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Joss Stone: A Rainha do Soul virou Princesa do Reggae

JOSS STONE Camila Cara 016 Joss Stone: A Rainha do Soul virou Princesa do Reggae

Joss Stone no show do Citibank Hall, em São Paulo: A cantora de 27 anos é linda, simpática e talentosa. A foto é de Camila Cara

Joscelyn Eve Stoker tinha apenas 16 anos quando se transformou em Joss Stone. Imediatamente ela chamou a atenção do mundo graças ao contraste de estímulos que provocava nos sentidos do público: enquanto os olhos viam uma garotinha inglesa, linda, loira, ingênua como uma princesa medieval, os ouvidos eram bombardeados por uma voz potente e rouca de cantora gospel, daquelas que pesam facilmente mais de 100 quilos e passam os domingos batendo palmas em corais do Harlem.

Essa estratégia de marketing sustentou a carreira de Joss Stone durante um tempo, até que todo mundo já sabia quem era Joss Stone e que a tal discrepância não causava mais surpresa. Foi aí que percebemos que nada daquilo importava: Joss Stone não era apenas bela nem apenas cantava como uma rainha do soul, mas era uma artista incrível, carismática e talentosa.

Foi essa Joss Stone que vimos ontem no show do Citibank Hall, em São Paulo, em mais um show dela no Brasil. Joss (olha a intimidade) já veio várias vezes ao país – esta foi a sexta vez – e parece que vai continuar voltando. Aposto que ela é feliz em qualquer lugar do mundo, mas sua felicidade no palco aqui é algo palpável, quase físico; o sorriso não sai do rosto, o corpo flutua como se estivesse dançando em frente ao espelho de casa. Ela conversa com o público, pede desculpas por falar demais, depois esquece e fala mais um pouco. É diva, mas desencanada. Joss Stone tem algo de ‘carioca’, aquela espontaneidade singela e tranquila de quem acabou de passar o dia na praia. Se ela for igualzinha em outros países da ‘Total World Tour’, juro que vou me sentir traído.

Por falar em praia, agora a praia de Joss Stone é outra. Nos primeiros discos, ‘The Soul Sessions’ (2003), ‘Mind, Body & Soul (2004) e ‘Introducing Joss Stone’ (2007), Joss Stone era uma típica cantora de soul music, daquelas que a Motown deu à luz e eternizou.

Em ‘Colour me Free’ (2009) e ‘LP1’ (2011), ela passou a flertar um pouco com o Rhythm and Blues, o R&B que colocou Beyoncé e Alicia Keys no topo das paradas. Não dá para culpá-la, até porque são todas variações legítimas da mesma raiz, a música negra norte-americana. Em ‘The Soul Sessions Vol. 2’ (2012) ela voltou ao Soul, mas durou pouco: Joss está apaixonada por um novo estilo musical.

O show de ontem teve poucas músicas antigas e muito repertório novo, algo que ela já anunciou logo no início da apresentação. E pelo que deu para ouvir do novo disco (‘Water for your Soul’, que sai no segundo semestre), Joss deixa de ser a ‘rainha do Soul’ e passa a ser a ‘princesa do reggae’.

Seria fácil fazer um trocadilho com o sobrenome de Joss, ‘Stone’, e aquele jeito que os fãs de reggae ficam depois de ‘acender um Bob Marley’ (‘Stoned’). Mas a verdade é que a Joss tem tudo a ver com esse novo som, principalmente por sua postura meio neo-hippie-chic. O som de Joss Stoned tem uma levada gostosa, boa pra dançar. Seu novo som é, resumindo, ‘o maior barato’.

Além da música, impossível não se encantar com a simpatia de Joss. É incrível como ela parece ser uma pessoa normal, bastante indiferente à fama (dentro do possível, imagino).

Talvez seja porque ela conseguiu manter alguns elementos da sua vida pessoal intactos, como a vida em uma cidade pequena (ela ainda mora em Devon, na Inglaterra, em uma casa perto da família); curte frequentar os pubs locais; tem dois cães, o Rottweiler Missy e o poodle Dusty; gosta de futebol e é torcedora do Liverpool. Só para se ter uma ideia do seu jeito desencanado, perguntaram a ela por que ela costuma se apresentar descalça. Joss respondeu: “porque eu tenho medo de tropeçar”.

Nesses momentos imagino que Joss Stone volta a ser Joscelyn Eve Stoker, aquela garotinha de voz rouca e ingênua como uma princesa medieval que não imaginava ficar famosa tão cedo.

Setlist

You Had Me
Super Duper Love
Molly Town
The Love We Had
Wake Up
Could Have Been You
Star
Love Me
Music/Jet Leg
Stuck On You
I Put A Spell On You (cover do Screamin’ Jay Hawkins)
The Answer
Karma
Harry's Symphony (England)
Fell in Love with a Boy

BIS
Right to Be Wrong
Landlord
Some Kind of Wonderful

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‘Apneia’: Um filme de tirar o fôlego

Apneia32 ‘Apneia’: Um filme de tirar o fôlego

Thaila Ayala, Marjorie Estiano e Marisol Ribeiro em 'Apneia': Vidas vazias preenchidas por sexo, drogas e tecno

Há várias maneiras de classificar o cinema brasileiro. A mais óbvia delas é a análise cronológica das produções, na época já meio distante em que movimentos homogêneos podiam ser claramente definidos. Isso ocorreu, por exemplo, com as chanchadas produzidas pela Atlântida entre 1930 e 1960, assim como no Cinema Novo, versão brasileira da Nouvelle Vague francesa que tomou o país entre os anos 1950 e 1970. Poderíamos classificar a produção cinematográfica brasileira também em ondas temáticas, o que parece ser mais adequado quando pensamos com a cabeça de hoje: estamos acostumados a uma sobreposição de influências e pela possibilidade que a internet nos dá de navegar para lá e para cá.

Dentro dessa lógica podemos pensar em filmes ‘áridos’ como ‘Abril Despedaçado’ e ‘Central do Brasil’, com predomínio de temas e locações no sertão – literal ou metaforicamente – e filmes ‘favela’, como ‘Cidade de Deus’ e ‘Tropa de Elite’. Mas o que impressiona é que, mesmo após a retomada do cinema brasileiro nos anos 1990, não tivemos praticamente nenhum representante de peso de filmes sobre a camada mais rica da população. Isso ocorre, talvez, por um sentimento de culpa velado que sobrevive graças àquele velho resquício da ‘luta contra o sistema’. Infelizmente, a ideia de um ‘cinema social’ ainda afeta os que insistem em se guiar por ideologias ultrapassadas.

Há, no entanto, uma nova geração de cineastas que foge desse preconceito às avessas. É provável que isso ocorra porque muitos deles vieram da publicidade, um lugar onde a ideologia dá lugar ao pragmatismo. Bons exemplos não faltam, como Fernando Meirelles, Heitor Dhalia e Afonso Poyart, só para citar alguns. Além da origem na publicidade, o que não é nenhuma novidade no cinema em todo o mundo, vemos surgir também no Brasil estéticas contemporâneas que chegam para influenciar ainda mais o novo cinema. Entre elas, revoluções na linguagem como o videoclipe, a internet e a tecnologia. É o que acontece com o filme ‘Apneia’, que estreia amanhã em todo o país. O longa de estreia do cineasta Mauricio Eça é um bom exemplo de que é possível fazer bom cinema colorindo a tela com cenários urbanos, belas garotas ricas e nada de culpa.

‘Apneia’ tem um elenco repleto de rostos conhecidos da TV, como Marisol Ribeiro, Thaila Ayala, Marjorie Estiano, Fernando Alves Pinto e Maria Fernanda Cândido. O filme conta a história de Chris (Marisol Ribeiro), uma garota que sofre de apneia do sono e que usa a dificuldade para dormir como desculpa para se jogar em uma vida de baladas vazias regadas a sexo, drogas e música eletrônica. Nessa catarse explosiva, Chris vai às últimas consequências para fugir do tédio e arrasta com ela a turma de amigas, Júlia (Thaila Ayala) e Giovanna (Marjorie Estiano). Além de lindas e talentosas, as três atrizes se complementam em termos de estilo, visual e personalidade. Durante o filme não há como não se apaixonar por alguma delas – o mais provável, no entanto, é cair de amores pelas três. Cada uma ao seu estilo, cada uma com sua ‘pegada’. Torcemos para que tudo dê certo, mas, como na vida real, isso nem sempre é possível. A balada cobra um preço.

Mauricio Eça não é apenas um velho conhecido meu, mas de qualquer um que já viu um videoclipe brasileiro. Como diretor que mais filmou videoclipes na história da MTV Brasil, Mauricio traz essa bagagem e essa linguagem para o cinema. Não é o ritmo da edição (realizada brilhantemente por Tony Tiger) que nos remete à correria dos clipes, mas a forma como a música pode ser escalada como um personagem dentro de cada cena. O filme alterna momentos barulhentos e silêncios contemplativos, como a realidade de quem mora nas grandes cidades brasileiras. Não tem sertão, não tem favela, não tem nenhum componente social – ainda bem. O cinema pode ser social sem nenhum problema, mas isso não significa que todos os filmes têm que ter isso em suas premissas para ser considerado um ‘filme brasileiro’. Em meio a esse caos urbano há espaço até para algumas cenas na praia, mas não se engane: até mesmo o paraíso, geralmente retratado como válvula de escape e símbolo da fuga da metrópole, pode ganhar ambiguidade e se transformar em sonho ou pesadelo.

Além de dirigir, Mauricio também assina o roteiro de ‘Apneia’. Talvez seja por isso que conseguiu manter sob controle uma história que teria todos os elementos para fugir de suas mãos. Não apenas pelos temas e pelas locações ‘muito loucas’, mas pela personalidade que o diretor teve para dirigir estrelas em ascensão em seu filme de estreia. As atuações são complexas e convincentes, provavelmente porque os temas abordados pelo filme sejam parte da vida de quem mora em uma cidade grande e, portanto, também do elenco. A ideologia aqui é o consumismo, a vida vazia. Sim, é uma crítica ao modo de vida de uma geração niilista e fugaz. A vantagem do filme é que ele flerta com o amor a essa vida e o preço que por ela se paga, sem falsos moralismos e com a dureza que o tema merece.

Em ‘Apneia’ há diversão e tragédia; madrugadas insones e ressacas homéricas; baladas hipnóticas que não se sabe exatamente como vão terminar. Esse salto no escuro da vida de São Paulo, tão urbana quanto caótica, é o que nos faz querer fazer parte do mundo de ‘Apneia’. Um filme, como o próprio nome diz, de tirar o fôlego.

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O que se esconde sob a pele de Scarlett Johannson?

Se você está pensando em assistir a ‘Sob a Pele’ porque ouviu falar que é um filme sobre sexo em que a Scarlett Johansson aparece pelada, pense duas vezes. Essa ambiciosa obra-prima do diretor Jonathan Glazer não é um filme como os outros, com personagens definidos ou um roteiro com uma trama lógica e determinada. É uma viagem baseada na percepção, no entendimento que cada um faz dele a partir de suas próprias experiências.

É o que costumamos chamar de ‘obra aberta’, com diversas interpretações possíveis. Essa deve ter sido a razão que levou Glazer a ser comparado ao mestre Stanley Kubrick – além, claro, da influência visual e sonora inspirada na sequência final de ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’ que permeia todo o filme.

‘Sob a Pele’ não é um filme mudo, mas poderia ser. Os poucos diálogos utilizados na narrativa não dizem nada, ou melhor, não conduzem a história a nenhum tipo de desfecho lógico. O filme acontece na tela, na grandiosidade e beleza perversa das imagens, mas também na cabeça dos espectadores. ‘O que está acontecendo?’, ‘Quem são essas pessoas?’ ‘O que significa isso?’ são perguntas que exigem a atenção do público ainda durante a exibição do filme, e não apenas após o seu final, como é comum.

Na verdade, as respostas não satisfazem totalmente o intelecto nem após a conclusão do filme. Acho que essa deve ter sido mesmo a intenção de Jonathan Glazer: forçar o pensamento para que ele preencha intuitivamente as lacunas deixadas pelos silêncios. Apesar de tudo isso, há uma história lá, imersa profundamente sob a pele dos personagens, afogada no mesmo líquido viscoso e negro que engole os homens seduzidos pela personagem de Scarlett.

Então, afinal, qual é a história? Scarlett Johansson surge para vingar uma mulher que teria sido, teoricamente, violentada e jogada no acostamento de uma estrada. Ela se veste com as roupas da vítima e sai dirigindo uma van pelas inóspitas paisagens da Escócia, seduzindo e eliminando homens que só estão interessados em sua beleza.

O filme seria, então, uma crítica ao comportamento opressor dos homens e à sociedade machista? Sim, tenho certeza de que esta poderia ser uma das interpretações. O filme pretende promover a valorização da beleza interior (alma) versus a beleza exterior (pele)? Sim, essa pode ser outra das leituras complementares que a trama permite. O filme trata da solidão de quem não consegue amar ou sentir algo pelo próximo? Sim, essa seria mais uma leitura. Ou não, como diria Caetano. São tantos ‘layers’, camadas de entendimento e interpretação, que aposto que o próprio diretor teria dificuldade em defender um único ponto focal.

A apática personagem de Scarlett é uma mulher feita apenas de pele e beleza. Ela existe com o único objetivo de punir os homens que se aproximam de mulheres assim: após serem ingenuamente atraídos para a armadilha, desaparecem em uma substância oleosa que parece ser feita de líquido amniótico. Nascimento e morte, útero e túmulo, alma e sexo: a dialética é parte integrante do filme tanto quanto os efeitos especiais disfarçados de arte contemporânea.

Consumada a vingança, Scarlett sai atrás de novas vítimas, repetidamente. Em um dos casos, uma família é dilacerada na sua frente, sem qualquer traço de emoção aparente. Alguns homens, no entanto, não merecem (ou não podem) ser punidos. Um deles, deformado fisicamente, sequer chegou a cometer o ‘pecado’ de se envolver sexualmente com mulheres. Sua pele, sua beleza exterior, portanto, é ‘defeituosa’, mas ele merece ser salvo porque sua mãos são belas (mãos belas = alma) nobre.

O outro homem trata Scarlett com respeito e chega a inspirar até um sentimento mais nobre que ela nem imaginava ser possível ter. Mas Scarlett continua sofrendo: nem mesmo esse príncipe encantado, que a leva para a única cena romântica do filme – uma brincadeira de Jonathan Glazer, que encena o ato em um castelo –, consegue fazê-la se sentir humana, completa. Ela é e sempre será apenas uma garota bonita, um estereótipo da única coisa para a qual a mulher serve: sexo. Scarlett não existe debaixo da pele.

Scarlett, aliás, merece um elogio especial por esse filme. Ela não é apenas uma das atrizes mais populares de Hollywood, mas também um dos grandes símbolos sexuais da história recente do cinema. Atuar em um projeto experimental como este foi um belo exercício de maturidade profissional, mas também uma prova de coragem e ambição artística.

A atriz é, obviamente, uma mulher deslumbrante, mas no filme ela não se apoia nisso para sustentar sua performance. Está um pouquinho acima do peso, cabelo pintado de preto, lentes de contato. Está bonita, claro, (ela não conseguiria ficar feia nem se quisesse muito), mas não sua beleza não é intimidadora. Faz o papel de uma mulher, digamos, comum.

Acredito que a intenção de Glazer foi mostrá-la como representante das mulheres de uma maneira mais universal. Em alguns momentos, nem lembramos que ela é Scarlett Johannson, a bombshell de ‘Vicky Cristina Barcelona’ e ‘Match Point’. Imagino como deve ter sido difícil para uma atriz acostumada ao star system deixar o ego de lado e sair pela Escócia sofrendo com o clima e caçando estranhos (sim, Glazer utilizou câmeras escondidas e os atores abordados inicialmente não sabiam que estavam sendo filmados).

As imagens geradas espontaneamente dão uma estranheza ainda maior ao filme, uma sensação de que algo realmente inesperado poderia acontecer a qualquer momento. Como, sei lá, um documentário feito sobre o ritual da sedução humana e os riscos implícitos que nunca consideramos porque seria algo racional demais – e, afinal, somos todos primatas. Outra citação ao ‘2001’, de Kubrick?

Não sei exatamente por que Glazer escolheu filmar na Escócia, mas arrisco dizer que o clima do país é uma moldura dramática perfeita para a história: não há dias ensolarados, tampouco tempestades. Há somente chuva e neblina, nada é muito claro. Mesmo as belas paisagens de praias e florestas são tensas, como se a natureza fosse um inimigo contra o qual a humanidade tem que disputar espaço para exercer sua plenitude.

A Escócia é dura, assim como o idioma de seus habitantes. Não há um inverno clássico, com neve ou paisagens branquinhas e lindas, mas exemplos de frieza pessoal que revelam uma solidão não apenas geográfica, mas espiritual. Sim, voltamos ao duelo de alma versus corpo que costura a trama o tempo inteiro.

Quando o filme chega ao fim, estamos com mais perguntas do que respostas, mais reflexões do que certezas. Mas não são assim as obras de arte que valem a pena? Muitas vezes, a experiência de passar duas horas vendo um filme estranho como este pode não ser das mais agradáveis. Mas quando o filme é bom, inteligente, desafiador, provoca um debate de ideias tão interessante e um prazer intelectual tão grande compensam o esforço. E o que era inicialmente um período de duas horas de tensão, dúvida e curiosidade, acaba se tornando um estímulo a discussões que ultrapassam os limites do cinema. Os filmes realmente importantes são assim.

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Vamos organizar a parada do orgulho hetero

jodiefoster Vamos organizar a parada do orgulho hetero

Jodie Foster: A atriz se casou na semana passada com Alexandra Hedison, sua namorada de muitos anos. Apesar de achar um desperdício... parabéns ao casal

No último domingo tivemos mais uma edição da Parada Gay em São Paulo. O evento já faz parte do calendário oficial de eventos que atrapalham o trânsito na cidade, reunindo milhares de pessoas na região da Paulista e prejudicando gays, heteros, transexuais e todos os outros sexos que optaram por não participar da parada. E com todo esse sucesso e tanta gente desfilando, me sinto obrigado a sair do armário: sou heterossexual. É isso aí. Falei. Tirei esse peso do meus ombros.

Desculpe ser tão sincero, mas acho que vocês têm o direito de saber. Não tenho nada contra a galera do arco-íris, muito pelo contrário. Tenho amigas e amigos gays, acho a coisa mais normal do mundo. Só não aguento quando alguém vem me dizer que ‘o mundo é gay’. Não é. Pelo menos por enquanto. Eles estão cada vez em maior número, o que pela lógica significa que somos cada vez menos. Mas digo isso porque, no dia em que o mundo se tornar realmente gay, não existirá uma próxima geração. Por quê? Por razões óbvias.

Há uma discussão em vigor nos meios políticos para criminalizar a homofobia. Não concordo. Concordo com punições legais para todos, independente de sexo. Se alguém enche um gay de porrada, deve responder por isso. Se alguém me enche de porrada, também. Um gay não é mais importante do que eu para a sociedade. Pelo menos não devia ser, diante da lei. Isso se chama igualdade e devia valer para todo mundo. Um cara que bate em um gay não deveria ser punido com mais rigor do que um cara que bate em mim - e garanto que isso não é legislar em causa própria.

Aproveito a ocasião para vir à público e convocar todos os heterossexuais para uma parada no ano que vem. Vamos sair às ruas e defender nossos direitos. Não sei se vamos conseguir convocar um milhão de heterossexuais, porque a maioria ficará em casa, cuidando dos filhos ou enterrado em algum sofá na frente da televisão. É difícil envolver esse pessoalzinho antiquado, que ainda acha que GLS é modelo sofisticado de carro.

Deve ser por isso que os gays estão dominando o mundo. Nós ficamos quietinhos em casa, nos parques, nos rodízios de churrasco e nos botecos empoeirados contando bolachas de chopp. Enquanto isso, eles tomam conta dos restaurantes da moda, dos bares mais descolados, das melhores baladas.

É hora de reagir! Vamos deixar as crianças com as babás e dominar a Paulista vestidos com nossos uniformes do dia-a-dia: bermuda, chinelo e camiseta regata branca! Vamos nos armar com pochetes e celulares nos cintos! Vamos deixar a timidez de lado e levar a nossa coleção de Playboys para passear! Vamos usar aqueles bonés com canudinhos que permitem beber cerveja e desfilar ao mesmo tempo! Vamos sair de agasalho de moletom inteirinho da mesma cor!

As mulheres-hetero também são bem-vindas. Podem deixar a comida pronta ali mesmo, ao lado do microondas, e compartilhar a exuberância do nosso modo de vida. Viva as companheiras que esperam o marido chegar do trabalho com bobs nos cabelos! Viva as mulheres que gastam fortunas fazendo as unhas! Viva o cheiro de bife à milanesa espalhado pela casa!

Então está combinado, certo? Ano que vem, estaremos todos juntos na parada do orgulho hetero! A não ser que tenha alguma coisa melhor na TV, claro.

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As falsas lágrimas dos monstros

Eliza Samudio As falsas lágrimas dos monstros

Eliza Samudio e o filho: Bruno foi condenado a 22 anos, mas vai sair bem antes. Isso é justiça?

Na última sexta-feira foi celebrado o Dia Internacional da Mulher. Foi uma trágica ironia constatar que o 8 de março caiu exatamente no mesmo dia em que o ex-goleiro Bruno foi condenado a 22 anos pela participação na morte de Eliza Samudio, sua ex-namorada e mãe de seu filho.

A história é tão doentia que evitarei os detalhes para não estragar o seu dia. Infelizmente, não foi a primeira vez que uma mulher sofreu pelas mãos violentas e covardes de um homem – e, mais infelizmente ainda, não será a última. É revoltante saber que Bruno voltará a andar normalmente pelas ruas em bem menos tempo do que sua pena insinua. Nossas patéticas leis são verdadeiros incentivos para os criminosos, mas nossos legisladores parecem estar mais ocupados enchendo os bolsos de dinheiro público ou brigando pelas migalhas do poder.

Ao acompanhar esses casos, percebi que há algo  em comum entre eles além da violência e covardia: as lágrimas.

Bruno chorou. Não porque teve pena do que aconteceu com Eliza, nem porque seu filho  compreenderá em alguns anos o tipo de psicopata bestial que terá de chamar de pai. Não, Bruno não chorou por isso. Ele chorou apenas...  porque foi pego.

Está sendo a mesma coisa com o ex-policial Mizael Bispo dos Santos, acusado de assassinar a advogada Mércia Nakashima. Há nele uma arrogância, provavelmente fruto de sua formação como 'homem da lei'. Seu julgamento está sendo transmitido ao vivo, e ainda não o vi chorar na frente das câmeras. Mas em encontro com psicólogos há alguns dias, o ex-policial desabou em lágrimas. E sem esquecer o atleta  paraolímpico Oscar Pistorious, que assassinou a namorada na África do Sul. Levado ao tribunal,  chorou.

Essas lágrimas só têm em comum uma coisa: a falsidade. Elas nos enganam, pois nos fazem acreditar que os homens que as derramam são seres humanos dignos de piedade. Repito: só choram porque foram descobertos – do contrário, estariam vivendo  normalmente, no máximo atormentados por um pesadelo aqui e outro ali. Qualquer tipo de agressão é absurda, mas a violência contra a mulher é  pior, pois pressupõe um falso poder que alguns homens ainda julgam possuir sobre elas. Estão errados.

As mulheres são livres. E, se houver alguma justiça, eles é que perderão sua liberdade por um bom tempo.

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Baile dos Monstros: Há algo especial sobre Lady Gaga

unicornia Baile dos Monstros: Há algo especial sobre Lady Gaga

Uma bela unicórnia deixou o mundo dos sonhos para ver o show de Lady Gaga

 

“Você por aqui???”

A reação das três simpáticas fãs do Viper que me encontraram na pista do show da Lady Gaga era até esperada. Diante da surpresa delas, no entanto, eu poderia responder devolvendo a pergunta: “e vocês, fãs do Viper, estão fazendo o quê aqui?”

Claro que foi um encontro ótimo, até acabamos assistindo um pouco do show juntos. Mas entendo perfeitamente essa dúvida: o que um cara que gosta de heavy metal estaria fazendo no show mais pop do planeta?

Em primeiro lugar, hoje em dia gosto de (quase) todos os estilos de música. E estava com uma enorme curiosidade de ver esse circo todo da Gaga de perto, para ver se ela realmente 'entregava' o hype prometido. Mas é claro que se esse show acontecesse nos anos 80, eu provavelmente não apenas não compareceria, como ainda pensaria em instalar algum tipo de artefato explosivo no palco. Ainda bem que a gente cresce.

A primeira vez que prestei atenção em Lady Gaga foi em uma situação bastante inusitada. Em 2009, eu estava em Nova York para uma palestra quando descobri que o U2 e uns amigos (entre eles Gavin Friday, do Virgin Prunes, inclusive) estavam organizando um show beneficente com renda revertida para a fundação RED, do Bono, para pesquisas sobre a Aids. Era um megashow no elegante Carnegie Hall, com participação do Lou Reed, Courtney Love, Scarlett Johansson (sim, além de tudo ela ainda canta) e Rufus Wainright, entre outros.

Por incrível que pareça, no entanto, quem mais me chamou a atenção não foi nenhum desses pesos pesados da música internacional. Foi uma garota muito louca de nome mais esquisito ainda: uma cantora chamada Lady Gaga. Não preciso nem dizer que, na época, ela não era muito conhecida.

Eu nunca tinha prestado atenção em Lady Gaga, até porque achava seus figurinos (e penteados) ridículos. Até essa noite, claro. A plateia recebeu Lady Gaga com risinhos, até porque não é sempre que uma loiraça platinada entra no sisudo palco do Carnegie Hall usando biquíni vermelho, saltos plataforma e óculos escuros. Mas esse desdém do público durou apenas alguns segundos: Lady Gaga sentou no piano, ajeitou o microfone e… mandou ver.

Não acreditei que ela pudesse cantar tão bem, muito menos tocar piano daquela maneira. Achava que Gaga era apenas mais uma espécie de ‘nova Madonna’, uma dançarina que cantava somente o suficiente para justificar turnês baseadas em coreografias provocantes. Mas me enganei: Lady Gaga destruiu o Carnegie Hall e, pouco depois dos primeiros acordes, as pessoas se levantaram para aplaudi-la – o que, diga-se de passagem, não aconteceu nem com o mestre Lou Reed.

Desde então passei a prestar atenção nessa artista, e passei a ver que ela era muito mais do que uma Madonna ‘on crack’. Havia uma linguagem ali que era perfeita do ponto de vista do marketing, mas que também tinha uma dose de talento para se sustentar – do contrário, desmancharia como um castelo de cartas. Não, não era o caso. Gaga era especial.

Só depois de ouvi-la em versão acústica é que fui ouvir as canções do disco ‘Fame Monster’, primeiro dos dois discos que ela lançou. Fala sério, dois discos? A mulher faz um barulho desses no mundo, toca em estádios e... tem apenas dois discos lançados? Pois é.

As músicas ‘Just Dance’, ‘Pokerface’, ‘Bad Romance’, entre outras, eram músicas simples, sem nada de original. Mas eram pérolas pop, grudentas, perfeitas para as pistas de dança e para as paradas de rádio. "É isso!", pensei. A Ga-Garota descobriu a fórmula para fazer sucesso na era da pós-pós-pós-modernidade. Lembrando que Lady Gaga tinha 23 anos quando lançou o disco de estreia. Difícil se tornar tão poderosa aos 23. Mas acho que esse poder jovem é uma marca do nosso tempo. Diante disso, podemos dizer que Gaga é o Mark Zuckerberg da música pop: Um fenômeno precoce.

Somava-se a esse som pop um visual meticulosamente criado para chocar: vestido de carne, chapéus muito loucos, sapatos-arranha-céu, etc. Se Madonna é barroca, Lady Gaga é rococó - até porque hoje tudo é mais rápido e exagerado. em seu auge, Madonna se reinventava a cada disco; Gaga se reinventa a cada dia. Só que é bom ter cuidado para o excesso não cansar: eu não me surpreenderia se ela aparecesse vestida com roupas ‘normais’ no próximo disco. Afinal, 'menos com menos dá mais'.

Logo que cheguei ao Morumbi, vi a estrutura gigantesca que é o palco da turnê 'Monster Ball' (Baile dos Monstros).

Mas, antes dos detalhes sórdidos sobre o show em si, uma palavrinha sobre as bandas de abertura.

O show começou com uma performance patética da ‘DJ’ (entre aspas, mesmo) Lady Starlight, cujo maior talento é conseguir usar lentes de contato bizarras. Sua performance não mereceria nem ser citada, mas se eu deixasse pra lá eu também não poderia tirar um barato dela. Resumindo o show da Lady Starlight: ela entra no palco de máscara vestindo um figurino de vinil preto e fica parada olhando para a plateia. Daí ela sai e volta vestindo outra roupa. Uau! Daí ela tira a máscara e debaixo da máscara... tem outra máscara! Genial! Nunca antes na história desse país alguém fez uma apresentação tão maravilhosa! E para terminar, a mulher volta vestida de múmia e começa a cuspir sangue. Sério? Tipo assim... 'halloween'?

Então a Lady Starlight tira a máscara e revela toda sua... feiúra. Nos olhos, lentes de contato horripilantes, a lente esquerda, inteira branca; a direita, preta, cobrindo o olho inteiro. Daí a 'artista' pega uma garrafa de whisky Jack Daniels e começa a tomar no gargalo. Alguns goles depois, ela cai bêbada no chão. Os seguranças entram e a carregam para o camarim. Fim.

Pouco depois entra o primeiro show de verdade da noite, já que Lady Starlight só está na turnê porque é amiga de Lady Gaga (uma pessoa tão esquisita só podia ser amiga dela) desde a época em que Gaga era apenas Stephanie Germanotta, uma esquisita e ambiciosa garota italiana metida a cantora em Nova York.

Entram no palco os ingleses da banda de hard rock Darkness. Quando o Darkness surgiu no cenário, achei que era apenas uma banda que satirizava os roqueiros, mais ou menos como o Bad English ou o Spinal Tap. No primeiro disco eles eram tão caricatos, tão divertidamente cheios de clichês, que não cheguei a levá-los a sério. Mas eu estava errado: o Darkness acabou provando que era uma banda de verdade, consistente e com boas canções.

Pería, mas o que uma banda de hard rock estava fazendo abrindo o show da Lady Gaga? Veremos.

Nem todo mundo sabe, mas Lady Gaga adora rock pesado. Ela é fã declarada do Iron Maiden, entre outros ídolos. Foi por isso que ela escolheu o Darkness: eles tocam  'Glam Metal', se é que existe o termo (e, se não existe, acaba de ser criado. Se quiser citá-lo em outros lugares, por favor me avise para eu mandar a conta de direitos autorais. Ha.)

Na noite de ontem, infelizmente, o Darkness dos irmãos Justin (outro cara esquisitão) e Dan Hawkins entrou no palco no exato momento que uma chuva torrencial desabou sobre o Morumbi. Isso prejudicou um pouco o show deles, mas deu para ver que a banda é boa de palco. Mesmo assim, é difícil cantar ‘I Believe in a Thing Called Love’ dentro de uma daquelas capas de chuva vagabundas de plástico. Agora eu sei como um pinto se sente dentro de uma camisinha, e posso dizer, não é uma sensação muito agradável.

Quarenta minutos depois, cai o pano que cobre o cenário de Lady Gaga: uau, um castelo medieval! Legal, agora vamos ver o que Gaga vai fazer com ele. As luzes se apagam e ela entra como uma rainha: montada em um cavalo negro, com sua trupe empunhando bandeiras e marchando como se fossem um exército lutando para proteger a nova rainha do pop.

Por falar em rainha pop, a comparação com Madonna é evidente, assim como é evidente que comparar uma artista de 52 anos com uma de 26 é covardia. Tudo bem, vai, Madonna ainda está em plena forma, mas convenhamos que ela é uma mulher de 52 anos. Lady Gaga tem a garra e a fome de uma garota de 26. Pode-se gostar mais da música de uma do que da música da outra, mas não há como negar que a energia e a garra está do lado da mais jovem – é uma constatação biológica, não artística.

É aí também que podemos ouvir o coro altíssimo dos fãs de Lady Gaga. Fãs, não, seguidores. Seguidores, não, discípulos. Gaga tem uma relação muito interessante com os fãs, algo que nenhum artista da atualidade conseguiu estabelecer com tanta propriedade. Para eles, Gaga não é apenas uma cantora, mas uma líder espiritual. Mais que isso: uma líder religiosa, eu diria. Porque a liberdade é um conceito pelo qual há pessoas que dariam a vida, e se isso não é um componente básico da religião, então eu não sei o que é.

As letras do disco ‘Born This Way’ são libertadoras no sentido mais colorido da modernidade, se é que você me entende. ‘Nascido Desse Jeito’, ou seja, não importa como você é, Lady Gaga te aceita. E, mais importante que isso, VOCÊ deve se aceitar. Porque Lady Gaga É você, como ela diz no meio do show (parece ou não parece um discurso religioso?). Pode parecer simples, mas a mensagem é bem mais profunda.

Gaga é roqueira até nesse sentido: ela pega uma bandeira que sempre foi do rock (roqueiros sempre foram ‘excluídos’, outsiders da sociedade) e adapta o conceito aos ‘little monsters’, como são chamados seus fãs. Ela não apenas os aceita  do jeito que são, como os acolhe sob suas asas; ela percebeu que grande parte da sociedade não é formada por 'winners'. Faltava, portanto, um porta-voz para os 'loosers', mas não um porta-voz nos moldes de um geek (como eles mesmos). Era preciso ser uma porta-voz poderosa, glamourosa, vomitando em alto som para o mundo que ser diferente é OK. Esse sentimento é muito presente na plateia: há muitos gays, claro, mas não só isso. Há pessoas vestidas de padre, há outras garotas seminuas. Há ainda gente pintada de caveira, outras vestidas de unicórnio, símbolo usado por Gaga em peças promocionais. Ou seja: no show da Lady Gaga é permitido você ser não apenas quem você é, mas quem você gostaria de ser. No 'Baile dos Monstros' é aceitável projetar a idealização do seu 'eu', mesmo que o resto do mundo ache ridículo.

O termo ‘inclusão social’ está meio desgastado e talvez não se aplique aqui, mas certamente o que acontece com Gaga é que ela promove uma ‘inclusão cultural’, como líder de um movimento que diz que você pode ser gay, mas também pode ser feio se for o caso, já que todo feio esconde uma pessoa bonita por dentro. Novamente, volto a dizer que parece simples, mas não é. Ou melhor, é tão simples que nunca ninguém conseguiu fazer. Ou conseguiu com menos profissionalismo, como no caso do conceito punk de 'do it yourself', entre outros.

Gaga incentiva o alter-ego, os avatares de seus fãs. E, com isso, surge como a líder dessa bizarra turma de adolescentes e jovens adultos que começam a ver que é mais divertido ser fã de uma celebridade 'igual' do que tornar-se um 'winner' em uma sociedade repressora e consumista. Em meio a tudo isso, ironicamente, Gaga lançou uma rede social exclusiva para seus fãs, apostou em uma linha de perfumes (‘Fame Monster’), criou a agência de estilo ‘Haus of Gaga’, e ainda se tornou diretora criativa da Polaroid. Ou seja, pode ser tudo planejado, mas nenhum desses objetivos seria atingido se não existisse uma coisa muito simples: a música.

É aí que o negócio fica artisticamente mais consistente e, paradoxalmente, mais divertido. Uma louca vestindo roupas malucas e sapatos ridículos é uma coisa; uma Midas vestindo roupas malucas, sapatos ridículos e transformando em ouro tudo o que ela toca é outra. Aos 26 anos, Gaga mostra uma incrível maturidade. E ainda consegue ser espontânea, mesmo com toda a preocupação/obsessão com a imagem. Enquanto velhos rockstars blasés aparecem durante dez segundos na varada do hotel com caras de poucos amigos, Gaga estende faixas (‘I love Rio’), acena várias vezes para os fãs, aparece seminua, manda servir sanduíches e pede pizzas para os 'monstrinhos' não fiquem com fome. No Rio, saiu do Hotel Fasano, pegou carona com um moto-táxi e subiu a favela, para jogar bola descalça com os favelados. Daí tatuou a palavra ‘Rio’ na nuca, e disse que essa viagem mudou sua vida. Em São Paulo, passou uma noite na boate Romanza, rodeada por garotas de programas e vendo shows de pole dancing. Mentira? Verdade? Marketing? Não saberemos nunca. Pouco importa. O que importa é "o que os fãs acham dela".

Numa entrevista recente para o Fantástico, Gaga se mostrou obcecada pela imagem perfeita e excessivamente controladora. E alguém tinha alguma dúvida? Ela nunca teria chegado aonde chegou sem uma enorme preocupação com o seu visual. Para criá-lo, foram várias referências: filmes de terror B, heavy metal (ela é fã do Iron Maiden, como já citei), criaturas do artista suíço H.R. Giger, Madonna, S&M e cultura pop em geral. Gaga é tudo isso, mas também não é nada disso, já que o sólido transforma-se em estéril, e o choque pelo choque não tem nenhum objetivo de provocar terror. A história se repete primeiro como farsa e depois como comédia, e com ela não é diferente. O que impressiona é uma garota de 26 anos entender isso e saber usar com tanta competência a favor de sua carreira. Mesmo o sexo, mostrado à exaustão, não excita; é puramente visual. Lady Gaga é a versão musical de uma mistura de 'Cinquenta Tons de Cinza' com Boris Karloff.

Agora, para quem gosta de pop, a música é ótima. Há vários hits cantados em uníssono pelos ‘little monsters’ (ouvir o estádio inteiro cantando ‘Bad Romance’ foi arrepiante) e o mais interessante é que Lady Gaga não parece dublar sua voz, diferentemente do que acontece com Madonna e Britney Spears, ou outras artistas que dançam enquanto cantam. Há backing vocals gravados, claro, assim como há loops e batidas eletrônicas. Mas o microfone dela parece estar ligado o tempo inteiro, o que dá para ver inclusive pela quantidade de vezes que ela improvisa em cima das canções ou grita ‘São Paulo, Brazil!’.

By the way, Gaga pareceu mesmo ter se apaixonado pelo Brasil – ou eu fui mais um dos enganados pela marqueteira mais famosa do mundo. Sim, não há dúvida que ela é uma das mulheres mais poderosas do mundo. De acordo com revista Forbes, inclusive, os US$ 52 milhões que ela ganhou no ano passado a transformaram na 14º mulher mais poderosa do mundo no ranking que teve Hillary Clinton em primeiro, Angela Merkel em segundo e Dilma Rousseff em terceiro. E, para provar que o seu discurso de 'inclusão cultural' (o termo é meu) não é apenas marketing, Gaga criou a Born This Way Foundation em parceria com a Universidade de Harvard, para financiar projetos educacionais alternativos.

Apesar do repertório pop, outra coisa que chama a atenção no show de Lady Gaga é que seu som ao vivo é bem mais pesado do que no disco, onde há basicamente batidas eletrônicas e versões remix para as pistas. Os guitarristas Ricky Tillo e Kareem ‘Jesus’ detonam suas Les Pauls cheias de distorção, mas o melhor da banda é o baterista George ‘Spanky’ McCurdy, que abusa das viradas e até dos dois bumbos em algumas passagens. Isso cria uma pegada mais rock dentro de um show totalmente pop, o que conceitualmente é razoavelmente original. O visual do castelo medieval deixa tudo ainda mais ‘metal’, ainda mais quando o baterista aparece tocando nas masmorras e Lady Gaga canta uma ou outra música em cima de uma moto (Rob Halford, anybody?). Não lembro direito, mas acho inclusive que ela toca 'Judas'...

Tem também a parte populista do show, quando Gaga pede para três ‘little monsters’ subirem no palco para acompanhar uma canção ao lado dela no piano. É claro que as duas garotas e o garoto (pelo menos o cara nasceu garoto, se é que você me entende – e não que haja nada de errado com isso) entram em êxtase. Alguém que foi preterido na plateia deve ter ficado bravo, porque jogou um objeto no rosto de Lady Gaga nesse exato momento. O estádio ensaiou um coro de ‘filho da puta, filho da puta...’ mas a própria Gaga tomou uma atitude que mais uma vez me surpreendeu: enquanto o Axl Rose ameaça sair do palco a cada papelzinho que jogam nele, Gaga mandou o público parar de vaiar porque ela estava bem, não tinha acontecido nada de mais. Em tempos de estrelismo exacerbado, é no mínimo interessante ver uma garota com tanto bom senso diante de 50 mil pessoas. E o coro parou.

Gaga foi vez para o piano e detonou uma versão acústica de ‘Hair’, uma de suas poucas letras, digamos, ‘inteligentes’. O refrão diz ‘I am my hair’, outra vez uma ideia simples porém poderosa. Pense bem, é uma verdade tosca e simples dizer que 'nós somos o nosso cabelo'. Que nosso cabelo representa culturalmente a que tribo pertencemos, etc. Claro que é uma metonímia em relação à nossa personalidade, mas é só reparar na importância do cabelo na história da cultura popular para entender que há mais significados na frase “I am my hair’ do que imagina a nossa vã filosofia.

Depois de ‘Hair’, Gaga cantou ‘You and I’, uma baladona à la Elton John onde ela realmente solta a voz. E daí eu me vi de volta àquela noite no Carnegie Hall, quando ela chamou a minha atenção em meio a pesos muito mais pesados da música mundial. Ontem eu tive exatamente a mesma impressão que em 2009: há alguma coisa sobre Lady Gaga que não se explica com palavras, há alguma coisa sobre os grandes artistas que a gente não consegue definir. Talvez seja exatamente esta a maneira de reconhecer os grandes artistas. Aos 26, Lady Gaga já entrou para mais essa lista.

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Idiotas ricos e virgens brasileiras

Catarina Migliorin1 Idiotas ricos e virgens brasileiras

Catarina Migliorin: A brasileira diz que vai usar o dinheiro para fazer 'casas populares'. Será?

Há algo muito esquisito num mundo onde uma garota de 20 anos coloca a própria virgindade em um leilão na internet. Longe de mim ser moralista, dizer que “é uma vergonha” etc. Para mim, é uma situação constrangedora, mas  Catarina Migliorini tem 20 anos, é maior de idade,  tem o direito de fazer o que quiser, desde que não faça mal a ninguém. Não é disso que estou falando.

A internet nasceu para aproximar pessoas distantes, diminuir as fronteiras, distribuir conteúdo de forma democrática por todo o planeta. Mas também surgiu para expor todas as bizarrices do ser humano, as idiotices que antes ficavam escondidas nos porões do conhecimento.

Vamos usar o exemplo da tal virgem. O que faz um japonês milionário gastar R$ 1,6 milhão para transar com uma garota virgem? E ainda tem um componente a mais para complicar: a transa tem de ser no céu, num avião, para não ser considerada prostituição. Então é isso? O japonês e Catarina entram num avião para... transar? Que avião é esse? Tem cama? Vai ter exame médico antes?  Chuveiro para tomar  banho depois? Pode fumar um cigarrinho e perguntar : “Foi bom pra você?”.

Imagina só que cena ridícula. E daí o cara volta para o Japão, R$ 1,6 milhão mais pobre, e vai querer se exibir para os amigos. E os amigos puxa-saco vão puxar o saco dele, claro, e vão esquecer de mencionar o fato de que pagar R$ 1,6 milhão para transar com uma virgem não é apenas patético. Não é apenas idiota. É deprimente.

A gente imagina que um cara que tem R$ 1,6 milhão para jogar fora assim é um profissional extremamente bem- sucedido. Um craque do business. Um gênio financeiro.

Mas não é nada disso. Ele pode ser tudo isso aos olhos do mercado, na opinião do gerente do banco que administra seu dinheiro... mas na vida real ele é apenas um idiota. E um idiota com dinheiro é sempre pior do que um idiota sem dinheiro, porque,  invariavelmente, usará todo o seu  dinheiro para fazer coisas... idiotas. Como, por exemplo, pagar uma fortuna para transar com uma virgem brasileira de 20 anos.

Quem sabe a Catarina se casa com ele? Seria um bom final para essa história.

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Corpão? Bocão? Sexy é ser inteligente

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Mulher-Samambaia: As conquistas femininas são ofuscadas na TV pelo estereótipo da 'bonita-burra'

Homem é tudo igual - isso eu nem precisava ter escrito, você já sabia. Preciso confessar que, como homem e, portanto, igual a todos os outros, às vezes me pego assistindo a alguns programas de TV só para ver mulheres bonitas. Pânico na TV, Fazenda, Escolinha do Gugu, Zorra Total, sei lá, todos esses programas super educacionais e de conteúdo de altíssimo nível.

Alguns são divertidos, outros é melhor ver sem som. Mas antes que você me julgue, deixa eu confessar uma outra coisa: comecei a pegar um pouco de bode da maneira como a mulher é retratada nesses programas.

Não, não passei para o time de lá, continuo gostando bastante desse tipo de conteúdo do ponto de vista masculino. Também não sou moralista, que acha que ‘mulher de respeito’ tem que ficar coberta dos pés à cabeça. Mas é que  as próprias mulheres perderam o respeito por elas mesmas. E isso é ruim para todo mundo.

Alguns programas tratam as mulheres como  uns pedaços de carne e aí acho que fica até uma coisa anti-sexy. O estereótipo de mulher-bonita-burra é tão antigo que chega a dar preguiça. É sexy ficar dançando de biquíni na televisão? OK, é claro que é. Mas precisa ficar sorrindo para a câmera com cara de sonsa, como se não estivesse entendendo o que está acontecendo? Precisa? Não dá para participar de um programa vestida de maneira sexy, sim, mas, sei lá, de repente falar sobre algum assunto interessante? É pedir demais isso?

Essas garotas têm uns corpões, e é claro que isso atrai a audiência. Mas na boa, qual é a diferença real entre uma paniquete de hoje e uma chacrete dos anos 80? O tamanho dos seios? As mulheres conquistaram um espaço importante na sociedade, no mercado de trabalho, na vida do País. Precisamos mesmo de uma mulher-samambaia?  A mulher é um vegetal, é isso? Talvez ela nem consiga compreender que está sendo sacaneada - o que é pior ainda.

Mulher bonita, de biquíni ou até sem nada, é ótimo. Mas e mulher bonita, de biquíni e... inteligente? Já pensou? Imagina a mulher-samambaia abrindo aquele bocão e soltando uma frase inteligente? Talvez eu esteja querendo demais.

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30 anos sem Elis Regina: Shows reais e reality shows

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Elis Regina: A maior cantora brasileira morreu em 1982... e não deixou sucessora

A última quinta-feira, dia 19 de janeiro, marcou uma data triste para a música brasileira: os 30 anos da morte de Elis Regina, a maior cantora que já nasceu por aqui. Lembro bem do dia em que ela morreu. Eu tinha 12 anos e vi a notícia  no “Jornal Nacional”. É incrível pensar que aquele dia, que não parece tão distante assim, aconteceu há três décadas. O tempo é implacável.

O que mais me chamou a atenção em relação à data, no entanto, não foi a rapidez do tempo. Como a data é simbólica, a imagem e a voz de Elis voltaram à mídia em diversas e merecidas homenagens. Elas expõem as mudanças culturais ocorridas entre 1982 e 2012.

Tenho um carinho natural por Elis, já que meus pais foram amigos dela e o nome da cantora era citado em casa com uma certa naturalidade, como se a grande artista fosse, antes de tudo, uma mulher. Esquecendo isso, confesso que fico chocado com o choque de civilizações que nos separam daquela data... 30 anos atrás.

Pense comigo: mentalize o vídeo de Elis cantando “Arrastão” em um daqueles históricos festivais da MPB dos anos 60.

Já lembrou? Os braços se mexendo para cima e para baixo, aquela vozeirão saindo do corpo com uma força que não se sabia de onde vinha, o rosto contraído em uma verdade explícita, com as veias saltando no pescoço. Agora tente se lembrar de um vídeo da Ivete Sangalo. Ou da Cláudia Leitte. A diferença é brutal, não?

O sentimento puro foi substituído por um profissionalismo gelado, a voz que nos emocionava por sua força e humanidade foi trocada por gritinhos vazios comprados na loja da esquina. Quem acredita nisso? As performances de Elis eram shows reais; as apresentações de Ivete Sangalo e Cláudia Leitte são, no máximo, “reality shows”.

Não estou criticando as cantoras da nova geração, afinal, não é culpa delas que o mundo mudou tanto. Nem estou sendo saudosista, já que a Elis nem é “do meu tempo”. Só estou tentando entender onde foi que erramos, por qual razão passamos a valorizar algo que sabemos que é vazio? Por que nos revoltamos com algo que acontece num programa de TV e ficamos apáticos diante de problemas muito maiores que insistem em ocupar os noticiários da vida real? Quem sabe daqui a 30 a gente encontra a resposta.

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Adeus: O metrossexual morreu

Beckham Adeus: O metrossexual morreu

David Beckham não gosta de cabecear porque estraga o penteado

 

Sabe aquele cara que gastava mais em cremes para a pele do que em cerveja? Pois é, morreu. Foi enterrado em um caixão de prata forrado com veludo coteltê azul-claro e detalhes em ouro branco. Chiquérrimo. Viveu pouco, o suficiente para alimentar a úlcera da mulher, que não aguentava mais a pia do banheiro cheia de hidratantes e tesourinhas para aparar a sobrancelhas... dele.

O termo 'metrossexual' apareceu pela primeira vez no The New York Times no fim dos anos 90 para definir o homem 'mudérrrno', uma espécie do futuro que reunia as características de um jogador de rúgbi e um cabeleireiro (no mesmo ser humano). Até que as mulheres perceberam que o cara estava preocupado demais com a aparência dele mesmo - e não estava nem aí para a delas.

Não há nada de errado em se vestir bem, ficar bonito e até ler o rótulo antes de comprar um shampoo. Até eu faço isso, nas raras vezes em que minha namorada se esquece que eu também lavo o cabelo. Mas daí a saber para que serve uma chapinha, vai uma eternidade. Chapinha, até onde eu sei, é onde se fritam hambúrgueres pequenos.

Os últimos metrossexuais ainda desfilam, à espera da São Paulo Fashion Week. Não vai demorar até que estejam extintos para valer, uma vez que o ato da reprodução é aquela coisa complicada, cheia de suor e, pior... de mulher.

Metrossexual macho, que é metrossexual macho de verdade, gosta mesmo é de passar as noites com os amigos, enchendo a cara de Prosecco e lembrando do final do Campeonato de Golfe de 1993.

Sei que as mulheres sonham com um cara sensível, que ande na moda e chore no cinema - desde que as roupas não tenham lantejoulas e o lenço seja delas. Mulher gosta, sim, de conversar sobre coisas chatas como cabelos e cremes, mas com outras mulheres. E, para falar a verdade, acho que elas preferem ser abraçadas por alguém que não liga se sua camisa de seda italiana está amassando.

Dá para ser urbano e moderno sem brigar pela mulher pelo espaço na frente do espelho. Sou sensível, mas nem por isso vou chorar no enterro do metrossexual. Infelizmente, nem poderei ir ao velório: tenho um futebol regado a chopp e churrasco exatamente no mesmo dia.

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