Publicado em 21/07/2014 às 08h56

CELEBRIDADE

O humorista genial dizia muito com frases curtas.
trans CELEBRIDADE

Sobre as celebridades, Millor Fernandes escreveu: "Celebridade é um idiota qualquer que apareceu na televisão". Não deram importância.

Celebridade é palavra cada vez mais repetida nas redações, tem fama de engordar a audiência de tvs e sites. E assim muitos de nós lemos e escrevemos sobre elas muito mais do que o suportável. Atriz e modelo, alguns cantores do sertanejo universitário, falsos craques do nosso frágil futebol...são vários os perfis das tais celebridades, muitas celebram a vulgaridade, vivem dos paparazzi e blogueiros da fofoca, ao mesmo tempo alimentam e sustentam essas publicações e seus colaboradores. Bela parceria.

Apesar do meu mau humor reconheço que dei sorte com uma das primeiras celebridades que me apareceram pelo caminho. Talvez por ela não fazer parte do modelo que conhecemos, aliás na época não se dizia celebridade, falava-se célebre, palavra que transmitia importância.

As histórias do célebre personagem eram fantásticas, daquelas que a gente tem inveja por não ser o protagonista. Tão boas, pareciam inventadas, mas eram verdadeiras. Todas passadas no oeste paulista, em Bauru, terra de grandes jornalistas, cachaceiros e ferroviários. A celebridade de então já era saudade.  Arnaldo Duran, o jornalista da rádio Auri Verde, do Jornal da Cidade e da TV Globo Oeste já se despedira rumo à capital. Era repórter de destaque na antiga TV Manchete. Na redação de Bauru sobreviviam a memória das farras, das brincadeiras, das grandes reportagens. Nas cidades vizinhas nem se fala. Se a gente ia a Pirajuí alguém se aproximava sorridente: uma vez o Duran fez uma reportagem assim, assim; se parávamos na praça de Cafelândia, outro vinha até o carro de reportagem e queria saber: cadê o Duran, não volta mais não? Uma vez, cansados de viajar até o Pontal de Paranapanema, fomos parados na estrada por um caminhoneiro que nos pediu para enviar uma carta ao jornalista-ídolo. Nunca tinha visto o Duran pessoalmente o que só aumentava a admiração e a curiosidade. Até que a TV Manchete me fez uma proposta de trabalho e lá fui eu também para a capital. Acredite, alguns dias antes do primeiro dia na nova redação, o Duran se mudou para a Globo. Enquanto eu tentava encontrar notícia nas madrugadas geladas de 1987, o Duran brilhava no SPTV e também no Jornal Nacional. Agora as histórias divertidas eram contadas lá na emissora do seu Adolpho Bloch, numa casa antiga do bairro do Sumarezinho, na zona oeste de São Paulo. Os colegas lembravam que nas coletivas o Duran enfiava o dedo nas orelhas dos outros repórteres, desamarrava o sapato dos cinegrafistas. que num dia de festa acabou a comida e ele cozinhou ração de cachorro e serviu aos convidados. Alguns exageravam: o Duran  botou um pouco de creme de leite, acrescentou catchup e serviu como estrogonofe. Esta outra era um sucesso: num fim de semana ele se atrasou e antes de levar uma bronca desconcertou os chefes: "olha só vim por que é você que está aqui, fosse outro nem apareceria. Vé se me agradece em vez de ficar com essa cara."

Até que o dia chegou e finalmente nos conhecemos. O encontro aconteceu no SBT. Duran já era o âncora e fosse qual fosse a notícia a gente assistia com vontade de rir ao recordar das aventuras do Oeste, paulista ou paulistano. Era início dos anos noventa, máquinas Remington produziam uma barulheira ensurdecedora quando o fechamento se aproximava. A redação estava eternamente enevoada pela fumaça de muitos cigarros e as mesas de fórmica queimadas pelas guimbas depois apagadas em copos descartáveis com café frio. Jornalismo menos higiênico, menos comportado, talvez mais vivo e corajoso. Outro tempo, outra realidade, pilhas de papel, laudas corrigidas à mão com caneta Futura e o Duran lá, faceiro, estreando no "Aqui e Agora, o telejornal que mostra a A Vida Como Ela É", lembra? O SBT deu mais uma de SBT, acabou com os telejornais, demitiu muita gente. Duran viajou por aí, foi correspondente em Nova Iorque, se especializou no samba carioca depois de alguns anos na Globo Rio e há uns bons dez anos está na Record. Nos reencontramos por aqui, eu editor, ele sempre repórter, fizemos coberturas juntos na Bélgica, Itália, até na China.

Mas é aqui, no dia a dia da Barra Funda, que o trabalho abraça a diversão.

São muitas as vezes em que ele aparece nas longas noites de sexta-feira, noites de fechamento. Traz uma sacola lotada. às vezes com manga, às vezes com cebola, outras com dúzias de bananas. Ninguém tem fome, ninguém quer conversa e ele chega oferecendo:- quer que eu descasque uma manga para você? É manga espada! Prefere cebola de Guaratinguetá? Sabe a diferença da banana prata para a banana maçã?  Impossível os editores e outros repórteres não pararem por um segundo e gargalharem com mais uma do Duran. Dia desses alguém disse: quer salvar uma festa? convide o Duran, é alegria garantida.

Pois eu digo, quer uma redação feliz? Contrate o Arnaldo Duran.

Ele não é o Millor mas nos ensina: sempre há tempo e lugar para o humor.

Há duas semanas o Arnaldo Duran está de férias, parece que são dois meses.

 

Conheça aqui um pouco mais do trabalho do Duran.

 

Luis Cosme Pinto é editor executivo do Domingo Espetacular e autor do livro de crônicas Ponte Aérea.

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Perfil

Miguel Arcanjo Prado é editor de Cultura do R7, onde está desde o começo do portal, em 2009. É jornalista formado pela UFMG e pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP. É crítico membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Nasceu em Belo Horizonte e mora em São Paulo desde 2007, quando ingressou no Curso Abril de Jornalismo. Ainda em Minas, estreou como cronista do semanário O Pasquim 21, passando por TV UFMG e TV Globo Minas. Na capital paulista, foi repórter da Contigo!, da Ilustrada na Folha Online e do Agora São Paulo, no Grupo Folha. Edita e apresenta a Agenda Cultural da TV Record News.

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