Trazer Mersault, protagonista do livro O Estrangeiro, uma das obras mais importantes do século 20, para o palco, é no mínimo ousado.

o estrangeiro 300x199 Peça acha tom certo para falar de livro cabeçudo

Guilherme Leme estrela a peça (Foto: André Gardenberg/Divulgação)

Ainda mais em um monólogo, em que o foco é ainda mais estrito. Não há, na narrativa escrita por Albert Camus, muitas pistas de como o personagem é. Ele simplesmente atua. Ou melhor, reage. Pensar como ele é fica a cargo do leitor.

Um personagem tão aberto poderia ser catastrófico. Mas Guilherme Leme encontrou a voz certa para a escrita seca de Camus. Ingênua, levemente insípida, mas sem ser enfadonha. Leme sabe usar como ninguém o silêncio. O vazio que precede um dos primeiros parágrafos mais célebres da história mostra que ele e Vera Holtz, que codirige a peça, sabem bem onde estão pisando.

A expressão corporal em geral minimalista faz com que o impacto de qualquer ação mais brusca de Leme chegue a níveis extremos com muito pouco. Lembra o monólogo Tom Payne, que usa o mesmo artifício, mas sem o carisma e a habilidade de Guilherme Leme.

A história retrata o argelino Mersault, um cara que passa desapercebido com sua passividade até que ele resolve agir uma vez da maneira que quer. Esse único ato, um crime, feito sem pensar em regras ou tabus, desencadeia uma máquina motriz da sociedade, que não vai aceitar o jeito de Mersault ser. O personagem não só é julgado pela transgressão, mas também se vê tendo de explicar seus sentimentos e religião.

Toda esse emaranhado “cabeçudo” é narrado pelo ator sem muita ajuda da cenografia. Quando é somente Leme, sua voz, seu traje, névoa de gelo seco e uma cadeira, tudo bem. O problema é quando aparece algum elemento a mais.

Nos trechos onde Mersault reclama do calor, por exemplo, eis que surge uma iluminação simulando um sol forte. Ou algumas cenas pontuadas por caricatas músicas escolhidas. Um didatismo que poderia ser evitado. Nada que comprometa a qualidade dessa obra, que deve papar alguns prêmios em breve, pode apostar.

O Estrangeiro

Onde: teatro Eva Herz, Conjunto Nacional - av. Paulista, 2.073, São Paulo, SP
Quando: Sextas e sábados, às 21h; domingos, às 19 horas. Até 21/11
Quanto: R$ 40 (sex.) e R$ 50 (sáb. e dom.)
Informações: (0xx11) 3170-4059
Classificação etária: 14 anos
Avaliação: Muito bom

Por João Varella, repórter de São Paulo do R7

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