Publicado em 07/06/2015 às 12h08

Crítica: Abraçaço ou por onde anda Caetano?

caetano legrosrouge1 Crítica: Abraçaço ou por onde anda Caetano?

Caetano e músicos da Banda Cê no palco de Abraçaço - Foto: Le Gros Rouge/Divulgação/Caetano Veloso

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A jovem argentina que se encantou com o batuque presente em algumas canções de Caetano Veloso do passado ficou estupefata com seu show Abraçaço, no Teatro Gran Rex, em Buenos Aires.

Ela mal podia compreender aquele rock duro, frio, mesclado com rap e funk carioca. Só na derradeira canção do bis, quando entoou Leãozinho, a jovem portenha abriu um sorriso no rosto. Mas este não lhe tirou uma pergunta da cabeça: por onde anda Caetano?

O jovem público intelectual da Choperia do Sesc Pompeia, em São Paulo, grande parte já conhecedor de seu mais recente disco, Abraçaço, talvez estivesse mais preparado para o minimalismo roqueiro do filho de Dona Canô.

Enquanto Caetano faz no palco a coreografia de Um Abraçaço com seus músicos, mostrando um atrevido dedo em riste a tudo que por aí está, quem ficou preso na nostalgia do Caetano Veloso dos anos 1970 torce para que apareça alguma coisa dos tempos de outrora.

Sabedor disso mesmo, o cantor dialoga com sua própria música de tempos anteriores, mas buscando aquelas canções que conseguem conversar com seu tempo presente, como é o caso de Triste Bahia, do álbum Transa, de 1972, gravado no exílio londrino.

Mas, o diálogo musical é feito com os olhos no presente, que parece ser a grande obsessão de Caetano.

Se na década de 1960 o músico soube romper com o tradicionalismo da MPB presa ao violão da bossa nova para abarcar também a guitarra elétrica e a sonoridade do rock que surgia para deglutir a música no mundo inteiro, nos anos posteriores Caetano soube dialogar intensamente com a seara musical ao seu redor, no tempo real em que tudo acontecia.

Assim, tivemos, ao longo dos tempos, um Caetano psicodélico, batuqueiro, sambista, roqueiro, latino e tantos outros que surgiram para conversar com seu presente.

E Abraçaço segue a mesma proposta tropicalista de ser o hoje. Em tempos nos quais a rádio mostra que boa parte do Brasil dá as costas para a própria riqueza rítmica que produziu — advinda, sobretudo, da forte presença negra no País —, Caetano reconstrói de maneira notável a simplória matiz sonora da contemporaneidade e descortina o Brasil presente em tom melancólico.

Acompanhado da metódica Banda Cê, formada pelo baterista Marcelo Callado, pelo baixista Ricardo Dias Gomes e pelo excelente guitarrista Pedro Sá, Caetano consegue recriar o som do disco ao vivo, em claro virtuosismo dos músicos. Sua voz é a mesma de sempre.

A precisão alcançada não apaga a malemolência do baiano no palco. Apesar de não haver percussão no show, é em sua ausência que o batuque se faz presente. Porque a Bahia Caetano traz consigo. Por mais que trilhe caminhos aparentemente opostos, é nela que Caetano sempre andará.

Caetano Veloso em Abraçaço
Avaliação: Muito Bom
Quando: 7/6/2015, domingo, 18h
Onde: Sesc Itaquera (av. Fernando do Espírito Santo Alves de Mattos, 1.000, Parque do Carmo, São Paulo, tel. 0/xx/11 2523-9200)
Quanto: Grátis
Classificação etária: Livre

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Publicado em 05/05/2015 às 03h03

Crítica: O Sal da Terra descortina homem atrás da lente

o sal da terra Crítica: O Sal da Terra descortina homem atrás da lente

Sabastião Salgado nas montanhas de Minas, sua terra natal: saga do fotógrafo de fama mundial é contada no filme O Sal da Terra - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Para muita gente, Sebastião Salgado é só o nome que assina as fotos em preto e branco que comovem o mundo inteiro.

O filme O Sal da Terra, dirigido pelo cineasta alemão Wim Wenders e pelo filho do fotógrafo, Juliano Sebastião Salgado, busca justamente desvendar quem é o homem atrás de cada clique.

E o longa, indicado ao Oscar de melhor documentário neste ano, faz isso muito bem. Ao reunir um dos mais importantes cineastas do cinema europeu ao próprio filho de Salgado, o filme consegue ser um documentário íntimo, que envolve e toca profundamente o espectador.

Parece inacreditável que o longa consiga ter a mesma poesia das fotos que transformaram Sebastião Salgado em um nome de respeito planetário. E o espectador tem a chance única de conhecer como as imagens foram feitas.

O longa mostra a busca incansável de Salgado por gente e, depois, por animais e paisagens, e, sempre presente, está seu amor incomensurável ao homem e à natureza.

O Sal da Terra termina com uma lição de inesquecível: a lição da própria vida de Sebastião Salgado, um homem que jamais se acomoda enquanto caminha, tentando encerrar seu ciclo de forma límpida e exemplar.


O Sal da Terra

Avaliação: Ótimo
otimo Crítica: O Sal da Terra descortina homem atrás da lente

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Publicado em 28/04/2015 às 03h03

Crítica: Amor à Primeira Briga escancara juventude sem rumo do século 21

les combattants Crítica: Amor à Primeira Briga escancara juventude sem rumo do século 21

Adèle Haenel e Kévin Azaïs em cena de Amor à Primeira Briga - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Houve um tempo (anos 1960 e 1970) que a juventude tinha rumos de sobra a seguir. Ideologia (e outras coisinhas mais) para embarcar não faltavam. Paz e amor eram apenas alguns dos slogans e formas de vida possíveis.

Já neste século 21, no qual o socialismo foi derrotado sem dó nem piedade por um capitalismo cada vez mais selvagem e dominador das entranhas sociais, o que acontece é justamente o contrário do que já houve um dia: a ideologia está morta e, ao contrário de Cazuza, os jovens nem parecem mais querer uma para viver.

Isto é evidenciado pelos personagens centrais do filme francês Amor à Primeira Briga. O título em português é infinitamente inferior (e mais apelativo comercialmente) do que o título original em francês, Les Combattants (Os Combatentes), muito mais inteligente e próximo da pegada do filme.

O enredo é o encontro de dois adolescentes, Arnaud (Kevin Hazaïs) e Madeleine (Adéle Haenel), que vivem meio que sem rumo em uma cidadezinha litorânea.

Enquanto ele ajuda seu irmão no negócio familiar e ela faz exercícios físicos em sua piscina, a coisa mais emocionante que pode acontecer a ambos é se alistar no exército francês.

Enquanto embarcam na aventura, é claro que algo a mais surge entre eles, durante os enfrentamentos costumeiros.

Mas o mais importante do filme nem é a historinha romântica bem construída pelo diretor Thomas Cailley, mas, sim, seu pano de fundo: uma Europa em crise, onde os jovens já não têm perspectiva de futuro. E isto pode tornar-se um perigo: mentes vazias podem ser facilmente cooptadas por qualquer ideologia que se apresente em sua frente.

Porque, por mais que aparentem ser largados no mundo, os jovens de hoje ainda precisam de uma ideologia para viver.

Amor à Primeira Briga
Avaliação: Bom

bom Crítica: Amor à Primeira Briga escancara juventude sem rumo do século 21

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Publicado em 27/04/2015 às 15h28

Crítica: Pássaro Branco na Nevasca desconstrói ideia de família perfeita do sonho americano

passaro branco na nevasca Crítica: Pássaro Branco na Nevasca desconstrói ideia de família perfeita do sonho americano

Mark Indelicato, Gabourey Sidibe e Shailene Woodley em Pássaro Branco da Nevasca - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Editor de Cultura do R7 

O mérito do filme Pássaro Branco na Nevasca é a desconstrução que ele faz desde seu primeiro ao último minuto do mito da família perfeita norte-americana, aquela do sonho americano.

O longa dirigido por Gregg Araki poderia ser mais um filme chato sobre uma adolescente em conflito com sua mãe. Mas é muito mais do que isso.

A protagonista é a atriz Shailene Woodley, na pele de Katrina, uma típica adolescente do interior, cuja mãe insatisfeita com o pai pamonha desaparece misteriosamente.

Eva Green vive a mãe quarentona, que vê sua beleza ir embora jantar após jantar que prepara para o marido, vindo do trabalho cotidianamente em sua tediosa vida. Ambas atrizes estão bem no longa e há faísca em seus embates. O longa vai muito bem em expor o conflito que muitas mães vivem com suas filhas, que representam a beleza e a juventude que tiveram um dia, e isto lhes causa ódio ferino. Freud explica.

O filme mostra que nem sempre a família dita perfeita é tão perfeita assim. E isso vale muito no Brasil atual, no qual políticos religiosos querem manipular as leis para enfiar goela abaixo do País o modelo familiar que julgam perfeito. Modelo este que o filme mostra muito bem: nem sempre é tão perfeito assim. Basta sacudir um pouco o tapete que a sujeira surge de forma implacável.  Ou seja, tudo só é tão certinho sempre sob a ótica da hipocrisia.

É mais honesto estar ao lado da felicidade caminhando com a diversidade e o respeito mútuo, o que deveria ser a base de uma democracia.

No time de coadjuvantes do longa quem se destaca é a eterna Preciosa Gabourey Sidibe. Faz a melhor amiga da protagonista, uma adolescente gordinha que, na falta de sexo e pretendentes, se aventura com a bebida sem culpa alguma. Suas aparições são sempre interessantíssimas e cheias de ironia.

Outro destaque é o fato de o filme ser ambientado na virada dos anos 1980 para 1990, o que lhe garante uma trilha sonora com enorme potencial para pegar de jeito o espectador com mais de 30 anos. As cenas das festas adolescentes são pura memória afetiva reavivada. E mostra que a música atual é horrorosa mesmo.

O filme vai num banho morno para tentar dar uma grande guinada em seu momento final (inspiração em Beleza Americana?). A surpresa se dá em parte. Mas não contemos nada, senão perde a graça. Pássaro Branco na Nevasca é um filme despretensioso que, em sua simplicidade, consegue desconstruir mais tabus do que muito filme panfletário por aí.

Pássaro Branco na Nevasca
Avaliação: Bom
bom Crítica: Pássaro Branco na Nevasca desconstrói ideia de família perfeita do sonho americano

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Publicado em 30/03/2015 às 15h47

Jorge Drexler dança e esbanja simpatia na despedida da turnê Bailar en la Cueva em Curitiba

IMG 2228 Jorge Drexler dança e esbanja simpatia na despedida da turnê Bailar en la Cueva em Curitiba

Pura simpatia: Jorge Drexler comemora primeira apresentação em Curitiba, show que encerrou turnê mundial de Bailar en la Cueva - Foto: Brener Pereira/Foto Zouk

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos BRENER PEREIRA/Foto Zouk

Não poderia haver dia melhor para o uruguaio Jorge Drexler fazer seu primeiro show em Curitiba: este domingo (29), aniversário de 322 anos da capital paranaense. “É um bom dia para se chegar”, definiu o cantor e compositor assim que subiu ao palco.

O show foi o primeiro e o último ao mesmo tempo. Expliquemos: ele encerrou no palco curitibano sua turnê mundial do disco Bailar en la Cueva.

A apresentação no Vanilla Music Hall repleto de um público que sabia de cor cada uma de suas canções foi recheada de emoção para Drexler, sua banda e sua equipe.

Ele explicou: “Hoje, nos despedimos da turnê, depois de um ano viajando pelo mundo com mais de 80 shows. Hoje, é o último dia, estamos muito emocionados”.

IMG 2381 Jorge Drexler dança e esbanja simpatia na despedida da turnê Bailar en la Cueva em Curitiba

Público curitibano sabia cantar de cor as músicas do uruguaio - Foto: Brener Pereira/Foto Zouk

A data tão especial resultou em uma coleção de improvisações no palco, com músicos fugindo do roteiro o tempo todo e Drexler brincando com a situação.

O show foi aberto com ele e sua banda dançando uma coreografia repleta de simplicidade e juventude. Confiante aos 50 anos, Drexler não tem mais medo de se entregar. Até rebolou de costas para a plateia, que o ovacionou. E o público dançou (muito) também.

O vencedor do Oscar de melhor canção original por Al Otro Lado Del Rio, em 2005, do filme Diários de Motocicleta, do brasileiro Walter Salles, mostrou ter forte carinho pelos fãs brasileiros, já demonstrado nos shows na semana passada no Teatro Bradesco de São Paulo e no Bar Opinião em Porto Alegre.

Fez questão de falar em português durante toda apresentação. O público retribuiu, mostrando desenvoltura em todas as letras em castelhano.

IMG 2328 Jorge Drexler dança e esbanja simpatia na despedida da turnê Bailar en la Cueva em Curitiba

Simpático, Drexler falou com o público curitibano em português - Foto: Brener Pereira/Foto Zouk

Drexler cantou antigos sucessos, como a própria música que levou o Oscar, feita só com sua voz e a do público, e também os novos hits do seu disco mais recente, Bailar em la Cueva, como a canção-título, que abriu o show, e Bolívia, mais ao fim, canção em homenagem ao país que deu asilo a sua família de judeus alemães fugidos do nazismo.

Leia entrevista exclusiva com Jorge Drexler

O artista fez questão de contar a história de algumas canções, como a vibrante La Luna de Rasquí, composta na pequena ilha homônima venezuelana, em uma noite que viu a lua lhe falar, sentindo que aquele lugar era uma espécie de isolamento de todo o sofrimento do mundo.

IMG 2248 Jorge Drexler dança e esbanja simpatia na despedida da turnê Bailar en la Cueva em Curitiba

Jorge Drexler transpõe para a música a poesia da realidade que o cerca - Foto: Brener Pereira/Foto Zouk

Drexler consegue transpor para as canções de forma poética a realidade contemporânea que o cerca. É um dos maiores artistas da música contemporânea, sensível, simples e cativante. Ele não tem maneirismos, se doa por completo, está presente, vive o que canta, e o público sabe disso muito bem.

Leia entrevista exclusiva com Jorge Drexler

Ao fim do show, generoso, Drexler convocou quem quisesse lhe acompanhar para uma canja pós-apresentação no restaurante curitibano Doce de Cidra. A festa seguiu por lá madrugada afora, com Drexler improvisando com seus músicos e até dançando forró com fãs privilegiadas.

IMG 2347 Jorge Drexler dança e esbanja simpatia na despedida da turnê Bailar en la Cueva em Curitiba

Ídolo acessível: após o show, Jorge Drexler convidou os fãs curitibanos para uma canja em um restaurante da cidade, onde até dançou forró - Foto: Brener Pereira/Foto Zouk

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

Leia entrevista exclusiva com Jorge Drexler  

Acompanhe em tempo real o R7 no Festival de Teatro de Curitiba 2015!

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Publicado em 19/01/2015 às 11h14

Crítica: Milton Nascimento luta e mostra ser imprescindível

milton nascimento Crítica: Milton Nascimento luta e mostra ser imprescindível

Milton Nascimento é guerreiro imprescindível na turnê Tarde - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A plateia do Teatro J. Safra parecia nervosa antes de começar o show Tarde, a nova turnê de Milton Nascimento, neste domingo (18).

Lá fora, um calorão de matar com sol de horário de verão que nunca se põe. Minutos antes das 19h, a campainha toca e todos entram, afobados.

Com os espectadores acomodados, os minutos passam e nada de Milton aparecer. Uma senhora cochicha com a amiga: “será que ele passou mal?”.

O público espera mais um pouco. Aos 20 minutos de atraso, começa a aplaudir, impaciente, querendo a presença do músico. Do palco, alguém espia debaixo da cortina.

Há uma certa apreensão no ar, até que, de repetente, as luzes se apagam e as cortinas se abrem. Surge Milton Nascimento.

Acompanhado dos irmãos Beto e Wilson Lopes com seus potentes violões sete cordas, Milton canta A Festa, que compôs para o disco de estreia de Maria Rita, filha de sua amiga Elis Regina. Milton está mais magro. Parece um pouco abatido, mas segura como pode. Num momento, se perde na letra. Os músicos lhe ajudam. Mas logo Milton recobra a confiança e sua voz retoma a potência.

De repente, como num passe de mágica, segue adiante, altivo. Canta seus grandes sucessos e até declama o texto do dramaturgo alemão Bertolt Brecht sobre os homens que lutam em espanhol, antes de cantar Sueño con Serpientes, que gravou ao lado da amiga argentina Mercedes Sosa no disco Sentinela, de 1980.

Toca sanfona e se lembra da infância em Três Pontas, no interior de Minas, quando acompanhava o canto de sua mãe. De repente, ele estabelece aquela simplicidade mineira cheia de sofisticação, como quando canta Cio da Terra, fazendo belo jogo vocal com seus violonistas. Uma senhora idosa na fila B do mezanino chora copiosamente.

Milton segue sua batalha com toda a dignidade do mundo e busca saúde ao lado de seu público. O cantor assustou seus fãs no último fim de ano, quando teve indisposição cardíaca e foi internado às pressas após o show. Passou por cateterismo e precisou cancelar sua agenda.

Pelo jeito, não quer saber de descanso. Precisa de seu canto, de seu público. Como canta na última música, Para Lennon e McCartney, finalizando o bis: “Não precisa medo, não. Não precisa da timidez. Todo dia é dia de viver”.

E, ao fazer questão de se levantar ao fim do show, mesmo confessando estar “com um problema na perna”, Milton exibe seu destemor e demonstra que é guerreiro que luta toda a vida. E que, por isso, é imprescindível. Tal qual preconizou Brecht.

milton nascimento chico buarque japanuha Crítica: Milton Nascimento luta e mostra ser imprescindível

Após internação, Milton Nascimento recebe em sua casa no Rio a visita de Chico Buarque, em dezembro último,: amizade de cinco décadas - Foto: Danilo Nuha

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Publicado em 15/11/2014 às 12h00

Átila Moreno: Filme sobre Tim Maia resgata essência musical e genialidade profana do artista

tim maia3 Átila Moreno: Filme sobre Tim Maia resgata essência musical e genialidade profana do artista

Tim Maia (1942-1998): o verdadeiro rei da música brasileira - Foto: Divulgação

Por ÁTILA MORENO
Especial para o R7*

Quando Nelson Motta escolheu o título do livro que conta a história do verdadeiro rei da música brasileira, achou a melhor definição possível: Vale Tudo – O som e a fúria de Tim Maia.

Agora, a obra serviu de inspiração para o filme Tim Maia. Mesmo com o título simplista, o filme captou bem o clima ao contar a uma história de extremos.

Tim Maia (1942-1998) foi intenso, problemático, politicamente incorreto, transgressor. Uma grande criança que não cabia dentro de si de tão amável e com um romantismo pesado. Um ser complexo demais pra um filme de quase duas horas e meia dar conta.

O diretor Mauro Lima (Meu Nome Não é Johnny) conseguiu contar a infância pobre na região da Tijuca, no Rio de Janeiro; a formação da banda The Sputniks junto com Roberto Carlos (George Sauma numa inconfundível caricatura) e as inúmeras tentativas de se inserir no cenário musical.

Estão ali também as disputas cinematográficas com os colegas; as brigas homéricas dignas de batalhas espartanas; a invejável aventura pelos EUA onde ele descobre a soul music; a conversão à seita Racional Superior (que trouxe um dos seus trabalhos mais magníficos em termos musicais); o abismo das drogas; as desilusões amorosas; a reconquista do sucesso até a sua morte. Ufa! Tudo isso mostrado de forma nua e crua, sem rodeios.

Mergulho na alma de Tim Maia

Apesar de a essência do livro ser bem captada, alguns personagens foram remontados para condensar bem o roteiro. Janaína (Alinne Moraes) é a representação das mulheres que passaram pela vida do artista.

Fábio (Cauã Reymond), músico que tocou com Tim Maia, e que no filme junta nuances de outras pessoas que conviveram com o cantor, é quem narra a história. Tal recurso se torna preguiçoso e enfadonho demais na trama.

Ainda bem que os diálogos salvam o resto, diante da ridícula poesia por trás do texto narrativo, que aliás destoa bastante da impecável produção (com destaque para fotografia, direção de arte e trilha sonora).

Vale ressaltar também as atuações Babu Santana (Tim Maia velho) e Robson Nunes (Tim Maia jovem). Claro que um ator para esse papel poderia beirar entre o ridículo amador e o retumbante profissional. O segundo ponto prevalece para os dois.

Robson insere a ingenuidade e a criança contidas no jovem Tim Maia. Babu agiganta o gênio e sua fúria em doses cavalares de convencimento e mergulho no personagem.

Infelizmente, grandes trechos do livro de Nelson Motta ficaram de fora ou não tiveram o devido cuidado na adaptação para o cinema.

Por exemplo, quando Tim Maia compõe Azul da Cor do Mar. É um dos momentos mais sublimes da obra, daqueles que você fecha o livro, chora e repensa a vida por longos minutos. No filme, ganhou meros segundos sem dramaticidade alguma.

Mas lá pelo final, o diretor traz uma surpresa de encher a alma, que expressa o clima captado por todo o filme e que mostra que Tim Maia está mil anos-luz de ser efêmero.
atila moreno 2 Átila Moreno: Filme sobre Tim Maia resgata essência musical e genialidade profana do artista

*ÁTILA MORENO é jornalista graduado pelo UNI-BH e tem pós-graduação em Produção e Crítica Cultural pela PUC-Minas. Colunista convidado, escreve no R7 Cultura todo terceiro sábado do mês. A opinião dos colunistas convidados não reflete, necessariamente, a opinião do R7.

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Publicado em 17/10/2014 às 17h38

Crítica: Filme Hipóteses para o Amor e a Verdade é declaração dos Satyros de amor e dor a São Paulo

filme Crítica: Filme Hipóteses para o Amor e a Verdade é declaração dos Satyros de amor e dor a São Paulo

Cena de Hipóteses para o Amor e a Verdade, com Cléo De Páris e Robson Catalunha, no alto de um prédio na praça Roosevelt: como sobreviver a São Paulo? - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Viver em São Paulo dói. E, quando pensávamos que já havíamos passado todos os martírios advindos da falta de amor, eis que a água some da torneira enquanto o calor aumenta em proporção inversa, fazendo com que a umidade seja devorada pela poluição. Viver em São Paulo é um ato heroico de brava resistência diária.

Conseguir manter afeto diante da crueza é tarefa inglória. E é esta cidade ímpar que é descortinada com poesia e sutileza pelo diretor Rodolfo García Vázquez, no filme Hipóteses para o Amor e Verdade, com roteiro de Ivam Cabral. O longa estreou nesta quinta (16) na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (veja quem foi e saiba como foi).

Cheio de referências, brinca com a mistura de teatro e cinema. E o faz muito bem. Apresenta seus personagens de forma inteligente, sem afobação. O filme tem um tempo dicotômico em relação ao tempo frenético da cidade. Talvez aí more seu grande mérito artístico: ao fazer esta quebra, desconstrói a urgência paulistana que só leva ao isolamento e à solidão.

Os personagens vagam pela cidade e olham diretamente na câmera para fazer confissões - como Woody Allen em seus melhores filmes. Contudo, em vez de sacadas bem-humoradas do nova-iorquino, há a dor exposta dos paulistanos.

O plano sequência na abertura apresenta um ambiente corporativo, medíocre como tantos nos quais os paulistanos estão mergulhados em busca da grana que ergue e destrói coisas belas. O plano é bem executado e lembra alguns filmes de Stanley Kubrick. A direção de fotografia de Laerte Késsimos e Luiz Adriano Daminello é segura e unificadora. Abusa da beleza da musa dos Satyros Cléo De Páris e transforma algumas cenas em pinturas lisérgicas.

Elenco coeso

O elenco está coeso, alguns com mais peso. Paulinho Faria e Luiza Gottschalk acertam na construção do casal "traficante e prostituta". Parecem saídos de uma peça de Plínio Marcos, que nada mais fez do que revelar a realidade do submundo paulistano, tanto quanto o Satyros e seu filme fazem.

No escritório opressor, Tadeu Ibarra conquista a plateia com uma construção minimalista e de refinado humor do colega de trabalho burocrático, que pouco escuta o outro, imerso em suas metas próprias. Gustavo Ferreira, por sua vez, acerta ao desenhar seu personagem com traço leve: um jovem que não suporta mais a cidade e sonha com férias idealizadas em qualquer lugar onde haja calma, paz e afeto. Onde não haja o desprezo diário que vive com os colegas e do chefe petulante criado por Ricardo Pettine.

Phedra D. Córdoba, sem palavras alguma, rouba a cena a cada aparição, sempre ao lado de uma misteriosa Esther Antunes. É intensa e empresta peso de vida à velha mãe abandonada pelos filhos, a quem só a morte espera.

Pietà

Na pele dos filhos, Tiago Leal e Ivam Cabral fazem personagens que lidam com a distância de si próprios. Tiago é bom ator. Gaúcho, convence como um típico paulistano nato, com seu personagem que, para ser bem sucedido no mundo diurno, precisa dos bastidores noturnos. A forte cena na qual ele encontra Nany People, uma radialista transex da cidade, e esta lhe acolhe em seus braços tal qual uma Pietà, diz tudo e causa impacto. Nany, por sua vez, está bem também, em uma construção mais contida do que a Nany que estamos acostumados a ver na TV e, por isso, com muito mais peso dramático.

E o grande drama da história fica no embate entre o personagem de Ivam Cabral, o outro irmão que é um diretor de teatro atormentado por um erro no passado, e a de Cléo De Páris, que guarda um rancor profundo dele e busca consolo momentâneo no vício. Os personagens de ambos vagam pela cidade, como todos os outros, anestesiados, tristes e já sem esperança — estado cristalizado pelo jovem deprimido interpretado convincentemente por Robson Catalunha. O filme ainda tem Fábio Penna, como um ator que precisa expor sua vida em uma obra de teatro, como tantos que habitam a metrópole.

Em Hipóteses para o Amor e a Verdade, os Satyros conseguem transformar seu teatro, universalmente tão paulistano e tecnológico, em um filme que é uma declaração de amor e dor a São Paulo. E a faz com linguagem própria e qualidade artística inquestionável. A turma da praça Roosevelt mostra que, assim como conquistou seu lugar no teatro, veio com tudo para fincar os pés no cinema.

Hipóteses para o Amor e a Verdade
Avaliação: Muito Bom

Funcionário prejudica fim da sessão do filme na Mostra

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gustavo ferreira Crítica: Filme Hipóteses para o Amor e a Verdade é declaração dos Satyros de amor e dor a São Paulo

Gustavo Ferreira, em cena de Hipóteses para o Amor e a Verdade - Foto: Divulgação


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Publicado em 01/10/2014 às 16h30

Crítica: Corajosa e inteligente, série Plano Alto leva clamor das ruas para a televisão

 

plano alto michel angelo Crítica: Corajosa e inteligente, série Plano Alto leva clamor das ruas para a televisão

Enfrentamento nas ruas: Plano Alto mostra os protestos que movimentaram o Brasil - Foto: Michel Ângelo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Os palácios onde habitam os governantes parecem distantes dos interesses reais do povo. Não foi à toa que, em junho de 2013, o Brasil viu uma multidão invadir as ruas do País de forma inesperada, cansada diante de tanta retórica e pouca ação.

A comoção popular chegou rapidamente à arte. No teatro, Zé Celso, diretor do Teat(r)o Oficina, foi um dos pioneiros em integrar o grito das manifestações às novas peças da série Cacilda, misturando 1968 aos tempos atuais. O grupo teatral Os Satyros fez o mesmo, ao levar os protestos para a peça Édipo na Praça. Mas o teatro não está mais sozinho.

A nova série da Record, Plano Alto, escrita por Marcílio Moraes e dirigida por Ivan Zettel, com Leonardo Miranda e Nádia Bambirra, estreou nesta terça (30) com coragem e inteligência para se enfileirar no combate. E com uma vantagem em relação ao teatro: conta com o poder televisivo de alcance para seu discurso.

Mesmo partido do pressuposto de uma obra de ficção, Moraes expõe com verdade o submundo político nacional, repleto de sanguessugas que assolam a Nação. O Congresso Nacional, ao fundo, na janela do cenário onde algumas das tramoias são armadas em Brasília, é um claro recado.

Com uma dramaturgia engajada e cenas impecáveis tecnicamente, a série ainda mostra seu zelo ao contar com uma trilha sonora de peso, que recupera Geraldo Vandré em nova roupagem e ainda dá fôlego novo a Gonzaguinha ecoando sobre imagens de um Rio tão sofrido.

Plano Alto discute o País e vem para fazer companhia a produtos históricos da teledramaturgia nacional, como a novela Vale Tudo ou à minissérie Anos Rebeldes.

É salutar a estreia de Plano Alto na mesma semana em que o País viu boquiaberto um candidato ao posto de Presidente da República expor seu desprezo e ódio por uma minoria, contrariando a ética do próprio cargo que deseja ocupar.

É preciso valorizar a democracia de fato, o respeito ao povo, à diversidade, ao ser humano. E expurgar os conchavos que dão espaço a gente que só quer encher o bolso de dinheiro dos cofres públicos para proferir sandices, iludindo alguns com discurso, enquanto aproveitam para roubar mais.

Um país que criminaliza professores em greve ou mesmo sem tetos que buscam moradias dignas em prédios abandonados precisa mesmo ser sacudido, ser discutido. E Plano Alto faz isso sem temor. Os políticos não podem mais permanecer, tal qual diz o nome da série, neste plano onipotente e distante da população. É preciso obrigá-los a colocar outra vez os pés no chão.

plano alto daniela galli michel angelo Crítica: Corajosa e inteligente, série Plano Alto leva clamor das ruas para a televisão

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Miguel Arcanjo Prado é editor de Cultura do R7, onde está desde o começo do portal, em 2009. É jornalista formado pela UFMG e pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP. É crítico membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Nasceu em Belo Horizonte e mora em São Paulo desde 2007, quando ingressou no Curso Abril de Jornalismo. Ainda em Minas, estreou como cronista do semanário O Pasquim 21, passando por TV UFMG e TV Globo Minas. Na capital paulista, foi repórter da Contigo!, da Ilustrada na Folha Online e do Agora São Paulo, no Grupo Folha. Edita e apresenta a Agenda Cultural da TV Record News.

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