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E o Oscar de Melhor Comediante vai para… Glória Pires

gloria E o Oscar de Melhor Comediante vai para... Glória Pires

Glória Pires comentando o Oscar: ela disse que viu 'a maioria dos filmes'. Aham

O Brasil anda muito estranho, mas tem horas que a picaretagem é tão grande que me surpreende. O culto ao desconhecimento é tão predominante que dizer ‘não sei’ virou sinônimo de ‘sinceridade’, e não de ignorância. E não é um ‘não sei’ com tom de ‘não sei, mas vou descobrir!’ ou ‘não sei, mas vou fazer de tudo para aprender!’. É um ‘não sei’ vagabundo mesmo, preguiçoso, uma desculpa de quinta categoria para uma época em que 'saber' parece ser apenas uma superficialidade desnecessária de quem tem tempo a perder. Imagina que absurdo, tem gente que perde tempo aprendendo alguma coisa, veja só!

Aquela gota que fez a jarra transbordar a minha paciência foi a participação da Glória Pires na transmissão do Oscar na Globo, no último domingo. Sempre fui fã dela como atriz, até confesso que meu sonho sexual durante a adolescência era passar um fim de semana numa ilha deserta com a Ruth e a Raquel, as gêmeas de temperamento e atitude opostas da novela ‘Mulheres de Areia’.

De lá para cá, continuei achando a Glória uma boa atriz, uma mulher interessante, inteligente, talentosa.

O que me deixou estupefato no domingo foi passar horas diante de uma pessoa que não estava nem aí para o trabalho nem para o público. Ela simplesmente ligou o 'F***-se'. Costumo assistir ao Oscar na TNT, porque cinéfilo de verdade assiste em inglês original e de vez em quando coloca em português apenas para se deliciar com os comentários do Rubens Ewald Filho, um cara que entende do que está falando. Rubens representa o contrário do ‘não sei’: o cara sabe tudo, sabe o nome de todos os atores, sabe tudo sobre a carreira deles, sabe contextualizar a produção dos filmes e a época em que foram feitos. Enfim, é um bom profissional.

Glória Pires achou que ia nadar de braçada na cara dura. Ela achou que, para comentar o Oscar, veja só, não precisava ter visto os filmes. Não citou uma única cena de um único filme, assim com não pronunciou o nome de nenhum ator. Para não ser injusto, disse 'com convicção' que ‘Trumbo’ era seu favorito, sem desconfiar que a produção não havia nem sido indicada a Melhor Filme. Peraí, quer dizer que ela não sabia nem quais eram os indicados? Sério?

Como é possível, alguém tratar com tamanho desrespeito o público? Não que a Globo tenha tradicionalmente algum respeito pelo Oscar, cerimônia que a emissora costuma transmitir editada ou a partir da metade, buscando preservar sua interessantíssima dupla na programação formada por Fausto Silva e Fantástico. Programas muito melhores que o Oscar, claro. Muito mais interessantes. Muuuuito, mesmo.

Por um lado, gostei de ver o Oscar na Globo porque nunca ri tanto em uma transmissão. Glória Pires ganhou o Oscar de comediante do ano - infelizmente, um prêmio involuntário. O Oscar na Globo nunca teve tanta audiência: muita gente comentou no Twitter que estava mudando de canal só para poder acompanhar os comentários de Glória. ‘Legal’, ‘bacana’, ‘talentoso’ eram os adjetivos que ela disparava ao vento, para qualquer imagem que aparecesse na tela.

Isso, por si só, já seria um belo atestado de picaretagem. Mas Glória foi além, o que me motivou a escrever este texto. Ela publicou na internet um vídeo se defendendo, dizendo que era uma “pessoa muito séria”. Oi? Uma pessoa muito séria teria visto os filmes, humildemente anotado detalhes, se preparado, estudado as carreiras dos atores, atrizes e diretores. A única coisa séria que ela fez foi gravar um vídeo na varanda de casa, de cabelo molhado, e postar no Facebook.

No vídeo, ela diz que “é sincera” e que viu “a maioria dos filmes”, que apenas não havia visto ‘Divertida Mente’, Oscar de Melhor Animação. Foi o que ela confessou à apresentadora Maria Beltrão. Ela e Artur Xexéo, aliás, devem ter sofrido para não rir diante da colega, que os brindava com comentários profundos como um... deixa para lá. Glória também disse que achou os memes na internet "super interessantes", o que, na prática, significa que provavelmente ela também não viu nenhum deles.

Eu gostaria de saber, então, da Glória: quais filmes você realmente assistiu? Comento todo ano o Oscar e sei como dá trabalho correr atrás para ver os indicados. Mas não reclamo nem um pouco, porque é uma delícia. Peguei sessões duplas, algumas pela manhã, a maioria delas sozinho, só para poder ficar por dentro de tudo e escrever minha opinião.

O resultado do meu trabalho você vê aqui.

Não é nada de mais. É apenas um texto de alguém que se esforçou para escrever algo interessante. E a prova de que o trabalho compensa é que acertei sete dos dez prêmios principais, inclusive Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Sou melhor que os outros críticos? Claro que não. Eu fiz apenas uma coisa simples: eu VI a porra dos filmes.

Antes que você pense em 'mais um linchamento' na internet, quero dizer que isso definitivamente não é um ataque pessoal. É apenas uma crítica à postura da atriz Glória Pires como profissional, o que toda pessoa pública está disposta a receber.

Como se não bastasse a picaretagem do ‘não sei’ e, depois, a do vídeo dizendo que levou tudo no bom humor porque é ‘séria’, Glória Pires agora quer faturar com a própria ignorância. Lançou camisetas de sua loja virtual imortalizando em pano e tinta suas frases épicas, pérolas recentes da filosofia moderna como ‘Eu não sou capaz de opinar”, ‘Sou ruim de previsões” e ‘Eu curti, bacana”. Camisetas a R$ 29,90, tudo devidamente acompanhado pelas hashtags #Sinceridade e #Objetividade.

Sugiro que acrescente mais uma palavra-chave: #Picaretagem. Se ela não é capaz de opinar, por que aceitou o convite da Globo? Ela diz que é ruim de previsões, mas quem disse que o Oscar é uma loteria sem lógica? E como ela pode ter curtido e achado bacana se ela não viu porra nenhuma? E outra coisa, Glória Pires, a hashtag #SomosTodosGloria foi uma ironia.

Sinceramente, mesmo para o Brasil de hoje, lançar uma grife que valoriza a própria ignorância... aí já é ser picareta demais. Até para uma pessoa, digamos, “séria”.

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Em um mundo cada vez mais conectado, Oscar 2016 celebra o isolamento

LeoDiCaprioRegresso Em um mundo cada vez mais conectado, Oscar 2016 celebra o isolamento

Leonardo DiCaprio no ultraviolento 'O Regresso': Provável primeiro Oscar após cinco indicações premiará o sofrimento do ator durante a filmagem

Em maior ou menor escala, os filmes indicados ao Oscar sempre costumam trazer algum tipo de conexão entre si. Não é uma regra rígida, uma vez que essas ligações podem ser apresentadas em graus variados ou, em alguns casos, sem nada a ver um com o outro. Um filme bom é um filme bom, independente do tema que ele aborda. Mas analisando os filmes de maneira geral é possível notar algum tipo de afinidade. No ano passado, por exemplo, tivemos dois temas entre os filmes indicados, um principal e outro secundário: o principal foi a obsessão, retratada em casos como ‘Whiplash’ (bateria), ‘Birdman’ (fama e anonimato), ‘Boyhood’ (tempo); o secundário, a realidade, mostrada em cinebiografias como ‘Sniper Americano’, ‘A Teoria de Tudo’ e ‘Selma’.

Em 2014, já havíamos tido dois temas, que se alternavam entre a condenação aos erros do passado ('12 Anos de Escravidão', 'O Grande Gatsby', 'A Grande Beleza') e a esperança no futuro (‘Gravidade’, 'Ela'). Enfim, cada Oscar reflete um pouco o seu tempo, não apenas porque esses assuntos estão presentes no inconsciente coletivo do zeitgeist, mas porque os grandes artistas são aqueles que percebem isso com antecedência e compartilham, cada uma ao seu estilo, a percepção sobre os temas que a arte cinematográfica deve abordar. Os temas estão no ar, pairando, pairando, até que o artista capta a mensagem e decide interpretá-la.

Não me deixem só

Tudo isso para dizer que identifiquei entre os indicados ao Oscar 2016 um tema que é um verdadeiro paradoxo dos tempos modernos: em meio à época mais conectada da história da humanidade, estamos interessados em histórias sobre... o isolamento. Não apenas o isolamento como fenômeno físico, mas na luta pela sobrevivência que esse isolamento muitas vezes impõe. Os dois casos mais óbvios sobre o tema são ‘O Regresso’, com Leonardo DiCaprio, e ‘Perdido em Marte’, com Matt Damon. Mas há outros, como veremos a seguir.

Nesses dois filmes, ambos os protagonistas lutam para sobreviver em lugares inóspitos e em condições totalmente adversas. Mas há uma diferença em termos de técnica que me levaria a premiar ‘O Regresso’ como Melhor Filme de 2016: a experiência visual que Alejandro Iñarritu nos proporciona. A história do filme não é tão original quanto ‘O Quarto de Jack’, por exemplo, nem o trabalho do elenco é tão afinado e coeso como em ‘Spotlight – Segredos Revelados’. Mas ‘O Regresso’ é disparado uma viagem cinematográfica inigualável entre os competidores, ainda mais em meio a uma safra tão fraca quanto vimos este ano. ‘O Regresso’ é um tour de force como há muito não se via, uma obra corajosa que poucos diretores em Hollywood teriam coragem de levar adiante. A razão para isso é muito simples: o filme em si é uma espécie de 'Apocalypse Now' no meio de montanhas geladas (pós-moderno, ou seja, com água vitaminada no lugar das drogas).

Não foi um mundo recriado pela computação gráfica. Iñarritu, seu elenco e sua equipe tiveram que vivenciar (quase) a mesma experiência vivida por Hugh Glass na tela. Leonardo DiCaprio, indicado pela quinta vez, deve finalmente levar o Oscar. Ele já havia merecido por ‘Lobo de Wall Street’ e até por outros trabalhos anteriores, mas em ‘O Regresso’ o ator sofreu tanto que não premiá-lo seria uma afronta quase pessoal. Não é toda estrela de cinema que topa enfrentar o que Leo enfrentou, como cenas filmadas sob trinta graus negativos, às vezes mergulhando em águas geladas e outros desafios físicos.

Inferno gelado

O que faz de ‘O Regresso’ um filme único é principalmente a paleta de cores usada por Iñarritú em conjunto com seu Diretor de Fotografia, o genial Emmanuel Lubezki. Comecei a prestar atenção nesse cara quando vi ´Árvore da Vida', a obra-prima de Terrence Malick, em 2011. De lá para cá, o mexicano fez apenas 'Gravidade' e 'Birdman', entre outros.

Em 'O Regresso' Lubezki conseguiu se superar. Para alcançar sempre a mesma luz, Lubezki e Iñarritu eram obrigados a filmar pouquíssimas horas por dia – o que gerou um problema na produção que os obrigou a terminar o filme na Patagônia argentina, depois de meses sob o inverno do Canadá, onde a produção iniciou o trabalho. ‘O Regresso’ não é um filme excepcional, mas assisti-lo no cinema e imaginar que aquilo tudo foi filmado em um lugar real, sob as condições que a gente vê na tela, é uma experiência incrível.

Li outro dia um artigo muito interessante da crítica Carole Cadwalladr sobre 'O Regresso' no site do jornal britânico The Guardian. Ela defende que o filme é apenas uma glamourização da brutalidade e da vingança, uma espécie de 'pornografia da violência'. O texto é muito interessante (está em inglês) e vale a pena ler. É um ponto de vista diferente e muito bem fundamentado sobre o prazer que parecemos ter com a realização da vingança. Em alguns aspectos, me remeteu à discussão sobre 'Tropa de Elite' no longínquo ano de 2007. Em uma catarse coletiva escondida pelo anonimato do escurinho do cinema, torcíamos para ver o mocinho não apenas matar o vilão, mas destruí-lo, torturá-lo até a morte. Nada mais atual do que discutir a legitimidade e humanidade da tortura em um mundo onde Donald Trump tem chances reais de se tornar o homem com acesso ao botão vermelho do apocalipse.

CGI, pero no mucho

Outra porrada ultra-agressiva é ‘Mad Max – Estrada da Fúria’, que também segue a temática da luta pela sobrevivência em um ambiente igualmente inóspito e, para piorar, distópico. Apesar de não haver um protagonista completamente isolado, como no caso de ‘O Regresso’ e ‘Perdido em Marte’, 'Mad Max' traz, mais do que isso, uma civilização isolada, um sentimento de todos contra todos que permite ler o filme de acordo com a temática que sugeri na abertura do texto. O visual aqui é igualmente arrebatador: é impossível ficar sentado na cadeira um minuto sequer diante de tanta adrenalina. O que mais gostei em 'Mad Max' foi outra tendência que felizmente vem tomando conta de Hollywood: a redução dos efeitos especiais exageradamente digitais, os famosos ‘CGI’. No lugar disso, houve uma substituição por efeitos igualmente incríveis mas que buscam texturas e ambientes mais vintage, mais ‘analógicos’. ‘Mad Max’ tem muitos efeitos, claro, mas eles se diluem em meio a máquinas de guerra caindo aos pedaços e piratas do futuro. Mais uma distopia hollywoodiana, obrigado.

Se havia dúvidas em relação ao tema do isolamento neste Oscar, ‘O Quarto de Jack’ é a prova final. Ao contrário de ‘O Regresso’ e ‘Perdido em Marte’, no entanto, não há paisagens ou horizontes, apenas a claustrofóbica vida de uma mãe e um filho trancafiados em um quarto. Ironicamente, o nome da personagem principal é ‘Joy’. ‘Joy’, aliás, é o nome de um outro filme sobre isolamento – desta vez um pouco mais metafórico. ‘Joy’ não concorre a Melhor Filme, mas permitiu mais uma vez que Jennifer Lawrence fosse indicada ao Oscar de Melhor Atriz. O filme conta a história da inventora do Mop, aquele modelo de esfregão bastante popular nos Estados Unidos. Antes disso, porém, a personagem Joy nada mais é que uma dona de casa que vive isolada dentro de seu próprio lar. Isolada, mas não sozinha: o filme mostra como alguém pode viver uma existência solitária mesmo convivendo com um monte de gente, no caso uma família paranoica e dependente de sua lucidez.

A bela e determinada Joy, no entanto, também traz à tona o que considero a temática secundária deste Oscar: o empoderamento das mulheres. Veremos este tema com mais força no futuro bem próximo, mas já podemos sentir que ele está pairando sobre Hollywood – e isso ganhou força no ano passado com o discurso de Patricia Arquette, que criticou a diferença salarial entre homens e mulheres quando subiu ao palco para receber o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por ‘Boyhood’.

Mulheres Super Furiosas

‘Joy’, enfim, conta a história de uma mulher extremamente forte e poderosa em meio a uma família de idiotas, sejam eles homens ou outras mulheres - a trama é baseada em uma história real. Também temos um exemplo de mulher poderosa em ‘Carol’, onde Cate Blanchett faz mais um papel maravilhoso. Li críticas dizendo que sua atuação era apática e sem paixão, mas é justamente essa falta de exagero que me agradou: seria bem mais fácil fazer o papel da mulher que larga tudo para viver um grande amor com outra mulher e cair no clichê histriônico da lesbian chic injustiçada. Cate é elegante demais para isso, talentosa demais para isso. Com uma interpretação sutil e delicada, deu o recado sobre a sua versão de mulher poderosa. E, em termos de empoderamento feminino, não podemos esquecer de Furiosa, personagem de Charlize Theron em ‘Mad Max’: se aquilo não é o arquétipo da mulher poderosa, então eu não sei o que é mulher - nem o que é poder.

Holofotes no escândalo

‘Spotlight - Segredos Revelados’ bóia em meio à temática do isolamento. É um bom filme, mas está longe de ter ‘Oscar quality’. Só está entre os indicados porque, volto a repetir, a safra deste ano está muito fraca. É um bom filme sobre o jornalismo e me fez ter vontade de rever meu filme favorito sobre o tema, ‘Network - Rede de Intrigas’, de 1976. ‘Spotlight’ é bem mais realista, mas está longe de ter a mesma força. Apesar disso, a humilhação da Igreja Católica causada pela revelação dos padres pedófilos é um prato tão cheio para o lobby judaico que controla Hollywood que não estranharei se 'Spotlight' levar o prêmio de Melhor Filme.

A pequena aposta

‘A Grande Aposta’ é uma boa prova da má safra que o Oscar trouxe este ano. Não é apenas chato; é um filme pretensioso que comprova apenas o que todo mundo já sabe: que o mercado financeiro é um universo à parte onde se fala uma língua propositalmente excludente com o objetivo de garantir que o resto do mundo não entenda como está sendo enganado. O diretor Adam McKay tentou fazer um épico sobre a crise de 2008, mas fez apenas um filme confuso e fragmentado, onde o envolvimento entre a plateia e os personagens é menor que o valor de uma ação do Lehman Brothers.

Dois fatos

Dois fatos que não tem muito a ver com o lado cinematográfico do Oscar também chamam a atenção para esta edição da premiação. Em primeiro lugar, a mudança do nome do Kodak Theatre para Dolby Theatre mostra que o mundo mudou e o digital (Dolby, som digital) substituiu totalmente o analógico (Kodak, filme analógico).

Em segundo lugar, a ameaça de boicote iniciada por Spike Lee em razão da falta de indicação de atrizes e atores negros. Spike Lee sempre foi meio radical em relação a esse tema e a discussão deve gerar muitas piadas durante a premiação. Acho que é importante ficar atento ao tema, embora, na minha opinião, ter negros entre os indicados não é uma obrigação da Academia, mas uma questão de merecimento dos profissionais. No Emmy, o Oscar da TV, muitos atrizes e atores negros foram premiados. Seria Hollywood mais preconceituosa que o mundo da TV? Ué, mas ’12 Anos de Escravidão’ não venceu o Oscar de Melhor Filme há dois anos? E o apresentador do Oscar não é o comediante Chris Rock? Será preconceito ou será que não havia nenhuma interpretação tão boa assim? Na minha modesta opinião, achei que faltou a indicação de Samuel L. Jackson ao Oscar de Melhor Ator por ‘Os Oito Odiados’. A história dos caubóis isolados numa cabana do velho oeste – olha o isolamento novamente – fez do filme de Tarantino o mais legal do ano.

E por falar em oito odiados, você percebeu que há apenas oito indicados ao Oscar de Melhor Filme? Lembrando que a Academia poderia ter indicado até dez filmes. E estamos falando da edição número 88 do Oscar! Não é muito oito para um Oscar só?

Fico imaginando os oito protagonistas dos indicados a Melhor Filme em uma cabana do velho oeste, isolados, lutando pela sobrevivência... Não seria um bom roteiro para o Oscar 2017?

88ª cerimônia de entrega dos Academy Awards - Oscar 2016
Domingo, 28 de fevereiro

Melhor Filme

Mad Max - Estrada da Fúria
O Regresso
O Quarto de Jack
Spotlight - Segredos Revelados
A Grande Aposta
Ponte dos Espiões
Brooklyn
Perdido em Marte

Quem deveria ganhar: O Regresso
Quem vai ganhar: Spotlight – Segredos Revelados

Melhor Diretor

Alejandro G. Iñárritu - O Regresso
Tom McCarthy - Spotlight - Segredos Revelados
Adam McKay - A Grande Aposta
George Miller - Mad Max: Estrada da Fúria
Lenny Abrahamson - O Quarto de Jack

Quem deveria ganhar: Alejandro Iñarritu
Quem vai ganhar: Alejandro Iñarritu

Melhor Atriz

Cate Blanchett - Carol
Brie Larson - O Quarto de Jack
Saoirse Ronan - Brooklyn
Charlotte Rampling - 45 Anos
Jennifer Lawrence - Joy - o Nome do Sucesso

Quem deveria ganhar: Cate Blanchett
Quem vai ganhar: Brie Larson

Melhor Ator

Bryan Cranston - Trumbo
Leonardo DiCaprio - O Regresso
Michael Fassbender - Steve Jobs
Eddie Redmayne - A Garota Dinamarquesa
Matt Damon - Perdido em Marte

Quem deveria ganhar: Leonardo DiCaprio
Quem vai ganhar: Leonardo DiCaprio

Melhor Ator Coadjuvante

Christian Bale - A Grande Aposta
Tom Hardy - O Regresso
Mark Ruffalo - Spotlight - Segredos Revelados
Mark Rylance - Ponte dos Espiões
Sylvester Stallone - Creed - Nascido para Lutar

Quem deveria ganhar: Tom Hardy
Quem vai ganhar: Sylvester Stallone

Melhor Atriz Coadjuvante

Jennifer Jason Leigh - Os 8 Odiados
Rooney Mara - Carol
Rachel McAdams - Spotlight - Segredos Revelados
Alicia Vikander - A Garota Dinamarquesa
Kate Winslet - Steve Jobs

Quem deveria ganhar: Jennifer Jason Leigh
Quem vai ganhar: Rooney Mara

Melhor Roteiro Original

Matt Charman - Ponte dos Espiões
Alex Garland - Ex Machina
Peter Docter, Meg LeFauve, Josh Cooley - Divertida Mente
Josh Singer, Tom McCarthy - Spotlight - Segredos Revelados
Jonathan Herman, Andrea Berloff - Straigh Outta Comptom

Quem deveria ganhar: Divertida Mente
Quem vai ganhar: Spotlight

Melhor Roteiro Adaptado

Charles Randolph, Adam McKay - A Grande Aposta
Nick Hornby - Brooklyn
Phyllis Nagy - Carol
Drew Goddard - Perdido em Marte
Emma Donoghue - O Quarto de Jack

Quem deveria ganhar: Perdido em Marte
Quem vai ganhar: Perdido em Marte

Melhor Animação

Anomalisa
Divertida Mente
Shaun, o Carneiro
O Menino e o Mundo
As Memórias de Marnie

Quem deveria ganhar: Anomalisa
Quem vai ganhar: Divertida Mente

Melhor Documentário em Longa-Metragem

Amy
Cartel Land
O Peso do Silêncio
What Happened, Miss Simone?
Winter on Fire: Ukraine's Fight fo Freedom

Quem deveria ganhar: Amy
Quem vai ganhar: Winter on Fire: Ukraine’s Fight to Freedom


Melhor Longa Estrangeiro

Theeb - Jordânia
A Guerra - Dinamarca
Cinco Graças - França
Filho de Saul - Hungria
O Abraço da Serpente – Colômbia

Quem deveria ganhar: Não sei
Quem vai ganhar: Filho de Saul

Melhor Canção Original

"Earned It" - The Weeknd - Cinquenta Tons de Cinza
"Manta Ray" - J. Ralph & Anthony - Racing Extinction
"Simple Song #3" - Sumi Jo - Youth
"Writing's On The Wall" - Sam Smith - 007 Contra Spectre
"Til It Happens To You" - Lady Gaga e Diane Warren - The Hunting Ground

Quem deveria ganhar: ‘Earned It’ – The Weeknd
Quem vai ganhar: ‘Writing’s on the Wall’ – Sam Smith

Melhor Fotografia

Carol
Mad Max: Estrada da Fúria
O Regresso
Sicario: Terra de Ninguém
Os 8 Odiados

Quem deveria ganhar: O Regresso
Quem vai ganhar: O Regresso

Melhor Figurino

O Regresso
Carol
Cinderela
A Garota Dinamarquesa
Mad Max: Estrada da Fúria

Quem deveria ganhar: A Garota Dinamarquesa
Quem vai ganhar: A Garota Dinamarquesa

Melhores Efeitos Visuais

Star Wars: O Despertar da Força
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
Ex Machina
O Regresso

Quem deveria ganhar: Mad Max
Quem vai ganhar: Mad Max

Melhor Design de Produção

Ponte dos Espiões
A Garota Dinamarquesa
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
O Regresso

Quem deveria ganhar: O Regresso
Quem vai ganhar: O Regresso

Melhor Edição

A Grande Aposta
Mad Max: Estrada da Fúria
O Regresso
Spotlight - Segredos Revelados
Star Wars: O Despertar da Força

Quem deveria ganhar: Mad Max
Quem vai ganhar: A Grande Aposta

Melhor Trilha Sonora

Carter Burwell - Carol
Ennio Morricone - Os 8 Odiados
Jóhann Jóhannsson - Sicario: Terra de Ninguém
Thomas Newman - Ponte dos Espiões
John Williams - Star Wars: O Despertar da Força

Quem deveria ganhar: Os 8 Odiados
Quem vai ganhar: Os 8 Odiados

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Realidade e obsessão marcam o Oscar 2015

birdman p Realidade e obsessão marcam o Oscar 2015

'Birdman', com Michael Keaton: O favorito ao Oscar é um exercício de metalinguagem com pitadas de realismo fantástico hollywoodiano

Há muito tempo eu não via uma lista de filmes indicados ao Oscar tão boa quanto a desta safra do Oscar 2015, cuja cerimônia de entrega das estatuetas será realizada no próximo domingo, 22 de fevereiro, em Los Angeles. Como tem sido nos últimos anos, a Academia reuniu filmes que à primeira vista parecem bastante diferentes entre si, mas que em uma análise mais profunda acabam seguindo algum tipo de temática. Não sei se é culpa (no bom sentido) da Academia ou dos próprios cineastas, que como os bons artistas sentem no ar os movimentos e tendências que povoam o nosso inconsciente coletivo cultural.

No ano passado, por exemplo, o ‘tema do Oscar’ se concentrou na condenação aos erros do passado (o esquemático ’12 Anos de Escravidão’) e, ao mesmo tempo, na esperança com o futuro (representado pelo espetáculo visual de ‘Gravidade’). Neste ano há outro tema, bem mais interessante: a obsessão e o poder que ela exerce sobre seus protagonistas. Como a obsessão não é um sentimento que existe sozinho, para haver obsessão é preciso que haja personagens obcecados, fortes e problemáticos, cheios de personalidade, que vão atrás dessas obsessões com determinação (quase) doentia.

É exatamente o que temos este ano: histórias incríveis protagonizadas por homens e mulheres ‘maiores que a vida’ (os famosos ‘bigger than life characters’ da língua inglesa), com ênfase em tramas inspiradas ou adaptadas na realidade. Temos, portanto, não um, mas dois temas: a obsessão e a realidade. Mas seriam esses personagens, então, obcecados pela realidade? Talvez essa seja uma afirmação muito abstrata – melhor dizer que esses personagens são obcecados por pequenas partes específicas de suas realidades.

Isso fica bastante claro quando olhamos a lista de indicados à Melhor Filme. Para começar, dos oito filmes que concorrem na categoria, quatro são baseados em biografias ou histórias reais: ‘Sniper Americano’, ‘O Jogo da Imitação’, ‘Selma’ e ‘A Teoria de Tudo’. Dos outros quatro, três deles ironicamente também contém elementos de realidade tão evidentes que suas histórias não funcionariam em um ambiente 100% ficcional: ‘Boyhood’, ‘Birdman’ e ‘Whiplash’. A lista de Melhores Filmes se encerra com o espetáculo visual de ‘Hotel Budapeste’, um filme tão maluco quanto maravilhoso.

Atirador de elite

‘American Sniper’ conta a história do soldado Chris Kyle, um atirador de elite do exército americano com o maior número de mortes confirmadas pelo Pentágono: 160. O filme dirigido pelo republicano Clint ‘Make my Day’ Eastwood é baseado em uma história recente, portanto estamos falando das intervenções americanas no Oriente Médio, mais precisamente no Iraque.

O fato de ser um filme que trata de ações militares ainda em vigor faz com que ele seja ainda mais interessante, uma vez que a história da guerra está em pleno andamento. Mas embora o filme traga algumas cenas de guerra naquele estilo que já estamos até cansados de ver – ainda mais depois de o tema já ter sido abordado à exaustão em ‘A Hora Mais Escura’ e ‘Guerra ao Terror’, ambos da diretora Kathryn Bigelow – o que vale mesmo é a consequência psicológica imposta a um homem que matou sozinho 160 seres humanos. Como isso afeta um pai de família, que está apenas ‘fazendo o seu trabalho’? Como é possível voltar para casa e cuidar de sua mulher e de seu filho, sabendo que 160 famílias ficaram órfãs graças a esse ‘trabalho’? O soldado Chris Kyle esteve no Iraque quatro vezes – ou seja, ele voltou à guerra mesmo depois de ter sido dispensado. Na verdade, o atirador fez questão de voltar ao campo de batalha. Por quê? Obsessão.

Obsessão em matar mais ‘selvagens’, obsessão por proteger a América, obsessão por ‘fazer seu trabalho’. ‘Sniper Americano’ é sobre isso, mais do que qualquer outra coisa. É disparada a melhor atuação da carreira de Bradley Cooper, um ator que ainda não havia sido levado muito a sério. Mas apesar de seu apelo patriótico ter feito muito sucesso no meio-Oeste americano – o personagem vem do ultra-conservador estado do Texas, terra da família Bush –, o filme levanta uma questão moral que envolve a própria existência dos atiradores de elite. Seria ‘justo’ um soldado que não se envolve na batalha de forma direta, mas que fica apenas no alto dos prédios assassinando inimigos pelas costas? Seria ético um soldado que não suja as mãos – apenas os dedos, vá lá –, que se posiciona confortavelmente a uma distância relativamente segura das tropas inimigas?

Difícil dizer o que é ético ou não em uma guerra, mas a discussão é interessante. Como sempre, o tema já tinha sido abordado de forma mais diagonal por Stanley Kubrick – sempre ele, o maior gênio da história do cinema – no filme ‘Nascido Para Matar’, quando os soldados americanos são mortos por um atirador no Vietnã e vão atrás dele movidos pelo ódio – até descobrirem que esse atirador implacável era apenas uma criança. Há cenas semelhantes em ‘Sniper Americano’, coincidência trágica ou homenagem Kubrickiana.

Nas ondas do rádio

‘O Jogo da Imitação’ também trata do tema da guerra, mas de uma maneira muito mais indireta. É a cinebiografia de Alan Turing, matemático que liderou o projeto cuja missão era ‘apenas’ decifrar o intrincado código ‘Enigma’ usado pelo exército nazista na Segunda Guerra. É um personagem obcecado pelos segredos da criptografia, um homem cuja vida tinha como único objetivo ser bem sucedido em sua missão. A interpretação de Benedict Cumberbatch é simplesmente incrível, perturbada como Alan Turing era na vida real – segundo os relatos.

Turing, um personagem praticamente desconhecido do grande público, pelo menos até agora, tem um papel igualmente fundamental na história da tecnologia: ao criar a máquina que tinha como objetivo decifrar o código nazista, ele também criou o primeiro computador da história. Há um outro componente interessante no filme, embora a meu ver explorado de maneira um pouco melodramática: Alan era homossexual e foi condenado a um ano de prisão por libertinagem – uma espécie de Oscar Wilde da matemática.

O fato tem pouco a ver com sua missão de decifrar o código, embora o filme trate sua opção sexual como parte fundamental de sua personalidade. Claro que era, mas sua participação estratégica na inteligência da guerra foi uma coisa tão extraordinária, que o fato de ele gostar de homens ou de mulheres perde completamente a relevância. Ele não é homossexual ou heterossexual – é um herói, ponto final. Esse tipo de abordagem, embora não seja prejudicial de maneira nenhuma ao filme, mostra que muitas vezes há uma ‘agenda’ escondida nessas cinebiografias que exaltam tanto personagens quanto visões de mundo.

Em ‘A Lista de Schindler’, Spielberg acendeu os holofotes globais para Oskar Schindler, empresário alemão que salvou mais de mil judeus durante a Segunda Guerra. Se Schindler foi um grande herói – e ele foi, obviamente – o que dizer de Alan Turing, que com a descoberta do código nazista impediu a morte de milhões de pessoas e encurtou a guerra em dois anos? Outro detalhe: Churchill, Roosevelt e Stálin podem ter derrotado Hitler no campo de batalha, mas quem realmente venceu os nazistas pela inteligência foi Alan Turing, judeu e homossexual. Pena que Hitler morreu antes de saber disso.

O homem mais inteligente do mundo

Stephen Hawking tinha muito em comum com Alan Turing, além de também ter sido fonte de inspiração para um filme indicado ao Oscar. Os dois são gênios ingleses, viveram quase na mesma época, sofreram com obsessões profissionais e problemas pessoais. Em ‘A Teoria de Tudo’, o físico inglês Stephen Hawking prova que uma ideia é mais forte que qualquer outro valor humano, não importa de onde ela veio. Hawking lutou por sua teoria com a única parte de seu corpo que não o abandonou: o cérebro.

Difícil imaginar por que ninguém havia feito um filme sobre uma vida tão incrível – talvez por divergências ou medo de expor um personagem ainda vivo. Hawking, autor do best-seller científico ‘Uma Breve História do Tempo’, é um homem extraordinário que tinha/tem um único objetivo: criar uma teoria simples que explique quando começou... o tempo. Claro que a teoria é muito mais complexa que isso, mas reconheço humildemente que meu conhecimento sobre o assunto é superficial. Sou um homem de palavras, não de números, e talvez resida aí a minha fascinação por personagens como Hawking e Turing. Como é possível alguém lidar com tantos conceitos abstratos? Ou será que são as palavras que são abstratas, não os números?

Enfim, o filme conta a vida desse homem que, mesmo paralisado em uma cadeira de rodas devido a uma doença degenerativa, conseguiu ter uma vida razoavelmente dentro do normal, com a mulher, filhos, férias no campo em família. E, nas horas vagas, tentava explicar as origens do universo a partir das relações entre a radiação das partículas subatômicas e a termodinâmica dos buracos negros. Quer dizer, acho que era isso. Quem vê a interpretação magistral do jovem Eddie Redmayne não pode acreditar que a Academia daria um Oscar a outro ator que não fosse ele. E, realmente, ele deve levar.

A Academia gosta de premiar papeis onde a pesquisa e o esforço físico na concepção do personagem são fundamentais para seu sucesso – a referência que vem à mente imediatamente é o de ‘Meu Pé Esquerdo’, quando Daniel Day-Lewis assombrou o mundo e levou o Oscar em 1990. Por outro lado, tenho ouvido também muitas críticas em relação à abordagem ‘melodramática’ que o diretor James Marsh deu à história de Hawking e sua mulher, Jane. Talvez tenha sido por isso que ele nem chegou a ser indicado na categoria de Melhor Diretor, embora seu filme tenha sido indicado a Melhor Filme. Isso costuma ser uma vergonha para o diretor ‘esquecido’, uma prova de que o filme é bom apesar de sua direção.

Concordo que o filme é esquemático e dramático um degrau acima do necessário, mas isso pode ter sido graças à fonte em que ele foi inspirado: o roteiro foi baseado na biografia de Jane Hawkings, primeira mulher do físico inglês. Acho que a superação pessoal de Hawking, mas também o esforço sobre-humano que Jane teve para que o casal tivesse uma família ‘normal’, tenham levado a essa versão da história. Embora belíssima, a trilha sonora de Jóhann Jóhannsson, é açucarada demais, repleta de melodias de piano melancólicas e melódicas. Talvez as mesmas melodias tocadas em violoncelo tivessem dado mais sobriedade à vida emocionante e repleta de dificuldades enfrentadas por Hawkings. A última cena do filme – que eu não vou contar aqui por razões óbvias – é tão linda e sensível que nos obriga a perdoar todos os excessos eventualmente cometidos por James Marsh.

Marchando pela liberdade

‘Selma’ é mais uma cinebiografia concorrendo ao Oscar deste ano, no caso a história do ativista negro Martin Luther King Jr. Apesar de estar entre os filmes indicados na categoria mais importante, o fato de a diretora Ava DuVernay e o ator principal, David Oyelowo, não estarem na lista de suas respectivas categorias enfraquece suas reais chances de vitória. Talvez o principal defeito deste filme correto e emocionante tenha sido o timing: o tema da igualdade racial foi destaque no ano passado, com o Oscar de Melhor Filme para ’12 Anos de Escravidão’. Mesmo assim, podemos dizer que há uma obsessão em jogo também aqui: a obsessão de MLK pela liberdade de seu povo, pela igualdade dos direitos entre negros e brancos.

Ao narrar as marchas lideradas por Martin Luther King entre a cidade de Selma, no interior do Alabama, até a capital do estado, Montgomery, o filme pode ser visto como uma prova de que a velocidade do tempo é rápida – porém relativa – na pós-modernidade. Há menos de 50 anos, os Estados Unidos assistia à marcha de MLK exigindo que a comunidade afro-americana tivesse direito ao voto.

Hoje o país tem um presidente negro. Ao mesmo tempo, enquanto ‘Selma’ ficava pronto na ilha de edição, em julho do ano passado, a comunidade afro-americana voltava às ruas para protestar contra o assassinato de Eric Garner por um policial branco em Staten Island, Nova York. A história sempre se repete – mas, ao contrário do que Marx dizia, nem sempre como farsa.

O protagonista é o tempo

‘Boyhood – Da Infância à Juventude’ é meu filme favorito desta safra do Oscar 2015. Reformulando, não apenas desta safra, mas provavelmente é um dos filmes mais interessantes em toda a história do cinema. Não estou sendo exagerado: considero ‘Boyhood’ não apenas um excelente filme, mas uma das mais importantes experiências cinematográficas da história. ‘Boyhood’ não é baseado em uma história real, pelo menos não no sentido stricto-sensu da expressão.

O diretor Richard Linklater demorou doze anos para filmar ‘Boyhood’ porque esse tempo é, de certa forma, o personagem principal do filme – e é por isso que considero ‘Boyhood’ tão interessante. Linklater, que sempre foi obcecado pelo tempo (olha a obsessão aqui mais uma vez), filmou a mudança física dos atores Ethan Hawke e Patricia Arquette, os pais, e Ellar Coltrane, o filho, durante esse período, incorporando o tempo real à trama do filme.

Ou seja: você literalmente vê o garoto crescer diante de seus olhos nas duas horas do filme, mas não apenas isso: você também vê os personagens de Ethan Hawke e Patricia Arquette envelhecendo. Nada daquilo é maquiagem – em doze anos muita coisa muda quando se tem mais de quarenta. O resultado é um filme sensível, mas sem muitos acontecimentos marcantes. Tenho amigos, inclusive, que criticam ‘Boyhood’ porque dizem que ele “não tem história”.

É verdade, não há nada muito interessante acontecendo – mas só se você acha que a vida não é interessante. O filme é um experimento ambicioso, na minha opinião, justamente porque mostra a vida acontecendo de verdade na tela. Os planos que não são concretizados; as desilusões amorosas que todos os seres humanos enfrentam em algum momento; a dificuldade que é crescer.

Acho que é isso: o filme mostra o que é crescer, o que é se transformar de criança em adolescente e, mais tarde, em um jovem adulto. Das brigas com o irmão mais velho ao primeiro dia de aula em uma nova escola; da mudança para outra cidade ao divórcio dos pais; do primeiro gole de cerveja ao primeiro amor. É lindo, incrível, maravilhoso. Mas também é sofrido, duro, complicado. Dizer que ‘Boyhood’ não tem história é como dizer que a vida não tem história, é negar que os momentos que vivemos no dia a dia são menos importantes apenas porque não são dignos de um roteiro de cinema. “A vida é o que acontece enquanto estamos ocupados fazendo outros planos”, disse John Lennon. Esse conceito filosófico tão simples quanto universal poderia ser o resumo do roteiro de ‘Boyhood’.

Disse lá em cima que Richard Linklater é um obcecado pelo tempo, acho justo contextualizar a afirmação. Além da paciência e disciplina para filmar ‘Boyhood’ em doze anos – imagina o trabalho de ter que reunir os atores a cada ano para gravar novas cenas, mantendo a continuidade e profundidade dos personagens –, Linklater já havia nos presentado com outra obra-prima: a trilogia ‘Antes do Amanhecer’/’Antes do Pôr do Sol’/ ‘Depois da Meia-Noite’.

Nessa outra experiência cinematográfica, o diretor fez três filmes sobre um casal que se conhece/se casa/ enfrenta uma crise no casamento (estrelados por Ethan Hawke e Julie Delpy) com intervalo de nove anos entre cada um. Ou seja, vemos nessa trilogia, também, as marcas do tempo sobre os atores e sobre um relacionamento. Adoraria ver uma conversa entre Richard Linklater e o físico inglês Stephen Hawing sobre o tempo e o seu poder de transformação. ‘Birdman – Ou a Inesperada Virtude da Ignorância’ é outro filme incrível e que também trata de obsessão – desta vez pela fama.

Homem-pássaro

O melhor papel da carreira de Michael Keaton é também o mais irônico. O filme, dirigido pelo mexicano Alejandro Iñárritu, é uma meta-experiência cinematográfica, tão interessante quanto ‘Boyhood’. É por isso que defendo que essa safra do Oscar está tão boa – o cinema está se reinventando para poder voltar a competir com a excelente qualidade atingida pelas séries de TV. Isso está forçando os cineastas a encontrar novas formas de contar histórias, novos conceitos e formatos.

E quem ganha com isso é o público que ama cinema – nós. O filme conta a história de um ator que interpretou um super-heroi no passado (Birdman), mas que agora quer resgatar sua credibilidade atuando em uma peça de teatro na Broadway. O irônico é que Michael Keaton também fez o papel de um super-heroi e teve a atuação bastante criticada por isso – ele foi o Batman, dirigido por Tim Burton, em 1989.

O filme é repleto de outras referências, muitas delas críticas em relação aos blockbusters de Hollywood. Por que ele foi indicado ao Oscar, se faz uma crítica justamente ao mundo do cinema? Aí é que está a ironia – Hollywood faz um mea-culpa por várias razões, mas também porque sabe que a autocrítica dá audiência. Em termos visuais, o que atrai em ‘Birdman’ é que ele filmado em um único plano-sequência, ou seja, não há cortes. Como assim, um filme de duas horas sem cortes?

Pois é, Alfred Hitchcock já fez isso na mão em ‘Rope’ ('Festim Diabólico') e agora Iñárritu simula essa falta de cortes usando a tecnologia do cinema digital. O roteiro facilita essa linguagem, já que é filmado quase inteiramente nos bastidores do teatro onde a peça será encenada. Para criar tensão, Iñárritu escolheu uma trilha sonora seca e incômoda: uma sequência de solos de bateria. O que nos remete a outro ótimo filme da lista de indicados.

Em busca da batida perfeita

‘Whiplash – Em Busca da Perfeição’ tem algo em comum com ‘Birdman’: a trilha sonora feita praticamente apenas com solos de bateria. Peraí, mas dá para aguentar duas horas de solos de bateria? Realmente, é um som opressor, barulhento, caótico, mas que imprime aos dois filmes uma tensão que dificilmente seria conseguida se a música fosse orquestrada, por exemplo. Deixei ‘Whiplash’ por último porque ele é o símbolo maior dessa tendência de reunir no mesmo Oscar filmes sobre obsessão. ‘Whiplash’ é a obsessão em estado puro.

O filme conta a história de Andrew Neiman (Miles Teller), um estudante de bateria que leva o estudo do instrumento às últimas consequências graças à cobrança louca de um professor completamente obcecado (Terence Fletcher, interpretado por J.K. Simmons). O filme traz um elemento forte de realidade (olha a realidade aí novamente), uma vez que o diretor, Damien Chazelle, também foi um aluno de bateria e vítima de um professor maníaco. Na hora a gente lembra de outro filme de Stanley Kubrick, 'Nascido para Matar', onde o soldado gorducho que sofre bullying to sargento encontra uma maneira radical de se vingar.

O interessante é que ‘Whiplash’ poderia ser sobre qualquer assunto, qualquer coisa no mundo. Ele é sobre obsessão, não sobre bateria. Poderia ser sobre um colecionador de caixinhas de fósforo que quer ser o melhor do mundo; poderia ser sobre um corredor de Fórmula 1 que quer ser o melhor do mundo. No caso, ele é sobre um baterista, seu professor e até onde pode ir a loucura de um indivíduo quando ele projeta em um jovem o talento que ele gostaria de ter tido mas que nunca terá. Outra coisa interessante sobre o filme é que ele fala especificamente sobre um baterista de jazz, estilo que prima pela inspiração e não pela técnica pura e disciplinada.

O jazz, maior expressão de arte criada pelos Estados Unidos, é feito de liberdade, de improviso. Querer imprimir disciplina ao jazz é como cortar as asas de um pássaro e exigir que ele voe – uma contradição. Bateristas de jazz foram feitos para serem livres, para marcar o ritmo com emoção, não para serem máquinas perfeitas. Esse paradoxo é o que torna o filme uma grande experiência não apenas visual, mas também sonora, dramática, universal.

Um hotel muito louco... e um milionário também

Há outros grandes filmes nessa leva, como ‘Hotel Budapeste’ e ‘Foxcatcher’. ‘Hotel Budapeste’ prova porque Wes Anderson é um dos cineastas mais interessantes da atualidade. Não dá para saber se o filme é uma comédia trágica ou um drama engraçado – talvez as duas coisas ao mesmo tempo. Visualmente, ele é um gênio. Suas cenas são simétricas como as de Stanley Kubrick, mas suas cores são tão exageradas quanto às de um desenho animado. Wes Anderson é o garoto de dez anos nerd e esquisitão que rouba as tintas e pinceis do tio pintor e sai colorindo o mundo.

‘Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo’ traz, por sua vez, mais uma história real: a do milionário americano John DuPont, que, obcecado por luta livre, investiu milhões de dólares para patrocinar a equipe olímpica norte-americana. O filme é tenso não apenas pela história que fica cada vez mais estranha, mas porque não há música para amenizar as cenas mais duras nem para glorificar as lutas. Ótimas atuações de Mark Ruffalo e Channing Tatum como os atletas patrocinados por DuPont, mas a grande surpresa mesmo é ver Steve Carrell atuando em um papel sério. Claro que ele passou por uma transformação física feita pela equipe de maquiagem, do contrário morreríamos de rir toda vez que ele aparecesse em cena.

O cinema é relativo

Há outros filmes extremamente interessantes na safra que disputa o Oscar, mesmo nas categorias mais, digamos, técnicas. ‘Interestelar’, do diretor Christopher Nolan, é outro que trata o tempo como personagem – nesse caso, no entanto, em uma fábula de ficção científica. Nolan já é conhecido por ser um cineasta que adora brincar com a relatividade do tempo-espaço, o que já dava para ver desde seu filme de estreia, o super original ‘Amnésia’.

Para quem não lembra, é um filme contado de trás para frente. E o que dizer do estranhíssimo ‘A Origem’, com Leonardo DiCaprio, em que Nolan monta tantos labirintos de sonhos que temos a impressão de estar vendo um filme com cenários desenhados por M.C. Escher e roteiro escrito por Jorge Luis Borges? De qualquer maneira, é um filme lindo, sensível, mesmo tendo 50% de trechos em que a gente não tem a menor ideia do que está acontecendo.

Como prova de que a safra está excepcionalmente acima da média, temos filmes excelentes até entre os que não estão nas categorias mais nobres. ‘Para sempre Alice’, dirigido por Richard Glatzer, traz uma atuação sensacional (mais uma) de Julianne Moore, que se credencia cada vez mais a ocupar o posto de Meryl Streep como maior atriz do cinema mundial. A própria Meryl, claro, também concorre a alguma coisa. No caso, a Atriz Coadjuvante em ‘Caminhos da Floresta’, um filme infantil e menor em sua carreira gigantesca. Já que estamos falando de atrizes, vale também citar a ótima atuação de Rosamund Pike no tenso ‘Garota Exemplar’, além da bonitinha e determinada Reese Whiterspoon em ‘Livre’, com roteiro de um dos meus escritores favoritos, Nick Hornby.

Relatos maravilhosos

Para fechar com chave de ouro, um filme que nos dá uma inveja (no bom sentido) do cinema argentino: ‘Relatos Selvagens’ não deveria estar concorrendo a Melhor Filme Estrangeiro, mas a Melhor Filme, ponto. Escrito e dirigido por Damián Szifrón, ele consolida um conceito extremamente original. Se levarmos em conta que longas-metragens estão para o cinema assim como os romances estão para a literatura, então ‘Relatos’ seria um filme ‘de contos’.

Ou seja, seis histórias maravilhosas totalmente independentes – ligadas de forma delicada por um único tema: a vingança. Como é um filme argentino, não precisamos nem dizer que um dos atores principais é o onipresente Ricardo Darín, mais uma vez excelente no papel de... Ricardo Darín, mesmo.

Agora só nos resta torcer e esperar a cerimônia de entrega do Oscar, no próximo domingo. Se quiser acompanhar meus comentários ao vivo, basta seguir meu perfil no Twitter @felipemachado. Se você chegou até aqui, obrigado pela paciência em ler um texto tão longo. É que, da mesma maneira que os filmes deste ano, eu também sou um obcecado.

Melhor filme
"Sniper americano"
"Birdman"
"Boyhood: Da infância à juventude"
"O grande Hotel Budapeste"
"O jogo da imitação"
"Selma"
"A teoria de tudo"
"Whiplash"

Quem deveria ganhar: ‘Boyhood’
Quem vai ganhar: ‘Birdman’

Quem ganhou: 'Birdman'

Melhor diretor
Alejandro Gonzáles Iñárritu ("Birdman")
Richard Linklater ("Boyhood")
Bennett Miller ("Foxcatcher: Uma história que chocou o mundo")
Wes Anderson ("O grande hotel Budapeste")
Morten Tyldum ("O jogo da imitação")

Quem deveria ganhar: Richard Linklater
Quem vai ganhar: Alejandro Gonzáles Iñárritu

Quem ganhou: Alejandro Gonzáles Iñárritu

Melhor ator
Steve Carell ("Foxcatcher")
Bradley Cooper ("Sniper americano")
Benedict Cumbertatch ("O jogo da imitação")
Michael Keaton ("Birdman")
Eddie Redmayne ("A teoria de tudo")

Quem deveria ganhar: Michael Keaton
Quem vai ganhar: Eddie Redmayne

Quem ganhou: Eddie Redmayne

Melhor ator coadjuvante
Robert Duvall ("O juiz")
Ethan Hawke ("Boyhood")
Edward Norton ("Birdman")
Mark Ruffalo ("Foxcatcher")
JK Simons ("Whiplash")

Quem deveria ganhar: JK Simmons
Quem vai ganhar: JK Simmons

Quem ganhou: JK Simmons

Melhor atriz
Marion Cotillard ("Dois dias, uma noite")
Felicity Jones ("A teoria de tudo")
Julianne Moore ("Para sempre Alice")
Rosamund Pike ("Garota exemplar")
Reese Witherspoon ("Livre")

Quem deveria ganhar: Julianne Moore
Quem vai ganhar: Reese Witherspoon

Quem ganhou: Julianne Moore

Melhor atriz coadjuvante
Patricia Arquette ("Boyhood")
Laura Dern ("Livre")
Keira Knightley ("O jogo da imitação")
Emma Stone ("Birdman")
Meryl Streep ("Caminhos da floresta")

Quem deveria ganhar: Patricia Arquette
Quem vai ganhar: Patricia Arquette

Quem ganhou: Patricia Arquette

Melhor filme em língua estrangeira
"Ida" (Polônia)
"Leviatã" (Rússia)
"Tangerines" (Estônia)
"Timbuktu" (Mauritânia)
"Relatos selvagens" (Argentina)

Quem deveria ganhar: ‘Relatos Selvagens’
Quem vai ganhar: ‘Relatos Selvagens’

Quem ganhou: 'Ida'

Melhor documentário
"O sal da terra"
"CitizenFour"
"Finding Vivian Maier"
"Last days"
"Virunga"

Quem deveria ganhar: ‘O sal da terra’
Quem vai ganhar: “Virunga”

Quem ganhou: 'CitizenFour'

Melhor animação
"Operação Big Hero"
"Como treinar o seu dragão 2"
"Os Boxtrolls"
"Song of the sea"
"The Tale of the Princess Kaguya"

Quem deveria ganhar: “Uma aventura Lego”
Quem vai ganhar: "Operação Big Hero"

Quem ganhou: 'Operação Big Hero'

Melhor roteiro original
Alejandro G. Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris Jr. e Armando Bo ("Birdman")
Richard Linklater ("Boyhood")
E. Max Frye e Dan Futterman ("Foxcatcher")
Wes Anderson e Hugo Guinness ("O grande hotel Budapeste")
Dan Gilroy ("O abutre")

Quem deveria ganhar: “Boyhood”
Quem vai ganhar: “Birdman”

Quem ganhou: 'Birdman'

Melhor roteiro adaptado
Jason Hall ("Sniper americano")
Graham Moore ("O jogo da imitação")
Paul Thomas Anderson ("Vício inerente")
Anthony McCarten ("A teoria de tudo")
Damien Chazelle ("Whiplash")

Quem deveria ganhar: Graham Moore ("O jogo da imitação")
Quem vai ganhar: Jason Hall ("Sniper americano")

Quem ganhou: 'O jogo da imitação'

Melhor fotografia
Emmanuel Lubezki ("Birdman")
Robert Yeoman ("O grande hotel Budapeste")
Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski ("Ida")
Dick Pope ("Sr. Turner")
Roger Deakins ("Invencível")

Quem deveria ganhar: Robert Yeoman ("O grande hotel Budapeste")
Quem vai ganhar: Robert Yeoman ("O grande hotel Budapeste")

Quem ganhou: 'Birdman'

Melhor edição
Joel Cox e Gary D. Roach ("Sniper americano")
Sandra Adair ("Boyhood")
Barney Pilling ("O grande hotel Budapeste")
William Goldenberg ("O jogo da imitação")
Tom Cross ("Whiplash")

Quem deveria ganhar: Sandra Adair ("Boyhood")
Quem vai ganhar: Sandra Adair ("Boyhood")

Quem ganhou: 'Whiplash'

Melhor design de produção
"O grande hotel Budapeste"
"O jogo da imitação"
"Interestelar"
"Caminhos da floresta"
"Sr. Turner"

Quem deveria ganhar: "O grande hotel Budapeste"
Quem vai ganhar: "O grande hotel Budapeste"

Quem ganhou: 'O grande hotel Budapeste'

Melhores efeitos visuais
"Capitão América 2: O soldado invernal"
"Planeta dos macacos: O confronto"
"Guardiões da Galáxia"
"Interestelar"
"X-Men: Dias de um futuro esquecido"

Quem deveria ganhar: “Interstelar”
Quem vai ganhar: "Interstelar"

Quem ganhou: 'Interstelar'

Melhor trilha sonora
Alexandre Desplat ("O grande hotel Budapeste")
Alexandre Desplat ("O jogo da imitação")
Hans Zimmer ("Interestelar")
Gary Yershon ("Sr. Turner")
Jóhann Jóhannsson ("A teoria de tudo")

Quem deveria ganhar: Alexandre Desplat ("O jogo da imitação")
Quem vai ganhar: Alexandre Desplat ("O jogo da imitação")

Quem ganhou: Alexandre Desplat ('O grande hotel Budapeste)

Melhor canção

"Everything is awesome", de Shawn Patterson ("Uma aventura Lego")
"Glory", de John Stephens e Lonnie Lynn ("Selma")
"Grateful", de Diane Warren ("Além das luzes")
"I'm not gonna miss you", de Glen Campbell e Julian Raymond ("Glen Campbell…I'll be me")
"Lost Stars", de Gregg Alexander e Danielle Brisebois ("Mesmo se nada der certo")

Quem deveria ganhar: "Lost Stars" ("Mesmo se nada der certo")
Quem vai ganhar: "Lost Stars" ("Mesmo se nada der certo")

Quem ganhou: 'Glory'

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Oscar 2014: Entre a esperança no futuro e a vergonha do passado

 

selfie oscar Oscar 2014: Entre a esperança no futuro e a vergonha do passado

Selfie tirada pelo ator Bradley Cooper durante a premiação - Ellen DeGeneres derrubou o Twitter pelo excesso de compartilhamentos

O Oscar 2014 foi palco de uma disputa entre a esperança na tecnologia do futuro e a vergonha de um passado que não podemos esquecer. De um lado, a ficção científica ‘Gravidade’ humildemente nos lembra de como somos ridiculamente pequenos diante do universo; do outro, ’12 Anos de Escravidão’ expõe a crueldade intrínseca do ser humano, que acredita ter o poder divino sobre a vida do outro. Os dois grandes vencedores da noite de ontem, no entanto, trazem alguns elementos em comum: a superação dos limites físicos do corpo, a luta pela sobrevivência diante da ameaça iminente da morte, a esperança de que o amanhã pode ser melhor do que hoje. Tomara que estejamos certos.

‘Gravidade’ foi o grande campeão da noite, com sete prêmios no total: Efeitos Visuais, Edição, Fotografia, Trilha Sonora e Diretor (Alfonso Cuáron), além dos Oscars técnicos de Mixagem de Som e Edição de Som. ’12 Anos de Escravidão’ ganhou o Oscar principal, Melhor Filme, além de Melhor Atriz Coadjuvante (a maravilhosa Lupita Nyong’o) e Melhor Roteiro Adaptado. Tivemos ainda um Oscar para a excelente história futurística (mas em um futuro não muito distante) de Spike Jonze: ‘Ela’, sobre um homem solitário que se apaixona pelo computador, ganhou Melhor Roteiro Original. ‘O Grande Gatsby’, dirigido pelo esteta Baz Buhrmann e um dos vários remakes já feitos para o livro de Scott Fitzgerald, levou prêmios de Figurino e Direção de Arte.

Entre o futuro e o passado, também tivemos prêmios para o presente – ou pelo menos para um fantasma que ainda nos atormenta. Ao expor o drama da Aids, ‘Clube de Compras Dallas’ teve excelentes atuações e rendeu a Matthew McConaughey o Oscar de Melhor Ator e a Jared Leto o de Melhor Ator Coadjuvante (além de um Oscar por Maquiagem). A Melhor Atriz foi mesmo Cate Blanchett - como todo mundo já apostava - pelo filme ‘Blue Jasmine’, de Woody Allen.

‘A Grande Beleza’, drama ‘Felliniano’ do italiano Paolo Sorrentino, levou Melhor Filme Estrangeiro. E a pequena joia da Disney ‘Frozen’ levou não apenas o Oscar de Melhor Animação, como desbancou a homenagem do U2 a Nelson Mandela e levou Melhor Canção Original.

Resumindo? Como (quase) sempre, a Academia distribuiu os prêmios de maneira mais ou menos equilibrada e ficou bom para todo mundo. Deram a maior parte dos prêmios para uma produção com sotaque latino – o filme Gravidade’ foi dirigido pelo mexicano Alfonso Cuáron –, agradando à comunidade que começa a ganhar cada vez mais força (em importância e influência) nos Estados Unidos. Em relação à comunidade negra, fizeram uma mea-culpa e um auto-elogio ao mesmo tempo. Lembraram o absurdo da escravidão e, delicadamente, deixaram no ar a lembrança de que a América de hoje, poucos anos depois desse capítulo tão vergonhoso, é liderada por um presidente negro, Barack Obama. A escravidão, ao lado do holocausto, são dramas que sempre nos emocionam, não apenas pelo violência inexplicável que pudemos inflingir uns aos outros, mas pela exposição da crueldade com que podemos tratar os nossos semelhantes.

Pensando bem, só não ficou bem para o filme ‘Trapaça’, que teve o maior número de indicações (dez) e não levou nenhum Oscar. E também fiquei com pena de Leonardo DiCaprio, que estava ótimo em ‘O Lobo de Wall Street’, mas perdeu para Matthew McConaughey – que, para fazer o personagem, perdeu vários quilos, fez o papel de um paciente com Aids, etc, esforços que a Academia adora premiar.

Falando em futuro e passado, também, esse Oscar expõe cada vez mais que há em curso uma troca de guarda em Hollywood. A cada ano, a chamada ‘nova geração’ (alguns nem são tão jovens assim) vai tomando conta do pedaço. Atores como Bradley Cooper, Matthew McConaughey, Christian Bale, Michael Fassbender começam a ser considerados os grandes atores da atualidade, ao lado de medalhões já estabelecidos como Brad Pitt, Kevin Spacey e Leonardo DiCaprio. Entre as atrizes, os grandes nomes hoje são Jennifer Lawrence, Amy Adams, Angelina Jolie, Sandra Bullock  e Cate Blanchett, uma espécie de Merryl Streep dessa nova geração.

É assim que Hollywood funciona: quando seus ídolos envelhecem ou já estão cansados demais para se esforçar, o sistema inventa novos deuses e passa a alimentá-los - e a se alimentar deles - para continuar relevante. Os personagens podem ser diferentes, mas, na hora em que as luzes se apagam e a grande tela acende, os papéis continuam os mesmos.

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Margot Robbie deveria ganhar o Oscar de 'Atriz Mais Bonita de 2013' por sua atuação em 'O Lobo de Wall Street' / Reprodução

 

Domingo é dia de Oscar. Para quem gosta de cinema, é como se fosse a final da Copa do Mundo: você reúne os amigos em volta da TV, abre umas cervejas e começa a torcer.

A votação da Academia é um dos segredos mais bem guardados do mundo. É por isso que vemos sempre as mesmas matérias antes da cerimônia. Um tiozinho de terno, com cara de vilão do 007, carregando uma mala onde supostamente estariam todos os nomes dos vencedores. Hoje em dia isso parece até cena de filme, já que essa informação caberia em um pendrive. Mas tudo bem: Hollywood adora um drama.

Sei que você deve estar louco para saber qual é minha aposta para o prêmio de Melhor Edição de Efeito Especial para Trilha Sonora de Filme Mudo Asiático. Mas vou me concentrar apenas nas categorias mais importantes, ok? Afinal, ninguém quer saber quem foi o 18º colocado na Copa do Mundo. Como o Oscar não é uma votação totalmente racional, pode ser que eu perca alguma aposta. Ou todas. Mas prometo voltar aqui depois da festa para comentar a premiação – e para justificar meus eventuais vexames.

Melhor Filme

’12 Anos de Escravidão’

É uma categoria imprevisível porque há dois fortes concorrentes: ’12 Anos de Escravidão’ e ‘Gravidade’. Os outros estão concorrendo apenas para fazer número. O que vai definir o vencedor é a decisão da Academia entre puxar o saco da comunidade negra (dando o prêmio a ’12 Anos’) ou da comunidade hispânica (o diretor de ‘Gravidade’, Alfonso Cuarón, é mexicano). Eu acho que vai dar ’12 Anos’, já que ‘Lincoln’, que abordava de certa maneira o mesmo tema – Lincoln foi o presidente que acabou com a escravidão nos Estados Unidos – foi indicado a 12 prêmios e levou apenas um (Daniel Day-Lewis como Melhor Ator). Na minha opinião, ‘Gravidade’ deveria levar o prêmio, principalmente pela revolução nos efeitos especiais e por proporcionar ao público a incrível experiência de passar 1h30 no espaço. Dá uma olhada no trailer.

 Melhor Ator

Leonardo DiCaprio

Novamente a disputa é entre dois fortíssimos concorrentes: Leo DiCaprio por ‘Lobo de Wall Street’ e Matthew McConaughey por ‘Clube de Compras Dallas’ (alguém sabe falar o sobrenome desse ator?) Eu acho que vai dar o DiCaprio, porque todo ano ele concorre com grandes personagens e sempre sofreu preconceito e acusações de ser ‘apenas um rostinho bonito’ (é incrível imaginar que isso possa ser um problema em Hollywood). Em ‘Lobo’ ele está sensacional, assim como em ‘Grande Gatsby’, que foi totalmente ignorado pela Academia. O filme tem outro destaque:  a australiana Margot Robbie, que faz o papel de mulher do personagem de DiCaprio. Ela não foi indicada, mas se eu fosse o presidente da Academia criaria um Oscar de 'Atriz Mais Bonita ' só para ela poder ganhar. Por outro lado, o ator Matthew McConaughey também sempre foi ‘apenas um rostinho bonito’, mas este ano ele leva a vantagem de ter ‘sofrido’ mais para fazer o papel, emagrecido mais de vinte quilos, etc. A Academia adora atores que emagrecem – é só lembrar o Oscar de Tom Hanks por ‘Philadelphia’. Voto no DiCaprio, mas essa eu acho que vou perder.

Melhor Atriz

Cate Blanchett, por ‘Blue Jasmine’

A escolha vai depender apenas da data em que os membros da Academia votaram: se foi antes ou depois do escândalo em que a filha de Mia Farrow e Woody Allen acusou o pai de tê-la atacado sexualmente. Se foi antes, Cate Blanchett vai ganhar por seu papel em ‘Blue Jasmine’ – filme dirigido por Woody em que ela brilha praticamente sozinha. Se foi depois, a Academia vai ficar constrangida e deve votar em Sandra Bullock por ‘Gravidade’.

Melhor Ator Coadjuvante

Michael Fassbender, por ’12 Anos de Escravidão’

Jared Leto ganhou o Globo de Ouro nessa categoria por fazer o garoto de programa em ‘Clube de Compras Dallas’, mas acho que no Oscar vai premiar Michael Fassbender como o vilão de ’12 Anos’. Dá vontade de matar o cara – e a Academia sempre gosta de vilões muito, muito maus.

Melhor Atriz Coadjuvante

Jennifer Lawrence, por ‘Trapaça’

A atriz está perfeita no papel da esposa idiota e burra de Irving Rosenfeld, personagem de Christian Bale. Merece ganhar de novo, já que ela levou no ano passado por ‘O Lado Bom da Vida’.

Melhor Diretor

Alfonso Cuáron, por ‘Gravidade’

Esse é o Oscar mais fácil de adivinhar. As cenas são tão sensacionais e perfeitas que um jornalista europeu perguntou na coletiva como é que Cuáron fez para filmar no espaço. É claro que ele não filmou no espaço, mas quem vê o filme (principalmente em 3D) não acredita que aquilo possa ter sido feito em estúdio. Desde ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’, de Stanley Kubrick, ninguém filmava tão bem uma história de ficção científica.

Melhor Animação

‘Frozen’ – O Reino do Gelo

O filme é ótimo, e minha filha cantando a música tema ‘Let it Go’ deveria ganhar o Oscar de ‘Cantora Mais Fofa’.

 Melhor Roteiro Adaptado

’12 Anos de Escravidão’, por John Ridley

Barbada. O filme foi baseado no corajoso livro escrito pelo ex-escravo Solomon Northup em 1853. A história do negro que foi sequestrado no norte dos Estados Unidos para ser escravo no sul é chocante e uma das maiores novidades sobre esse filme – que, de resto, tem um tema meio batido.

Melhor Roteiro Original

‘Ela’, por Spike Jonze

Gênio. Gênio. Gênio. Não tem outra palavra para definir Spike Jonze. Além de clipes maravilhosos, o diretor fez até agora quatro obras-primas para o cinema: ‘Quero Ser John Malkovich’, ‘Adaptação’, ‘Onde Vivem os Monstros’ e ‘Ela’. A história é super original: após se separar da mulher, um homem solitário se apaixona pelo sistema operacional de seu computador. Parece bobo? Pode ter certeza de que não é. É de uma sensibilidade gritante – e não é tão impossível assim quando você descobre que a voz do sistema operacional é da Scarlett Johansson.

Melhor Filme Estrangeiro

‘A Grande Beleza’

Outra barbada. Ganhador do Globo de Ouro, o italiano Paolo Sorrentino nos remete a ‘La Dolce Vita’, clássico de Fellini. Pena que a trilha sonora de Lele Marchintelli não foi indicada, porque é linda e emocionante.

Melhor Canção Original

‘Ordinary Love’, do U2

Razões porque eu tenho certeza de que essa música vai ganhar o Oscar: 1. Nelson Mandela tem que ser homenageado de alguma maneira, e a canção original é a única indicação do filme ‘Mandela, A Longa Caminhada para Liberdade’. 2. O U2 foi anunciado e vai se apresentar ao vivo na cerimônia. 3. Todo mundo quer ver o Bono fazendo um discurso. 4. O U2 foi indicado pela belíssima ‘Hands That Build America’, de ‘Gangues de Nova York’, e perdeu injustamente para ‘Lose Yourself’, do Eminem. 5. O U2 é a melhor banda do mundo e vai lançar disco novo daqui a alguns meses.

Durante a cerimônia, vou comentar o Oscar no Twitter. Quem quiser acompanhar, meu endereço é @felipemachado. E na próxima segunda-feira, dia seguinte ao Oscar, estarei aqui para ouvir você tirando sarro das apostas que eu errei - embora eu tenha certeza de que vou acertar todas... icon wink Veja quem vai ganhar o Oscar 2014! (Pelo menos na minha opinião)

 

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Feliz noite do Oscar para você

django Feliz noite do Oscar para você

'Django Livre': Os diálogos de Tarantino são tão bons que dá vontade de ver o filme várias vezes

Hoje é a final de Copa do Mundo para os fanáticos por cinema: é a noite do Oscar. Para mim, o programa será o mesmo de sempre: balde de pipoca e olhos grudados na TV. Não sei como tem gente que acha chato, ainda mais este ano, em particular, que temos uma ótima safra  de filmes...

A categoria ‘Melhor Filme’ será a mais difícil, mas  arrisco o vencedor: “Argo”, que já levou prêmios importantes como o  Globo de Ouro, o ‘termômetro do Oscar’. “Argo” conta a história de um resgate inusitado a reféns americanos no Irã. Além de ser  uma história improvável e real, o herói  é... a própria  indústria do cinema. E não se esqueça de que o filme é dirigido por Ben Affleck, mas o produtor é o queridinho de Hollywood, George Clooney.

“O Lado Bom da Vida” é um filme bonitinho sobre o amorzinho de um casalzinho de maluquinhos. A única grandiosa  é a atuação de Jennifer Lawrence e Bradley Cooper, que estão sensacionais.

Apesar de ter o maior número de indicações (12), acho que “Lincoln” não leva. O filme tem bela atuação de Daniel Day-Lewis, mas é  didático  demais. Parece que o roteiro foi escrito por um professor que quer contar em detalhes a importância histórica do presidente americano. Em outras palavras: chato.

Já “A Hora Mais Escura”, sobre a caçada ao Bin Laden, é sensacional. A cena em que o exército americano invade a casa onde o terrorista morava já entrou para a história do cinema. As cenas de tortura incomodam um pouco, mas o filme da diretora de “Guerra ao Terror”, Kathryn Bigelow, tem a força de um bombardeio.

“Django Livre” é um típico filme do Tarantino: violento e engraçado. Na verdade, a violência é tão estilizada que nem incomoda. Dá vontade de ver várias vezes, só para pegar todos os detalhes dos  diálogos.

Não vi “Indomável Sonhadora” nem “Os Miseráveis”, então não posso comentar. Mas gostei muito de “Amor”, um filme duro e pesado, mas com mensagem importante. E “As Aventuras de Pi” é uma fábula linda, incrível, que deveria pelo menos ganhar o Oscar de Efeitos Visuais.

Apostas feitas. Agora é só torcer pelos seus favoritos e... feliz noite de Oscar!

 

 

 

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‘Amor’: Um filme sobre a vida, não sobre a morte

amor Amor: Um filme sobre a vida, não sobre a morte

Michael Haneke dirige os atores Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva: 'Amor' é um filme duro, mas necessário

A primeira vez que vi um filme de Michael Haneke foi em 1999, dois anos depois do lançamento de ‘Violência Gratuita’. Li uma boa crítica a respeito do filme que me deixou bastante curioso, e em uma visita à locadora vi o DVD do filme à venda em uma promoção. Como o preço era quase o mesmo da locação, comprei o DVD e cheguei em casa ansioso para ver se o filme era mesmo tudo aquilo.

Não é um filme fácil, muito pelo contrário. É um filme violento, agressivo, que choca quem não está preparado. Pelo jeito, eu não estava: quando o filme acabou, fiquei tão revoltado que voltei à locadora e exigi que o atendente o trocasse por outro. Ele concordou. Ainda tive que desembolsar um dinheiro extra para voltar para casa com a edição especial de ‘Scarface’. Eu nunca mais queria ver Michael Haneke de novo.

No dia seguinte, comecei a pensar no filme. Até que era interessante, uma abordagem bastante inovadora e complexa da violência. Os personagens não tinham muita emoção, eram muito cerebrais. Era um filme muito inteligente, não sei como não vi isso assim que o filme acabou. Passei o dia pensando no filme, nos diálogos perturbadores e verdadeiros, no pequeno detalhe de uma situação em que os protagonistas ‘voltam’ no tempo apertando uma tecla do controle remoto… Quando saí do trabalho, voltei à locadora e comprei o filme de novo.

Agora eu estava preparado para Michael Haneke.

Só quem não está familiarizado com a obra de Michael Haneke pode ir ao cinema imaginando que “Amor” é um filme romântico. Tenho certeza de que a aprovação de Hollywood - “Amor” foi indicado ao Oscar em cinco categorias, incluindo melhor filme - também enganou quem quis ver a  história de amor vivida por um casal de velhinhos simpáticos. 'Amor' não é apenas isso. É um filme sobre juventude, velhice, poder, coragem. É um filme sobre a vida, não sobre a morte.

Haneke não é o tipo de diretor que gosta de histórias doces . Seus filmes têm a força de um soco no estômago. Mas “Cachê”, “Violência Gratuita”, “A Professora de Piano” são obras-primas chocantes: ninguém sai do cinema  do mesmo jeito que entrou.

O poder transformador da obra de arte verdadeira, aquela que nos toca a alma, é o que faz do austríaco o cineasta mais importante da atualidade.

“Amor” é duro e cruel, mas necessário. Não é bonito assistir o impacto da idade no corpo e mente de um ser humano, muito menos no ser humano que amamos. Apesar do tema, “Amor” não é um filme “para chorar”. Desde a cena inicial - um concerto onde vemos  a plateia e ouvimos o som do piano, mas jamais vemos o pianista -, Haneke nos ensina que aquilo é um filme, não é a vida real. Ele faz questão de ser frio: o assunto é real, a situação é abordada de maneira realista... mas estamos vendo um filme. E filmes são apenas histórias contadas, não catalisadores de lágrimas.

Há emoção, talvez,  quando nos lembramos de entes queridos que se foram. E há  cenas especiais, como a que a personagem da atriz Emanuelle Riva folheia um álbum de fotos. Ela olha para aquele distante passado feito de papel preto e branco e apenas balbucia. “É bela, a vida.” A morte, não.

Haneke tem afirmado  que o papel da arte não é dar respostas, mas levantar questões. Há, em “Amor”, questões abertas, que podem ser interpretadas de maneiras diferentes. Aí está  outra beleza do filme; permitir a cada um de nós uma leitura única feita a partir de quem somos. “A imaginação e a realidade têm muita pouca coisa em comum”,  diz um dos diálogos. É verdade. Assim como o amor, que tem um significado diferente para homens e mulheres, jovens e velhos. O que é igual para todos, infelizmente, é a força do tempo.

 

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