Publicado em 19/12/2012 às 15h32

Crônica do Cosme: Samba nos Trilhos

- Peguei em Quintino, a próxima é?

- Cascadura.

- A próxima é?

- Madureira

- E depois vem o quê?

- Oswaldo Cruz

- E agora...

Era uma gincana, com prêmios e muita emoção. Os ouvintes recebiam o telefonema da rádio e eram convidados a enfrentar o desafio de acertar a sequência das estações do trem de subúrbio carioca.

O ponto de partida era a Central do Brasil, daí para frente valiam a memória e o conhecimento dos ouvintes.

Dependendo da linha eram muitas estações e a brincadeira ia longe. Ingênua, divertida, mexia com todo mundo que ouvia, mesmo os que moravam longe do subúrbio e, mais ainda, com quem viajava nos trens e acompanhava pelo rádio de pilha.

- E depois de Oswaldo Cruz?

- Marechal Hermes.

- Vamos chegar a...

- Bento Ribeiro.

O prêmio vinha dos gentis oferecimentos de Camélia Flores, Bolsas Ubirajara e 3BR Tapetes de Veículos.

Os patrocinadores bancavam o presente para quem mantinha a conversa nos trilhos, era mais ou menos assim o slogan.

Aqui em São Paulo, os nomes das linhas é que me chamam a atenção, são preciosos. Diamante, Esmeralda, Turquesa, Rubi, Safira.

As estações são muitas e se espalham por toda a região metropolitana. Apesar de alguns trens serem novos com ar condicionado e painéis eletrônicos, alguns problemas persistem: a gritaria dos camelôs (eles são proibidos de vender as bugigangas, mas estão sempre andando de um vagão para o outro),

a truculência dos guardas (são, claro, proibidos de bater nas pessoas, mas vivem usando os cassetetes, inclusive contra camelôs); e as desculpas esfarrapadíssimas para a impontualidade (os trens atrasam ou porque choveu,

ou porque não choveu, mas houve uma falha no sistema, ou porque alguém botou a mão na porta, uma vez culparam a alça de uma mochila que ficou para fora da porta). E o pior: são muitos acidentes, mesmo assim vale a pena. O trem não polui o ar, não congestiona, sacoleja menos, não dá aquelas freadas bruscas,

dificilmente derruba seus passageiros. É o mínimo, mas também é o máximo se a gente pensar na qualidade do nosso transporte público.

Também gosto do trem porque ele tem história, vira filme, livro, novela e muitas músicas.

Impossível não lembrar do trem do Adoniran, o das Onze, e o drama do filho único na estação do Jaçanã. O homem dividido entre duas mulheres. Orgulho paulistano!

Outro que adoro é o Trem Atrasou, um samba de Paquito, Estanislau Silva e Vilarinho.

Joia carioca que brinca com o horário e as relações de patrão e empregado.

Sambas de trilho e de brilho!

Pois foi assim, pensando em música e, ao mesmo tempo, falando ao celular, que me distraí e perdi a conta das estações na linha que me leva do trabalho até em casa.

O trem para e eu sem saber o que fazer, fico ou saio?

Olho para lá e para cá, mas não enxergo o nome da estação. Se continuar no trem e aquela for a estação certa, a próxima será em Osasco. Uau, outra cidade!

Se descer do vagão, corro o risco de desembarcar na estação errada.

Restam segundos e eu... desço. Antes do fechamento da porta pergunto, já nervoso, a uma passageira, também ao celular, que estação é essa, Domingos de Moraes? E ela balança a cabeça confirmando.

Não é a minha, tento voltar, mas não dá mais tempo. A porta se fecha.

É domingo, dia em que os trens demoram mais a passar.

Estou atrasado e resolvo sair e ir a pé até em casa.

Penso que lembrar de música antiga, falar ao celular, observar os ambulantes e prestar atenção à sequência de estações é muito para mim.

Nesse momento já estou fora da estação e tenho uma surpresa, a melhor que podia ter naquela hora e naquela situação, quem se enganou foi a passageira. Desci na estação certa, estou ao lado de casa!!

Volto a viajar em sambas e trilhos e desembarco num terceiro.

Não é de trem, é de bonde!!

O Bonde de São Januário, composto na década de 40 por uma dupla sensacional, Ataulfo Alves e Wilson Batista.

Na época, a ditadura Vargas controlava cada verso. Logo na primeira estrofe a música embalava já meio patronal:

"Quem trabalha é que tem razão..."

e depois:

" O Bonde São Januário leva mais um operário"...

Mas Wilson, malandro e provocador, brincava: " O Bonde São Januário leva mais um grande otário". Por pouco os dois não foram em cana. Também no futebol surgiu a paródia: “O Bonde São Januário leva mais um português otário para ver o Vasco apanhar". Mais uma do Wilson, flamenguista de coração.

Separei para a gente ouvir O Bonde São Januário na voz de Gilberto Gil.

* Luis Cosme é editor executivo do Domingo Espetacular e escreve semanalmente no R7.

Cosme é autor do livro de crônicas Ponte Aérea, da editora Novo Século.

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Publicado em 19/12/2012 às 05h00

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Perfil

Miguel Arcanjo Prado é editor de Cultura do R7, onde está desde o começo do portal, em 2009. É jornalista formado pela UFMG e pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP. É crítico membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Nasceu em Belo Horizonte e mora em São Paulo desde 2007, quando ingressou no Curso Abril de Jornalismo. Ainda em Minas, estreou como cronista do semanário O Pasquim 21, passando por TV UFMG e TV Globo Minas. Na capital paulista, foi repórter da Contigo!, da Ilustrada na Folha Online e do Agora São Paulo, no Grupo Folha. Edita e apresenta a Agenda Cultural da TV Record News.

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