Publicado em 28/09/2014 às 10h00

Daniel Martins: Qual o problema de Sexo e as Negas?

 

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Cena da polêmica série Sexo e as Negas: os atores Maria Bia, como a empregada negra, e Flávio Tolezani, como o patrão branco - Foto: João Miguel Júnior

Por DANIEL MARTINS*
Especial para o R7


Há alguns dias, deparei-me com uma chamada na TV. Quatro mulheres negras são rapidamente apresentadas, tendo uma ou outra característica ressaltada. Cheguei a pensar que se tratava de algo no estilo da série Antônia. 

E, em letras brilhantes realçadas por um fundo rosa, surgiu o título:
 Sexo e as Negas. Não levou um segundo para que me viesse a cabeça toda uma história de violência praticada contra as mulheres negras em nosso país. Considerei um título infeliz.

Nos dias que se sucederam, encontrei pela internet toda uma discussão em torno do seriado. Vozes contra e a favor, discussões interessantes ou simples trocas de ofensas. Notícias de representações contra a série e justificativas dadas por Miguel Falabella, seu autor. E o programa ainda nem havia estreado!
 

Era preciso deixar de lado a sensação de “não vi e não gostei” para se ter uma noção mais concreta sobre do que se tratava o programa. E
 considerando tudo o que vi na série, e o que li por aí, chego a uma conclusão: Sexo e as Negas sofre de um problema de inadequação do conteúdo à sua forma.

 

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"Seria um bom começo termos uma narrativa feminina" - Foto: Estevam Avellar

Um homem como narrador?

A série tem como base a produção americana
 Sex and the City. Apresenta o cotidiano de quatro mulheres ressaltando suas experiências sexuais e afetivas em meio ao dinamismo da cidade grande. 

E nisso reside o primeiro problema de forma e conteúdo. Se a série apresenta mulheres como pretensas protagonistas, por que o narrador é um homem? Qual o lugar de fala da mulher negra na série?
 

Na produção americana, a narração fica a cargo da personagem de Sarah Jessica Parker. Na brasileira, a voz que surge é a de Falabella. Pode parecer pouco, mas se a série se propõe a conceder protagonismo à mulher, seria um bom começo termos uma narrativa feminina.


Negras com profissões de sempre

Pensando ainda nas quatro protagonistas, temos mulheres negras que tem como ocupações as profissões, digamos, de sempre, quando o assunto é TV. Será que não existe na localidade onde se passa a trama uma mulher negra estudante universitária, comerciante, advogada?
 

É sensacional termos quatro mulheres negras como protagonistas de uma série. Sabe-se como são limitados os papéis concedidos aos negros em nossa dramaturgia. Ruth de Souza, a primeira atriz negra a subir ao palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, certa vez comentou sobre a limitação dos papéis para atores negros e sobre como a mulher negra, invariavelmente, era apresentada como uma personagem sexy e em ocupações subalternas.
 

É o que vemos novamente em
 Sexo e as Negas. Que tal mostrarmos a pluralidade de mulheres negras que existem em nossa sociedade? Variar as perspectivas justamente pra não estabelecer e reforçar estereótipos na representação da mulher negra.

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Cena de racismo de Sexo e as Negas: problemática não é discutida - Foto: Estevam Avellar

Racismo não é discutido

Quando você tem uma série brasileira com quatro protagonistas negras, é de se esperar que o racismo apareça em algum momento da trama. E de fato o autor não o ignora em seu texto. Mas os momentos em que se manifesta mais abertamente não são aprofundados. Não são discutidos.


Em certa medida, o racimo parece ser naturalizado, como na cena da pulseira — a atriz branca diz à camareira negra que ela pode usar sua pulseira valiosa, porque no braço da serviçal ninguém vai pensar que é uma peça verdadeira —, no primeiro episódio.
 

Perde-se uma grande oportunidade de escancarar o preconceito que insiste e persiste, mas que se torna objeto de discussão apenas em momentos específicos, como no recente caso do goleiro Aranha.


Perspectiva masculina

Temos ainda a questão do empoderamento da mulher. É muito bom ver na televisão aberta, personagens femininos que se apresentam como cientes da própria sexualidade, de seus desejos, donas de seus corpos. Que deixam claro que a busca pelo prazer feminino não pode mais ser encarada como tabu.
 

Mas, novamente, temos sobre esse empoderamento a mão do homem. E não é difícil perceber, por exemplo, pelos ângulos de câmera escolhidos para retratar as cenas de sexo que se trata de uma perspectiva masculina. Basta reparar em como o corpo da mulher é o elemento central das cenas.


Falar é fácil

Após dois episódios a sensação que fica é a de que
 Sexo e as Negas poderia ser muito mais do que é. Poderia aproveitar seu espaço para colocar em pauta questões relevantes, sem se descuidar do humor, seu ingrediente principal. 

Não se trata de criar um panfleto televisivo, mas de dar atenção as dezenas, centenas, ou quem sabe milhares de mulheres negras que foram até a internet expressar de maneira indignada sua opinião sobre a série.
 

É muito cômodo falar sobre tudo isto da minha posição. Eu, homem branco, assim como Falabella. Entretanto entendo que em situações como esta, é fundamental ouvir a voz daquelas que se sentiram ofendidas e mesmo violentadas, pois só elas sabem a dor que sentem ao viverem determinada situação.

Não se trata de patrulha do politicamente correto, mas de reconhecer as mulheres negras como dignas de respeito e de consideração, inclusive pela forma como querem ser vistas.

daniel martins r7 cultura Daniel Martins: Qual o problema de Sexo e as Negas?
*DANIEL MARTINS é bacharel em Ciências Sociais e mestre em Sociologia pela UFMG. É doutorando em Sociologia pela Unicamp, onde dedica-se ao estudo da Sociologia da Cultura. Colunista convidado, escreve no R7 Cultura todo quarto domingo do mês. A opinião dos colunistas convidados não reflete, necessariamente, a opinião do R7.

sexo1 Daniel Martins: Qual o problema de Sexo e as Negas?

O elenco de protagonistas de Sexo e as Negas, Lilian Valeska, Karin Hils, Maria Bia e Corina Sabbas, com a diretora, Cininha de Paula, e o autor, Miguel Falabella, ao centro - Foto: Alex Carvalho

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Perfil

Miguel Arcanjo Prado é editor de Cultura do R7, onde está desde o começo do portal, em 2009. É jornalista formado pela UFMG e pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP. É crítico membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Nasceu em Belo Horizonte e mora em São Paulo desde 2007, quando ingressou no Curso Abril de Jornalismo. Ainda em Minas, estreou como cronista do semanário O Pasquim 21, passando por TV UFMG e TV Globo Minas. Na capital paulista, foi repórter da Contigo!, da Ilustrada na Folha Online e do Agora São Paulo, no Grupo Folha. Edita e apresenta a Agenda Cultural da TV Record News.

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