Em cartaz em São Paulo, peça de Woody Allen traz o charme do cineasta americano a preços convidativos

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João Caldas/Divulgação

Por Gabriela Quintela, do R7

Woody Allen já cometeu adultério ao menos uma vez na vida e a história é das mais conhecidas. Em 1992, Mia Farrow, então a mulher do cineasta, descobriu fotos que ele havia tirado da filha adotiva dela, Soon-Yi, nua. O escândalo foi enorme e a opinião pública ficou do lado de Mia Farrow. Pior para a carreira de Allen, que perdeu bilheteria nos EUA e só agora, depois de Meia-Noite em Paris (2011) --e de 15 anos de casamento com Soon-Yi--, parece voltar às boas com os americanos.

Mas bem antes de tudo isso, a traição entre cônjuges já era tema recorrente nos filmes de Allen. Neles quase sempre há um personagem que pula a cerca, e tanto os adúlteros quanto os amantes parecem exercer grande fascínio sobre o diretor.

O cineasta já abordou a infidelidade de diferentes formas entre o cômico e o dramático. Mostrado com leveza em Alice (1990), o adultério é um mal que vem para o bem à dona-de-casa endinheirada e entediada vivida por Mia Farrow: será um caso extraconjugal (e infeliz) com Joe Mantegna que levará a protagonista a mudar radicalmente de vida e enfim achar seu lugar no mundo.

O mesmo tema pode levar a reflexões mais profundas, como em Crimes e Pecados (1989), em que Martin Landau resolve dar um fim na amante, Anjelica Huston. Há ainda Manhattan (1979), Hannah e Suas Irmãs (1986), Maridos e Esposas (1992), Poderosa Afrodite (1995), Match Point (2005)... Todos esses filmes têm em comum um personagem infiel.

Na mistura de drama e comédia que é Adultérios, a montagem brasileira de Central Park West, de Woody Allen, o adúltero é Jim, um escritor que acabou de ter um roteiro transformado em filme em Hollywood. Numa noite em que aguarda a amante para o encontro que deve pôr um ponto final na relação, ele conhece Fred, um sem-teto louco e inteligente que o acusa de ter roubado suas ideias para o roteiro do filme.

A relação entre os dois começa pouco amistosa, mas conversa vai, conversa vem, aparece enfim a amante (Carol Mariottini), nada dócil, e que acaba dando espaço para que surja um elo entre os dois homens. No ano passado, Fábio Assunção e Norival Rizzo chegaram a se revezar nos papéis de mendigo e escritor entre uma sessão e outra do espetáculo, sugerindo que os dois personagens são basicamente a mesma pessoa --aliás, o final da peça também é por aí (mas calma, isso não chega a ser um spoiler).

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João Caldas/Divulgação

Na sessão que o R7 assistiu, no último sábado (11), Norival Rizzo interpretava o escritor Jim, e Fábio Assunção dava vida ao sem-teto Fred. Embora as duas atuações fossem caprichadas, claro que não é pelo sujeito pacato e certinho, e sim pelo mendigo psicopata e divertido, que a plateia se derrete. Com mania de grandeza e de perseguição, mas sendo o personagem mais honesto da peça, é o homeless quem cativa o público. E Fábio Assunção mandava muito bem nas entonações e gestos de Fred --que diz receber sinais elétricos e instruções vindas do topo do Empire State.

Adultérios tem como cenário apenas dois banquinhos e estruturas de madeira que representam algum lugar nas margens do rio Hudson, em Nova York --"provavelmente entre as ruas 70 e 80 Oeste", diz o texto de Allen. Embora a história se passe nos EUA e traga algumas referências e nomes que não dizem nada para quem não é de lá, o espectador brasileiro não sai perdendo, já que o que importa mesmo é o que os personagens têm de mais universal, em especial suas fraquezas. E a peça só melhora ao longo dos 60 minutos de duração, com boas piadas e muito da classe que sempre há no trabalho de Allen.

Ainda vale registrar que, em comparação com outros espetáculos do mesmo (alto) nível, o ingresso até que sai bem em conta: R$ 40 às sextas, e R$ 50 aos sábados e domingos.

A nota triste fica por conta da morte do assessor de imprensa da peça, Manoel Carlos Jr. (filho do novelista Manoel Carlos), naquela noite, vítima de ataque cardíaco. A apresentação de ontem (12) foi cancelada.

Adultérios
Gênero: drama
Temporada: de 20 de janeiro a 25 de março de 2012
Horários: sextas e sábados às 21h30 e domingos, às 19h
Duração: 60 minutos
Local: TUCA – Teatro da PUC-SP
Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes - São Paulo – SP.
Telefone: (0xx 11) 3670-8455
Ingressos: R$ 40 (sexta-feira) e R$ 50 (sábados e domingos)

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