Ruy Guerra e Franciely Freduzeski 1 de 1 Ruy Guerra constrói beleza com paixão e miséria humana no espetáculo Exilados

O diretor de Exilados, Ruy Guerra, posa com a atriz Freciely Freduzeski - Foto: Marcos Ribas/Divulgação

Por Luciana Rafaela Duarte, em Buenos Aires
Especial para o Atores & Bastidores*

O texto de Exilados, espetáculo em cartaz no Teatro Nair Bello, em São Paulo, após uma apresentação de sucesso na Embaixada do Brasil em Buenos Aires, no começo do mês, é forte. Os personagens criados por James Joyce são todos fortes. Falam alto, com firmeza, mas se pode notar o desespero por detrás do silêncio de suas almas.

Mais um triângulo amoroso. É quase sempre tão difícil desvendar as relações humanas... Talvez por isso o fascínio que exercem relações “perigosas”: não-monogâmicas e, se ocultas, melhor ainda. Dois amigos, uma mulher.

Nos diálogos vamo-nos perdendo, sem saber se o problema entre eles é que se amam todos e têm ciúmes uns dos outros, ou se acabaram se perdendo pelos corredores da vida diária e não sabem se vão ou se ficam.

Quem melhor que o diretor Ruy Guerra pra dar o tom a esse desenrolar de teias de solidão, luxúria, medo, aparências... ilusão? Ruy Guerra apaixonado, visceral, esse poeta-escritor, roteirista, fotógrafo, mestre do cinema põe-nos diante dessa trama instigante, sob o fio da provocação, buscando compreender a tênue separação entre sentimentos e ideais.

Por exemplo, quando Bertha (Franciely Freduzeski) faz o jogo que o marido, Ricard (André Garolli) pede, deixando-se levar pela sedução do amigo, Robert Hand (Álamo Facó) para ver até onde este vai, num momento, enfada-se, (ela, mulher de personalidade forte e moderna), questiona o amor e valores de seu marido que a entrega e abandona-a por seus ideais de liberdade.

Tudo isso num texto dilacerante, direto e, às vezes, estupidamente sincero, sobretudo por parte de Robert, que em tal turbilhão de emoções presenteia o público com uma certa leveza pueril. O elenco ainda tem Cristina Flores, como Beatrice, e Joana Medeiros, como Brigid.

E, no vaivém dos dilemas dos personagens identificamos um retrato da natureza humana tão sutil como verdadeiro. Somos grandes, fortes, modernos, altruístas. Mas também covardes, confusos, mentirosos e corruptíveis.

A crítica da época (1918) disse que via na obra muito da biografia do autor. E que tudo se tratava do problema da sinceridade e de sua definitiva impossibilidade, visto que sempre leva à solidão aquele que por amor tentou ser autêntico.

Passa por minha cabeça a temática da moda entre casais: o Swingers. Tão em voga, que aqui em Buenos Aires, o longa Dos Más Dos [Dois Mais Dois] é campeão de bilheteria. Trata-se de uma tentativa de sinceridade? Uma fuga dos amores ao estilo “amantes”? Querer colocar no mesmo combo “o cimento da casa e o perfume do ar”?

Com o aval dos envolvidos, óbvio. Uma amiga me conta que começou a namorar há poucos meses um cara que parece adorável. De imediato, início da paixão, sexo manhã, tarde, e noite, o que para ela é um santo remédio depois de um casamento brochante de dez anos. Só que o cara vem com a proposta: “Quero você, mas, de vez em quando, mais alguém pra nos animar”.

Ela se ressente (como não quer só a mim? ), mas, como Bertha, segue em frente.

Exilados, sucesso há tanto tempo e tão atual. Porque as paixões e misérias humanas são sempre as mesmas. Muitas vezes mudam de roupa e põem um pouquinho de maquiagem, que é a roupagem que cada época imprime em seus atores.

O grande barato é encontrar alguém que as conte de uma forma poética, delicada, sem perder a vitalidade da força do argumento. Ruy Guerra faz isso. Apropria-se dos conflitos de Joyce e conduz seu maravilhoso elenco fazendo da obra mais um êxito de sua longa e belíssima produção artística.

*Luciana Rafaela Duarte é pedagoga e estudante de comunicação na Universidade de Buenos Aires. Ela escreveu esta crítica a convite do blog.

Exilados
Avaliação: Ótimo
Quando: Sábado às 21h. Domingo às 18h. Até 7/10/2012
Onde: Teatro Nair Bello - Shopping Frei Caneca (r. Frei Caneca, 569 - 3° andar, São Paulo, tel. 0/xx/11 3472-2414)
Quanto: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
Classificação: 12 anos

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2 Comentários

"Ruy Guerra constrói beleza com paixão e miséria humana no espetáculo Exilados"

19 de September de 2012 às 15:30 - Postado por Miguel Arcanjo Prado

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Comentários
  • Gabriel Oliveira
    - 19/09/2012 - 10:26

    Quero parabenizá-lo Miguel Arcanjo, por abrir o blog para publicações externas à redoma que é São Paulo. E que texto ótimo da Luciana Rafaela hein! Estou felicíssimo por poder ler tal crítica a respeito de uma obra facinante, como é o texto "Os Exilados" de James Joyce. Adorei quando ela expôs a realidade que vive Buenos Aires com a temática de Swingers, retrato cosmopolita. Mais uma vez muito obrigado a vocês pelo recorte da peça de Ruy Guerra, e agora me deixaram super ancioso por assistir ao espetáculo. Será que Ruy vem para a província Belorizontina?! hashasashashashas

    Responder
    • Miguel Arcanjo Prado
      - 19/09/12 - 13:28

      Gabriel, a peça vai viajar o Brasil. Acho que deve passar por BH, sim. Se for aí, você escreve pra gente! Abraços!

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