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Hey Ho Let’s Go! Minha semana como um Ramone

Marky Ramone live p Hey Ho Let’s Go! Minha semana como um Ramone

Eu na guitarra e Marky Ramone na bateria: Uma experiência musical emocionante e inesquecível. Foto de Camila Cara

Sim, o título deste texto é uma homenagem à autobiografia do baterista Marky Ramone, ‘Minha Vida como um Ramone’, à venda nas livrarias de todo o país. Ao lado de outros ídolos do rock, Marky Ramone faz parte da minha vida desde que sou adolescente. Na última semana, no entanto, ele saiu dos meus alto-falantes e invadiu meu dia a dia. Não preciso nem dizer que foi uma das melhores coisas que aconteceram comigo musicalmente desde que aprendi a tocar guitarra, aos dez anos.

Tudo começou no estúdio da rádio 89 FM, a Rádio Rock, onde apresento o programa MRossi Rockshow, ao lado de MRossi e Fabiano Carelli. Marcelo Rossi, criador e idealizador do programa, é um dos maiores fotógrafos da história do rock brasileiro e um amigo de mais de 25 anos. Fabiano Carelli é um guitarrista incrível que toca no Capital Inicial e, embora eu o conheça há menos tempo, já posso dizer que também já é um grande amigo. Além de amigos, portanto, dividimos os microfones do programa de rádio que vai ao ar na 89 FM todos os domingos, ao vivo, das 21h às 22h.

Há algumas semanas, Marcelo chegou no estúdio com uma grande notícia: um convidado muito especial participaria da festa de comemoração de seis meses do programa. Quem? Ninguém mais, ninguém menos do que Marky Ramone, baterista que entrou para a história do rock como integrante da banda que ‘simplesmente’ inventou o punk: Ramones. Os Ramones são os Beatles do punk, e quando digo 'punk', não estou falando sobre aquela armação chamada Sex Pistols, a quem o próprio Marky chama de 'Boy Band'. Afinal, o Sex Pistols só existiram porque o empresário Malcolm McLaren frequentava a casa noturna CBGB em Nova York e percebeu que bandas como Ramones e Richard Hell seriam a 'próxima onda'. O empresário voltou para Londres, contratou uns malucos e... bingo! Estava inventado o punk... de butique.

Quando topou vir para o Brasil, Marky concordou em não apenas participar do programa, mas fazer um show na festa do programa ao lado de músicos brasileiros. Entre eles, eu e o Fabiano nas guitarras. Hey Ho Let’s Go!

Começamos os ensaios pouco depois. A ideia era ensaiar com um baterista que soubesse tudo sobre Ramones, afinal teríamos pouco tempo para ensaiar com Marky em pessoa. Quem encarou o desafio foi outro grande amigo, Guilherme Martin, que toca comigo no VIPER e no meu projeto solo. Baixista? É claro que tinha que ser o Mingau do Ultraje à Rigor, um dos primeiros baixistas a tocar punk no país. Nos vocais, Dinho Ouro Preto, Supla e João Gordo.

A única recomendação que o Marky passou para a banda: os guitarristas teriam que tocar apenas ‘downstrokes’, ou seja, apenas palhetadas ‘para baixo’ nas cordas. Explico: o som dos Ramones vinha desse estilo agressivo e direto inventado pelo guitarrista Johnny Ramone. Tivemos que nos adaptar, porque é muito difícil fazer isso absolutamente o show inteiro – o Fabiano que o diga, cujos dedos chegaram a sangrar durante um ensaio.

Depois de alguns ensaios, ficamos sabendo quando Marky chegaria ao Brasil: dia 25 de abril, domingo. Ou seja, dia do programa... Corri para a livraria mais próxima e comprei a autobiografia de Marky, ‘Minha Vida Como um Ramone’. Ambientado na Nova York dos anos 1970 e cheio de histórias e ‘causos’, o livro é divertido e apaixonante para qualquer fã de rock. Devorei as 400 páginas em três dias e virei um expert ainda maior em Ramones.

(Abre parênteses: Em 1995, minha banda VIPER havia tocado com os Ramones em uma turnê brasileira que tinha ainda o Sepultura e os Raimundos. Foram shows incríveis, históricos, principalmente o da Pedreira Paulo Leminsky, em Curitiba, um local que não tem paralelo no planeta. Marky tocou nesses shows, mas confessou que não se lembrava de muita coisa... com exceção da Pedreira. Fecha parênteses.)

No dia 25 de abril, Marky Ramone chegou aos estúdios da 89 pouco antes do início do programa. Ele estava exatamente como nas fotos. Jeans preto justo. Tênis All-Star. Penteado típico dos Ramones, preto, com a franjinha quase cobrindo os olhos. Um pouco mais alto do que eu imaginava e com boa e saudável aparência. Camiseta preta sem manga. Óculos escuros Aviator. Um Ramone, bem na minha frente. Uma história viva em carne, osso e alma.

A entrevista na rádio foi ótima, Marky estava bem humorado e contou em detalhes ainda mais pessoais as histórias do livro. Falou sobre a saudade que sente de seus ex-colegas de banda, todos já no Céu dos Rockstars. Falou sobre a noite em que ele, então um garoto de dezesseis anos, sentou-se à mesa do bar com Jimi Hendrix e Jim Morrison caindo de bêbados - e que no dia seguinte ninguém da sua classe acreditou na sua história. Falou sobre a cena de Nova York nos anos 1970, quando os Ramones eram a maior atração do histórico CBGB. Falou sobre o início da carreira, quando ainda tocava com o Dust e Richard Hell, que para ele foi o primeiro punk da história.

Falou sobre o TOC de Joey Ramone. Falou sobre a personalidade controladora de Johnny Ramone e sobre sua ideologia radical de direita. Falou sobre o abuso de drogas de Dee Dee Ramone. Falou sobre essas pessoas e essas histórias com uma tranquilidade tão grande que alguém menos avisado poderia imaginar que estava diante de uma pessoa normal.

Eu, não. Ele falava, contava, lembrava, e eu pensava: ele é um Ramone. O cara na minha frente é um Ramone.

No dia seguinte, gravamos o programa The Noite, do Danilo Gentili, no SBT. Seria a primeira vez que iríamos tocar com Marky e havia no ar uma certa ansiedade, mesmo sabendo que estávamos afiados. Antes da gravação, ensaiamos com as guitarras desligadas no camarim, com Marky batucando em uma cadeira. Achei curioso ele querer tocar com tudo desligado, mas depois me contaram que os Ramones costumavam fazer isso antes do show, assim mesmo, batucando nas cadeiras e com as guitarras sem amplificador.

No programa usamos o equipamento do Ultraje à Rigor, que é a banda residente do The Noite. Não houve problema nenhum: Roger é um amigo de anos e o guitarrista Marcos Kleine é um querido amigo de infância, da época em que brincávamos de esconde-esconde em vez de tocar guitarra. Se bem me lembro, no início da carreira cheguei a ensinar alguns acordes para o cara... hoje só tenho a aprender com ele.

Tocamos ‘Concrete and Clay’, que o Dinho já havia gravado com Marky, e ‘Sheena is a Punk Rocker’, um verdadeiro hino do rock and roll. Infelizmente não dá para dizer que foi um sonho, porque sonhos duram a noite inteira. Aquilo ali foi no máximo um cochilo, já que durou pouco mais de cinco minutos. Uma pena: por mim, teríamos tocado a tarde inteira.

No dia seguinte, acabei ficando como tradutor na coletiva que Marky daria na loja da Cavalera, na Oscar Freire. Ver um Ramone na Oscar Freire é mais ou menos como ver uma modelo da Chanel em um jogo do Corinthians. A coletiva foi ótima, e de lá fomos para o primeiro – e único – ensaio completo com o Marky.

Tocamos o repertório inteiro do show, inclusive com as participações mais do que especiais dos guitarristas Fabio Yamamoto, do Rhino Head, e Julia Cotrim. Também contamos com a presença de Guilherme Martin, que acabou cantando ‘Commando’ e ‘Havana Affair’. E, claro, sem esquecer (senão ela me mata) da nossa poderosa superprodutora Thais Yamamoto.

Foi um ensaio muito legal. Super corrido, uma música atrás da outra, sem descanso, como um show do Ramones. De vez em quando, eu olhava para o Marky tocando e pensava: eu estou tocando guitarra e o cara na bateria é um Ramone.

Ao final, Marky deu o veredito: “Como diria John Lennon, vocês passaram na audição”. Foi uma referência às últimas palavras do Beatle depois do show no teto da gravadora Apple, quando ele disse: “Espero que tenhamos passado na audição”. Com referência a Lennon ou não, nossa banda estava aprovada por um Ramone.

27 de abril de 2016. Comemorando seis meses no ar do programa MRossi Rockshow na rádio 89, Marky Ramone e amigos celebrariam em grande estilo no palco do Johnnie Wash, oficina de moto-bar-barbearia-balada na Vila Olímpia, em São Paulo. Valor do ingresso? Zero. Festa fechada, apenas para 400 sortudos convidados.

One, two, three, four... Dee Dee não estava no palco para fazer a tradicional contagem dos Ramones, mas Marky representou o amigo. E dá-lhe ‘Sheena is a Punk Rocker”. Depois veio a enxurrada de clássicos: ‘Rock and Roll High School’, ‘Oh Oh I Love Her So’, 'Do you Wanna Dance', ‘KKK Took My Baby Away’ (minha favorita)... até ‘Blitzkrieg Bop’. Não preciso nem dizer que o local veio abaixo.

E qual foi a sensação de dividir o palco com um Ramone? Difícil descrever. Tive a sorte de ficar bem ao lado dele no palco, ou seja, fizemos ‘eye contact’ durante uma boa parte do show. Deu para ver que ele também estava se divertindo bastante com toda aquela bagunça. Acho até mesmo que ele chegou a sorrir - e olha que é quase impossível ver a foto de um Ramone sorrindo. De qualquer maneira, a vibração do lugar estava tão boa e havia tanta felicidade rolando no palco, que Marky deve ter sido influenciado pela euforia que emanava dos músicos à sua volta.

Durante o show me peguei várias vezes lembrando das histórias de seu livro, e isso me deixava ainda mais orgulhoso por estar ali, ao vivo, dividindo aquele palco com ele. Imaginei o jovem Marky e os outros Ramones no CBGB, no Japão ou em qualquer outro ponto do planeta pelo qual eles já tivessem tocado. Lembrei das histórias, das lendas, das canções. Percebi que o protagonista das histórias malucas que eu havia lido no livro – e de muitas outras imortalizadas no grande livro do Olimpo do rock – estava ali do meu lado, tocando seu estilo inconfundível e marcante que influenciou e influencia tanta gente até hoje.

Estou tocando 'Sheena is a Punk Rocker' e o cara na bateria é o Marky Ramone.

Dividir o palco com Marky Ramone foi uma experiência inesquecível que vou levar para sempre. Depois do show, durante a megafesta regada a Jack Daniels que rolou no camarim, eu ainda estava me beliscando. Só me restou dizer mais uma coisa: obrigado, Marky, por topar esse plano maluco do MRossi e aceitar tocar com músicos brasileiros que você nem conhecia. Só uma verdadeira lenda do rock teria a coragem e generosidade de permitir que uns caras que te admiram tanto pudessem ser, mesmo que por apenas uma semana, um Ramone.

 

Johnnie Wash 024 p Hey Ho Let’s Go! Minha semana como um Ramone

Marky Ramone & Friends: A festa que começou no palco e terminou no camarim foi uma balada regada a doses de felicidade, Jack Daniels e rock & roll

 

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‘Apneia’: Um filme de tirar o fôlego

Apneia32 ‘Apneia’: Um filme de tirar o fôlego

Thaila Ayala, Marjorie Estiano e Marisol Ribeiro em 'Apneia': Vidas vazias preenchidas por sexo, drogas e tecno

Há várias maneiras de classificar o cinema brasileiro. A mais óbvia delas é a análise cronológica das produções, na época já meio distante em que movimentos homogêneos podiam ser claramente definidos. Isso ocorreu, por exemplo, com as chanchadas produzidas pela Atlântida entre 1930 e 1960, assim como no Cinema Novo, versão brasileira da Nouvelle Vague francesa que tomou o país entre os anos 1950 e 1970. Poderíamos classificar a produção cinematográfica brasileira também em ondas temáticas, o que parece ser mais adequado quando pensamos com a cabeça de hoje: estamos acostumados a uma sobreposição de influências e pela possibilidade que a internet nos dá de navegar para lá e para cá.

Dentro dessa lógica podemos pensar em filmes ‘áridos’ como ‘Abril Despedaçado’ e ‘Central do Brasil’, com predomínio de temas e locações no sertão – literal ou metaforicamente – e filmes ‘favela’, como ‘Cidade de Deus’ e ‘Tropa de Elite’. Mas o que impressiona é que, mesmo após a retomada do cinema brasileiro nos anos 1990, não tivemos praticamente nenhum representante de peso de filmes sobre a camada mais rica da população. Isso ocorre, talvez, por um sentimento de culpa velado que sobrevive graças àquele velho resquício da ‘luta contra o sistema’. Infelizmente, a ideia de um ‘cinema social’ ainda afeta os que insistem em se guiar por ideologias ultrapassadas.

Há, no entanto, uma nova geração de cineastas que foge desse preconceito às avessas. É provável que isso ocorra porque muitos deles vieram da publicidade, um lugar onde a ideologia dá lugar ao pragmatismo. Bons exemplos não faltam, como Fernando Meirelles, Heitor Dhalia e Afonso Poyart, só para citar alguns. Além da origem na publicidade, o que não é nenhuma novidade no cinema em todo o mundo, vemos surgir também no Brasil estéticas contemporâneas que chegam para influenciar ainda mais o novo cinema. Entre elas, revoluções na linguagem como o videoclipe, a internet e a tecnologia. É o que acontece com o filme ‘Apneia’, que estreia amanhã em todo o país. O longa de estreia do cineasta Mauricio Eça é um bom exemplo de que é possível fazer bom cinema colorindo a tela com cenários urbanos, belas garotas ricas e nada de culpa.

‘Apneia’ tem um elenco repleto de rostos conhecidos da TV, como Marisol Ribeiro, Thaila Ayala, Marjorie Estiano, Fernando Alves Pinto e Maria Fernanda Cândido. O filme conta a história de Chris (Marisol Ribeiro), uma garota que sofre de apneia do sono e que usa a dificuldade para dormir como desculpa para se jogar em uma vida de baladas vazias regadas a sexo, drogas e música eletrônica. Nessa catarse explosiva, Chris vai às últimas consequências para fugir do tédio e arrasta com ela a turma de amigas, Júlia (Thaila Ayala) e Giovanna (Marjorie Estiano). Além de lindas e talentosas, as três atrizes se complementam em termos de estilo, visual e personalidade. Durante o filme não há como não se apaixonar por alguma delas – o mais provável, no entanto, é cair de amores pelas três. Cada uma ao seu estilo, cada uma com sua ‘pegada’. Torcemos para que tudo dê certo, mas, como na vida real, isso nem sempre é possível. A balada cobra um preço.

Mauricio Eça não é apenas um velho conhecido meu, mas de qualquer um que já viu um videoclipe brasileiro. Como diretor que mais filmou videoclipes na história da MTV Brasil, Mauricio traz essa bagagem e essa linguagem para o cinema. Não é o ritmo da edição (realizada brilhantemente por Tony Tiger) que nos remete à correria dos clipes, mas a forma como a música pode ser escalada como um personagem dentro de cada cena. O filme alterna momentos barulhentos e silêncios contemplativos, como a realidade de quem mora nas grandes cidades brasileiras. Não tem sertão, não tem favela, não tem nenhum componente social – ainda bem. O cinema pode ser social sem nenhum problema, mas isso não significa que todos os filmes têm que ter isso em suas premissas para ser considerado um ‘filme brasileiro’. Em meio a esse caos urbano há espaço até para algumas cenas na praia, mas não se engane: até mesmo o paraíso, geralmente retratado como válvula de escape e símbolo da fuga da metrópole, pode ganhar ambiguidade e se transformar em sonho ou pesadelo.

Além de dirigir, Mauricio também assina o roteiro de ‘Apneia’. Talvez seja por isso que conseguiu manter sob controle uma história que teria todos os elementos para fugir de suas mãos. Não apenas pelos temas e pelas locações ‘muito loucas’, mas pela personalidade que o diretor teve para dirigir estrelas em ascensão em seu filme de estreia. As atuações são complexas e convincentes, provavelmente porque os temas abordados pelo filme sejam parte da vida de quem mora em uma cidade grande e, portanto, também do elenco. A ideologia aqui é o consumismo, a vida vazia. Sim, é uma crítica ao modo de vida de uma geração niilista e fugaz. A vantagem do filme é que ele flerta com o amor a essa vida e o preço que por ela se paga, sem falsos moralismos e com a dureza que o tema merece.

Em ‘Apneia’ há diversão e tragédia; madrugadas insones e ressacas homéricas; baladas hipnóticas que não se sabe exatamente como vão terminar. Esse salto no escuro da vida de São Paulo, tão urbana quanto caótica, é o que nos faz querer fazer parte do mundo de ‘Apneia’. Um filme, como o próprio nome diz, de tirar o fôlego.

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Viver é resolver problemas

The Thinker Auguste Rodin Viver é resolver problemas

O pensador de Rodin sentou e começou a pensar... está lá até hoje

É engraçado como só pensamos nos ciclos da nossa vida quando um deles chega ao fim. Estamos tão envolvidos em cuidar do cotidiano que não pensamos que esse dia após o outro é apenas parte de um ciclo bem maior, uma sucessão de vivências. Quando um desses ciclos chega ao fim, percebemos que ele é apenas mais um capítulo do livro que costumamos chamar de vida. Hoje é dia de começar de novo.

O blog Palavra de Homem começou como uma coluna no Jornal da Tarde há seis anos. Quase ao mesmo tempo, virou blog do Estadão. Passou pelo Diário de S. Paulo e agora estamos juntos aqui no R7. Bem-vindo. Casa nova... novo ciclo de vida.

É assim e sempre foi: primeiro temos o ciclo da escola, quando não temos sequer o conhecimento para saber que um dia ele chegará ao fim. Depois vem o ginásio, o colegial (ainda não me acostumei com os termos ‘Ensino Fundamental’ e ‘Ensino Médio’), e de repente já estamos na faculdade. E aí começa um novo ciclo, mais adulto. Curioso ver também como as responsabilidades começam a fazer parte da nossa vida pouco a pouco e, antes do que a gente imagina, já influenciam nosso comportamento e nossos objetivos. Não tem muita saída: fugir disso seria como fugir da própria ação do tempo. É impossível.

Depois da fase da faculdade, entramos no mercado de trabalho. Já era tempo de acabar com essa brincadeira! O negócio é ganhar dinheiro. Só assim seremos felizes - é o que nos ensinam. Não há nada mais errado do que vincular felicidade a dinheiro, embora seja difícil imaginar que alguém possa ser feliz sem dinheiro. Mas não é isso que vem a caso: dinheiro deve ser um objetivo de vida apenas quando vem acompanhado por outros valores, sonhos e realizações. Dinheiro em si é apenas papel-moeda impresso com o rosto de algum bicho brasileiro de um lado e uma personalidade que nunca saberemos quem é do outro.

Toda geração se acha superior à geração anterior. Somos mais modernos, mais rápidos. Mais antenados, mais complexos. Mais fortes, mais ágeis. Mais preparados, mais conectados. Tudo isso é verdade, e mentira ao mesmo tempo. As gerações não são mais determinadas pelo tempo biológico, mas pelo psicológico. Acho que essa é a grande mudança que o século 21 nos traz. Cada vez menos o ano de nascimento na carteira de identidade revela quem você é, pelo menos não tanto quando sua habilidade de enfrentar novos desafios, de aprender com os erros, de modificar sua forma de pensar a cada vez que alguém apresenta um problema que exige uma nova forma de pensar para ser solucionado. Viver é resolver problemas.

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O primeiro Dia dos Namorados… todo ano

Patti Stanger O primeiro Dia dos Namorados... todo ano

Patti Stanger, apresentadora do programa Matchmakers Millionaire. E o casamento dela, será que é perfeito?

Há um programa na TV a cabo chamado Millionaire Matchmaker, algo como ‘Casamenteira de Milionários’. A apresentadora Patti Stanger tem uma agência cuja função é, obviamente, encontrar namoradas para milionários solteirões. Não sei se é armação (alguns dão certo, outros não), mas a verdade é que o programa revela o que se passa na cabeça das pessoas no início de um namoro. É muito divertido ver as pessoas tentando se adaptar um ao outro, agindo como se tivessem apenas qualidades. Tentando, enfim, ‘se vender’ para o outro.

Pensando bem, no fundo, início de namoro é isso mesmo: o melhor de você na vitrine, torcendo para que o outro goste do que vê.

Um estudo recente mostra que 30% dos casamentos nos Estados Unidos começam com um relacionamento pela internet. Inicialmente achei o índice alto, mas depois acho que compreendi o porquê: se você entra em um site para namoros, é porque já está bastante predisposto a encontrar alguém, e vai se esforçar muito, mas muito mesmo, para que dê certo.

A verdade é que não importa se você encontra um namorado por meio de um programa de TV, pela internet ou em um bar. Algumas pessoas podem ter preconceito quanto a essa forma inicial, mas não podemos esquecer de que temos de usar as ferramentas que estão nas nossas mãos para atingir nossos objetivos. Pode parecer um pensamento frio, mas o amor também pode ser pragmático: é um dos casos em que os fins justificam os meios.

Na próxima quarta-feira é Dia dos Namorados, uma das datas mais marcantes do ano. Quem está sozinho sai para a balada tentando encontrar alguém, quem está acompanhado não se importa em sair ou ficar em casa, desde que comemore ao lado da pessoa amada.

Dependendo de quanto tempo tem o relacionamento, esse encontro vai ser de um jeito. Se for no comecinho, vai ser ‘quente’. Se for maduro, vai ser um pouco mais formal. O importante é reservar um tempo para lembrar como tudo começou. É tão gostoso voltar a viver esse momento, não? Tenho certeza de que fazer isso fará renascer aquele sentimento inicial, aquela vontade boa de mostrar apenas as qualidades. Uma troca de olhares e você percebe como e por quê um coração se encaixou no outro. E não importa o presente que você comprou, o que vale é que você lembrou como ‘se vendeu’.

E daí, todo ano, o seu Dia dos Namorados será como o primeiro.

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O que podemos aprender com pássaros presos

bird O que podemos aprender com pássaros presos

'Livre como um pássaro' não é apenas uma expressão

Imagine um grande prédio, em formato de um cubo, inteirinho  de vidro. Pé direito alto, coisa pra lá de cinco metros. Enorme. O prédio está praticamente vazio, se não fosse pelo pássaro que entrou sem querer pela porta da frente e agora está preso no labirinto de transparências, sem saber qual delas é a saída.

Para o pássaro, as janelas de vidro são uma ilusão que podem significar a vida ou a morte. Se não encontrar a saída, morrerá. Se encontrar, poderá voltar ao convívio de seus colegas alados, que não o observam do lado de fora, talvez nem entendam como é possível ficar preso dentro de um lugar de onde se pode ver o céu, mas não se consegue chegar até ele.

Desesperado em sua ignorância, o pássaro tenta sair por uma das janelas, mas dá com o bico no vidro com tanta força que faria até barulho, se houvesse alguém para ouvi-lo. Daí ele tenta mais uma vez, mas novamente é impedido de voltar ao  seu ambiente familiar, o céu azul e cheio de nuvens, um paraíso que parece tão perto e, ao mesmo tempo, tão inalcançável.

E agora? O que ele pode fazer, a não ser bater com o bico de vidro em vidro até dar a sorte de um deles ser uma porta aberta? Além disso, estaria a porta aberta? Como fugir dessa improvável arapuca?

O pássaro canta, canta, canta. Não é um canto para o seu prazer, mas para invocar algum deus da sobrevivência que por ventura estivesse por aquelas bandas. Alguns minutos depois, o bombeiro de plantão ouve o estranho som e vem em seu socorro. O uniformizado salvador traz nas mãos um longo tubo de alumínio que traz acoplada uma rede a uma das extremidades, o que torna o objeto parecido com um equipamento feito para limpar piscinas. O pássaro fica nervoso quando aquele  objeto esquisito se aproxima. Ele se debate, mas o bombeiro consegue capturá-lo  e rapidamente o leva até a porta aberta. Pronto. Aliviado, o pássaro voa e desaparece.

Às vezes, entramos em situações em que até podemos resolver tudo sozinhos, mas a custo de muitas cabeçadas em janelas de vidro. É comum querer enfrentar os problemas sem pedir ajuda e, muitas vezes, é justamente isso que nos fortalece. Temos de ter a responsabilidade, mas em outras ocasiões temos de ter a humildade de chamar alguém para dar uma mão.  Alguém que ouça o nosso canto quando estamos presos em prédios de vidro, observando tudo, mas sem conseguir sair.

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Alguém quer ouvir sua voz em 2013

champagne brinde Alguém quer ouvir sua voz em 2013

Que venha 2013... Um brinde às pessoas que estão conosco. E outro para as que não estão

Feche os olhos. Tente se lembrar de seus amigos de infância, aquela turma com quem você brincava de carrinho ou boneca e morria de raiva quando sua mãe ou seu pai chegava para te buscar. Impossível não recordar dessa época com carinho, não é mesmo? A psicologia explica: a nostalgia quase sempre anula os percalços e nos deixa apenas com as  boas recordações. Como se Deus agisse como Darwin, ou vice-versa, e nosso cérebro exercesse uma espécie de ‘seleção natural’ em relação a nossa memória.

Pensando bem, não precisa ir tão longe. Onde foi parar aquele cara que, até alguns anos atrás, era seu melhor amigo?  E aquela amiga, com quem você passava horas e horas no telefone, por onde anda? Para quem será que ela liga hoje em dia?

Outro dia, uma amiga me perguntou sobre um amigo em comum e eu não soube responder. Eu não sabia onde ele estava. Não sabia o que tinha acontecido, se estava no mesmo lugar, se tinha morrido, se tinha casado e mudado de cidade.

Amanhã é a noite de Réveillon. Eu sei, eu sei, você já tem muita gente para pensar nesse momento, pessoas queridas que estão presentes na sua vida. Por que pensar naqueles com quem perdemos o contato?

Não sei, não conheço sua história. Mas aposto que essas pessoas que você deixou para trás gostariam muito de ouvir a sua voz em 2013. Às vezes, a gente diz alguma coisa sem perceber, às vezes é uma bobagem  que parece tão natural e, no entanto, provoca uma reação negativa em quem a gente gosta. E daí, numa mistura de orgulho e abandono, a situação segue em frente sem que nenhum dos envolvidos decida resolvê-la. Quando menos se espera, esse frágil pedaço de vida, a qual chamamos de relação humana, rompeu-se.

Aproveitando que esse é um texto de fim de ano, que tal você pegar o telefone e ligar para saber as novidades? Não precisa ser logo nos primeiros dias. Todo mundo está viajando, o clima ainda é de Réveillon. Mas que tal fazer isso assim que 2013 começar para valer? Aposto que ter aquela pessoa especial de volta ao seu convívio será um presente para você e para ela.

Feliz amigo novo. De novo.

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Então quer dizer que o mundo não acabou?

nostradamus Então quer dizer que o mundo não acabou?

De tempos em tempos, algum chato inventa uma profecia do Nostradamus para encher o saco

 

Se você está lendo este texto, é porque o mundo não acabou ontem, como previa a suposta maldição  do povo maia. Aliás, se os maias fossem tão espertos e soubessem mais que os outros povos, ainda estariam por aí.

Sei que você não aguenta mais falar nesse assunto. Eu também não. Foi a mesma chatice quando nos aproximávamos do ano 2000, lembra? O ‘bug do milênio’ ia apagar os dados de todos os computadores e o planeta ia entrar em colapso. Não aconteceu absolutamente nada.

Lembro de outra profecia bem assustadora: segundo os “especialistas” (leia-se charlatões),  Nostradamus teria escrito que a primeira edição do Rock in Rio, em 1985, “acabaria em tragédia”. Outra bobagem.

Tudo isso me leva a pensar em duas coisas. Primeira: como tem gente que não tem o que fazer no mundo. Sim, porque se você tem tempo para estudar o calendário Maia, e ainda tem tempo de tentar convencer o mundo de que a sua esquisitice tem fundamento, você só pode ter vários parafusos a menos e muito tempo livre.

Em segundo lugar, isso me leva a outra reflexão, desta vez um pouco mais interessante. E se fosse, realmente, o fim do mundo? Quer dizer, se a Nasa anunciasse que um meteoro iria se chocar com a Terra? O que você faria? E, mais interessante do que isso, você estaria feliz ou arrependido com as decisões que tomou na vida?

Com a eventual proximidade do fim do mundo, você tomaria alguma decisão ou faria alguma coisa que não teria coragem se o mundo continuasse do jeito que está?

Ninguém precisa esperar o fim do mundo para fazer o que sempre sonhou. Seja para  declarar o  amor para aquela amiga de infância, para contar para a família que é gay ou para dizer ao  chefe que você não aguenta mais a cara dele. Não perca tempo.  O mundo vai acabar, sim, mas cada um de nós terá um apocalipse pessoal. É a data de nossa morte. Até lá, estamos livres para realizar nossos sonhos ou para tirar qualquer peso de cima dos ombros. As consequências podem ser difíceis nos primeiros dias, mas no longo prazo é óbvio que elas valem a pena. Fim do mundo é viver uma vida que não é a sua.

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Só podia ser ficção… mas não era

argo Só podia ser ficção... mas não era

Ben Affleck atuou e dirigiu 'Argo', candidato a Melhor Filme de 2012

Se você ainda não viu o filme “Argo”, recomendo que faça isso antes da festa do Oscar,  no início do ano que vem. “Argo” é um dos candidatos mais fortes ao título de Melhor Filme de 2012.

Mas é claro que você não deve ver “Argo” apenas porque ele é um dos favoritos ao prêmio. Você deve assistir ao filme porque a história é tão maluca, mas tão maluca, que só podia existir no cinema. Certo? Errado.

A sensacional trama de “Argo” foi baseada em uma história real. Vou resumir: Irã, 1979. A embaixada dos Estados Unidos é invadida por manifestantes anti-EUA. Seis americanos conseguem fugir para a casa do embaixador canadense e passam a ser procurados pelo governo. Como resgatá-los de lá? Simples. A CIA “inventou” uma produtora de cinema de mentirinha e fingiu que queria fazer um filme no Irã. Daí treinaram os funcionários da embaixada para parecerem que eram da equipe de filmagem e... pronto.

Como é que uma ideia tão absurda pode dar certo? A vida é assim. A nossa existência não é lógica. Às vezes, passamos horas pensando na solução para um problema e, daí, percebemos que a resposta estava na nossa frente o tempo inteiro. Em outras ocasiões, imaginamos obstáculos enormes aos nossos sonhos, quando tudo o que tínhamos de fazer era deitar a cabeça no travesseiro e esperá-los vir à tona.

“Argo” faz pensar que a vida real é muito mais interessante (e imprevisível) do que qualquer filme de Hollywood. São tantas coincidências, tantos desencontros, tantas coisas impossíveis que acabam se provando possíveis... que os roteiros de ficção acabam perdendo feio.

Espere o inesperado. Faça planos, mas esteja preparado para rasgá-los. Saia de casa sem guarda-chuva e aguarde o temporal virando a esquina. Saia com um guarda-chuva e pode ter certeza de que vai abrir um sol de rachar a cabeça.

A vida é controlável até um certo ponto e, por isso, o único remédio para os percalços do destino é a criatividade. Surgiu um problema complicado? Deixe a sua mente viajar. Afinal, se o plano de “Argo” virou realidade, qualquer coisa que você sonhar também pode virar. É só acreditar.

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Casais que somam, casais que dividem

 

BradPittAngelinaJolie Casais que somam, casais que dividem

Brad Pitt e Angelina Jolie: Um casal que soma... inclusive filhos: eles já têm seis

É interessante constatar como a matemática está presente em quase tudo na vida - e igualmente interessante ver que ela não se aplica aos relacionamentos. Quando duas pessoas se unem e formam um casal, a tendência natural é achar que os dois estão dispostos a somar suas experiências,  suas qualidades, suas trajetórias de vida. Mas isso não é necessariamente verdade: por incrível que pareça, há casais que se unem com o objetivo de ficar ainda mais divididos.

Casais que somam, casais que dividem. Se você levar apenas para o lado financeiro, seria um insulto ao meu raciocínio. É claro que casais também costumam somar seus patrimônios quando se juntam, mas não é disso que estamos falando.

Há atitudes que somam, assim como há atitudes que dividem. Quando vemos isso no plano profissional de cada um, fica fácil entender. Há mulheres que colocam o homem 'para cima', 'para frente'; e há mulheres que fazem questão de trazer seus companheiros para baixo. E aí eu me pergunto: será que é de propósito? Como é que  alguém que diz amar o outro pode... prejudicá-lo? Acredite, isso existe mais do que você imagina, tanto para homens quanto para mulheres. Será que é  medo de perder o outro? Será que é inveja da evolução do outro quando você está estagnado?

No dia a dia também vejo casais que dividem: os dois estão em algum evento maravilhoso, tudo indo muito bem, de repente... surge um acesso de fúria. Por quê? Ah, sei lá. Pode ser ciúme, a razão mais comum para esse tipo de comportamento. Mas também pode ser  pura competição, vingança ou algum outro sentimento 'nobre' que invade nossos corações e nos transforma momentaneamente em pessoas piores do que normalmente somos.

Se conselho fosse bom, ninguém dava de graça. Mas como você está em casa (pagando a banda larga) ou em uma lan house (pagando por hora), eu me sinto à vontade para dar: não contente-se em ser parte de um casal que divide; seja a metade de um casal que soma. Um casal  agradável, amigo, que traz alegria quando chega em algum lugar. De gente negativa o inferno está cheio.

Parece óbvio, mas somar é sempre mais positivo do que dividir.

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Virou moda dizer que ‘não existe amor em SP’ ou que no século 21 não há mais espaço para experiências sólidas e duradouras. Vivemos a estéril era do Facebook, época em que os relacionamentos reais parecem ter perdido a relevância. O que vale agora é ter o maior número de “amigos”, mesmo que essas amizades sejam apenas virtuais.

Pois eu me recuso a acreditar que o mundo agora é assim. Pode me chamar de ingênuo, idealista. A verdade é que tenho uma boa razão para acreditar que ainda existe gente que aposta no amor. Essa convicção vive comigo há  duas décadas.

No último dia 7, um casal de amigos celebrou 16 anos de casamento. Somando os cinco em que namoraram, dá 21 anos de amor ininterrupto e exemplar. Meus queridos  Paola e Rodrigo Cerveira são a prova viva de que, sim, é possível viver um relacionamento de verdade mesmo em meio ao nosso caótico dia a dia.

Eles brigam de vez em quando? Claro que sim – o contrário em um casamento tão longo é que seria esquisito. Mas o importante é o desejo que os dois têm de ficar juntos, de continuar escrevendo essa história frase a frase, capítulo a capítulo. Uma bela história escrita a quatro mãos. Ou seis, se você contar as duas mãozinhas lindas da GioGio, filha deles.

Você também deve conhecer casais assim, exemplos de relacionamentos bem-sucedidos. Pessoas que estabelecem, entre suas prioridades na vida, manter o casamento. Não pelas razões erradas, como comodidade, receio do futuro ou medo de perder status – desculpas que certamente seguram muitos casamentos por aí.

A razão, no caso da Paola e do Rodrigo, é bem mais simples: amor. E em relação ao amor, não há nada mais difícil de explicar e nada mais fácil de entender.

O escritor russo Tolstói disse que as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira, enquanto as famílias felizes são sempre iguais e felizes pelas mesmas razões. Não sei se  todas as famílias felizes são iguais. Mas se elas são, parabéns: conviver com uma família feliz de verdade, como eu tenho feito há 21 anos, dá uma esperança danada na humanidade.

 

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