- Peguei em Quintino, a próxima é? - Cascadura. - A próxima é? - Madureira - E depois vem o quê? - Oswaldo Cruz - E agora... Era uma gincana, com prêmios e muita emoção. Os ouvintes recebiam o telefonema da rádio e eram convidados a enfrentar o desafio de acertar a sequência das estações do trem de subúrbio carioca. O ponto de partida era a Central do Brasil, daí para frente valiam a memória e o conhecimento dos ouvintes. Dependendo da linha eram muitas estações e a brincadeira ia longe. Ingênua, divertida, mexia com todo mundo que ouvia, mesmo os que moravam longe do subúrbio e, mais ainda, com quem viajava nos trens e acompanhava pelo rádio de pilha. - E depois de Oswaldo Cruz? - Marechal Hermes. - Vamos chegar a... - Bento Ribeiro. O prêmio vinha dos gentis oferecimentos de Camélia Flores, Bolsas Ubirajara e 3BR Tapetes de Veículos. Os patrocinadores bancavam o presente para quem mantinha a conversa nos trilhos, era mais ou menos assim o slogan. Aqui em São Paulo, os nomes das linhas é que me chamam a atenção, são preciosos. Diamante, Esmeralda, Turquesa, Rubi, Safira. As estações são muitas e se espalham por toda a região metropolitana. Apesar de alguns trens serem novos com ar condicionado e painéis eletrônicos, alguns problemas persistem: a gritaria dos camelôs (eles são proibidos de vender as bugigangas, mas estão sempre andando de um vagão para o outro), a truculência dos guardas (são, claro, proibidos de bater nas pessoas, mas vivem usando os cassetetes, inclusive contra camelôs); e as desculpas esfarrapadíssimas para a impontualidade (os trens atrasam ou porque choveu, ou porque não choveu, mas houve uma falha no sistema, ou porque alguém botou a mão na porta, uma vez culparam a alça de uma mochila que ficou para fora da porta). E o pior: são muitos acidentes, mesmo assim vale a pena. O trem não polui o ar, não congestiona, sacoleja menos, não dá aquelas freadas bruscas, dificilmente derruba seus passageiros. É o mínimo, mas também é o máximo se a gente pensar na qualidade do nosso transporte público. Também gosto do trem porque ele tem história, vira filme, livro, novela e muitas músicas. Impossível não lembrar do trem do Adoniran, o das Onze, e o drama do filho único na estação do Jaçanã. O homem dividido entre duas mulheres. Orgulho paulistano! Outro que adoro é o Trem Atrasou, um samba de Paquito, Estanislau Silva e Vilarinho. Joia carioca que brinca com o horário e as relações de patrão e empregado. Sambas de trilho e de brilho! Pois foi assim, pensando em música e, ao mesmo tempo, falando ao celular, que me distraí e perdi a conta das estações na linha que me leva do trabalho até em casa. O trem para e eu sem saber o que fazer, fico ou saio? Olho para lá e para cá, mas não enxergo o nome da estação. Se continuar no trem e aquela for a estação certa, a próxima será em Osasco. Uau, outra cidade! Se descer do vagão, corro o risco de desembarcar na estação errada. Restam segundos e eu... desço. Antes do fechamento da porta pergunto, já nervoso, a uma passageira, também ao celular, que estação é essa, Domingos de Moraes? E ela balança a cabeça confirmando. Não é a minha, tento voltar, mas não dá mais tempo. A porta se fecha. É domingo, dia em que os trens demoram mais a passar. Estou atrasado e resolvo sair e ir a pé até em casa. Penso que lembrar de música antiga, falar ao celular, observar os ambulantes e prestar atenção à sequência de estações é muito para mim. Nesse momento já estou fora da estação e tenho uma surpresa, a melhor que podia ter naquela hora e naquela situação, quem se enganou foi a passageira. Desci na estação certa, estou ao lado de casa!! Volto a viajar em sambas e trilhos e desembarco num terceiro. Não é de trem, é de bonde!! O Bonde de São Januário, composto na década de 40 por uma dupla sensacional, Ataulfo Alves e Wilson Batista. Na época, a ditadura Vargas controlava cada verso. Logo na primeira estrofe a música embalava já meio patronal: "Quem trabalha é que tem razão..." e depois: " O Bonde São Januário leva mais um operário"... Mas Wilson, malandro e provocador, brincava: " O Bonde São Januário leva mais um grande otário". Por pouco os dois não foram em cana. Também no futebol surgiu a paródia: “O Bonde São Januário leva mais um português otário para ver o Vasco apanhar". Mais uma do Wilson, flamenguista de coração. Separei para a gente ouvir O Bonde São Januário na voz de Gilberto Gil.

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* Luis Cosme é editor executivo do Domingo Espetacular e escreve semanalmente no R7. Cosme é autor do livro de crônicas Ponte Aérea, da editora Novo Século. Veja mais: + R7 BANDA LARGA: provedor grátis! + Curta o R7 no Facebook + Siga o R7 no Twitter + Veja os destaques do dia + Todos os blogs do R7  
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