Publicado em 04/10/2014 às 11h00

“A nostalgia é branco e preto”, diz cartunista argentino Gervasio Troche, de Desenhos Invisíveis

troche A nostalgia é branco e preto, diz cartunista argentino Gervasio Troche, de Desenhos Invisíveis

Desenho do argentino Gervasio Troche, no livro Desenhos Invisíveis - Foto: Reprodução

Por SILVIA RIBEIRO*

O cartunista argentino Gervasio Troche, 37 anos, termina neste sábado (4) sua viagem por cidades brasileiras para lançar o livro Desenhos Invisíveis, pela Editora Lote 42. A viagem foi financiada com apoio de fãs.

Nesta entrevista à jornalista Silvia Ribeiro, do R7 no Rio, abriu o jogo sobre o modo como surgem seus desenhos, revelando ao mesmo tempo quem é.

Sem autocensuras, topou a proposta de tirar o véu de sua criação: contou por que desenha, como lhe ocorrem as ideias, como e onde se inspira, por que elegeu “aquarelas em branco e preto”, as escolhas dos temas e a trilha sonora na hora de desenhar.

Leia os melhores trechos da entrevista:

gervasio troche A nostalgia é branco e preto, diz cartunista argentino Gervasio Troche, de Desenhos Invisíveis

Gervasio Troche é argentino e gosta de fazer desenhos em PB - Foto: Divulgação

SILVIA RIBEIRO — Quem é você?
TROCHE — O nome? [risos] Bem, não sei. Gervásio Troche. Psicológico isso… Uma pessoa muito desordenada, complexa. Creio que sou muito sensível.

SILVIA RIBEIRO — Você se diz desordenado, mas os seus desenhos são muito “clean”…
TROCHE — Porque busco isso, busco pureza. O desenho para mim é um lugar onde encontrei paz interior, um mundo belo.

SILVIA RIBEIRO — Os desenhos podem ser encarados como uma fuga?
TROCHE — É uma busca de mim mesmo, como pessoa, busca por tratar de saber quem sou. Não sei quem sou realmente… Me custa muito, baixa autoestima… Não sei se é uma fuga porque eu amo a vida, tenho paixão pela vida, pelas pessoas. Gosto de mudar a realidade, a realidade é um bom motivo para a mudar. Fui uma criança complicada e, por meio do desenho, quis dizer ao mundo o que estava aqui dentro…

SILVIA RIBEIRO — Por que a escolha pelo desenho e não por outras formas de arte?
TROCHE — Porque me encontrei no desenho. Toco guitarra, às vezes, mas não me encontro na guitarra. Minha linguagem é o desenho. A música me alimenta na hora de desenhar. Aqui há música também, há música e outras formas de arte.

SILVIA RIBEIRO — O que são Desenhos Invisíveis?
TROCHE — O conceito nasceu em uma conversa com um desenhista argentino, o Kioskerman, e eu estava buscando um título para o livro — eu queria que o livro não tivesse título. Mas a editora argentina me disse que tinha de ter… [risos] Há uma frase conhecida, batida, que diz: “O essencial é invisível aos olhos”. Na realidade, os desenhos são invisíveis, o que o desenho diz não se vê no desenho.

SILVIA RIBEIRO — São como as palavras, feitas de significantes e significados. O conceito da palavra não é a palavra. Se você pudesse escolher um desenho invisível, qual seria?
TROCHE — Esse é um tema afetivo [Troche mostra o desenho que abre o post]. Foi numa época em que eu não tinha blog e não sabia o que fazer da minha vida em relação aos desenhos… Me veio essa imagem: alguém buscando algo na escuridão e a luz são as estrelas. Me ajudou muito a tirar esse bloqueio.

SILVIA RIBEIRO — É possível ganhar dinheiro com os desenhos? Pergunto para entender como você equilibra a sua criação e a necessidade de pagar as contas.
TROCHE — Eu não faço dinheiro com desenhos. Dou oficinas de desenho, ensino. É algo parecido com o que gosto de fazer, que é desenhar, mas não é desenhar. Eu gostaria de viver de desenhar, mas como não posso, comecei a formar oficinas para ensinar. De desenho em si, às vezes vendo originais, mas é muito esporádico. É muito difícil viver de desenhos.

SILVIA RIBEIRO — De onde nasce o improviso?
TROCHE — Para mim, é como brincar. Uma criança, quando desenha, não pensa, brinca. Quando você brinca, a emoção e o sentimento estarão no desenho. Não tem que buscá-los. Quando se diz: “Estou triste, então tenho de que fazer algo triste”. Não. Se está racionalizando. [Improvisar] É não reprimir-se, a mim também me custa. Me custa improvisar, brincar. É quanto mais passa o tempo, se torna mais difícil, porque há mais preconceitos, mais um montão de coisas. Mas é como se deixar levar pela emoção, ódio, angústia, intensa alegria… É como dizer a alguém o que se sente por essa pessoa: se pode dizer racionalizando e se pode dizer realmente. Sempre há um pouco de racionalização [no trabalho], porque somos racionais e tudo passa pela razão, mas se faz necessário não reprimir sentimentos.

troche1 A nostalgia é branco e preto, diz cartunista argentino Gervasio Troche, de Desenhos Invisíveis

SILVIA RIBEIRO — O que te inspira? Como surgem as ideias para os desenhos?
TROCHE — A todo tempo estou pensando nisto. Não tenho um escritório, não tenho horário [de trabalho]. Sou um pouco desordenado… Gosto muito de sair para caminhar e ver o movimento, a vida, os sons, tudo isso me inspira. A noite me inspira, a música, a chuva… Há temas dos quais gosto muito e sempre volto a esses cenários, à noite, à chuva, aos equilibristas e, por alguma razão, sempre me veem ideias. Quando eu era criança, gostava da noite e da chuva… A inspiração vem de muita busca. Não sou alguém que fica sentado num lugar fechado olhando a folha em branco. Ouço música, me emociono, a emoção é muito importante. Quando estava no avião vindo para o Brasil, me vieram muitas ideias por causa da emoção. Acho que os artistas têm de ter vivências nas ruas. Também nos livros e em outras obras de arte, mas para mim a inspiração está na rua.

SILVIA RIBEIRO — Você diz que a noite é um cenário a que você sempre recorre e que, quando criança, gostava da noite. A arte é uma forma de reviver a infância?
TROCHE — Sou muito nostálgico, gostaria de não ser, mas não posso… E a nostalgia de infância: o que aconteceu, por que aconteceu, por que não surgem imagens claras na minha mente, por que não posso reviver, por que não posso viajar mentalmente a esse lugar de volta e vivê-lo? Sempre estou pensando nisso da infância e desenho sobre isso. Me sinto um menino nesse sentido. Mas, quando era um menino e desenhava, não pensava assim, brincava e me divertia, não tinha essa nostalgia. Não me sinto um menino quando desenho, me sinto um adulto e gosto disso. Às vezes, quando ouço que os artistas desenham como quando eram crianças, acho muito estranho porque para mim é lindo desenhar como somos agora. Quando eu era criança tinha mais liberdade, agora me custa um pouco mais. Encontro liberdade, mas uma liberdade desse momento da minha vida, de adulto. Quando era criança, era livre, mas não buscava a liberdade, já a tinha. Hoje quando tenho de buscá-la, a encontro, mas é uma liberdade de adulto.

SILVIA RIBEIRO — Por que desenha em branco e preto?
TROCHE — Tenho influências de desenhistas de quem gosto muito que desenham em branco e preto. Mas é uma questão de gosto, como a roupa, há quem se vista com muitas cores… Eu gosto do branco e preto em tudo, na fotografia, no cinema. Acho que é como entendo o mundo, não como o vejo, é como um filtro que passa na minha mente, por aí acontece tudo em branco e preto. Acho que a nostalgia é branco e preto.

SILVIA RIBEIRO — A música também está muito presente nos desenhos.

TROCHE — Os artistas que mais me influenciaram foram Miles Davis (o disco Kind of Blue), o pianista de jazz Bill Evans, Radiohead (Ok Computer, Kid A e Amnesiac), Bob Dylan (Blonde on Blonde e todos os discos da década de 60), Beatles, Pink Floyd, Nirvana que é minha adolescência, R.E.M, do Caetano eu gosto muito do Transa.

SILVIA RIBEIRO — O espaço e as estrelas são temas centrais. O que representam?
TROCHE — O mistério. O mistério do universo. O espaço é infinito e muito largo. O infinito me atrai desde criança. Quando me concentro no universo, vou a ele, mas vou para dentro de mim. Esse infinito pode ser o infinito que está dentro de mim também. Como um reflexo de mim, de ti e de todos.

*Silvia Ribeiro é editora executiva do R7 no Rio. Leia a entrevista na íntegra.

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Perfil

Miguel Arcanjo Prado é editor de Cultura do R7, onde está desde o começo do portal, em 2009. É jornalista formado pela UFMG e pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP. É crítico membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Nasceu em Belo Horizonte e mora em São Paulo desde 2007, quando ingressou no Curso Abril de Jornalismo. Ainda em Minas, estreou como cronista do semanário O Pasquim 21, passando por TV UFMG e TV Globo Minas. Na capital paulista, foi repórter da Contigo!, da Ilustrada na Folha Online e do Agora São Paulo, no Grupo Folha. Edita e apresenta a Agenda Cultural da TV Record News.

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