Publicado em 09/10/2014 às 08h00

Alaíde Costa, o piano de Vinicius e as canções

Alaide Costa Alaíde Costa, o piano de Vinicius e as canções

A cantora Alaíde Costa: 60 anos de carreira em 2014 e 80 de vida em 2015 - Foto: João Ballas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Quando Alaíde Costa visitou Vinicius de Moraes na Clínica São Vicente, o Poetinha lhe entregou uma letra. A ela coube fazer a música, utilizando o piano que o próprio Vinicius lhe havia presenteado e no qual tomou aulas do mestre Moacir Santos. Assim nasceu Tudo o Que É Meu, uma das 13 canções do disco Canções de Alaíde, primeiro em 60 anos de carreira no qual canta apenas composições próprias. O álbum acaba de ser lançado. Foi produzido pelo selo Nova Estação com apoio do ProAC. Além de celebrar suas seis décadas de palco, já que ela começou em 1954 como crooner do Avenida Dancing, no Rio, antecipa também as comemorações dos 80 anos de vida da artista, que serão completados em 2015. Afinal de contas, o Brasil e o mundo merecem ouvir Alaíde Costa, uma artista sofisticada e fundamental.

cancoes de alaide Alaíde Costa, o piano de Vinicius e as canções

Capa de Canções de Alaíde: ela e o piano dado por Vinicius - Foto: Divulgação

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Publicado em 08/10/2014 às 03h08

#VaivENO: Fogo cruel por Eduardo Enomoto

vaiveno eduardo enomoto incendio real parque #VaivENO: Fogo cruel por Eduardo Enomoto
Foto EDUARDO ENOMOTO*

São Paulo. 24 de setembro de 2010. Chego na favela Real Parque para cobrir o incêndio. Subo as escadas do BNH que dão acesso à comunidade. Gritos. Choro. Reza. Pessoas levam seus pertences. Caos. Tumulto. Tristeza. Fim da escada, me deparo com esta imagem. Fiz a foto. Abaixei a câmera. Ajudei no que pude.

*Eduardo Enomoto é fotojornalista do R7. Sua coluna, #VaivENO, é publicada toda quarta aqui no blog.

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Publicado em 07/10/2014 às 03h15

38ª Mostra: 331 filmes e Pedro Almodóvar

mostra poster 38ª Mostra: 331 filmes e Pedro Almodóvar

Cartaz da 38ª Mostra feito por Pedro Almodóvar: homenagem ao cinema espanhol - Foto: Reprodução

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Os cinéfilos já estão contando os dias para a maior maratona cinematográfica do Brasil. Entre 16 e 29 de outubro acontece a 38ª Mostra.

O evento neste ano teve seu cartaz feito por ninguém menos do que o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que terá retrospectiva de sua obra durante o evento. Aliás, o cinema da Espanha é o grande homenageado nesta edição que conta ainda com uma exposição de Luís Buñel.

Grandes nomes não faltam na lista da Mostra. Carlitos, o emblemático personagem de Charles Chaplin, será homenageado na área externa do Auditório Ibirapuera, onde acontecerá a abertura e o encerramento.

O brasileiro Walter Salles vai fazer a estreia mundial de seu novo filme, o documentário Jia Zhangke - Um Homem de Fenyang, sobre o diretor chinês. O diretor e produtor francês Marin Karmitz também ganha uma retrospectiva com 30 filmes e ainda vai receber o Prêmio Humanidade no evento.

Para a abertura, no próximo dia 15, será exibido o filme argentino Relatos Selvagens. O diretor Damián Szifrón a atriz Érica Rivas e o produtor Martín Mosteirin estarão presentes. No encerramento, a presença de honra será Geraldine Chaplin, que apresenta Dólares de Areia, de Amélia Guzmán e Israel Cárdenas.

Nas duas semanas da Mostra serão exibidos331 filmes e mais quatro programas de curtas de variados países e diversas cinematografias em 35 salas de 29 espaços, entre cinemas, espaços culturais e museus espalhados por São Paulo.

Conheça a programação completa!

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Publicado em 06/10/2014 às 15h10

Queridinho na Bahia, Jau tem nova gravadora em SP

jau1 Queridinho na Bahia, Jau tem nova gravadora em SP

O cantor Jau: novo disco, Lázaro terá canções inéditas - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Ele cantou que ouviu falar que do lado de lá o povo gosta de música baiana.

É bem capaz. Em 2010, o disco independente Jau foi fenômeno no verão baiano. Todo mundo arrumou uma cópia e saiu por aí cantando Acarajé Tem Dendê e Flores da Favela.

Com letras que pegam a essência soteropolitana, desde então, o cantor e compositor virou queridinho na Bahia.

Mas não parou por aí. Foi, aos poucos, conquistando novos fãs Brasil afora. E sendo convidado por gente graúda para cantar junto.

Jau (pronuncia-se Jáu) é, na verdade, Jauperi Lázaro. Começou carreira no Olodum, ainda menino, e depois seguiu rumo próprio, o que fez muito bem.

Sua música é um alento no meio da bobagem que é feita atualmente na Bahia. Jau tem qualidade. E preza por isso.

Não à toa, é fã de baianos porretas, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Dorival Caymmi.

O cantor esteve em São Paulo na última semana. Ele se prepara para uma nova etapa na carreira.

Assinou contrato com a gravadora Friends, com a qual prepara um disco de músicas inéditas. O nome do álbum, até o momento, é Lázaro, seu segundo nome. Sai até o fim do ano.

Pelo jeito, tal qual o acarajé, Jau também tem dendê.

Jau na Friends foto Adriana Balsanelli Queridinho na Bahia, Jau tem nova gravadora em SP

Jau assina contrato na Friends, com o diretor da gravadora, Vlademir "Gatão" da Silva e Vânia Abreu, diretora artística do selo - Foto: Adriana Balsanelli

Leia entrevista de Jau ao R7 em 2010!

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Publicado em 05/10/2014 às 03h08

Maíra Moraes: Ocupante desalojado agora é bandido?

ocupacap fernando zamora futura press estadao conteudo Maíra Moraes: Ocupante desalojado agora é bandido?

Ocupantes de prédio abandonado se desesperam diante da polícia no centro de São Paulo - Foto: Fernando Zamora/Futura Press/Estadão Conteúdo

Por MAÍRA MORAES*
Especial para o R7

As ocupações de prédios no centro velho de São Paulo por parte de movimentos sociais de moradia tem sido um assunto polêmico tanto na mídia como no cotidiano.

A recente reintegração de posse do Hotel Aquarius da avenida São João, em São Paulo, expôs três problemas da sociedade brasileira: a criminalização dos movimentos sociais, a utilização da violência como única forma de diálogo com os movimentos e o uso da mídia para justificar esses atos.

Muitos veículos noticiosos apresentaram a reintegração de posse como uma manifestação do Estado de Direito e a legitimação da propriedade privada. E uma parcela considerável da população compartilha essa ideologia das chamadas “elites dirigentes”, ainda que não pertençam a ela.

Uma possível explicação para essa “cegueira social” é a estrutura social brasileira. Colonização e a longa duração do modo de produção escravista ocasionaram a exclusão social de negros e indígenas. Mesmo após a desarticulação da escravidão, a classe trabalhadora brasileira não conseguiu conquistar a cidadania.

Direitos mínimos sempre foram negados à maioria dos brasileiros, que sofrem com pobreza, desemprego, falta de acesso à educação, saúde e as estruturas mínimas de vida.  Esse discurso conservador partilhado por diversos extratos da população é resultado da percepção defeituosa de Estado de Direito.

Pois como podemos reivindicar algo que não conhecemos?

ocupacao mario angelo sigmapress estadao conteudo Maíra Moraes: Ocupante desalojado agora é bandido?

Tiro e bomba: PM enfrenta ocupantes de prédio em SP - Foto: Mario Ângelo/SigmaPress/Estadão Conteúdo

Violência do Estado 

O Estado brasileiro sempre teve uma postura negativa em relação aos movimentos sociais. Em nossa história, há um grande número de repressões violentas, como a Guerra de Canudos.

Ainda que a maioria dos “inimigos da pátria” sejam famílias, o simples questionamento da ordem existente é o bastante para uma resposta violenta. A tática da imposição do poder pelo monopólio da violência por parte do Estado é antiga e quase uma tradição brasileira.

O desconhecimento dos próprios direitos constitucionais, a percepção de que a lei se faz na força policial e a cobertura jornalística são os ingredientes para a formação do senso comum.

Padarias, restaurantes, ônibus partilhavam o ódio aos integrantes da FLM – Frente de Luta pela Moradia, movimento social responsável pela ocupação no centro paulistano.

As imagens veiculadas mostraram mulheres, crianças e idosos sendo expulsos à força debaixo de bombas de efeito moral. Parte do discurso jornalístico os chamava de vândalos e baderneiros. Mas, implicitamente, a mensagem era simples: a propriedade privada é inalienável.

Ou compram comida, ou pagam aluguel 

Poucos se interessarão em saber, e também não será divulgado, que a maioria desses prédios do centro possuem dívidas astronômicas com a União. São anos de IPTU, contas de luz e água atrasadas. Soma-se a isso, o abandono da edificação, que traz risco de saúde às imediações.

Também não será capa de nenhum jornal que a maioria dessas famílias são trabalhadores, que devido à alta dos aluguéis e ao rechaço dos salários, se viram impedidos de conseguir uma moradia. Ou compram comida ou pagam aluguel.

Exclusão social se mantém 

Crescimento econômico não traz cidadania. Essa afirmação é verídica, pois mesmo com os programas sociais e o aumento do crédito, as velhas estruturas de exclusão se mantém. Afinal, se os direitos dos cidadãos estivessem sendo respeitados por que se arriscar no enfrentamento com a polícia? Ou mesmo ocupar um prédio sem condições mínimas de moradia?

O motivo de formação de um movimento social é único: quando os direitos de uma parcela da população não são respeitados, eles se levantam.  A estranheza neste caso é a reação de uma parte da chamada da “classe média”, que é na verdade a classe trabalhadora brasileira. Que reage de maneira quase patológica a qualquer manifestação coletiva, ainda que legítima. E vibra com a repressão policial, mesmo que os algozes estejam combatendo pessoas que poderiam ser de suas famílias.

ocupacao eduardo hernandes futura press estadao conteudo Maíra Moraes: Ocupante desalojado agora é bandido?

Fumaça mancha o céu do centro de SP após enfrentamento entre policiais e ocupantes de prédio antes abandonado - Foto: Eduardo Hernandes/Futura Press/Estadão Conteúdo

Inimigo debocha de nossa ignorância 

Se existe discordância do modus operandi dos movimentos, ao menos humanidade e solidariedade com as crianças e idosos seria o básico. Mas São Paulo nos surpreende até nisso, na sua enorme capacidade de admirar a violência.

Em tempo, vale lembrar que, pela Constituição, no artigo 6º "[...] são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados".

Ou seja, a FLM reivindica apenas o direito constitucional. Pobres de nós, que lutamos contra nós mesmos, enquanto o inimigo debocha de nossa ignorância.

maira moraes Maíra Moraes: Ocupante desalojado agora é bandido?

*MAÍRA MORAES é historiadora formada pela USP (Universidade de São Paulo), na qual também é pós-graduada em Mídia, Informação e Cultura. Colunista convidada, escreve no R7 Cultura todo primeiro domingo do mês. A opinião dos colunistas convidados não reflete, necessariamente, a opinião do R7.

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Publicado em 04/10/2014 às 13h55

Brasil perde Hugo Carvana, o malandro do cinema

hugo carvana Brasil perde Hugo Carvana, o malandro do cinema

O ator Hugo Carvana em cena: mais de cem filmes no currículo - Foto: Divulgação

POR MIGUEL ARCANJO PRADO

O ator e diretor Hugo Carvana, que morreu neste sábado (4), aos 77 anos, era, antes de tudo, um homem de cinema. Seus mais de cem filmes comprovam a tese.

Era da turma do cinema novo, dos tempos em que era preciso apenas uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, bem diferentes dos atuais desmiolados filmes comerciais que pululam nas telonas.

Hugo tinha aquele ar carioca, malandro, totalmente condizente com o subúrbio de Lins de Vasconcelos, onde nasceu filho de uma costureira e de um comandante da marinha.
Mas logo soube se impor na patota da zona sul, na Ipanema onde tudo acontecia, nas décadas de 1960 e 1970. Logo, bom de copo e bom de papo, conquistou os corações intelectuais brasileiros.

Sua mesa podia ter, ao mesmo tempo, Vinicius de Moraes, Tom Jobim e a turma do jornal O Pasquim, já que era casado com Martha Alencar, jornalista que também fez história no semanário mais emblemático do jornalismo brasileiro.

Todo mundo era amigo de Hugo Carvana. Talvez tenha imortalizado sua própria figura no filme clássico Vai Trabalhar, Vagabundo, de 1973. Era mesmo o nosso malandro do cinema brasileiro.

hugo carvana2 Brasil perde Hugo Carvana, o malandro do cinema

Hugo Carvana, no filme clássico Vai Trabalhar, Vagabundo, de 1973 - Foto: Divulgação

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Publicado em 04/10/2014 às 11h00

“A nostalgia é branco e preto”, diz cartunista argentino Gervasio Troche, de Desenhos Invisíveis

troche A nostalgia é branco e preto, diz cartunista argentino Gervasio Troche, de Desenhos Invisíveis

Desenho do argentino Gervasio Troche, no livro Desenhos Invisíveis - Foto: Reprodução

Por SILVIA RIBEIRO*

O cartunista argentino Gervasio Troche, 37 anos, termina neste sábado (4) sua viagem por cidades brasileiras para lançar o livro Desenhos Invisíveis, pela Editora Lote 42. A viagem foi financiada com apoio de fãs.

Nesta entrevista à jornalista Silvia Ribeiro, do R7 no Rio, abriu o jogo sobre o modo como surgem seus desenhos, revelando ao mesmo tempo quem é.

Sem autocensuras, topou a proposta de tirar o véu de sua criação: contou por que desenha, como lhe ocorrem as ideias, como e onde se inspira, por que elegeu “aquarelas em branco e preto”, as escolhas dos temas e a trilha sonora na hora de desenhar.

Leia os melhores trechos da entrevista:

gervasio troche A nostalgia é branco e preto, diz cartunista argentino Gervasio Troche, de Desenhos Invisíveis

Gervasio Troche é argentino e gosta de fazer desenhos em PB - Foto: Divulgação

SILVIA RIBEIRO — Quem é você?
TROCHE — O nome? [risos] Bem, não sei. Gervásio Troche. Psicológico isso… Uma pessoa muito desordenada, complexa. Creio que sou muito sensível.

SILVIA RIBEIRO — Você se diz desordenado, mas os seus desenhos são muito “clean”…
TROCHE — Porque busco isso, busco pureza. O desenho para mim é um lugar onde encontrei paz interior, um mundo belo.

SILVIA RIBEIRO — Os desenhos podem ser encarados como uma fuga?
TROCHE — É uma busca de mim mesmo, como pessoa, busca por tratar de saber quem sou. Não sei quem sou realmente… Me custa muito, baixa autoestima… Não sei se é uma fuga porque eu amo a vida, tenho paixão pela vida, pelas pessoas. Gosto de mudar a realidade, a realidade é um bom motivo para a mudar. Fui uma criança complicada e, por meio do desenho, quis dizer ao mundo o que estava aqui dentro…

SILVIA RIBEIRO — Por que a escolha pelo desenho e não por outras formas de arte?
TROCHE — Porque me encontrei no desenho. Toco guitarra, às vezes, mas não me encontro na guitarra. Minha linguagem é o desenho. A música me alimenta na hora de desenhar. Aqui há música também, há música e outras formas de arte.

SILVIA RIBEIRO — O que são Desenhos Invisíveis?
TROCHE — O conceito nasceu em uma conversa com um desenhista argentino, o Kioskerman, e eu estava buscando um título para o livro — eu queria que o livro não tivesse título. Mas a editora argentina me disse que tinha de ter… [risos] Há uma frase conhecida, batida, que diz: “O essencial é invisível aos olhos”. Na realidade, os desenhos são invisíveis, o que o desenho diz não se vê no desenho.

SILVIA RIBEIRO — São como as palavras, feitas de significantes e significados. O conceito da palavra não é a palavra. Se você pudesse escolher um desenho invisível, qual seria?
TROCHE — Esse é um tema afetivo [Troche mostra o desenho que abre o post]. Foi numa época em que eu não tinha blog e não sabia o que fazer da minha vida em relação aos desenhos… Me veio essa imagem: alguém buscando algo na escuridão e a luz são as estrelas. Me ajudou muito a tirar esse bloqueio.

SILVIA RIBEIRO — É possível ganhar dinheiro com os desenhos? Pergunto para entender como você equilibra a sua criação e a necessidade de pagar as contas.
TROCHE — Eu não faço dinheiro com desenhos. Dou oficinas de desenho, ensino. É algo parecido com o que gosto de fazer, que é desenhar, mas não é desenhar. Eu gostaria de viver de desenhar, mas como não posso, comecei a formar oficinas para ensinar. De desenho em si, às vezes vendo originais, mas é muito esporádico. É muito difícil viver de desenhos.

SILVIA RIBEIRO — De onde nasce o improviso?
TROCHE — Para mim, é como brincar. Uma criança, quando desenha, não pensa, brinca. Quando você brinca, a emoção e o sentimento estarão no desenho. Não tem que buscá-los. Quando se diz: “Estou triste, então tenho de que fazer algo triste”. Não. Se está racionalizando. [Improvisar] É não reprimir-se, a mim também me custa. Me custa improvisar, brincar. É quanto mais passa o tempo, se torna mais difícil, porque há mais preconceitos, mais um montão de coisas. Mas é como se deixar levar pela emoção, ódio, angústia, intensa alegria… É como dizer a alguém o que se sente por essa pessoa: se pode dizer racionalizando e se pode dizer realmente. Sempre há um pouco de racionalização [no trabalho], porque somos racionais e tudo passa pela razão, mas se faz necessário não reprimir sentimentos.

troche1 A nostalgia é branco e preto, diz cartunista argentino Gervasio Troche, de Desenhos Invisíveis

SILVIA RIBEIRO — O que te inspira? Como surgem as ideias para os desenhos?
TROCHE — A todo tempo estou pensando nisto. Não tenho um escritório, não tenho horário [de trabalho]. Sou um pouco desordenado… Gosto muito de sair para caminhar e ver o movimento, a vida, os sons, tudo isso me inspira. A noite me inspira, a música, a chuva… Há temas dos quais gosto muito e sempre volto a esses cenários, à noite, à chuva, aos equilibristas e, por alguma razão, sempre me veem ideias. Quando eu era criança, gostava da noite e da chuva… A inspiração vem de muita busca. Não sou alguém que fica sentado num lugar fechado olhando a folha em branco. Ouço música, me emociono, a emoção é muito importante. Quando estava no avião vindo para o Brasil, me vieram muitas ideias por causa da emoção. Acho que os artistas têm de ter vivências nas ruas. Também nos livros e em outras obras de arte, mas para mim a inspiração está na rua.

SILVIA RIBEIRO — Você diz que a noite é um cenário a que você sempre recorre e que, quando criança, gostava da noite. A arte é uma forma de reviver a infância?
TROCHE — Sou muito nostálgico, gostaria de não ser, mas não posso… E a nostalgia de infância: o que aconteceu, por que aconteceu, por que não surgem imagens claras na minha mente, por que não posso reviver, por que não posso viajar mentalmente a esse lugar de volta e vivê-lo? Sempre estou pensando nisso da infância e desenho sobre isso. Me sinto um menino nesse sentido. Mas, quando era um menino e desenhava, não pensava assim, brincava e me divertia, não tinha essa nostalgia. Não me sinto um menino quando desenho, me sinto um adulto e gosto disso. Às vezes, quando ouço que os artistas desenham como quando eram crianças, acho muito estranho porque para mim é lindo desenhar como somos agora. Quando eu era criança tinha mais liberdade, agora me custa um pouco mais. Encontro liberdade, mas uma liberdade desse momento da minha vida, de adulto. Quando era criança, era livre, mas não buscava a liberdade, já a tinha. Hoje quando tenho de buscá-la, a encontro, mas é uma liberdade de adulto.

SILVIA RIBEIRO — Por que desenha em branco e preto?
TROCHE — Tenho influências de desenhistas de quem gosto muito que desenham em branco e preto. Mas é uma questão de gosto, como a roupa, há quem se vista com muitas cores… Eu gosto do branco e preto em tudo, na fotografia, no cinema. Acho que é como entendo o mundo, não como o vejo, é como um filtro que passa na minha mente, por aí acontece tudo em branco e preto. Acho que a nostalgia é branco e preto.

SILVIA RIBEIRO — A música também está muito presente nos desenhos.

TROCHE — Os artistas que mais me influenciaram foram Miles Davis (o disco Kind of Blue), o pianista de jazz Bill Evans, Radiohead (Ok Computer, Kid A e Amnesiac), Bob Dylan (Blonde on Blonde e todos os discos da década de 60), Beatles, Pink Floyd, Nirvana que é minha adolescência, R.E.M, do Caetano eu gosto muito do Transa.

SILVIA RIBEIRO — O espaço e as estrelas são temas centrais. O que representam?
TROCHE — O mistério. O mistério do universo. O espaço é infinito e muito largo. O infinito me atrai desde criança. Quando me concentro no universo, vou a ele, mas vou para dentro de mim. Esse infinito pode ser o infinito que está dentro de mim também. Como um reflexo de mim, de ti e de todos.

*Silvia Ribeiro é editora executiva do R7 no Rio. Leia a entrevista na íntegra.

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Publicado em 03/10/2014 às 12h00

O Retrato do Bob: Baby do Brasil, a menina dança

baby brasil bob sousa O Retrato do Bob: Baby do Brasil, a menina dançaFoto BOB SOUSA

Quem é essa menina solta no palco? Com seu cabelo roxo, tem frescor, tem vida, tem carisma, tem verdade. É leve como uma pluma. Tem baianidade. Diante dela, os anos 70 nunca têm fim. Que bom. Porque a gente acredita. A gente vai junto. Sem medo. É uma eterna criança. É a menina que dança. É a nossa Baby.

*Bob Sousa é fotógrafo e autor do livro Retratos do Teatro (Editora Unesp).

Agradecimento: Equipe do Sesc Pinheiros (SP)

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Publicado em 02/10/2014 às 03h06

Carybé enche Bom Retiro de cores da Bahia

carybe1 Carybé enche Bom Retiro de cores da Bahia

Uma das serigrafias de Carybé que estão expostas no Sesc Bom Retiro - Foto: Reprodução

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O bairro do Bom Retiro, no centro de São Paulo, está sempre agitado com sua vida de comércio de roupas. Enquanto a gente apressada caminha com suas sacolas de compras, em um cantinho do bairro a Bahia se faz presente com sua alegria costumeira. É o Sesc Bom Reitor, que abriga a exposição Serigrafias de Carybé.

São 30 obras de Hector Julio Páride de Bernabó, o Carybé, artista argentino que se tornou baiano de coração, expostas gratuitamente no espaço até 9 de novembro.

A visitação acontece de terça a sexta, das 10h às 20h30; sábados das 10h às 18h30 e domingos e feriados, das 10h às 18h30. O endereço do Sesc Bom Retiro é Al. Nothmann,185 (tel. 0/xx/11 3332-3600).

Localizado na mesma região da Cracolândia, o Sesc Bom Retiro é um oásis de cultura e lazer em uma região tão degradada do centro paulistano. Não é por menos que, desde sua inauguração, em 27 de agosto de 2011, pelo local já passaram mais de 1,8 milhão de pessoas. Um detalhe: no local funciona ainda uma biblioteca com 4.500 títulos e que empresta 5.800 obras por ano.

A série de trabalhos exposta no Sesc Bom Retiro foi feita para a abertura da série de TV O Compadre de Ogun, em 1997, inspirada na obra homônima de Jorge Amado, de quem Carybé era compadre.

verger jorge carybe2 Carybé enche Bom Retiro de cores da Bahia

Carybé (dir.), ao lado de Pierre Verger (esq.) e Jorge Amado (centro) - Foto: Zélia Gattai

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Publicado em 01/10/2014 às 16h30

Crítica: Corajosa e inteligente, série Plano Alto leva clamor das ruas para a televisão

 

plano alto michel angelo Crítica: Corajosa e inteligente, série Plano Alto leva clamor das ruas para a televisão

Enfrentamento nas ruas: Plano Alto mostra os protestos que movimentaram o Brasil - Foto: Michel Ângelo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Os palácios onde habitam os governantes parecem distantes dos interesses reais do povo. Não foi à toa que, em junho de 2013, o Brasil viu uma multidão invadir as ruas do País de forma inesperada, cansada diante de tanta retórica e pouca ação.

A comoção popular chegou rapidamente à arte. No teatro, Zé Celso, diretor do Teat(r)o Oficina, foi um dos pioneiros em integrar o grito das manifestações às novas peças da série Cacilda, misturando 1968 aos tempos atuais. O grupo teatral Os Satyros fez o mesmo, ao levar os protestos para a peça Édipo na Praça. Mas o teatro não está mais sozinho.

A nova série da Record, Plano Alto, escrita por Marcílio Moraes e dirigida por Ivan Zettel, com Leonardo Miranda e Nádia Bambirra, estreou nesta terça (30) com coragem e inteligência para se enfileirar no combate. E com uma vantagem em relação ao teatro: conta com o poder televisivo de alcance para seu discurso.

Mesmo partido do pressuposto de uma obra de ficção, Moraes expõe com verdade o submundo político nacional, repleto de sanguessugas que assolam a Nação. O Congresso Nacional, ao fundo, na janela do cenário onde algumas das tramoias são armadas em Brasília, é um claro recado.

Com uma dramaturgia engajada e cenas impecáveis tecnicamente, a série ainda mostra seu zelo ao contar com uma trilha sonora de peso, que recupera Geraldo Vandré em nova roupagem e ainda dá fôlego novo a Gonzaguinha ecoando sobre imagens de um Rio tão sofrido.

Plano Alto discute o País e vem para fazer companhia a produtos históricos da teledramaturgia nacional, como a novela Vale Tudo ou à minissérie Anos Rebeldes.

É salutar a estreia de Plano Alto na mesma semana em que o País viu boquiaberto um candidato ao posto de Presidente da República expor seu desprezo e ódio por uma minoria, contrariando a ética do próprio cargo que deseja ocupar.

É preciso valorizar a democracia de fato, o respeito ao povo, à diversidade, ao ser humano. E expurgar os conchavos que dão espaço a gente que só quer encher o bolso de dinheiro dos cofres públicos para proferir sandices, iludindo alguns com discurso, enquanto aproveitam para roubar mais.

Um país que criminaliza professores em greve ou mesmo sem tetos que buscam moradias dignas em prédios abandonados precisa mesmo ser sacudido, ser discutido. E Plano Alto faz isso sem temor. Os políticos não podem mais permanecer, tal qual diz o nome da série, neste plano onipotente e distante da população. É preciso obrigá-los a colocar outra vez os pés no chão.

plano alto daniela galli michel angelo Crítica: Corajosa e inteligente, série Plano Alto leva clamor das ruas para a televisão

Bastidores do poder: Daniela Galli vive a ambiciosa deputada Júlia na série de Marcílio Moraes - Foto: Michel Ângelo

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Perfil

Miguel Arcanjo Prado é editor de Cultura do R7, onde está desde o começo do portal, em 2009. É jornalista formado pela UFMG e pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP. É crítico membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Nasceu em Belo Horizonte e mora em São Paulo desde 2007, quando ingressou no Curso Abril de Jornalismo. Ainda em Minas, estreou como cronista do semanário O Pasquim 21, passando por TV UFMG e TV Globo Minas. Na capital paulista, foi repórter da Contigo!, da Ilustrada na Folha Online e do Agora São Paulo, no Grupo Folha. Edita e apresenta a Agenda Cultural da TV Record News.

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