Quando alguém importante está com a saúde em risco as redações preparam o que se chama de obituário. Um balanço da vida, com as demonstrações de carinho dos amigos, as passagens marcantes, as lembranças. Uma homenagem, normalmente recheada de elogios.

oscar 450 Crônica do Cosme: O garoto e o arquiteto

Há alguns dias comecei a pesquisar, aqui no Domingo Espetacular, as gravações que tínhamos de Oscar Niemeyer, o maior

arquiteto do século vinte e um grande brasileiro.

Aos 104 anos, abatido e respirando com a ajuda de aparelhos, ele corria sério risco. No arquivo da TV Record encontro um registro precioso.

Oscar Niemeyer e Paulo Henrique Amorim se encontram para uma entrevista. O local é o escritório do arquiteto, em frente ao mar de Copacabana. Niemeyer está como gosta, cercado de curvas: as das montanhas, as das ondas do mar e as das mulheres.

A entrevista já tem 5 anos, foi uma das primeiras exibidas na Record News, edição de Flavio Santos.
O arquiteto ia completar um século de vida. Acredite, estava recém casado e apresentou com orgulho a nova mulher, dona Vera cerca de 40 anos mais nova.

Seu Oscar respondeu todas as perguntas, falou de política, de arquitetura, da vida, da saúde, de poesia e de tantas lembranças que 99 anos podem guardar. Niemeyer nunca se cansou de repetir que a arquitetura era importante, mas que a vida era mais.

E é uma história de vida que me chama atenção.

O último comunista do Brasil conta porque é tão importante investir na educação.

O caso se passa na Lapa carioca, onde ele trabalhava.

Quando chega ao prédio onde ficava o escritório encontra um menino de rua.

O garoto é magricela e maltrapilho, vende balas.

Seu Oscar não conta o nome dele, podia ser Valdir, Mario, talvez Alberto, nomes da moda nos anos 60, época em que tudo aconteceu.

O arquiteto compra algumas balas para ajudar, o garoto agradece sorrindo, mas Niemeyer se angustia.

Sobe ao décimo andar sofrendo com a situação da criança e quando chega nem sai do elevador, resolve descer e tirar o menino da calçada.

A primeira pergunta:

- Onde você mora?

- Na rua, responde com a naturalidade de quem nunca teve teto, cama, travesseiro.

O arquiteto das obras grandiosas, das estruturas milionárias se assusta com a miséria, com o abandono à sua frente e continua a oferecer.

- Comida, roupa, estudo, o que você gostaria de ter para mudar de vida?

- Tudo o que o senhor quiser me dar eu aceito.

Oscar conversa com uma funcionária do escritório, que também quer ajudar.

Numa escola conhecida ali perto, ela consegue vaga, compra uniforme, comida, sabonete, pente, cadernos, uma pasta bonita e colorida. Melhor: a mulher, casada com um motorista de táxi, aceita acolher o menino em casa.

No dia seguinte, o garoto está na sala de aula.

Banho tomado, de uniforme, sapato preto, meia 3 quartos, aquela que vai até o joelho.

O garoto de 10 anos tem corpo de oito, peso de 6.

Nos primeiros dias o menino brilha, faz amigos, se interessa pelas aulas, está alegre, encantado com a nova vida.

Na segunda semana, some.

Ninguém sabe onde pode ter ido, percorrem hospitais, delegacias...nada.

15 dias depois, o garoto é visto e reconhecido pelo motorista de táxi.

Mais uma vez circula pelas ruas, sujo, faminto, até as balas que vendia sumiram.

Oscar vai ao encontro dele, a funcionária e o marido também. Aos três, o menino explica que sentiu falta da liberdade das ruas, que ficou aborrecido com a professora, que não gostava de lavar a mão de meia em meia hora. Todos insistem e ele concorda em voltar para a escola. De novo, lápis coloridos, pastas, cadernos, uniforme. Na volta, a funcionária faz um topete bem trabalhado com Gumex, um gel daquela época.

A alegria dura pouco. O garoto desaparece de vez.

Passam 5, 10, 15 anos...Já estamos perto da década de 80.

No mesmo escritório seu Oscar recebe um telefonema, o menino já é homem e continua na rua, agora toma conta de carros e também lava alguns veículos.

Oscar se surpreende, tanto tempo depois o que ele podia querer?

O homem responde com a mesma simplicidade da infância.

-Ouvi falar no rádio que o senhor estava adoentado e resolvi ligar para saber se precisa de ajuda, se está se recuperando bem?

A memória afiada de Oscar não falha, lembra bem da conversa e da alegria que sentiu ao ver que tudo o que tinha feito há alguns anos tinha valido a pena. Havia ali um cidadão agradecido, solidário, preocupado com a saúde de alguém que podia precisar de apoio, de carinho. Como seria a vida dele se tivesse estudado, Oscar se pergunta.

Paulo Henrique emenda e pergunta sobre como está a vida dele, aos 99 anos.

Oscar suspira:

-A vida? A vida é uma mulher do lado e seja o que Deus quiser!

**Luis Cosme é editor executivo do Domingo Espetacular e autor do livro de crônicas Ponte Aérea, da editora Novo Século.

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