de quinta categoria com Pitbull (quem?) e Jennifer Lopez (gemendo) em espanhol com sotaque de gringo. Clichê do clichê. Também achei boa a ideia de chamar um rapper chamado Pitbull para cantar o tema da Copa. Um apelido tão carinhoso, não? Pitbull. É tudo o que a gente precisa aqui, um Pitbull americano rosnando em nome do Brasil.

Fiquei feliz, no entanto, de ver a 'música brasileira', uma das melhores do planeta, muito bem representada! Claudia Leitte canta um trecho de exatos 13 segundos. Nunca pensei que diria isso na vida, mas fiquei como vontade de ouvir mais da voz dela - imagina como está o resto.

Fico imaginando quem teria aprovado essa maravilha artística, o Aldo Rebelo ou o Joseph Blatter.

Alguém organiza um protesto #NaoVaiTerTema e me chama? Obrigado.

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O Brasil já perdeu a Copa do Mundo antes mesmo do primeiro chute

 

soccer city O Brasil já perdeu a Copa do Mundo antes mesmo do primeiro chute

A grama do vizinho é sempre mais verdinha. No caso, do Estádio Soccer City

Confesso que não gostaria de estar escrevendo este texto, mas as circunstâncias (e uma certa revolta pessoal) me obrigam.

Ao ver a vitória de 5 a 0 do Brasil contra a África do Sul, me veio à memória a última Copa do Mundo, evento que tive o prazer de cobrir e sobre o qual lancei o livro 'Bacana Bacana - Aventuras de um Jornalista Brasileiro pela África do Sul' (sim, isso foi um pequeno merchandising, obrigado).

Fui a vários jogos, viajei pelo país, conheci boa parte da infraestrutura criada para o megaevento esportivo. Apesar de diversos problemas, deu para perceber que a África do Sul entendeu a importância de sediar um evento da natureza de uma Copa do Mundo e aproveitou a oportunidade em diversas áreas, com bastante profissionalismo. Teve corrupção? É óbvio que deve ter rolado. Mas o país, famoso no passado recente por ter sido o berço do nojento apartheid, tornou-se o país do Nelson Mandela, 'a primeira Copa da África', e melhorou um pouco a sua situação em relação à opinião pública internacional. E é por isso que me revolta ver como o Brasil está tratando a Copa.

A Copa do Mundo no Brasil foi anunciada em outubro de 2007. Peraí. Como é que é? Respira fundo porque gostaria que você prestasse atenção nessa data: outubro de 2007. Isso faz sete anos. Quanto? Sete anos. Mais de 2.500 dias. O que foi feito nesse período? Uma obrinha superfaturada em um estadiozinho aqui, uma reforminha sem-vergonha em um aeroportinho ali. O que era para ser a 'Copa da iniciativa privada', virou a Copa financiada pelo governo. Ou seja, por você. E eu. Mesmo sendo corintiano, não queria ter ajudado a pagar a conta do Itaquerão. E o pior: o fantasma dos elefantes brancos - aqueles estádios 'padrão Fifa' que depois que a Copa passa não servem para nada, principalmente nos estados que sequer têm times na Série A - nos atormenta da mesma maneira. Somos tão idiotas que não conseguimos aprender com os erros dos outros?

A verdade é que já perdemos a Copa antes mesmo de ela começar. Jogamos no lixo a oportunidade de investir em infraestrutura, em transporte público, em serviços decentes. Não nos planejamos minimamente e seguimos sem a menor noção do que precisa ser feito. Tenho vergonha da incompetência dos nossos governos, que não sabem o que significa a expressão ‘longo prazo’. Essas reformas não são só para os gringos-turistas aproveitarem, não. Seria um bom legado que ficaria para o nosso povo - se tivesse sido feito. Eu me pergunto: por quê não fizemos isso direito? Se nos gabamos de ser o país do futebol, o único pentacampeão? O único que participou de todas as Copas? Do jeito que a coisa vai, apenas os hoteis e restaurantes das cidades-sede - e as escolas de inglês - lucrarão com a Copa. E até os próprios investimentos na Copa podem virar pó diante do número de feriados artificiais que vão acabar prejudicando a macroeconomia.

Há quatro anos, no lançamento do edital para construção do trem-bala (lançado em julho de 2010) o presidente Lula disse: “Mal terminou a Copa do Mundo na África do Sul e já começam a dizer: “Cadê os aeroportos brasileiros? Cadê os estádios brasileiros? Cadê os corredores de trem brasileiros? Cadê os metrôs brasileiros?”. Como se nós fôssemos um bando de idiotas que não soubéssemos fazer as coisas e nem definir as nossas prioridades”.

Pois é, eu continuo fazendo as mesmas perguntas, portanto, de acordo com o raciocínio do Lula, eu sou um idiota. Eu e alguns milhões de idiotas, para ser mais justo. Mas vamos lá, então: eu gostaria realmente de saber onde estão os aeroportos? Cumbica não tem estrutura para atender sequer um campeonato mundial de botão, quanto mais uma Copa do Mundo. E tenho pena do turista que chegar aqui e quiser alugar um carro. Se estiver com GPS, talvez ele consiga chegar ao hotel – isso se o cara não for assaltado ou o carro não cair numa das crateras que acostumamos a chamar de ruas e estradas. Não sabemos sequer asfaltar as ruas, como construiremos estádios?

Ah, já sei. Vão falar que é 'complexo de vira-lata', que estou criticando o Brasil e não olho para o que acontece em outros países. Que preguiça desse argumento! O Nelson Rodrigues disse isso em 1950, mas tem gente que ainda acha que ele é atual.

Países sérios usam eventos do porte de uma Copa para crescer. Se o Brasil fosse um país inteligente e honesto, teríamos investido com competência para melhorar a vida dos brasileiros e fazer uma Copa do Mundo decente. Pena que ainda tentamos viver de acordo com o jeitinho brasileiro, essa forma de planejamento patética e improvisada que só serve para atrasar nosso desenvolvimento como país. Quem sabe na Copa de 2054?

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A vida de Daniel Piza foi um aforismo brilhante

FM DP A vida de Daniel Piza foi um aforismo brilhante

Eu e Daniel Piza na cova dos leõezinhos

Adiei ao máximo este texto, justamente porque sabia que seria muito difícil escolher as palavras certas para escrevê-lo até o final. Mas agora chegou a hora de tirá-las de dentro de mim, me livrar dessas malditas palavras da mesma maneira como há alguns dias me livrei das malditas lágrimas.

Meu colega Marco Bezzi me ligou no último dia do ano com a triste notícia: morreu Daniel Piza. Eu estava em Ilhabela, uma manhã chuvosa de ventos fortes, e demorei a entender o que a frase queria dizer. Não por causa da chuva nem por causa dos ventos. É que morrer não é coisa que a gente deixa para o último dia do ano, vai, morte a gente resolve no ano que vem. Mas quis o roteiro de vida do Daniel que 2011 terminasse assim, com uma frase sem sentido em meio a uma manhã chuvosa de ventos fortes.

Daniel Piza não era apenas um jornalista brilhante, que escrevia talentosamente sobre assuntos incrivelmente variados. Isso era até motivo de brincadeira entre a gente. Arte, política e futebol, vá lá. Mas quando ele fazia comentários sobre dança, eu brincava: ‘porra, Dani, dança não!’. Mas ele seguia escrevendo sobre qualquer coisa que ele achasse importante, e a gente seguia lendo. Porque ele não escrevia apenas para os colegas jornalistas, críticos, artistas ou leitores. Ele escrevia para refletir sobre o mundo, entender como a arte mudava o mundo e o mundo mudava a arte. E escrevia bem, ah, como escrevia bem. Lúcido, lógico, conhecedor, contextualizador, contemporizador. Polêmico, mas não tanto quanto querem pintá-lo agora. Apenas dava sua opinião. E ele tinha culpa da sua opinião ser melhor do que a opinião da maioria?

Eu teria milhares de histórias para contar sobre a minha convivência com Daniel Piza, não apenas na redação do Estadão, mas principalmente nas extensas e exóticas coberturas jornalísticas que fizemos juntos. Na Olimpíada da China ficamos amigos; antes eu o achava um pouco arrogante por passar a maior parte do tempo em meio às torres de livros que brotavam em sua sala como 'personagens' de Borges.

Na China descobri que não havia arrogância: o cara era muito, muito gente boa. Bom papo, tranquilão, superprofissional. Acabou virando personagem do meu livro ‘Ping Pong’. Descobrimos Pequim juntos, e muitas vezes ele também virou personagem de vídeos da TV Estadão, falando sobre arquitetura, esporte ou qualquer outro assunto. O cara entendia de tudo, impressionante. Pelas ruas de Pequim nós encontrávamos solução para tudo, para o Brasil, para os problemas do Estadão, para a paz no Oriente Médio. Falávamos muito sobre música, assunto que ele discutia como ouvinte, enquanto eu discutia como músico. Ele ficava puto quando as opiniões não batiam, quando eu explicava alguma coisa que ele não sabia... mas só até o próximo assunto. Às vezes eu tinha a audácia de discutir literatura, mas daí era covardia. Durava só até o momento em que a quantidade de citações e conhecimento dele discretamente me humilhavam. E eu pensava: ‘esse cara não deve ter tido adolescência, é impossível alguém ter lido tantos livros assim...’

Antes de conhecer o Daniel, conheci a Renata, ainda repórter da Geral do JT. E lembro bem do início do romance dos dois, aquela coisa de redação (como meus pais, diga-se de passagem), com o café no sétimo andar como desculpa para papos romanticamente discretos. Talvez seja por isso que meu coração dói ainda mais quando penso na Renata sozinha, sem o amor de sua vida. Renata, não fica triste, não. Eu nunca vi um cara ser tão apaixonado pela mulher quanto ele era por você. Falava de você o tempo todo, pensava o tempo inteiro em comprar alguma coisa para reviver a viagem ao seu lado. Ficava até chato. E também falava muito das crianças, claro, que ele gostava de citar em meio a assuntos tão diversos. Então eu aproveito para te pedir uma coisa: Renata, não canse de explicar para eles quem foi o pai. Orgulho não traz ninguém de volta, mas pelo menos pode preencher um pouco os coraçõezinhos vazios. O resto é destino.

Como disse, teria milhares de histórias para contar do Daniel. Além de um mês na China, em 2008, ficamos outro na África do Sul, em 2010, cobrindo a Copa do Mundo. No meu livro africano, ele não foi apenas personagem mais uma vez, mas também acabou escrevendo a orelha. Um texto divertido, onde a sutil comparação que fez entre nossos estilos me encheu de orgulho. Rodamos muito pela África do Sul, pegamos caronas em elefantes e brincamos com filhotes de leão. Nisso posso dizer que sempre fomos movidos pelo mesmo combustível: a curiosidade. O resto é jornalismo.

Daniel morreu aos 41 anos, a mesma idade que tenho hoje. Acho que foi isso que me assustou ainda mais, saber que a morte está o tempo inteiro ao nosso lado esperando um descuido ou um tropeço. Um dia estamos aqui, no outro viramos chamadas na capa de um jornal onde um dia nem um pouco distante escrevíamos. Em um piscar de olhos, o sonho dele de morar um tempo em Nova York, que já estava certo, escorregou pelos dedos como areia fina. Os leitores de sua coluna aos domingos, de uma hora para outra, ficaram órfãos de suas opiniões e ideias. Os colegas ficaram sem sua referência, sem aquela pontinha de inveja que todo mundo, no fundo, tinha. Porra, o cara tinha uma página semanal no Estadão para escrever o que quiser! Não é pouca coisa aos 90, muito menos aos 41.

Isso faz a gente pensar. Como é possível viver assim, sabendo que a morte nos espreita a cada curva? E o pior, mesmo sabendo isso, qual é a nossa alternativa? Temos que seguir sem ele, viver a vida imaginando que Daniel está não em Nova York, mas distante e recluso em algum lugar no meio do Amazonas, como uma mistura de Euclides da Cunha e J.D. Salinger.

Da Amazônia, inclusive, Daniel trouxe as imagens que montamos no documentário ‘Um Paraíso Perdido’, produção da TV Estadão que também foi ao ar na TV Cultura. Assino a direção do filme, mas o conteúdo veio todo do Daniel e do fotógrafo Tiago Queiroz. Apenas ajudei a dar forma ao projeto. E se ganhei o crédito de diretor, foi mais por generosidade do idealizador do projeto do que por mérito meu. Obrigado, Dani.

É assim que me despeço, não sei fazer de outro jeito. Como já disse, este é um texto que adiei até não poder mais contê-lo dentro de mim. De vez em quando ainda choro um pouco, não sei se por saudades do amigo que nunca mais verei ou pela incredulidade da morte tão inesperada. Ou ainda por pensar nos três filhos desnorteados com toda essa confusão, que não estava prevista em nenhum texto. Será que Daniel sabia que iria tão cedo, por isso teve uma produção tão intensa para sua idade? É claro que não. Ele estava sempre tão cheio de projetos que não teria tempo para pensar em bobagens do além.

Como os aforismos que amava, a vida de Daniel também foi curta. Mas, também como um aforismo, há que haver um sentido para tudo isso, uma lição para tirar de toda essa história. E se não há, pelo menos temos que culpar alguém por toda essa tristeza. Uma família perde o pai, os leitores perderem uma referência, os colegas perdem um amigo... e fica por isso mesmo?

Infelizmente, sim. Longevidade é biologia, é o que parece. Daniel vai continuar vivo na sua obra, um oásis no meio de tanta mediocridade que a gente lê todos os dias, nos jornais, nas revistas, na internet. Um oásis enorme, amazônico, inversamente proporcional à fugacidade de sua trajetória.

Daniel teve filhos, transmitiu a essas criaturas o legado de sua maior riqueza: a certeza de que o importante, na vida, é pensar. O resto é silêncio.

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Por que o Barcelona é o melhor time de… basquete do mundo

barcelona1 Por que o Barcelona é o melhor time de... basquete do mundo

Sei que estou meio atrasado, mas não queria deixar de dividir com você um texto muito legal de um amigo meu. O publicitário Henrique Jábali explica por que o Barcelona tem o melhor time de... basquete do mundo.

Abraço, Jábali

Futebol e basquete na Espanha

Henrique Jábali

A Espanha tem hoje o melhor basquetebol da Europa, seja na quadra, seja dentro de um campo de futebol.
Engana-se quem imagina que o Barcelona, campeão da Champions League neste sábado, pratique futebol.
O Barcelona funciona, conceitualmente, como dois times de basquete em relação aos seus 10 jogadores de linha. São, supostamente, 5 na defesa, 5 no ataque. Mas que, em ambos os casos, se transformam no mínimo em 7, no máximo em 9 jogadores tanto na quadra de defesa como na de ataque.

O primeiro passo para isso foi desmantelar o conceito básico do futebol de que todo time tem que ter dois trogloditas: um centroavante matador na frente e um beque central matador de centroavantes atrás.

Pois essas posições não existem no time do Barcelona. O centroavante, aquele clássico 9, coluna mestra do ataque que não se move para lado nenhum e permanece fixo na marca do pênalti, esse não existe.

E o zagueiro central, na grande final, foi o volante Mascherano, de 1,74m, talvez o mais baixo jogador que vi na posição desde 1970, quando comecei a ver futebol pela televisão, Tudo bem que ao seu lado estava o excelente Piqué, 1,92m. Mas Piqué não erra um passe pelo chão e, ao desarmar os adversários, em vez de dar um sutil bicão para o campo de ataque, simplesmente rola a bola coladinha na grama, em passes curtos, normalmente para Xavi ou Busquets que estão sempre à sua frente prontos para iniciar o contra-ataque.

Porém, o que fascina mesmo é o segundo time de basquete, o formado por Xavi e seus olhos esbugalhados de quem enxerga muito como armador, Iniesta como ala ao seu lado esquerdo, Messi como um pivô flutuante, Villa aberto pela direita e Pedro Rodriguez pela esquerda.

Esse time atua muito próximo, ocupando espaços entre o círculo do meio campo e a grande área adversária – uma faixa de 60 metros de largura por 30 de profundidade – exatamente duas quadras de basquete. E aí, como os Globe Trotters do futebol onde tudo vale, o Barcelona Basquetebol Clube tem o reforço do sexto jogador nessa metade do campo, Dani Alves, e às vezes do sétimo, Abidal.

É muita gente trocando bola e se movimentando. A bola circula como se fosse de mão em mão, gira para um lado, gira para o outro, até que aparece um passe vertical, profundo, que encontra alguém livre dentro do garrafão, diga-se grande área, para largar sutilmente a bola na rede.

Agora, imagine esse exercício de posse de bola e posicionamento, com todo mundo fazendo o esperado acima da média, e de repente aparece alguém nesse conjunto para fazer o inesperado. Lionel Andrés Messi.

Seu joguinho de videogame imantando a bola nos pés e disparando chutes venenosos faz dele, na minha opinião, o maior jogador já nascido na Argentina, terra de Dom Diego Maradona e Alfredo Di Stefano.

Messi, muitos dizem, é o grande diferencial do Barcelona.

Não é. O diferencial está no banco de reservas com a juventude e os conceitos inovadores de Pep Guardiola. Ele encontrou a forma basquetebolística de jogar futebol, com treinamentos de toque de bola, de posse de bola, de movimentação, de jogadas ensaiadas e de entendimento de que, por mais que o craque faça toda a diferença, ele é parte de uma engrenagem.

O Barcelona fez do Manchester gato e sapato. Porque jogou basquete contra um simples time de futebol ao estilo inglês. E essa foi uma lição que eu aprendi ainda criança: com a mão é sempre mais fácil. Por isso resolvi ser goleiro no futebol e basqueteiro nos esportes colegiais e universitários.

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Rio de Janeiro, um estado de espírito

cariocas Rio de Janeiro, um estado de espírito
Alinne Moraes, em cena da minissérie 'As Cariocas', baseada em textos de Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). Foto de Ique Esteves

Estive no Rio de Janeiro semana passada para o lançamento do meu livro 'Bacana Bacana' na belíssima livraria da Travessa, no Leblon. Não ia ao Rio há alguns anos, tempo demais até para mim, o mais urbanoide dos paulistanos.

Conheci bem o Rio nos anos 90, época em que cheguei a morar no mais carioca dos bairros cariocas: Copacabana. Desta vez nem fui à Copa; fiquei mesmo no Leblon, o bairro mais legal da cidade. E tive a sorte de contar com bons anfitriões.

Neo e Jill, Bia e Guto, todos carioquíssimos – apesar de nenhum deles ter nascido no Rio. Neo e Guto são mineiros, Jill é americana, Bia é curitibana. Mas todos amam a cidade como se tivessem respirado ali suas primeiras moléculas de oxigênio. Estar carioca se torna ser carioca com bastante rapidez. Carioca é um estado de espírito, não um endereço de maternidade.

O Rio está longe de ser perfeito, vamos deixar claro. Vamos por hora esquecer os problemas da cidade, que serão abordados no futuro próximo por este blog. O Rio é a mais cosmopolita das cidades brasileiras. Das diferenças entre cariocas e paulistas, uma é gritante: em São Paulo, o mineiro tem orgulho de ser mineiro. No Rio, ele se considera carioca. O Rio também é cosmopolita porque os estrangeiros estão lá porque desejam, e não porque são obrigados por seus negócios – o que é o caso dos estrangeiros que vem a São Paulo.

Quando eu era mais novo, adorava criticar o Rio e estimulava a rixa cariocas X paulistas. Hoje dou risada: cidades não são entidades comparáveis. Mesmo assim, é impossível para um paulista não tentar generalizar o Rio de alguma forma. 'Lá no Rio é assim, lá no Rio é assado', dizemos, como se as diferenças fossem tão óbvias que transformassem qualquer turista de fim de semana em antropólogo. O Rio não é assim, o Rio não é assado. O Rio é o Rio.

Sou viajado, consigo compreender uma cidade com certa rapidez. Mas confesso que as qualidades (e defeitos) do Rio e de seus moradores ainda me surpreendem. A única característica previsível nos cariocas é a sua informalidade.

Em São Paulo, o importante é ter dinheiro. Dinheiro para esbanjar em carros importados, baladas e luxos que compensem, psicologicamente, o excesso de trabalho e a vida estressante. No Rio, o bem mais valioso é o tempo. Tempo para dar um mergulho no final da tarde, tempo para correr na praia pela manhã, tempo para passear com os cães pelo calçadão. E não há dúvida de que o tempo é mais democrático que o dinheiro – e menos repressor. O tempo não tem idade, não tem sexo, não é do rico nem do pobre. O tempo é de quem sabe usá-lo. E ninguém sabe usá-lo melhor do que os cariocas – não importa onde eles tenham nascido.

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Como é que se diz ‘lançamento carioca’ em Zulu?

convite Bacana RIO 300x229 Como é que se diz lançamento carioca em Zulu?

Como é que se diz 'lançamento carioca' em Zulu?

Não tenho a menor ideia, mas gostaria de convidar todos os leitores cariocas deste blog (e os turistas que estiverem no Rio também) para o lançamento de 'Bacana Bacana - As Aventuras de um Jornalista na África do Sul' na Cidade Maravilhosa.

O evento é amanhã, quinta-feira (14/10), a partir das 19h30, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon (Av. Afrânio de Melo Franco, 290, loja 205 A - tel.: (21) 3138-9600).

Para quem não se lembra, o livro saiu pela Editora Seoman e é baseado na cobertura que fiz da África do Sul durante a Copa do Mundo, em junho/julho. Mas não se preocupe: eu não falo muito sobre a Seleção do Dunga... Se não puder ir ao evento, pode comprar o livro clicando aqui.

Depois da noite de autógrafos, teremos uma festinha. Infelizmente, não posso divulgar mais detalhes por aqui pois será proibida para menores. Mas posso garantir que quem comparecer à Livraria da Travessa vai ganhar uma senha que dará direito a um abraço (homens) e beijo (mulheres) do autor. Além, claro, de drinques psicodélicos e petiscos exóticos.

Se você tiver algum amigo (a) carioca, ele também está automaticamente convidado. Basta chegar na livraria e dizer 'Bacana Carioca Carioca Bacana'.

Beijos e até lá!

Felipe

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O blog ‘Bacana Bacana’ vira livro na quarta-feira, 22 de setembro

capa Bacana Bacana blog O blog Bacana Bacana vira livro na quarta feira, 22 de setembro

Na próxima quarta-feira, dia 22 de setembro, é o lançamento do meu novo livro: 'Bacana Bacana - As Aventuras de um Jornalista pela África do Sul'.

Quem acompanhou o blog que mantive durante a Copa do Mundo já deve saber do que estou falando. Realmente, o livro traz os textos que publiquei durante o período. Mas tentei ir um pouco além, já que blog é blog e livro é livro. Tirei trechos que traziam fatos muito específicos da Copa do Mundo, para não ficar muito datado (e também porque o Brasil não ganhou a Copa, claro). E acrescentei uma série de informações, como um dicionário (divertido) de provérbios africanos; uma coleção (séria) de frases de Nelson Mandela; fotos coloridas; um guia com todos os serviços e endereços sobre os locais que visitei.

Acho que ficou bem legal. O projeto gráfico é do designer Daniel Kondo, e pela capa acima você pode imaginar como ficou legal o projeto todo. A editora é a Seoman, um selo dentro da centenária editora Pensamento-Cultrix. Para quem quiser comprar o livro pela internet, é só clicar aqui. Para quem quiser receber um autógrafo super especial e conversar com o autor (eu, no caso) está convidadíssimo a comparecer à Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073, 3170-4033) entre 19h e 22h.

Depois do lançamento haverá um evento surpresa. Quem comparecer à Cultura receberá uma senha e informações sobre a festa. A senha é... infelizmente, só tenho permissão para contar na livraria, pessoalmente, falando baixinho no ouvido do convidado.

Como é que se diz 'espero você lá' em Zulu?

Mais informações: Carolina Riedel | imprensa@pensamento-cultrix.com.br | (011) 2066-9000. Assessoria de Imprensa | www.pensamento-cultrix.com.br | Twitter: @ed_pensamento

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Copa do Mundo no Brasil: O sonho perdido


Shakira canta 'Waka Waka' na abertura da Copa da África do Sul: Seria melhor devolver a Copa do Brasil para a Fifa e dizer que não somos capazes

Confesso que não gostaria de estar escrevendo este texto, mas as circunstâncias (e uma certa revolta pessoal) me obrigam.

Acabo de voltar da África do Sul, onde participei da cobertura da Copa do Mundo. Fui a vários jogos, viajei pelo país, conheci boa parte da infraestrutura criada para o megaevento esportivo. Se o país precisava sediar uma Copa já é uma outra discussão, mas posso dizer que a África do Sul executou seu projeto de maneira extremamente profissional, com tudo muito bem feito. E é por isso que me revolta ver como o Brasil está tratando a Copa.

A Copa no Brasil foi anunciada em outubro de 2007. O que foi feito nesses três anos? Nada. Absolutamente nada. Não é tipo ‘tal obra começou, tal obra está encaminhada’. Não. Nada. Não começou sequer o planejamento do que precisa ser feito para começar o planejamento do evento.

A verdade é que não temos a menor noção do que precisa ser feito. Tenho vergonha da incompetência dos nossos governos, que não sabem o que significa a expressão 'longo prazo'. Sabe por quê? Porque ninguém quer investir em obra que será inaugurada por outro. Bem feito para nós, que os elegemos.

No lançamento do edital para construção do trem-bala (realizado com apenas dois anos de atraso), o presidente Lula disse: "Terminou a Copa do Mundo na África do Sul e já começam a dizer: “Cadê os aeroportos brasileiros? Cadê os estádios brasileiros? Cadê os corredores de trem brasileiros? Cadê os metrôs brasileiros?”. Como se nós fôssemos um bando de idiotas que não soubéssemos fazer as coisas e nem definir as nossas prioridades".

Talvez eu seja um idiota. Mas eu gostaria realmente de saber: Onde estão os aeroportos? Cumbica não tem estrutura para atender sequer um campeonato mundial de botão, quanto mais uma Copa do Mundo. E tenho pena do turista que chegar aqui e quiser alugar um carro. Se estiver com GPS, talvez ele consiga chegar ao hotel – isso se o carro não cair numa das crateras das excelentes ruas brasileiras. Não sabemos sequer asfaltar as ruas, como construiremos estádios?

Aliás, cadê os estádios? Não existe sequer um estádio decente em nenhuma das 12 cidades-sede. Em São Paulo, não se sabe nem se haverá estádio. Será que acham que são obras ‘rapidinhas’? Só se chamarem a empresa do Sérgio Naya, do Palace 2.

Países sérios usam eventos desse porte para investir em infraestrutura. Se o Brasil fosse inteligente e honesto, investiríamos com competência em infraestrutura, melhoraríamos a vida dos brasileiros e faríamos uma Copa do Mundo perfeita. Pena que, com o nosso jeitinho, isso só seria possível em 2034.

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A Copa do Mundo de Carnaval

Ellen Roche A Copa do Mundo de Carnaval

Ellen Roche foi a Rainha da Bateria da Rosas de Ouro, que ganhou o título em São Paulo. Foto de José Patrício/AE

Sei que você não aguenta mais ouvir falar de Carnaval. Eu também não. A diferença é que, provavelmente, você está cansado após uma semana de folia, enquanto eu não aguento ouvir falar de Carnaval há 39 anos, 6 meses e 17 dias.

Nunca contei de onde vem meu trauma para ninguém, mas acho que agora é um bom momento. Tudo começou na minha infância, quando passei o Carnaval em Olinda, perto de Recife. Tenho certeza de que há alguma lei proibindo a presença de crianças em eventos como esse. Se não há, deveria haver. Passei o dia inteiro subindo e descendo ladeiras, em meio a uma multidão de bêbados e odores que não vou lembrar para não estragar seu almoço de domingo. À noite, ainda tive que ver um show do Alceu Valença. Como sempre, há uma boa razão por trás de todo trauma.

Apesar disso, tive uma ideia muito legal para incrementar o Carnaval.

Carnaval e futebol estão cada vez mais próximos, o que pude constatar pessoalmente durante o emocionante desfile da Gaviões da Fiel (sim, eu estava ali a trabalho; há provas na TV Estadão, abaixo). O Brasil é o país do futebol, o Brasil é o país do Carnaval. Por que, então, não criar a Copa do Mundo... de Carnaval?

A primeira edição poderia ser no Rio de Janeiro, já que não sou bairrista. Porém, sem querer criar polêmica, descobri por que o Carnaval do Rio parece sempre mais bonito que o de São Paulo. OK, o Rio tem a tradição, o samba, etc. Mas a questão é puramente arquitetônica: a pista do Sambódromo de São Paulo tem 530 metros de comprimento por 14 de largura. A do Sambódromo do Rio tem 600 por 12. Ou seja: o de SP é mais curto e mais largo; é por isso que você aqueles vazios deprimentes durante o desfile pela TV.

Voltando à Copa do Mundo de Carnaval, seria legal tirar a limpo e ver quem tem o melhor carnaval do mundo. Participariam mascarados de Veneza; fortões da parada gay de São Francisco; dragões e tigres das festas chinesas. E escolas de SP e RJ, blocos de rua de Pernambuco, trios elétricos de Salvador. Tudo isso durante quatro dias, ininterruptos, de loucura e folia. Na quarta-feira de cinzas, os sobreviventes levantariam a taça de Campeão do Mundo e dariam a volta olímpica pela cidade.

Acho que seria bem interessante. Aí, sim, veríamos um desfile de várias culturas dialogando entre si, um aprendizado em que até as crianças sairiam ganhando.

(“Peraí, o cara diz que não gosta de Carnaval e agora sugere a criação de uma Copa do Mundo de Carnaval?”)

Como sempre, há uma razão por trás de toda boa ideia: como a Copa do Mundo, o Carnaval só aconteceria de quatro em quatro anos.

Trechos do desfile da Gaviões da Fiel

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