Publicado em 05/10/2014 às 03h08

Maíra Moraes: Ocupante desalojado agora é bandido?

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Ocupantes de prédio abandonado se desesperam diante da polícia no centro de São Paulo - Foto: Fernando Zamora/Futura Press/Estadão Conteúdo

Por MAÍRA MORAES*
Especial para o R7

As ocupações de prédios no centro velho de São Paulo por parte de movimentos sociais de moradia tem sido um assunto polêmico tanto na mídia como no cotidiano.

A recente reintegração de posse do Hotel Aquarius da avenida São João, em São Paulo, expôs três problemas da sociedade brasileira: a criminalização dos movimentos sociais, a utilização da violência como única forma de diálogo com os movimentos e o uso da mídia para justificar esses atos.

Muitos veículos noticiosos apresentaram a reintegração de posse como uma manifestação do Estado de Direito e a legitimação da propriedade privada. E uma parcela considerável da população compartilha essa ideologia das chamadas “elites dirigentes”, ainda que não pertençam a ela.

Uma possível explicação para essa “cegueira social” é a estrutura social brasileira. Colonização e a longa duração do modo de produção escravista ocasionaram a exclusão social de negros e indígenas. Mesmo após a desarticulação da escravidão, a classe trabalhadora brasileira não conseguiu conquistar a cidadania.

Direitos mínimos sempre foram negados à maioria dos brasileiros, que sofrem com pobreza, desemprego, falta de acesso à educação, saúde e as estruturas mínimas de vida.  Esse discurso conservador partilhado por diversos extratos da população é resultado da percepção defeituosa de Estado de Direito.

Pois como podemos reivindicar algo que não conhecemos?

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Tiro e bomba: PM enfrenta ocupantes de prédio em SP - Foto: Mario Ângelo/SigmaPress/Estadão Conteúdo

Violência do Estado 

O Estado brasileiro sempre teve uma postura negativa em relação aos movimentos sociais. Em nossa história, há um grande número de repressões violentas, como a Guerra de Canudos.

Ainda que a maioria dos “inimigos da pátria” sejam famílias, o simples questionamento da ordem existente é o bastante para uma resposta violenta. A tática da imposição do poder pelo monopólio da violência por parte do Estado é antiga e quase uma tradição brasileira.

O desconhecimento dos próprios direitos constitucionais, a percepção de que a lei se faz na força policial e a cobertura jornalística são os ingredientes para a formação do senso comum.

Padarias, restaurantes, ônibus partilhavam o ódio aos integrantes da FLM – Frente de Luta pela Moradia, movimento social responsável pela ocupação no centro paulistano.

As imagens veiculadas mostraram mulheres, crianças e idosos sendo expulsos à força debaixo de bombas de efeito moral. Parte do discurso jornalístico os chamava de vândalos e baderneiros. Mas, implicitamente, a mensagem era simples: a propriedade privada é inalienável.

Ou compram comida, ou pagam aluguel 

Poucos se interessarão em saber, e também não será divulgado, que a maioria desses prédios do centro possuem dívidas astronômicas com a União. São anos de IPTU, contas de luz e água atrasadas. Soma-se a isso, o abandono da edificação, que traz risco de saúde às imediações.

Também não será capa de nenhum jornal que a maioria dessas famílias são trabalhadores, que devido à alta dos aluguéis e ao rechaço dos salários, se viram impedidos de conseguir uma moradia. Ou compram comida ou pagam aluguel.

Exclusão social se mantém 

Crescimento econômico não traz cidadania. Essa afirmação é verídica, pois mesmo com os programas sociais e o aumento do crédito, as velhas estruturas de exclusão se mantém. Afinal, se os direitos dos cidadãos estivessem sendo respeitados por que se arriscar no enfrentamento com a polícia? Ou mesmo ocupar um prédio sem condições mínimas de moradia?

O motivo de formação de um movimento social é único: quando os direitos de uma parcela da população não são respeitados, eles se levantam.  A estranheza neste caso é a reação de uma parte da chamada da “classe média”, que é na verdade a classe trabalhadora brasileira. Que reage de maneira quase patológica a qualquer manifestação coletiva, ainda que legítima. E vibra com a repressão policial, mesmo que os algozes estejam combatendo pessoas que poderiam ser de suas famílias.

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Fumaça mancha o céu do centro de SP após enfrentamento entre policiais e ocupantes de prédio antes abandonado - Foto: Eduardo Hernandes/Futura Press/Estadão Conteúdo

Inimigo debocha de nossa ignorância 

Se existe discordância do modus operandi dos movimentos, ao menos humanidade e solidariedade com as crianças e idosos seria o básico. Mas São Paulo nos surpreende até nisso, na sua enorme capacidade de admirar a violência.

Em tempo, vale lembrar que, pela Constituição, no artigo 6º "[...] são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados".

Ou seja, a FLM reivindica apenas o direito constitucional. Pobres de nós, que lutamos contra nós mesmos, enquanto o inimigo debocha de nossa ignorância.

maira moraes Maíra Moraes: Ocupante desalojado agora é bandido?

*MAÍRA MORAES é historiadora formada pela USP (Universidade de São Paulo), na qual também é pós-graduada em Mídia, Informação e Cultura. Colunista convidada, escreve no R7 Cultura todo primeiro domingo do mês. A opinião dos colunistas convidados não reflete, necessariamente, a opinião do R7.

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Publicado em 27/09/2014 às 15h10

Juliana Perdigão na Babilônia chamada São Paulo

juliana perdigao Juliana Perdigão na Babilônia chamada São Paulo

Juliana Perdigão, uma mineira na Babilônia chamada SP - Foto: Aline Xavier

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Dizem que Belo Horizonte é um ovo. Acho que dizem o mesmo de muitas cidades por aí. Fato é que durante os 25 anos que lá morei acabei nunca cruzando com ela. Mas, também é verdade, temos amigos em comum e seu nome sempre esteve por perto. Assim, fui admirando de longe a cantora e instrumentista potente que ela sempre foi.

Agora, Juliana Perdigão está mais perto. Resolveu também se mudar para São Paulo, onde já é amiga de um monte de gente e manda ver nas peças musicais do Teat(r)o Oficina. Sobre a cidade, já tem posição a declarar: "Eu me sinto bem, adoro essa Babilônia. São Paulo é demais".

Só fomos formalmente apresentados neste mês, no último Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, no qual comandou as frenéticas pistas noturnas na comedoria do Sesc Santos com seus amigos do Oficina.

De volta à metrópole, faz show neste sábado (27), às 21h, na Casa do Mancha, ali na rua Felipe de Alcaçova, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. O ingresso do jeito que a gente gosta, bem barato: R$ 20. Pra todo mundo ir.

Sobe ao palco acompanhada dos "queridos" Chicão no piano, Moita na guitarra, João Antunes no baixo e Pedro Gongom na bateria. Além de tocar clarineta e flauta, ela também vai cantar músicas de Luiz Gonzaga, Tião Duá, Milton Nascimento, Makely Ka e Jards Macalé, entre outros compositores que fazem sua cabeça.

Não é à toa que diz que sua música tem "multifaces, múltiplas influências, reflexo do nosso tempo". Mantém olho no presente, passado e futuro. "Gosto de cantar e tocar músicas de agora, muitas de compositores os quais admiro e tenho afinidade. E lançar outro olhar sobre canções já conhecidas", explica, com todo o carinho do mundo.

Ainda estão no repertório Moondog, Negro Leo, Kiko Dinucci, Kristoff Silva, Nuno Ramos, Renato Negrão e Pablo Castro. E qual é a melhor e a pior parte de se fazer música brasileira de qualidade nos dias de hoje? Ela responde na lata: "Acho que não tem pior parte, poder fazer música já é um grande presente".

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Perfil

Miguel Arcanjo Prado é editor de Cultura do R7, onde está desde o começo do portal, em 2009. É jornalista formado pela UFMG e pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP. É crítico membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Nasceu em Belo Horizonte e mora em São Paulo desde 2007, quando ingressou no Curso Abril de Jornalismo. Ainda em Minas, estreou como cronista do semanário O Pasquim 21, passando por TV UFMG e TV Globo Minas. Na capital paulista, foi repórter da Contigo!, da Ilustrada na Folha Online e do Agora São Paulo, no Grupo Folha. Edita e apresenta a Agenda Cultural da TV Record News.

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