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Rock Brigade: Documentário conta a história de uma revista feita com papel, tinta… e metal pesado

Headbanger Voice 2017 Rock Brigade: Documentário conta a história de uma revista feita com papel, tinta... e metal pesado

Kerry King, do Slayer, na capa da Rock Brigade: Detalhe para o bracelete de pregos, fetiche metal nos anos 1980

No início dos anos 1980 praticamente não havia acesso à informação sobre rock pesado no Brasil. Éramos obrigados a comprar revistas importadas como Circus e Hit Parader - muitas vezes não sequer encontrávamos as revistas nas bancas e tínhamos que comprar matérias avulsas das nossas bandas favoritas uma vez por semana, nas manhãs de sábado da Woodstock Discos, frequentadas com assiduidade quase religiosa.

Havia, no entanto, um lugar em São Paulo, que era considerado pelos adolescentes carentes e fanáticos por heavy metal como uma espécie de santuário. O mítico Carbono 14 ficava no Bexiga e funcionava como um cinema amador. Pensando bem, agora, 'cinema amador' talvez soe um pouco sofisticado demais. O lugar estava mais para uma sala claustrofóbica repleta de cadeiras de plástico e uma TV ligada a um videocassete. Como era possível sonharmos com aquelas sessões? Só seria possível responder voltando no tempo.

Pois foi lá que vi pela primeira vez 'The Song Remains the Same', o clássico filme do Led Zeppelin com o show do Madison Square Garden. Chorei quando vi Robert Plant, Jimmy Page, John Paul Jones e John Bonham se mexendo, já que só conhecia a banda por fotos. Aos treze anos, eu frequentava esse lugar mágico acompanhado por alguns amigos de infância, Pit Passarell, Yves Passarell e Andre Matos, entre outros. Meu pai fazia questão de nos levar - provavelmente para evitar que algum vendedor ambulante nos vendesse pipoca com maconha.

Pois no segundo andar do Carbono 14 funcionava a sede informal de uma publicação chamada Rock Brigade, que na época nada mais era do que um fanzine xerocado e grampeado de uma maneira deliciosamente tosca. A qualidade da impressão mal nos deixava entender o quê ou quem estavam retratados nas fotos, mas tudo o que queríamos era ler aqueles textos maravilhosos sobre bandas que sequer conhecíamos. Judas Priest? Iron Maiden? Metallica? Manowar? Venom? Angelwitch? Saxon? New Wave of British Heavy Metal? WHAT THE FUCK IS THAT? Onde podemos ouvir isso, meu deus? Bem, nas fitas K-7 que a Rock Brigade também vendia, uma pirataria legítima e absolutamente necessária.

Eu e o brother Luiz Cesar Pimentel éramos obcecados pela Rock Brigade: líamos tudo, os editoriais, as resenhas (até de bandas que a gente não conhecia), trocávamos impressões sobre aquele estilo 'Hunter S. Thompson do Bexiga', referência só conseguiríamos reconhecer muito tempo depois. O que era tão bom nos textos? Bem, digamos apenas que a crítica sobre um disco do Manowar poderia começar com algo como 'As portas de Asgard se abrem e Odin saúda o Manowar blá blá blá' ou coisa do tipo. Eram textos tão épicos quanto o próprio heavy metal, acompanhados de um romantismo e paixão que nos inspirava e, sejamos sinceros, nos doutrinava.

Era o registro de uma época em que as pessoas colocavam um disco de vinil para tocar e acompanhavam ansiosamente cada acorde com o encarte nas mãos, lendo os agradecimentos, tentando entender qual era a mensagem da capa, adivinhar o que os músicos estavam pensando durante a sessão de fotos. Era uma época em que a música era importante, valorizada. Quando a música era arte, não entretenimento. Essa época vai fazer falta quando não houver mais ídolos.

Um pouco mais tarde, quando o VIPER começou a tocar no circuito paulistano, conhecemos as pessoas por trás daqueles lendários textos. A Rock Brigade, que agora já era uma revista colorida, passou a ter rostos. Assim como os músicos de metal, na época esses caras também eram nossos herois.

Eduardo de Souza Bonadia. Antonio Pirani. Wilson Dias Lúcio. Berrah de Alencar. Depois vieram Paulo Caciji, Alberto Torquato, Ayala, Andre 'Pomba' e outros. Mas, nessa época, a Rock Brigade - que chamávamos carinhosamente de 'Rock Brinquedo' - era formada apenas pelos 'Quatro Cavalheiros do Apocalipse' Bonadia, Toninho, Wilson e Berrah. A partir daí, orgulhosamente, não acompanhávamos mais a Brigade apenas como leitores, mas como protagonistas de suas páginas.

Após um show do VIPER no Ácido Plástico (um bar na zona norte que ficava diabolicamente colado ao presídio do Carandiru), Bonadia e Toninho nos convidaram a assinar com o selo Rock Brigade Records, outro desdobramento da revista.

Eu tinha 16 anos. Eu tinha 16 anos e ia gravar um disco pelo selo da revista Rock Brigade. Eu tinha 16 anos e ia gravar um disco pelo selo da revista Rock Brigade em um estúdio de 24 canais e depois ia ter esse disco lançado no mundo inteiro.

Saímos de lá eufóricos, com sensação de que os sonhos podiam ser realizados. 16 anos é uma idade mágica.

Bom, contei toda essa história apenas para dizer que os 35 anos de história da Rock Brigade viraram filme. Um documentário, para ser mais exato.

A história da Rock Brigade, um fã clube de heavy metal formado em 1981, se tornou o filme “Headbanger Voice”, nome da lendária coluna dos leitores da revista, onde as cartas eram tão boas - senão melhores - que as próprias e geniais matérias.

Dirigido pelo jornalista Wladimyr Cruz – responsável por documentários musicais sobre a loja de discos Woodstock, a casa noturna Madame Satã, a banda de heavy metal Vulcano e a cena punk de Santos, “Califórnia Brasileira” – e pelo fotógrafo Marcelo Colmenero, o longa se baseia em entrevistas com fundadores da revista, colaboradores e nomes importantes da cena metálica nacional para discorrer acerca da história do informativo que virou a revista de música com mais tempo de circulação no Brasil. Se minha entrevista não foi cortada, acho que estou lá.

Repassando causos e histórias sobre diversas edições da revista, o filme revisita os mais de 270 números da publicação, sem esquecer de abordar também a Rock Brigade Records – selo fonográfico ligado à publicação com mais de 500 lançamentos e em plena atividade até hoje. Produzido de forma absolutamente independente, 'Headbanger Voice' é mais um lançamento do selo audiovisual Blue Screen of Death Filmes. Parabéns ao Wladimyr pela iniciativa. Que Odin e toda a turma de Asgard abençoe esse projeto.

 

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Metallica e The Strokes: Feliz Lollapalooza 2017!

 

Metallica2 Metallica e The Strokes: Feliz Lollapalooza 2017!

Metallica! Os reis do thrash são o destaque da primeira noite (25/3) no Lollapalooza 2017. Mas ainda tem The Strokes, The Weeknd, Rancid...

Está chegando!

Quando a gente vê o horário completo dos shows e todas as atrações de cada palco é que a gente percebe: está chegando o Lollapalooza 2017.

A edição deste ano será muito especial por várias razões, mas principalmente por contar com a maior banda de rock pesado do mundo: Metallica, que vai tocar pela primeira vez no país o repertório do melhor disco do ano passado, 'Hardwired... to Self Destruct'. Um show do Metallica é sempre uma experiência inesquecível: fui a todos, desde a primeira vez em que eles tocaram no país, em 1989, no Ginásio do Ibirapuera, durante a turnê do '... And Justice for All' .

O show de 1993, no entanto, foi o mais incrível para mim, já que o VIPER teve a oportunidade de abrir os dois shows da turnê do 'Black Album' no Estádio do Palmeiras, em frente a mais de 20 mil pessoas por noite. Uma historinha rápida sobre esses shows: antes do primeiro show, no sábado, os caras do Metallica nos convidaram para ir ao camarim. Ficamos super ansiosos, antes de qualquer outra coisa, éramos muito fãs da banda. Ao entrar, ficamos impressionados com a disposição dos móveis, todos rodeados de cases. Sofás, poltronas, mesas, aparelhos de TV; tudo que havia no camarim do Metallica havia sido transportado dentro de cases, para que os roadies pudessem montar sempre o mesmo camarim, não importava o país em que estivessem.

Achei isso curioso, chamou a atenção. Outra coisa que chamou a atenção foi a comida: pilhas e pilhas de sanduíches do McDonald's. Acho que era uma tentativa de padronizar também a alimentação, uma vez que sanduíches do McDonald's são sempre iguais em qualquer lugar do mundo. E eles evitavam se preocupar com a origem dos alimentos, se estavam frescos ou não, etc. Conversamos um pouco e ganhamos camisetas e bonés do Metallica. Como na época não havia celular, não deu para tirar nenhuma selfie... a não ser aquelas que guardo na memória, em uma gaveta escondida em algum lugar querido do meu cérebro e muito especial.

Nossos shows foram incríveis, até porque o VIPER estava em alta na época, com clipes rolando na MTV o tempo inteiro. Há vídeos no YouTube desse show e dá para ver a empolgação do público, mesmo sabendo que tinham ido lá para ver o Metallica. Foi uma honra.

Apesar do carinho pelo Metallica, o Lolla é muito mais que isso. Além do tradicional e gigantesco parque de diversões para adultos, na mesma noite teremos ainda os punks do Rancid, Cage the Elephant, The XX...

Na noite seguinte, mais voltada para o pop, teremos um show que estou louco para ver: The Weeknd, uma banda de um homem só que tem uma pegada eletrônica e soul, mas com muita qualidade. Como é que dá para gostar de The Weeknd e Metallica ao mesmo tempo? Não sei, nunca pensei nisso.

O domingo está mais variado que o sábado, com um line-up mais legal, na minha opinião. Tem Duran Duran, os Beatles dos anos 1980, com o carismático e divertido Simon Le Bon à frente; tem Silversun Pickups, uma banda bem legal que vi no ano passado nos 25 anos do Lollapalooza, em Chicago; tem Two Door Cinema Club, um pop bem feito e ultra-melódico; e tem, claro, a chave de ouro para fechar o festival, com os nova-iorquinos do The Strokes. Yes!

É sempre uma maratona? É. A gente fica morto no final do festival? Fica. Mas na segunda-feira, dia seguinte dos shows, tenho certeza que a pergunta que eu mais vou ouvir entre meus amigos será "Quem será que vem para o Lolla 2018?"

Feliz Lollapalooza 2017!

Lolla 251 Metallica e The Strokes: Feliz Lollapalooza 2017!

Lolla 26 Metallica e The Strokes: Feliz Lollapalooza 2017!

 

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‘Someday’: As coisas têm que mudar para que tudo permaneça igual

No último inverno estive pela primeira vez em Valle Nevado, no Chile, paraíso de neve cravado no coração da Cordilheira dos Andes, a pouco mais de 40 quilômetros de Santiago. A viagem aconteceu na época do lançamento do meu primeiro álbum como vocalista e compositor, 'FM Solo', e logo imaginei que o local era perfeito como cenário de uma das canções. Diante de um lugar tão incrível, não tive dúvidas: essas montanhas merecem um videoclipe.

'Someday' foi a primeira música que escrevi para o álbum 'FM Solo', há quase dois anos. A primeira frase que me veio à cabeça na hora de começar a compor foi 'Someday things will have to change / Just to make sure they remain the same' (Algum dia as coisas terão que mudar / Apenas para ter certeza de que continuarão iguais). A inspiração para a letra veio do escritor italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa, autor de 'Il Gattopardo'. Não li o livro, mas sou fã da adaptação feita para o cinema em 1963 pelo diretor Luchino Visconti - e foi no filme 'O Leopardo' que ouvi a frase "Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude".

Sempre me pareceu forte e verdadeira a ideia de que às vezes as coisas precisam mudar para continuar como são. Precisamos nos reinventar o tempo inteiro. É assim que vejo a vida: uma espiral de mudanças externas constantes e necessárias para manter a identidade e reafirmar a cada dia quem somos por dentro. É o que acontece com as montanhas de neve, que são alteradas todos os dias pela ação dos ventos e a luz do sol e, no entanto, continuam impassíveis, gigantescas, nos observando serenamente do alto de sua majestade.

Conheci o diretor Filipe Mello durante a viagem a Valle Nevado. Ele estava gravando um programa sobre esqui para sua produtora, a BW5, que seria exibido em canais do Sul do Brasil. Estava acompanhado da equipe, o cinegrafista Nando e a apresentadora Natália. Ficamos amigos após dividir o microfone em uma noite de karaokê regada a vinho tinto e muitas risadas. Batendo papo, mostrei para o Filipe algumas músicas de 'FM Solo' e fiz a sugestão: 'O que acha da gente gravar um clipe?". Ele topou.

O resultado é 'Someday', cuja letra publico abaixo para quem quiser saber do que se trata a música. E termino esse post com uma propaganda: quem quiser comprar o CD, basta clicar aqui. 'FM Solo' também está disponível em todas as plataformas de streaming e na Apple Store. Quem quiser saber mais sobre o projeto FM Solo, clique aqui.

Boa viagem.

Someday

The past is hunting like a new ghost
That silly moment we know we're wrong
How many lives must we live again?
How many questions till we understand?

A memory from the last time
The good old things that we left behind

Why is everything so hard now?
Do your mistakes fall to the ground?
Sometimes nothing is the best thing
You can do to save the dream

Someday things will have to change
Just to make sure they remain the same

I've got a feeling you have to know
Don't break the messengers heart and soul

Copyright 2015 | FM Labs

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‘So Much to Lose’ é o primeiro lyric video do álbum FM Solo

Como publiquei no post anterior, estou lançando meu primeiro CD sem o VIPER, 'FM Solo'. Para ajudar na divulgação, muitos amigos me recomendaram fazer um 'lyric video', disseram que é um formato que está na moda hoje em dia. Achei legal e fiz: segue aqui 'So Much to Lose', primeiro lyric video do álbum 'FM Solo'.

Aliás, gostei tanto da experiência que pretendo fazer lyric videos de todas as faixas...

E aproveito para lembrar que 'FM Solo' está à venda nas versões CD (clique aqui) e digital (clique aqui).

Espero que você goste! Abs, FM.

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Quer me dar um presente de aniversário? Ouça FM Solo

FM Estudio Quer me dar um presente de aniversário? Ouça FM Solo

Felipe Machado, guitarrista do VIPER, lança seu primeiro álbum, 'FM Solo'

Hoje eu faço 45 anos e resolvi comemorar o aniversário de uma forma diferente: eu mesmo me dei um presente. Tudo bem, já imagino que você vai me chamar de egoísta ou algo parecido, mas a verdade é que não é nada disso. Depois de tantos anos tocando em uma banda, o VIPER, resolvi me dar de presente o lançamento do meu primeiro álbum solo.

Pode soar estranho, mas se você pensar bem vai ver que não é tão esquisito assim. Muita gente aproveita o aniversário para comprar alguma coisa que sempre quis, um carro zero, uma guitarra novinha, um relógio dos sonhos. Pois eu não quero nada disso. Para mim, as melhores coisas são abstratas: um projeto novo, um sonho realizado, uma oportunidade de expressar a criatividade.

‘FM Solo’, meu primeiro álbum solo, é isso. E foi por isso que escolhi o dia de hoje para o seu lançamento. Não quero presentes, não preciso de nada que eu já não tenha, não tenho nenhum grande sonho material. Quero apenas que você ouça o disco e me diga a sua opinião sincera. Se gostar, vou ficar muito feliz. Se odiar, obviamente não vou ficar tão feliz assim, mas pelo menos vou ficar satisfeito de saber que você doou um pouco do seu tempo para ouvir e dar a sua opinião. Enfim, se eu pudesse escolher um presente hoje, eu diria que é saber a reação das pessoas.

Como não dá para fazer isso pessoalmente, pode comentar aqui nesse post, usar o Facebook ou me dizer pessoalmente no show de lançamento em São Paulo, dia 10 de setembro, às 21h, no Na Mata Café (R. da Mata, 70, Itaim). Ao vivo a banda é incrível: Val Santos na guitarra, Rob Gutierrez no baixo e Guilherme Martin na bateria. Além de grandes músicos, são grandes amigos. E, pensando bem, a amizade desses caras é um presente que eu quero continuar ganhando todo ano.

Agora vamos lá: se você quiser comprar o CD, baixar o digital ou ouvir no streaming, é fácil:

Para comprar o CD ou a camiseta, clique na loja do Wikimetal.

Para baixar a versão digital, clique aqui para acessar a loja da Apple iTunes Store.

Para ouvir o álbum por streaming, pode acessar qualquer plataforma digital, porque FM Solo está disponível em todas elas.

E se você é comerciante e quer vender FM Solo na sua loja, clique aqui para acessar a distribuidora Voice Music.

Obrigado desde já! Abs, F.

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O primeiro disco solo a gente nunca esquece

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'FM Solo': Álbum será lançado em CD e Digital em 4 de agosto de 2015

É com grande prazer que anuncio o lançamento do álbum 'FM SOLO', meu primeiro trabalho como vocalista e compositor - e o primeiro sem meus companheiros do VIPER. O lançamento de 'FM SOLO' será em formato CD e Digital (iTunes, streaming) no dia 4 de agosto de 2015 por meio de uma parceria entre o selo Wikimetal e o FMLABS, estúdio que vai realizar projetos nas áreas de música, literatura, cinema e TV.

Eu e Val Santos produzimos 'FM Solo', e o álbum foi mixado pelo Val e Maurício Cersosimo - e masterizado por Maurício Gargel.

O repertório é:

1. 'Perfect One' (Machado)
2. 'So Much to Lose' (Machado)
3. 'The Shelter' (Machado)
4. 'Take a Chance' (Machado)
5. 'Speedway' (Morrissey)
6. 'Dark Angel' (Machado/Giovanna Cerveira)
7. 'Someday'
8. 'Unnatural Feelings' (Machado)
9. 'Tourist' (Athlete)
10. 'Iceland' (Machado)

A partir de hoje, vou publicar aqui novidades sobre o projeto, os músicos da banda e a agenda de shows. Agradeço desde já o apoio de vocês, espero que vocês curtam e compartilhem esse projeto. E não vejo a hora de chegar o dia 4 para saber a opinião de todos sobre o que realmente importa nessa história: a música.

Valeu! Abs, FM

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Musical celebra os ‘Dias de Luta, Dias de Glória’ de Chorão

musical Chorao Musical celebra os Dias de Luta, Dias de Glória de Chorão

Elenco de 'Dias de Luta, Dias de Glória': a história do Charlie Brown Jr. virou musical. Foto: Divulgação

A primeira vez que vi o Chorão foi no camarim de um show do VIPER, em Santos, no início dos anos 1990. A banda dele na época, What’s Up, estava abrindo o show e ele havia sido convidado por alguma emissora de TV local para nos entrevistar. Engraçado como o carisma de alguém é uma coisa real, quase palpável: na hora em que ele entrou na sala, a gente viu que o cara tinha alguma coisa diferente.

Tudo bem que esse ‘diferente’ não significava necessariamente algo, digamos, positivo – pelo menos não naquela hora. Chorão começou a entrevistar a gente em inglês, zoando muito, se jogava no chão, daí levantava, andava de skate no camarim durante a entrevista... enfim, nem lembro direito o que aconteceu lá, mas lembro que pensamos na hora: ou esse cara é muito louco ou vai ficar muito famoso. Ironicamente, aconteceram as duas coisas.

No último fim de semana assisti ao musical ‘Dias de Luta, Dias de Glória’ a convite da Thais, ex-mulher do Chorão e minha amiga há muitos anos. Temos muitos amigos em comum, principalmente a galera de Santos, como Murilo e Naldo, irmãos dela, e o brother Edu Collaço, entre outros.

Enfim, como o filho deles (dela e do Chorão, o Xande, que eu conheci bem pequenininho) está envolvido na produção, fiquei curioso para ver o que seria um musical sobre a vida do Chorão.

Em primeiro lugar, porque musical e atitude não são duas coisas que combinam imediatamente. Acho que o próprio Chorão acharia a ideia meio maluca: (“Montar um musical sobre a minha vida? Vai se f...”). Mas ao chegar lá e ver o belo teatro Gamaro lotado, com mais de 400 pessoas, a ficha caiu e percebi que tudo fazia sentido.

De cara vi que minha opinião estava baseada em uma posição meio preconceituosa, já que nunca fui muito fã da música do Charlie Brown Jr. Sempre respeitei a banda, mas não é o tipo de som que escolho ouvir. Acho que, por isso, a percepção que eu tinha do sucesso deles também era distorcida, pois sempre imaginei que estavam restritos aos adolescentes e fãs de skate. Quando as luzes se apagaram e surgiu aquela super produção, comecei a entender o que significou o Chorão e sua mensagem para as milhares de pessoas que ficaram órfãs com sua morte.

Percebi que o Chorão era muito mais que um vocalista de uma banda de sucesso. Assim como Renato Russo, Cazuza e outros poetas do rock brasileiro mais recente, Chorão tinha uma mensagem e, mais do que isso, um público. Ele tinha realmente uma voz única, um poço de opiniões conflitantes, mas, paradoxalmente, bastante firmes e – principalmente – autênticas.

É isso: Chorão era autêntico. Em um mundo onde as pessoas são cada vez mais politicamente corretas, Chorão representava uma rebeldia com o sistema, não no estilo ‘punk’ do ‘faça você mesmo’, mas como um porta-voz de uma geração que estava (está) de saco cheio de obedecer regras, que quer seguir seus sonhos, que quer ser o responsável por seu próprio caminho – para o bem ou para o mal.

Soando assim, pode parecer algum tipo de mensagem de ‘auto-ajuda’, e talvez não deixe de ser: a auto-ajuda só se torna popular porque tanto o mensageiro quanto os receptores estão sintonizados no mesmo canal.

Acreditar nos sonhos e seguir o seu caminho é uma mensagem simples? É. Mas quando alguém grita isso bem alto, muita gente ouve. Não alguém que aprendeu as coisas na teoria ou nos livros, mas alguém que veio das ruas e continuou a respeitar as ruas depois de atingir o sucesso.

Pensando bem, não basta gritar: é preciso gritar na mesma língua de quem está ouvindo. Foi isso o que ficou bem claro com o musical. Chorão era um ídolo, um poeta que não tinha erudição – do ponto de vista literal – , mas tinha a verdade do seu lado.

A direção do espetáculo é de Bruno Sorrentino e Luiz Sorrentino, pai e filho. Interessante por várias e óbvias razões ver um musical que trata um pouco de conflito de gerações ser dirigida por um pai e um filho. A direção é muito boa, assim como a direção musical de Marcel Balieiro e a coreografia de Guto Muniz. Embora não seja a minha praia, deu para perceber o esforço bem sucedido em traduzir uma linguagem street para o formato musical.

Do ponto de vista visual, no entanto, o estilo street me impressionou porque funciona natural e feito para o palco, principalmente no caso do Charlie Brown Jr., uma banda de‘skate rock’. Os grafites, o half pipe de skate, a banda ao vivo no alto do palco, tudo isso cria uma bela atmosfera onde os atores Dz6 (Chorão), Carolina Oliveira (Thaís), Patrícia Coelho (Gabriela), Julio Oliveira (Champignon) e Gustavo Mazzei (Xande), entre outros, podem cantar e dançar à vontade.

A única ressalva que eu faria em relação ao espetáculo é a ausência de uma discussão sobre drogas. Dado o caráter de ídolo que Chorão tem entre os adolescentes, acho que poderia haver alguma citação ao problema que, afinal de contas, foi o que levou o roqueiro à morte. Não acho que o musical deveria ser baseado no problema de Chorão com a cocaína, mas acho que isso poderia pelo menos ser citado – fica tudo muito no ar.

Na minha opinião, seria um alerta legal para os jovens que têm lotado o teatro para ver e ouvir sobre sua vida, mas também que vão lá para tentar lembrar os bons momentos que chegaram ao fim graças às drogas. A morte de Champignon, pouco tempo depois, também é abordada de uma maneira bem sutil, perceptível apenas para quem já conhece a história. Fica aquela pergunta no ar: Mas como ele morreu? Por quê? Acho que aí o dramaturgo Well Rianc poderia ter incluído alguma informação mais direta. Ou talvez tenha sido uma opção consciente por alguma razão que eu desconheço.

Resumindo, o musical é uma excelente diversão para quem gosta da banda, mas também para quem quer entender um pouco como pensa o jovem brasileiro nos dias de hoje. Também fiquei com uma excelente impressão do Teatro Gamaro, não apenas porque é um ótimo e grandioso projeto, mas também porque fica na Mooca, um bairro até então um pouco fora do circuito do teatro em São Paulo. O Gamaro é uma grande notícia para os moradores da Zona Leste.

A vida de Chorão terminou em tragédia, mas ‘Dias de Luta, Dias de Glória’ consegue imprimir um caráter positivo sobre a vida de um jovem que acreditou nos seus sonhos e correu atrás deles. Pena que Chorão não teve a chance de continuar por aqui para amadurecer junto com seus fãs. Uma voz única e verdadeira sempre faz falta.

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Aviso do destino: tem show do Fates Warning no fim de semana

Fates Warning Aviso do destino: tem show do Fates Warning no fim de semana

Fates Warning: Pioneiros do Prog Metal - e isso é um elogio

No início dos anos 80, meu amigo Victor Birner me apresentou o Fates Warning. Foi amor à primeira audição: virei fã e passei a acompanhar a carreira dos caras de perto, comprando todos os discos e tentando ler o (pouco) que a imprensa publicava. Ouvi tanto a música 'Damnation' que meu CD quase furou

Nessa época, era normal comprar shows piratas gravados em fitas K7 nas lojas do centro de São Paulo. Ao comprar uma delas, uma fita ao vivo do Fates Warning, prestei atenção à banda de abertura, uma tal de Dream Theater. Achei interessante e acabei comprando a demo deles. Era legalzinha, mas não chegava aos pés do Fates Warning.

Fico muito surpreso ao ver que o Dream Theater fez sucesso, e o Fates Warning, não. Hoje, sinto que o Dream Theater se tornou a banda símbolo dos músicos que se preocupam mais com a técnica do que com a alma - e, por essa, entre outras razões, não consigo nem ouvir.

O Fates Warning não tinha músicos tão bons quanto o Dream Theater, mas tinha uma espécie de ‘Steve Harris’ (inclusive fisicamente) do heavy metal progressivo, o genial Jim Matheos. Quando digito 'heavy metal progressivo' sinto imediatamente um arrepio na espinha, já que o estilo virou sinônimo de bandas chatas e rococós. Por um lado, isso é verdade, muitas viraram paródias de si mesmas, aquela overdose de virtuosismo e tédio. Mas algumas, como o Fates Warning, combinaram o melhor do heavy metal (a energia, os músicos competentes e as boas canções) com o melhor do progressivo (estruturas musicais complexas, contratempos, letras inteligentes).

Todos os discos do Fates Warning são bons, mas ‘Perfect Symmetry’ é perfeito. 'Through Different Eyes' e ‘At Fates Hands’ são obras-primas do heavy metal. Os fãs do VIPER podem avaliar melhor se isso é bom ou mau, mas a verdade é que o Fates Warning me influenciou pessoalmente e como músico. Ouço Fates Warning e imediatamente volto à 1987. Não sou mais quem eu era, mas ao ouvir esse som eu entendo melhor como me tornei quem eu sou hoje.

Eles lançaram outros discos, seguiram na carreira de forma tímida como sempre. Anos mais tarde, tive uma surpresa: ao chegar com o VIPER ao estúdio onde gravaríamos o álbum ‘Coma Rage’, em Los Angeles, reconheço o rosto familiar do dono do estúdio: ninguém mais ninguém menos que Mark Zonder, baterista do Fates Warning. "Você conhece Fates Warning?", ele me perguntou, surpreso. "Mas é claro que sim, vocês são meus heróis", respondi, para um Mark Zonder ainda mais surpreso. Batemos papo, ficamos amigos, tomamos algumas (muitas) cervejas juntos sob o sol de LA. Mas o mais legal era ver o cara ensaiando (sozinho, já que o resto da banda morava na costa Leste) e tocando as músicas que eu tanto gostava. Só uma palavra para descrevê-lo: monstro.

A verdade é que ninguém escolhe seus ídolos - e nem devemos ter vergonha dos ídolos que escolhemos. O Fates Warning nunca chegou a fazer muito sucesso, e isso não influenciou em nada a admiração que ainda tenho por eles. A música é boa por isso: dá para gostar dos Beatles e do Fates Warning, do Metallica e do Morrissey, do Slayer e da bandinha da esquina. Música é um universo que não comporta o 'certo' ou o 'errado', e talvez seja isso que faz dela a forma de arte mais subjetiva e abstrata que existe. Como explicar a diferença entre música que emociona e música que não emociona? Se a resposta viesse de maneira científica, por meio de notas musicais, tudo seria mais fácil. Mas menos interessante, menos emocionante, menos única.

Tudo isso para dizer que o Fates Warning chega ao Brasil para shows no fim de semana. A banda é uma das atrações principais do Overload Music Fest, que traz ainda o grupo irlandês God is an Astronaut, o duo francês Alcest e os finlandeses do Swallow The Sun. Serão shows no Rio e São Paulo, conforme o serviço abaixo. Em São Paulo, toca também a banda Labirinto.

Overload Music Fest

4/9 (quinta-feira) - Rio de Janeiro/RJ

God is an Astronaut + Alcest
Teatro Rival Petrobras: Rua Álvaro Alvim, 33 - Centro
Horário: 20h
Classificação etária: 16 anos

5/9 (sexta-feira) - Rio de Janeiro/RJ

Fates Warning + Swallow the Sun
Teatro Rival Petrobras: Rua Álvaro Alvim, 33 - Centro
Horário: 20h
Classificação etária: 16 anos

6/9 (sábado) - São Paulo/SP

God is an Astronaut + Alcest + Fates Warning + Swallow the Sun + Labirinto
Via Marquês: Av. Marquês de São Vicente, 1589 - Barra Funda
Horário: 20h
Classificação etária: 18 anos

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O primeiro Monsters of Rock a gente nunca esquece

F ao vivo Monsters of Rock O primeiro Monsters of Rock a gente nunca esquece

Sonhando acordado no dia 27 de agosto de 1994: 'Everybody Everybody!'. Foto de Marcelo Rossi

Quando eu era adolescente, em 1984, fazia parte de uma turma enorme de cabeludos fanáticos por Rock & Roll. Entre nossas atividades principais, costumávamos: ouvir rock, conversar sobre rock, tocar rock, ver vídeos de rock, comprar discos de rock, ir a shows de rock... bom, você entendeu.

Gostávamos tanto que vários integrantes dessa turma acabaram virando músicos profissionais ou profissionais ligados ao rock alguns anos depois. Eu, Andre Matos, Pit Passarell e Yves Passarell formamos o Viper; Marcos Kleine é guitarrista do Ultraje a Rigor; Eduardo Simões mudou para Belo Horizonte e tocou no Chakal; Nando Machado formou o Exhort e hoje, com Daniel Dystyler e Rafael Masini, montaram a produtora/selo/podcast Wikimetal. E continuamos ouvindo as mesmas coisas (e outras, claro) até hoje.

É bom deixar claro que era muito difícil conseguir vídeos de rock, principalmente de heavy metal. A solução era apelar para fitas de vídeo piratas ou ir a algumas das sessões underground de cinemas como o Rock Show e o Carbono 14. Chamá-los de cinema, inclusive, seria uma ofensa aos cinemas: eram salas com projetores de vídeo de péssima qualidade e áudio pior ainda. Ar condicionado? Um luxo impensável na época. Portanto, alguém comprava uma fita de vídeo nos Estados Unidos e emprestava para os produtores do Rock Show e Carbono 14, que cobravam uma graninha e exibiam para adolescentes que não se importavam em ficar amontoados uns sobre os outros, cantando, batendo palmas, como se aquilo fosse um show de verdade. Não era – mas a mágica estava ali.

O ponto alto dessas tardes eram os festivais: só assim a gente conseguia ver várias bandas na mesma sessão: Woodstock, US Festival, Monsters of Rock, aquilo era um sonho. No mesmo palco, bandas como Ozzy, AC/DC e Scorpions nos transportavam para um mundo visual que existia até então apenas nos nossos ouvidos. Podíamos ver nossos ídolos se mexendo, agitando a cabeça, ‘headbangeando’ como a gente. Em meio a adolescentes suados e empolgados como se estivessem em um show de verdade, a vida acontecia.

Dez anos depois.

Depois de duas turnês pela Europa e uma pelo Japão, o Viper foi convidado para gravar um disco em Los Angeles, Califórnia. Passamos quase dois meses em Hollywood, dividindo um complexo de estúdios com bandas como White Zombie e Body Count. Gravamos ‘Coma Rage’ com produção de Bill Metoyer, que havia trabalhado com Slayer e Testament, entre outros. O resultado foi o disco mais pesado da nossa carreira (e aqui cabe um parênteses – hoje eu acho que o disco e rápido até demais... ).

Tudo isso para contar que estávamos no estúdio quando nos liga o Jerome Vonk, na época o presidente da Roadrunner no Brasil, e nos conta a novidade: o Viper foi convidado para tocar na primeira edição do Monsters of Rock no Brasil! “Peraí, como é que é?” É isso mesmo!

O show seria no dia 27 de agosto de 1994, por isso fomos olhar o cronograma das gravações e descobrimos que acabaria no dia... 25 de agosto! Ufa! Viajamos no dia 26 e chegamos ao Brasil no dia do show, de manhã. Lembro que pegamos um táxi direto para a coletiva do festival e conversamos com jornalistas e amigos quase dormindo. Enquanto isso, os roadies já levavam o equipamento para o Estádio do Pacaembu, para onde fomos passar o som. Tudo isso sem dormir. Mas quem queria dormir quando ia tocar algumas horas depois no maior festival de heavy metal do mundo?

Foi aí que nos confirmaram todas as bandas do line-up: os brasileiros Angra (com o Andre Matos nos vocais, quem diria que o tempo iria nos unir novamente...), Dr. Sin e Raimundos; os gringos Suicidal Tendencies, Slayer, Black Sabbath (com Tony Martin no vocal) e Kiss. E o Viper no meio dessa galera sensacional. Que honra.

Foi uma das melhores apresentações da nossa carreira. Não preciso nem falar muito, o show passou dezenas de vezes na MTV e hoje está inteiro no YouTube. Já havíamos tocado para grandes multidões antes, na abertura do Metallica no Estádio do Palmeiras e na abertura do Black Sabbath, ao ar livre, no Ibirapuera. Mas ali a gente estava tocando no Monsters of Rock, o festival com que sonhávamos quando éramos garotos. Se estávamos ali era porque também éramos, de certa forma, ‘monstros do rock’, mesmo imaginando que éramos apenas ‘monstrinhos’ perto de gigantes como Black Sabbath e Kiss. Naquela noite eu cheguei em casa e estava tão cansado que não cheguei a sonhar. Não precisava.

Outra coisa que pode parecer besteira, mas que foi muito marcante, era que estávamos tocando para 30 mil pessoas no Estádio do Pacaembu, bem pertinho do bairro onde crescemos, Higienópolis. Hoje, vinte anos depois, vejo que a distância geográfica entre um lugar e outro podia ser pequena, mas nada mais distante do que os cabeludos que estavam no palco cantando ‘Rebel Maniac’ e os garotos que, pertinho dali, dez anos antes, se reuniam para ouvir rock, conversar sobre rock, tocar rock, ver vídeos de rock, comprar discos de rock, ir a shows de rock...

Lembra dos Monsters or Rock que já estiveram no Brasil?

Estádio do Pacaembu (2 de setembro de 1995)

Alice Cooper
Megadeth
Clawfinger
Therapy?

Ozzy Osbourne
Faith No More
Paradise Lost
Rata Blanca
Virna Lisi

Estádio do Pacaembu (24 de agosto de 1996)

Iron Maiden
Motörhead
Skid Row
Mercyful Fate
King Diamond
Helloween
Raimundos
Biohazard
Héroes del Silencio

Ibirapuera (26 de setembro de 1998)

Slayer
Megadeth
Saxon
Dream Theater
Savatage
Manowar
Glenn Hughes
Korzus
Dorsal Atlântica

Anhembi (19 e 20 de outubro de 2013)

Slipknot
Korn
Limp Bizkit
Killswitch Engage
Hatebreed
Gojira
Hellyeah

Aerosmith
Whitesnake
Ratt
Queensrÿche
Buckcherry
Dokken
Dr. Sin

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Como preencher uma folha de papel em branco? Com talento

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Hugo Mariutti: O músico, que lança seu primeiro disco solo, foi eleito um dos 30 melhores guitarristas brasileiros da história pela revista Rolling Stone

Preencher uma ‘folha de papel em branco’ é uma metáfora que representa o desafio diário na vida de qualquer artista, dos pintores aos escritores, dos cineastas aos músicos. Por isso, batizar uma obra justamente com esse nome não é apenas um ato de coragem: é um aviso sincero de que o artista está revelando sua essência, sem filtros ou amarras.

É isso que Hugo Mariutti faz em ‘A Blank Sheet of Paper’, seu primeiro disco solo. Considerado um dos melhores guitarristas do país, Hugo já é bem conhecido do público por seu trabalho em bandas como Shaman, Andre Matos, Viper, Henceforth e Remove Silence. Quem conhece seu trabalho não ficará surpreso com a qualidade dos arranjos, o talento nas composições ou os incríveis solos de guitarra - não foi à toa que ele foi eleito um dos 30 melhores guitarristas brasileiros da história pela revista Rolling Stone. O que chama a atenção nesse projeto, além de sua personalidade e versatilidade estilística, é a revelação de que o cara ainda por cima é um grande vocalista.

‘A Blank Sheet of Paper’ é o disco de um músico completo. Neste caso, literalmente, já que Hugo toca todos os instrumentos e é responsável por todas as batidas e programações eletrônicas. Em termos de repertório, porém, quem está acostumado ao som pesado de seus outros projetos anteriores vai se surpreender. Positivamente, eu diria. Há guitarras pesadas, solos, mas aqui o destaque mesmo são as composições – the songwriting, para usar um termo mais adequado ao som.

Sim, porque por uma estranha ironia do destino, Hugo não nasceu na Inglaterra. Há claramente uma influência do rock britânico e tudo o que ele representa: boas melodias, arranjos criativos, sonoridade única. Do primeiro acorde ao último refrão, é possível perceber que quem está tocando é fã do rock Made In England em muitas de suas vertentes, dos Beatles ao Depeche Mode, passando por Oasis e Radiohead.

O disco começa com a faixa título, ‘A Blank Sheet of Paper’, um bom resumo do que virá a seguir. Ela é dividida em duas partes, ‘The Last Beat’ e ‘A New Blank Sheet of Paper’. A primeira é eletrônica, com uma batida marcante e poderosa; a segunda parece ter saído de um disco de rock britânico dos anos 70: melódica, cheia de climas e texturas. “After the rain comes the sun”, diz a letra, preparando os ouvidos para um disco que vai alternar sons eletrônicos e acústicos, corpo e alma, realidade e sonho.

Na sequência, uma canção complexa e etérea: em ‘Breakdown’, Hugo pergunta: ‘Ability? / To see everything / To see anything / To see all the scenes / Am I ready for the next step?’ – (Habilidade? / Para ver tudo / Para ver qualquer coisa / Para ver todas as cenas / Estou preparado para o próximo passo?) A própria música, em sua espiral psicodélica, já responde que sim; o disco em si já é esse próximo passo.

As duas próximas são climáticas e hipnóticas. As sombrias ‘The Opposite Side of Might’ e ‘Erase Me’ poderiam estar no setlist de qualquer club underground de Londres ou Berlim.

O disco tem algumas participações especiais, como o baterista Guilherme Martin (Viper), Bruno Ladislau (Andre Matos) e André Nikakis (Henceforth). Mas a canja mais especial é mesmo em ‘Thanks For Your Existence’: a canção tem um sampling com a voz do filho de Hugo, Rodrigo Mariutti, para quem a música é dedicada. A paternidade trouxe não apenas mais maturidade ao homem, mas também uma grande inspiração ao músico. Com seu belo dedilhado no violão, é sem dúvida uma das melhores do disco.

‘Save My Brain’ é um daqueles inesquecíveis singles do Britpop, um hit que nos leva de volta às melhores memórias dos anos 90, quando o Britpop reinava ao lado do grunge. Fechando os olhos, dá para imaginar Liam Gallagher e Damon Albarn juntos no palco, fazendo backing vocals e dividindo o microfone com Hugo.

‘Dummy’ muda o tom e o clima de novo, de volta ao lado escuro do disco e criando um labirinto de ritmos e vozes que vão crescendo, crescendo, até colorir todo o panorama com uma dose de psicodelia.

‘Out’ é pop no melhor sentido do termo, outra bela melodia em que Hugo mostra que não tem medo de arriscar: os trechos em falsete culminam com um dos melhores refrões do disco, perfeito para os palcos quando ele cair na estrada.

O disco fecha com ‘Here Now’, uma canção épica que não tem medo de escancarar a influência dos Beatles. A música é cheia de mudanças no andamento, melodias que ficam na cabeça e naipe de metais que fazem Hugo parecer um membro da banda do Sgt. Peppers.

Confesso que, antes de ouvir o disco, estava curioso para saber como um guitarrista como Hugo Mariutti preencheria uma folha de papel em branco. Fico orgulhoso, não só como amigo, mas como fã de boa música. Apesar do amplo prisma de estilos que compõem esse projeto, a folha em branco preenchida por Hugo Mariutti poderia trazer uma única palavra: talento.

E isso não é pouca coisa.

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