Publicado em 12/10/2014 às 03h08

Tellé Cardim: Conheci Dilma na prisão

ditadura militar Tellé Cardim: Conheci Dilma na prisão

"Nos tempos de ditadura, a gente ficava com medo, mas olhava para o céu; hoje, as pessoas olham para o celular", Tellé Cardim - Foto: Divulgação

Por TELLÉ CARDIM
Especial para o R7*

A virada dos anos 1960 e 1970 foi a época em que a ditadura começou a ficar mais dura, sobretudo depois do AI-5 [ato institucional do governo militar que  cassou direitos civis e políticos dos brasileiros] tirou a liberdade política, em dezembro de 1968.

As coisas recrudesceram. Tudo tomou um volume tão grande que, se você olhasse diferente, alguém te entregava. A gente ficava com medo.

Mas, quando você quer ter esperança, você olha para cima, é um gesto emblemático. E, naquele tempo, a gente olhava pro céu. A gente tinha esperança de que o país seria melhor nos próximos dias. E os próximos dias demoraram 21 anos para chegar. Hoje, as pessoas, em vez de olhar para o céu, olham para o celular.

Apesar de não ter sofrido na carne, porque não fui presa, conheci de perto o horror. Tive amigos presos e torturados, como a jornalista Rose Nogueira. Quando ia visitar a Rose, no Presídio Tiradentes, aqui em São Paulo, a Dilma Rousseff também estava lá. Lembro-me dela fazendo crochê. Quando se está preso, é uma coisa que a pessoa se apega, porque distrai a mente e você relaxa um pouco.

Imagina como era difícil ficar no quarto escuro sem saber quando a luz seria acesa? No mesmo presídio que a Rose e a Dilma, estavam o Frei Betto, o Frei Tito, a Dulce Maia.

Na época, eu tinha um programa na Rádio Tupi. E era nesse programa que eu passava os recados para eles. Eu falava: "na rua tal, teve uma festa, e no final da festa a porta fechou". Eu inventava alguma coisa muito subliminar para eles entenderem que algum aparelho tinha caído. Eles ouviam na cadeia.

E quando eu ia visitar, me passavam algumas informações que eu tentava repassar para o pessoal que estava na clandestinidade, através do meu programa. Como meu programa era variado entre música e notícia, tinha também entrevistas ao vivo, quem podia imaginar que em algum momento, o programa era um verdadeiro pombo correio?

As pessoas não imaginam como foi difícil a luta pela volta da democracia, pela liberdade. Chamo atenção: cuidado, estamos na iminência de perder nossa liberdade que conquistamos a duras penas. A ilusão da falsa renovação tomou conta de parte da opinião pública.

Naqueles tempos de ditadura, mesmo em uma época tão difícil, a gente tinha muita inspiração. O pessoal era muito criativo para driblar a polícia repressiva. A Dilma sobreviveu a tudo isso e chegou à Presidência. A Dilma é uma guerreira.

A direita é sempre reacionária. E estamos vendo a direita reacionária voltar ao poder. São esses caras aí que picharam a Copa, mas foram lá ver o jogo com ingresso de cortesia. É uma elite perversa, como o Darcy Ribeiro falava. Ele tinha razão.

O que eu quero, e muita gente quer também, é um país melhor.  Triste é perceber que muita gente por aí não está nem aí com o País.  Mesmo assim, jamais vou deixar de lutar por aquilo que acredito. Sempre serei rebelde.
telle cardim foto julia chequer r7 cultura Tellé Cardim: Conheci Dilma na prisão

*TELLÉ CARDIM é jornalista. Colunista convidada, escreve no R7 Cultura todo segundo domingo do mês. A opinião dos colunistas convidados não reflete a opinião do R7.

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Perfil

Miguel Arcanjo Prado é editor de Cultura do R7, onde está desde o começo do portal, em 2009. É jornalista formado pela UFMG e pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP. É crítico membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Nasceu em Belo Horizonte e mora em São Paulo desde 2007, quando ingressou no Curso Abril de Jornalismo. Ainda em Minas, estreou como cronista do semanário O Pasquim 21, passando por TV UFMG e TV Globo Minas. Na capital paulista, foi repórter da Contigo!, da Ilustrada na Folha Online e do Agora São Paulo, no Grupo Folha. Edita e apresenta a Agenda Cultural da TV Record News.

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