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Axl Rose mantém vivo o espírito rebelde do rock and roll

GUNS ENO 0327x Axl Rose mantém vivo o espírito rebelde do rock and roll

Axl Rose e sua banda mostraram em São Paulo um show recheado de hits e solos de guitarra. A foto é de Eduardo Enomoto

Poucas coisas no mundo da música são mais chatas do que gente que discute se o Axl Rose tem ou não o direito de chamar sua banda atual de Guns ‘N’ Roses. Sim, ele tem o direito. A razão é muito simples: o Guns ‘N’ Roses sempre foi a banda do Axl. E ponto final. “Ah, mas o Slash é que era legal”, dizem alguns fãs. Arrã. Talvez tenha sido por isso que o último show do Slash em São Paulo tinha cinco mil pessoas e o do Guns, ontem no Anhembi, tinha 22 mil.

É comum ouvir uma parcela da população que ‘entende’ de música criticar Axl Rose por uma série de razões. Ele vive recluso. Ele demorou anos para lançar um disco. Ele chega atrasado aos shows (o atraso foi de uma hora e meia ontem - só por curiosidade, Axl tem na parede de casa um quadro com a expressão 'A pontualidade é o ladrão do tempo', frase de Oscar Wilde).

Alguém poderia falar da música? Alguém poderia falar da importância do Guns para o rock nos anos 80/90? Ficamos acostumados ao bom mocismo corporativo de um Dave Grohl, do Foo Fighters, ou à rebeldia milimetricamente planejada de um Jack White, do White Stripes. Com tantos coxinhas por aí, a grande verdade é que Axl mantém vivo o espírito rebelde do rock and roll. Ele é o último roqueiro perigoso entre nós, o único que nunca fez concessões de nenhuma natureza. Axl é a personalização do espírito incontrolável que idolatrávamos em gente como Mick Jagger ou Ozzy Osbourne – antes de o politicamente correto se tornar a moeda corrente do mundo do entretenimento. Axl é imprevisível, invocado, casca grossa.

Apesar dessa fama de mau, o que vimos no show de ontem em São Paulo foi um Axl Rose mais calmo, focado, até mesmo em melhor forma física do que no último show por aqui, em março de 2010. Posso pagar a língua, mas a verdade é que ele parece um pouco mais... saudável. Deve estar cansado, sim, principalmente em razão da maratona de shows previstos nessa turnê brasileira, nove ao todo. Já foram Rio, BH, Brasília, São Paulo, e ainda faltam Curitiba (30 de março), Florianópolis (1 de abril), Porto Alegre (3 de abril), Recife (15 de abril) e Fortaleza (17 de abril).

Outro comentário vazio que as pessoas costumam fazer diz respeito a sua aparência física: “o Axl Rose não é mais o mesmo”. Não, ele não é. Dã. Quando o primeiro disco da banda, ‘Appetite for Destruction’, explodiu em todo o mundo, o cara tinha vinte e poucos anos. Hoje tem 52. Quem o critica por essa bobagem esquece o efeito que trinta anos impõem a qualquer ser humano – até mesmo ao Axl, vejam só que coisa incrível.

Há, porém, uma crítica legítima à sua capacidade vocal. Realmente, quanto a isso não há dúvida: Axl não tem mais o alcance que tinha no início da carreira. Mas qualquer pessoa com a mínima noção sobre o que é cantar sabe que o jeito que o Axl cantava não era sustentável (para usar uma palavra da moda) a longo prazo. Não tem como alguém manter aquela voz rasgada e esganiçada durante muito tempo. Mas confesso que até isso me deixou positivamente impactado no show de ontem, já que Axl apresentou uma performance vocal bastante razoável. Os tons das músicas do Guns são tão altos que só chegar ao final do show com voz já seria algo impressionante.

Voltando à polêmica sobre a banda de Axl, é óbvio que seria muito legal ver Slash ao seu lado. Tive a oportunidade de ver o Guns com sua formação original na turnê ‘Use Your Illusion’, quando eram a maior banda do planeta. No estádio lotado em Budapeste, na Hungria, Axl e Slash eram tão perfeitos juntos que remetiam imediatamente às grandes ‘duplas’ do rock, como Jagger & Richards, Daltrey & Townshend, Plant & Page... As lendas do rock costumam ter em comum esse tipo de formação, dois frontmen de personalidades complementares duelando pelos holofotes enquanto são endeusados e venerados (com toda a razão) pelo público.

Essa relação entre Axl e seus músicos – na verdade, a falta dela – foi o que me incomodou no show de ontem. Os três guitarristas do Guns são sensacionais, tocam muito (inclusive no sentido literal, já que há longos solos individuais de todos eles) e até tentam agitar a plateia com corridinhas e gracinhas (não sei se foi a cerveja, mas tive a impressão de ter ouvido o ‘tema da vitória’ do Ayrton Senna, entre as várias citações). Além disso, são tatuados, tem penteados esquisitos e tocam guitarras de design exótico, como exige o imaginário 'Manual do Rockstar do Século 21'. Mas a verdade é que falta carisma, falta personalidade, falta interação – e integração – com Axl.

Ou seja: os guitarristas DJ Ashba, Bumblefoot e Richard Fortus são excelentes músicos – mas péssimos artistas. Nos teclados, Axl manteve o veterano Dizzy Reed, o único remanescente, digamos, ‘das antigas’. No baixo, dá para ver que Axl gosta mesmo de baixistas com ‘atitude punk’, como era o velho Duff McKagan da formação original. Para ‘provar’ que é punk mesmo, o baixista atual Tommy Stinson cantou ‘Holidays in the Sun’, do Sex Pistols. A banda tem ainda Chris Pitman nos teclados e Frank Ferrer, músico de estúdio e membro do Psychedelic Furs, na bateria – todos excelentes e igualmente inexpressivos.

Apesar das críticas que Axl recebe, é impossível falar mal do show de ontem do ponto de vista do repertório. Tocaram canções de todas as fases da banda, de maneira bastante equilibrada. Depois da introdução ‘Far From Any Road’, que também é tema do seriado ‘True Detective’, o show começou com ‘Chinese Democracy’, canção que batiza o disco que ficou mais famoso pelo tempo que demorou para sair do que por suas músicas. O que é uma pena e uma injustiça: se as pessoas passassem o tempo que ficam fazendo fofocas sobre o peso do Axl Rose ouvindo o disco, saberiam que ‘Chinese Democracy’ é excelente, moderno, uma combinação perfeita de guitarras incendiárias e rock com pegada mais eletrônica. Os solos de Robin Finck (hoje de volta ao Nine Inch Nails) em ‘Better’ e ‘This I Love’ estão entre os melhores solos de todos os tempos em qualquer estilo.

Quanto ao tempo de gestação do álbum, concordo que doze anos é muito para qualquer artista (Axl começou a gravar em 1996 e o disco só saiu em 2008). Mas vamos lembrar que durante esse período todos os integrantes do Guns ‘N’ Roses deixaram a banda, e Axl teve que formar uma banda nova praticamente do zero. Se a gente imaginar que o Metallica não lança disco novo há seis anos e não enfrentou nenhuma mudança na formação nesse período, os doze anos de ‘Chinese Democracy’ nem parecem tão longos assim.

Na sequência do show vieram clássicos do primeiro disco da banda, sem dúvida uma das estreias mais sensacionais da história do rock. ‘Welcome to the Jungle’, ‘It’s so Easy’, ‘Mr. Brownstone’ foram cantadas animadamente pelo público. Apesar de serem grandes músicas, já as ‘novas’ ‘Better’ e ‘Catcher in the Rye’ não empolgaram muito. ‘Live and Let Die’, cover do Wings e trilha sonora de filme do James Bond, volta a acender a galera, apesar dos efeitos pirotécnicos meio fraquinhos. Um foguinho aqui, uma explosãozinha meia boca ali... – ai, que meeedo #sqn– , e a música chega ao fim.

A sequência é matadora: ‘You Could be Mine’, trilha sonora do filme ‘Exterminador do Futuro 2’, foi cantada por quase todo mundo – fato que só aconteceu mesmo na música seguinte, ‘Sweet Child O’mine’. Às vezes eu esqueço como esse riff é bom, afinal ele tocou muito e saturou a nossa paciência. Mas basta ouvi-lo ao vivo que a certeza volta: se não for um dos melhores riffs da história do rock and roll, então eu não entendo nada de guitarra.

Em ‘November Rain’, a gente redescobre que o Axl é uma espécie de Elton John pós-moderno. Em ‘Don’t Cry’, a gente comprova que o Slash era um grande compositor de solos, já que DJ Ashba repetiu sua melodia nota por nota. Em ‘Knockin on Heaven’s Door’, cover do Bob Dylan, a gente lembra que hit que se preza é hit com refrão forte e fácil de cantar.

O show está chegando ao fim. Depois de ‘Civil War’, épica como uma guerra civil, Axl diz adeus com ‘Nightrain’. Claro que tem 'mais um, mais um, mais um'... Depois de um trechinho de ‘You Can’t Always Get What You Want’, dos Rolling Stones, o Guns toca a enjoadinha ‘Patience’ e emenda em ‘The Seeker’, cover do The Who. A plateia, com muitos adolescentes, parece perguntar ‘quem?’, com o perdão do trocadilho. E daí o Guns termina mesmo com ‘Paradise City’, where the grass is green and the girls are pretty.

A dificuldade em achar um táxi na saída do Anhembi nos lembra que São Paulo está longe de ser uma ‘Paradise City’. Mas durante duas horas e pouco, o Anhembi foi, sim, um paraíso para os fãs de rock and roll. Não aquele rock and roll bonitinho, certinho, de barbinha milimetricamente por fazer, o rock and roll coxinha que a gente infelizmente acostumou a ver nos últimos tempos. O que vimos foi um paraíso recheado do mais puro e perigoso rock and roll. Em duas palavras, sem concessões. Para o bem ou para o mal, Axl Rose não fez ontem nenhuma loucura. Mas só de saber que ele pode explodir a qualquer momento... ah, isso nos traz de volta, ainda que por pouco tempo, o espírito imprevisível só vistos nos roqueiros de verdade. Se ele tem ou não uma causa, não importa: Axl Rose é um dos últimos rebeldes do rock and roll.

Setlist Guns ‘N’ Roses
Anhembi, São Paulo, 28 de março de 2014

Intro: Far From Any Road (The Handsome Family song)
1. Chinese Democracy
2. Welcome to the Jungle
3. It's So Easy
4. Mr. Brownstone
5. Estranged
6. Better
7. Rocket Queen
8. Live and Let Die
9. This I Love
10. Holidays in the Sun (Sex Pistols)
11. Catcher in the Rye
12. You Could Be Mine
13. Sweet Child O' Mine
14. November Rain
15. Abnormal (cantada pelo Bumblefoot)
16. Don't Cry
17. Knockin' on Heaven's Door
18. Civil War
19. Nightrain

BIS

26. Patience
27. The Seeker
28. Paradise City

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The Cure: Heróis humanos, demasiadamente humanos

 

THE CURE AgNews The Cure: Heróis humanos, demasiadamente humanos

É muita emoção: Robert Smith dá um abraço em 15 mil pessoas.  A foto é de Francisco Cepeda, da AGNews

 

Um show do The Cure no século 21 parece algo totalmente fora de época e contexto, como um zepelim pairando sobre a Avenida Paulista ou uma charrete dando uma volta pela Marginal Tietê na hora do rush. Nessa era de modernidade, de iPads, iPods e iEtcs, haveria espaço para a fragilidade psicodélica de um personagem como Robert Smith? Caberia um ser humano sensível e existencialista sentado na janela do trem que nos leva a Utopia/Distopia?

Mas é claro que sim. Nunca precisamos tanto de alguém como Robert Smith. Alguém cheio de defeitos, um estranho em plena sociedade onde só há espaço para as imagens artificiais do Instagram e dos perfis-perfeitos de Facebook. Alguém que aceita a idade e a decadência que ela traz junto, mas sem perder a elegância. Alguém humano, demasiado humano.

Se a palavra não estivesse tão desgastada, diria que Robert Smith é uma espécie de profeta. ‘Pai dos Darks’, diriam os mais velhos. ‘Pai dos Emos’, diriam os mais novos. Na época do primeiro show da banda no Brasil, no auge de ‘Boys Don’t Cry’, em 1987, lembro de uma entrevista de Smith em que o repórter perguntava por que ele só usava roupas pretas. Todo mundo esperava uma resposta existencialista, Nietzschiana, niilista, mas ele foi o oposto disso. “Passo muito tempo viajando por causa das turnês, as roupas pretas não precisam ser lavadas com tanta frequência.” Nunca mais esqueci isso. Ele estava sendo irônico ou sincero demais? Estava se expondo ou apenas tentando dar um ar mais leve ao peso de ídolo inatingível que já contaminava a cena pop pós-punk?

The Cure no Anhembi foi, como o esperado, uma viagem no tempo. Antes da banda entrar, fumaça de gelo seco. Como é que é? Mas e os efeitos especiais? Cadê a porra do 3D? Cadê as imagens holográficas? Se a pós-modernidade é uma doença, a boa música é a cura.

Música não precisa de efeito, obrigado. É só ligar a máquina de gelo seco, porque afinal também ninguém é de ferro e cinquentões (53) têm que esconder os defeitos. As 15 mil pessoas na plateia sabem disso. Gelo seco é tão anos 80, não? E os círculos girando atrás do palco no telão, criando um efeito hipnótico, então? Estamos mesmo de volta aos anos 80.

Mas os anos 80 não eram apenas Trash, como doutrinam ridículas festas temáticas espalhadas pela cidade. Se havia lixo como Sérgio Mallandro, Xuxa e Trem de Alegria, havia também The Cure para nos salvar nas noites de sábado.

Sim, Robert Smith está parecendo a mistura do Paul Stanley, do Kiss, com a Elizeth Cardoso. Está acima do peso. Perninhas em X, pezinhos torcidos pra dentro. O cabelo, se é que dá pra chamar de cabelo, está ralo, cai pelos cantos do rosto maquiado e o transformam em um espantalho gótico gorducho. A dancinha continua sem jeito, meio torta, tímida. É uma figura fora de época, repito. Como é possível amar um cara assim?

A resposta vem no primeiro acorde, quando ele começa a desfilar suas incríveis composições durante um show de mais de três horas. É isso mesmo, você ouviu direito: três horas de show. Três horas e quinze minutos, vai. Quarenta músicas. Quantas? Quarenta. Não vi ninguém reclamar, muito pelo contrário. Passar três horas nos anos 80, vivendo só o que havia de melhor na época? Foi até pouco. Odeio críticas aos anos 80. Toda década tem suas qualidades e defeitos, seus ídolos e suas farsas. Falar mal dos anos 80 é falar mal de mim, falar mal da minha adolescência. Olhando agora, tem muita coisa que parece ridícula. Mas quem somos nós para julgar o passado? Ainda vamos dar risada dos... desculpe, não sei o caracteriza essa geração. Nada, provavelmente, já que o mundo digital diluiu todas as tribos numa maldita cauda longa. "Nossa, ser 'nada' era tão anos 2000", dirão nossos netos.

Foram vários sucessos, claro: ‘In Between Days’, ‘Lovesong’, ‘Friday I’m in Love’. Eu gostei mais da fase ‘Pictures of You’ e ‘Lullaby’, acho que a psicodelia melódica do The Cure nos obriga a desacelerar e a nos emocionar. Que coisa 'old school' sentir alguma emoção, não? E, durante aquelas três horas, juro que nem lembrei que meu celular estava no bolso. E quantas coisas realmente importantes estavam acontecendo no Facebook, Twitter, Instagram, Pinterest durante as três horas do show? Quantas? Havia algo mais importante do que assistir a esse cara fora de época cantando sobre os amores problemáticos comuns a todas as gerações? Nah. Não chequei o celular e o mundo não acabou. #ficaadica (isso foi uma piada)

A banda de Robert Smith é muito boa, com destaque, claro, para o guitarrista Reeves Gabrels, braço direito de David Bowie durante muitos anos. No The Cure ele é menos experimental, menos esquisitão. Atualmente Reeves cria mais climas e faz poucos solos com poucas notas. É mais atmosférico, resumindo. Queria deixar registrado também que considero Robert Smith um guitarrista subestimado. Tecnicamente, ele não é rápido ou virtuoso. Mas suas composições têm layers (camadas) interessantes, belas e ricas. Suas bases são cheias de texturas, pequenos sons escondidos e delicados. Isso não é qualquer um que consegue criar, muito menos aqueles que valorizam apenas quem toca mil notas por segundo.

Por falar em guitarras, há muito tempo eu não ouvia tanto Phasers e Flangers– os guitarristas vão entender essa referência. São pedais de efeitos típicos dos anos 80, que criavam espirais sonoros que iam e vinham, como se a guitarra fosse o mar e as notas fossem as ondas (a descrição é visual, eu sei, mas não achei nenhuma melhor).

Na guitarra de Robert Smith, um adesivo chamava a atenção: ‘Citizens Not Subjects’. ‘Cidadãos, não sujeitos’. O que quer dizer isso? Consigo imaginar pelo menos umas 47 interpretações. Faça a sua. Como dizia o filósofo chinês, ‘cada um cada um’. (Não, um filósofo chinês nunca disse isso).

Perto do fim do show, é hora de cantar junto ‘Lovecats’, ‘Close to me’, ‘Let's go to bed’, ‘Boys Don’t Cry’... Uau! Eu nem lembrava que o The Cure tinha tantos hits!

O show é longo, mas não incomoda. As pessoas dançam sem exageros. Não há uma catarse, gritinhos histéricos, mas também não precisamos disso. Já temos quarenta e pouco. Precisamos de alguém que nos inspire, que nos lembre que o passado não precisa ficar para trás, ele deve ser incorporado ao presente para nos orientar no futuro. E todo futuro, quando se torna presente, traz consigo obrigatoriamente um pouco desse passado que não podemos varrer para debaixo do tapete. As máquinas do tempo são para isso mesmo.... Máquinas, mas quem falou de máquinas? É até irônico chamar de máquinas esse herói tão humano, falível e infalível em sua vulnerabilidade. Um herói verdadeiro, feito de carne, osso e maquiagem.

 

Setlist The Cure - Anhembi - São Paulo

1. Open

2. High

3. The End of the World

4. Lovesong

5. Push

6. In Between Days

7. Just Like Heaven

8. From the Edge of the Deep Green Sea

9. Pictures of You

10. Lullaby

11. Fascination Street

12. Sleep When I'm Dead

13. Play for Today

14. A Forest

15. Bananafishbones

16. Shake Dog Shake

17. Charlotte Sometimes

18. The Walk

19. Mint Car

20. Friday I'm in Love

21. Doing the Unstuck

22. Trust

23. Want

24. The Hungry Ghost

25. Wrong Number

26. One Hundred Years

27. End

 

Bis

28. The Kiss

29. If Only Tonight We Could Sleep

30. Fight

 

Bis 2

31. Dressing Up

32. The Lovecats

33. The Caterpillar

34. Close to Me

35. Hot Hot Hot!!!

36. Let's Go to Bed

37. Why Can't I Be You?

38. Boys Don't Cry

39. 10:15 Saturday Night

40. Killing an Arab

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Red Hot Chili Peppers: Aquecimento de luxo para o Rock in Rio

Red Hot Red Hot Chili Peppers: Aquecimento de luxo para o Rock in Rio

Eu sei que olhando essa foto é difícil acreditar, mas o Red Hot NÃO é uma banda gay

Quando a gente fala sobre rock and roll, geralmente a primeira coisa que vem à cabeça é uma guitarra. Ou um riff de guitarra - o que é a mesma coisa. Difícil imaginar uma banda de rock onde a guitarra fica meio em segundo plano, não? Na verdade, isso acontece com uma das bandas mais populares do rock atual: o Red Hot Chili Peppers.

Pelo menos foi isso que pareceu no show de ontem na Arena Anhembi, em São Paulo. A banda californiana fez um show bem legal, mas que teve uma característica meio estranha: claramente foi uma aquecimento para o Rock in Rio.

Isso já era esperado, até porque não é sempre que uma banda toca no Rock in Rio. É um festival importantíssimo, histórico. Mas também é claro que a maioria das bandas que vem a São Paulo aproveitando a viagem pela América do Sul deveria se importar com suas apresentações por aqui, maior mercado do país.

Voltando ao início do texto, o Red Hot privilegiou sua cozinha, que diga-se de passagem é sensacional. Eu já sabia que o baixista Flea era simplesmente incrível, apesar de sua performance ridícula no palco. Digo 'ridícula' com todo o respeito aos fãs da banda, que devem achar a mesma coisa. Flea pula de um lado para o outro com se tivesse tendo ataques epiléticos e fala coisas divertidas no microfone, como no momento em que ficou gritando nomes de jogadores do nada. 'Pelé'! 'Kaká'! 'Ronaldo'! 'Ronaldinho'!, gritou o baixista em um momento aleatório, sem qualquer razão aparente. Imagine uma banda brasileira fazendo um show nos Estados Unidos com um dos integrantes gritando entre as músicas. 'Shaquile O'Neal'! 'Magic Johnson'! 'Michael Jordan!' Seria ridículo, não? Flea faz isso de uma maneira bastante simpática, mas... ridícula.

Apesar de não ser muito normal, o cara é um excelente baixista. De repente ele caiu num caldeirão de ácido quando era criança, tornando-se uma versão californiana do Obelix, sei lá. Mas o que me surpreendeu foi o baterista Chad Smith: o cara é realmente fera, apesar de ter feito uma coisa bem anos 70: um solo de bateria antes do bis, acompanhado pelo percussionista brasileiro Mauro Refosco. A percussão brazuca deu um clima legal para o RHCP, embora tenha ficado totalmente como pano de fundo. Na verdade, a dupla que brilha é mesmo Chad Smith e Flea: a bateria e o baixo estavam bem altos na mix, por isso deu para ver como os dois são entrosados. Esse é o segredo do groove da banda, o que pode ser visto na melhor música do show, 'Higher Ground'.

A bateria e o baixo estavam tão altos que quase não se ouviu a guitarra. Talvez tenha sido falta de confiança no novo guitarrista, Josh Klinghoffer, cujo instrumento teve alguns problemas técnicos que ficaram bem evidentes na introdução de 'Under the Bridge', quando a guitarra falhou. Ou teria sido o próprio guitarrista? Klinghoffer toca bem, mas não chega aos pés do músico anterior, John Frusciante. Por uma única razão: Klinghoffer copia o antecessor de uma maneira que fica até chato, inclusive na postura 'muito louco' no palco. A diferença é que Frusciante parecia realmente estar muito louco, e seus solos eram reflexo desse estado meio catatônico-genial. Klinghoffer também toca passando a impressão de que vai cair no chão, mas parece um pouco ensaiado, como se 'ser muito louco' fosse condição sinequanon para assumir as guitarras do Red Hot Chilli Peppers. Lembrando que o primeiro guitarrista, Hillel Slovak, morreu de overdose de heroína e Frusciante admitiu o vício inúmeras vezes. Na verdade, Frusciante sempre quis ser Slovak, apesar de ser muito melhor que o ídolo morto. Além deles, também tocou guitarra no Red Hot o Jane's Addiction Dave Navarro, mas sua passagem foi curta e gerou apenas um disquinho bem meia boca, 'One Hot Minute'.

As mulheres vão me matar, mas o piorzinho da banda é o vocalista Anthony Kiedis. Ele estava super cool como sempre, apesar de parecer uma mistura de emo com mariachi mexicano. Sempre tenho a impressão de que ele se esforça para ser feio, talvez por achar que ser bonito é uma negação de seu talento. É o contrário: Kiedis é um vocalista que cria melodias bem construídas e que 'pegam', mas tecnicamente parece apenas um ex-surfista-tatuadão-doidão da Califórnia que se deu muito bem como rockstar.

O show de ontem teve como base o novo disco do Red Hot, 'I'm With You'. O disco é bem legal, apesar de ser uma repetição daquilo que ficou conhecido como o 'som Red Hot'. Ou seja, muitos clichês e repetições de outras fases da carreira. Mesmo assim, há músicas sensacionais como 'Ethiopia', que infelizmente não tocaram ontem. Como disse meu amigo Rodrigo Cerveira, que viu o show comigo, o repertório do novo disco foi 'bem mal escolhido'.

Os pontos altos, além de 'Higher Ground', foram os grandes hits da banda. 'Scar Tissue', 'Otherside', 'Under the Bridge', 'Californication' e 'By The Way', além da tradicional 'Give it Away'. Faltaram mais músicas de 'Blood Sugar Sex Magik', o melhor disco da banda e um dos álbuns mais incríveis da década de 90. Quem sabe eles tocam as que faltaram no Rock in Rio?

Setlist

Monarchy of Roses
Can't Stop
Tell me Baby
Scar Tissue
Look Around
Otherside
Factory of Faith
Throw Away Your Television
The Adventures of Rain Dance Maggie
Me & My Friends
Under the Bridge
Did I Let you Know
Higher Ground (cover do Stevie Wonder)
Pea
Californication
By the WayBisDance, Dance, Dance
Don't Forget Me
Give it Away

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Os deuses do metal poderiam ser mais humanos

judas priest Os deuses do metal poderiam ser mais humanos

Judas Priest: 40 anos de carreira em um show tecnicamente impecável

Nos anos 80, nenhuma outra banda definia tão bem o que era ser heavy metal quanto o Judas Priest. As roupas de couro, os rebites, as guitarras pesadas, tudo contribuía para que os músicos do Judas se tornassem conhecidos como os 'deuses do metal' entre os headbangers. Ajudou também, claro, o fato de eles terem uma canção chamada 'Metal Gods', mas isso é apenas um detalhe: o Judas sempre foi sinônimo de heavy metal. Mais que isso, eles foram o elo de ligação entre o hard rock pesado do Black Sabbath e a 'New Wave of British Heavy Metal', que nos deu bandas como Iron Maiden e Saxon, entre outras.

Quando eu era adolescente, eu adoravva me vestir de preto e, invariavelmente, com a camisa de alguma banda. A primeira de dezenas que comprei foi a do Judas Priest, banda que eu adorava. Para mim, só o fato de eles terem influenciado o Iron Maiden já era suficiente para elevá-los às alturas. E não precisava nem gostar da banda inteira: o Judas sempre foi, na verdade, o vocalista Rob Halford e os guitarristas K.K. Downing e Glen Tipton. O baixista e o baterista eram meros coadjuvantes do trio que brilhava à frente no palco. Para aumentar o mistério, na época a gente nem estava acostumado a ver o Judas ao vivo, apenas em fotos. Pelas fotos (e pela ingenuidade), nunca desconfiarímos que Rob Halford era gay. Hoje, olhando para trás, não podia ser mais óbvio: aquele visual S&M, com chicote e quepe de motoqueiro, deixava qualquer Freddie Mercury no chinelo. Teria feito alguma diferença saber que Halford era gay quando éramos adolescentes? Difícil dizer. Acho que teria sido a mesma coisa, já que ele só era o nosso ídolo do ponto de vista musical.

Eu já tinha visto o Judas no Rock in Rio 2, em 1991. Mas festival de rock dilui tanto as bandas que nem me lembro direito da apresentação. No último sábado, vi meu segundo show do Judas Priest. E ainda ganhei o Whitesnake de quebra.

O Whitesnake ficou famoso entre o público brasileiro graças ao Rock in Rio 1, em 1985, o evento que gerou o termo 'metaleiro'. O Whitesnake nem era tão pesado assim, era uma coisa mais para trilha sonora de 'Hollywood, o sucesso'. Mas o hard rock cheio de refrões fáceis ganhou a plateia logo de cara, e temos que lembrar que a banda ganhou muito pelo fato de ter dois galãs como frontmen, o vocalista David Coverdale e o guitarrista John Sykes.

Na turnê atual, que passou por quatro cidades brasileiras (SP, Rio, BH e Brasília), o show duplo trouxe o Whitesnake na abertura e o Judas como atração principal. Muito justo, até porque o Judas está fazendo sua turnê de despedida, 'Epitáfio'. O show do Whitesnake foi muito legal, apesar do vocalista David Coverdale não ter mais a potência vocal que tinha na época do Deep Purple. Sua voz ficou rouca rapidamente, apesar do show ter sido curto, com 1h10 de duração. Para preservar sua voz, a banda teve que apelar para alguns pequenos solos individuais, principalmente dos guitarristas Reb Beach e Doug Aldrich. Não foi nem um pouco ruim, já que os dois são grandes músicos e bastante carismáticos no palco. Esquecendo o lado musical, nos últimos anos Coverdale também andou exagerando um pouco no Botox, o que acabou alterando um pouco seu rosto. As garotas continuam achando que o roqueiro de 60 anos é sexy, lindo e maravilhoso, mas quando o telão dava closes no rosto dele dava para ver que ele já não está tão bem assim. É um grande artista, fez muito pelo rock, nem precisava se preocupar tanto com as rugas.

O show do Whitesnake foi repleto de sucessos, o que já era esperado. 'Love Ain't no Stranger', 'Gimme All Your Love Tonight', 'Is This Love?', 'Love Will Set you Free' (94% das músicas do Whitesnake tem 'Love' no título), 'Here I go Again', 'Still of the Night'. Mas a melhor, para mim, foi a versão 'Burn/Stormbringer', uma das melhores canções da história do rock. O Whitesnake mostrou algumas músicas do seu novo disco, 'Forevermore'. Muito boas, mas as pessoas queriam ver mesmo as antigas. Faltou só 'Guilty of Love', o maior sucesso da época do Rock in Rio 1.

O Judas entrou com força total: palco completo, cheio de correntes e labaredas, e som bem mais alto que o Whitesnake. O repertório desfilou clássicos de toda a carreira da banda. Quem diria, até do disco de estreia, 'Rocka Rolla', os caras tocaram (infelizmente não foi a música 'Rocka Rolla', a mais legal do disco). O som estava perfeito e o setlist agradou a fãs de todas as idades. Só me permita, por favor, fazer um comentário sobre o comportamento da banda no palco. O vocalista Rob Halford, embora perfeito tecnicamente, me pareceu um pouco apático; andando de um lado para o outro, como tivesse a obrigação de estar ali. Não sei por que, mas achei um clima bastante diferente, por exemplo, dos últimos shows do Iron Maiden no Brasil. A banda de Steve Harris mostra uma felicidade sincera em estar no palco; o Judas foi  perfeito musicalmente, sem erros, mas faltou um pouco de emoção. Será que foi impressão minha? Não sei. Halford parecia mais preocupado em trocar de figurino a cada música do que em se relacionar de maneira verdadeira com a plateia. Achei o Judas meio frio, o que contrastava com a excitação da plateia em ver a turnê de despedida dos ídolos. Algumas canções continuam a ser hinos imortais do metal, como 'Electric Eye', 'Green Manalishi' e a mais famosa, 'Breaking the Law'. Mas a energia que emanava da plateia não provocou o impacto que eu esperava nos músicos. Por favor, não me entenda mal: o show foi tecnicamente perfeito, inclusive com repertório que trazia todas as fases da banda (até 'Turbo Lover' rolou). Mas o show de uma banda idolatrada como o Judas não depende exclusivamente da técnica. É preciso haver uma troca de energia que, na minha opinião, poderia ter sido mais intensa. O diálogo entre fãs e ídolos foi meio desequilibrado: para mim, o público estava mais animado que a banda. Talvez essa seja a última turnê porque eles estão realmente cansados após 40 anos de carreira no último volume.

Isso pode ter sido apenas impressão minha, admito. Meu irmão e outros amigos que estavam comigo adoraram o show, acharam que estava tudo exatamente como o esperado. E eu não consegui sequer explicar o que estava faltando. Talvez tenha sido culpa exclusivamente minha, uma certa decepção ao constatar que a banda que eu amava na minha adolescência não me emociona mais tanto quanto antes. Ou talvez eu estivesse procurando algo que não estava mais ali: a 'volta àquela época', a rebeldia que agora soa um pouco datada, a busca por quem eu era e nunca mais serei. As músicas que eu adorava ouvir em fitas cassetes caindo aos pedaços estavam saindo das caixas de som, mas algo estava errado. Estava tudo perfeito e, ainda assim, algo soava fora de época ou de lugar.  O Judas contou a história que se esperava dele, não houve nenhum elemento surpresa. Mas acho que eu estava procurando justamente por esse momento de improviso, algo que provaria que aqueles caras no palco eram humanos - não deuses.

whitesnake Os deuses do metal poderiam ser mais humanos

Whitesnake: David Coverdale e seus colegas de hard rock

Setlist Whitesnake

Best Years

Give Me All Your Love

Love Ain't no Stranger

Is This Love?

Steal Your Heart Away

Forevermore

Love Will Set You Free

Here I Go Again

Still of the Night

Soldier of Fortune

Burn/Stormbringer

 

Setlist Judas Priest

Rapid Fire

Metal Gods

Heading Out to the Highway

Judas Rising

Starbreaker

Victim of Changes

Never Satisfied

Diamonds & Rust (cover da Joan Baez)

Dawin of Creation

Prophecy

Night Crawler

Turbo Lover

Beyond the Realms of Death

The Sentinel

Blood Red Skies

The Green Manalishi (with the Two Pronged Crown), (cover do Fleetwood Mac)

Breaking the Law

Painkiller

Bis: The Hellion / Electric Eye

Hell Bent for Leather

You've Got Another Thing Comin'

Bis 2: Living After Midnight

 

 

 

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Ozzy Osbourne: O príncipe das trevas e da chuva

ozzy picnik Ozzy Osbourne: O príncipe das trevas e da chuva
Se Keith Richards e Boris Karloff tivessem um filho, ele seria Ozzy Osbourne. Foto de Andre Penner/AP Photo

Na última sexta-feira, um dia antes do show de Ozzy Osbourne na Arena Anhembi, em São Paulo, assisti a um especial da MTV sobre o príncipe das trevas. O programa mostrava Ozzy no estúdio com sua nova banda, gravando videoclipes e até participando de uma pegadinha com seus fãs. Fazendo uma alusão ao refrão de seu novo single, ‘Let me hear you scream’ (Deixe-me ouvir você gritar), a produção da MTV retirou a estátua de cera de Ozzy de um museu em Los Angeles e pediu para o próprio vocalista ocupar o local. Ou seja, Ozzy ficava ali paradinho esperando a chegada dos fãs. Quando alguém se sentava ao lado da ‘estátua’ para tirar uma foto, Ozzy se mexia e dava um susto. Fizeram isso umas 50 vezes, eu chorei de rir em cada uma dela.

Comecei o texto falando sobre isso porque a brincadeira dá dimensão de quem é o ‘personagem’ Ozzy Osbourne hoje em dia. Quem acha que Ozzy é apenas um vocalista de heavy metal não tem noção do que representa sua figura para a cultura pop. Ozzy é um Nosferatu pós-moderno, com tudo de paradoxal e farsesco que isso representa. Sim, ele é vocalista de heavy metal e um dos principais pioneiros do rock pesado em todo o mundo. Mas ele também é um rufião que sabe muito bem transformar sua imagem de louco em milhões de dólares.

A carreira de Ozzy começou como a de dezenas de outros rockstars: lançando um disco atrás do outro, fazendo turnês exaustivamente longas por todo o planeta, consumindo álcool e drogas em quantidades assustadoras para os padrões da população ‘civil’. Desnecessário dizer que Ozzy e seus companheiros da formação original do Black Sabbath - o guitarrista Tony Iommi, o baixista Geezer Butler e o batera Bill Ward - praticamente inventaram em 1969 o heavy metal como conhecemos hoje, pelo menos a escola mais ‘escura’ desse estilo de tantas vertentes.

Ozzy ficou apenas dez anos no Black Sabbath, mas foi o suficiente para criar obras clássicas, como os discos ‘Black Sabbath’, ‘Paranoid’, ‘Master of Reality’, Sabbath Bloody Sabbath’ e outros. Ozzy saiu e engatou uma bem sucedida carreira solo; o Sabbath também se deu muito bem ao contratar o (recém-falecido, infelizmente) vocalista Ronnie James Dio e criar um novo catálogo de clássicos de estilo um pouco diferente.

A partir do lançamento do primeiro disco de sua carreira solo, 'Blizzard of Ozz', em 1980, ficou claro que Ozzy não era mais apenas um vocalista de heavy metal. Ele era Ozzy Osbourne, príncipe das trevas.

Vamos imaginar uma cena grotesca: se Keith Richards e Boris Karloff tivessem um filho, ele seria Ozzy Osbourne.

Tudo ficou mais exposto com o reality show The Osbournes, que mostrava o dia a dia na casa de Ozzy e sua família. A série ridicularizava o roqueiro mostrando que ele obedecia cegamente à mulher em tarefas mundanas e parecia um fantoche dentro de sua própria casa. Por outro lado, o show rendeu milhões de dólares e levou a imagem de Ozzy a um público que normalmente teria medo dele ou, pelo menos, antipatia.

Mostrou que, por trás da imagem vendida durante anos de 'príncipe das trevas', Ozzy não passava de um tiozinho meio atrapalhado e inofensivo. Como fã de Ozzy, achei meio desrespeitoso. Hoje entendo que não era nada disso. Essa imagem foi pensada e construída ardilosamente por Ozzy e Sharon Osbourne, sua mulher e empresária.

Percebi isso na entrevista coletiva que Ozzy deu em São Paulo e que você pode ver trechos abaixo, em matéria da TV Estadão. Ozzy diz que nunca mais fará um programa de TV, atribuindo ao estresse das gravações o câncer da mulher Sharon e o envolvimento dos filhos Jack e Kelly com drogas. Dito isso, que deve ser verdade, Ozzy disse na coletiva que tem uma vida normal e que seu dia a dia consiste basicamente em limpar o cocô dos cachorros a mando da mulher.

Achei isso meio forçado porque essa foi justamente uma das cenas mais famosas do reality show. Ora, estamos falando de algo que a TV mostrou há anos. É inconcebível imaginar que a vida de Ozzy em casa ainda é pegar cocôs de cachorro no chão. Portanto, ao que parece, Ozzy ‘usa’ deliberadamente a imagem que o reality show exibiu, optando por divulgar uma imagem planejada vis-à-vis sua imagem real: a imagem de um tiozinho meio atrapalhado e inofensivo já está espalhada, não é preciso explicar muita coisa. Ao usar essa imagem conscientemente, Ozzy deixa de ser o Ozzy-vocalista-de-heavy-metal e se torna Ozzy-o-ídolo-da-cultura pop-personagem-de-reality-show. É mais fácil ser um Nosferatu pós-moderno do que um artista que continua se desafiando artisticamente após tantos anos de carreira.

Quando sobe ao palco, no entanto, qualquer resquício desse personagem desaparece. Lá não tem Sharon Osbourne para encher o saco, nem produtores de reality show ou marqueteiros. Lá é o lugar de Ozzy e sua banda de garotos que poderiam ser seus netos. E se tem um cara que sabe montar uma banda de rock pesado, esse cara é o Ozzy.

Ozzy já trabalhou com alguns dos melhores guitarristas do mundo. Ele tem faro, sabe escolher um desconhecido em transformá-lo em um guitar hero. Tudo bem, isso na Califórnia nem é tão difícil assim: lá os guitar hero crescem em árvores. Mas Ozzy tem o seu mérito; basta ver a lista de guitarristas que passaram por sua banda.

Depois de Tony Iommi, Ozzy descobriu Randy Rhoads. O baixinho loiro ex-Quiet Riot precisou de apenas três discos para entrar para a história do rock. Basta ouvir os riffs e solos de ‘Crazy Train’ e ‘Mr. Crowley’, considerados até hoje solos mais incríveis da história da guitarra. Rhoads morreu cedo, vítima de um estúpido acidente aéreo, e a partir daí outros grandes guitarristas começaram a se revezar no estúdio e no palco, sempre ao lado esquerdo de Ozzy: Brad Gillis, Jake E. Lee, Zakk Wylde e, agora, Gus G.

Ainda não chovia quando o Sepultura esquentou o público com seu repertório ultra-conhecido dos brasileiros. Ozzy entrou ao som de ‘Bark at the Moon’, mas infelizmente a lua não podia ser vista porque as nuvens já começavam a atrapalhar a das vinte mil pessoas da plateia.

Ao contrário do Iron Maiden, que tocou no show da semana passada um repertório composto basicamente por músicas novas, Ozzy foi mais populista e cantou praticamente apenas velhos sucessos. ‘Let me Hear You Scream’, a segunda do show, foi a única exceção. Mas a música é bem legal, então o ritmo do show não foi quebrado em nenhum momento. ‘Mr. Crowley’ dispensa comentários, e pudemos ver o talento do guitarrista grego Gus G. Quem é fã de Ozzy, gosta que seus guitarristas mantenham os solos originais, principalmente os de Randy Rhoads, que são inesquecíveis. Gus fez isso: tocou nota por nota a melodia imortal criada por Rhoads. O público até cantou o solo...

Foi nessa hora que a chuva começou a cair com mais força. E continuou assim até o final do show, incomodando todo mundo. Para mostrar que não tinha medo de água, Ozzy jogou um balde de água sobre a própria cabeça. ‘Fuck the rain!”, gritou, em mais um arroubo de sua já conhecida educação britânica.

Veio então outra do disco ‘Blizzard of Ozz’, a pesadona ‘I Don’t Know’. ‘Fairies Wear Boots’ foi a primeira do Black Sabbath, mas acho que a música poderia ter sido melhor escolhida (‘Sabbath Bloody Sabbath’, ‘Children of the Grave’ ou ‘Sympton of the Universe’ teriam sido mais legais, na minha opinião).

‘Suicide Solution’ e ‘Road to Nowhere’ vieram depois, preparando terreno para um dos grandes hinos do rock pesado: ‘War Pigs’. Sensacional! ‘Shot in the Dark’ é meio breguinha, mas foi hit nos Estados Unidos, e por isso Ozzy sempre dá um jeito de incluí-la na turnê.

‘Rat Salad’, outro cover do Black Sabbath, é o momento em que Ozzy vai para o camarim descansar (ou tomar uma injeção de vitamina, como fez aqui no último show, entre outras coisas divertidas). Solo de guitarra de Gus G., solo do batera (animal) Tommy Clufetos. Rob ‘Blasko’ Nicholson (baixo) e Adam Wakeman não fizeram solos, mas os dois também se revelaram músicos talentosos. Adam Wakeman, inclusive, tem a quem puxar: ele é filho de Rick Wakeman, o lendário ex-tecladista do Yes.

Ozzy volta ao palco com energia, afinal, ele é o homem de ferro... sim, ‘Iron Man’ é a próxima, outro hino do Sabbath. ‘I Don’t Want to Change the World’ é simpatiquinha, assim como ‘Mama I´m Coming Home’. Eu gostei mesmo de ‘Crazy Train’, e daí veio o final apoteótico: ‘Paranoid’. Finished with my woman 'cause she couldn't help me with my mind...

Assistir a um show debaixo da chuva é péssimo, não importa que é o artista. Confesso que isso atrapalhou um pouco o show, apesar de Ozzy não ter a menor culpa, claro. Acho que mandar aquela quantidade de chuva deve ter sido uma vingança dos deuses, provavelmente inconformados com a popularidade do príncipe das trevas. Sagrado ou maldito, Ozzy é uma voz única, muito mais interessante e talentosa que a imagem de tiozinho meio atrapalhado e inofensivo vendida pela TV. Eu prefiro o Ozzy do palco.

Ozzy Osbourne na coletiva em São Paulo: 'Sou apenas um cara normal'

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Eu quero a Sandy de volta

sandy2 Eu quero a Sandy de volta

Olha aí: até a cara da Sandy já mudou. E esse negócio na cabeça, então? Será que vem aí um vídeo no estilo Sandy Gaga? A foto é de Bertrand Linet

Querida Sandy,

não pude deixar de vê-la em sua nova versão, digamos, mais ‘saidinha’. Afinal, você estava em todas as revistas, comerciais de TV e fotos de camarotes do carnaval. Quer dizer, pelo menos a legenda da foto dizia que era você. Era mesmo?

Na TV, você diz que ‘todo mundo tem um lado devassa’. Sério? Você tem mesmo um lado devassa? Qual é, o esquerdo ou o direito? Quer dizer que, antes de você voltar a cantar com seu irmão, o que vai irremediavelmente acontecer em breve, você está pensando em gravar um vídeo como Sandy Gaga?

Cuidado, as coisas não são tão fáceis assim. Você não pode sair dizendo que tem um lado devassa por aí sem mostrá-lo. Vão exigir que você dê uma turbinada nos seios, coloque aplique no cabelo (esse loiro fraquinho não é suficiente) e vista microssaias de couro. Depois vão querer que você faça aulas de poledancing. E não vão demorar para lançar a campanha ‘Sandy na Playboy’. Só digo uma coisa: se alguém chamar você de ‘Sandy Popozuda’ eu vou dar porrada.

Sei que artista é profissional e tem que ganhar a vida. Mas imagina você num boteco, enchendo a cara de cerveja enquanto vê o jogo do Timão com um bando de manos numa rodinha de samba. Não rola. Não seria melhor ter escolhido uma marca de champanhe para anunciar? Ou de suco de laranja?

Não estou te julgando, longe disso. É que você não é devassa. Devassa é aquela Paris Hilton, que tem vídeo pornô correndo pela internet. Devassa é a Bruna Surfistinha ou as sambistas que aparecem na TV usando apenas tapa-sexo. Você não é assim. Você é a Sandy. A nossa Sandy. Se você tiver mesmo esse lado devassa, isso significa que a humanidade está perto do fim. Por favor, me escreva um e-mail dizendo que tudo não passou de um engano. Não sei se conseguiria viver num mundo onde você simboliza a mulher devassa. Assumir que você tem um lado devassa não é apenas um golpe fatal para as mulheres ‘pra casar’. É uma ofensa às devassas, que também têm uma reputação a (não) manter.

Eu sei, esses publicitários são meio loucos mesmo. Você viu que colocaram a Gisele Bündchen como dona de casa para vender TV por satélite? Imagina você chegar em casa do trabalho e dar de cara com a Gisele de avental, com cabelo cheio de bob, cheirando à fritura? Não dá, né? Agora, se ela estivesse em um bar, linda, loira, enchendo a cara de cerveja como uma verdadeira devassa, aí eu não comprava só a TV: eu comprava o satélite.

Aguardo seu e-mail garantindo que tudo não passou de uma grande confusão e que você voltou a ser a nossa Sandy de sempre.

Beijos, F.

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A Copa do Mundo de Carnaval

Ellen Roche A Copa do Mundo de Carnaval

Ellen Roche foi a Rainha da Bateria da Rosas de Ouro, que ganhou o título em São Paulo. Foto de José Patrício/AE

Sei que você não aguenta mais ouvir falar de Carnaval. Eu também não. A diferença é que, provavelmente, você está cansado após uma semana de folia, enquanto eu não aguento ouvir falar de Carnaval há 39 anos, 6 meses e 17 dias.

Nunca contei de onde vem meu trauma para ninguém, mas acho que agora é um bom momento. Tudo começou na minha infância, quando passei o Carnaval em Olinda, perto de Recife. Tenho certeza de que há alguma lei proibindo a presença de crianças em eventos como esse. Se não há, deveria haver. Passei o dia inteiro subindo e descendo ladeiras, em meio a uma multidão de bêbados e odores que não vou lembrar para não estragar seu almoço de domingo. À noite, ainda tive que ver um show do Alceu Valença. Como sempre, há uma boa razão por trás de todo trauma.

Apesar disso, tive uma ideia muito legal para incrementar o Carnaval.

Carnaval e futebol estão cada vez mais próximos, o que pude constatar pessoalmente durante o emocionante desfile da Gaviões da Fiel (sim, eu estava ali a trabalho; há provas na TV Estadão, abaixo). O Brasil é o país do futebol, o Brasil é o país do Carnaval. Por que, então, não criar a Copa do Mundo... de Carnaval?

A primeira edição poderia ser no Rio de Janeiro, já que não sou bairrista. Porém, sem querer criar polêmica, descobri por que o Carnaval do Rio parece sempre mais bonito que o de São Paulo. OK, o Rio tem a tradição, o samba, etc. Mas a questão é puramente arquitetônica: a pista do Sambódromo de São Paulo tem 530 metros de comprimento por 14 de largura. A do Sambódromo do Rio tem 600 por 12. Ou seja: o de SP é mais curto e mais largo; é por isso que você aqueles vazios deprimentes durante o desfile pela TV.

Voltando à Copa do Mundo de Carnaval, seria legal tirar a limpo e ver quem tem o melhor carnaval do mundo. Participariam mascarados de Veneza; fortões da parada gay de São Francisco; dragões e tigres das festas chinesas. E escolas de SP e RJ, blocos de rua de Pernambuco, trios elétricos de Salvador. Tudo isso durante quatro dias, ininterruptos, de loucura e folia. Na quarta-feira de cinzas, os sobreviventes levantariam a taça de Campeão do Mundo e dariam a volta olímpica pela cidade.

Acho que seria bem interessante. Aí, sim, veríamos um desfile de várias culturas dialogando entre si, um aprendizado em que até as crianças sairiam ganhando.

(“Peraí, o cara diz que não gosta de Carnaval e agora sugere a criação de uma Copa do Mundo de Carnaval?”)

Como sempre, há uma razão por trás de toda boa ideia: como a Copa do Mundo, o Carnaval só aconteceria de quatro em quatro anos.

Trechos do desfile da Gaviões da Fiel

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