coluna Conversas com meu Pai Fernanda Preto 2 Por trás do pano   Rapidinhas teatrais

Mergulho familiar: a atriz Janaina Leite fala sobre sua doença e a do pai em peça paulistana - Foto: Fernanda Preto

POR MIGUEL ARCANJO PRADO

Álbum de família
A atriz Janaina Leite, do Grupo XIX de Teatro, faz voo solo na peça Conversas com Meu Pai. Faz um verdadeiro mergulho familiar na obra. A peça levou sete anos para ficar pronta. O pai da atriz, que morreu em 2011, ficou sem poder falar por conta de uma traqueostomia. Já a artista descobriu que sofre de doença degenerativa que a está deixando surda. Pai e filha "conversam" por meio da montagem. A peça, que tem texto de Alexandre Dal Farra, estreia no dia 25 de abril, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro, em São Paulo. Estão todos convidados.

coluna celso akin Por trás do pano   Rapidinhas teatrais

Celso Akin: querido nas estreias paulistanas - Foto: Eduardo Enomoto

Luto nas estreias
A morte precoce nesta semana do fotógrafo Celso Akin, um dos mais queridos profissionais nas estreias teatrais paulistanas, deixa um vazio em toda a imprensa da maior cidade do Brasil. Celso, com sua calma e coleguismo de sempre, soube cativar a cada repórter e fotógrafo que cobriu algum evento a seu lado. Era muito querido da coluna e já está fazendo uma falta enorme. Que descanse em paz.

Agenda Cultural da Record News

Willkommen
A produção da peça Rózà foi trabalhosa. Contou com uma viagem de 15 dias das atrizes Martha Kiss Perrone e Lowri Evans e da diretora de fotografia Marilia Scharlach para Berlim, capital da Alemanha. Elas foram filmar cenas e gravar depoimentos que estão na montagem que estreia nesta sexta (18), às 20h, na Casa do Povo, no Bom Retiro, em São Paulo, após causar frisson no Festival de Teatro de Curitiba. A peça mergulha no universo de Rosa Luxemburgo, uma das principais teóricas da esquerda. O material colhido em terras germânicas foi farto: 37 horas de gravação. Eita!

De volta
O ator Laerte Késsimos fará sua primeira ida ao teatro no próximo domingo (20) após ter sofrido cirurgia no maxilar depois que levou um soco na rua Augusta. Ele verá Viúva, porém Honesta, do Grupo Magiluth, no Itaú Cultural. Leia entrevista com os artistas pernambucanos.

coluna farnese Por trás do pano   Rapidinhas teatrais

Vandré Silveira em cena de Farnese da Saudade: temporada grátis em SP - Foto: Rodrigo Castro

Artista na gaiola
O ator Vandré Silveira avisa que está esperando todo mundo na Caixa Cultural da praça da Sé, em São Paulo. Ele apresenta por lá até o dia 27 de abril, sempre de quinta a domingo, a peça Farnese de Saudade, que fez sucesso no Rio, sobre o artista plástico mineiro Farnese de Andrade (leia crítica de Átila Moreno). E o melhor: a entrada é de graça. A sessão começa sempre às 19h15. Combinado?

Sex and the City
O ator de musicais André Torquato está causando na primavera nova-iorquina.

Salve a MPB!
Edu Lobo e Chico Buarque são uma das maiores duplas da MPB. Ambos compuseram as músicas de O Grande Circo Místico, que fez história como trilha do balé do Teatro Guaíra. Entre as canções, estão clássicos como Beatriz e A História de Lily Brown. Agora, a obra vira musical com direção de João Fonseca no Theatro NET no Rio. O texto tem assinatura de Newton Moreno e Alessandro Toller. Estreia no dia 1º de maio. Merda.

Clássico
O diretor Marcelo Lazzarato mergulho na última peça de Anton Tchekhov para criar seu novo espetáculo. O Jardim das Cerejeiras estreia neste feriado de Tiradentes, 21 de abril, às 18h, no Sesc Bom Retiro, em São Paulo.

Criança feliz
Os Satyros vão mergulhar no mundo das crianças. A trupe da praça Roosevelt estreia em seu Espaço Um, no dia 26 a peça Mitos Indígenas. A fonte de inspiração é a cultura indígena guarani. Lendas como a da origem da mandioca estão na montagem que promete alegrar as crianças do centro paulistano. Rodolfo García Vázquez dirige o elenco formado por Bárbara Salomé, Breno da Matta, Gutho Vieira, Johnny Klein e Lívia Prestes. Turma boa reunida. Fica em cartaz até 10 de maio, sempre aos sábados, às 16h. O ingresso é baratinho: R$ 10 a inteira e R$ 5 a meia-entrada. Ninguém precisa pedir convite.

Cumbia grátis
O ritmo colombiano da cumbia vai invadir o Memorial da América Latina, na Barra Funda, em São Paulo, no próximo dia 30 de abril, uma quarta-feira. A festa Sarau no Memorial será na praça, ao ar livre, ao som da banda El Cartel. Começa às 19h e ninguém paga nada.

Festibero
Falando em Memorial, acontece por lá de 22 a 27 de abril o 7º Festival Ibero-Americano de Teatro de São Paulo. São 15 espetáculos de sete países. Todos com entrada gratuita. Veja a programação.

maria medeiros foto bob sousa 2013 Por trás do pano   Rapidinhas teatrais

Maria de Medeiros: show em São Paulo no fim de semana - Foto: Bob Sousa

Solto a voz nas estradas...
Maria de Medeiros, nossa grande atriz e cantora portuguesa, faz o show de seu disco Pássaros Eternos nesta sexta (18) e sábado (19) na Casa de Francisca, em São Paulo. Estão todos convidados.

Celebração
A peça Operação Trem-Bala reestreia no dia 23 de abril no CIT-Ecum, em São Paulo. Ela marca os 70 anos de vida e 40 de carreira do dramaturgo e diretor Naum Alves de Souza.

 Por trás do pano   Rapidinhas teatrais

Comédia Toc Toc está de volta ao Teatro APCD: 400 mil pessoas em seis anos - Foto: Divulgação

Eu voltei 1
A peça Toc Toc, dirigida por Alexandre Reinecke, está de volta ao Teatro APCD, em Santana, zona norte de São Paulo. Fica por lá até 8 de junho, sempre aos fins de semana. Já foi vista por 400 mil pessoas em seis anos.

Eu voltei 2
Consagrado pela crítica paulistana com o Prêmio APCA de melhor direção para Dagoberto Feliz, o espetáculo Folias Galileu volta ao cartaz neste sábado (19), no Galpão do Folias, ao lado do metrô Santa Cecília, São Paulo. Fica em cartaz até 1º de junho. Sempre sábado, 21h, e domingo, 19h. Quem ainda não viu tem oportunidade única de conferir.

coluna cristiano kunitake que talento Por trás do pano   Rapidinhas teatrais

Cristiano Kunitake (ao centro, agachado) com o elenco de Que Talento!, que estreia dia 24 - Foto: Divulgação

Japa na TV
Cristiano Kunitake, que já foi eleito Muso do Teatro R7 e integrou o elenco do espetáculo Barafonda, da Cia. São Jorge, está no elenco da primeira série brasileira do canal pago Disney Channel: Que Talento!. Estreia dia 24 de maio. Olha ele aí, o japonesinho no centro da foto, em pose para a coluna. Sucesso para todos!

Performance
O artista alemão Klaus Nomi, cuja morte faz 30 anos, será homenageado com a performance Obra_Dois na Casa de Zuleika, em São Paulo, nos próximos dias 26 e 27 de abril. O ingresso custa R$ 25. O criador do movimento New Wave foi a primeira celebridade vítima da Aids. Participam os artistas Klaus Kühn, Bret Frederick e Sirius Amen.

Ditadura no palco
Após encerrar temporada no CIT-Ecum na última quinta (17), a peça Morro como um País, da Kiwi Companhia de Teatro, faz temporada carioca. Eles estarão de 23 de abril a 2 de maio na Sede das Cias, na Lapa, no Rio. A peça tem a melhor atriz do Prêmio Shell, Fernanda Azevedo. A que levantou polêmica ao protestar contra a empresa ao receber o troféu. A obra fala sobre a ditadura civil-militar que dominou o Brasil entre 1964 e 1985 e seus efeitos até os dias atuais.

morro kiwi foto bob sousa1 Por trás do pano   Rapidinhas teatrais

Fernanda Azevedo, em Morro como um País: no Rio - Foto: Bob Sousa

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miguel arcanjo agenda cultural 18 04 2014 Veja as dicas da Agenda Cultural do Hora News, na Record News, desta sexta feira, dia 18/04/2014

Miguel Arcanjo Prado na Agenda Cultural do Hora News, na Record News: dicas para todo País - Foto: Divulgação

O jornalista e editor de Cultura do R7 Miguel Arcanjo Prado dá as melhores dicas na Agenda Cultural do Hora News, na Record News, nesta sexta (18). Tem o Festibero, com 15 peças grátis de sete países no Memorial da América Latina. Tem também sessões grátis da peça Viúva, porém Honesta, do Grupo Magiluth, no Itaú Cultural e na Funarte de São Paulo. E mais: show da banda de rock Cascadura em Salvador. Em Minas Gerais, tem o Rodeio Show de Pedro Leopoldo, com a dupla Fernando e Sorocaba. E ainda as estreias nos cinemas: o filme francês O Palácio Francês, do brasileiro Copa de Elite e do venezuelano Pelo Malo. Veja o vídeo:

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satyros andre stefano3 Satyros faz maratona no Domingo de Páscoa

Os atores Ivam Cabral, Robson Catalunha e Julia Bobrow em cena no Satyros - Foto: André Stefano

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O grupo paulistano Os Satyros anuncia que vai fazer uma verdadeira maratona teatral neste Domingo de Páscoa (20).

satyros andre stefano22 Satyros faz maratona no Domingo de Páscoa

Samira Lochter e José Sampaio - Foto: André Stefano

Os artistas vão apresentar, uma atrás da outra, as sete peças da série E Se Fez a Humanidade Ciborgue em Sete Dias, do diretor Rodolfo García Vázquez. Cada peça tem um enredo independente.

Entre os autores estão nomes como Dráuzio Varella e Rosana Hermann.

Satyros faz peça com sexo ciborgue e diretor diz: "Não temos medo de polêmica"

As sessões começam às 14h e vão até o fim do dia. A trupe afirma que manterá as sete peças aos domingos até o dia 11 de maio.

A primeira é Não Permanecerás, às 14h. Depois, às 15h30, vem Não Morrerás, com Phedra D. Córdoba. Às 17h é a vez de Não Vencerás.

Já às 18h30 é a sessão de Não Salvarás. A noite ainda reserva Não Saberás, às 20h, Não Amarás, às 21h30, e Não Fornicarás, às 23h.

Phedra D. Córdoba canta Beatles e causa furor

As peças acontecem no espaço dos Satyros Um (praça Roosevelt, 214, metrô República, tel. 0/x/11 3258-6345).

O ingresso para cada obra custa R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada).

satyros andre stefano Satyros faz maratona no Domingo de Páscoa

Público faz fila na Roosevelt para ver maratona E Se Fez a Humanidade Ciborgue em Sete Dias - Foto: André Stefano

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gabriel García Márquez sabia chegar ao coração do povo

Gabriel García Márquez com Cem Anos de Solidão na cabeça: um autor do povo - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A morte do escritor colombiano Gabriel García Márques, aos 87 anos, nesta quinta (17), deixa órfãos leitores do mundo todo.

Gente que aprendeu a se encantar com seus personagens cheios de vontade própria e, sobretudo, imersos em sonhos.

Ao ler Cem Anos de Solidão, sua obra de maior sucesso, ainda na adolescência, com o livro emprestado da biblioteca da Escola Estadual Santos Dumont, em Belo Horizonte, tive a sensação de que chamar esta história de realismo fantástico era uma balela.

No livro de 1967, Gabriel falava de um povoado tão comum, Macondo, um interior cheio de situações fantásticas com o qual nós, latino-americanos, tanto nos identificamos. E como disse Jean-Paul Sarte ao visitar o Brasil na década de 1960, coisa que repetia hoje mesmo ao fotógrafo Bob Sousa e sua mulher, Daniela: nós somos mesmos surreais.

Ao ler Cem Anos de Solidão, percebi que havia inúmeros personagens de minha vida real, alguns deles na própria família, que se pareciam, e muito, com aqueles que habitavam o livro.

E foi por ter esta capacidade de universalidade em sua escrita que a obra conquistou leitores em todo mundo em mais de 35 línguas e 50 milhões de exemplares vendidos.

Márquez conseguiu reproduzir como ninguém em sua obra este espírito do ser latino-americano, meio jogado de lado, injustiçado pela vida, que se acha mais do que se é, sempre mais afeito à fantasia do que a realidade.

O que ele reiterava, de forma doce, em sua narrativa, era: não somos europeus concretos, somos um novo povo, com um novo valor. É o que ele dizia em sua obra inventiva.

Além de artista, Márquez se destacou também como homem. O autor colombiano defendeu como ninguém seus ideais. Foi um dos principais intelectuais alinhados com a esquerda durante todo o século 20 e começo deste século 21. Enquanto muitos arrefeceram em seus princípios, ele manteve a coerência com seu pensamento.

Gabriel García Márquez era um dos últimos representantes do grande time de autores latino-americanos que conseguiram o panteão da literatura mundial, junto de nomes como o chileno Pablo Neruda, os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, e o brasileiro Jorge Amado. Todos foram celebridades escrevendo livros, coisa raríssima no mundo contemporâneo onde a leitura de qualidade é cada vez mais escassa.

E Márquez foi muito querido. Porque, mesmo diante de toda complexidade de sua criação, era simples em sua escrita e sabia chegar ao coração do povo.

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magiluth foto bob sousa11 Entrevista de Quinta: “Viramos o Pequeno Príncipe”, dizem artistas do Grupo Magiluth

Os sete integrantes do Grupo Magiluth, na tradicional rua Avanhandava, no centro paulistano: "Viramos o Pequeno Prínicipe"; a partir da esq.: Thiago Liberdade, Lucas Torres, Giordano Castro, Erivaldo Oliveira, Pedro Wagner, Pedro Vilela e Mário Sergio Cabral  - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de BOB SOUSA

Eles agora não estão mais em um apartamento de frente para o Minhocão, mas, em um hotel bacaninha do centro paulistano. Após a marcante estada em São Paulo no inverno de 2012, o Grupo Magiluth está de volta à metrópole que abriga todas as matizes do pulsante teatro brasileiro.

Agora, os garotos do mais inquieto teatro pernambucano são sete: Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio Cabral, Pedro Vilela, Pedro Wagner e Thiago Liberdade – este último uma espécie de filho pródigo que retornou ao grupo que ajudou a fundar dez anos atrás.

As fronteiras de Recife já foram perpassadas há muito por estes artistas, que em breve atravessam o oceano Atlântico para uma parceria com uma companhia europeia. Outro dia, uma fã, sim eles têm fãs, disse que o Magiluth é seu novo Pequeno Príncipe. Os Novos Pernambucanos do teatro brasileiro adoram uma relação próxima com a plateia.

Ficam até o fim do mês em São Paulo com sua debochada versão para a peça Viúva, porém Honesta, do também pernambucano Nelson Rodrigues. O espetáculo já causou furor por todo o País e chega ao olhar do exigente público paulista com a maturidade de mais de cem apresentações.

Eles passam o feriadão de Páscoa no palco do Itaú Cultural, onde se apresentam até este domingo (20), com entrada gratuita. Depois, entre 23 e 27 de abril, sempre às 20h, se apresentam na Funarte de São Paulo [veja os serviços ao fim da entrevista].

O septeto recebeu o Atores & Bastidores do R7 com exclusividade para esta Entrevista de Quinta. Em um bate-papo inteligente e bem-humorado após o café da manhã, falaram coisas fundamentais. E ainda responderam quem inspirou o Dorothy Dalton, o lendário crítico teatral criado por Nelson Rodrigues que surge na peça do grupo de forma provocativa.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Como é esta volta a São Paulo quase dois anos depois? E vocês trouxeram o frio de novo...
Giordano Castro – Quanto frio que a gente passou naquela outra vez! Agora, a gente chegou e esfriou  [risos]
Pedro Vilela – A gente montou o Viúva, porém Honesta aqui em São Paulo, na Funarte, naquela vez. Foram dois meses ensaiando. É importante estrear  aqui após fazer 132 apresentações em 2013. Esta turnê que fizemos nos últimos meses nos trouxe maturidade no ofício. Mas, também a gente percebe que muitas dificuldades permanecem dois anos depois, sejam de comunicação e de estrutura de trabalho.

Miguel Arcanjo Prado – Estar em São Paulo é importante?
Pedro Wagner – Vir para cá sempre causa certo furor. Este trabalho demorou muito para chegar aqui. É um lerê da porra conseguir descer, conseguir chegar a São Paulo. Mas quando a gente chega é muito instigante. E também já temos amigos na cidade.
Pedro Vilela – São Paulo é o olho do furacão. É bom estar por aqui.

Miguel Arcanjo Prado – Eu percebo que vocês estão sempre em troca com outros grupos do Brasil. Gostam de trabalhar em rede?
Giordano Castro – Estamos sempre em trocas com outros artistas. Na época da montagem, também. E não só com grupos, como também com nosso público. Em Recife tem uma turma que acompanha de perto o trabalho do Magiluth.

Miguel Arcanjo Prado – Para vocês estar em São Paulo ajuda quando voltam em Recife? Porque percebi que depois daquele 2012 vocês voltaram por cima para lá...
Pedro Vilela – Recife ainda precisa que alguém de fora reconheça algo, para então passar a ter reconhecimento por lá...
Pedro Vilela – Quando voltamos, parecia a volta dos Beatles [risos].
Erivaldo Oliveira – Mas tinha um público que já nos acompanhava. E nem é um público de teatro geral, não. É um público que via as peças do Magiluth. Gente que nos ajudou a consolidar nosso trabalho.
Mário Sergio Cabral – Hoje, a gente circula o Brasil e também faz todo o Estado do Pernambuco sempre.

Miguel Arcanjo Prado – Vocês têm uma relação muito forte com Recife?
Pedro Vilela – A gente propõe festival de teatro, o Trema!, realiza intervenções nas ruas, propõe ingressos ao preço de pague quanto puder.
Pedro Wagner – Acho que esse reconhecimento hoje é possível, bem como essas ações porque conseguimos entrar em alguns lugares.
Mário Sérgio Cabral – Eu me lembro da nossa entrevista de 2012, da gente dizendo que nunca tinha conseguido patrocínio do governo de Pernambuco. Hoje, esta circulação tem apoio estadual.
Pedro Vilela – A gente ainda não se apresentou em Recife neste ano. Só temos previsto fazer Luiz Lua Gonzaga em maio, no Palco Giratório, do Sesc. Mas estamos dando um jeito de conseguir fazer mais apresentações. Estar ausente muito tempo é perigoso. Queremos voltar.
Giordano Castro – Somos de Recife. Viver lá nos interessa para nós e para o nosso trabalho. Dar este retorno à cidade é massa.

Miguel Arcanjo Prado – É uma relação forte?
Pedro Wagner – É tão forte a relação que temos com Recife que digo que ela é de amor e ódio. É tão intenso que fomos para as ruas. Não tínhamos trabalhado com performance e arte urbana até então. E foi ótimo. A cidade está um caos nestas vésperas da Copa, o trânsito está caótico. Fomos para a rua e descobrimos outras perspectivas.
Pedro Vilela – Viramos quase guerrilheiros [risos].
Pedro Wagner – Nossa página no Facebook virou espaço de denúncia.
Mário Sérgio Cabral – Isso mudou nossa postura. Por exemplo, o Giordano foi morar perto do trabalho. E ele sempre era o mais tranquilo nos ensaios. A gente, que vinha de longe e ficava preso no trânsito, chegava estressado. Recife hoje vive uma angústia.

magiluth foto bob sousa121 Entrevista de Quinta: “Viramos o Pequeno Príncipe”, dizem artistas do Grupo Magiluth

Grupo Magiluth na garoa de São Paulo: os Novos Pernambucanos do teatro - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado – Vocês são muito conectados nas redes sociais. Este trabalho de comunicação é consciente?
Thiago Liberdade – É totalmente consciente, é um reflexo desta nova era. Nossa primeira preocupação, lá no comecinho, foi em chamar o design e amigo Guilherme Luigi, para fazer a parte gráfica. Hoje, eu assumi esta parte.
Pedro Vilela – A gente começou sem nada. Então, percebemos que o melhor trabalho para fidelizar nosso público eram um bom trabalho de comunicação. Investimos em cartazes, bottons, camisetas... E nosso público sempre sentiu essa necessidade de se aproximar da gente.
Pedro Wagner – Nosso público tem relação de amizade mesmo com a gente. É muito doido isso. Teve uma espectadora que disse que nós somos seu novo Pequeno Príncipe [risos].
Thiago Liberdade – Por isso sempre viajamos em bloco, todos juntos. Isso é importante para mantermos nossa unidade não só no palco, como também no escritório, na comunicação.

Miguel Arcanjo Prado – É mais fácil circular hoje?
Giordano Castro – Hoje, existe uma rota de fuga, um circuito criado pelos próprios grupos. Mesmo em comunicação.
Thiago Liberdade – Se não conseguimos entrar em alguns espaços, criamos nossos espaços e comunicamos.

Miguel Arcanjo Prado – Quais são os próximos planos?
Pedro Vilela – Estamos começando um novo processo de investigação para estrear em 2015, sobre o fenômeno de fé fervorosa no Brasil contemporâneo. Também vamos fazer intercâmbio com o grupo português Mala Voadora. Vamos estrear lá em 2015 e no Brasil em 2016. É uma peça sobre felicidade.

Miguel Arcanjo Prado – Como é fazer Viúva com tanta estrada?
Lucas Torres – Foi uma peça que a gente teve estrutura para montar e ensaiar. Então, estreamos de forma tranquila. E a circulação tem sido assim também. Trabalhamos com plateias distintas, com diferentes níveis de humor.
Erivaldo Oliveira – Tem plateia que dá angústia. Fica lá quietinha, não produz nenhum som. Você tem sensação de que não estão reagindo, aí vem uma reação ao fim. E é positiva sempre.
Lucas Torres – Mesmo quem não gosta do tipo de humor que fazemos entra no jogo. Porque ele é muito dinâmico entre público e a gente.
Pedro Vilela – Hoje tenho de segurar os meninos e falar: não é stand-up, hoje ficou poluído demais. Porque se eles ficam soltos, fazem o que querem.

Miguel Arcanjo Prado – E como é este encontro com Nelson Rodrigues?
Pedro Wagner – Outro dia o Kil Abreu [crítico teatral], apesar de ainda não ter visto, disse que era o encontro de duas gerações de pernambucanos apimentados. Porque o Nelson tinha pimenta também. Ele escrevia com sangue nos olhos.
Mário Sergio Cabral – A gente faz teatro como se fosse a última vez. Eu tenho sempre que me aquecer muito.
Girdano Castro – A gente faz com um tesão do caralho.
Pedro Wagner – É isso. A gente tem tesão! O grupo é só de homens. Tem uma energia muito forte, sexual, presente. Somos homens libertinos.
Giordano Castro – Somos descarados uns com os outros [risos].

Miguel Arcanjo Prado – Por que vocês resolveram dar este olhar debochado a esta obra do Nelson?
Pedro Vilela – Gente, o próprio Nelson diz que Viúva, porém Honesta é uma farsa irresponsável.
Pedro Wagner – Hoje em dia, está ficando melhor ler Nelson Rodrigues do que ver montagens. Porque colocaram ele no pedestal e fazem coisas muito respeitosas.
Giordano Castro – Incharam o Nelson com tanto respeito. Não é que a gente não o respeite, mas, nós, como artistas, precisamos nos colocar na obra.
Pedro Vilela – O filho dele foi ver no Rio e veio conversar com a gente depois. Ele nos disse: “Meu pai ficaria muito feliz”. A neta dele também adorou.
Pedro Wagner – A gente se apresentou na festa de 15 anos da neta do Nelson.

Miguel Arcanjo Prado – Apesar de eu achar ótima, soube de gente que ficou com raiva da representação que vocês fazem da crítica teatral na figura do personagem Dorothy Dalton, o crítico da nova geração, com aquele cachecol. Apesar do frio, eu nem vim de cachecol hoje [risos].
Pedro Wagner – Então, a gente está colocando essa turma para sentir a sensação que a gente tem quando lê uma crítica [risos]. Quem levar muito a sério é pior para a própria pessoa. Tudo que falamos está no texto. O Nelson Rodrigues escreveu o Dorothy Dalton para um crítico específico, o Miroel Silveira. Tanto que é bem achatado o personagem. O nosso Dorothy Dalton é mais aberto. Não é para ser levado tão a sério.

Miguel Arcanjo Prado – Quem é o Dorothy Dalton do Magiluth?
Pedro Vilela – Se me perguntassem se você é o nosso Dorothy Dalton, eu responderia que sim e que não. Porque é você, e também você não é ele. Sim, porque, hoje em dia, você é o crítico que se coloca em seus textos, não tem medo de falar, cria “bafão”, ou seja, que não é aquele crítico chato, antigo. Você é realmente o crítico da nova geração, da nossa geração. Neste aspecto você é o Dorothy Dalton.
Pedro Wagner – Até porque parte da crítica ficou muito chata. Tem crítica que consegue ser mais chata que a peça!
Pedro Vilela – Mas eu digo que você não é ele também, porque o Dorothy Dalton não sabe o que está querendo dizer. Você não é assim.
Pedro Wagner – Resumindo: o Dorothy Dalton é bem mais irresponsável que você [risos].

Viúva, porém Honesta
Avaliação: Muito bom
Quando e onde: 15 a 19 de abril, às 20h; dia 20, às 19h no Itaú Cultural (av. Paulista, 149, metrô Brigadeiro); 23 a 27 de abril, às 20h, na Funarte (al. Nothmann, 1058, metrô Marechal Deodoro)
Quanto: Grátis
Classificação etária: 18 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Entrevista de Quinta: “Viramos o Pequeno Príncipe”, dizem artistas do Grupo Magiluth

magiluth foto bob sousa10 Entrevista de Quinta: “Viramos o Pequeno Príncipe”, dizem artistas do Grupo Magiluth

Magiluth conquista SP: humor cáustico pernambucano para clássico de Nelson Rodrigues - Foto: Bob Sousa

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Entredentes Credito Bob Sousa Crítica: Gerald Thomas solta grito entalado Entredentes e convida Brasil a pensar

Maria de Lima, Edi Botelho, Gerald Thomas e Ney Latorraca: preguiça ao Brasil em Entredentes - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de BOB SOUSA

Uma cena poderia resumir o espírito de Entredentes, a nova peça de Gerald Thomas, em cartaz no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo.

Ela se dá quando a atriz portuguesa Maria de Lima começa a esbravejar contra o Brasil, dizendo questões pertinentes e provocativas sobre questões histórico-sociais que não conseguimos ainda resolver.

Em seguida, a atriz explica à plateia que a fala não é dela, mas, sim, do diretor e autor, Gerald Thomas. Há um riso, de certo alívio. Mas é aí que ela, em primeira pessoa, passa a dizer o que ama no Brasil, citando como motivos coisas das quais não nos orgulhamos, como nossas favelas e o cheiro de xixi nas ruas.

Atônita com o discurso, a figura de Ney Latorraca só consegue uma saída diante da situação incômoda: a vaia.

Como em toda peça, muitas coisas estão implícitas nesta cena, cheia de signos fragmentados que permitem ao espectador diversas leituras. Não há discurso hegemônico, mas um convite ao espectador para ser uma espécie de coautor da encenação, preenchendo-a de significados.

entredentes foto alisson louback 8778 Crítica: Gerald Thomas solta grito entalado Entredentes e convida Brasil a pensar

Confronto entre Maria e Ney: verdade dita por boca do colonizador - Foto: Alison Louback

Na cena do confronto entre Maria e Ney, é preciso que a "verdade" seja dita por boca estrangeira. Mesmo assim, é necessário o grito para que seja escutada, evidenciando uma dependência brasileira ao olhar do Primeiro Mundo.

E tal discurso vem com sotaque colonizador. Talvez seja por tal ressentimento que este não é legitimado por Ney. Ou sequer contestado. A reação escolhida é quase que infantil, e bem brasileira. Em vez de partir para uma discussão dialética, o personagem de Ney prefere tentar desestabilizar seu interlocutor pela vaia e cortar o diálogo.

Thomas reúne três atores potentes no palco: Latorraca, Lima e Edi Botelho, este último o artista com quem mais trabalhou. Entregues ao jogo, Latorraca e Botelho fazem dupla. Primeiro, dois astronautas lunáticos. Depois, se alguém sente falta de historinha, um vira judeu e o outro, palestino.  Tudo diante de um painel com uma enorme vagina ou de um pichado Muro das Lamentações.

Diante do delírio, ambos são capazes de dizer coisas profundas que retumbam na cabeça do espectador.

Latorraca, para quem a peça foi escrita, faz excelente performance. Incorpora a si próprio em cena, que usa elementos de sua própria história, como a internação recente e a quase partida para o lado de lá. É ótimo ator e aproveita as liberdades do teatro de Thomas para apostar em seu tempo cômico, que ao mesmo tempo provoca o riso e desconcerta. Como quando diz: "It's amazing".

Entrevista: "É uma idiotice, um horror", diz Gerald Thomas

Outro grande destaque é Maria de Lima. Ela entra na peça, num primeiro momento, como alegoria sublinhada, como se a direção fizesse concessão ao didatismo que tal público está acostumado.

Logo sua personagem ganha peso e, em muitos momentos, se torna centro das atenções. Botelho chega a ir para a plateia para permitir que o duo de force entre Lima e Latorraca se faça sem interferências, como na cena que abriu esta crítica.

entredentes foto alisson louback 1004 Crítica: Gerald Thomas solta grito entalado Entredentes e convida Brasil a pensar

Ney Latorraca, em primeiro plano, e Edi Botelho, em cena de Entredentes - Foto: Alison Louback

Em seu teatro próximo à performance e com farta assinatura do diretor, Thomas abre a porteira para temas que perpassam o contemporâneo: desde a tensão política na Ucrânia após a invasão da Crimeia pela Rússia até a obsessão do povo brasileiro em acompanhar com afinco as telenovelas de roteiros repetidos.

Há uma preguiça para o Brasil - e os brasileiros - implícita na peça. Uma preguiça para um povo que não se cansa de retumbar às margens do rio Ipiranga, como diz uma das provocantes sacadas do texto, e que precisa terminar tudo em samba e Carnaval.

O recado de Entredentes não tem a obviedade que necessita quem busca riso fácil ou choro emotivo convulsivo, ou, como agora é moda, na relação de compromisso afetivo com artistas que ressuscitam no palco. Vai além disso.

É um teatro que se propõe a pensar a partir da quebra das estruturas sociais e comportamentais que move a sociedade e o pensamento brasileiros. A começar por quebrar a historinha. É fragmentado, propositivo e analítico.

Na obra que está mais para brado retumbante do que para revelação entredentes, Thomas cutuca a dormência anencéfala e tira a casca do verniz, revelando a mediocridade de nossa gente, tentando, ao mesmo tempo, despertá-la da alienação e do conformismo. É um mérito.

Entretendes
Avaliação: Muito bom
Quando: Sábado, 21h, domingo, 18h. 80 min. Até 11/5/2014
Onde: Teatro Anchieta do Sesc Consolação (r. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, metrô Santa Cecília, São Paulo, tel. 0/xx/11 3234-3000)
Quanto: R$ 35
Classificação etária: 16 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Gerald Thomas solta grito entalado Entredentes e convida Brasil a pensar

entredentes foto © Bob Sousa DSC 8852 Crítica: Gerald Thomas solta grito entalado Entredentes e convida Brasil a pensar

Gerald Thomas (ao centro, em pé) com elenco de Entredentes: Maria de Lima, Ney Latorraca e Edi Botelho - Foto: Bob Sousa

 

Entrevista: "É uma idiotice, um horror", diz Gerald Thomas

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elis regina 2 Crítica: Musical faz Elis virar mocinha da Broadway

Laila Garin na melhor cena do musical: Elis pouco antes da morte - Foto: Felipe Panfili/AgNews

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Apesar de ter tido como um de seus mestres um norte-americano vindo da Broadway, a gaúcha Elis Regina (1945-1982) não soava a uma princesinha dos musicais. Pelo contrário, a vida e a obra da maior cantora que o Brasil conheceu eram muito autênticas.

Elis, a Musical, peça de Nelson Motta e Patrícia Andrade, com direção do estreante em teatro Dennis Carvalho, tenta minimizar as contradições da vida de Elis, tornando-a mais homogênea, mais "mocinha". O espetáculo diminui a força da Elis real na tentativa de torná-la um produto palatável e comercial, quando justamente o que Elis fez foi provar que poderia ser um produto midiático de sucesso sem abrir mão do talento e da personalidade. Provava isso a cada especial de TV ou entrevista: sempre articulada, sincera e contraditória.

elis regina 5 Crítica: Musical faz Elis virar mocinha da Broadway

Talento de Laila Garin é destaque - Foto: Felipe Panfili/AgNews

A superprodução funciona mais como recital musical do que propriamente como espetáculo teatral. Antes de tudo, é preciso ressaltar o canto da atriz baiana Laila Garin. Mesmo aprisionada pela urgência e frivolidade do formato, recria Elis a seu modo e assombra a todos a cada canção - o talento evidente a distancia de boa parte do elenco. E ganha respeito como atriz na cena dramática em que recria a última entrevista de Elis a um programa de TV, semanas antes de sua morte. É seu grande momento.

Percebe-se que parte da plateia reage à obra de forma passional, o que é comum quando artistas que habitam o inconsciente coletivo "ressuscitam" no palco.  Foi assim também com Tim Maia - Vale Tudo. A emoção costuma ser imediata, e o critério para julgamento fica um tanto quanto anuviado.

Os homens de Elis

De forma simples, o enredo apresenta Elis como a menina pobre que conquistou o mundo. Apesar de a encenação fazer sumir o último namorado da cantora, o advogado Samuel MacDowell Figueiredo, com quem ela falou por telefone pouco antes da morte, sobraram Ronaldo Bôscoli, o primeiro marido, e César Camargo Mariano, o segundo. Diante do que lhes é dado pelo enredo e direção, os atores fazem o que podem.

Tuca Andrade vai bem como Ronaldo Bôscoli, pai do primeiro filho de Elis, João Marcello. Mesmo com o roteiro deixando o personagem próximo a um vilão de peça infantil, ele o torna crível.

Claudio Lins aposta na leveza para compor César Camargo Mariano, o pai de Pedro Mariano e Maria Rita, os dois últimos filhos de Elis.

Outro homem importante para Elis, o bailarino norte-americano Lennie Dale, ganha cena à altura. Este criou o movimento cênico de braços que marcaria a cantora. Na pele de Dale, Danilo Timm mostra-se um exímio bailarino e defende sua cena com brilho, carisma e precisão coreográfica.

Faz falta alguma referência à diretora Myriam Muniz, que criou com Elis o espetáculo Falso Brilhante, o mais importante da carreira da cantora. Ela não é lembrada no musical, que prioriza os personagens cariocas, em detrimento dos paulistas, mesmo tendo Elis escolhido viver em São Paulo, onde morreu.

elis regina Crítica: Musical faz Elis virar mocinha da Broadway

Elis, a Musical traz Laila Garin como a maior cantora do Brasil - Foto: Felipe Panfili/AgNews

Perplexidade

Algumas cenas causam perplexidade: como os bailarinos que se arrastam pelo chão com manequins, ou as imitações bizarras de Paulo Francis e Marília Gabriela. A caracterização de Francis é absurda porque se apropria da locução arrastada que marcaria o jornalista na tela da Globo em um plano pessoal no qual ele não falava daquele jeito. Já a imitação de Marília Gabriela é ainda mais complicada.

À medida que a obra usa nomes reais e fatos de quem sempre esmiuçou sua vida diante das câmeras de TV, é preciso, pelo menos, manter certa coerência com os fatos.

Alguns fatos sofrem reducionismo, como a briga com o cartunista Henfil, depois que este enterrou Elis em uma charge. Isto se deu após ela cantar nas Olimpíadas do Exército em tempos que artistas partiam para o exílio justamente por não colaborar com o regime. Elis, neste momento da obra, parece ingênua, coisa que nunca foi.

O próprio autor da peça, Nelson Motta, aparece como personagem, mas omite o caso de amor que teve com Elis, enquanto esta era casada com Bôscoli. Só fica o lado de Elis mulher humilhada e maltratada pelo primeiro marido. Não custa nada lembrar que o apelido dela era Pimentinha.

Incômodo com a morte trágica

Regina Echeverria, que escreveu a biografia Furacão Elis, afirma que "Elis morreu, de fato, de uma dose letal de Cinzano e cocaína. Um erro de dose. Um acidente". O próprio autor do musical, Nelson Motta, contou o mesmo em seu livro Noites Tropicais: "sempre preocupada com a voz, a garganta, seus maiores bens, [Elis] estava evitando inalar cocaína, preferindo misturá-la com uísque: dessa forma a droga vai para o estômago e demora mais a entrar na corrente sanguínea, tornando muito difícil controlar as quantidades. Foi o que matou Elis".

Mas há, no musical, um incômodo em lidar com a morte de Elis. Talvez seja por isso que a direção perde a chance de finalizar o espetáculo quando Laila tem sua grande cena, com Elis sozinha e frágil diante da luz, respondendo a uma entrevista. Dá nó na garanta.

elis regina 3 Crítica: Musical faz Elis virar mocinha da Broadway

Parece que é preciso encobrir a morte de Elis com muita cor e Carnaval - Foto: Felipe Panfili/AgNews

Mas, logo, apressados bailarinos deslizantes entram com confetes e serpentinas para carnavalizar tudo. Como se fosse proibido sentir tristeza pela partida precoce e trágica da cantora. Querer maquiar tal dor é ferir tudo que Elis foi: uma artista coerente com suas fragilidades até mesmo no momento da morte, aos 36 anos, trancada no quarto, com três filhos pequenos para criar.

Elis, a Musical enquadra a memória de nossa maior cantora nestes novos tempos do politicamente correto. Está ali uma grande cantora, mas falta a grande artista, tão viva e inquieta, sem meias verdades, que gostava de instigar, de desnortear, de provocar. O que fica é a pergunta: o que Elis Regina acharia da ideia de convertê-la em mocinha da Broadway?

Elis, a Musical
Avaliação: Bom
Quando: Sexta, 21h30; sábado, 16h (sem Laila Garin) e 20h; domingo, 17h; quinta, 21h. 180 min. Até 13/7/2014
Onde: Teatro Alfa (r. Bento Branco de Andrade Filho, 722, CPTM Santo Amaro, São Paulo, tel. 0/xx/11 5693-4000)
Quanto: R$ 40 a R$ 180
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Musical faz Elis virar mocinha da Broadway

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aplauso brasil ze celso antunes ed paiva Abraço de Zé Celso em Antunes Filho marca 2º Prêmio Aplauso Brasil; veja lista de ganhadores

Antunes Filho abraça Zé Celso Martinez Corrêa no palco do Theatro São Pedro - Foto: Ed Paiva

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A imagem do encontro dos homenageados Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa no palco do tradicional Theatro São Pedro marcou o 2º Prêmio Aplauso Brasil de Teatro, promovido pelo crítico Michel Fernandes. A cerimônia de entrega foi realizada nesta segunda (14), na Barra Funda, em São Paulo.

Além dos celebrados diretores, nomes como Débora Falabella, Yara de Novaes, Ivam Cabral e Bárbara Paz estiveram presentes. Esta última apresentou a festa, que teve música ao vivo pelo maestro Miguel Briamonte. Nydia Lícia, outro importante nome de nossos palcos, também foi homenageada.

A votação foi popular. Veja a lista completa de quem levou:

Homenagens:
Antunes Filho, José Celso Martinez Corrêa e Nydia Lícia

Melhor Espetáculo de Grupo:
S-antas, Amadododito Cia Teatral

Melhor Espetáculo de Produção independente:
Genet, o Poeta Ladrão, direção de Sérgio Ferrara

Melhor Espetáculo Musical:
A Madrinha Embriagada, Atelier de Cultura

Melhor Figurino:
Iraci de Jesus, por Bem-vindo Estranho e Genet, o Poeta Ladrão

Melhor Arquitetura Cênica (cenário, adereços e ambientação):
Eric Lenate, por Vestido de Noiva

Melhor Trilha Original:
Daniel Maia, por A Casa de Bernarda Alba, Jocasta (em parceria com Jonatan Harold) e Ricardo III

Melhor Dramaturgia:
Kiko Marques, por Cais ou da Indiferença das Embarcações

Melhor Diretor:
Silvio Vieira por Pessoa

Melhor Ator Coadjuvante:
Ubiracy Paraná do Brasil, por Alô Dolly! 

Melhor Ator:
Marcos Lemes, por Pessoa

Melhor Atriz Coadjuvante:
Marjorie Estiano, por O Desaparecimento do Elefante

yara debora nanda rovere Abraço de Zé Celso em Antunes Filho marca 2º Prêmio Aplauso Brasil; veja lista de ganhadores

Yara de Novaes e Débora Falabella foram receber o prêmio por dupla em Contrações - Foto: Nanda Rovere/Divulgação

Melhor Atriz:
Débora Falabella e Yara de Novaes, por Contrações

Melhor Elenco:
S-antas, direção Alan Pires

Destaque:
Satyrianas, por oferecer um festival com variadas opções em diversos segmentos de arte.

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PHEDRA ANDRE STEFANO Crítica: Satyros inverte lógica e Phedra D. Córdoba vive intensamente e canta Beatles em Não Morrerás

A diva cubana Phedra D. Córdoba canta Something, dos Beatles, em Não Morrerás, da Cia. Os Satyros: "I don't want to leave her now You know I believe and how" - Foto: André Stéfano

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Phedra D. Córdoba é um mar de signos. E o diretor Rodolfo García Vázquez parece saber disso muito bem ao colocá-la no centro do espetáculo Não Morrerás, do grupo Os Satyros, que tem texto do médico Drauzio Varella.

A obra faz parte da série E Se Fez a Humanidade Ciborgue em Sete Dias, com sete distintas montagens. Esta aborda a finitude da vida e também as diversas formas de corpos atuais, incluindo aí aqueles construídos, seja em mesas de cirurgias ou por meios digitalizados.

 Leia mais sobre Phedra D. Córdoba!

A diva cubana Phedra D. Córdoba surge em cena com sua presença evidente de sempre. Faz um número musical, ao vivo, Something, dos Beatles, que começa com os versos "Alguma coisa no jeito que ela se move me atrai como nenhum outro amor". Uma verdadeira ode ao carisma de Phedra.

Os atores Bruno Gael, Fabio Ock, Fábio Penna, Tiago Leal e Henrique Mello são como pajens, rodeando as duas figuras centrais da obra.

BONECA ANDRE STEFANO POSTER Crítica: Satyros inverte lógica e Phedra D. Córdoba vive intensamente e canta Beatles em Não Morrerás

Rodeada pelos atores Henrique Mello e Bruno Gael, a atriz Katia Calsavara se transforma em uma boneca quase perfeita, não fosse a falta de vida, na peça Não Morrerás, do grupo Os Satyros - Foto: André Stéfano

Porque, em contraponto a Phedra, está a personagem de Katia Calsavara, uma boneca ciborgue cujo rosto coberto pela tela de um tablet vai sendo modificado ad infinitum, tal qual os obcecados por plásticas dos tempos atuais. Uma direta e poética crítica à ditadura da beleza.

E o público logo percebe que a personagem de Katia, que a constrói de forma sensível, é desprovida de vida, mesmo diante de toda beleza pré-fabricada. A seu lado, ali, no auge dos seus 75 anos, com sua beleza concreta e histórica, Phedra está muito mais viva e plena do que aquela boneca, praticamente morta em sua beleza inventada.

É por inverter a lógica óbvia que Não Morrerás se destaca. E, claro, por colocar Phedra no lugar em que merece estar: o de diva maior da praça Roosevelt, reinando sobre o palco mais inquieto do teatro alternativo paulistano.

Não Morrerás
Avaliação: Muito bom
Quando: Domingo, 15h30. 50 min. Até 28/9/2014
Onde: Espaço dos Satyros 1 (praça Roosevelt, 214, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Satyros inverte lógica e Phedra D. Córdoba vive intensamente e canta Beatles em Não Morrerás

 Leia mais sobre Phedra D. Córdoba!

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Foto do BOB SOUSA
Por MIGUEL ARCANJO PRADO

philippe gaulier foto bob sousa5 O Retrato do Bob: Philippe Gaulier, palhaço mestre
Philippe Gaulier acaba de completar 71 anos. Deu-se de presente aceitar uma viagem ao Brasil. Mas, não para fazer turismo. Muito pelo contrário. Esteve por aqui para disseminar seus conhecimentos sobre o universo clown em disputada oficina no Sesc Belenzinho, em São Paulo. No banco de aluno, os principais mestres do humor e pesquisadores do gênero do País. Palhaço respeitado e aclamado mundialmente, o artista francês é o criador da École Philippe Gaulier, em Paris, que ensina uma arte inteligente e provocativa há mais de 30 anos. Discípulo de Jacques Lecoq, ele apostou nas ideias próprias e ganhou seus seguidores de distintas nacionalidades, mas com uma coisa em comum: o amor pelo riso.

EXCLUSIVO: "Gente séria é muito perigosa", diz Philippe Gaulier

Visite o site de Bob Sousa

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