cleo bobsousa2 Cléo De Páris, a musa do teatro de um tempo e de um lugar chamado praça Roosevelt

Cléo De Páris é uma das mais celebradas musas do teatro paulistano - Fotos: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Bob Sousa

É fácil se perder nos olhos azuis piscina de Cléo De Páris. Muita gente não sabe, mas ela preferiria “ter olhos pretinhos básicos”, para evitar a fotofobia, “inconveniente” de sua beleza. E é no fundo de seus olhos claros que se escondem os mistérios da atriz que provoca medo e desejo.

Na frieza da metrópole chamada São Paulo a gaúcha interiorana se encontrou. Mora só. No alto de um prédio da rua Augusta, coração do centro da cidade. Nasceu “num outro universo”, a pequena Barão de Cotegipe, no norte do Rio Grande do Sul, onde carro não passa na rua depois das dez da noite. Todos dormem cedo. É filha primogênita do caixeiro viajante Danilo e da dona de casa Marília. Irmã mais velha de Daniel, “o maior amor” de sua vida.

Ainda menina, morando “em uma casinha”, topou com a arte por meio da dança. Um dia, a professora incorporou uma fala em uma apresentação. Tomou um susto e se encontrou. “Toda criança atua. A diferença é que alguns crescem e param. Os atores, como eu, continuam”. No meio tempo, a música ganhou espaço. Cantou em um orfeão, onde, tímida, se sentia mais confortável em meio a tantas crianças. “Torcia para não ganhar prêmio, para não ter de subir no palco”.

cleo bobsousa1 Cléo De Páris, a musa do teatro de um tempo e de um lugar chamado praça Roosevelt

A atriz Cléo De Páris já dançou e cantou - Foto: Bob Sousa

Como vida artística “parece ser hobby e não profissão”, cresceu e foi estudar outra coisa. Fez jornalismo na PUC de Porto Alegre. Formou-me na mesma turma que a jornalista Patrícia Poeta, hoje na bancada do Jornal Nacional.

Mas sabia que seu lugar estava em outro lugar. “Só fui buscar o diploma no ano passado”. Durante a faculdade, entrou para o grupo teatral Companhia das Índias. Abriram espaço próprio, o Clube de Cultura, com bar, onde montavam suas peças. Uma espécie de pré-Satyros em sua vida. “Éramos muito trupe”.

No meio tempo, se envolveu com a turma do cinema, fez curtas, e com a turma da música, virou vocalista da banda A Cretinice Me Atrai.

Gravou disco que foi criticado pelo John do Pato Fu na revista Showbizz, compôs música com Edgard Scandurra e tocou no Skol Beats. Em meio a tantas “loucuras”, se casou na igreja com o também ator Leonardo Machado. Vestida de branco. Aos 25 anos.

Rio e Sampa

Porto Alegre ficou pequena. Foi para o Rio com o marido. Não deu certo. Nem a cidade nem o casamento. “Hoje, o Léo é um grande amigo. A gente se conheceu e quatro meses depois nos casamos na igreja. Foi muito louco, mas foi bom esse período.” Sabe que algumas coisas têm seu tempo de ser.

Em terras cariocas, não se deslumbrou com a possibilidade de fazer TV. Definitivamente, não era sua praia. “Não tenho vontade de ficar famosa, de não conseguir mais ir à padaria ou andar de ônibus. Gosto da minha vida do jeito que ela é”. Aproveitou a temporada de um espetáculo carioca em São Paulo e resolveu se instalar na cidade, onde sempre se sentiu à vontade. “Desde criança, gostava de ir a São Paulo com minha mãe, de andar de elevador e escada rolante. Era o máximo para mim.” Chegou à cidade e entrou no metrô com uma mala vermelha de rodinhas. Tinha toda a certeza do mundo.

Entrou para o CPTzinho de Antunes Filho, morou com amigos em lugares inusitados e teve trabalhos diversos para conseguir a grana do aluguel. “Fiz até degustação de maionese no saguão do teatro”. O amigo Dionísio Neto, que havia conhecido no Rio nas filmagens de um filme que nunca estreou, acabou lhe abrindo as portas do primeiro espetáculo paulistano, Corações Partidos ou Contemplações de Horizontes.

Arrumou marido novo, o artista plástico Zed Nesti, e ficou amiga da turma da arte. Os cartunistas Adão, Angeli e Laerte eram habitués do apartamento na alameda Santos. “A gente tinha um gato incrível chamado Maestro”. O novo casamento durou quatro anos.

Nesse meio tempo, um outro Laerte que não era cartunista apareceu, o Laerte Késsimos, amigo que conheceu em um grupo de estudos. Ele foi ver sua peça, levou flores e lhe disse que o grupo dele, Os Satyros, procurava atriz para fazer uma substituição em A Filosofia da Alcova. “O Zed costuma dizer que foi preciso dois Laertes para eu chegar aos Satyros”.

Cléo viu a peça, cheia de cenas de sexo e perversão, fez o teste e pediu a Deus que o diretor Rodolfo García Vázquez não a chamasse. Ele não chamou. O papel ficou com Danielle Farias, atriz com quem o grupo já havia trabalhado. Mas mantiveram contato e, mais para frente, em 2005, recebeu o convite para integrar o novo projeto da trupe: A Vida na Praça Roosevelt. Não pensou duas vezes e disse sim. “Foi uma experiência linda, percorremos o interior de São Paulo e fomos para a Alemanha”.

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A atriz Cléo De Páris integra o grupo Os Satyros e é fundadora da SP Escola de Teatro - Foto: Bob Sousa

Durante os ensaios, acabou ganhando aquele papel de A Filosofia da Alcova. “A Dani acabou tendo de sair e o Rodolfo disse que seria natural que a substituísse. Ele me disse que eu já estava preparada e que seria um divisor de águas na minha carreira”. E foi. Ficou dois anos na peça. “Desde então, não parei mais de trabalhar. Achei o meu lugar”.

Diz que, no Satyros, se identifica com o “impulso criativo, a coragem”. “O Rodolfo e o Ivam [Cabral] não conhecem o não. Eles falam ‘vamos fazer’ e fazem. Eles têm uma coisa lunática, fantástica.”

Cléo, a Musa

Bem antes de ser Musa do Teatro R7, virou musa dos Satyros e, automaticamente, da praça Roosevelt, que virou point cult da cidade graças ao trabalho da trupe. Diz levar o título na brincadeira. “Nunca me senti especial, 'a musa'. Quando fiz Cosmogonia, o Emerson Fernandes, que fazia a técnica, me chamava de musa porque minha personagem era uma musa. E ele faz isso até hoje. Então, o direito autoral é dele [risos]. Um dia estava dando uma entrevista para um TCC sobre os Satyros e a estudante me perguntou como era ser a musa da praça. Eu falei ‘imagina, isso é brincadeira’. Aí, justo naquela hora, o Emerson passou e gritou: ‘Oi, musa!’ Foi muito engraçado”.

Ultimamente, anda pensando em fazer dança de salão, porque acredita que “dançar é como viver mais”. E tenta reabilitar sua relação com a música. Pediu para cantar Falsa Baiana no show de Gero Camilo e Paula Cohen no Parlapatões. Quando olha para o passado e o nome que construiu ao lado dos Satyros, além da SP Escola de Teatro, que ajudou a fundar, constata: “Foi tudo muito rápido. Foi muito bom e também muito dolorido em muitos momentos”. Sobre o grupo deixar a praça Roosevelt, diz que “parece injusto, mas nem sempre a vida é justa”.

De uma certa maneira, Cléo De Páris ainda é aquela menina do interior deslumbrada com a fala no palco. E é também a mulher que hoje vive no alto da Selva de Pedra, mas que não gosta de morar sozinha.

Sente falta do amor. É moça casadoira. Conta que está meio enrolada. Com o também ator Fábio Penna. Queria que as coisas ficassem mais definitivas. Revela que quer “ter um filho”. E pensa em passar o futuro fazendo menos teatro e cuidando mais de plantas. Quer estar mais perto da natureza. Aos 40 anos, prefere a simplicidade da vida à ambição. Valoriza o amor de família.

Mas sabe que vive a sina que desenhou para si, com sua ousadia, com seus grandes passos. Vive a dor e a delícia de ser ícone de um lugar, de um tempo. Demonstra saber, num curto silêncio, ser Cléo De Páris, a musa dos Satyros da praça Roosevelt. E, por incrível que possa parecer, a personagem preferida da atriz dos mais belos olhos do teatro nacional era cega. Mas, era linda e se chamava Absoluta.

cleo bobsousa4 Cléo De Páris, a musa do teatro de um tempo e de um lugar chamado praça Roosevelt

Cléo De Páris vive a dor e a delícia de ser ícone de um tempo e de um lugar - Fotos de Bob Sousa

Agradecimentos: Guilherme Nutti (maquiagem) e Jogê (lingeries)

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1 Comentário

"Cléo De Páris, a musa do teatro de um tempo e de um lugar chamado praça Roosevelt"

20 de December de 2012 às 06:00 - Postado por Miguel Arcanjo Prado

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Comentários
  • O Retrato do Bob: Cléo De Páris, a atriz e o camarim - Teatro Atores & Bastidores - R7
    - 30/09/2013 - 9:40

    [...] Cléo se sente em casa, no camarim do Espaço dos Satyros, na praça Roosevelt, lugar do qual é eterna musa. Em Édipo na Praça, vive Jocasta, na montagem de Rodolfo García Vázquez. Apesar das [...]

    Responder
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