Publicado em 22/11/2014 às 11h05

MARIANA QUEEN: Cadê o negro no cinema nacional?

cidade de deus 06 MARIANA QUEEN: Cadê o negro no cinema nacional?

Cena de Cidade de Deus: "negro como bandido"  - Foto: Divulgação

Por MARIANA QUEEN NWABASILI
Especial para o R7*

O prestígio do filme O Dia de Jerusa (2014) apenas no exterior – ao menos por enquanto –  indica que os diretores e produtores brasileiros (em sua maioria brancos) ainda têm receio de bancar histórias negras protagonizados por atores negros de maneira não estigmatizada e estigmatizante.

A restrição ao filme no Brasil é só exemplo de um paradoxo muito nítido, ao menos para nós, negras e negros brasileiros: somos 53% da população do País, mas, se não for de maneira estereotipada (negro como bandido, negra extremamente sexualizada), não nos vemos nas produções cinematográficas e teledramáticas nacionais.

Exemplo dos EUA

É preciso que façamos um movimento já feito nos Estados Unidos, onde tantos seriados de sucesso se basearam na realidade dos negros periféricos e em ascensão, e que já foi atentado pelos países europeus: é preciso questionar por que, sem que haja nenhum esforço ou grande estranhamento, as produções audiovisuais brasileiras são, na esmagadora maioria, protagonizadas, compostas, dirigidas e produzidas por atores, diretores e produtores brancos?

Além de reflexo da desigualdade racial existente no País, isso não é contraproducente, pensando que grande parte da audiência (principalmente televisiva) pode vir de espectadores negros? Mas, antes que qualquer produção venha, como e por que os negros querem se ver nas telinhas e nas telonas?

E, por fim, por que até hoje, a grande maioria dos negros brasileiros não se indignou com todos esses anos de exclusão negra também dos e nos filmes e novelas; não se indignou e se cansou com todos esses anos de produção audiovisual igual e padronizadamente muito mais branca?

Concluo que o embranquecimento vem de longe e fez com que parte de nós nos acostumássemos com suas formas contemporâneas e perversas.

Brasil faz vista grossa

Para além da hipocrisia da maioria dos brasileiros para com as consequências do racismo por aqui refletidas nas relações sociais e, consequentemente, nas produções culturais,  o cenário e as cenas tão claras têm relação, entre outras coisas, com a falta de produtores e diretores negros no País, e com a falta de espaço para produções que priorizem histórias e imagens sobre essa parcela da população.

Entretanto, a esquizofrenia persiste: em 2013, por ordem da Justiça Federal (pasmem!), o MinC (Ministério da Cultura) teve de suspender os editais de incentivo à cultura negra lançados em novembro de 2012 por supostamente representarem uma prática racista.   A Funarte (Fundação Nacional das Artes) retomou a proposta por meio da Bolsa Funarte de Fomento aos Artistas e Produtores Negros.

As iniciativas e suas tentativas de realização sinalizam o óbvio, para alguns: é preciso produzir produtores e produções negras no Brasil, País que gosta de vender a sua diversidade étnica e cultural, mas faz vista grossa para as contradições em meio a essas diversidades. E não pensem que não teremos de onde partir. Afinal, o formato de O Dia de Jerusa não inventou a roda do cinema negro brasileiro, mas, sim, está em meio a ele, bebe de suas fontes.

Dogma Feijoada

Nos anos 2000 (tarde, mas nunca tarde demais), o Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo abrigou uma mostra de diretores negros. Na ocasião, o diretor Jefferson De (Gênesis 22, de 1999; Bróder, de 2010), lançou o manifesto Dogma Feijoada, em alusão ao manifesto Dogma 95, criado pelo diretor dinamarquês Lars von Trier (Dogville, 2003; Ninfomaníaca, 2013) em 1995.

Lembrando dos feitos e do caminho já aberto pelos antigos e importantes cineastas negros brasileiros, como Haroldo Costa, Zózimo Bulbul, Antônio Pitanga e Waldyr Onofre, Jefferson De propôs em seu manifesto sete “mandamentos” para a produção do cinema negro no Brasil: o filme tem de ser dirigido por um realizador negro; o protagonista deve ser negro; a temática do filme tem de estar atrelada à cultura negra brasileira; o filme tem de se propor como “urgente”; não pode ter personagens estereotipadas negras ou não negras; o roteiro deve privilegiar o negro comum brasileiro e os super-heróis ou bandidos devem ser evitados.

Como na cultura ancestral, relembremos e retomemos. Porque relembrar é não se alienar.

mariana queen nwabasili MARIANA QUEEN: Cadê o negro no cinema nacional? *MARIANA QUEEN NWABASILI é repórter de Educação do R7. É formada em jornalismo pela ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP (Universidade de São Paulo). Colunista convidada, escreve no R7 Cultura todo quarto sábado do mês. A opinião dos colunistas convidados não reflete, necessariamente, a opinião do R7.

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Publicado em 19/11/2014 às 17h25

Museu Afro faz maratona pela Consciência Negra

CENA BESOURO 4   CREDITO CHRISTIAN CRAVO Museu Afro faz maratona pela Consciência Negra

Cena do filme Besouro, de João Daniel Tikhomiroff: duas sessões grátis em SP

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Quem for ao Parque do Ibirapuera, em São Paulo, nesta quinta (20), pode celebrar o Dia da Consciência Negra no Museu Afro, que fica próximo ao portão 10.

O espaço terá uma programação especial. Entre as atrações, tem concerto do grupo congolês Vana Kembo, às 10h, show da cantora norte-americana Toni Blackman, às 11h e 13h, e duas sessões do filme Besouro, às 14h e às 16h30. O longa conta a história de um lendário capoeirista no começo do século 20, com direção de João Daniel Tikhomiroff.

“O dia de 20 de novembro nos obriga a celebrar e a refletir: celebrar a memória de Zumbi de Palmares e de todos os homens e mulheres negros que lutaram contra a escravidão e o racismo no Brasil. E refletir sobre o ainda existente abismo social que separa negros e brancos no Brasil”, diz Emanoel Araujo, diretor curador do Museu Afro Brasil.

O livro Do Outro Lado, de Cesar Fraga, Ana Maria Gonçalves e Maurício Barros de Casto será lançado no espaço às 10h. A programação ainda tem Aos Pés do Baobá, às 13h45, com a obra de Carolina Maria de Jesus, e às 15h15 a criançada se diverte com As Brincadeiras do Congo.

Toda a programação é gratuita.

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Publicado em 15/11/2014 às 12h00

Átila Moreno: Filme sobre Tim Maia resgata essência musical e genialidade profana do artista

tim maia3 Átila Moreno: Filme sobre Tim Maia resgata essência musical e genialidade profana do artista

Tim Maia (1942-1998): o verdadeiro rei da música brasileira - Foto: Divulgação

Por ÁTILA MORENO
Especial para o R7*

Quando Nelson Motta escolheu o título do livro que conta a história do verdadeiro rei da música brasileira, achou a melhor definição possível: Vale Tudo – O som e a fúria de Tim Maia.

Agora, a obra serviu de inspiração para o filme Tim Maia. Mesmo com o título simplista, o filme captou bem o clima ao contar a uma história de extremos.

Tim Maia (1942-1998) foi intenso, problemático, politicamente incorreto, transgressor. Uma grande criança que não cabia dentro de si de tão amável e com um romantismo pesado. Um ser complexo demais pra um filme de quase duas horas e meia dar conta.

O diretor Mauro Lima (Meu Nome Não é Johnny) conseguiu contar a infância pobre na região da Tijuca, no Rio de Janeiro; a formação da banda The Sputniks junto com Roberto Carlos (George Sauma numa inconfundível caricatura) e as inúmeras tentativas de se inserir no cenário musical.

Estão ali também as disputas cinematográficas com os colegas; as brigas homéricas dignas de batalhas espartanas; a invejável aventura pelos EUA onde ele descobre a soul music; a conversão à seita Racional Superior (que trouxe um dos seus trabalhos mais magníficos em termos musicais); o abismo das drogas; as desilusões amorosas; a reconquista do sucesso até a sua morte. Ufa! Tudo isso mostrado de forma nua e crua, sem rodeios.

Mergulho na alma de Tim Maia

Apesar de a essência do livro ser bem captada, alguns personagens foram remontados para condensar bem o roteiro. Janaína (Alinne Moraes) é a representação das mulheres que passaram pela vida do artista.

Fábio (Cauã Reymond), músico que tocou com Tim Maia, e que no filme junta nuances de outras pessoas que conviveram com o cantor, é quem narra a história. Tal recurso se torna preguiçoso e enfadonho demais na trama.

Ainda bem que os diálogos salvam o resto, diante da ridícula poesia por trás do texto narrativo, que aliás destoa bastante da impecável produção (com destaque para fotografia, direção de arte e trilha sonora).

Vale ressaltar também as atuações Babu Santana (Tim Maia velho) e Robson Nunes (Tim Maia jovem). Claro que um ator para esse papel poderia beirar entre o ridículo amador e o retumbante profissional. O segundo ponto prevalece para os dois.

Robson insere a ingenuidade e a criança contidas no jovem Tim Maia. Babu agiganta o gênio e sua fúria em doses cavalares de convencimento e mergulho no personagem.

Infelizmente, grandes trechos do livro de Nelson Motta ficaram de fora ou não tiveram o devido cuidado na adaptação para o cinema.

Por exemplo, quando Tim Maia compõe Azul da Cor do Mar. É um dos momentos mais sublimes da obra, daqueles que você fecha o livro, chora e repensa a vida por longos minutos. No filme, ganhou meros segundos sem dramaticidade alguma.

Mas lá pelo final, o diretor traz uma surpresa de encher a alma, que expressa o clima captado por todo o filme e que mostra que Tim Maia está mil anos-luz de ser efêmero.
atila moreno 2 Átila Moreno: Filme sobre Tim Maia resgata essência musical e genialidade profana do artista

*ÁTILA MORENO é jornalista graduado pelo UNI-BH e tem pós-graduação em Produção e Crítica Cultural pela PUC-Minas. Colunista convidado, escreve no R7 Cultura todo terceiro sábado do mês. A opinião dos colunistas convidados não reflete, necessariamente, a opinião do R7.

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Publicado em 10/11/2014 às 17h26

Musa do cinema, Gilda Nomacce é celebrada no Rio

gilda nomacce carlos locatelli Musa do cinema, Gilda Nomacce é celebrada no Rio

Gilda Nomacce: mais de 50 filmes no currículo - Foto: Carlo Locatelli

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Ela já virou musa do novíssimo cinema brasileiro de qualidade.

Com presença cênica sempre repleta de mistério e força, Gilda Nomacce ganha homenagem por sua trajetória pungente nesta terça (11), no Festival Curta Cinema 2014 – Festival Internacional de Curtas-Metragens do Rio de Janeiro. O evento é dirigido por Ailton Franco e tem curadoria de Andy Malafaya.

Além da homenagem, há uma retrospectiva de 24 filmes com a atriz. “Fui tomada pela emoção ao ver meus trabalhos reunidos”, conta a atriz. Ela ainda diz que receber a honraria a “inspira e dá força para trabalhos futuros”.

Sobre trabalhar com “diretores em construção”, como chama os principiantes que fazem curtas, tem opinião certeira: “Os diretores de curta estão numa urgência que leva a criação para um lado muito intenso”.

50 filmes

Com tanta abertura ao novo, Gilda Nomacce tem um currículo para impressionar qualquer um: já atuou em 50 filmes e 15 peças.

Por conta disso, ela já arregimentou um grupo fiel de fãs. E gente da melhor qualidade: muitos são diretores, produtores de cinema e até jornalistas especializados no mundo cultural (caso do coleguinha Bruno Machado). "Eu fico emocionada, porque muita gente do cinema chega para falar comigo, me dizendo que viu um filme meu e gostou", explica.

E Gilda não pensa em manter o ritmo frenético de trabalho: "Gravo bastante, meus amigos sabem que eu vivo tendo de dizer 'não posso sair, eu estou gravando'. Acho que agora estão começando a entender... Essa retrospectiva é um atestado, uma prova de que estou falando mesmo a verdade! [risos]".

Saiba mais sobre o Curta Cinema 2014.

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Publicado em 01/11/2014 às 03h08

Cinema africano ganha sessões em SP e no Rio

Mandela 1.1 Cinema africano ganha sessões em SP e no Rio

Líder sul-africano Nelson Mandela é o grande homenageado no Rio - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O cinema africano quase nunca aparece nas telonas brasileiras, infelizmente. Pois duas mostras especiais querem mudar essa triste realidade nas duas principais cidades do Brasil: São Paulo e Rio de Janeiro.

Em São Paulo, acontece no Cine Olido, na Galeria Olido (av. São João, 473), até este domingo (2), o Kilimanjaro Ciné African Film Festival. Ao todo, serão exibidos oito longas africanos em dez sessões, todas com entrada a R$ 1.

Já no Rio, entre 4 e 12 de novembro, no Instituo Moreira Salles (r. Marquês de São Vicente, 476), na Gávea, acontece a Mostra África Hoje. O grande homenageado é Nelson Mandela. São 16 fimes de países como África do Sul, França, Madagascar, Moçambique, Angola, Congo, Suíça, Burkina Faso e Tunísia.

Mariana Marinho, idealizadora da mostra carioca, diz que o objetivo é "proporcionar horizontes diferentes daqueles a que estamos acostumados". No Rio, a entrada é R$ 8 a inteira e R$ 4 a meia.

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Publicado em 25/10/2014 às 03h08

Mariana Queen: Por que Brasil rejeitou filme negro?

o dia de jerusa laura carvalho 2 Mariana Queen: Por que Brasil rejeitou filme negro?

Léa Garcia, em primeiro plano, no filme O Dia de Jerusa - Foto: Laura Carvalho

Por MARIANA QUEEN NWABASILI
Especial para o R7*

Nem a 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, nem o Festival do Rio e nem o 42º Festival de Cinema de Gramado.

O curta-metragem O Dia de Jerusa, dirigido pela baiana e negra Viviane Ferreira, e protagonizado pelas atrizes, também negras, Léa Garcia (ilustríssima) e Débora Marçal, não foi selecionado para os festivais nacionais de cinema realizados neste ano.

No entanto, o reconhecimento estrangeiro surpreende: a obra foi uma das que integrou a programação do "Short Film Corner" (mostra de curtas-metragens) da 7ª edição do Festival de Cannes, ocorrida em maio deste ano na França.

Debate na USP

Em um debate realizado neste mês na Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo), Viviane mencionou que entre as justificativas da recusa de filme pelos festivais brasileiros estava o estranhamento – ou seria descabimento? – com o fato de o elenco ser composto totalmente por atores negros.

– O cinema que me disponho a fazer perpassa minhas observações e vivencias cotidianas, então é o cinema que eu sinto em minha pele, que reflito no brilho dos fios de meu cabelo. Mas, no Brasil, existe um cenário de total agressão às subjetividades negras. Por isso, não podemos parar de produzir nunca, e os diretores e diretoras negros vêm resistindo. O dia que abandonarmos nossas histórias, nossa estética e subjetividades, significa que o racismo venceu, diz Viviane em entrevista para este blog.

o dia de jerusa Mariana Queen: Por que Brasil rejeitou filme negro?

Léa Garcia no curta que o Brasil rejeitou, mas Cannes abraçou - Foto: Laura Carvalho

Elenco negro

A escolha da diretora pela representatividade exclusivamente negra na tela, bem como pelo roteiro, também tem relação com a proposta da produtora do filme. A Odun Formação e Produção trabalha com produções (cinema, teatro, dança e música) e formações (oficinas, palestras, cursos) sobre bens culturais, priorizando temas relacionados à cultura afrobrasileira.

Com 20 minutos de duração, O Dias de Jerusa se coloca como uma homenagem à tradição oral negra transmitida pelos relatos dos mais velhos. A história expõe a memória ancestral de Jerusa (Léa Garcia), uma senhora moradora de um sobrado no bairro do Bexiga em São Paulo. Ao fazer uma entrevista para uma pesquisa de opinião, concedida a Silvia (Débora Marçal), sobre o uso do sabão em pó, Jerusa passa a expor lembranças de toda uma vida.

Se no Brasil o enredo e o elenco não agradaram, no exterior o que agradou foi justamente o foco sobre uma história ocorrida com a moradora negra em meio um bairro muito habitado por negros – como tantos no Brasil, de periferias a quilombos.

Ajuda em Cannes

Mas nem tudo foi festa em Cannes. Ao jornal A Tarde, um dos poucos veículos que registrou o feito, a diretora Viviane contou que para se manter durante o festival teve a ajuda de diversas instituições e amigos.

Ela diz ainda que produtora Odun continuará a enviar o filme para outros festivais internacionais e nacionais que acontecem até março de 2015. Negociações com canais de TV também estão entre os planos.

— Fui para Cannes com a tranquilidade de que não é o holofote do glamour que me impulsiona a fazer cinema, mas consciente de que ele é essa impulsão é importante para jogarmos luz na realidade desigual que a indústria audiovisual submete cineastas negros brasileiros.

*MARIANA QUEEN NWABASILI é repórter de Educação do R7. É formada em jornalismo pela ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP (Universidade de São Paulo). Colunista convidada, escreve no R7 Cultura todo quarto sábado do mês. A opinião dos colunistas convidados não reflete, necessariamente, a opinião do R7.

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Publicado em 21/10/2014 às 19h15

Resistente da Boca do Lixo, Clery Cunha ganha homenagem na Mostra com Joelma 23º Andar

joelma Resistente da Boca do Lixo, Clery Cunha ganha homenagem na Mostra com Joelma 23º Andar

A atriz Beth Goulart em cena do filme Joelma 23º Andar, de Clery Cunha - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O goiano radicado em São Paulo Clery Cunha chega aos 75 anos com 50 anos de carreira. O cineasta foi um dos que resistiram na Boca do Lixo para que o nosso cinema hoje seja tão pungente.

E ainda tem novos filmes na cabeça, como o longa Tiradentes City SP Zona Leste, em fase de rodagem.

Na próxima segunda (27), recebe homenagem por sua trajetória na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na sala 3 do Espaço Itaú de Cinema no shopping Frei Caneca, às 14h.

Junto da homenagem, haverá exibição do filme Joelma 23º Andar, seu clássico sobre o incêndio que marcou a história do centro paulistano, com Beth Goulart no elenco.

O filme marcou o cinema brasileiro por ser o primeiro a ser rodado com cinco câmeras simultâneas e contou com fotografia de Cláudio Portioli.

A sessão especial, feita em parceria com a Cinemateca Brasileira, acontecerá justamente no Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual.

Nada mais justo. Afinal, Clery Cunha é patrimônio nosso.

clery Resistente da Boca do Lixo, Clery Cunha ganha homenagem na Mostra com Joelma 23º Andar

Clery Cunha: pioneiro no cinema brasileiro - Foto: Divulgação

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Publicado em 18/10/2014 às 13h00

Átila Moreno: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é sopro de renovação no cinema brasileiro

hoje eu quero voltar sozinho Átila Moreno: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é sopro de renovação no cinema brasileiro

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho representa Brasil na corrida pelo Oscar - Foto: Divulgação

Por ÁTILA MORENO*
Especial para o R7

Ventos de renovação têm passado pelo cinema brasileiro recentemente. O tratamento dado à sexualidade parece ter saído do olho do furacão mais conservador.

Algo já chamava atenção no relacionamento dos dois irmãos em Do Começo ao Fim (Aluizio Abranches, 2009), no romance entre uma arquiteta e uma escritora em Flores Raras (Bruno Barreto, 2012) e no amor entre um recruta do Exército e um dramaturgo em Tatuagem (Hilton Lacerda, 2013).

Diferentemente da grande parte das produções do passado, esses filmes deixaram os gays como personagens centrais das tramas.

Agora, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (Daniel Ribeiro, 2014), indicado como representante brasileiro na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro, vai além e derruba barreiras de uma só vez.

Dois adolescentes

O filme conta a história de Leonardo (Guilherme Lobo), um adolescente cego, que está na fase da descoberta da sexualidade e independência.

Com a chegada de Gabriel (Fabio Audi), a amizade desencadeia um dos mais tocantes e sensíveis romances que o nosso cinema já presenciou.

O filme é baseado no curta-metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho, que também foi dirigido por Daniel Ribeiro, responsável por outro curta de temática homossexual: Café com Leite.

Eu Não Quero Voltar Sozinho já emocionava com a simples história de um primeiro beijo. Desta vez, o diretor conseguiu trazer uma dimensão maior do relacionamento entre os dois estudantes e dar peso às complexidades da trama.

Simplicidade é acerto

A sexualidade dos personagens e a deficiência física do protagonista foram tratadas com simplicidade e naturalidade ímpares. Aliás, naturalidade parece ter sido um fator essencial na estética do filme.

Fotografia, cenário, interpretação e figurinos caminham por essa linha. Tudo é muito natural em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Os tipos físicos dos estudantes e as situações reais vividas por eles são bom exemplo disso e fogem do estilo pasteurizado de Malhação, novela juvenil da Globo.

Algumas cenas são puramente desafiadoras. Vale destacar aquela em que Leonardo cheira e dorme abraçado com o casaco de Gabriel, e quando Gabriel vai tomar banho ao lado de Leonardo no banheiro do acampamento.

Os dois momentos em que eles andam juntos de bicicleta trazem para o cinema uma poesia incrível. Sem contar o recado dado no final.

Tudo isso é regado a uma trilha sonora intimista, com There´s So Much Love, da banda escocesa Belle & Sebastian; Modern Love, de David Bowie; Vagalumes Cegos, de Cícero e Beijo Roubado em Segredo, de Tatá Aeroplano e Juliano Polimeno.

Conto de fadas contemporâneo

Por mais que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho remeta a um conto de fadas contemporâneo para o cinema gay, ele demarca inúmeros conflitos entre seus personagens, sem torná-los vítimas inertes da sociedade.

E nem sempre foi assim na história do cinema nacional. Antes desses bons ventos soprarem pro lado de cá, o personagem gay sempre foi tratado num ambiente perturbador, estereotipado, marginal e com vários desvios de comportamento. E claro, com desfechos trágicos pra lá de hollywoodianos.

Pelo menos, agora, temos uma produção essencialmente madura e que não tem medo algum de tocar em temas como bullying, preconceito e discriminação no início da adolescência. E o filme é bem mais corajoso quando trata da masturbação e da descoberta da sexualidade entre os dois rapazes.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho revelou o que a TV brasileira não conseguiu ser nos últimos 60 anos e deu um salto enorme na luta para rejuvenescer o legado dos romances gays no cinema nacional.

atila moreno 2 Átila Moreno: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é sopro de renovação no cinema brasileiro

*ÁTILA MORENO é jornalista graduado pelo UNI-BH e tem pós-graduação em Produção e Crítica Cultural pela PUC-Minas. Colunista convidado, escreve no R7 Cultura todo terceiro sábado do mês. A opinião dos colunistas convidados não reflete, necessariamente, a opinião do R7.

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Publicado em 17/10/2014 às 17h38

Crítica: Filme Hipóteses para o Amor e a Verdade é declaração dos Satyros de amor e dor a São Paulo

filme Crítica: Filme Hipóteses para o Amor e a Verdade é declaração dos Satyros de amor e dor a São Paulo

Cena de Hipóteses para o Amor e a Verdade, com Cléo De Páris e Robson Catalunha, no alto de um prédio na praça Roosevelt: como sobreviver a São Paulo? - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Viver em São Paulo dói. E, quando pensávamos que já havíamos passado todos os martírios advindos da falta de amor, eis que a água some da torneira enquanto o calor aumenta em proporção inversa, fazendo com que a umidade seja devorada pela poluição. Viver em São Paulo é um ato heroico de brava resistência diária.

Conseguir manter afeto diante da crueza é tarefa inglória. E é esta cidade ímpar que é descortinada com poesia e sutileza pelo diretor Rodolfo García Vázquez, no filme Hipóteses para o Amor e Verdade, com roteiro de Ivam Cabral. O longa estreou nesta quinta (16) na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (veja quem foi e saiba como foi).

Cheio de referências, brinca com a mistura de teatro e cinema. E o faz muito bem. Apresenta seus personagens de forma inteligente, sem afobação. O filme tem um tempo dicotômico em relação ao tempo frenético da cidade. Talvez aí more seu grande mérito artístico: ao fazer esta quebra, desconstrói a urgência paulistana que só leva ao isolamento e à solidão.

Os personagens vagam pela cidade e olham diretamente na câmera para fazer confissões - como Woody Allen em seus melhores filmes. Contudo, em vez de sacadas bem-humoradas do nova-iorquino, há a dor exposta dos paulistanos.

O plano sequência na abertura apresenta um ambiente corporativo, medíocre como tantos nos quais os paulistanos estão mergulhados em busca da grana que ergue e destrói coisas belas. O plano é bem executado e lembra alguns filmes de Stanley Kubrick. A direção de fotografia de Laerte Késsimos e Luiz Adriano Daminello é segura e unificadora. Abusa da beleza da musa dos Satyros Cléo De Páris e transforma algumas cenas em pinturas lisérgicas.

Elenco coeso

O elenco está coeso, alguns com mais peso. Paulinho Faria e Luiza Gottschalk acertam na construção do casal "traficante e prostituta". Parecem saídos de uma peça de Plínio Marcos, que nada mais fez do que revelar a realidade do submundo paulistano, tanto quanto o Satyros e seu filme fazem.

No escritório opressor, Tadeu Ibarra conquista a plateia com uma construção minimalista e de refinado humor do colega de trabalho burocrático, que pouco escuta o outro, imerso em suas metas próprias. Gustavo Ferreira, por sua vez, acerta ao desenhar seu personagem com traço leve: um jovem que não suporta mais a cidade e sonha com férias idealizadas em qualquer lugar onde haja calma, paz e afeto. Onde não haja o desprezo diário que vive com os colegas e do chefe petulante criado por Ricardo Pettine.

Phedra D. Córdoba, sem palavras alguma, rouba a cena a cada aparição, sempre ao lado de uma misteriosa Esther Antunes. É intensa e empresta peso de vida à velha mãe abandonada pelos filhos, a quem só a morte espera.

Pietà

Na pele dos filhos, Tiago Leal e Ivam Cabral fazem personagens que lidam com a distância de si próprios. Tiago é bom ator. Gaúcho, convence como um típico paulistano nato, com seu personagem que, para ser bem sucedido no mundo diurno, precisa dos bastidores noturnos. A forte cena na qual ele encontra Nany People, uma radialista transex da cidade, e esta lhe acolhe em seus braços tal qual uma Pietà, diz tudo e causa impacto. Nany, por sua vez, está bem também, em uma construção mais contida do que a Nany que estamos acostumados a ver na TV e, por isso, com muito mais peso dramático.

E o grande drama da história fica no embate entre o personagem de Ivam Cabral, o outro irmão que é um diretor de teatro atormentado por um erro no passado, e a de Cléo De Páris, que guarda um rancor profundo dele e busca consolo momentâneo no vício. Os personagens de ambos vagam pela cidade, como todos os outros, anestesiados, tristes e já sem esperança — estado cristalizado pelo jovem deprimido interpretado convincentemente por Robson Catalunha. O filme ainda tem Fábio Penna, como um ator que precisa expor sua vida em uma obra de teatro, como tantos que habitam a metrópole.

Em Hipóteses para o Amor e a Verdade, os Satyros conseguem transformar seu teatro, universalmente tão paulistano e tecnológico, em um filme que é uma declaração de amor e dor a São Paulo. E a faz com linguagem própria e qualidade artística inquestionável. A turma da praça Roosevelt mostra que, assim como conquistou seu lugar no teatro, veio com tudo para fincar os pés no cinema.

Hipóteses para o Amor e a Verdade
Avaliação: Muito Bom

Funcionário prejudica fim da sessão do filme na Mostra

Saiba como foi a estreia e veja quem apareceu!

gustavo ferreira Crítica: Filme Hipóteses para o Amor e a Verdade é declaração dos Satyros de amor e dor a São Paulo

Gustavo Ferreira, em cena de Hipóteses para o Amor e a Verdade - Foto: Divulgação


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Publicado em 17/10/2014 às 16h00

Funcionário da Mostra prejudica fim do filme Hipóteses para o Amor e Verdade, do Satyros

hipoteses1 Funcionário da Mostra prejudica fim do filme Hipóteses para o Amor e Verdade, do Satyros

Cena do filme Hipóteses sobre o Amor e a Verdade: longa do Satyros Cinema na Mostra - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A sessão de estreia do filme Hipóteses para o Amor a Verdade (leia a crítica), primeira produção de longa-metragem do Satyros Cinema, do grupo teatral Os Satyros, tinha tudo para ser uma noite de emoção fervilhante.  E foi.

O grupo que celebra 25 anos lotou a plateia da sala 4 do Espaço Itaú de Cinema da rua Augusta, em São Paulo, nesta quinta (16), para assistir ao longa dirigido por Rodolfo García Vázquez na Mostra Internacional de Cinema.

Com Cléo De Páris, Ivam Cabral, Nany People, Gustavo Ferreira, Robson Catalunha, Paulinho Faria, Luiza Gottschalk, Tiago Leal, Fábio Penna, Phedra D. Córdoba e Tadeu Ibarra, entre outros, o longa faz um poético retrato sobre a solidão dos moradores de São Paulo, expondo tanto a crueza da cidade quanto seus controversos habitantes.

Veja galeria de fotos de quem foi à estreia do filme dos Satyros

Som foi cortado e luzes se acenderam

Um fator, contudo, prejudicou o lançamento. Assim que a última cena foi ao ar e os créditos finais iriam começar, o funcionário da Mostra responsável pela exibição mandou cortar o som e acendeu a luz de serviço com a plateia ainda mergulhada na emoção da última cena.

Com ar impaciente, o funcionário avisou, diante da telona, com os créditos ainda subindo, que a equipe tinha horário para ir embora. Pouco passava das 23h. O metrô fecha à meia-noite.

Irritado com a intromissão na experiência estética da plateia com o fim do filme, o roteirista e ator Ivam Cabral pediu, "por favor, que se respeitasse o crédito final", que "as pessoas que trabalharam no filme estavam na plateia", que era um filme da cidade que "merecia essa atenção" da Mostra.

Mesmo assim, o funcionário não voltou com o som. Muito pelo contrário, saiu e entrou na sala 4 de forma impaciente, batendo a porta atrás de si, enquanto os nomes continuavam a subir na telona de forma melancólica e silenciosa.

Ao fim, Ivam Cabral compartilhou com a plateia seu desalento. Afirmou ser aquilo "um desrespeito com o cinema brasileiro". Rodolfo García Vázquez ainda respondeu a questões do público sobre a obra de forma rápida. Disse que o filme "tentou trazer elementos do teatro para o cinema". Mais calmo, Ivam Cabral ainda falou que ficou surpreso de ver que a peça Pessoas Perfeitas, que o grupo encena atualmente, é anunciada no filme de forma sutil e natural.

Pedido de desculpas

Presente na sessão, o R7 ficou espantado de ver algo assim justamente na Mostra Internacional de Cinema, que já em sua 38ª edição sempre se destacou por valorizar a produção cinematográfica nacional.

Procurada pela reportagem, a assessoria do evento informou a seguinte frase: "A Mostra pede desculpas pelo ocorrido e informa que já tomou as providências necessárias junto ao mediador do debate da noite".

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Público assiste ao filme Hipóteses para o Amor e a Verdade, do Satyros Cinema, na Mostra: créditos finais tiveram o som cortada e a luz acendeu "porque os funcionários tinham horário para irem embora" - Foto: Edson Degaki

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Perfil

Miguel Arcanjo Prado é editor de Cultura do R7, onde está desde o começo do portal, em 2009. É jornalista formado pela UFMG e pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP. É crítico membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Nasceu em Belo Horizonte e mora em São Paulo desde 2007, quando ingressou no Curso Abril de Jornalismo. Ainda em Minas, estreou como cronista do semanário O Pasquim 21, passando por TV UFMG e TV Globo Minas. Na capital paulista, foi repórter da Contigo!, da Ilustrada na Folha Online e do Agora São Paulo, no Grupo Folha. Edita e apresenta a Agenda Cultural da TV Record News.

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