Três coisas que aprendi aos 30 anos

Demorou, mas aos 30 anos eu finalmente aprendi algumas lições.
Ou melhor, acho que aprendi. E acho que são lições.

Sei lá, deixo aqui minha lista ticada, para inspirar você que ainda está nos 20.
Ou para fazer rir você que já passou dos 40 — e vai dizer que não tem nada disso, não.

Lápis e papel na mão?

Vamos lá!

 

Não sou obrigada a nada

Amo a moda dessa frase. Foi exatamente por repetí-la até cansar, junto com uns ‘miga, sua loka’, que parei para pensar no sentido que ela faz.

Velho, a gente reclama de tanta coisa, que tanta coisa não funciona, que a gente tem que fazer não-sei-quê-lá e que nossa vida está medíocre porque precisamos cumprir esse e aquele compromisso, que a gente não aguenta mais e que somos prisioneiros de uma rotina que…

Badabim da vida, vem uma gíria bobona e te esfrega o óbvio na cara: não temos que nada. Não somos obrigados a nada. Nem eu sou, nem você, que está me lendo da sua caminha gostosa.

Salvo situações muito extremas e horríveis (que não deve ser o caso de quem está aí do outro lado da tela), o que a gente faz é sempre opção.

A gente elege objetivos lindos, mas esses nos pedem determinados caminhos. Essas estradas rumo à felicidade podem ser bem chatinhas, é fato, mas seguí-las é a nossa escolha. Provavelmente porque elas valem a pena de alguma forma.

E quando a gente pensa assim, até sai um peso das costas. Porque, se for refletir bem fundo, dá para abrir mão de qualquer coisa que esteja fazendo a gente aborrecido. Com consequências, com pesos, com cuidados, pode até ser, mas que dá, dá.

E aí que pensando mais, medindo os contras todos… Pode ser que você descubra que não precisa sorrir para quem não te faz feliz. Ou que você não tem que atender aquela pessoa chata. Ou que você não tem que fingir ser quem não é. Ou que.

Tudo é escolha.

Optou por levantar cedo na segunda? Aguentar chefe difícil e reunião tortuosa? Fera, essa foi a sua opção. O foco é ter sempre claro o que você ganha com isso e o quanto essa atitude vale a pena.

Viu como é bom ser dono do próprio destino?


Tem que encher a vida de coisinhas

Lição mais preciosa dos últimos tempos: nada de obsessão, carinha.

Eu sempre tive a mania de amar uma coisa só e focar nela, não olhar para o lado.

Era gostar do trabalho e só trabalhar para sempre sem mais. Era gostar de escrever e só triturar os sentimentos em letrinhas para sempre. Era gostar de ser mãe e largar tudo para cozinhar e levar a filha na escola. Não rolava um meio-termo.

Aí o que acontecia: no dia em que esse amor-eterno não rolava legal, eu queria me jogar da ponte, minha vida perdia o sentido e etc.

Não pode, não. O mundo é muito grande e no nosso dia cabe muito. Não tem obsessão que preencha plenamente o nosso peito!

Decidi abraçar todos os meus amores ao mesmo tempo e agora: a dança, os amigos, a casa, a maquiagem, a escrita, o trabalho, a filhota, os treinos, as cervejinhas, o cinema, o teatro, a leitura, o marido… Com toda uma disciplina para não deixar nada nem ninguém de fora.

E sem culpa de largar um para curtir o outro.

Porque no fim, nós temos tão pouco tempo, né? Que a gente tem mais é que viver de uma vez.

E quando uma atividade não sai como o planejado, o dia não acaba. Tem mais um montão de amores para dar certo e salvar as próximas horas.

Tente você também. Tá me fazendo um bem…


A gente sente o que sente, mas só continua sentindo o que quer…

Tem uma frase atribuída a Shakespeare que eu amo: algo como “não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito disso”.

E eu poderia acabar aqui porque é exatamente isso.

Em miúdos, não dou mais audiência para o que vai me fazer mal. Não quero dar. E você também não precisa.

Doeu? Doeu, ai, ui, beijo que eu preciso encher minha cabeça com as outras coisas todas que existem na vida. Ou ceder espaço para elas, como queira.

 

Quem vê de longe pode dizer que o segundo item da minha listinha de aprendizados, as coisinhas, me deixou bem mais interessante.

Olha, de verdade, não sei se é para tanto. Mas que eu ganhei um kit de primeiros socorros (e de sobrevivência) daqueles, pronto para me salvar nesse terceiro item, não dá para negar, não.

Chega de chororô interminável, ruminar pensamento triste, chega. Tem sempre algo mais legal para fazer.

 

A minha meta é ser completa.
A sorte é que eu tenho o mundo inteiro para me ajudar com isso.

 

E você? O que já aprendeu com o tempo?

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A verdade sobre o escritor

Ser escritor é um saco.

Desculpe aí o desabafo, falar assim desse jeito, sem mais.

É que eu preciso falar a verdade.

Sabe quando a tia de redação diz que você leva o maior jeito para a escrita?

Você que está lendo esse blog do auge do Ensino Médio, sem saber se vai seguir o conselho da professora… cê vai lembrar bem desse momento, já que tá com tudo fresquinho na mente.

Sabe quando a tia disse que você tinha que escrever um diário, manter constante uma produção mais visceral porque você tem talento e tals?

Pois é, tem uma parte disso aí que ela não te contou - e é bom que você saiba antes de seguir ou não esse caminho:

Em geral, uma produção mais visceral costuma exigir bastante das vísceras de alguém. No caso, do escritor em questão.

E aí, cara, na adolescência, entre uma e outra prova de matemática, dá super para se espremer e gerar texto o tempo todo. Mesmo. A explosão dos hormônios, a intensidade das convivências, os primeiros romances já esmagam tanto a gente, que fazer escorrer texto é quase que natural, uma consequência.

Tem tanta emoção em jogo, que a matéria-prima tá entregue. O único trabalho é organizar as ideias e deixar os dedinhos baterem nas teclas.

E pensando bem, quanto menos organizar as ideias melhor. Mais textura ganha o papel.

Difícil mesmo é, na vida adulta, cara. Sério, sem mimimi de quem sofre mais. Eu também não tô competindo.

O truque de crescer é basicamente escolher o que sentir. A gente escolhe o que ama, o que não dói, o que alimenta, o que é frescura. Escolhe, se convence e segue o jogo. Com a prática e o tempo, precisa nem racionalizar muito para escolher o que é a nossa verdade. Entra tudo na rotina.

É bem bom, não vou mentir, não.

E também é bem triste, porque se não for assim, não funciona. Como é que a gente ganha dinheiro, alimenta ‘as criança’ em casa, ignora o babaca da repartição, decora a lista de compras, é inovador na reunião e se esmigalha por amor ao mesmo tempo, né? Não dá, o cérebro explode.

E aí vem a hora de escrever aquele texto. Só que ele não sai porque, né? Se você foi um ciborgue nos últimos dias, como é que transforma o coração de plástico em poesia romântica? Não transforma, nem adianta.

Então você deixa as emoções explodirem todas, te inundarem por completo, só pra ver o que acontece.

E o que acontece?

Nada. Acontece que você escreve como um louco, mas não faz mais nada de nada. Não paga as contas, esquece aquela transferência que precisa fazer, confunde a tabela de Excel, perde a hora do trabalho, não leva o gato no veterinário, manda o filho de fantasia para a escola no dia errado,…

Maior difícil ser produtivo e à flor da pele ao mesmo tempo.

“Ah”, deve ter alguém mentalmente me perguntando, “mas que exagero, ninguém sente tão fundo assim para parar de viver e só para ficar sentindo e compondo e nhénhénhém”.

Fera, se eu não fosse intensa assim, eu seria contadora. Dentista. Engenheira de partículas. Não inventava de ser escritora. Vai por mim.

Tem que ter vísceras esmagadas na fórmula, afinal.

Então é isso. A não ser que você queira ser um Bukowski bêbado jogado na sarjeta (e eu faço votos de que você seja talentoso para ser comparado nesse nível), talvez essa coisa de escrever não seja para o seu projeto de vida.

Ser escritor é um saco.

Mas isso a tia de redação nunca me contou.

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Sobre bandas, amores e o tempo

Neste final de semana aconteceu o show do Guns 'n' Roses em São Paulo. A esperada reunião da banda que marcou a minha adolescência em todas as suas camadas muitas.

Para quem não acompanhou a novela Guns, a banda ficou separada por mais de duas décadas, por conta de conflitos internos envolvendo especialmente o vocalista intempestivo Axl Rose. Com o fim da banda, Axl viveu recluso por anos e anos. Slash, o principal guitarrista, declarou o ódio que sentia pelo ex-companheiro de shows e seguiu sua vida em outros projetos. Mais ou menos o mesmo caminho seguiram os outros componentes do grupo.

Quando perguntavam para os roqueiros se voltariam a tocar juntos em algum momento - e, bem, em vinte anos deu tempo d'eles serem questionados sobre isso quase que infinitas vezes - a resposta era sempre a mesma: não, não nessa vida. O tempo passou, passou, Axl viveu recluso, des-reclusou. Slash montou outra banda, separou, começou experiência solo, parou, fez show, voltou. Axl retomou o Guns 'n' Roses sem o resto da banda, foi horrível, mudou o elenco de novo.

Enfim, o mundo girou para cacete e o “não nessa vida” virou o nome da turnê de reunião que traz os três principais integrantes de volta ao palco sabe-se lá porque cargas d’agua… Mais de vinte anos depois.

Basicamente o mesmo período de tempo em que eu conheci o Guns, gostei, amei, larguei pra lá. E tal.

E no sábado eu estava ali no estádio do Palmeiras, aos berros com os 3/5 da banda que eu mais vivi nessa jornadinha de meu Deus.

Banda essa que eu tinha a certeza absoluta de que jamais veria unida e ao vivo.

Parece bobagem, mas… que louca é a vida, né?

E é aqui que começa a minha história.

 

Ouvir Guns 'n' Roses é rever os ‘para sempre’ e os ‘nunca mais’ mais sinceros da minha própria vida.

Dá para falar isso desde o primeiro álbum duplo que ganhei de um amor eterno, quando comecei a me interessar pela banda. Na época, lá nos meus 13 anos, CD duplo era coisa fina e esse namorado arrebentou a mesada para fazer esse carinho, veja só.

O amor eterno durou poucos meses, mas o Live Era continua pertinho de mim, esse sim para sempre (ao menos até agora).

E ver o Axl tão humano no palco é sempre coisa louca, pois faz lembrar dele pelado no pôster que ficou no meu guarda-roupa por anos e anos, para desespero da minha mãe. Só foi despregado da porta quando um outro amor eterno, tomado por ciúmes, me fez cometer esse crime.

O amor durou bem uns bons Natais. Já a foto do Axl eu nunca mais encontrei. Nem no Google, olha que loucura. Será que era o Axl, mesmo?

Vixi, abre o baú e tem mais um montão de coisas: foi ao som de Don`t Cry que meus amigos entraram no meu baile de 15 anos. Muitos deles eu nunca mais vi, agora que me toquei. E foi ao som de November Rain que a dama de honra entrou no meu casamento, esse sim atual firme e forte.

Foi cantarolando Patience que fiz minha filha dormir ainda bebezinha. Hoje uma moçona que (ainda) não liga para rock 'n' roll.

Foi falando groselhas sobre a banda que conquistei uns bons amores-eternos-de-uma-tarde que cruzaram o meu caminho. Cantei Mr. Brownstone rapidinho e direitinho para muitos, para mostrar que era descoladona (e isso ainda me faz rir).

Arrisquei cantadas arranhando Since I Don't Have You, porque sou dessas. Chorei por quantos lancezinhos ao som de It`s Allright?

Todos esses que passaram pelo meu caminho foram eternos e passageiros, dependendo do ponto de vista, da viagem no tempo.

E no fim é isso mesmo. A vida é essa bagunça de promessas para sempre e nunca mais que se fundem e se confundem uma porção de vezes. Para nosso delírio e desespero e gargalhadas, de novo, dependendo do ponto de vista e da viagem.

 

A gente nunca sabe se o “não nessa vida” é de verdade ou vai virar turnê de reunião, no fim das contas. A gente só segue falando e vivendo.

Vão-se os amores, os dedos, as bandas. Mas as músicas, olha que beleza, essas ficam. Marcando a minha, a nossa, história em cada nota— seja do Guns 'n' Roses ou do Araketu (pode preencher com quem fizer sentido por aí).

Tenho certeza de que, assim como lembrei de todos esses serezinhos amados, passados e presentes, ao saber desse show… Eles também se lembraram de mim um pouquinho. E eu estive com eles, por uma música que seja. Mas eternamente ali, naqueles minutos.

Eu não sei o que fez Axl Rose, Slash e Duff McKagan subirem juntos em um palco. Até quero ler esse livro quando sair, ver esse doc, mas na verdade não me importo.

Cada vez que surgir um acordezinho de nada de Sweet Child 'O Mine ao fundo ambiente, minha vida vai brilhar nos olhos como em um filme.

E vai ser assim para sempre.

Ou até que o tempo mude tudo. Como sempre é.

 

No fim, o passado não volta nunca jamais. Mas pode voltar com tudo para uma turnê especial, de repente.

A gente não sabe de nada. E isso é muito, muito legal.

Nessa vida. Ou numa próxima. Ou Not in This Lifetime.

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Análise do discurso

Late que eu tô passando.

Passa que eu tô latindo.

Transeuntes ou cadelas. Somos todos nós. Só depende de quem diz.
No fim está todo mundo tocando sua vidinha, tendo a certeza absoluta de que o outro está se incomodando pacas com ela.

Spoiler da vida: tem dias que ninguém nem lembra que a gente existe.

Bem. Ao menos quem poderia dizer uma frase feia dessas.

Que bom, né?

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Para depois do Dia das Mães

Ser mãe não é moleza. E é bom que a gente diga isso várias vezes, pra nenhum comercial de bolsa frustrar nossos esforços quando o dia não termina legal.

Ser mãe é casca das grossas em uma porção de tempos, batalha para valentão algum botar defeito — embora a imagem que se venda seja sempre a da docilidade, tranquilidade e dos blushes rosados entre o preparo do almoço e a mesa posta para o jantar.

Dito isso, gritado isso e estampado isso em todas as redes sociais do universo, o protesto está feito. Ficou claro aí, marmanjão, que não é só suavidade e nuvens sob o pé? Nenhuma dúvida sobre este ponto? Muito que bem.

Agora que estamos com os pingos todos nos is, deixa eu falar com você, mãe-amiga.

 

Nossa vida é punk e um suador só, que a gente sabe, mas ó: é bom demais também, né?
Sabe aquele papo do boazinha, da moça cândida? Distante de mim ter virado anja, mas sabe que a maternidade trouxe algo diário disso tudo para mim?

Ser mãe me ensinou a me colocar no lugar do outro. Qualquer outro. Mais do que querer protege-lo, porque fiquei um pouco protetora também, ser mãe me fez entender o conceito de sororidade. A coisa de não sair mais tresloucada por aí batendo nos outros – a não ser que minha intenção seja justamente essa, a do atropelo.

Ser mãe me deu noção maior do meu poder de amar e desprezar alguém. E do poder que temos todos de machucar e de curar com uma palavrinha e um gesto simples. Ganhei consciência da delícia e da dor que causamos, humanos para humanos.

Ser mãe me fez vulnerável, coração fora do corpo e tudo mais, mas incrivelmente forte e cheia de mim. Me fiz bastante preenchida, até para poder correr atrás de tudo o mais que ainda quero preencher. Em mim ou em qualquer outro lugar.

Faz sentido?

Ser mãe, mais do que a personagem da doce mãezinha-cozinheira, me trouxe a consciência do que sou, do que faço. Não me tornei a santa de avental, mas descobri que se eu realmente quisesse ser uma, eu poderia. Eu é que não quero. Eu é que não quis caber aí.

Mães não são deusas com poderes sobrenaturais, é claro que não, e é bom que fique claro. Nós também temos vontades e sonhos e um montão de desejos. Mas não dá para dizer que não ganhamos um bom cinturão de utilidade ao darmos vida ao amor de nossas vidas.

Isso, é claro, quando essa foi a nossa escolha.

Sublime, essa palavra que odiamos tanto, no dicionário se traduz em magnífico, que não é comum. Olha, que ninguém reduza nossa garra a um presente vindo gratuitamente dos céus, mas que a gente se faz magnífica... ah! Não dá para negar. Nos tornamos mesmo, magníficas e fora do comum.

Somos superpoderosas, sim. Mas é melhor não espalharmos isso, ou vão achar um jeito de nos vender panelas justamente com esse slogan.

Que a gente não se esqueça dessa força que ganhamos de presente. Nunca. Nem um dia. Nem mesmo quando discursamos contra o Dia das Mães das propagandas. Que essa força é nossa e nós a criamos e renovamos todos os dias.

Feliz dia das mães, amiga. Me conta depois qual é o seu superpoder?

 

E todo meu amor para minha filha, que me escolheu sua mãe, a melhor missão da minha vida.

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Musculação facial

Nesta vidinha, que de outras não me lembro, somos obrigados a uma porção de coisas: a acordar cedo sem vontade, a dormir cedo quando se tem vontade de algo mais, a comer direito trabalhando no fast-food, a lidar com o humor de outras pessoas que nem conhecemos – mas que por vezes cruzam o nosso caminho com um olho torto ou uma carinha mais esquisita.

Dessas coisas todas, nenhuma me tira mais do sério do que ter que rir sem vontade. Achar graça do que me dá preguiça. Ai, como gasta a energia essa coisa de ser simpática em excesso com quem não merece. Ou, menos dramático, com quem não te desperta simpatia à altura.

Chega a doer as costas, os braços. Deve ser a força nas bochechas para abrir o sorriso largo e amarelo. Dos meus músculos todos, o que mais sofre com a falta de exercícios é sempre o do maxilar. Seeeempre dolorido após uma rodada de anedotas dizendo coisa alguma, direto das bocas de nem sei que é. Não se acostuma, o coitado.

Já fui para os dois extremos: da meta do não-vou-dar-risada-sem- querer – tipo nunca, jamais, nem em reunião de condomínio – até sorrir e gargalhar para todos, como uma mocinha de comercial campestre. Não sei, não cheguei a muitos lugares, não.

As duas propostas me cansaram num tanto igual. Porque quando você não compactua com o bom humor que esperam de você, não atende àquela necessidade, tem que responder a um extenso questionário sobre seu dia: “mas o que aconteceu com você?”, “está tudo bem, mesmo?", “vamos lá, melhore essa cara”. Uma preguiça maior que o riso falso em si.

E me sacudir tal qual camponesa em dia ensolarado... bem, foi exercício por demais para o meu rosto cansado. E eu não sou nenhuma Gracyanne da simpatia, apegada na endorfina da malhação facial.

Daí pensei assim: quem conta anedota gratuitamente para mim, não deve estar lá com vontade real de interagir, né? Porque se eu não conheço a pessoa, não quero claramente conversar, não é possível que ela tenha mesmo vontade de ser esse show comigo. Deve estar doendo uma ou outra junta por ali também.

Podemos partir, então, para o mundo perfeito: todo mundo se respeita, mas ninguém vai além do que está a fim. Eu não rio para você – certamente serei educada e amável, porque também sou um tanto dessas, mas sem pulsações excessivas – você não puxa aquela conversa-praça-é-nossa comigo.

Se bem que... E se nessa formos todos para o auge do auto-respeito até eu falar com você e você não sentir vontade de responder? Bem você! E se você não responder mesmo ao que eu disse, por fim?

Nessa de auto-preservação, eu tenho um sorriso genuíno e você vira a cara? Quão magoada eu vou ficar com sua súbita sinceridade?

Ai, humanos.

Deixem para lá. A gente nunca sabe o que quer, mesmo.

Que a turma da “piadola” se acalme na intimidade. Enquanto isso, eu vou é de analgésico para as minhas bochechas.

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A dor da opinião alheia

Sou uma democrata. E, justamente por isso, entendo que a maior dificuldade da democracia é o respeito à opinião do outro, por mais diferente da sua que ela seja. Aquela história do defender até a morte o direito do qualquer um poder ser expressar – mesmo que seja para falar aquilo que você jamais falaria.

Sou jornalista. E, justamente por isso, entendo que a informação é a base para se formar qualquer ideia sem preconceito. Entendo que ter acesso a ela é dar luz a tudo que se enxerga – porque todo fato tem um passado, tem um lado e mais outro lado, tem a verdade de um e a verdade do outro.

Sou o que sou. E, justamente por isso, entendo que, mesmo tendo acesso aos mesmos dados, pessoas podem ter opiniões diferentes, conclusões diferentes. E entendo que algumas pessoas não querem ter acesso a nada antes de formar seus próprios pensamentos.

Você também está no meu time?

Então me conte: e quando alguém que amamos muito está no último grupo citado? Quando a opinião que esse alguém expressa é, por livre escolha, muito absurda, mal-informada, embasada em correntes de redes sociais? Como é que a gente faz?

A gente respeita, claro. Leva a questão para o debate e tenta, sem alterar o tom de voz, mostrar por A + B que 2 + 2 são quatro – e qualquer um pode ter a opinião que quiser sobre isso, desde que não desconsidere as questões matemáticas.

A gente explica que não precisa gritar para se fazer entender. Explica que algumas (poucas coisas) nessa vida têm estudo científico que ajuda a compreender, tem fatos históricos para contextualizar ou, sei lá, tem escritos sagrados para dar seus porquês.

A gente explica. A gente tenta.

E a pessoa não entende. Diz que tudo que você diz é mentira e que o ‘Feice’ é que está certo.

Aí a gente bufa, cansado. A gente não quer só comida, quer diversão e arte. Anos de estudo e o dia a dia da informação rivalizados por memes e teorias conspiratórias – e logo por uma boquinha tão querida! Oh, senhor!

Quando estudamos jornalismo lá na faculdade, aprendemos um pouco de política, um pouco de economia, um pouco mais de português e um tantão de história. Aprendemos até a separar o joio da versão de um fato – e o trigo da tendência na hora de montar uma redação.

A faculdade ensina um montão de coisas para a gente. Só não ensina a lidar com a dor de ouvir alguém muito, muito legal, dizendo um absurdo daqueles. Alguém muito, muito legal, não entendendo que opiniões diferentes existem, mas que fatos incontestáveis também.

Quem disse que a democracia era fácil, padawan? Mas aqui, por ela, a gente segue defendendo até o fim o seu direito de declarar em alto e bom som aquela groselha.

Grita, bonitinho, grita essa bobagem. Eu tô aqui para te ouvir.

Mas que dói um bocado no meu tímpano (e no meu fígado, e no meu coração), ah, isso dói.

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Fica shiu um pouquinho, fica?

Pare de falar, bonitão.
.
Não sabe que sua respiração
.
Diz mais sobre você
.
Do que esse discurso todo de amor?

 

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Com a liberdade na boca

Que coisa mais sexy, mais delicinha que é a língua.

E não estou falando do órgão – esse que muitas vezes sabe ser igualmente delicinho se usado da maneira certa. Estou falando da língua que se fala com a língua. O uso que cada um faz de cada palavra, bem ao seu jeito, no modo mais culto ou com os plural errado, mesmo. A linguagem linguada.

Amo a forma como cada um se apropria das frases e expressões mais bestas da vida, para se expressar muito além do significado das palavras ditas. Porque tem vezes, várias delas, em que o modo como algo foi contado nos diz muito mais do que o conto em si.

Adoro quem toma conta da língua com consciência. Exala liberdade ao abrir mão do português da escola para mostrar seu humor escrachado. Manda um “para as pessoas tudo” com objetivo certo. Com personalidade implícita.

Ou lá pelo contrário. Quem adota um português de Camões para explicar um sertanejo da moda. Escolhe palavras difíceis em um momento que qualquer um mandaria aquele palavrão cabeludo. Uma escolha delicada em um momento de ímpeto. É a pessoa todinha, em uma única frase parnasiana.

Outro dia mesmo, uma amiga reclamou com uma marca de doces. Ficou louca da vida ao ver que a caixa de bombons que comprara, e que deveria trazer sabores diversos, estava recheada era com um montão de chocolates repetidos.

Ao registrar sua insatisfação, não disse que aquilo era um absurdo. Não xingou a mãe de ninguém. Não traduziu a questão declarando que a caixa era uma propaganda enganosa. Disse apenas que a caixinha se mostrava “um engodo”.

Um “engodo”.

Quem fala “engodo” hoje em dia?

Era a menina explicadinha em uma única palavra. É ela, que mais do que loira ou morena, se apresenta como a moça que usa a palavra “engodo” trivialmente.

Me diga como línguas que eu te direi quem és.
E quando essa escolha de palavras é ferramentada, embasada, cara, é muito, muito legal.

Não tem essa de discurso montado, não. Ao menos não só essa.
Você é, nós somos, a construção da história, o caminho que leva ao final. Na vida, no texto e na conversa.

As palavras, quando saem da sua boca, são totalmente você. Para ser cristalino como água ou completamente indecifrável, use-as com sabedoria. Eu estou de olho na sua língua.

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A balada do cara inseguro – ou “O Canto do Homem-Sereia”

Ele é lindo, sorri de lado e desvia o olhar quando você insiste em encará-lo mais profundamente. E passa a mão no cabelo, esfrega um dedo no outro, arrisca um pequeno rubor nas bochechas branquinhas. Que coisa mais linda o charme desse moço, né?

Ele que se mexe todo quando você se aproxima. Não sabe se senta ou levanta, se segura o porta-lápis que acabou de derrubar, se passa a mão no cabelo de novo. Olha só que graça. Ouve como ele fala baixinho. Te obriga a se aproximar para ouvir, tornando-o ainda mais atrapalhado. É um desastrinho o menino.

Arrisco dizer que os olhos do bonito são azuis, você também? E é cheiroso, como é cheiroso.

Sua mãe diria que ele é menino bem criado, bem-nascido. E a vontade que dá na gente de despentear aqueles cabelos arrumadinhos, amarrotar a camisa alinhada.

Você tem certeza que é jogo. Jura que até o escorregão que o cara acabou de tomar é armação da pesada, sedução da mais barata. O bonito quer te confundir e você, que é gata garota, não vai se deixar abater por pouco.

“Fica seduzindo e não chama para sair?”, você pensa, bem resolvida. Toma algumas taças de vinho, para concluir na sequência a própria sentença de morte: “Então chamo eu”.

Parabéns, sua linda. Você foi pega pelo homem inseguro.

Talvez ele quisesse mesmo te seduzir. Talvez ele quisesse mesmo te beijar inteira. Talvez, talvez, talvez. Você nunca saberá – e provavelmente nem ele.

Você irá chamá-lo para sair, mas ele fingirá que não entendeu.
Você insistirá no convite, brasileira que é, mas o lindo terá um ataque de asma antes de te dar a resposta.
Vocês sairão, finalmente. E sairão de novo. E de novo. Mas ele só pegará na sua mão (jura?).
Você irá louca procurar jogo e ele terá a certeza de que você está falando de futebol.

Dica: geralmente, é outro tipo de pelada que a gente propõe para um cara desses.

Passar-se-ão, acredite, séculos e milênios e essa brincadeira cansativa de “me pega? Oi? Eu aqui me pega! Oi? Me pega?” seguirá se prolongando por toda a eternidade, sem chegar a lugar algum.

Você, linda e gostosa, nunca mais fará sexo na vida. Nunca mais será compreendida na vida. Seguirá apenas tentando desmanchar o gel e a gravata do menino lindo e bem-criado que não acredita em seu próprio potencial. Para sempre e sempre.

Os homens inseguros, amigas, são as sereias dos tempos modernos. Encantam as mocinhas desavisadas para atraí-las para sempre por um mar sem fim de nada, nada e nada. Tipo uma profecia. Deve estar escrito em algum livro de previsões por aí, pode procurar.

Se ao menos a gente pudesse resistir àquele par de olhos azuis e ao ruborzinho nas bochechas, né?

Mas não. Nos perderemos para sempre. Todas.

Pelo menos durante os meses em que aguentarmos a enrolação e trabalheira que só esses meninos trupicantes são capazes de nos proporcionar.

http://r7.com/1Dw8