Por Átila Moreno, especial para o Atores & Bastidores*

As relações sociais em carne viva, mas sem vida, é o cardápio oferecido em Amores Surdos, peça de 2006, do grupo mineiro Espanca!, que segue em temporada pelo Rio de Janeiro no CCBB.

Amores Surdos Família histérica transforma casa em ringue, em Amores Surdos, do grupo mineiro Espanca!

Amores Surdos está no CCBB-RJ - Foto: Guto Muniz

Desde outubro, o Espanca! apresentava na capital carioca o tão pouco digestível Líquido Tátil, escrito e dirigido pelo argentino Daniel Veronese, que também abordava a incapacidade de comunicação entre as pessoas.

Amores Surdos, dirigido por Rita Clemente, é bem mais dinâmico, com texto e atuação fluindo de forma natural. A história gira em torno de uma mãe e seus quatro filhos que moram na mesma casa.

Ali se transfigura uma família totalmente desmembrada, que parece não falar a mesma língua e que dificilmente chega a um ponto em comum, a não ser na histeria coletiva.

No início da peça, o ator Assis Benevenuto começa a desfiar o texto do seu próprio personagem, o sonâmbulo Joaquim. É como se ele jogasse um novelo de ideias desconexas quando começa a interagir com a plateia. E se torna o primeiro sinal de que a realidade ali também se desintegra.

Outra grande artimanha do texto de Grace Passô (que também interpreta a mãe zelosa) é utilizar as patologias e excentricidades dessa família como metáforas da difícil arte do convívio social.

O sonambulismo de Joaquim, a asma de Pequeno (Gustavo Bones), a agorafobia de Samuel (Marcelo Castro) e o “autismo” de Graziele (Mariana Maioline) são elementos que apontam uma disfunção social do que psicológica. Além do mais, é como se cada problema pessoal não fosse estancado dentro da própria bolha protetora e sufocante da matriarca.

Outro recurso utilizado que chama atenção, mesmo já sendo manjado, é o de trazer números musicais, que vão quebrando o fluxo de determinadas cenas. O que sugere sujeitos e atitudes que se tornaram mecânicos diante da rotina do dia a dia.

O exagero e o absurdo (convém não especificar tanto pra não dar um spoiler) entram em cena na figura de um inesperado ser e na lama que se espalha pela sala de estar. E ,como quase toda família, a de Amores Surdos não seria diferente.

Insiste em jogar tudo que é podre para debaixo do tapete. Um curto-circuito pra quem se permitir refletir. O Espanca! fica no Rio de Janeiro até início do ano de 2013 com outras peças em cartaz como Por Elise e Marcha para Zenturo.

*Átila Moreno é jornalista e escreveu a crítica a convite do blog.

Amores Surdos
Avaliação: Bom
Quando: quarta a domingo, 19h. Até 25/11/2012
Onde: CCBB - Centro Cultural Banco do Brasil (r. Primeiro de Março, 66 - Centro, Rio de Janeiro, tel. 0/xx/21 3808-2020)
Quanto: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia-entrada)
Classificação: 12 anos

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"Família histérica transforma casa em ringue, em Amores Surdos, do grupo mineiro Espanca!"

11 de November de 2012 às 11:40 - Postado por Miguel Arcanjo Prado

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