Publicado em 04/10/2014 às 11h00

“A nostalgia é branco e preto”, diz cartunista argentino Gervasio Troche, de Desenhos Invisíveis

troche A nostalgia é branco e preto, diz cartunista argentino Gervasio Troche, de Desenhos Invisíveis

Desenho do argentino Gervasio Troche, no livro Desenhos Invisíveis - Foto: Reprodução

Por SILVIA RIBEIRO*

O cartunista argentino Gervasio Troche, 37 anos, termina neste sábado (4) sua viagem por cidades brasileiras para lançar o livro Desenhos Invisíveis, pela Editora Lote 42. A viagem foi financiada com apoio de fãs.

Nesta entrevista à jornalista Silvia Ribeiro, do R7 no Rio, abriu o jogo sobre o modo como surgem seus desenhos, revelando ao mesmo tempo quem é.

Sem autocensuras, topou a proposta de tirar o véu de sua criação: contou por que desenha, como lhe ocorrem as ideias, como e onde se inspira, por que elegeu “aquarelas em branco e preto”, as escolhas dos temas e a trilha sonora na hora de desenhar.

Leia os melhores trechos da entrevista:

gervasio troche A nostalgia é branco e preto, diz cartunista argentino Gervasio Troche, de Desenhos Invisíveis

Gervasio Troche é argentino e gosta de fazer desenhos em PB - Foto: Divulgação

SILVIA RIBEIRO — Quem é você?
TROCHE — O nome? [risos] Bem, não sei. Gervásio Troche. Psicológico isso… Uma pessoa muito desordenada, complexa. Creio que sou muito sensível.

SILVIA RIBEIRO — Você se diz desordenado, mas os seus desenhos são muito “clean”…
TROCHE — Porque busco isso, busco pureza. O desenho para mim é um lugar onde encontrei paz interior, um mundo belo.

SILVIA RIBEIRO — Os desenhos podem ser encarados como uma fuga?
TROCHE — É uma busca de mim mesmo, como pessoa, busca por tratar de saber quem sou. Não sei quem sou realmente… Me custa muito, baixa autoestima… Não sei se é uma fuga porque eu amo a vida, tenho paixão pela vida, pelas pessoas. Gosto de mudar a realidade, a realidade é um bom motivo para a mudar. Fui uma criança complicada e, por meio do desenho, quis dizer ao mundo o que estava aqui dentro…

SILVIA RIBEIRO — Por que a escolha pelo desenho e não por outras formas de arte?
TROCHE — Porque me encontrei no desenho. Toco guitarra, às vezes, mas não me encontro na guitarra. Minha linguagem é o desenho. A música me alimenta na hora de desenhar. Aqui há música também, há música e outras formas de arte.

SILVIA RIBEIRO — O que são Desenhos Invisíveis?
TROCHE — O conceito nasceu em uma conversa com um desenhista argentino, o Kioskerman, e eu estava buscando um título para o livro — eu queria que o livro não tivesse título. Mas a editora argentina me disse que tinha de ter… [risos] Há uma frase conhecida, batida, que diz: “O essencial é invisível aos olhos”. Na realidade, os desenhos são invisíveis, o que o desenho diz não se vê no desenho.

SILVIA RIBEIRO — São como as palavras, feitas de significantes e significados. O conceito da palavra não é a palavra. Se você pudesse escolher um desenho invisível, qual seria?
TROCHE — Esse é um tema afetivo [Troche mostra o desenho que abre o post]. Foi numa época em que eu não tinha blog e não sabia o que fazer da minha vida em relação aos desenhos… Me veio essa imagem: alguém buscando algo na escuridão e a luz são as estrelas. Me ajudou muito a tirar esse bloqueio.

SILVIA RIBEIRO — É possível ganhar dinheiro com os desenhos? Pergunto para entender como você equilibra a sua criação e a necessidade de pagar as contas.
TROCHE — Eu não faço dinheiro com desenhos. Dou oficinas de desenho, ensino. É algo parecido com o que gosto de fazer, que é desenhar, mas não é desenhar. Eu gostaria de viver de desenhar, mas como não posso, comecei a formar oficinas para ensinar. De desenho em si, às vezes vendo originais, mas é muito esporádico. É muito difícil viver de desenhos.

SILVIA RIBEIRO — De onde nasce o improviso?
TROCHE — Para mim, é como brincar. Uma criança, quando desenha, não pensa, brinca. Quando você brinca, a emoção e o sentimento estarão no desenho. Não tem que buscá-los. Quando se diz: “Estou triste, então tenho de que fazer algo triste”. Não. Se está racionalizando. [Improvisar] É não reprimir-se, a mim também me custa. Me custa improvisar, brincar. É quanto mais passa o tempo, se torna mais difícil, porque há mais preconceitos, mais um montão de coisas. Mas é como se deixar levar pela emoção, ódio, angústia, intensa alegria… É como dizer a alguém o que se sente por essa pessoa: se pode dizer racionalizando e se pode dizer realmente. Sempre há um pouco de racionalização [no trabalho], porque somos racionais e tudo passa pela razão, mas se faz necessário não reprimir sentimentos.

troche1 A nostalgia é branco e preto, diz cartunista argentino Gervasio Troche, de Desenhos Invisíveis

SILVIA RIBEIRO — O que te inspira? Como surgem as ideias para os desenhos?
TROCHE — A todo tempo estou pensando nisto. Não tenho um escritório, não tenho horário [de trabalho]. Sou um pouco desordenado… Gosto muito de sair para caminhar e ver o movimento, a vida, os sons, tudo isso me inspira. A noite me inspira, a música, a chuva… Há temas dos quais gosto muito e sempre volto a esses cenários, à noite, à chuva, aos equilibristas e, por alguma razão, sempre me veem ideias. Quando eu era criança, gostava da noite e da chuva… A inspiração vem de muita busca. Não sou alguém que fica sentado num lugar fechado olhando a folha em branco. Ouço música, me emociono, a emoção é muito importante. Quando estava no avião vindo para o Brasil, me vieram muitas ideias por causa da emoção. Acho que os artistas têm de ter vivências nas ruas. Também nos livros e em outras obras de arte, mas para mim a inspiração está na rua.

SILVIA RIBEIRO — Você diz que a noite é um cenário a que você sempre recorre e que, quando criança, gostava da noite. A arte é uma forma de reviver a infância?
TROCHE — Sou muito nostálgico, gostaria de não ser, mas não posso… E a nostalgia de infância: o que aconteceu, por que aconteceu, por que não surgem imagens claras na minha mente, por que não posso reviver, por que não posso viajar mentalmente a esse lugar de volta e vivê-lo? Sempre estou pensando nisso da infância e desenho sobre isso. Me sinto um menino nesse sentido. Mas, quando era um menino e desenhava, não pensava assim, brincava e me divertia, não tinha essa nostalgia. Não me sinto um menino quando desenho, me sinto um adulto e gosto disso. Às vezes, quando ouço que os artistas desenham como quando eram crianças, acho muito estranho porque para mim é lindo desenhar como somos agora. Quando eu era criança tinha mais liberdade, agora me custa um pouco mais. Encontro liberdade, mas uma liberdade desse momento da minha vida, de adulto. Quando era criança, era livre, mas não buscava a liberdade, já a tinha. Hoje quando tenho de buscá-la, a encontro, mas é uma liberdade de adulto.

SILVIA RIBEIRO — Por que desenha em branco e preto?
TROCHE — Tenho influências de desenhistas de quem gosto muito que desenham em branco e preto. Mas é uma questão de gosto, como a roupa, há quem se vista com muitas cores… Eu gosto do branco e preto em tudo, na fotografia, no cinema. Acho que é como entendo o mundo, não como o vejo, é como um filtro que passa na minha mente, por aí acontece tudo em branco e preto. Acho que a nostalgia é branco e preto.

SILVIA RIBEIRO — A música também está muito presente nos desenhos.

TROCHE — Os artistas que mais me influenciaram foram Miles Davis (o disco Kind of Blue), o pianista de jazz Bill Evans, Radiohead (Ok Computer, Kid A e Amnesiac), Bob Dylan (Blonde on Blonde e todos os discos da década de 60), Beatles, Pink Floyd, Nirvana que é minha adolescência, R.E.M, do Caetano eu gosto muito do Transa.

SILVIA RIBEIRO — O espaço e as estrelas são temas centrais. O que representam?
TROCHE — O mistério. O mistério do universo. O espaço é infinito e muito largo. O infinito me atrai desde criança. Quando me concentro no universo, vou a ele, mas vou para dentro de mim. Esse infinito pode ser o infinito que está dentro de mim também. Como um reflexo de mim, de ti e de todos.

*Silvia Ribeiro é editora executiva do R7 no Rio. Leia a entrevista na íntegra.

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Publicado em 03/10/2014 às 12h00

O Retrato do Bob: Baby do Brasil, a menina dança

baby brasil bob sousa O Retrato do Bob: Baby do Brasil, a menina dançaFoto BOB SOUSA

Quem é essa menina solta no palco? Com seu cabelo roxo, tem frescor, tem vida, tem carisma, tem verdade. É leve como uma pluma. Tem baianidade. Diante dela, os anos 70 nunca têm fim. Que bom. Porque a gente acredita. A gente vai junto. Sem medo. É uma eterna criança. É a menina que dança. É a nossa Baby.

*Bob Sousa é fotógrafo e autor do livro Retratos do Teatro (Editora Unesp).

Agradecimento: Equipe do Sesc Pinheiros (SP)

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Publicado em 02/10/2014 às 03h06

Carybé enche Bom Retiro de cores da Bahia

carybe1 Carybé enche Bom Retiro de cores da Bahia

Uma das serigrafias de Carybé que estão expostas no Sesc Bom Retiro - Foto: Reprodução

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O bairro do Bom Retiro, no centro de São Paulo, está sempre agitado com sua vida de comércio de roupas. Enquanto a gente apressada caminha com suas sacolas de compras, em um cantinho do bairro a Bahia se faz presente com sua alegria costumeira. É o Sesc Bom Reitor, que abriga a exposição Serigrafias de Carybé.

São 30 obras de Hector Julio Páride de Bernabó, o Carybé, artista argentino que se tornou baiano de coração, expostas gratuitamente no espaço até 9 de novembro.

A visitação acontece de terça a sexta, das 10h às 20h30; sábados das 10h às 18h30 e domingos e feriados, das 10h às 18h30. O endereço do Sesc Bom Retiro é Al. Nothmann,185 (tel. 0/xx/11 3332-3600).

Localizado na mesma região da Cracolândia, o Sesc Bom Retiro é um oásis de cultura e lazer em uma região tão degradada do centro paulistano. Não é por menos que, desde sua inauguração, em 27 de agosto de 2011, pelo local já passaram mais de 1,8 milhão de pessoas. Um detalhe: no local funciona ainda uma biblioteca com 4.500 títulos e que empresta 5.800 obras por ano.

A série de trabalhos exposta no Sesc Bom Retiro foi feita para a abertura da série de TV O Compadre de Ogun, em 1997, inspirada na obra homônima de Jorge Amado, de quem Carybé era compadre.

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Carybé (dir.), ao lado de Pierre Verger (esq.) e Jorge Amado (centro) - Foto: Zélia Gattai

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Publicado em 01/10/2014 às 16h30

Crítica: Corajosa e inteligente, série Plano Alto leva clamor das ruas para a televisão

 

plano alto michel angelo Crítica: Corajosa e inteligente, série Plano Alto leva clamor das ruas para a televisão

Enfrentamento nas ruas: Plano Alto mostra os protestos que movimentaram o Brasil - Foto: Michel Ângelo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Os palácios onde habitam os governantes parecem distantes dos interesses reais do povo. Não foi à toa que, em junho de 2013, o Brasil viu uma multidão invadir as ruas do País de forma inesperada, cansada diante de tanta retórica e pouca ação.

A comoção popular chegou rapidamente à arte. No teatro, Zé Celso, diretor do Teat(r)o Oficina, foi um dos pioneiros em integrar o grito das manifestações às novas peças da série Cacilda, misturando 1968 aos tempos atuais. O grupo teatral Os Satyros fez o mesmo, ao levar os protestos para a peça Édipo na Praça. Mas o teatro não está mais sozinho.

A nova série da Record, Plano Alto, escrita por Marcílio Moraes e dirigida por Ivan Zettel, com Leonardo Miranda e Nádia Bambirra, estreou nesta terça (30) com coragem e inteligência para se enfileirar no combate. E com uma vantagem em relação ao teatro: conta com o poder televisivo de alcance para seu discurso.

Mesmo partido do pressuposto de uma obra de ficção, Moraes expõe com verdade o submundo político nacional, repleto de sanguessugas que assolam a Nação. O Congresso Nacional, ao fundo, na janela do cenário onde algumas das tramoias são armadas em Brasília, é um claro recado.

Com uma dramaturgia engajada e cenas impecáveis tecnicamente, a série ainda mostra seu zelo ao contar com uma trilha sonora de peso, que recupera Geraldo Vandré em nova roupagem e ainda dá fôlego novo a Gonzaguinha ecoando sobre imagens de um Rio tão sofrido.

Plano Alto discute o País e vem para fazer companhia a produtos históricos da teledramaturgia nacional, como a novela Vale Tudo ou à minissérie Anos Rebeldes.

É salutar a estreia de Plano Alto na mesma semana em que o País viu boquiaberto um candidato ao posto de Presidente da República expor seu desprezo e ódio por uma minoria, contrariando a ética do próprio cargo que deseja ocupar.

É preciso valorizar a democracia de fato, o respeito ao povo, à diversidade, ao ser humano. E expurgar os conchavos que dão espaço a gente que só quer encher o bolso de dinheiro dos cofres públicos para proferir sandices, iludindo alguns com discurso, enquanto aproveitam para roubar mais.

Um país que criminaliza professores em greve ou mesmo sem tetos que buscam moradias dignas em prédios abandonados precisa mesmo ser sacudido, ser discutido. E Plano Alto faz isso sem temor. Os políticos não podem mais permanecer, tal qual diz o nome da série, neste plano onipotente e distante da população. É preciso obrigá-los a colocar outra vez os pés no chão.

plano alto daniela galli michel angelo Crítica: Corajosa e inteligente, série Plano Alto leva clamor das ruas para a televisão

Bastidores do poder: Daniela Galli vive a ambiciosa deputada Júlia na série de Marcílio Moraes - Foto: Michel Ângelo

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Publicado em 01/10/2014 às 03h09

#VaivENO: Original Noia por Eduardo Enomoto

original noia eduardo enomoto #VaivENO: Original Noia por Eduardo EnomotoFoto EDUARDO ENOMOTO

Coletivo Rolê. Praça Princesa Isabel. Cracolândia. Centro de São Paulo. Uma da manhã. Um nóia se aproxima. Ei, é pra novela das nove? Não, é pra novela das seis. Então, faz uma foto minha fumando crack? Clique.

*Eduardo Enomoto é fotógrafo do R7. Sua coluna, #VaivENO, é publicada aqui no blog toda quarta-feira.

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Publicado em 30/09/2014 às 10h36

Crime de ódio de Levy Fidelix não é motivo de riso

levy fidelix 2 Crime de ódio de Levy Fidelix não é motivo de riso

Discurso do ódio: o candidato à Presidência Levy Fidelix (PRTB) - Foto: Eduardo Enomoto

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos EDUARDO ENOMOTO

Foram de revirar o estômago as frases proferidas impunemente pelo candidato à Presidência pelo PRTB, Levy Fidelix, no último debate da Record. Veja o que ele disse no vídeo abaixo:

A expressão de espanto de Luciana Genro condizia com a de milhões de brasileiros naquele momento que, como bem definiu o jornal inglês The Guardian, representou um "dia triste na democracia brasileira".

Triste porque os milhares que arriscaram seus trabalhos, suas famílias, seus corpos e suas vidas — e muitos a perderam — pela democracia o fizeram pelo direito de diferentes coexistirem no mesmo espaço social com respeito mútuo neste nosso Brasil.

A ideia de exterminar o outro já foi vencida pelo mundo em 1945, com a morte de Hitler e o fim da 2ª Guerra Mundial. E seu levante não pode ser tolerado por nenhuma nação.

Ao contrário do que pensa, Levy Fidelix não representa a "maioria", como faz questão de bradar como um senhor de engenho do século 19. Basta ver a quantidade de votos declarados nele. E, mesmo se um dia seu pensamento representasse a maioria do povo brasileiro, não teria o direito de dizer o que disse. Nem de fazer aquelas propostas.

Porque não é questão de ser maioria ou minoria. É questão de respeito básico aos direitos humanos. De respeito ao outro, à diversidade de modos de ser, de pensar, de agir, de crer e de enxergar o mundo.

Porque a Constituição, em seu artigo 1º, diz que um de seus fundamentos é "a dignidade da pessoa humana" para, no artigo 3º, declarar que estão entre seus objetivos "construir uma sociedade livre, justa e solidária" e "promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação". Para não haver dúvida, o artigo 5º diz: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade".

Ao contrário da tese de Levy Fidelix, os direitos garantidos na Constituição não são válidos somente a quem pratica sexo apenas com fins reprodutivos, coisa que nem casais heterossexuais fazem mais.

Mais do que tacanha e baixa, a fala de Levy Fidelix é criminosa e altamente violenta. Ele incitou em rede nacional o ódio e a perseguição de uma parcela da população. Isso pode soar como uma pólvora propulsora e legitimadora do ódio já existente no País campeão de crimes contra homossexuais. Basta ver os noticiários.

O discurso de enfrentamento do que pensa ser diferente ou inferior ao modelo que ele próprio tem de ser humano ou de família é semelhante ao discurso dos nazistas que ascenderam ao poder na Alemanha dos anos 1930 e que culminou, infelizmente, com 6 milhões de judeus mortos nos campos de concentração idealizados por Hitler e sua corja.

A democracia, ao contrário do que pensa Levy Fidelix, não é para lhe dar o direito de proferir todo pensamento que lhe vier à cabeça em rede nacional de televisão. Não se pode pedir o fim do outro, conclamar que "essa gente" fique "bem longe". Isso é crime e não condiz a um homem que se postula ao cargo de Presidente da República, cargo que pede o respeito e o zelo à diversidade, até mesmo por ser representativo de toda — e não apenas uma parcela — da população.

Apenas mais uma coisa machuca tanto a sociedade quanto o discurso de ódio de Levy Fidelix e o silêncio dos demais candidatos: os risos que ecoaram pelo estúdio e foram captados pelos microfones enquanto ele falava. Como se fosse engraçado propor o extermínio de uma minoria. Não é.

levy fidelix Crime de ódio de Levy Fidelix não é motivo de riso

Levy Fidelix, nos bastidores do debate na Record: apesar dos risos que o Brasil ouviu, propor o extermínio de uma minoria não é engraçado - Foto: Eduardo Enomoto

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Publicado em 30/09/2014 às 03h10

Espetáculo quebra preconceito com respeito e dança

Olhar de Neblina foto Andre Stefano DSC 2102 Espetáculo quebra preconceito com respeito e dança

Cena do espetáculo de dança Olhar de Neblina: sessões grátis em SP - Foto: André Stéfano

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Os limites estão aí para serem ultrapassados. E os preconceitos, para serem quebrados. Afinal, a liberdade e o respeito ao próximo, ao diferente, é o que importa.

Um espetáculo de dança celebra isso em São Paulo. A diretora Fernanda Amaral reuniu um grupo de cegos e cadeirantes para dançar ao lado de outros bailarinos sem "deficiências".

Por que, não?

Olhar de Neblina é o nome da montagem inspirada na obra do fotógrafo esloveno Evgen Bavcar, cego desde os 12 anos. O nome do grupo não poderia ser outro: Cia. Dança sem Fronteiras.

As sessões, gratuitas, acontecem nos dias 1º e 8 de outubro, às 21h, na SP Escola de Teatro da praça Roosevelt, 210, perto do metrô República. Já nos dias 18, às 20h, e 19 de outubro, às 19h, a montagem estará no Centro da Cultura Judaica, na rua Oscar Freire, 2.500, próximo ao metrô Sumaré.

No elenco estão os bailarinos Camilla Rodrigues do Carmo, Beto Amorim, Zilda Gonçalves, que é cega, Lucineia dos Santos, que só tem 20% da visão, e Rafael Barbosa, que é cadeirante.

Todos simplesmente artistas.

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Publicado em 29/09/2014 às 03h09

Mafalda faz 50 anos: 7 curiosidades da personagem

mafalda Mafalda faz 50 anos: 7 curiosidades da personagem

50 anos atrás: primeiro desenho de Mafalda foi publicado em 29/9/1964 na Argentina pelo desenhista Quino, criador da personagem politizada e inteligente - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Foi exatamente há 50 anos, no dia 29 de setembro de 1964, que Mafalda foi publicada pela primeira vez na Argentina.

A personagem criada por Joaquin Salvador Lavado Tejón, o Quino, logo conquistou leitores em todo o mundo com seu humor inteligente e politizado.

Quando Mafalda surgiu, o mundo ainda vivia dividido entre capitalismo e socialismo, com uma nova guerra mundial podendo ser deflagrada a qualquer momento.

A personagem era um verdadeiro respiro de liberdade em um mundo tão dividido. Ela antecipou os anos sombrios de ditaduras sanguinárias que viriam por toda a América Latina e logo tornou-se símbolo da resistência democrática e da liberdade de expressão.

Por conta do cinquentenário de uma das personagens mais interessantes que o quadrinho mundial produziu, o blog selecionou sete curiosidades sobre Mafalda. Veja aí:

1 - Mafalda representa a juventude idealista dos anos 1960, que sonhava transformar o mundo em um lugar melhor, com mais liberdade e democracia. Ela é fã das bandas Os Beatles e Los Pajaros Locos.

2 - Susanita, a melhor amiga de Mafalda, é o oposto dela: é fútil e vaidosa, quer se casar com marido rico, ter filhos. E, para piorar: é um poço de preconceitos.

3 - Mafalda tem um irmãozinho, nascido em 1968: Guille. O menino é fã de Brigitte Bardot, musa francesa da década de 1960.

4 - Sobre a personagem, o escritor argentino Julio Cortázar declarou: "Não tem importância o que eu penso sobre Mafalda. O que me importa é o que Mafalda pensa sobre mim".

5 - Até  hoje qualquer tirinha de Mafalda continua atual. Não é à toa que o livro Toda Mafalda nunca deixa de ser um dos mais vendidos na Argentina.

6 - Mafalda e seus amiguinhos moram no histórico bairro de San Telmo, na região central de Buenos Aires. Em 2009, na esquina de ruas Defensa e Chile foi colocada uma estátua da personagem, que logo se tornou um dos mais fotografados pontos turísticos argentinos. Na época em que criou Mafalda, Quino vivia no prédio ali em frente, no qual hoje também há uma placa indicativa de lugar histórico.

7 - Quem é fã de Mafalda não pode esquecer uma coisa: ela odeia sopa.

Ps. Em tempo: em dezembro, São Paulo recebe na Praça das Artes a exposição O Mundo de Mafalda, para celebrar seu cinquentenário. Imperdível!
mafalda 1 Mafalda faz 50 anos: 7 curiosidades da personagem
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Publicado em 28/09/2014 às 10h00

Daniel Martins: Qual o problema de Sexo e as Negas?

 

sexo nega soraia maria bia flavio tolezani patrao joao miguel junior Daniel Martins: Qual o problema de Sexo e as Negas?

Cena da polêmica série Sexo e as Negas: os atores Maria Bia, como a empregada negra, e Flávio Tolezani, como o patrão branco - Foto: João Miguel Júnior

Por DANIEL MARTINS*
Especial para o R7


Há alguns dias, deparei-me com uma chamada na TV. Quatro mulheres negras são rapidamente apresentadas, tendo uma ou outra característica ressaltada. Cheguei a pensar que se tratava de algo no estilo da série Antônia. 

E, em letras brilhantes realçadas por um fundo rosa, surgiu o título:
 Sexo e as Negas. Não levou um segundo para que me viesse a cabeça toda uma história de violência praticada contra as mulheres negras em nosso país. Considerei um título infeliz.

Nos dias que se sucederam, encontrei pela internet toda uma discussão em torno do seriado. Vozes contra e a favor, discussões interessantes ou simples trocas de ofensas. Notícias de representações contra a série e justificativas dadas por Miguel Falabella, seu autor. E o programa ainda nem havia estreado!
 

Era preciso deixar de lado a sensação de “não vi e não gostei” para se ter uma noção mais concreta sobre do que se tratava o programa. E
 considerando tudo o que vi na série, e o que li por aí, chego a uma conclusão: Sexo e as Negas sofre de um problema de inadequação do conteúdo à sua forma.

 

sexo negas estevam avellar1 Daniel Martins: Qual o problema de Sexo e as Negas?

"Seria um bom começo termos uma narrativa feminina" - Foto: Estevam Avellar

Um homem como narrador?

A série tem como base a produção americana
 Sex and the City. Apresenta o cotidiano de quatro mulheres ressaltando suas experiências sexuais e afetivas em meio ao dinamismo da cidade grande. 

E nisso reside o primeiro problema de forma e conteúdo. Se a série apresenta mulheres como pretensas protagonistas, por que o narrador é um homem? Qual o lugar de fala da mulher negra na série?
 

Na produção americana, a narração fica a cargo da personagem de Sarah Jessica Parker. Na brasileira, a voz que surge é a de Falabella. Pode parecer pouco, mas se a série se propõe a conceder protagonismo à mulher, seria um bom começo termos uma narrativa feminina.


Negras com profissões de sempre

Pensando ainda nas quatro protagonistas, temos mulheres negras que tem como ocupações as profissões, digamos, de sempre, quando o assunto é TV. Será que não existe na localidade onde se passa a trama uma mulher negra estudante universitária, comerciante, advogada?
 

É sensacional termos quatro mulheres negras como protagonistas de uma série. Sabe-se como são limitados os papéis concedidos aos negros em nossa dramaturgia. Ruth de Souza, a primeira atriz negra a subir ao palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, certa vez comentou sobre a limitação dos papéis para atores negros e sobre como a mulher negra, invariavelmente, era apresentada como uma personagem sexy e em ocupações subalternas.
 

É o que vemos novamente em
 Sexo e as Negas. Que tal mostrarmos a pluralidade de mulheres negras que existem em nossa sociedade? Variar as perspectivas justamente pra não estabelecer e reforçar estereótipos na representação da mulher negra.

sexo negas pulseira estevam avellar Daniel Martins: Qual o problema de Sexo e as Negas?

Cena de racismo de Sexo e as Negas: problemática não é discutida - Foto: Estevam Avellar

Racismo não é discutido

Quando você tem uma série brasileira com quatro protagonistas negras, é de se esperar que o racismo apareça em algum momento da trama. E de fato o autor não o ignora em seu texto. Mas os momentos em que se manifesta mais abertamente não são aprofundados. Não são discutidos.


Em certa medida, o racimo parece ser naturalizado, como na cena da pulseira — a atriz branca diz à camareira negra que ela pode usar sua pulseira valiosa, porque no braço da serviçal ninguém vai pensar que é uma peça verdadeira —, no primeiro episódio.
 

Perde-se uma grande oportunidade de escancarar o preconceito que insiste e persiste, mas que se torna objeto de discussão apenas em momentos específicos, como no recente caso do goleiro Aranha.


Perspectiva masculina

Temos ainda a questão do empoderamento da mulher. É muito bom ver na televisão aberta, personagens femininos que se apresentam como cientes da própria sexualidade, de seus desejos, donas de seus corpos. Que deixam claro que a busca pelo prazer feminino não pode mais ser encarada como tabu.
 

Mas, novamente, temos sobre esse empoderamento a mão do homem. E não é difícil perceber, por exemplo, pelos ângulos de câmera escolhidos para retratar as cenas de sexo que se trata de uma perspectiva masculina. Basta reparar em como o corpo da mulher é o elemento central das cenas.


Falar é fácil

Após dois episódios a sensação que fica é a de que
 Sexo e as Negas poderia ser muito mais do que é. Poderia aproveitar seu espaço para colocar em pauta questões relevantes, sem se descuidar do humor, seu ingrediente principal. 

Não se trata de criar um panfleto televisivo, mas de dar atenção as dezenas, centenas, ou quem sabe milhares de mulheres negras que foram até a internet expressar de maneira indignada sua opinião sobre a série.
 

É muito cômodo falar sobre tudo isto da minha posição. Eu, homem branco, assim como Falabella. Entretanto entendo que em situações como esta, é fundamental ouvir a voz daquelas que se sentiram ofendidas e mesmo violentadas, pois só elas sabem a dor que sentem ao viverem determinada situação.

Não se trata de patrulha do politicamente correto, mas de reconhecer as mulheres negras como dignas de respeito e de consideração, inclusive pela forma como querem ser vistas.

daniel martins r7 cultura Daniel Martins: Qual o problema de Sexo e as Negas?
*DANIEL MARTINS é bacharel em Ciências Sociais e mestre em Sociologia pela UFMG. É doutorando em Sociologia pela Unicamp, onde dedica-se ao estudo da Sociologia da Cultura. Colunista convidado, escreve no R7 Cultura todo quarto domingo do mês. A opinião dos colunistas convidados não reflete, necessariamente, a opinião do R7.

sexo1 Daniel Martins: Qual o problema de Sexo e as Negas?

O elenco de protagonistas de Sexo e as Negas, Lilian Valeska, Karin Hils, Maria Bia e Corina Sabbas, com a diretora, Cininha de Paula, e o autor, Miguel Falabella, ao centro - Foto: Alex Carvalho

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Publicado em 28/09/2014 às 03h08

Brigitte Bardot, a musa dos anos 60 faz 80

 

brigitte bardot 3 Brigitte Bardot, a musa dos anos 60 faz 80

Eterna musa: Brigitte Bardot foi ícone da beleza na década de 1960 - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Na década de 1960, só deu ela. Os fotógrafos não a deixavam em paz. Tudo que fazia era clique, era notícia.

As bancas de revista estampavam seus olhos, seu rosto, sua boca, seu corpo.

Com seu excesso de charme e de lábios, a atriz francesa Brigitte Bardot logo se converteu na mulher mais desejada do mundo.

Aqui no Brasil, causou furor em suas férias em 1964 em Búzios, cidade que viveu um antes e um depois de sua passagem. Pouco tempo depois, viraria letra de Caetano Veloso. O baiano a citou no inesquecível verso "Em dentes, pernas, bandeiras; bomba e Brigitte Bardot", da clássica Alegria, Alegria.

Ela completa 80 anos neste domingo (28).

Hoje ferrenha defensora dos animais e mais reclusa, às margens do Mar Mediterrâneo, Brigitte Bardot não é mais a menina fogosa de antes, ainda que não tenha jamais deixado de ser a maior musa daqueles tempos de uma juventude repleta de coragem e utopia.

brigitte bardot 2 Brigitte Bardot, a musa dos anos 60 faz 80

Brigitte Bardot foi musa de uma juventude cheia de utopia - Foto: Divulgação

 

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Miguel Arcanjo Prado é editor de Cultura do R7, onde está desde o começo do portal, em 2009. É jornalista formado pela UFMG e pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP. É crítico membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Nasceu em Belo Horizonte e mora em São Paulo desde 2007, quando ingressou no Curso Abril de Jornalismo. Ainda em Minas, estreou como cronista do semanário O Pasquim 21, passando por TV UFMG e TV Globo Minas. Na capital paulista, foi repórter da Contigo!, da Ilustrada na Folha Online e do Agora São Paulo, no Grupo Folha. Edita e apresenta a Agenda Cultural da TV Record News.

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