farnesedesaudade Artista que transformava lixo em arte, Farnese de Andrade vira espetáculo no Rio de Janeiro

O ator mineiro Vandré Silveira busca decifrar o artista Farnese de Andrade - Divulgação

Por Átila Moreno, no Rio
Especial para o Atores & Bastidores*

O monólogo Farnese de Saudade, como num big bang teatral, começa na escuridão. Por um determinado momento, não se sabe ao certo onde o ator está. Só pela voz, o público tenta identificá-lo ou acompanhá-lo. Dali em diante, se forma uma viagem dentro do universo pouco explorado do artista plástico mineiro.

E veio justamente de Minas Gerais a louvável tentativa de elucidar quem teria sido Farnese de Andrade (1926-1996). Seu conterrâneo, Vandré Silveira, cria e encena uma enigmática montagem, que tenta mostrar essa pulsão criativa e conflituosa por trás de um gênio.

O desenhista, gravador e pintor, nascido em Araguari, no Triângulo Mineiro, escolheu o Rio de Janeiro como moradia e ateliê natural. Saía pelo Aterro do Flamengo em busca de peças descartadas por pessoas e pelo mar.

Só que Farnese não foi um reciclador de coisas, pelo contrário. Suas obras desconstroem a utilidade dos objetos e a estética chega a causar sentimentos dicotômicos de estranheza e admiração.

A compulsão em guardar e reter objetos pode ter sido uma válvula de escape causada pela própria introspecção e quem sabe isso o tenha ajudado a suportar a própria personalidade complexa (ou não).

farnesedesaudade2 Artista que transformava lixo em arte, Farnese de Andrade vira espetáculo no Rio de JaneiroÉ nesse ponto que Vandré Silveira consegue se aproximar de uma certa essência do artista. E como o próprio, ele também se torna um invejável artesão, só que de sentimentos e histórias.

O ator corria o sério risco de parecer deslocado ao se deparar com tamanha intensidade dramática. Ainda mais por trazer um texto desconexo e desconstruído, conforme sugere a personalidade desse artista.

Cenário é destaque

Característica que faz uma aliança com o cenário (instalação projetada pelo próprio ator). Uma gaiola em forma de cruz preenchida com diversos objetos que fazem alusão ao intrigante inconsciente do artista. O monólogo foi indicado ao 25º Prêmio Shell de Teatro, na categoria melhor cenário.

A riqueza de detalhes fica representada em gamelas, oratórios, discos de vinil, pedaços de bonecos, madeiras e santos, e chega mesmo a ser intimista. O figurino, assinado por Celina Sodré (que também dirige a peça) ecoa pela mesma vertente. Vandré Silveira usa um estilo de roupa que expressa uma utilidade inversa, tal como algumas obras de Farnese.

Há um desenho na parte trazeira da cabeça do ator, que está toda raspada e tem a figura do rosto de Farnese. Várias vezes Vandré Silveira gira e dá as costas para o público. Uma linguagem corporal selada numa desconcertante harmonia.

Mesmo assim o ator não perde o tom na dramaticidade e sequer chega a parecer ridículo. Encontra o ápice quando reflete as relações de Farnese com o pai, com as crianças e com a religião. Não há como não concordar ou tão pouco se chocar com a frase: "Criança é uma tortura, né? É uma tortura chinesa permanente para as pessoas adultas".

A vantagem é que o ator não joga aleatoriamente referências e dilemas pessoais que envolvem o trabalho de Farnese. Ele as instiga num trabalho excepcional. Por exemplo, ao citar a deficiência cerebral do artista em não guardar bem as informações, devido a um acidente na infância, Vandré Silveira dialoga com uma possível explosão criativa desencadeada depois dessa fatalidade.

Faz ainda uma relação com o trabalho de resina utilizado pelo artista, que num momento torna a obra em si aprisionada. Será que também não acabou se tornando um refúgio das tensões de Farnese? A cena que mostra Vandré Silveira queimando pequenos bonecos, numa rara calmaria durante a montagem, chega a unir um ar de magia e tristeza. É mistura de colírio nos olhos e socos na alma.

Farnese de Saudade
Avaliação: Bom
Quando: Sábado a Segunda, 20h. Até 26/11/2012
Onde: Instituto do Ator (rua da Lapa, 161, Lapa, Rio, tel. 0/xx/21 2224-8878)
Quanto: R$20 (inteira) e R$10 (meia-entrada)
Classificação: 16 anos

*Átila Moreno é jornalista e escreveu esta crítica a convite do blog.

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"Artista que transformava lixo em arte, Farnese de Andrade vira espetáculo no Rio de Janeiro"

28 de October de 2012 às 11:23 - Postado por Miguel Arcanjo Prado

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