Por Luis Cosme Pinto*

Quem escreve tem algumas pretensões. A primeira é ser lido. Se gostarem, melhor, mas só de saber que temos leitores, mesmo que seja apenas  um, já é uma consagração. A segunda, quase sonho, é que  os textos  atravessem o tempo e embarquem na aventura  da eternidade. Não é o máximo que daqui a décadas alguém leia o que você escreve agora?

Adoro essas histórias em que um neto acha folhas amareladas numa gaveta, às vezes guardanapos com poemas ou crônicas esquecidas do avô-escritor. Aí vem o desafio de re­constituir a história do autor. O que ele fazia naquela época? Estaria apaixonado, perseguido pela censura, dedicado à boemia?

Já ouvi muita gente boa dizer que o que fica escondido, escondido devia  continuar. Se fosse bom, insistem, já teria sido publicado. Discordo. Em geral, os escritores são implacáveis e encontram, depois de tanto procurar, mais defeitos do que vírgulas na própria obra. Aí não tem jeito, vai tudo para o fundo do baú.

Eu que não havia publicado nada também jamais escondi. Mas guardei cartas, as muitas que recebi e algumas que escrevi mas não tive coragem ou vontade de mandar. E você, meu eventual leitor, não se engane. Não há comparação entre um e-mail e uma carta. Como é bom abrir uma caixa de correio e em vez de folhetos de lançamentos de imobiliários ou de propaganda  de pizza com borda  recheada encontrar um envelope  manuscrito. Abrir  com cuidado contra a luz para evitar o risco de rasgar o papel, com as mãos úmidas de puro nervosismo.

Aí você se senta, lê e relê. Aprendi desde as primeiras correspondências a observar a letra. O jeito como as palavras vão para o papel diz muito sobre quem  as escreveu. Depois de algum tempo, é fácil saber se nosso colega de correspondências está tenso, confiante ou apaixonado.

Algumas chegam sem vírgulas, são de puro desabafo, como se o dono da letra quisesse dizer tudo de uma vez só. Aos soluços e solavancos.  Como aquele telefonema de um amigo angustiado que precisa contar a história  com todos os detalhes. E mais: nos fazendo prometer que tudo morre ali.

Durante algum anos, essa foi a única forma  de comunicação com um grande amigo. Estudamos na mesma faculdade, escolhemos a mesma  profissão e mudamos de vida e de endereço mais ou menos na mesma época: eu fui para São Paulo, ele se mandou para o Chile.

Foi para lá em busca de um amor que começou num Carnaval em Copacabana e viveu seus melhores momentos num inverno em Santiago. Esse meu amigo era só felicidade. Cartas comoventes contando em detalhes a alegria da nova vida. Logo nos primeiros meses, a gravidez. Um ano de casados, um ano de lua de mel, gostava de repetir. A letra graúda aumentava ainda  mais as aventuras do novo emprego. Sem conhecer nada da cidade, agarrou a primeira oportunidade, redator do jornal do sindicato dos motoristas de táxi. Ela era cortadora da seleção chilena de vôlei. Até que um dia, em vez das palavras, chega  a foto de Diego, um chileninho lindo.

Bastaram alguns meses para que a vida da família e as cartas se  transformassem. Meu amigo escrevia agora para contar que não teve tempo nem de entender... Amor desfeito, traição, desemprego, abandono.

Nessa época, eu morava com outro amigo também recém chegado a São Paulo, dividíamos o aluguel  e as emoções das pontuais cartas das tardes  de quinta.

Os relatos eram devastadores, falavam de angústia e de dores profundas. Muito triste para ficar no  Chile, envergonhado demais para voltar, ele simplesmente não sabia o que fazer.

Tínhamos uma semana de folga e decidimos: iríamos juntos, se não para resgatar o companheiro desolado, pelo menos para dar uma força. Fomos sem avisar, apostando na surpresa.

Nosso amigo estava de favor na casa da avó da ex-mulher, na periferia da cidade. No caminho do  aeroporto até lá, elaboramos o plano. Já que era para surpreender... Um iria prirneiro, o outro ficaria  escondido.

Eu fui à frente e embaixo da janela gritei em portunhol:

-Encomenda  de los Correos! Es muy  pesada, usted desce para pegar

Ele sentiu o impacto, surgiu na janela emocionado, sem acreditar no que estava vendo.

Abraços, risadas, aquela era  a maior surpresa da vida dele, repetia feliz. Meia hora depois, enquanto  tomávamos um vinho na companhia da avó adotiva, ouvimos um outro grito no mesmo portunhol famigerado:

-Chegou la segonda  parte de la encomenda  dos Correos ...

Por pouco ele não caiu da cadeira. Desceu correndo, abraçou o outro amigo e aí chorou de vez.

Para nós três começava uma experiência inesquecível.

Durante uma semana, subimos e descemos a cordilheira dos Andes, passeamos pelos lagos, tomamos muito vinho, gastamos o que  tínhamos e um pouco do que não tínhamos.

Ele voltou  a se sentir vivo, forte, capaz. É verdade que ainda ficou um tempo por  lá, mas em seguida voltou, recomeçou a vida no Brasil. Casou de novo, mas sempre que pode, vê o filho no Chile, hoje um adolescente.

Ainda trocamos cartas, mas, claro, nenhuma tão emocionante como aquelas.

Mês passado, meu parceiro de correspondências fez aniversário. Mandei uma carta de parabéns e um livro que adoro: a correspondência de Fernando Sabino e Mario de Andrade. Sabino, quando tinha  18 anos, se impôs o desafio de se aproximar do ídolo Mario de Andrade, escritor experiente e reconhecido. O garoto em Minas, o homem feito em São Paulo.

Nada de telefonemas ou recados. Cartas de lá para cá e poucas daqui para lá. Sabino enchia laudas, Mario economizava, pressionado pela falta de tempo e a economia de palavras que a experiência com as letras ensina a cultivar.

Fernando não tinha medo dos porquês, perguntava bastante, queria saber tudo sobre a vida do escritor  que já chamava de amigo. Mario resumia, Fernando esticava, mas os os dois se gostavam e a amizade crescia a cada frase.

Li e aprendi com Sabino uma boa técnica para encerrar uma prosa que se prolonga demais.

Ao mesmo tempo que ele se desculpava com o amigo pelos excessos, anunciava o ponto final de forma fulminante.

"Caro Mário, perdoe se me estendi demais, mas tenha certeza:

daqui não passo!"

Nem ele, muito menos eu.

*Luis Cosme Pinto é jornalista e editor-chefe do Jornal da Record. Esta crônica faz parte de seu livro Ponte Aérea, da editora Novo Século.