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70 coisas que você não sabia sobre David Bowie

David Bowie2 70 coisas que você não sabia sobre David Bowie

Depois de lançar 'Blackstar' dois dias depois de sua morte, David Bowie lança o EP 'No Plan' no dia em que completaria 70 anos

Há um ano, morria David Bowie, um dos artistas mais incríveis, talentosos e inovadores que o mundo da música já viu.

Anteontem, quando faria 70 anos, a gravadora de Bowie lançou o EP de inéditas 'No Plan', cuja letra fala sobre "um lugar onde não há música", nem 'planos'. Lembrando que Bowie lançou 'Black Star' dois dias depois de sua morte, no ano passado, a gente começa a desconfiar... em que planeta Bowie está vivendo? Sim, porque a gente só morre quando é esquecido.

E para contribuir para o não-esquecimento de Bowie - e em homenagem a seus 70 anos - segue uma lista com 70 coisas que você não sabia sobre David Bowie. Se sabia 1, 2 ou as 70, não tem o menor problema: você é como eu e aceita a verdade universal de que Bowie não morrerá nunca.

 

1.Nas paradas há mais de 40 anos
Bowie lançou ‘Where Are We Now’, single do disco 'The Next Day', no dia do seu aniversário de 66 anos, 8 de janeiro de 2013. A música entrou direto para o Top 10 na Inglaterra, ficando em sexto lugar. Sua primeira canção a entrar para as paradas britânicas foi ‘Space Oddity’, em 1969. Além de vender mais de 140 milhões de discos em toda a sua carreira, Bowie é um dos raríssimos artistas no planeta que frequenta o topo das paradas há mais de quarenta anos.

2.Presente de aniversário
Bowie lança mais uma vez um disco novo no dia de seu aniversário: hoje, 8 de janeiro de 2016, ele está lançando ‘Blackstar’. Em 2013, na mesma data, havia lançado ‘The Next Day’, seu primeiro disco depois de um hiato de dez anos.

3.Jazz NYC
No final de 2014, Bowie lançou a canção ‘Sue (Or in a season of crime)’, com a participação da Maria Schneider Orchestra. Bowie queria voltar a trabalhar com Schneider em ‘Blackstar’, mas como ela não podia porque estava gravando seu novo álbum, sugeriu o saxofonista Donny McCaslin, figurinha carimbada do jazz de vanguarda de Nova York. Bowie foi assisti-lo ao vivo e gostou tanto que chamou o cara para ser parceiro.

4.Obra de arte no videoclipe
O responsável pelo visual do belo e melancólico vídeo da canção ‘Where Are We Now’, do álbum 'The Next Day', com a cabeça de Bowie inserida no corpo de um boneco, é o artista americano Tony Oursler. Considerado um dos mais criativos ‘videoartists’ da atualidade, Oursler é o destaque de uma exposição inaugurada em fevereiro no museu Tate Modern, em Londres. A letra faz uma viagem por um local pelo qual Bowie tem verdadeira fascinação: a cidade de Berlim.

5.Letras baseadas na história
Segundo Tony Visconti, a temática abordada nas letras de 'The Next Day' eram as mais variadas e complexas da carreira de Bowie. O produtor revelou que o cantor andava obcecado por história medieval britânica e história contemporânea russa, temas que, segundo ele, “são ótimas fontes de inspiração para canções de rock”. Há ainda ‘Valentine’s Day’, sobre os massacres de atiradores em escolas americanas, e ‘I’d Rather Be High’, sobre um soldado da Segunda Guerra Mundial.

6.Segredo levado a sério
Os músicos que tocaram em ‘The Next Day’ – Jerry Leonard, Earl Slick, David Torn e Gerry Leonard (guitarra), Sterling Campbell e Zachary Alford (bateria), Gail Ann Dorsey (baixo) e Steve Elson (saxofone) – tiveram que assinar contratos de confidencialidade, proibindo-os de fazer qualquer comentário sobre a gravação ou o projeto. Eles não podiam nem revelar que haviam se reunido com Bowie.

7.Obsessão pelo sigilo
Bowie gravou ‘The Next Day’ no estúdio The Magic Shop, no bairro do SoHo, em Nova York. Ele estava tão obcecado pela natureza sigilosa do projeto que exigiu que o estúdio desse folga a toda equipe sempre que ele estivesse no local. Apenas dois técnicos de sua confiança puderam acompanhar o processo. Até o técnico de som do guitarrista Earl Slick foi proibido de entrar no estúdio.

8.Em 2013, um novo começo
O produtor Tony Visconti, afirmou que Bowie vive desde 2013 mas “um novo começo”. Em 'The Next Day', ele gravou 29 músicas novas, mas apenas 17 entraram na versão DeLuxe do álbum. Será que 'Blackstar' traz um pouco dessas sobras de estúdio?

9.Segredo com a gravadora
Para garantir o sigilo em relação a 'The Next Day', nem a gravadora de Bowie, a Sony Music, sabia que ele estava em estúdio até o último momento possível. Rob Stringer, presidente da Sony e um dos homens mais poderosos do showbiz mundial, só ficou sabendo sobre o projeto no final de 2012, um mês antes da música ‘Where Are We Now’ ser lançada. Ao questionar Bowie sobre a campanha do lançamento, o cantor foi enfático: “Não haverá campanha. Vamos lançá-la na internet no dia 8 de janeiro e pronto”. Ele fez quase a mesma coisa com 'Blackstar': pouca gente sabia sobre o disco.

10.Equipe reduzida
No auge da carreira de Bowie, nos anos 70, seu empresário Tony Defries montou a empresa MainMan para cuidar de sua carreira e agenciar outros artistas. O problema é que só Bowie dava lucro e a empresa torrava milhares de dólares com limusines, drogas e festas. O resultado foi um caos: Bowie perdeu milhões com os prejuízos e, posteriormente, com os processos trabalhistas. Hoje, seu escritório em Nova York tem apenas dois funcionários: o empresário Bill Zysblat e a ‘faz-tudo’ Corrine ‘Coco’Schwab, braço direito de Bowie desde os anos 70. Bowie confia tanto em Coco que escreveu uma canção para ela, ‘Never Let Me Down’.

11.Medo da esquizofrenia
A mãe de Bowie, Margaret Mary Burns, e suas quatro irmãs tiveram sintomas de esquizofrenia graças aos traumas causados pela Segunda Guerra Mundial. Quando era adolescente, Bowie não se perguntava ‘se’, mas ‘quando’ começaria a ficar maluco. Seu meio irmão Terry, por parte de mãe, não teve a mesma sorte e foi internado diversas vezes com problemas psiquiátricos até cometer suicídio em 1985. Nos anos 70, quando era viciado em cocaína, Bowie desenvolveu uma paranoia típica dos usuários da droga: passou a ter medo de altura, recusava-se a viajar de avião e tinha medo até de entrar em elevadores.

12.Pai foi um fracasso como empresário do showbiz
O pai de David Bowie, Haywood Stenton Jones, tinha outra família antes de se casar com a mãe do cantor. Sua primeira mulher, Hilda Sullivan, tocava piano, cantava e dançava. Jones era tão apaixonado que investiu toda a herança que recebeu após a morte do pai, três mil libras (cerca de US$ 80 mil hoje), na carreira da mulher. O musical de Hilda foi um fracasso, e o casal acabou se separando. Decidido a começar vida nova, Jones trabalhou como porteiro de hotel antes de conhecer a mãe de Bowie.

13.Aniversário com o ídolo
Por uma dessas coincidências do destino, Bowie faz aniversário no mesmo dia que um de seus maiores ídolos, Elvis Presley. O rei do rock era um pouco mais velho: nasceu em 1935 enquanto Bowie nasceu em 1947, doze anos depois. Mais tarde, quando assinou com a gravadora de Elvis, a RCA, os executivos do selo encheram o camarim de Bowie com discos do Rei e deixaram um bilhete: ‘Esse é o tipo de artista que temos nessa gravadora’.

14.Conterrâneo do ‘inventor do amanhã’
Bowie passou a adolescência vivendo com os pais no subúrbio londrino de Bromley. O pequeno bairro teve outro morador famoso: H.G. Wells, um dos pioneiros da ficção científica. Entre outros clássicos, Wells escreveu ‘A Guerra dos Mundos’ e ‘A Ilha do Dr. Moreau’. Ironicamente, o sucesso de Bowie veio quando ele ‘se tornou’ um personagem de ficção científica, Ziggy Stardust. Bowie e H.G. Wells, considerado ‘o inventor do amanhã’, tinham ainda outro sonho em comum: sair de Bromley o mais rápido possível e se mudar para Londres.

15.Primeiro emprego
O pai de Bowie conseguiu para o filho um emprego temporário de eletricista, mas ele se recusou a aceitar. O orientador vocacional da escola sabia que ele queria algo ligado à música – e lhe arranjou um emprego numa fábrica de harpas. Mas é claro que Bowie também não durou muito ali. O professor Owen Frampton, deu mais sorte: pai do guitarrista Peter Frampton, seu amigo de infância, Owen conseguiu para ele um emprego de designer da agência de publicidade JWT, em Londres. Oficialmente, seu cargo era de ‘Visualizador Júnior’ – o que quer que isso signifique.

16.Amizade com o chefe
Apesar de não gostar muito do emprego de designer, Bowie ficou lá quase um ano porque a agência era em Londres. Bowie gostava do estilo dos colegas – corte de cabelo raspadinho estilo Gerry Mulligan e botinhas Chelsea – e ficou amigo do chefe, Ian. Havia, porém, um interesse escondido: Ian não se importava que Bowie passasse as tardes na Dobell’s, a melhor loja de discos de Londres na época.

17.Ao mestre com carinho
Bowie começou a ter aulas com o lendário saxofonista de jazz Ronnie Ross aos doze anos – quatro meses depois, descartou as aulas “porque já sabia tocar muito bem”. Anos depois, Bowie retribuiu o ensinamento: convidou Ross para tocar em uma canção de um cara ainda desconhecido que ele estava produzindo. O solo de sax do antigo professor foi eternizado em ‘Walk on the Wild Side’, de Lou Reed.

18.Maquiagem precoce
A androginia sempre foi um dos traços mais marcantes da carreira de Bowie. Segundo sua mãe, o gosto por usar maquiagem começou ainda criança, aos três anos. “Um dia, enquanto eu conversava com uma visita, ele subiu sozinho até meu quarto e encontrou um estojo com batom, delineador e pó compacto”, contou a mãe de Bowie, repreendendo o filho. Ainda segundo ela, a resposta dele foi simples. “Se você usa, mamãe... por que eu não posso usar?”

19.Música e aritmética
Quando Bowie começou a aprender saxofone e violão, a primeira canção que ele aprendeu foi ‘Inchworm’. Composta por Frank Loesser, ela apareceu pela primeira vez em 1952 no filme ‘Hans Christian Andersen’ na voz de Danny Kaye. Sua letra é famosa entre as crianças pelo refrão ‘matemático’: “Dois e dois são quatro / Quatro e quatro são oito / Oito e oito, dezesseis / Dezesseis e dezesseis, trinta e dois”. É uma música simples, mas serviu de inspiração para muitas das composições que Bowie escreveria ao longo da vida. “Você não acreditaria na quantidade de músicas que foram inspiradas por aquela única canção”, revelou Bowie.

20.Rebelde com causa
Um dos maiores ídolos de Bowie não era músico, mas um astro de Hollywood, e talvez tenha vindo daí o seu amor pela atuação. James Dean exercia um fascínio tão grande sobre Bowie que o cantor passou a dizer em entrevistas que ele e Dean “eram provavelmente muito parecidos”. Bowie contava que ouviu isso de outra estrela, Elizabeth Taylor, que contracenou com James Dean em ‘Assim Caminha a Humanidade’, pouco antes da morte do ator, em 1955.

21.Pioneiro do videoclipe?
Para divulgar o disco ‘Allandin Sane’, de 1973, Bowie já sonhava com uma abordagem multimídia para a sua carreira. Contratou o fotógrafo Mick Rock para fazer o videoclipe da música de trabalho, ‘The Jean Genie’. O roteiro trazia Bowie vestido como o seu ídolo James Dean e contracenando com Cyrinda Foxe, a sósia de Marilyn Monroe. Com pouca experiência como diretor, Mick Rock editou um clipe estranhíssimo, cheio de cortes e com um final totalmente sem sentido. Anos depois, com a criação da MTV, o clipe virou um clássico. O famoso crítico de rock Lester Bangs chegou a afirmar que ‘The Jean Genie’ era “o início do videoclipe moderno”.

22.O primeiro ídolo do rock & roll
Na música, o primeiro ídolo de Bowie foi Little Richard, um dos pioneiros do rock. O pai de Bowie havia ganhado um disco de um soldado americano e o levou de presente para o filho. Como o toca-discos da família funcionava apenas em 78 rotações, o garoto tinha que rodar o disco com o dedo para poder ouvir na velocidade correta a clássica introdução ‘A-wop-bop-a-loo-mop-a-wop-bam-boom!”, de ‘Tutti Frutti’.

23.Matéria no caderno... de esportes
Obcecado pelos roqueiros dos Estados Unidos, Bowie trocou na adolescência o futebol inglês (soccer) pelo futebol americano, que ele acompanhava pelo rádio do pai sintonizado na frequência do exército aliado. Fanático, Bowie escreveu uma carta para a embaixada americana em Londres pedindo informações sobre o esporte, e acabou ganhando brindes como uniformes e chuteiras. O figurino era tão raro em Bromley que mereceu a primeira matéria da vida de David Bowie: uma foto dele vestido de jogador de futebol americano no jornal Bromley and Kentish Times, anunciando que o esporte era a “nova moda entre os jovens”.

24.Sucesso com garotos e garotas
A bissexualidade de David Bowie nunca foi algo que ele se preocupou em esconder, pelo contrário. Em entrevista à Playboy – feita pelo jornalista/cineasta Cameron Crowe em 1976 –, Bowie revelou que teve suas primeiras relações sexuais com garotos e garotas aos catorze anos. Bowie afirmou que não se importava com o sexo da pessoa, contanto que fosse uma boa “experiência sexual”. “Não era difícil levar algum cara bonitinho da classe para casa e transar tranquilamente no meu quarto.”

25.Bowie quase virou um bluesman
Por pouco os fãs não tiveram que engolir um Bowie cantor de blues. Sim, porque no início dos anos 1960 o blues passou a ocupar o espaço do rock & roll na Inglaterra. Sorte que os Beatles e Rolling Stones começavam a ficar famosos, pois os roqueiros americanos viviam uma fase péssima: Little Richard havia se convertido em cristão, Elvis estava no exército, Chuck Berry havia sido preso, Buddy Holly tinha morrido em um acidente aéreo e Jerry Lee Lewis escandalizava o mundo ao revelar que ia se casar com sua priminha de 13 anos.

26.Homens modernos
Apesar de o blues ter se tornado a música da moda por um certo tempo, o estilo de se vestir da juventude britânica nunca seguiu por esse caminho. Depois da onda dos Teddy Boys, que imitavam os americanos dos anos 1950, com casacos de couro de golas levantadas e brilhantina no cabelo, os jovens descolados da Inglaterra se apaixonaram pelo movimento Mod (abreviação de ‘modern’). O estilo Mod exigia calças justas e elegantes ternos de três botões, todos abotoados. Os cabelos eram curtos e as gravatas, estreitas.

27.De onde veio o nome Bowie?
O nome de batismo de Bowie é David Robert Jones. Quando começou a se apresentar tocando violão e sax com seu amigo George Underwood na banda George and the Dragons, Bowie escolheu um nome influenciado por uma banda descolada local, os Jaywalkers e passou a assinar David Jay. Em relação à origem do nome Bowie, há controvérsias. Alguns biógrafos dizem que foi uma homenagem ao coronel James Bowie, o famoso herói texano que morrera na Batalha do Álamo. Bowie, no entanto, também é o nome de uma faca de lâmina curva, popular entre os garotos brigões da Inglaterra na época. Segundo a lenda, um garoto teria usado a faca em uma briga com Bowie, ferindo-o no olho. Isso explicaria o olho ‘vidrado’ de Bowie e o apelido que teria recebido desde então. Bowie nunca chegou a ficar cego: ele teve problemas na vista, mas enxerga normalmente.

28.Bandas obscuras e a primeira vez no estúdio
Antes de decidir ser um artista solo, Bowie fez parte de várias outras bandas que nunca saíram do underground: Kon-Rads, Hooker Brothers, King Bees, Buzz, The Manish Boys e The Lower Third. A primeira gravação de Bowie em um estúdio foi o compacto de estreia dos Manish Boys. A canção ‘I Pity The Fool’, de Bobby Bland, teve participação de músicos de estúdio, prática comum na época. O guitarrista era um jovem chamado Jimmy Page, que pouco depois deixaria a vida no estúdio para montar uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, o Led Zeppelin. Mais tarde, Bowie contrataria outro músico famoso para uma gravação: Rick Wakeman, tecladista do Yes.

29.Cabeludos Unidos Jamais Serão Vencidos
Quando os Manish Boys foram se apresentar pela primeira vez na BBC, o produtor impediu a participação da banda alegando que seus “cabelos eram muito compridos”. O assunto foi parar nos jornais com o título “BBC discrimina grupo de cabelo comprido”. Marqueteiro desde então, Bowie aproveitou a história para anunciar a (obviamente) fictícia criação da Sociedade Internacional para Preservação dos Pelos dos Animais. “É hora de nos unirmos para defender nossos cabelos”, afirmou, bobagem que ao menos lhe garantiu uma participação em um talk show.

30.Primeira namorada, primeira decepção
Hermione Farthingale foi a primeira namorada ‘séria’ de David Bowie. Para poder passar mais tempo com ela, Bowie montou um trio multimídia esquisitíssimo chamado Turquoise. Bowie cantava e fazia uma performance no estilo do mímico francês Marcel Marceau, Hermione dançava e o músico Tony Hill tocava guitarra. O trio era um típico representante do movimento hippie, apresentando espetáculos ‘cabeça’ de graça pelos centros culturais de Londres. Mesmo apaixonado, Bowie continuava tendo vários e várias amantes – o que levou Hermione a abandoná-lo um ano depois. Pouco depois, Hermione casou-se com um antropólogo e mudou-se para a Indonésia.

31.Monge David
Por muito pouco a música não perdeu David Bowie para a religião. No verão de 1967, em início de carreira, Bowie andava frustrado por não conseguir se sustentar apenas com seus projetos musicais. Em pleno auge da ‘Era da Consciência’, o hippie Bowie cogitou raspar o cabelo e se mudar para um mosteiro budista em Edimburgo, na Escócia, onde o mestre zen Dhardo Rinpoche vivia e lecionava. Os fãs agradeceram aos céus por ele não ter feito isso.

32.Produtor, budista e amigo há décadas
Bowie e o produtor americano Tony Visconti sempre compartilharam o amor pelo budismo e pelas roupas espalhafatosas. Bowie conheceu o nova-iorquino do Brooklyn em 1967 e os dois firmaram uma parceria que continua até hoje. Visconti costumava andar por Londres vestindo apenas um roupão amarelo e chinelos. Na primeira reunião, o empresário de Bowie disse a ele: “Você parece ter talento para trabalhar com coisas estranhas.” E o contratou.

33.O emprego de David Bowie
Após se tornar uma celebridade com o sucesso de ‘The Office, o comediante Ricky Gervais disse numa entrevista que Bowie era seu herói. A produção do cantor o convidou para um show, e após a apresentação, o comediante foi até o camarim para conhecê-lo. Bowie não sabia quem Gervais, mas os dois ficaram amigos. No aniversário de 58 anos de Bowie, Gervais mandou um e-mail: “Parabéns! Não está na hora de você arranjar um emprego de verdade?” Bowie respondeu: “Obrigado, já tenho um emprego de verdade. Sou um deus do rock.” Em 2007, Bowie contracenou com Gervais na série ‘Extras’, da HBO.

34.Dando uma mãozinha para Iggy Pop
O ano de 1976 foi péssimo para o roqueiro Iggy Pop. Além do fim de sua banda, The Stooges, ele estava afundado nas drogas e chegou a ser preso por roubar uma casa. O amigo Bowie ajudou a resgatar sua carreira: montou uma banda, agendou uma turnê e ainda tocou teclados em alguns shows da turnê ‘Lust for Life’. O show em Cleveland foi gravado e virou o disco ‘Iggy & Ziggy – Sister Midnight Live at the Agora’.

35.Uma odisseia musical
O primeiro sucesso de Bowie, ‘Space Oddity’, foi inspirado em ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’, de Stanley Kubrick. Lançado em 1968, o filme fez sucesso ao navegar na onda espacial que reinava na época e que culminaria com a chegada do homem à Lua, no ano seguinte. Bowie, no entanto, não teria se inspirado no visual futurista ou na abordagem filosófica que o filme suscitava, mas no simples diálogo em que um dos personagens conversa com a filha por uma tela de vídeo numa versão rudimentar do Skype. “Diga a mamãe que eu liguei”, diz o personagem.

36.Uma pechincha para chegar ao topo
Quem acha que o ‘jabá’ (pagamento feito a rádios ou TVs para tocar determinado artista) é uma invenção recente está enganado. Para emplacar ‘Space Oddity’ nas paradas, o empresário de Bowie, Kenneth Pitt, pagou aos produtores do ‘Top of the Pops’ para ver seu artista no popular programa de TV britânico. “Não aguentava mais ver Bowie reclamando que não conseguia fazer sucesso”, diz o empresário em sua biografa. Considerando o ‘valor’ atual de David Bowie, o investimento foi uma pechincha: apenas 140 libras.

37.Judy Garland do pop
Os amigos de Bowie não gostavam de Kenneth Pitt porque diziam que ele era tão apaixonado pelo cantor que não queria que ele fizesse sucesso por medo de perdê-lo. Assumidamente gay, Pitt não gostava de rock e preferia que Bowie fosse uma versão pop do ícone gay Judy Garland. No funeral da cantora/atriz em Nova York, compareceram mais de vinte mil fãs – na maioria, gays.

38.Um homem em comum
Bowie só conseguiu romper com Pitt quando surgiu no seu caminho uma mulher que mudaria a sua vida: Mary Angela Barnett. Como Bowie conheceu Angie? Ambos saíam com o mesmo homem, o americano de ascendência oriental Calvin Mark Lee. Declaradamente bissexual, Angie chegou a ter um relacionamento com uma mulher chamada Lorraine antes de conhecer Bowie. Questionada sobre o assunto, Angie costumava responder ironicamente: “Comecei a sair com mulheres porque meu pai não queria que eu ficasse grávida”.

39.Um casamento sem amor?
Bowie e Angie se casaram em 19 de março de 1970, em parte porque eram um casal que se completava profissionalmente (ela cuidava de tudo, deixando Bowie livre para criar) e em parte porque Angie era uma americana nascida na Ilha do Chipre e precisava do documento para morar na Inglaterra. Então não havia amor? Angie era apaixonada, mas, pouco antes do casamento, Bowie perguntou a futura mulher se ela conseguiria lidar com o fato de que ele não a amava. Ela respondeu que sim. Em vez de ‘eu te amo’, amigos contavam que o cantor dizia a estranha expressão ‘no seu ouvido’ quando queria demonstrar afeto por ela.

40.Alma gêmea musical
Embora Bowie fosse um excelente compositor, ele contou desde o início com a parceria com um guitarrista genial para transformar suas ideias em canções bem sucedidas. Mick Ronson e David Bowie faziam, nos anos 70, uma dupla de frente (guitarra/vocal) que não fazia feio diante de outras lendas do rock, como Mick Jagger e Keith Richards (Rolling Stones), Robert Plant e Jimmy Page (Led Zeppelin), Roger Daltrey e Pete Townshend (The Who), entre outros. Mais tarde Bowie recriou essa química com outros guitar-heroes, como Carlos Alomar e Reeves Gabrels.

41.Imagina o que os pais dele diriam
O guitarrista e parceiro de Bowie Mick Ronson foi criado em uma família de mórmons, que devem ter ficado em estado de choque ao ver o filho vestido com o visual andrógino adotado no disco ‘Ziggy Stardust’. Antes de tocar com Bowie, Ronson estava indeciso entre se tornar músico profissional ou continuar como... jardineiro da escola. Pouco depois, ele escreveria arranjos de cordas para clássicos como ‘Life on Mars?’, de Bowie, e ‘Perfect Day’, de Lou Reed. Segundo sua mulher, Ronson escrevia os arranjos no banheiro, sem nenhum instrumento, apenas imaginando as melodias.

42.Esposa e figurinista
Angie Bowie era a responsável pelo visual alucinante de Bowie em suas fases mais afetadas. Era comum vê-lo usando vestidos com casacos de pele ou macacão colorido e chapéus gigantescos. Para compor o visual, ela se baseava em figurinos de teatro. Em 1970, Angie sugeriu que a banda mudasse o nome para The Hype e que os músicos se vestissem como super-herois. Bowie era o ‘Homem-Arco-Írs’, o baixista Tony Visconti era o ‘Homem-Descolado’, o guitarrista Mick Ronson era o ‘Homem-Gângster’ e o baterista John Cambridge era o ‘Homem-Cowboy’.

43.Sexo, mamadeiras e rock & roll
Angie e Bowie tiveram um filho em 30 de maio de 1971 e deram à criança o nome de Duncan Zowie Haywood Jones. Além de soar com ‘Bowie’, o nome ‘Zowie era inspirado na palavra grega ‘Zoe’, que significa ‘vida’. Criticado pelo nome ridículo, Bowie disse que o garoto poderia mudá-lo quando fizesse 18 anos. E foi o que ele fez: cansado de ser chamado de ‘Zowie Bowie’, alterou o registro e tornou-se simplesmente ‘Duncan Jones’. Hoje, ele é diretor de cinema e já lançou dois filmes, os premiados ‘Moon’(2009) e ‘Source Code’ (2011).

44.“Mick e David, vocês querem café?”
Uma das histórias mais polêmicas envolvendo Angie Bowie teve como protagonista um outro rockstar mundialmente famoso. Angie contou que um dia chegou de viagem e encontrou na sua cama Bowie e o vocalista dos Rolling Stones, Mick Jagger. Sua primeira reação teria sido casual: “vocês querem café?” A história é confirmada por Ava Cherry, amante de Bowie após o término do casamento com Angie. “David e Mick era obcecados sexualmente um pelo outro. Já fui para a cama com eles, mas na maioria das vezes eu apenas assistia aos dois transando”, revelou Ava.

45.Dançando na rua
Obviamente não há provas sobre o relacionamento sexual entre os dois astros, mas a amizade entre eles era real e gerou inclusive parcerias musicais. Diz a lenda que o sucesso ‘Angie’, dos Rolling Stones, foi uma homenagem de Jagger ao fim do relacionamento do casal de amigos. Mas a maior prova da amizade entre Bowie e Jagger pode ser vista no videoclipe de ‘Dancing in the Street’, que os dois gravaram em 1985. No vídeo, é possível ver o prazer dos amigos dançando e cantando pela rua o sucesso do clássico da Motown gravado originalmente por Martha and the Vandellas. A renda com a comercialização da canção foi revertida para a fundação beneficente Live Aid.

46.David e Andy
O primeiro encontro de Bowie e Andy Warhol foi estranho – o que já era de se esperar. Bowie foi levado ao ateliê de Warhol, a famosa ‘Factory’, e Warhol barrou sua entrada. O artista pop havia sido baleado por um admirador meses antes, então estava paranoico. Quando Bowie finalmente conseguiu entrar – após ser revistado –, achou Warhol todo encolhido, com a pele amarelada, e obcecado por tirar fotos de todo mundo. Os dois só começaram realmente a conversar após Warhol ver que Bowie estava usando sapatos amarelos. Vinte e cinco anos depois, Bowie interpretou Warhol com perfeição no filme ‘Basquiat’, de Julian Schnabel. Quando acabava de gravar as cenas, saía andando pelas ruas de Nova York ainda vestido de Andy Warhol, surpreendendo as pessoas que acreditavam que o artista pop havia morrido.

47.Lugar lendário em Nova York
O lugar mais roqueiro de Nova York no início dos anos 1970 era, sem dúvida, o bar/restaurante Max’s Kansas City, na Union Square. Frequentava o local a turma de Bowie, John Lennon, Mick Jagger, Lou Reed e outros músicos, além de mecenas e artistas como Andy Warhol. A casa foi demolida e hoje, no local, bem ao lado do Hotel W., funciona a Green Deli, uma lanchonete que vende jornais e café barato.

48.Stanley Kubrick, mais uma vez
Além da inspiração em ‘2001: Uma odisseia no Espaço’ para compor ‘Space Oddity’, Bowie também foi influenciado por outra obra do cineasta Stanley Kubrick. ‘Ziggy Stardust’, considerado por muitos o seu melhor disco, foi inspirado no filme ‘Laranja Mecânica’, de 1971. Ziggy é uma versão ainda mais andrógina de Alex, brutal personagem de Malcolm McDowell. A banda de Ziggy, os ‘Spiders From Mars, também se espelhava nos ‘Droogs’ da gangue de Alex. A introdução dos shows na turnê do disco era ‘Ode à Alegria’, de Beethoven, tirada da trilha sonora do filme de Kubrick.

49.Saindo do armário pela imprensa
A primeira vez que Bowie revelou ao público que era homossexual foi em 1972, numa entrevista ao jornal Melody Maker. “Sou gay e sempre fui, desde que era David Jones”, revelou o cantor. Em outras entrevistas, negava tudo. Fontes dizem que seu discurso sobre a homossexualidade era planejado com o objetivo de gerar controvérsia, enturmar-se com os grupos gays que começavam a se tornar cada vez mais populares e influentes, e aparecer nas capas de revistas com declarações polêmicas. Na realidade, segundo os amigos, as relações de Bowie seriam na proporção de cerca 95% mulheres e 5%, homens.

50.Início nada promissor para Ziggy
O lançamento de ‘Ziggy Stardust’ era a maior aposta de David Bowie para obter reconhecimento, fama e entrar de verdade para a lista dos grandes roqueiros britânicos. Mas o primeiro show da turnê aconteceu diante de apenas 60 pessoas no salão dos fundos do pub Toby Jug, onde diz a lenda que o pai de John Lennon trabalhara na cozinha. Quando a turnê terminou, eles estavam tocando para 14 mil pessoas na lendária arena Earl’s Court, em Londres.

51.Todos esses caras jovens agradecem
Além de ajudar na carreira de Iggy Pop e Lou Reed, Bowie salvou o Mott the Hoople. A banda havia acabado de ser dispensada pela gravadora Island Records, mas Bowie gostava do som e era amigo do vocalista Ian Hunter. Para ajudá-los, Bowie foi até o escritório do empresário da banda e disse que tinha uma música de presente para eles. ‘All The Young Dudes’ foi um sucesso mundial e salvou a carreira de Ian Hunter e companhia.

52.Influência do teatro japonês
Como tinha medo de avião, Bowie e Angie foram para o primeiro show no Japão de navio. Embarcaram em Los Angeles no SS Oresay e foram recebidos por uma multidão de fãs. Fascinado por Nô e Kabuki (formas tradicionais do teatro japonês), Bowie aproveitou a viagem para incorporar a cultura oriental ao show: encomendou nove figurinos do designer japonês Kansai Yamamoto. O novo visual trazia casacos de cetim de gola alta e peças modulares, que Bowie mesclava de acordo com as luzes do palco.

53.Roubado pelo Sex Pistols
Após o último show da turnê de ‘Alladin Sane’, a equipe de produção de Bowie se reuniu para uma festa de despedida. Ninguém imaginava que, enquanto os músicos e técnicos estavam bêbados e se divertindo, o equipamento estava sendo roubado. A gangue de ladrões era liderada pelo punk Steve Jones, guitarrista do Sex Pistols. “Queríamos montar uma banda, mas não tínhamos dinheiro. Então roubamos os de Bowie”, afirmou Jones no livro ‘England’s Dreaming’. Ironia do destino: anos antes, na letra de ‘Hang on to Yourself’, Bowie escreveu que “o ritmo fica melhor em uma guitarra roubada”.

54.Excessos de drogas
Nos anos 1970 a cocaína era extremamente popular, principalmente entre as pessoas que podiam ficar dias e dias sem dormir – o que era o caso de Bowie. O cantor, que no início da carreira nem fumava maconha, tornou-se um viciado pesado na droga. Chegou a pesar quarenta quilos (perdia quase um quilo por noite durante os shows) e sobreviveu meses à base de cocaína, café, cigarros (dois maços por dia), pastilhas de menta e leite integral.

55.Influência do cinema, mas também da literatura
Não era apenas o cinema que influenciava os discos e canções de Bowie. ‘Diamond Dogs’ foi inspirado no livro ‘1984’, de George Orwell. As canções contavam a história de uma gangue de punks que vivia nos telhados das casas da caótica Hunger City, um cenário pós-apocalíptico. Ironicamente, Bowie confessou que também incluiu elementos de uma comédia que tratava do mesmo assunto, ‘O Dorminhoco’, de Woody Allen. O cenário da turnê do disco teve ainda influência do expressionismo alemão, com referências ao filme ‘Metropolis’, de Fritz Lang, e a ‘O Gabinete do Dr. Caligari’, de Robert Weine.

56.Composições aleatórias
Em 1974, Bowie foi entrevistado pelo famoso escritor William Burroughs para uma edição especial da revista Rolling Stone. Os dois ficaram amigos. O autor de ‘Almoço Nu’ e ícone beatnik sugeriu que Bowie adotasse um método de composição bastante esquisito: escrever frases aleatórias e as sortear de dentro de um saco, deixando o acaso definir a letra da música. Em meio a uma fase de transição criativa, Bowie aceitou a ideia porque, segundo ele, o método “traria uma nova energia”.

57.Parceria com um ex-Beatle
Nos anos 1970, Bowie passou a conviver cada vez mais com celebridades do ‘seu nível’, como a atriz Elizabeth Taylor e o ex-Beatle John Lennon. Quando decidiu gravar ‘Across the Universe’, dos Beatles, convidou Lennon para ir até o estúdio conferir sua versão e gravar uma participação. A sessão correu tão bem que Lennon, Bowie e o guitarrista Carlos Alomar escreveram uma composição inédita: a canção ‘Fame’, lançada por Bowie em 1975. ‘Fame’ foi direto para o topo da parada Billboard Hot 100 e se tornou o maior sucesso de Bowie nos EUA até então.

58.A ‘Trilogia de Berlim’
Apesar de conviver com diversas celebridades do mundo do rock, a parceria criativa mais importante da carreira de Bowie foi com o produtor Brian Eno. Ao lado do amigo de longa data Tony Visconti, o trio é responsável pela revolução realizada na famosa ‘Trilogia de ‘Berlim’ de Bowie, composta pelos álbuns ‘Low’, ‘Heroes’, e ‘Lodger’. Recheados de sintetizadores, os discos concebidos nos estúdios Hansa são considerados o embrião da música eletrônica. “Eles criaram arte dentro da música popular”, elogiou o compositor erudito Philip Glass, que lançou uma versão sinfônica de ‘Low’ em 1992.

59.Astro de Hollywood
A relação de Bowie com o cinema é quase tão intensa quanto sua relação com a música. Sua primeira atuação em uma grande produção de Hollywood foi em 1976, quando interpretou o personagem Thomas Jerome Newton, um extraterrestre que abandonara um planeta destruído em ‘O Homem Que Caiu na Terra’. Antes de voltar às telas, Bowie atuou na Broadway como protagonista na montagem de 1980 de ‘O Homem Elefante’. Três anos depois, Bowie atuou em ‘Fome de Viver’, onde contracenou com Catherine Deneuve e Susan Sarandon. No mesmo ano, atuou em ‘Furyo – Em Nome da Honra’, dirigido por Nagisa Oshima, o mesmo cineasta do polêmico ‘Império dos Sentidos’. Bowie não parou mais: foi um feiticeiro em ‘Labirinto’, Pôncio Pilatos em ‘A Última Tentação de Cristo’, de Martin Scorsese, e Andy Warhol em ‘Basquiat’, entre mais de 30 produções.

60.Ícone fashion
Bowie não é apenas um ícone dos fashionistas porque tem um sucesso chamado ‘Fashion’, de 1980. Bowie era o padrinho da revista Face, fundada por Nick Nogan e que se tornou rapidamente a voz para os estilistas, fotógrafos e artistas jovens de Londres. Ao longo da carreira, Bowie trabalhou com diversos estilistas, como Alexander McQueen na turnê de ‘Earthling’. Em 2007, aos sessenta anos, Bowie foi finalmente parar nas prateleiras: a loja Target lançou a coleção ‘Bowie by Keanan Duffty’, parceria criativa do designer com o cantor.

61.Bowie na bolsa
Em 1996, o corretor David Pullman, ex-estudante de Wharton e fã de Bowie, teve uma ideia: por que não poderia haver ações baseadas em direitos autorais futuros de grandes artistas? Foi assim que Bowie foi parar na bolsa de valores. Ao antecipar seus royalties, Bowie embolsou milhões de dólares e gerou outra fortuna para grandes investidores do mercado financeiros e fundos de pensão. “Bowie foi parar na capa do Wall Street Journal”, comemorou Pullman.

62.Bowie saudável, Bowie doente
Depois de um problema no coração parcialmente encoberto por sua equipe (atribuído ao consumo excessivo de cocaína, cigarros e péssima alimentação), Bowie passou a se cuidar mais e ficou visivelmente mais saudável. Interrompeu as turnês exaustivas por um tempo e passou a se dedicar a atividades como surfar, fotografar e editar textos. Chegou a integrar o staff da revista Modern Painter, onde entrevistou artistas como Jeff Koons, Balthus e Julian Schnabel. Aos poucos Bowie foi voltando a vida ‘normal’ e passou a reclamar de dores no peito. Em 2004, interrompeu a turnê do disco ‘Reality’ para uma cirurgia de reparação de uma ‘artéria severamente bloqueada’. Ao sair do hospital, declarou: “estou triste porque a turnê estava indo muito bem. Prometo me recuperar totalmente... e prometo não escrever uma canção sobre isso”.

63.Novo casamento, mais uma filha
Um amigo em comum marcou um encontro de Bowie com aquela que seria a mulher de sua vida: a modelo de origem africana Iman Abdulmajid, famosa como modelo de Calvin Kleine e Halston e por ter aparecido no vídeo ‘Remember the Time’, de Michael Jackson. Nascida em 1955, a modelo da Somália era filha de diplomatas que fugiram do país após um golpe militar no país em 1969. Antes de conhecer Bowie, Iman já tinha uma filha, Zulekha. Em 1992, Bowie e Iman se casaram em Florença, na presença de convidados como Bono, Yoko Ono e Brian Eno, entre outras celebridades do mundo da música e da moda. E tiveram outra criança: a filha do casal, Alexandria Zahra (‘luz interior’, em árabe), nasceu oito anos depois.

64.Bowie Esponja
Quando Alexandria fez sete anos, o papai Bowie deu um presente inesquecível à filha: como ela era grande fã do desenho Bob Esponja, Bowie aceitou gravar a voz do personagem Rei da Atlântida em um dos episódios. O programa exibido pelo canal Nickelodeon foi um dos maiores sucessos da TV a cabo em 2007, perdendo em audiência apenas para o último capítulo da série ‘Os Sopranos’.

65.ExpoBowie
Bowie foi tema da exposição ‘David Bowie Is’ em 2013 no Victoria and Albert Museum, o mais famoso museu de design de Londres. Foram exibidas cerca de 300 peças relacionadas ao músico numa área de mil metros quadrados. A exposição era dividida em três partes. A primeira mostrava o contexto em que Bowie nasceu, a Inglaterra destruída pelo pós-guerra, e a evolução do artista desde as primeiras bandas até a composição do primeiro hit, ‘Space Oddity’, em 1969. A segunda parte dissecava seu processo criativo – manuscritos de letras, instrumentos originais e peças de estúdio – e suas influências, mostrando como Bowie foi inspirado pela obra de artistas extremamente variados: do artista pop Andy Warhol ao roqueiro Little Richard, dos cineastas Stanley Kubrick e Fritz Lang ao escritor William Burroughs. A segunda parte trazia ainda uma área dedicada aos figurinos de Bowie e aos seus personagens musicais /performáticos mais conhecidos, como Ziggy Stardust, Alladin Sane e Thin White Duke, além de demonstrar o impacto que eles tiveram na sociedade e na cultura em todo o mundo.
A terceira parte da exposição era voltada para as performances de Bowie, com cenas de shows, equipamentos de turnês, cenários e projeções multimídia. A mostra chegou ao Brasil em fevereiro de 2014, quando foi exibida com sucesso no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo.

66.Pioneiro também na internet
Como sempre foi um visionário, era normal imaginar que Bowie se apaixonaria pelo conceito da internet, e foi isso que aconteceu. Ele já usava computadores pessoais desde 1983, mas com a expansão da web Bowie viu ali um caminho de integração das mídias e da interatividade que ele nunca havia sonhado. “A ideia pioneira de fãs se comunicando diretamente com seu ídolo foi nutrida pelo site Bowie.net”, afirmou Nancy Miller, editora da revista Wired. ‘Telling Lies’, do disco ‘Earthling’, foi a primeira música disponibilizada para download por um grande artista. Em 2007, ao receber o Webby Awards por ‘Inovações em Internet’, Bowie foi informado de que a regra era fazer um discurso curto, ‘umas cinco palavrinhas’. Bowie foi até o microfone: “Só... posso... dizer... cinco... palavras?” E foi embora.

67.Aniversário de 50 anos no Madison Square Garden
Se você acha que comemorar o aniversário no Madison Square Garden é privilégio de presidentes americanos (JFK comemorou seus 45 anos lá, ocasião em que Marilyn Monroe cantou sua famosa versão de ‘Parabéns a você), pode esquecer. Bowie comemorou seus 50 anos no show ‘A Very Special Birthday Celebration’, apresentação que contou com a participação do Foo Fighters, Smashing Pumpkins, The Cure, Lou Reed, Placebo e Sonic Youth, entre outros.

68.Personagem de filme
Bowie não brilhou nas telas apenas como ator, mas também como personagem no filme ‘Velvet Goldmine’, de 1998. Apesar de não poder usar as músicas de Bowie, o diretor Todd Haynes (que depois faria um filme sobre Bob Dylan, ‘Não Estou Lá`) afirmou que a história foi inspirada no canto e na cena glam dos anos 1970. O ator Jonathan Rhys Myers (‘Match Point’) faz o papel de Bowie; Toni Collete (‘Sexto Sentido’) é Angie, e Ewan McGregor (‘Guerra nas Estrelas’) interpreta uma mistura de Lou Reed e Iggy Pop.

69.Bowie recusou convite para cantar na Olimpíada
Apesar de saber que sua canção ‘Heroes’ havia sido escolhida como o hino não-oficial dos atletas ingleses, Bowie recusou convite para cantar na cerimônia de encerramento da Olimpíada de Londres. Sua presença representaria ‘o estilo e a moda’ da Inglaterra, mas os fãs tiveram que se contentar com um desfile de Kate Moss e Naomi Campbell ao som de sua canção ‘Fashion’. Não foi a primeira vez que ele virou as costas para a Inglaterra: em 2003, recusou o título de ‘Sir’ que lhe seria entregue pela rainha.

70. Documentário da BBC vai mostrar os últimos anos de Bowie
A emissora estatal britânica anunciou que ainda este mês exibirá um material "raro e inédito com vídeos e entrevistas" sobre os últimos cinco anos de Bowie, inclusive o vocal inédito que Bowie teria gravado para sua última gravação, a canção 'Lazarus'.

 

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Baile dos Monstros: Há algo especial sobre Lady Gaga

unicornia Baile dos Monstros: Há algo especial sobre Lady Gaga

Uma bela unicórnia deixou o mundo dos sonhos para ver o show de Lady Gaga

 

“Você por aqui???”

A reação das três simpáticas fãs do Viper que me encontraram na pista do show da Lady Gaga era até esperada. Diante da surpresa delas, no entanto, eu poderia responder devolvendo a pergunta: “e vocês, fãs do Viper, estão fazendo o quê aqui?”

Claro que foi um encontro ótimo, até acabamos assistindo um pouco do show juntos. Mas entendo perfeitamente essa dúvida: o que um cara que gosta de heavy metal estaria fazendo no show mais pop do planeta?

Em primeiro lugar, hoje em dia gosto de (quase) todos os estilos de música. E estava com uma enorme curiosidade de ver esse circo todo da Gaga de perto, para ver se ela realmente 'entregava' o hype prometido. Mas é claro que se esse show acontecesse nos anos 80, eu provavelmente não apenas não compareceria, como ainda pensaria em instalar algum tipo de artefato explosivo no palco. Ainda bem que a gente cresce.

A primeira vez que prestei atenção em Lady Gaga foi em uma situação bastante inusitada. Em 2009, eu estava em Nova York para uma palestra quando descobri que o U2 e uns amigos (entre eles Gavin Friday, do Virgin Prunes, inclusive) estavam organizando um show beneficente com renda revertida para a fundação RED, do Bono, para pesquisas sobre a Aids. Era um megashow no elegante Carnegie Hall, com participação do Lou Reed, Courtney Love, Scarlett Johansson (sim, além de tudo ela ainda canta) e Rufus Wainright, entre outros.

Por incrível que pareça, no entanto, quem mais me chamou a atenção não foi nenhum desses pesos pesados da música internacional. Foi uma garota muito louca de nome mais esquisito ainda: uma cantora chamada Lady Gaga. Não preciso nem dizer que, na época, ela não era muito conhecida.

Eu nunca tinha prestado atenção em Lady Gaga, até porque achava seus figurinos (e penteados) ridículos. Até essa noite, claro. A plateia recebeu Lady Gaga com risinhos, até porque não é sempre que uma loiraça platinada entra no sisudo palco do Carnegie Hall usando biquíni vermelho, saltos plataforma e óculos escuros. Mas esse desdém do público durou apenas alguns segundos: Lady Gaga sentou no piano, ajeitou o microfone e… mandou ver.

Não acreditei que ela pudesse cantar tão bem, muito menos tocar piano daquela maneira. Achava que Gaga era apenas mais uma espécie de ‘nova Madonna’, uma dançarina que cantava somente o suficiente para justificar turnês baseadas em coreografias provocantes. Mas me enganei: Lady Gaga destruiu o Carnegie Hall e, pouco depois dos primeiros acordes, as pessoas se levantaram para aplaudi-la – o que, diga-se de passagem, não aconteceu nem com o mestre Lou Reed.

Desde então passei a prestar atenção nessa artista, e passei a ver que ela era muito mais do que uma Madonna ‘on crack’. Havia uma linguagem ali que era perfeita do ponto de vista do marketing, mas que também tinha uma dose de talento para se sustentar – do contrário, desmancharia como um castelo de cartas. Não, não era o caso. Gaga era especial.

Só depois de ouvi-la em versão acústica é que fui ouvir as canções do disco ‘Fame Monster’, primeiro dos dois discos que ela lançou. Fala sério, dois discos? A mulher faz um barulho desses no mundo, toca em estádios e... tem apenas dois discos lançados? Pois é.

As músicas ‘Just Dance’, ‘Pokerface’, ‘Bad Romance’, entre outras, eram músicas simples, sem nada de original. Mas eram pérolas pop, grudentas, perfeitas para as pistas de dança e para as paradas de rádio. "É isso!", pensei. A Ga-Garota descobriu a fórmula para fazer sucesso na era da pós-pós-pós-modernidade. Lembrando que Lady Gaga tinha 23 anos quando lançou o disco de estreia. Difícil se tornar tão poderosa aos 23. Mas acho que esse poder jovem é uma marca do nosso tempo. Diante disso, podemos dizer que Gaga é o Mark Zuckerberg da música pop: Um fenômeno precoce.

Somava-se a esse som pop um visual meticulosamente criado para chocar: vestido de carne, chapéus muito loucos, sapatos-arranha-céu, etc. Se Madonna é barroca, Lady Gaga é rococó - até porque hoje tudo é mais rápido e exagerado. em seu auge, Madonna se reinventava a cada disco; Gaga se reinventa a cada dia. Só que é bom ter cuidado para o excesso não cansar: eu não me surpreenderia se ela aparecesse vestida com roupas ‘normais’ no próximo disco. Afinal, 'menos com menos dá mais'.

Logo que cheguei ao Morumbi, vi a estrutura gigantesca que é o palco da turnê 'Monster Ball' (Baile dos Monstros).

Mas, antes dos detalhes sórdidos sobre o show em si, uma palavrinha sobre as bandas de abertura.

O show começou com uma performance patética da ‘DJ’ (entre aspas, mesmo) Lady Starlight, cujo maior talento é conseguir usar lentes de contato bizarras. Sua performance não mereceria nem ser citada, mas se eu deixasse pra lá eu também não poderia tirar um barato dela. Resumindo o show da Lady Starlight: ela entra no palco de máscara vestindo um figurino de vinil preto e fica parada olhando para a plateia. Daí ela sai e volta vestindo outra roupa. Uau! Daí ela tira a máscara e debaixo da máscara... tem outra máscara! Genial! Nunca antes na história desse país alguém fez uma apresentação tão maravilhosa! E para terminar, a mulher volta vestida de múmia e começa a cuspir sangue. Sério? Tipo assim... 'halloween'?

Então a Lady Starlight tira a máscara e revela toda sua... feiúra. Nos olhos, lentes de contato horripilantes, a lente esquerda, inteira branca; a direita, preta, cobrindo o olho inteiro. Daí a 'artista' pega uma garrafa de whisky Jack Daniels e começa a tomar no gargalo. Alguns goles depois, ela cai bêbada no chão. Os seguranças entram e a carregam para o camarim. Fim.

Pouco depois entra o primeiro show de verdade da noite, já que Lady Starlight só está na turnê porque é amiga de Lady Gaga (uma pessoa tão esquisita só podia ser amiga dela) desde a época em que Gaga era apenas Stephanie Germanotta, uma esquisita e ambiciosa garota italiana metida a cantora em Nova York.

Entram no palco os ingleses da banda de hard rock Darkness. Quando o Darkness surgiu no cenário, achei que era apenas uma banda que satirizava os roqueiros, mais ou menos como o Bad English ou o Spinal Tap. No primeiro disco eles eram tão caricatos, tão divertidamente cheios de clichês, que não cheguei a levá-los a sério. Mas eu estava errado: o Darkness acabou provando que era uma banda de verdade, consistente e com boas canções.

Pería, mas o que uma banda de hard rock estava fazendo abrindo o show da Lady Gaga? Veremos.

Nem todo mundo sabe, mas Lady Gaga adora rock pesado. Ela é fã declarada do Iron Maiden, entre outros ídolos. Foi por isso que ela escolheu o Darkness: eles tocam  'Glam Metal', se é que existe o termo (e, se não existe, acaba de ser criado. Se quiser citá-lo em outros lugares, por favor me avise para eu mandar a conta de direitos autorais. Ha.)

Na noite de ontem, infelizmente, o Darkness dos irmãos Justin (outro cara esquisitão) e Dan Hawkins entrou no palco no exato momento que uma chuva torrencial desabou sobre o Morumbi. Isso prejudicou um pouco o show deles, mas deu para ver que a banda é boa de palco. Mesmo assim, é difícil cantar ‘I Believe in a Thing Called Love’ dentro de uma daquelas capas de chuva vagabundas de plástico. Agora eu sei como um pinto se sente dentro de uma camisinha, e posso dizer, não é uma sensação muito agradável.

Quarenta minutos depois, cai o pano que cobre o cenário de Lady Gaga: uau, um castelo medieval! Legal, agora vamos ver o que Gaga vai fazer com ele. As luzes se apagam e ela entra como uma rainha: montada em um cavalo negro, com sua trupe empunhando bandeiras e marchando como se fossem um exército lutando para proteger a nova rainha do pop.

Por falar em rainha pop, a comparação com Madonna é evidente, assim como é evidente que comparar uma artista de 52 anos com uma de 26 é covardia. Tudo bem, vai, Madonna ainda está em plena forma, mas convenhamos que ela é uma mulher de 52 anos. Lady Gaga tem a garra e a fome de uma garota de 26. Pode-se gostar mais da música de uma do que da música da outra, mas não há como negar que a energia e a garra está do lado da mais jovem – é uma constatação biológica, não artística.

É aí também que podemos ouvir o coro altíssimo dos fãs de Lady Gaga. Fãs, não, seguidores. Seguidores, não, discípulos. Gaga tem uma relação muito interessante com os fãs, algo que nenhum artista da atualidade conseguiu estabelecer com tanta propriedade. Para eles, Gaga não é apenas uma cantora, mas uma líder espiritual. Mais que isso: uma líder religiosa, eu diria. Porque a liberdade é um conceito pelo qual há pessoas que dariam a vida, e se isso não é um componente básico da religião, então eu não sei o que é.

As letras do disco ‘Born This Way’ são libertadoras no sentido mais colorido da modernidade, se é que você me entende. ‘Nascido Desse Jeito’, ou seja, não importa como você é, Lady Gaga te aceita. E, mais importante que isso, VOCÊ deve se aceitar. Porque Lady Gaga É você, como ela diz no meio do show (parece ou não parece um discurso religioso?). Pode parecer simples, mas a mensagem é bem mais profunda.

Gaga é roqueira até nesse sentido: ela pega uma bandeira que sempre foi do rock (roqueiros sempre foram ‘excluídos’, outsiders da sociedade) e adapta o conceito aos ‘little monsters’, como são chamados seus fãs. Ela não apenas os aceita  do jeito que são, como os acolhe sob suas asas; ela percebeu que grande parte da sociedade não é formada por 'winners'. Faltava, portanto, um porta-voz para os 'loosers', mas não um porta-voz nos moldes de um geek (como eles mesmos). Era preciso ser uma porta-voz poderosa, glamourosa, vomitando em alto som para o mundo que ser diferente é OK. Esse sentimento é muito presente na plateia: há muitos gays, claro, mas não só isso. Há pessoas vestidas de padre, há outras garotas seminuas. Há ainda gente pintada de caveira, outras vestidas de unicórnio, símbolo usado por Gaga em peças promocionais. Ou seja: no show da Lady Gaga é permitido você ser não apenas quem você é, mas quem você gostaria de ser. No 'Baile dos Monstros' é aceitável projetar a idealização do seu 'eu', mesmo que o resto do mundo ache ridículo.

O termo ‘inclusão social’ está meio desgastado e talvez não se aplique aqui, mas certamente o que acontece com Gaga é que ela promove uma ‘inclusão cultural’, como líder de um movimento que diz que você pode ser gay, mas também pode ser feio se for o caso, já que todo feio esconde uma pessoa bonita por dentro. Novamente, volto a dizer que parece simples, mas não é. Ou melhor, é tão simples que nunca ninguém conseguiu fazer. Ou conseguiu com menos profissionalismo, como no caso do conceito punk de 'do it yourself', entre outros.

Gaga incentiva o alter-ego, os avatares de seus fãs. E, com isso, surge como a líder dessa bizarra turma de adolescentes e jovens adultos que começam a ver que é mais divertido ser fã de uma celebridade 'igual' do que tornar-se um 'winner' em uma sociedade repressora e consumista. Em meio a tudo isso, ironicamente, Gaga lançou uma rede social exclusiva para seus fãs, apostou em uma linha de perfumes (‘Fame Monster’), criou a agência de estilo ‘Haus of Gaga’, e ainda se tornou diretora criativa da Polaroid. Ou seja, pode ser tudo planejado, mas nenhum desses objetivos seria atingido se não existisse uma coisa muito simples: a música.

É aí que o negócio fica artisticamente mais consistente e, paradoxalmente, mais divertido. Uma louca vestindo roupas malucas e sapatos ridículos é uma coisa; uma Midas vestindo roupas malucas, sapatos ridículos e transformando em ouro tudo o que ela toca é outra. Aos 26 anos, Gaga mostra uma incrível maturidade. E ainda consegue ser espontânea, mesmo com toda a preocupação/obsessão com a imagem. Enquanto velhos rockstars blasés aparecem durante dez segundos na varada do hotel com caras de poucos amigos, Gaga estende faixas (‘I love Rio’), acena várias vezes para os fãs, aparece seminua, manda servir sanduíches e pede pizzas para os 'monstrinhos' não fiquem com fome. No Rio, saiu do Hotel Fasano, pegou carona com um moto-táxi e subiu a favela, para jogar bola descalça com os favelados. Daí tatuou a palavra ‘Rio’ na nuca, e disse que essa viagem mudou sua vida. Em São Paulo, passou uma noite na boate Romanza, rodeada por garotas de programas e vendo shows de pole dancing. Mentira? Verdade? Marketing? Não saberemos nunca. Pouco importa. O que importa é "o que os fãs acham dela".

Numa entrevista recente para o Fantástico, Gaga se mostrou obcecada pela imagem perfeita e excessivamente controladora. E alguém tinha alguma dúvida? Ela nunca teria chegado aonde chegou sem uma enorme preocupação com o seu visual. Para criá-lo, foram várias referências: filmes de terror B, heavy metal (ela é fã do Iron Maiden, como já citei), criaturas do artista suíço H.R. Giger, Madonna, S&M e cultura pop em geral. Gaga é tudo isso, mas também não é nada disso, já que o sólido transforma-se em estéril, e o choque pelo choque não tem nenhum objetivo de provocar terror. A história se repete primeiro como farsa e depois como comédia, e com ela não é diferente. O que impressiona é uma garota de 26 anos entender isso e saber usar com tanta competência a favor de sua carreira. Mesmo o sexo, mostrado à exaustão, não excita; é puramente visual. Lady Gaga é a versão musical de uma mistura de 'Cinquenta Tons de Cinza' com Boris Karloff.

Agora, para quem gosta de pop, a música é ótima. Há vários hits cantados em uníssono pelos ‘little monsters’ (ouvir o estádio inteiro cantando ‘Bad Romance’ foi arrepiante) e o mais interessante é que Lady Gaga não parece dublar sua voz, diferentemente do que acontece com Madonna e Britney Spears, ou outras artistas que dançam enquanto cantam. Há backing vocals gravados, claro, assim como há loops e batidas eletrônicas. Mas o microfone dela parece estar ligado o tempo inteiro, o que dá para ver inclusive pela quantidade de vezes que ela improvisa em cima das canções ou grita ‘São Paulo, Brazil!’.

By the way, Gaga pareceu mesmo ter se apaixonado pelo Brasil – ou eu fui mais um dos enganados pela marqueteira mais famosa do mundo. Sim, não há dúvida que ela é uma das mulheres mais poderosas do mundo. De acordo com revista Forbes, inclusive, os US$ 52 milhões que ela ganhou no ano passado a transformaram na 14º mulher mais poderosa do mundo no ranking que teve Hillary Clinton em primeiro, Angela Merkel em segundo e Dilma Rousseff em terceiro. E, para provar que o seu discurso de 'inclusão cultural' (o termo é meu) não é apenas marketing, Gaga criou a Born This Way Foundation em parceria com a Universidade de Harvard, para financiar projetos educacionais alternativos.

Apesar do repertório pop, outra coisa que chama a atenção no show de Lady Gaga é que seu som ao vivo é bem mais pesado do que no disco, onde há basicamente batidas eletrônicas e versões remix para as pistas. Os guitarristas Ricky Tillo e Kareem ‘Jesus’ detonam suas Les Pauls cheias de distorção, mas o melhor da banda é o baterista George ‘Spanky’ McCurdy, que abusa das viradas e até dos dois bumbos em algumas passagens. Isso cria uma pegada mais rock dentro de um show totalmente pop, o que conceitualmente é razoavelmente original. O visual do castelo medieval deixa tudo ainda mais ‘metal’, ainda mais quando o baterista aparece tocando nas masmorras e Lady Gaga canta uma ou outra música em cima de uma moto (Rob Halford, anybody?). Não lembro direito, mas acho inclusive que ela toca 'Judas'...

Tem também a parte populista do show, quando Gaga pede para três ‘little monsters’ subirem no palco para acompanhar uma canção ao lado dela no piano. É claro que as duas garotas e o garoto (pelo menos o cara nasceu garoto, se é que você me entende – e não que haja nada de errado com isso) entram em êxtase. Alguém que foi preterido na plateia deve ter ficado bravo, porque jogou um objeto no rosto de Lady Gaga nesse exato momento. O estádio ensaiou um coro de ‘filho da puta, filho da puta...’ mas a própria Gaga tomou uma atitude que mais uma vez me surpreendeu: enquanto o Axl Rose ameaça sair do palco a cada papelzinho que jogam nele, Gaga mandou o público parar de vaiar porque ela estava bem, não tinha acontecido nada de mais. Em tempos de estrelismo exacerbado, é no mínimo interessante ver uma garota com tanto bom senso diante de 50 mil pessoas. E o coro parou.

Gaga foi vez para o piano e detonou uma versão acústica de ‘Hair’, uma de suas poucas letras, digamos, ‘inteligentes’. O refrão diz ‘I am my hair’, outra vez uma ideia simples porém poderosa. Pense bem, é uma verdade tosca e simples dizer que 'nós somos o nosso cabelo'. Que nosso cabelo representa culturalmente a que tribo pertencemos, etc. Claro que é uma metonímia em relação à nossa personalidade, mas é só reparar na importância do cabelo na história da cultura popular para entender que há mais significados na frase “I am my hair’ do que imagina a nossa vã filosofia.

Depois de ‘Hair’, Gaga cantou ‘You and I’, uma baladona à la Elton John onde ela realmente solta a voz. E daí eu me vi de volta àquela noite no Carnegie Hall, quando ela chamou a minha atenção em meio a pesos muito mais pesados da música mundial. Ontem eu tive exatamente a mesma impressão que em 2009: há alguma coisa sobre Lady Gaga que não se explica com palavras, há alguma coisa sobre os grandes artistas que a gente não consegue definir. Talvez seja exatamente esta a maneira de reconhecer os grandes artistas. Aos 26, Lady Gaga já entrou para mais essa lista.

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Não é de hoje que os shows deixaram de ser apenas uma série de shows musicais com barraquinhas de cachorro-quente e cerveja em copo de plástico. Pensando bem, acho que isso não acontece desde 15 de agosto de 1969, quando a 'Feira de Artes e Música de Woodstock’ provou ao mundo que um bom nome e um hype maior ainda atraem mais gente do que (quase) qualquer nome do rock & roll.

Hoje em dia há vários exemplos. Talvez o mais conhecido mundialmente seja o Lolapallooza, além do próprio Woodstock (“a história se repete, na primeira vez como tragédia, na segunda como farsa”, já dizia Karl Marx, um conceito que cairia como uma luva no revival-non-sense-marqueteiro do uso da marca Woodstock).

Mas no Brasil, além do Lolapallooza, provavelmente o maior festival seja o Planeta Terra, que reúne grandes nomes da música pop e rock em São Paulo desde 2007. Depois de duas edições no Playcenter, o festival mudou-se para o Jockey Club, por coincidência ou não, o mesmo local onde acontece o Lolapallooza. E a escolha não poderia ser melhor: o Jockey é o hoje o melhor lugar para shows deste porte na cidade. O Terra é um festival de música, mas também é muito mais que isso. Incorpora o conceito de sustentabilidade, que norteia 11 entre 10 departamentos de marketing da atualidade, além de lojas (Mercado Mundo Mix, entre outras), bolsões de reciclagem, área VIP cheia de globais, etc.

O Planeta Terra já trouxe ao país nomes como Smashing Pumpkins, Iggy Pop, Bloc Party, Devo, Kaiser Chiefs e muitos outros. Mas como acontece desde Woodstock, o festival em si tornou-se maior que seus artistas. Uma prova disso é que os ingressos se esgotaram antes mesmo de as atrações principais serem anunciadas.

Isso é ruim? Isso é bom? Nem ruim, nem bom. Ou, pensando melhor, é bom, sim. É uma prova de que o público confia na curadoria da equipe do Terra e acredita que o festival seria de qualquer maneira “uma excelente balada”. Coloquei o termo entre aspas porque, para muita gente, é isso que o festival representa: uma grande balada. É claro que não está tão longe da realidade assim, principalmente para quem pode acompanhar os shows da área VIP ou para quem vai numa turma grande de amigos para se divertir, sem se importar muito com quem está no palco. O festival serve para isso também, sem problema algum. Mas para alguém fanático por música como eu, a qualidade do line-up (lista de artistas) é realmente o que importa. Por isso fico feliz em dizer que o Planeta Terra, além de uma grande balada, teve um line-up de peso - apesar de alguns nomes não terem um imenso apelo midiático/radiofônico no Brasil. Volto a dizer: nesse caso, sem julgamento do que isso significa, o festival é maior que seus artistas.

(Ufa! Finalmente vamos falar de música, ainda mais depois dessa longa discussão sociológica sobre a importância quântica dos festivais de rock. Desculpe, mas eu precisava fazer essa introdução para contextualizar o termo ‘festival’ E desculpe de novo por usar uma palavra tão cabeça quanto ‘contextualizar’. Ops.)

Em festivais longos como o Planeta Terra, confesso que não tenho mais paciência (nem capacidade física) de acompanhar todos os shows, desde o início das apresentações. Portanto, tenho que ser sincero e reconhecer que não vi os shows dos artistas brasileiros. Perdi a apresentação da Mallu, aquela cantora que um dia já foi ‘Mallu Magalhães’. Engraçado, há algum tempo pensei que ela passaria a usar o sobrenome do marido, Marcelo Camelo, mas daí reconheço que ela fez em bem em não fazer isso: Mallu Camelo soaria meio estranho. E como ela é uma artista mais voltada para o público teen – e o público teen não gosta muito de escrever, né? -, acho que fez certo ao tirar o ‘Magalhães’. ‘Ma-ga-lhães’ é muito longo, né? Entre o mais velhos, o único risco é ser confundida com a atriz Malu Mader. Foi o que pensei quando vi 'Mallu' na lista de artistas. "Ué, a Malu Mader virou cantora?"

Parece que tirar o sobrenome não deu muita sorte: a minimalista Mallu teve problemas técnicos e até chorou durante o show. Pena.

Também não vi o projeto Madrid, projeto do ex-Cansei de Ser Sexy (CSS) Adriano Cintra e da ex-Bonde do Rolê Marina Vello.

(Ué, quando o cara saiu do Cansei de Ser Sexy, ele não deveria ter formado uma banda chamada “Cansei do Cansei de Ser Sexy” (CCSS)? Não entendo esse pessoal moderninho.)

Só para citar todos os brasileiros que eu não vi, eu também não vi a Banda Uó. Mas li em algum lugar que eles tocaram o cover de ‘Gangnam Style’, aquele clipe idiota do cantor de óculos escuros sul-coreano que bateu recordes no YouTube. Se eu tivesse lá, teria gritado ‘Toca Raul!’ Na minha época, os covers tinham algo chamado 'dignidade'. Traduzindo para o bom português: Não era qualquer merda que merecia um cover.

Tenho que confessar que também não vi o Best Coast no Main Stage, nem o The Maccabees no palco Indie. Como várias pessoas, fiquei com medo de tomar chuva e cheguei ao Terra apenas às 18h, porque não queria perder uma das minhas bandas favoritas: Suede.

Uma palavrinha sobre o Suede, apenas para ‘contextualizar’ (pelo jeito essa palavra está na moda neste blog) o show da banda. Antes de Oasis, Blur e Radiohead, o Suede foi a primeira banda a despontar com o chamado ‘Britpop’, estilo que conquistou o mundo nos anos 90 a partir da Inglaterra. O Suede, inclusive, foi a primeira banda a ganhar a capa do famoso jornal musical New Musical Express (NME) antes mesmo de lançar o primeiro CD – a demo já era boa demais para ser ignorada.

O Suede nasceu como fruto da tradicional e perfeita parceria vocal-guitarrista que sempre marcou a história do rock: Plant/Page (Led Zeppelin), Jagger/Richards (Rolling Stones), Daltrey/Townshend (The Who), Bono/Edge (U2), Morrissey/Marr (The Smithes)... enfim, eu poderia ficar aqui anos citando essas duplas maravilhosas. Pois o Suede pegou o cetro abandonado após o fim dos Smiths, inclusive em termos estilísticos: o cantor andrógino Brett Anderson e o guitarrista magrinho e talentoso Bernard Butler surgiram para ressuscitar o glam rock e fizeram isso com talento indiscutível. Algo como um David Bowie/Mick Ronson do pós-punk, se os fãs me permitirem a comparação.

Com o sucesso de Oasis, Blur e Radiohead, o Suede foi ficando um pouco para trás, talvez justamente porque não brigavam pelos tabloides (Oasis X Blur) nem compunham trilha sonora para nerds extraterrestres (Radiohead). Na minha opinião, o Suede foi a melhor banda do Britpop. Mas é claro que esse é o meu gosto pessoal, uma vez que não chegaram ao megaestrelato em nenhum lugar além da Inglaterra, onde se tornaram uma gigantesca... banda cult.

Como gosto e conheço bem todos os discos, fiquei colado no palco para acompanhar tudo bem de pertinho. Suede entrou no palco e... fiquei um pouco decepcionado ao constatar que o guitarrista Bernard Butler não veio para o Brasil. Entre idas e vindas da banda, achei que ele estivesse de volta. Mas quem veio foi Richard Oakes, também muito bom, que entrou no lugar de Butler há muitos anos. Ganhou uns quilinhos a mais desde o disco 'Coming 'Up', e agora está a cara do ator Stephen Fry. Mas tudo bem. Para minha felicidade, Oakes tocou os arranjos de Butler exatamente iguais. E o cara tem uma coleção de guitarras que deixou impressionado.

O vocal Brett Anderson estava o capeta. Pulando, chutando ventiladores, dando socos em direção às câmeras, descendo na plateia e cantando em meio ao público... resumindo, ele estava ótimo. Canta muito bem e provou que sempre foi o melhor frontman do Britpop, tanto em relação à voz quanto à postura de palco (desculpe, mas acho aquele jeitão desencanado do Liam Gallagher um saco).

Tocaram canções de todos os discos ('Suede', 'Dog Man Star', 'Coming Up', 'Head Music' e 'New Morning'), além de uma ou duas de ‘Sci-Fi Lullabies’ (CD duplo que só traz lados-B da banda, conceito que só fazia sentido quando os singles eram lançados em LP e tinham um ‘lado B’.) O show foi incrível e só me deixou com uma pergunta no ar... por que essa banda nunca tinha tocado no Brasil? Incrível demorar tanto para ver um show como esse. 'Animal Nitrate' está na lista de melhores canções pop dos anos 90. E 'Beautiful Ones' tem um dos melhores riffs de guitarra que eu já. Se me permitem o trocadilho, mesmo no Terra, o riff não é deste planeta.

Depois de cantar o 'lá lá lá lá' de 'Beautiful Ones', saí correndo para tentar ver um pouco da rapper Azealia Banks, no palco Indie. Peguei só final, mas achei, digamos... interessante. Amigos que encontrei disseram que foi muito curto, mas não deu tempo de eu julgar. Ela estava com uma roupa tão esquisita que deve ter demorado mais tempo no camarim do que no palco, mas tudo bem.

Uma cerveja depois, corri de volta para o palco principal porque queria ver outra banda bem legal dos anos 90 que nunca tinha vindo ao Brasil: o Garbage, que de lixo só tem o nome.

Todo mundo só presta atenção na beleza e atitude da vocalista-ruivinha-pin-up Shirley Manson, mas a grande força criativa da banda é o baterista Butch Vig. Não sabe quem é? Então dá uma olhada nos créditos do disco ‘Nevermind’, do Nirvana, e você vai ver. Ele é ‘apenas’ o produtor do disco, o cara que transformou o som do Nirvana em algo mais palatável e, por consequência, revolucionou o rock & roll no mesmo nível que os Sex Pistols haviam revolucionado quase duas décadas antes.

Butch Vig, inclusive, toca bateria de uma maneira muito parecida (em termos de estilo como instrumentista, não em relação ao estilo musical) com Dave Grohl, baterista do Nirvana. Quem influenciou quem? Vai saber.

O Garbage tocou os grandes sucessos do seu disco de estreia, de 1993. Entre eles, ‘Queer’ e ‘I’m Only Happy When it Rains’ (título ótimo, aliás, não?). As músicas novas também são boas, mas não chegam aos pés. Por falar em pés, Shirley Manson entrou no palco de salto super-alto e roupa ultra-fashion. Estava tão afetada que não empolgou tanto a galera no início. Vamos combinar, não dá para cantar com garra para 30 mil pessoas pisando leve com salto agulha, né? Aí ela tirou o sapato, ficou descalça e o show melhorou um pouco. Não é uma grande voz, mas tem carisma e as pessoas são atraídas por sua aura. Sempre imaginei que ela daria uma ótima atriz, não sei por quê. Acho que Shirley Manson tem aquilo que na velha Hollywood dos anos 20 os produtores chamavam de ‘The Face’.

Como fiquei me divertindo ao som do Garbage, perdi o show do The Drums. Explico: os palcos eram bem distantes um do outro, tive que me render ao cansaço para recarregar as energias. Afinal, eu tinha que guardar um pouco para poder dançar no final durante o show do Gossip (até parece que eu danço muito).

Kings of Leon é uma banda perfeita para um festival como este: os caras têm vários hits, pedem para a galera cantar, batem palmas, são bonitões, etc. Mas alguma coisa não me desce bem em relação a esta banda. Acho que sei o que é: o primeiro disco dos caras trouxe um rock setentista, com voz rouca e guitarras de personalidade. Alguns discos depois, vi um clipe dos caras e achei que era gozação: os barbudinhos haviam virado praticamente uma boy’s band! Bem, quem sou eu para discutir? Eles estão milionários, cada um casou uma modelo da Victoria Secret, estão tocando para multidões... quem quer saber de guitarras com personalidade? Só eu, pelo jeito.

Em meio a toda essa minha raiva (leia-se invejinha), corri para ver o show do Gossip, já que todos os meus amigos ‘mudérrnos’ garantiam que eu não podia perder. E realmente achei legal: a vocalista Beth Ditto parece aquela gordinha que era sua melhor amiga na classe do colégio, sabe? Aquela que era super gente fina e engraçada? Pois é. A Beth Ditto é gordinha e engraçada. Lésbica e meio bêbada, mas bem divertida. Parecia que estava na sala de estar cantando para os amigos na festa de aniversário da namorada. Se não fosse o clima 'palco na sala', provavelmente ela não teria cantado um trecho daquele maldito ‘oi-oi-oi’, trilha sonora da novela que acabou um dia antes (graças a deus). A Beth cantou até cover de ‘Bad Romance’, da Lady Gaga! O som da banda é divertido - pelo menos várias garotas que estavam na minha frente dançaram do início ao fim. Juro que só fiquei olhando.

Fim de festival. Ai ai ai, essa é a pior parte. Por incrível que possa parecer, a saída do Jockey estava bem organizada e pouco depois eu e meu brother Eduardo Collaço já estávamos em um táxi, entrando na ‘órbita’ da minha casa.

‘Ground control to Major Tom’... Quando é o próximo Planeta Terra mesmo?

 

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Motley Crue: Sexo, drogas, rock & roll e… um toque de delineador

MotleyCrue Motley Crue: Sexo, drogas, rock & roll e... um toque de delineador
Motley Crue na época do disco 'Shout at the Devil', no início dos anos 80
No início dos anos 80, os adolescentes que gostavam de rock tinham uma opção: gostar de heavy metal ou não. Ao longo da década, essa opção começou a ficar mais complexa e específica. Não bastava gostar do estilo, a gente tinha que escolher entre as diversas subdivisões que começaram a aparecer. Metallica e Exodus eram considerados Thrash Metal; Slayer podia ser classificado com Speed Metal, mas também tinha um quê de Black Metal, assim como o Venom. As bandas de Black Metal mais lentas passaram a ser chamadas de Doom Metal, assim como as que misturavam influências punk eram chamadas de Hardcore Metal... e por aí vai.
Havia uma turminha, no entanto, que era meio malvista por todos esses headbangers: os posers. O termo vem de 'pose' mesmo, porque os caras adoravam posar para fotos usando maquiagem, cabelos superproduzidos, unhas pintadas e roupas cheias de trapos coloridos. Eles não eram gays, ao contrário do que os outros metalheads acusavam; eram apenas uma tribo influenciada por uma mistura de rock pesado e glam rock, característica que vinha de bandas como T. Rex e New York Dolls. Apesar do visual andrógino em comum, havia também uma subdivisão entre eles.
De um lado, os mais afeminados, como o Poison e Ratt; do outro, os de visual poser, mas com som mais pesadinho e canções com alusões a sexo, drogas e rock and roll. Nenhuma dessas bandas levou esse estilo tão a sério quanto o Motley Crue, banda de Los Angeles formada por quatro estereótipos perfeitos de rockstars.
Vince Neil (vocal), Nikki Sixx (baixo), Tommy Lee (bateria) e Mick Mars (guitarra) eram exagerados. Usavam cabelos espetados e tingidos de cores malucas, roupas de couro no melhor estilo Harley-Davidson, unhas pintadas de preto, lápis nos olhos. Você não ia querer que sua filha saísse com eles. Você não ia querer que sua filha sequer ouvisse os discos dos caras: havia alusões a satanismo, baladas, drogas e orgias. Como já mencionei, eles levavam sexo, drogas e rock & roll a sério. Era um estilo de vida perigoso e divertido.
O estilo poser fazia sucesso em todo o mundo, mas principalmente nos Estados Unidos. O Motley Crue virou fenômeno: vendeu milhões, fez turnês gigantescas. Os caras viraram celebridades: o baterista Tommy Lee se casou com a atriz-Barbie-siliconada Pamela Anderson e os dois viraram o casal 20 do rock & roll. Tiveram até vídeo pornô vazado na internet. Vince Neil também participou de alguns filmes pornô mais tarde, e Nikki Sixx se afundou no Jack Daniels e na heroína. Só não sabemos o que aconteceu com Mick Mars, porque o cara sempre foi muito, muito esquisito. Eu, particularmente, tenho medo dele até hoje.
Esses caras eram tão estrelas nos Estados Unidos que nunca chegaram a pensar em fazer shows no Brasil. Mas isso mudou, finalmente: os posers brasileiros tiveram a chance de ver ontem à noite os seus ídolos ao vivo. O Motley Crue tocou no Credicard Hall para cinco mil fanáticos e outros nem tanto (como eu). Nunca fui tão fã assim da banda, mas tinha uma grande curiosidade em vê-los ao vivo. E confesso que gostei.

Eles já estão longe do auge, o que tem o seu lado positivo. Como não lançaram nenhum disco novo nos últimos anos, o repertório do show foi totalmente baseado em sucessos antigos. E nem eu lembrava que eles tinham tantos hits, o que foi uma ótima surpresa.

O som do Motley Crue é um hard rock pesado, com bons riffs de guitarra e cozinha (baixo-bateria) precisa. Eu achava que o Nikki Sixx era tão louco que nem tocava direito ao vivo, mas vi que o cara é um belo baixista. Ele não inventa, apenas marca o ritmo, mas tem uma presença de palco excelente para um cara de 57 anos. Sim, os doidões já estão meio velhos, mas nem se percebe. Tommy Lee, então, esbanja saúde (não me pergunte como após tantos anos de drogas): o magrelo de corpo inteiro tatuado arranca gritinhos das fãs até hoje. No momento mais 'educativo' do show, Tommy deixou a bateria e foi até a boca do palco para conversar com a plateia. Detalhe: ele abriu uma garrafa de whisky e entregou para os fãs da primeira fila. "Deem um gole e passem para os outros, galera!", gritou o empolgado baterista. Para ter certeza de que os fãs passariam a garrafa adiante, um segurança de dois metros e meio 'acompanhava' a garrafa. Eu acabei recusando o gole por razões óbvias.

Mas isso não reflete totalmente a personalidade de Tommy Lee. Ao lado de sua bateria, vejam só, está um... piano. E é o baterista que toca a introdução de 'Home Sweet Home', uma das baladas mais legais da história do heavy metal. Foi a melhor música do show. Mas não foi a única legal: 'Wild Side' tem um riff incrível, 'Live Wire' me levou de volta à minha adolescência (eu não era poser e ouvia todos os estilos sem preconceito, mas também sem contar para ninguém), 'Shout at the Devil' foi demais, 'Smokin in the Boys Room' também levantou a galera.
Falei de Nikki Sixx e Tommy Lee, mas deixa eu dar uma palavrinha sobre Vince Neil e Mick Mars. Vince, o vocalista, não tem a mesma voz de antes, mas segura bem o show e é bem simpático com a plateia. O que me chamou a atenção foi o nível de inchaço do cara. Ele não está gordo, está realmente muito inchado. E parece muito a versão loira (e muito acima do peso) de um vocalista de heavy metal brasileiro e amigo meu, que não vou mencionar aqui porque pretendo manter a amizade intacta.

Mick Mars é de outro planeta. O guitarrista é estranhíssimo, dizem que sofre de uma doença degenerativa que ninguém sabe explicar. Não sei se é verdade, só sei que no palco ele parece um boneco. Sabe o Frankenstein do Boris Karloff? Agora imagine a versão poser dele. Um Frankenstein de cabelo comprido, maquiagem, chapéu e uma guitarra à tiracolo. É ou não de dar medo? If women are from Venus, Mick Mars is... from Mars.

A plateia deu um show à parte: na música 'Girls Girls Girls', um hino ao sexismo, três garotas atrás de mim começam a dançar de maneira, digamos, 'sensual', com direito à camisa aberta até o umbigo e seios pulando para fora do sutiã. Também não imaginava que a VJ Ellen Jabour era tão fã de heavy metal, só descobri quando a vi dançando do meu lado. Infelizmente, com a camisa fechada e bem mais discreta que o trio de loucas.)

Achei que ia ver mais fãs (homens) de batom e maquiagem, mas foram poucos. Onde estão os posers dos anos 80? Será que todos cresceram e passaram a se vestir como homens? Jogaram fora os trapos coloridos? Isso é um absurdo. De qualquer maneira, foi divertido ver caras que eram Thrash Metal nos anos 80 se amontoando para ver o Motley Crue. Se alguém me dissesse que isso ia acontecer 20 e poucos anos depois, eu não acreditaria. Era todo mundo muito radical naquela época, uma coisa típica da adolescência. Só tem uma coisa que nunca sai de moda: sexo, drogas e rock & roll. E, claro, um pouco de delineador nos olhos, que poser não é de ferro. O Motley Crue que o diga.

 

motley new Motley Crue: Sexo, drogas, rock & roll e... um toque de delineador
Motley Crue hoje em dia: mais na boa, mas ainda selvagens. O guitarrista Mick 'Frankenstein Poser' Mars está sentado na poltrona

 

Motley Crue toca 'Live Wire' no US Festival, em 1983

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Unhas coloridas… pra quê?

unhas Unhas coloridas... pra quê?

Manicure também é artista

Uma manhã dessas eu estava passeando calmamente com meu Pitbull (é mentira, eu tenho um Yorkshire) quando vi minha vizinha andando com os braços meio para cima e as mãos bem abertas. Parecia uma maluca. Quando nos aproximamos, ela deu um pulo para o canto da calçada como se eu tivesse uma doença contagiosa. Foi aí que percebi: ela tinha acabado de fazer as unhas.

Nunca reparei tanto em unhas femininas quanto agora, e isso só pode ser um mau sinal. Já viu a variedade de cores disponíveis no mercado atualmente? Não entendo muito de tendências femininas, mas uma coisa posso garantir: nós, homens, não estamos nem um pouco interessados em unhas de cores exóticas.

Tudo bem, eu sei que mulheres não pintam as unhas para os homens, mas para elas mesmas – para as amigas e, ainda mais, para as inimigas. Mas, de uns tempos para cá, a obsessão por essas cores bizarras passou do limite. É isso aí, minha paciência já acabou: parem de pintar as unhas com cores ridículas ou estejam preparadas para o pior.

“Ah, Felipe, mas azul-limão-rosa-choque-fúcsia é uma cor tão charmosa...” Não, não é. É horrível. Outro dia vi uma garota com as unhas tão amarelas que achei que ela estava com alguma doença africana. Com minha amiga italiana que fala com as mãos, então, não consigo nem mais conversar: fico tão hipnotizado pelas unhas amarelo-canário-pigmeu-de-saturno que não consigo prestar atenção no que ela está falando. Quando reclamo, ela diz que a cor “é o máximo”. Para mim, ela é o “mínimo”.

Em nome dos homens, vou tomar a liberdade de esclarecer as coisas. Nós não queremos unhas pintadas com cores malucas. Vermelho, branco, ‘francesinha’, preto... estava bom assim. Para que mexer em time que está ganhando? Desde o início dos tempos, vocês nunca precisaram usar cores exageradas nas pontas dos dedos para chamar a nossa atenção.

E os nomes das cores, então? São piores ainda. “Vermelho-me-beija”, “rosa-quinta-avenida”, “verde-marciano-pelado” e por aí vai. Já vi até uma mulher com uma unha de cada cor – e juro que não foi no circo!

Então o negócio é o seguinte: vocês vão parar de usar essas cores ridículas ou terão que aguentar as consequências: sim, se isso continuar, vou usar esses esmaltes para colorir... meu bigode. É isso aí. Vocês vão ver. Vou pintar meu bigodinho de ator pornô dos anos 70 de verde-marciano-pelado. Será a minha vingança, ha ha ha! (risada macabra)

Mal espero para ver a cara da minha vizinha.

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Placebo: Eu não troco um bom show de rock por nada

placebo Placebo: Eu não troco um bom show de rock por nada

Brian Molko, Stefan Olsdal e Steve Forrest: sim, são três caras

Mais um fim de semana intenso em São Paulo, com várias opções culturais interessantes... e outras também interessantes, mas não tão culturais assim. Várias opções de baladas, para falar um português claro. No Via Funchal tocou o Social Distortion, show que levaria às lágrimas alguns velhos punks brasileiros – isso, claro, se punks tivessem lágrimas. Agora, se você passou perto do Anhembi no sábado à noite, gostaria de avisar que aquilo que você viu não era um congresso de médicos e enfermeiras: era o pessoal do Skol Sensation, evento de música eletrônica em que o público vai vestido de branco.

Fui a outro show, Placebo, no Credicard Hall. O Placebo é uma banda inglesa formada em 1994, mas que só começou a chamar minha atenção após o lançamento do último disco, ‘Battle for the Sun’. Ouvi tanto esse disco no último volume do meu carro que estava curioso para descobrir como ele soaria cara a cara.

Foi uma excelente escolha: o Placebo ao vivo é muito mais legal e pesadão que no estúdio. Já disse antes aqui que não há nada melhor do que ver uma banda de rock no auge tocando em um belo palco, com bom equipamento e divulgando o repertório de um bom disco. Foi tudo isso que aconteceu no show do Placebo.

A banda liderada pelo esquisitíssimo guitarrista/vocal Brian Molko abusa das guitarras distorcidas, mas está longe de ser considerada heavy metal. Em primeiro lugar graças ao vocal de Molko, que é daqueles arrastados, únicos, do estilo 'ame ou odeie'. Confesso que na primeira vez que ouvi eu odiei, mas que aprendi a gostar e hoje acho bem interessante. É um registro médio, quase nasalado, impreciso, mas que cria uma sonoridade bastante original. Bandas com guitarras pesadas e vocais gritados soam de uma maneira; bandas com guitarras pesadas e vozes guturais soam de outra.

O Placebo está no meio do caminho, com um tipo de som 'andrógino-mucho-macho-sensível'. Não sei se os integrantes da banda são gays (eu apenas suspeito, mas não estou interessado em descobrir), só sei que eles têm uma sexualidade bastante difícil de definir.

Em termos de estilo, imagine se você montasse um power trio com um integrante do Smashing Pumpkins, um do Sisters of Mercy e um dos Smiths: o Placebo é mais ou menos assim. Pena que no show de São Paulo eles não tocaram as versões pesadonas de 'Big Mouth Strikes Again' (Smiths), '20th Century Boy' (T-Rex) ou 'I Feel You' (Depeche Mode). Fica para a próxima.

O Placebo ao vivo, ao contrário do que eu imaginava vendo os clipes, não é apenas um trio. Além de Brian Molko, Stefan Olsdal (baixista/guitarrista) e Steve Forrest (novo na banda e excelente baterista), a banda tem mais dois guitarristas, uma violinista e um tecladista. Ou seja: o som vira uma parede sonora, complementado por bases eletrônicas que adicionam um groove dançante às guitarras. Isso acaba até atenuando a melancolia de algumas das canções, principalmente as antigas, que soam meio deprê. Mas é legal ressaltar que, apesar do visual meio ‘dark’, o Placebo não é uma banda 'emo'. É um glam rock moderno e visceral. Só para se ter uma ideia de como os caras são respeitados lá fora, o maior fã da banda é ninguém mais ninguém menos que David Bowie. Além de parcerias em músicas e convites para abrir sua turnê, Bowie fez questão de convidar pessoalmente o Placebo para tocar em sua festa de 50 anos, no Madison Square Garden, em Nova York, em 1997.

Outra coisa que me chamou a atenção no show foi a qualidade do som. O começo do ano foi marcado por muitos shows em estádios, onde o palco enorme e a animação da galera muitas vezes acaba prevalecendo sobre a perfeição do som. Mas em uma casa fechada como o Credicard Hall o Placebo teve o palco e a plateia (cerca de quatro mil pessoas) perfeitos para o seu som: o volume estava bom, os timbres estavam perfeitos, o vocal estava cristalino. E o cenário estava bem bonito, com um telão alternando a exibição de vídeos 'artísticos' e imagens filmadas em película (simuladas, claro) da banda no palco.

Tenho certeza de que o show do Social Distortion e a balada Skol Sensation foram muito legais. Mas, em pleno sábado à noite, eu não me arrependo de ter trocado punks e eletrônicos por um belo show de uma banda de rock no auge.

Set List

For What it's Worth
Ashtray Heart
Battle for the Sun
Soulmates
Speak in Tongues
Follow the Cops Back Home
Every You Every Me
Special Needs
Breathe Underwater
Julien
The Neverending Why
Bright Lights
Devil in the Details
Meds
Song to Say Goodbye
Special K
The Bitter End

Bis

Trigger Happy
Infra-Red
Taste in Men

Veja o clipe de 'Battle for the Sun':

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