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Com quase 40 anos de carreira, Barão Vermelho apresenta a terceira geração

Baraop Com quase 40 anos de carreira, Barão Vermelho apresenta a terceira geração

Barão Vermelho Mark III: Rodrigo, Maurício, Rodrigo Suricato, Guto e Fernando

Meus bons amigos, onde estão? Notícias de todos, quero saber. Cada um fez sua vida de forma diferente. Às vezes me pergunto, malditos ou inocentes?

Inocentes, na minha opinião. Bandas que fizeram e fazem a história do rock brasileiro não podem ficar reféns de seus vocalistas. Até porque, por mais que o grande público se identifique com os integrantes que acabam ganhando mais destaque nos holofotes - os vocalistas, geralmente -, não dá para esquecer que ao lado deless há (quase sempre) uma grande banda e, principalmente, um repertório que merece continuar vivo.

Sim, depois de Barão Vermelho sem Cazuza, agora teremos Barão Vermelho sem Frejat. A nova formação da banda conta com Rodrigo Suricato nos vocais e está na estrada com a turnê #BARÃOPRASEMPRE. O que podemos esperar dessa mudança?

Não conheço bem Rodrigo Suricato, sei apenas que ganhou destaque em um reality show na TV. Também sei que em 2015 sua banda ganhou um Grammy latino de Melhor Álbum de Rock Brasileiro com 'Sol-te'.  Sinceramente acho que esse início na TV não quer dizer nada hoje em dia: apesar de acreditar teoricamente que uma banda de verdade nasce na garagem e ganha o público aos poucos, escalando o estrelato palco a palco, não vejo sentido em defender que esse é o único modo possível de se chegar ao sucesso, ainda mais hoje em dia. Seria como dizer que um casal não pode se amar e ser feliz de verdade apenas porque se conheceu no Tinder. These are strange times we're living in, concordo. Mas, assim como somos obrigados a ter um senso de realpolitik na política, talvez seja a hora de enfrentar também a realidade inevitável da realmusik.

Difícil dar a opinião sobre o novo Barão antes do primeiro show da banda em São Paulo, o que acontece em 1 de julho, no Tom Brasil, em São Paulo. Mas acredito que, mais importante que seus vocalistas, o que é incrível no Barão é o seu repertório. Claro que Cazuza foi um ícone para muita gente; Frejat também criou seu próprio estilo e se consolidou com um excelente frontman. Mas convenhamos que Cazuza já estava muito mais para pseudo-poeta-da-MPB no final de sua fase no Barão, assim como Frejat está hoje muito mais para um compositor mais romântico, tranquilo, do que para o guitarrista-roqueiro que ele um dia já foi. E isso não é uma crítica, pelo contrário.

Cada artista tem que respeitar seu momento, seu timing, sua verdade. (OK, essa última frase soou um pouco cabeça demais). Mas acho que é isso aí, Cazuza e Frejat foram bem sucedidos porque responderam nos palcos à realidade de suas vidas e à vontade de se expressar artisticamente naquele período. O que não acho justo é aposentar uma banda com um repertório que tem clássicos como 'Bete Balanço', 'Pro Dia Nascer Feliz', 'Por Você' (minha favorita), 'Por que a Gente é Assim' apenas porque seus vocalistas cansaram do rock and roll.

Vamos torcer para Suricato, mas, de qualquer maneira, o renascimento do Barão aos 36 anos de idade merece palmas. E lembrando que não foi apenas Cazuza que morreu nessa história: o percussionista Peninha, fundamental para o som do Barão, faleceu no ano passado. Era um dos caras mais malandros e divertidos que conheci. Joguei bola com o Barão em um evento da MTV na praia há alguns anos e realmente achei que eles iam se matar durante o jogo, de tanto que gritavam uns com os outros. Peninha brigava com Frejat, que brigava com Rodrigo, que brigava com Peninha. Quando acabou o jogo e todos abriram suas respectivas cervejas, reconheci a química das longas amizades: era tudo bobagem, "papo de boleiro". O resto é rock and roll.

Com exceção do vocal Rodrigo Suricato, o Barão mantém o mesmo time de sempre: o batera Guto Goffi, um dos fundadores do grupo, na bateria; Fernando Magalhães na guitarra; Rodrigo Santos no baixo e Maurício Barros, também fundador do grupo, nos teclados.  “Nessa nova fase, que chamo de terceira geração da banda, recebemos com grande prazer, agora de forma permanente, o meu amigo Maurício Barros, fundador do grupo, que havia deixado o Barão em 1988, embora tenha participado como convidado das últimas turnês”, conta Guto.

Foi Maurício, aliás, quem sugeriu o nome de Rodrigo Suricato: “Com a saída do Frejat e a decisão de seguir com os planos do grupo, a primeira providência era escolher alguém para assumir os vocais. Quando surgiu o momento, entre outros nomes, eu falei do Suricato. Todos aprovaram e entrei em contato pra saber o que ele achava da ideia, já que tinha a sua própria banda. Pra nossa alegria ele topou na hora. Dias depois fomos para um estúdio e, sem ensaio, tocamos 19 músicas do repertório do Barão, inclusive músicas menos conhecidas“, comemora.

Rodrigo Suricato diz que foi pego de surpresa: “Fiquei imensamente lisonjeado. Vi que era uma oportunidade de expressão artística diferente do que eu vinha fazendo, embora haja muita identificação da minha parte com o grupo. Minha maior preocupação é fazer muito bem o que já foi feito, pois não tenho dúvidas de que desenvolveremos também um lindo material inédito. Vê-los com todo gás e com confiança no que faço, já valeu a viagem”, comemora.

O novato Suricato tem um grande desafio pela frente, mas são nesses momentos que os grandes artistas se revelam.

Estarei na primeira fila torcendo para que, ao final do show, a gente possa comemorar até o dia nascer feliz.

Boa sorte ao Suricato e longa vida ao Barão!

#BARÃOPRASEMPRE

Tom Brasil: Rua Bragança Paulista, 1281 – Chácara Santo Antônio

Data: Sábado, 1/7/2017

Horário de início do show: 22h

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Feliz Dia dos Namorados para todos nós

an affair to remember1 Feliz Dia dos Namorados para todos nós

Cary Grant e Deborah Kerr em 'Tarde Demais para Esquecer'

Hoje o Brasil está dividido. Não, não estou falando de mortadelas ou coxinhas, nem de corintianos e são-paulinos, muito menos de tucanos e petistas. No entanto, é algo, digamos, parecido. De um lado, enfrentando as filas de motéis, postando fotos com a hashtag #mozão e fazendo a alegria das floriculturas, os casais de namorados. Do outro, o resto.

Dia dos Namorados é uma daquelas datas que a gente critica, mas não consegue escapar. Quer dizer, tem gente que até consegue: tenho um amigo tão pão-duro, mas tão pão-duro, que todo ano o cara costuma inventar uma briga dias antes da data só para não ter de comprar presente. Infelizmente, sua namorada costuma ler este blog... Ou seja, o plano dele acaba de ir por água abaixo (eu faço isso para o seu bem, ok, Maurício?).

Dia dos Namorados perfeito é aquele que começa à noite e termina... de manhã. E, nesse intervalo, acontece tudo aquilo que a gente não pode abordar em um blog-família como este. Mas uma coisa eu posso dizer: tem coisa mais gostosa do que ganhar um presente que foi escolhido com carinho, com a nossa cara, algo que a gente queria há um bom tempo? Não, não tem. Em primeiro lugar, por causa do presente em si. Em segundo, e mais importante, porque prova que a outra pessoa ouve o que você fala e se preocupa com seus desejos. E nada é mais fundamental em um namoro do que atender os desejos do outro.

Se você quer outro conselho, ligue para seu restaurante favorito e faça uma reserva. Ou melhor: convide-a para jantar na sua casa e prepare uma refeição maravilhosa. Mas só faça isso se você sabe exatamente o que está fazendo. Ou seja, não faça se você for como eu, alguém mais para chapeiro de lanchonete do que para Alex Atala.

O Brasil está dividido, mas não há vencedores ou perdedores. Tem gente que é feliz em ser solteiro. Assim, pode sair para a balada com várias cantadas na manga. Não há nada melhor, por exemplo, do que conhecer alguém e prometer um presente maravilhoso... no ano que vem.

O Dia dos Namorados também é uma boa oportunidade para esclarecer o tipo de relacionamento que você tem. Hoje em dia, ‘namoro’ é apenas uma das opções do variado cardápio de relacionamentos disponível no mercado.

Por exemplo: não importa o quanto sua mulher reclame, quem é casado não precisa dar presente no Dia dos Namorados. Ponto final. O marido batalhou muito: aguentou meses de TPM da mulher (Tensão Pré-Matrimônio) durante os preparativos do casamento; bancou arranjos de mesa dourados que até hoje não descobriu o que eram nem para que serviam; passou o casamento inteiro sendo beijado por parentes de bigode (homens e mulheres) que nunca viu na vida; aprendeu que em vez de uma, agora tem três mulheres mandando na sua vida (mulher/mãe/sogra). E daí vem um shopping center e diz na televisão que você e sua mulher continuam sendo namorados? Sai fora.

E no caso da amante? Ganha presente ou não? Se o cara é casado e a amante é solteira, ele tem que dar presente, sim. Se a mulher é que é a casada da história, é ela quem tem que dar o presente. Agora, se os dois são casados… em vez de presentes, arrumem um pouco de vergonha na cara.

Presente serve para compensar o sofrimento do outro. Regrinha básica: quanto maior o valor, maior a compensação. Se o seu marido lhe der um anel de brilhates no Dia dos Namorados, das duas uma: ou você tem muita sorte ou muitos enfeites na cabeça. Pensando bem, há também uma terceira opção: você pode ser mulher do Sérgio Cabral.

O Dia dos Namorados mais marcante da minha vida aconteceu em 2000, meu primeiro dia de trabalho como jornalista. Enquanto eu fazia matéria sobre a data (ligando para casais, lojas, porteiros de motéis atrás de boas histórias), a TV exibia ao vivo o sequestro do ônibus 174, no Rio. Na redação, eu escrevia sobre um tema leve e divertido; na vida real, um desequilibrado ameaçava vários reféns.

Foi a prova mais brutal de que a vida é feita de amor e ódio, equação que hoje em dia infelizmente está pendendo cada vez mais para o lado de lá. Mas a tragédia também prova que a vida continua. E que seria bom sonhar com um Dia dos Namorados feito apenas de amor entre todos nós, casados, amantes, separados, namorados, solteiros. Já seria um bom começo.

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Hoje é Dia Mundial de Luta Contra a Aids: Use preservativo!

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Prudence e Palavra de Homem: Campanha para estimular o uso de preservativo

Hoje é o Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Do início da epidemia da Aids no Brasil, nos anos 1980, até junho de 2015, foram registrados 798.366 casos, de acordo com o Ministério da Saúde. Além disso, o Brasil responde por 40% das novas infecções na América Latina – segundo estimativas recentes da ONU, enquanto Argentina, Venezuela, Colômbia, Cuba, Guatemala, México e Peru respondem por outros 41% desses casos. Ou seja, Aids ainda é um problema muito sério não apenas no Brasil, mas no mundo.

A Prudence, marca de preservativos da DKT Brasil, está fazendo uma campanha para alertar sobre a importância do sexo seguro. Eu, como autor do blog Palavra de Homem, assino embaixo. Nos 26 anos de atuação da marca no mercado nacional, mais de 1,5 bilhão de camisinhas Prudence já circularam pelo País. A DKT do Brasil apoia ações de ONGs que têm compromisso com o marketing social, focando em projetos voltados ao planejamento familiar e prevenção das doenças sexualmente transmissíveis. Estou junto nessa campanha porque acho importante divulgar a importância do uso do preservativo.

Para estimular o uso das camisinhas, a Prudence quer mostrar que o sexo seguro também pode ser divertido. Por isso, lançaram camisinhas com aroma, cheiro e sabor, assim como texturas diferentes – e até que brilham no escuro.

De qualquer maneira, não importa qual preservativo você use, o importante é usá-lo. No Dia Mundial de Luta Contra a Aids, é bom lembrar que o único jeito de ganhar essa luta é se protegendo contra ela. Pense nisso!

#sexoseguro #usecamisinha #planejamentofamiliar #mktsocial #DKT

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Cansado de almoçar sozinho? Baixe o aplicativo Lobstr, o ‘Tinder dos restaurantes’

 

Lobstr Cansado de almoçar sozinho? Baixe o aplicativo Lobstr, o Tinder dos restaurantes

Lobstr: Novo aplicativo de relacionamentos promove encontros em restaurantes na hora do almoço

Aleksandar Stojanoski começou a carreira como empreededor com uma startup sediada na cidade mais romântica do mundo: Paris. Nascido na Macedônia, o empresário costumava realizar almoços de negócios no Express, restaurante informal e descolado perto de seu escritório. Um dia, quando buscava um cineasta para dirigir um comercial de TV, teve uma reunião no Express com uma cineasta brasileira chamada Melissa.

Melissa e Aleksandar conversaram sobre os detalhes do trabalho, mas o papo foi além: falaram de seus gostos pessoais, de seus hobbies, seus filmes favoritos. Aleksandar acabou contratando a brasileira, mas os dois se afastaram logo depois, quando ela voltou ao Brasil. Alguns meses depois, quando Aleksandar veio ao país para participar do Festival de Cinema do Rio de Janeiro, os dois se reencontraram. E estão juntos até hoje.

A ideia de começar um relacionamento com um encontro na hora do almoço serviu de inspiração. Hoje, seis anos depois, Aleksandar lança o ‘Lobstr: Encontre alguém para almoçar’, aplicativo de encontros e relacionamentos que incentiva casais a se encontrarem para almoçar em seus restaurantes favoritos. O app está disponível para download na Apple App Store (Brasil) e na Google Play Store (Brasil) desde 7 de novembro ou, se preferir, basta clicar aqui. De acordo com a estratégia do marketing, a maioria dos seus usuários é da cidade de São Paulo. Internautas de outras cidades começarão a encontrar mais perfis para se relacionar no futuro próximo.

Formado em Administração de Negócios Internacionais pela Universidade Americana de Paris, Aleksandar, 42 anos, foi usuário assíduo de aplicativos de relacionamentos por mais de 10 anos. Depois de algumas experiências frustradas com os apps convencionais, percebeu que os encontros pessoais eram sempre mais efetivos que os perfis sugeridos por algoritmos.

Segundo Aleksandar, os dados oficiais do Tinder mostraram que menos de 1% das combinações de casais no aplicativo se convertiam em encontros reais. Além disso, artigos científicos de psicólogos e especialistas que defendiam que o melhor a fazer era sair para se encontrar para um café ou almoço casual — lugares tipicamente românticos acabam gerando muito desgaste emocional e estresse quando encontros não vão bem.

“Foi então que pensei: e se as pessoas pudessem aproveitar seu horário de almoço para conhecer alguém em seus restaurantes preferidos? Muitas vezes vejo pessoas almoçando sozinhas, ou sempre com os mesmos colegas do trabalho. Por que não conhecer alguém novo de uma forma casual? Assim nasceu a ideia do Lobstr.”

A maioria dos seguidores do Lobstr no Facebook na cidade de São Paulo tem mais de 35 anos (70% do total). A média de idade dos usuários dos aplicativos antigos é mais baixa: entre 18 e 24 anos (Tinder) e 25 e 34 anos (Happn). Em relação ao nível escolar, a porcentagem dos seguidores com pós-graduação no Lobstr é de 25%, ante 11% no Happn e 7% no Tinder. Há disponível uma versão gratuita e outra paga, com mais recursos.

E aí, vamos almoçar?

Para saber mais: Instagram, Facebook e Twitter

 

 

 

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Caíto Maia, o guru por trás dos óculos escuros – Chilli Beans Fashion Cruise – PARTE 2

Superdose P Camila Cara 04 Caíto Maia, o guru por trás dos óculos escuros   Chilli Beans Fashion Cruise   PARTE 2

Caíto Maia fundou a Chilli Beans em 1997; hoje a empresa conta com mais de 700 franquias no mundo inteiro. Foto de Camila Cara / MRossi Rockshow

As 137.936 toneladas de aço do Chilli Beans Fashion Cruise zarparam do porto de Santos levando cerca de 3.100 passageiros e 1.637 tripulantes, multidão que ficaria espalhada por suas 1.637 cabines. O monstro marinho de aço é maior do que qualquer Moby Dick: são 330 metros de comprimento e 18 andares de altura. Como o espaço é relativamente grande, mas não é infinito, é preciso que exista uma relação entre todos a bordo, algo que posso servir como uma ‘cola’ que impeça o caos entre este grupo de pessoas.

Logo percebo que essa ‘liga’ é a própria definição de quem é – e do que é – a Chilli Beans. A empresa não é apenas uma marca de óculos, relógios e acessórios. Talvez tenha nascido assim em 1997, época em que conheci o fundador Caíto Maia vendendo óculos que trazia da Califórnia em um pequeno ponto de venda do Mercado Mundo Mix, na Barrafunda. A gente se encontrava aqui e ali, nos bares São Paulo e New York, Vila Madalena ou na casa de brothers em comum.

Desde aquela época o cara já trazia um brilho diferente nos olhos, o carisma das pessoas que a gente sabe que vão dar certo. Caíto na época também tocava guitarra e cantava em uma banda de rock que levava o sugestivo nome de Las Chicas Tienen Fuego. Entre melodias e batidas que misturavam pop, funk e rock, Caíto era uma versão brazuca e mais estilosa do ‘Mike Patton’, vocalista do Faith No More.

Com o tempo, ele foi obrigado a optar entre a banda e o lado empresarial. Apostou sua vida na Chilli Beans... e ganhou. Hoje é um dos maiores empresários do Brasil, certamente o mais talentoso e intuitivo de sua geração. Se pudesse defini-lo em uma expressão, diria que ele é um 'Corporate Rockstar'. Seus óculos estão no mundo inteiro, em mais de 700 franquias espalhadas dos Estados Unidos a Dubai, do México ao Kwait e em toda a América Latina. Mesmo com todo o sucesso, Caíto continua gente boa e com a mesma atitude rock and roll que tinha desde a hoje longínqua época do Mercado Mundo Mix.

(Abre parênteses: Aliás, o criador do Mercado Mundo Mix, Beto Lago, também estava no navio e deu uma bela palestra sobre Economia Criativa. Fecha parênteses.)

O que seria, então, o estilo da Chilli Beans? Há duas respostas, uma fácil e outra bem mais complexa. A fácil é direta: é uma marca que não apenas aceita e apoia a diversidade cultural e sexual, como a estimula. Gays, drag queens, transgêneros, lésbicas, tatuados, homens e mulheres de cabelos roxos ou barbas verdes, toda a ampla gama que hoje forma o long tail sexual e cultural da sociedade são bem-vindos às lojas Chilli Beans. Lá, esses seres que antes eram praticamente semi-excluídos podem trabalhar, comprar ou, simplesmente, frequentar. São respeitados. Mais do que isso: são amados, uns pelos outros.

E por Caíto também, claro, que viu aí não apenas uma boa oportunidade de negócio, porque quem o conhece sabe que não é somente isso que o move, mas uma possibilidade de criar um canal de comunicação entre a sua marca e essa nova geração que surge simultaneamente em todo o mundo. E é aí que entra a resposta mais complexa para o seu sucesso: ao dar voz, rosto e oportunidade para essas pessoas serem o que são, ou o que desejam ser, Caíto tornou-se uma espécie de guru, mestre inspirador, um verdadeiro ‘messias’ dessa pós-contracultura. Sim, porque Caíto não precisa ser gay ou trans, nem mesmo ter o corpo inteiro tatuado ou cheio de piercings: ele é aquele que possibilita que essa turma de little monsters, como diria a Lady Gaga, se sinta parte de alguma coisa relevante e, ainda mais importante, de um projeto bem sucedido.

Comecei a refletir sobre a questão das tatuagens, dos piercings, enfim, do visual anti-convencional que essa turma exibe. E cheguei à conclusão de que o que acostumamos a chamar de ‘tribo’ não se aplica com tanta exatidão a essas pessoas. Porque, da mesma maneira que vivemos o long tail sexual e cultural, ou seja, cada um tem a sua sexualidade própria, única e que pode variar de acordo com um espectro incrivelmente amplo, o visual também segue esse mesmo conceito.

Long tail (Cauda Longa) é uma expressão popularizada por Chris Anderson, ex-editor da revista Wired, e que basicamente descreve a nova economia baseada na distribuição pela internet. Em resumo: o comércio do futuro seria baseado nas vendas de milhões de produtos diferentes, não nos milhões de vendas de poucos produtos. Ou seja: se você tem uma quantidade enorme de produtos, pode ter um bom lucro se cada um deles vender uma pequena e constante quantidade. Na velha economia, a variedade dos produtos era menor, portanto era necessário vender uma grande quantidade de cada um deles. A Chilli Beans, de certa forma, também aplica esse conceito ao seu modelo de negócios: por isso que suas coleções de óculos têm tantos modelos. Assim, mesmo vendendo uma pequena quantidade de cada um deles, ganha-se no volume total das vendas. Deu para entender?

E como isso se aplica às tribos? Bem, a própria definição de ‘tribo’ como conhecíamos não existe mais. O que existem são micro-tribos – olha aí o conceito do long tail novamente – formadas por indivíduos únicos, como se cada um deles formasse a sua própria tribo. Essas tribos individuais se aproximam de seus ‘iguais’ na medida em que compartilham características específicas e momentâneas, cuja relação pode mudar de direção e de grupo a qualquer momento.

Uma pessoa LGBT pode fazer parte da tribo dos ‘tatuados heteros’ em relação, por exemplo, ao consumo de drogas, mas pode se afastar e se identificar mais com a turma das drag queens em relação à sexualidade; o mesmo indivíduo pode se aproximar da turma que curte samba em relação ao gosto musical, mas se separa novamente para se identificar com a turma que curte Yoga na relação com o corpo. Pode ser vegetariano como um grupo de heteros naturalistas em relação à alimentação, ou mudar de opinião de uma hora para outra e se associar a conservadores na hora de educar eventualmente os filhos, por exemplo.

O conceito de ‘tribo’, que de certa forma era comum até o ano 2000, agora se divide em centenas de ‘tribos individuais’, onde cada um faz questão de mostrar que é único (long tail). Se antes era possível classificar os jovens em ‘metaleiros’, ‘darks’, ‘punks’ ou ‘góticos’, hoje essa divisão teria que trazer inúmeras sub-características que reduziriam cada uma delas a uma tribo de um homem/mulher/gay só. Não há mais milhões de ‘punks’ ou ‘darks’, mas dezenas de ‘punks-vegetarianos-gays-católicos’, outra dezena de ‘punks-carnívoros-hetero-ateus’, e assim por diante.

Culpa da internet e do mundo digital: cada tatuagem, cada piercing, cada peça de roupa é uma espécie de ‘declaração’ (statement, na expressão em inglês) que reforça essa individualidade.

Reunir toda essa turma em um navio foi a grande sacada do Caíto ao optar por realizar uma convenção empresarial em um cruzeiro. Certamente um ‘cruzeiro dos loucos’, se formos comparar com os outros grupos que a tripulação do navio deve estar acostumada a receber no resto do ano. Em vez de orquestras macarrônicas ou música italiana cantada por tenores acima do peso, a trilha sonora aqui é bate-estaca tecno o dia inteiro; em vez de senhoras exibindo seus looks naftalina-chic, modelos desfilam as últimas coleções das grifes mais descoladas do país. O que é mais legal? Quem é melhor? Nesses tempos da vida em cauda longa, não há melhor nem pior: no convés há espaço para todo mundo.

(Amanhã às 17h será publicada a PARTE 3)

Desfile Herchcovitch P2 Camila Cara 014 Caíto Maia, o guru por trás dos óculos escuros   Chilli Beans Fashion Cruise   PARTE 2

A Tribo dos Únicos: No desfile de Alexandre Herchcovitch, uma representação alegórica da diversidade atual. A foto é de Camila Cara / MRossi Rockshow

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Todos a bordo do Chilli Beans Fashion Cruise – PARTE 1

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Balada em alto-mar: cruzeiro da Chilli Beans saiu de Santos e passou por Búzios e Ilhabela. Foto de Ale Frata / MRossi Rockshow

O termo ‘convenção empresarial’ me provoca calafrios desde alguns anos atrás, quando fui obrigado a passar um fim de semana em um resort cercado por piscinas quentes e comida fria. Era um evento tão simpático e informal, que por um segundo tive a impressão de que os executivos que estavam lá exibindo alegremente suas bermudas e camisetas floridas eram seres humanos de verdade.

Essa imagem me veio à cabeça assim que recebi o convite para o Chilli Beans Fashion Cruise, cruzeiro com duração de quatro dias que passaria por Búzios e Ilhabela antes de atracar de volta no gigantesco porto de Santos. É bom lembrar, no entanto, que a imagem tradicional da ‘convenção empresarial’ durou apenas alguns segundos no meu cérebro, justamente porque eu tinha a certeza de que uma convenção da Chilli Beans seria tudo, menos convencional.

Conheço a marca e seu fundador, Caíto Maia, há mais de 15 anos. Por isso, antes mesmo de deixar a terra firme eu já sabia que estaria embarcando não apenas em um cruzeiro onde seria realizada um evento com franqueados e funcionários da Chilli Beans do mundo inteiro, mas também em uma viagem inesquecível repleta de sol, mar e um cast de personagens inigualáveis.

Embora eu tenha uma boa experiência como viajante, confesso que nunca havia feito um cruzeiro. Isso aumentou a minha curiosidade: será que um evento de uma empresa moderna como a Chilli Beans funcionaria em um navio, já que esse tipo de viagem normalmente é associada a um formato mais tradicional de diversão, com cassinos e musicais estilo Broadway? Já ouvi falar de navios temáticos do Roberto Carlos e de artistas sertanejos, mas seria esse palco em alto-mar adequado para a turma radical e pós-moderna da Chilli Beans? A resposta, que agora me parece óbvia, ainda não estava tão clara quando cheguei ao porto de Santos.

Aproveito para agradecer o convite da equipe da 89 FM, a Rádio Rock, mais precisamente do MRossi Rockshow, programa em que divido o microfone com Marcelo Rossi, um dos maiores fotógrafos da história do rock brasileiro, e Fabiano Carelli, incrível guitarrista que acompanha os meus amigos do Capital Inicial em estúdios e turnês. Além de ser o apresentador principal do programa de rádio que leva seu nome, MRossi organizou a cobertura do time de fotógrafos do evento, equipe formada por craques como Camila Cara, Alê Frata e Alexandre Oliver, além dos produtores Petê Moinhos e Thais Yamamoto.

A primeira coisa que me chamou a atenção quando cheguei ao embarque do MSC Splendida foi o contraste entre o ambiente do porto (modesto) e o glamour do cruzeiro (sofisticado). Saltam aos olhos a diferença entre os dois mundos: de um lado, os carregadores simples e humildes, acostumados ao pesado cotidiano de carrega-carga-despacha-carga, dirigindo velhos guindastes e empilhadeiras entre os silos de grãos do tamanho de prédios. Do outro, os tripulantes dos transatlânticos, impecavelmente vestidos em trajes brancos que insistiam em manterem-se limpos em meio à impiedosa fumaça preta vomitada pelos motores do navio.

Como eu nunca havia feito um cruzeiro, a comparação entre uma viagem área e marítima foi inevitável. Ao me aproximar do check in percebi que estava diante de um sistema lógico muito semelhante entre esses dois tipos de viagens, pelo mar e pelo ar. É preciso organizar de forma segura a entrada dos passageiros; é preciso checar e inspecionar suas bagagens; é preciso entretê-los, alimentá-los e acomodá-los a bordo; é preciso ‘devolvê-los’ de forma segura ao porto após uma experiência que permaneça eternamente como uma memória positiva.

A diferença entre o check in de um avião e de um navio, no entanto, é que no porto você está lidando com pessoas ‘reais’. Se no aeroporto você está cercado por funcionários arrumadinhos em um ambiente asséptico e refrigerado, no check in do navio o vento que despenteia os penteados das atendentes do cruzeiro já antecipa que durante a viagem você será inevitavelmente um refém da natureza. O mar é mais incontrolável que o céu; as marés exercem mais influência sobre o destino de seus viajantes do que as nuvens, pelo menos na maioria das vezes. Mesmo assim, é interessante lembrar que, em relação aos aviões, os navios me parecem mais seguros após uma constatação primária: mesmo no Titanic houve sobreviventes. Já nos aviões...

Entrar em um navio pela primeira vez provoca uma sensação de déjà-vu por uma simples razão: dá a impressão de que estamos entrando em um shopping. Para ser mais exato, um navio parece o filho de um shopping com um hotel. A iluminação, os carpetes, o cheiro, tudo nos leva a crer que se pegarmos o elevador rumo ao último andar daremos de cara com uma praça de alimentação.

Há, no entanto, uma diferença básica: o glamour – mesmo que esteja diluído em meio a um certo crepúsculo estilístico. Essa decadência velada no ar não é escondida nem pelos numerosos corrimões dourados nem pelos espelhos que insistem em nos olhar de volta a todo momento. A degradação é da humanidade, mesmo, que invade esse navio e dezenas de outros pelo mundo sem o respeito por essas máquinas maravilhosas que cortam os mares como cidades flutuantes, arranha-céus horizontais, molhados pelo sal que não corrói o aço, mas que o empurra para frente onda após onda após onda.

Ainda há espaço para navios no mundo de hoje? No mundo da internet e dos celulares que não desgrudam das mãos ou dos olhos... será? Será que o fato de não haver wi-fi durante parte da viagem desencorajaria uma nova geração de viciados digitais? Deixo a resposta no mar.

(Amanhã às 17h será publicada a PARTE 2)

desfile Ale FrataB Todos a bordo do Chilli Beans Fashion Cruise   PARTE 1

Desfiles de biquíni, workshops e muita música eletrônica: a marca criada pelo empresário Caíto Maia fez uma convenção nada convencional. Foto de Ale Frata / MRossi Rockshow

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‘Vinyl’ é uma série de TV para ouvir no volume 10

 Vinyl é uma série de TV para ouvir no volume 10

A série 'Vinyl' mostra o dia a dia da gravadora American Century, com o executivo Richie Finestra (Bobby Cannavale, de azul) à frente

Antes mesmo da primeira cena eu já sabia que a série ‘Vinyl’ seria sensacional. Por várias razões: a primeira delas é o tema, os bastidores do rock and roll nos anos 1970, época de ouro do estilo, onde as bandas que disputavam as paradas de sucesso nas rádios eram 'apenas' nomes como Led Zeppelin, Rolling Stones e Black Sabbath, entre outros monstros. A segunda razão é a direção de Martin Scorsese, que dispensa apresentações. OK, ele dirigiu apenas o piloto que foi ao ar ontem pela HBO em estreia mundial, mas isso é bastante comum quando grandes diretores assumem a liderança artística de uma série: ao dirigir o primeiro episódio, Scorsese definiu a estética da série, o ritmo, a edição... enfim, o mais importante em uma série: a maneira de abordar o universo .

A terceira razão que me fez ficar acordado até às duas da manhã de um domingo foi a participação de Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones, como produtor da série. OK, Scorsese sempre foi muito ligado à música e sempre cuidou da parte musical de seus projetos com extrema atenção, mas ter Mick Jagger como produtor de uma série sobre os bastidores do rock and roll dos anos 1970 traz uma credibilidade que Scorsese sozinho não conseguiria atingir. Mick Jagger É o rock dos anos 1970; ele não precisou perguntar para ninguém como foi aquilo tudo. Bem, talvez Mick não lembre de muita coisa daquele período, como todos, pois viveu na pele o excesso de sexo, drogas e rock and roll. Mas pode ter certeza de que ‘Vinyl’, mesmo com toda a insanidade que pode parecer para quem não é do meio, tem muita coisa próxima da realidade. A série traz alguns clichês do mundo do rock? Com certeza. Algumas situação são exageradas? Sem dúvida. Mas o mundo era tão louco nessa época que muitas histórias usadas como inspiração para 'Vinyl' realmente aconteceram - acredite se quiser. E vamos lembrar também que é uma série de ficção, ou seja, por mais que Mick e Martin tenham usado referências reais, ainda estamos falando de um produto da HBO para consumo mundial e também para gente, digamos, 'normal'. O exagero, nesse caso, é aceitável.

A série, pelo que deu para ver pelo piloto, é uma espécie de ‘Almost Famous’ contado a partir do olhar do executivo de uma grande gravadora, o excelente Bobby Cannavale interpretando Richie Finestra. A diferença é que ‘Almost Famous’ trazia a visão romântica do diretor Cameron Crowe quando era jovem, um repórter adolescente que estava descobrindo o mundo do rock por meio de uma vivência ingênua e idealística, um fã de verdade das bandas sobre as quais escrevia. Aqui não há lugar para amadores: os executivos da gravadora passam os dias enchendo a cara e cheirando cocaína enquanto discutem contratos de milhões de dólares e tentam descobrir quem será o próximo Led Zeppelin. Os executivos das gravadoras também viviam o lifestyle rock and roll, algo inimaginável no asséptico e 'profissional' cotidiano dessas empresas nos dias de hoje.

A cena com o New York Dolls é incrível (não vou contar para não estragar a surpresa), mas a cena com o Led Zeppelin foi a mais divertida para mim no piloto de ‘Vinyl’. Mostra Finestra conversando com Robert Plant e John Bonham no camarim do Madison Square Garden, pouco antes da banda entrar no palco para o show que seria imortalizado no filme ‘The Song Remains the Same’. Quem viu o filme vai lembrar da cena em que o empresário do Led Zeppelin, o lendário Peter Grant, dá um esporro no produtor do local que teria permitido a venda de camisetas piratas. Pois bem, ‘Vinyl’ recria essa cena, mas do ponto de vista de Richie Finestra. O resultado é muito legal, pois leva o espectador para dentro do camarim do Led Zeppelin, com todo o caos e glamour que existia na época. Eu, como fã, mesmo sabendo que era uma leitura ficcional, passaria horas vendo aquilo e tentando imaginar o que aconteceu mesmo e o que foi criado pelo roteirista Terence Winter.

‘Vinyl’ é uma espécie de ‘Mad Men’ do business do rock and roll, sem a elegância da turma de Don Draper – até porque não havia muita elegância na Nova York nos anos 1970: a cocaína substituiu o whisky, criando uma geração de executivos ansiosos, tagarelas e egocêntricos. Como tudo isso foi regado a sexo fácil e música no último volume, vemos uma combinação perfeita onde a catarse, a diversão e a tragédia são apenas elementos comuns do dia a dia. Just another day at the office. Enquanto Don Draper dizia muito apenas com um olhar, Finestra usa palavras e mais palavras para não dizer porcaria nenhuma.

O fato de Mick Jagger e Scorsese estarem envolvidos também promove uma guerra invisível de egos para ver quem entende mais de música: dá para ver nas entrelinhas dos diálogos de Finestra com outros músicos, onde podemos quase ver Scorsese e Jagger querendo elogiar seus artistas favoritos. Minha sugestão para quem gosta de rock é assistir ‘Vinyl’ com uma caneta e um papel, pronto para anotar a enxurrada de nomes e bandas citadas pelos personagens. São dezenas de referências, tudo isso ao som de uma trilha sonora incrível. Em ‘Vinyl’, o único deus - além do rock and roll - é o hedonismo e a busca incessante por prazer e mais prazer. Numa época em que você ligava o rádio e ouvia o novo sucesso do Queen ou um bate papo com David Bowie, quem podia culpá-los?

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Joss Stone: A Rainha do Soul virou Princesa do Reggae

JOSS STONE Camila Cara 016 Joss Stone: A Rainha do Soul virou Princesa do Reggae

Joss Stone no show do Citibank Hall, em São Paulo: A cantora de 27 anos é linda, simpática e talentosa. A foto é de Camila Cara

Joscelyn Eve Stoker tinha apenas 16 anos quando se transformou em Joss Stone. Imediatamente ela chamou a atenção do mundo graças ao contraste de estímulos que provocava nos sentidos do público: enquanto os olhos viam uma garotinha inglesa, linda, loira, ingênua como uma princesa medieval, os ouvidos eram bombardeados por uma voz potente e rouca de cantora gospel, daquelas que pesam facilmente mais de 100 quilos e passam os domingos batendo palmas em corais do Harlem.

Essa estratégia de marketing sustentou a carreira de Joss Stone durante um tempo, até que todo mundo já sabia quem era Joss Stone e que a tal discrepância não causava mais surpresa. Foi aí que percebemos que nada daquilo importava: Joss Stone não era apenas bela nem apenas cantava como uma rainha do soul, mas era uma artista incrível, carismática e talentosa.

Foi essa Joss Stone que vimos ontem no show do Citibank Hall, em São Paulo, em mais um show dela no Brasil. Joss (olha a intimidade) já veio várias vezes ao país – esta foi a sexta vez – e parece que vai continuar voltando. Aposto que ela é feliz em qualquer lugar do mundo, mas sua felicidade no palco aqui é algo palpável, quase físico; o sorriso não sai do rosto, o corpo flutua como se estivesse dançando em frente ao espelho de casa. Ela conversa com o público, pede desculpas por falar demais, depois esquece e fala mais um pouco. É diva, mas desencanada. Joss Stone tem algo de ‘carioca’, aquela espontaneidade singela e tranquila de quem acabou de passar o dia na praia. Se ela for igualzinha em outros países da ‘Total World Tour’, juro que vou me sentir traído.

Por falar em praia, agora a praia de Joss Stone é outra. Nos primeiros discos, ‘The Soul Sessions’ (2003), ‘Mind, Body & Soul (2004) e ‘Introducing Joss Stone’ (2007), Joss Stone era uma típica cantora de soul music, daquelas que a Motown deu à luz e eternizou.

Em ‘Colour me Free’ (2009) e ‘LP1’ (2011), ela passou a flertar um pouco com o Rhythm and Blues, o R&B que colocou Beyoncé e Alicia Keys no topo das paradas. Não dá para culpá-la, até porque são todas variações legítimas da mesma raiz, a música negra norte-americana. Em ‘The Soul Sessions Vol. 2’ (2012) ela voltou ao Soul, mas durou pouco: Joss está apaixonada por um novo estilo musical.

O show de ontem teve poucas músicas antigas e muito repertório novo, algo que ela já anunciou logo no início da apresentação. E pelo que deu para ouvir do novo disco (‘Water for your Soul’, que sai no segundo semestre), Joss deixa de ser a ‘rainha do Soul’ e passa a ser a ‘princesa do reggae’.

Seria fácil fazer um trocadilho com o sobrenome de Joss, ‘Stone’, e aquele jeito que os fãs de reggae ficam depois de ‘acender um Bob Marley’ (‘Stoned’). Mas a verdade é que a Joss tem tudo a ver com esse novo som, principalmente por sua postura meio neo-hippie-chic. O som de Joss Stoned tem uma levada gostosa, boa pra dançar. Seu novo som é, resumindo, ‘o maior barato’.

Além da música, impossível não se encantar com a simpatia de Joss. É incrível como ela parece ser uma pessoa normal, bastante indiferente à fama (dentro do possível, imagino).

Talvez seja porque ela conseguiu manter alguns elementos da sua vida pessoal intactos, como a vida em uma cidade pequena (ela ainda mora em Devon, na Inglaterra, em uma casa perto da família); curte frequentar os pubs locais; tem dois cães, o Rottweiler Missy e o poodle Dusty; gosta de futebol e é torcedora do Liverpool. Só para se ter uma ideia do seu jeito desencanado, perguntaram a ela por que ela costuma se apresentar descalça. Joss respondeu: “porque eu tenho medo de tropeçar”.

Nesses momentos imagino que Joss Stone volta a ser Joscelyn Eve Stoker, aquela garotinha de voz rouca e ingênua como uma princesa medieval que não imaginava ficar famosa tão cedo.

Setlist

You Had Me
Super Duper Love
Molly Town
The Love We Had
Wake Up
Could Have Been You
Star
Love Me
Music/Jet Leg
Stuck On You
I Put A Spell On You (cover do Screamin’ Jay Hawkins)
The Answer
Karma
Harry's Symphony (England)
Fell in Love with a Boy

BIS
Right to Be Wrong
Landlord
Some Kind of Wonderful

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‘Apneia’: Um filme de tirar o fôlego

Apneia32 ‘Apneia’: Um filme de tirar o fôlego

Thaila Ayala, Marjorie Estiano e Marisol Ribeiro em 'Apneia': Vidas vazias preenchidas por sexo, drogas e tecno

Há várias maneiras de classificar o cinema brasileiro. A mais óbvia delas é a análise cronológica das produções, na época já meio distante em que movimentos homogêneos podiam ser claramente definidos. Isso ocorreu, por exemplo, com as chanchadas produzidas pela Atlântida entre 1930 e 1960, assim como no Cinema Novo, versão brasileira da Nouvelle Vague francesa que tomou o país entre os anos 1950 e 1970. Poderíamos classificar a produção cinematográfica brasileira também em ondas temáticas, o que parece ser mais adequado quando pensamos com a cabeça de hoje: estamos acostumados a uma sobreposição de influências e pela possibilidade que a internet nos dá de navegar para lá e para cá.

Dentro dessa lógica podemos pensar em filmes ‘áridos’ como ‘Abril Despedaçado’ e ‘Central do Brasil’, com predomínio de temas e locações no sertão – literal ou metaforicamente – e filmes ‘favela’, como ‘Cidade de Deus’ e ‘Tropa de Elite’. Mas o que impressiona é que, mesmo após a retomada do cinema brasileiro nos anos 1990, não tivemos praticamente nenhum representante de peso de filmes sobre a camada mais rica da população. Isso ocorre, talvez, por um sentimento de culpa velado que sobrevive graças àquele velho resquício da ‘luta contra o sistema’. Infelizmente, a ideia de um ‘cinema social’ ainda afeta os que insistem em se guiar por ideologias ultrapassadas.

Há, no entanto, uma nova geração de cineastas que foge desse preconceito às avessas. É provável que isso ocorra porque muitos deles vieram da publicidade, um lugar onde a ideologia dá lugar ao pragmatismo. Bons exemplos não faltam, como Fernando Meirelles, Heitor Dhalia e Afonso Poyart, só para citar alguns. Além da origem na publicidade, o que não é nenhuma novidade no cinema em todo o mundo, vemos surgir também no Brasil estéticas contemporâneas que chegam para influenciar ainda mais o novo cinema. Entre elas, revoluções na linguagem como o videoclipe, a internet e a tecnologia. É o que acontece com o filme ‘Apneia’, que estreia amanhã em todo o país. O longa de estreia do cineasta Mauricio Eça é um bom exemplo de que é possível fazer bom cinema colorindo a tela com cenários urbanos, belas garotas ricas e nada de culpa.

‘Apneia’ tem um elenco repleto de rostos conhecidos da TV, como Marisol Ribeiro, Thaila Ayala, Marjorie Estiano, Fernando Alves Pinto e Maria Fernanda Cândido. O filme conta a história de Chris (Marisol Ribeiro), uma garota que sofre de apneia do sono e que usa a dificuldade para dormir como desculpa para se jogar em uma vida de baladas vazias regadas a sexo, drogas e música eletrônica. Nessa catarse explosiva, Chris vai às últimas consequências para fugir do tédio e arrasta com ela a turma de amigas, Júlia (Thaila Ayala) e Giovanna (Marjorie Estiano). Além de lindas e talentosas, as três atrizes se complementam em termos de estilo, visual e personalidade. Durante o filme não há como não se apaixonar por alguma delas – o mais provável, no entanto, é cair de amores pelas três. Cada uma ao seu estilo, cada uma com sua ‘pegada’. Torcemos para que tudo dê certo, mas, como na vida real, isso nem sempre é possível. A balada cobra um preço.

Mauricio Eça não é apenas um velho conhecido meu, mas de qualquer um que já viu um videoclipe brasileiro. Como diretor que mais filmou videoclipes na história da MTV Brasil, Mauricio traz essa bagagem e essa linguagem para o cinema. Não é o ritmo da edição (realizada brilhantemente por Tony Tiger) que nos remete à correria dos clipes, mas a forma como a música pode ser escalada como um personagem dentro de cada cena. O filme alterna momentos barulhentos e silêncios contemplativos, como a realidade de quem mora nas grandes cidades brasileiras. Não tem sertão, não tem favela, não tem nenhum componente social – ainda bem. O cinema pode ser social sem nenhum problema, mas isso não significa que todos os filmes têm que ter isso em suas premissas para ser considerado um ‘filme brasileiro’. Em meio a esse caos urbano há espaço até para algumas cenas na praia, mas não se engane: até mesmo o paraíso, geralmente retratado como válvula de escape e símbolo da fuga da metrópole, pode ganhar ambiguidade e se transformar em sonho ou pesadelo.

Além de dirigir, Mauricio também assina o roteiro de ‘Apneia’. Talvez seja por isso que conseguiu manter sob controle uma história que teria todos os elementos para fugir de suas mãos. Não apenas pelos temas e pelas locações ‘muito loucas’, mas pela personalidade que o diretor teve para dirigir estrelas em ascensão em seu filme de estreia. As atuações são complexas e convincentes, provavelmente porque os temas abordados pelo filme sejam parte da vida de quem mora em uma cidade grande e, portanto, também do elenco. A ideologia aqui é o consumismo, a vida vazia. Sim, é uma crítica ao modo de vida de uma geração niilista e fugaz. A vantagem do filme é que ele flerta com o amor a essa vida e o preço que por ela se paga, sem falsos moralismos e com a dureza que o tema merece.

Em ‘Apneia’ há diversão e tragédia; madrugadas insones e ressacas homéricas; baladas hipnóticas que não se sabe exatamente como vão terminar. Esse salto no escuro da vida de São Paulo, tão urbana quanto caótica, é o que nos faz querer fazer parte do mundo de ‘Apneia’. Um filme, como o próprio nome diz, de tirar o fôlego.

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O que se esconde sob a pele de Scarlett Johannson?

Se você está pensando em assistir a ‘Sob a Pele’ porque ouviu falar que é um filme sobre sexo em que a Scarlett Johansson aparece pelada, pense duas vezes. Essa ambiciosa obra-prima do diretor Jonathan Glazer não é um filme como os outros, com personagens definidos ou um roteiro com uma trama lógica e determinada. É uma viagem baseada na percepção, no entendimento que cada um faz dele a partir de suas próprias experiências.

É o que costumamos chamar de ‘obra aberta’, com diversas interpretações possíveis. Essa deve ter sido a razão que levou Glazer a ser comparado ao mestre Stanley Kubrick – além, claro, da influência visual e sonora inspirada na sequência final de ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’ que permeia todo o filme.

‘Sob a Pele’ não é um filme mudo, mas poderia ser. Os poucos diálogos utilizados na narrativa não dizem nada, ou melhor, não conduzem a história a nenhum tipo de desfecho lógico. O filme acontece na tela, na grandiosidade e beleza perversa das imagens, mas também na cabeça dos espectadores. ‘O que está acontecendo?’, ‘Quem são essas pessoas?’ ‘O que significa isso?’ são perguntas que exigem a atenção do público ainda durante a exibição do filme, e não apenas após o seu final, como é comum.

Na verdade, as respostas não satisfazem totalmente o intelecto nem após a conclusão do filme. Acho que essa deve ter sido mesmo a intenção de Jonathan Glazer: forçar o pensamento para que ele preencha intuitivamente as lacunas deixadas pelos silêncios. Apesar de tudo isso, há uma história lá, imersa profundamente sob a pele dos personagens, afogada no mesmo líquido viscoso e negro que engole os homens seduzidos pela personagem de Scarlett.

Então, afinal, qual é a história? Scarlett Johansson surge para vingar uma mulher que teria sido, teoricamente, violentada e jogada no acostamento de uma estrada. Ela se veste com as roupas da vítima e sai dirigindo uma van pelas inóspitas paisagens da Escócia, seduzindo e eliminando homens que só estão interessados em sua beleza.

O filme seria, então, uma crítica ao comportamento opressor dos homens e à sociedade machista? Sim, tenho certeza de que esta poderia ser uma das interpretações. O filme pretende promover a valorização da beleza interior (alma) versus a beleza exterior (pele)? Sim, essa pode ser outra das leituras complementares que a trama permite. O filme trata da solidão de quem não consegue amar ou sentir algo pelo próximo? Sim, essa seria mais uma leitura. Ou não, como diria Caetano. São tantos ‘layers’, camadas de entendimento e interpretação, que aposto que o próprio diretor teria dificuldade em defender um único ponto focal.

A apática personagem de Scarlett é uma mulher feita apenas de pele e beleza. Ela existe com o único objetivo de punir os homens que se aproximam de mulheres assim: após serem ingenuamente atraídos para a armadilha, desaparecem em uma substância oleosa que parece ser feita de líquido amniótico. Nascimento e morte, útero e túmulo, alma e sexo: a dialética é parte integrante do filme tanto quanto os efeitos especiais disfarçados de arte contemporânea.

Consumada a vingança, Scarlett sai atrás de novas vítimas, repetidamente. Em um dos casos, uma família é dilacerada na sua frente, sem qualquer traço de emoção aparente. Alguns homens, no entanto, não merecem (ou não podem) ser punidos. Um deles, deformado fisicamente, sequer chegou a cometer o ‘pecado’ de se envolver sexualmente com mulheres. Sua pele, sua beleza exterior, portanto, é ‘defeituosa’, mas ele merece ser salvo porque sua mãos são belas (mãos belas = alma) nobre.

O outro homem trata Scarlett com respeito e chega a inspirar até um sentimento mais nobre que ela nem imaginava ser possível ter. Mas Scarlett continua sofrendo: nem mesmo esse príncipe encantado, que a leva para a única cena romântica do filme – uma brincadeira de Jonathan Glazer, que encena o ato em um castelo –, consegue fazê-la se sentir humana, completa. Ela é e sempre será apenas uma garota bonita, um estereótipo da única coisa para a qual a mulher serve: sexo. Scarlett não existe debaixo da pele.

Scarlett, aliás, merece um elogio especial por esse filme. Ela não é apenas uma das atrizes mais populares de Hollywood, mas também um dos grandes símbolos sexuais da história recente do cinema. Atuar em um projeto experimental como este foi um belo exercício de maturidade profissional, mas também uma prova de coragem e ambição artística.

A atriz é, obviamente, uma mulher deslumbrante, mas no filme ela não se apoia nisso para sustentar sua performance. Está um pouquinho acima do peso, cabelo pintado de preto, lentes de contato. Está bonita, claro, (ela não conseguiria ficar feia nem se quisesse muito), mas não sua beleza não é intimidadora. Faz o papel de uma mulher, digamos, comum.

Acredito que a intenção de Glazer foi mostrá-la como representante das mulheres de uma maneira mais universal. Em alguns momentos, nem lembramos que ela é Scarlett Johannson, a bombshell de ‘Vicky Cristina Barcelona’ e ‘Match Point’. Imagino como deve ter sido difícil para uma atriz acostumada ao star system deixar o ego de lado e sair pela Escócia sofrendo com o clima e caçando estranhos (sim, Glazer utilizou câmeras escondidas e os atores abordados inicialmente não sabiam que estavam sendo filmados).

As imagens geradas espontaneamente dão uma estranheza ainda maior ao filme, uma sensação de que algo realmente inesperado poderia acontecer a qualquer momento. Como, sei lá, um documentário feito sobre o ritual da sedução humana e os riscos implícitos que nunca consideramos porque seria algo racional demais – e, afinal, somos todos primatas. Outra citação ao ‘2001’, de Kubrick?

Não sei exatamente por que Glazer escolheu filmar na Escócia, mas arrisco dizer que o clima do país é uma moldura dramática perfeita para a história: não há dias ensolarados, tampouco tempestades. Há somente chuva e neblina, nada é muito claro. Mesmo as belas paisagens de praias e florestas são tensas, como se a natureza fosse um inimigo contra o qual a humanidade tem que disputar espaço para exercer sua plenitude.

A Escócia é dura, assim como o idioma de seus habitantes. Não há um inverno clássico, com neve ou paisagens branquinhas e lindas, mas exemplos de frieza pessoal que revelam uma solidão não apenas geográfica, mas espiritual. Sim, voltamos ao duelo de alma versus corpo que costura a trama o tempo inteiro.

Quando o filme chega ao fim, estamos com mais perguntas do que respostas, mais reflexões do que certezas. Mas não são assim as obras de arte que valem a pena? Muitas vezes, a experiência de passar duas horas vendo um filme estranho como este pode não ser das mais agradáveis. Mas quando o filme é bom, inteligente, desafiador, provoca um debate de ideias tão interessante e um prazer intelectual tão grande compensam o esforço. E o que era inicialmente um período de duas horas de tensão, dúvida e curiosidade, acaba se tornando um estímulo a discussões que ultrapassam os limites do cinema. Os filmes realmente importantes são assim.

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