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Entrevista de Quinta: Novo curador teatral do CCSP, Kil Abreu quer palco inteligente e popular

Postado por Miguel Arcanjo Prado em 21/02/2013 às 15:12 em Sem categoria | 2 Comments

kil abreu foto miguelarcanjoprado Entrevista de Quinta: Novo curador teatral do CCSP, Kil Abreu quer palco inteligente e popular [1]

Kil Abreu: "Estou com Brook: 'é preciso saber fazer com ou sem dinheiro'" - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Por Miguel Arcanjo Prado

O jornalista, crítico e estudioso do teatro Kil Abreu é uma das principais cabeças que pensam as artes cênicas contemporâneas.

Ele acaba de assumir uma missão e tanto: ser curador da programação de teatro do Centro Cultural São Paulo, um dos principais espaços artísticos da capital paulista.

Nascido em Belém do Pará, em 5 de outubro de 1968, Kil está radicado em São Paulo desde 1995. É responsável pela formação de críticos e artistas da nova geração, com suas aulas cheias de teoria teatral misturada com um olhar aguçado para o palco na SP Escola de Teatro. E também pela consagração de artistas: foi jurado do Prêmio Shell, curador do Festival de Curitiba e é membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes).

Kil também já foi diretor do Departamento de Teatro da Secretaria Municipal de Cultura, durante a gestão de Marta Suplicy, quando coordenou, entre outras coisas, a implantação da tão necessária Lei de Fomento ao Teatro, o Programa de Formação de Público e o Teatro Vocacional.

Além de jornalista, é mestre em Artes Cênicas pela USP (Universidade de São Paulo) e foi crítico teatral do jornal Folha de S.Paulo e da revista Bravo!.

Homem simples e generoso, apesar do impressionante currículo, Kil Abreu recebeu o Atores & Bastidores do R7 para este bate-papo sobre seu atual momento.

Leia com toda a calma do mundo:

Miguel Arcanjo Prado – Qual será a cara da sua gestão à frente da área de teatro do CCSP?
Kil Abreu – O quadro do teatro no CCSP tem avanços e demandas. Do ponto de vista estrutural, o Centro está saindo de uma reforma importante. Temos uma Sala Jardel Filho em melhores condições, e isto é ótimo. Por outro lado, a Sala Paulo Emílio agora é só para Cinema, e temos o Espaço cênico Ademar Guerra, que pela sua característica – a de ser um espaço experimental – é hoje o mais concorrido, mas ainda precisa de ajustes que estão em projeto.

kil abreu foto miguelarcanjoprado 3 Entrevista de Quinta: Novo curador teatral do CCSP, Kil Abreu quer palco inteligente e popular [2]

Kil Abreu posa para o R7 no Centro Cultural São Paulo - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado – O CCSP é um espaço muito querido...
Kil Abreu – O fato é que o Centro Cultural é um espaço de grande importância, referencial, para os artistas e para a população. Há projetos para novas salas, que eu espero que ganhem andamento, mas isto é no longo prazo. No momento, as salas que temos, que têm boa estrutura, são divididas com a dança e com a música.

Miguel Arcanjo Prado – E o que fazer diante dessa falta de espaço?
Kil Abreu – Diante deste quadro, uma das minhas propostas, que esbarra na questão das verbas, é estender o conceito da programação na direção de outros espaços – os externos do próprio CCSP, mas também os espaços públicos da cidade. Inclusive porque uma parte importante da produção já não tem interesse nas salas. Gostaria (e digo isto propositalmente na condicional) de ver a programação avançar para fora do espaço físico da instituição. É claro que isto é quase uma utopia, mas é preciso começar olhando lá longe. Vamos ver o quanto podemos avançar.

Miguel Arcanjo Prado – Quais são os principais projetos que você quer trabalhar?
Kil Abreu – Neste momento o mais adequado seria falar em diretrizes. Há uma vocação do CCSP que já indica os caminhos que julgo mais produtivos. Devemos trabalhar com um teatro mais próximo ao experimental e à pesquisa artística e ao mesmo tempo popular no acesso.

Miguel Arcanjo Prado – E dá para conjugar essas duas coisas?
Kil Abreu – São coisas que podem perfeitamente seguir alinhadas. É claro que quando digo “experimental” vejo nisso a necessidade de que a experiência tenha estofo formal e de pensamento, não é um vale-tudo. De todo modo, este diálogo entre a aventura artística e o acesso popular é da maior importância. Interessa tanto a uma parte do melhor teatro criado em São Paulo quanto à possibilidade de que ele possa ser visto pelo público comum, não especializado.

Miguel Arcanjo Prado – Isso é bom. Não fazer teatro só para a classe artística...
Kil Abreu – Se a matéria artística, ainda que experimental, for de boa qualidade isto pode ser um excelente modo de formação de plateias, e por vias mais sofisticadas que as usuais. Ainda não sei se será possível, mas pretendo pautar espetáculos “frescos”, que estejam estreando no Centro ou que venham de temporadas recentes. É uma maneira de tentar renovar o interesse do público também.

Miguel Arcanjo Prado – Está preparado para as críticas que sempre vêm quando alguém assume um cargo público?
Kil Abreu – Sim, mas não creio que seja uma função de tanta visibilidade a ponto de mobilizar o interesse profundo das pessoas. É um trabalho importante como o são o de todos os outros parceiros e parceiras que trabalham nas curadorias do CCSP.

ccsp joao carlos renno divulgacao Entrevista de Quinta: Novo curador teatral do CCSP, Kil Abreu quer palco inteligente e popular [3]

Centro Cultural São Paulo - Foto: Carlos Rennó

Miguel Arcanjo Prado – É um trabalho de equipe, assim como o teatro.
Kil Abreu – Sim, e é uma equipe grande e bacana. De qualquer maneira, não é a primeira vez que passo pelo serviço público. Fui diretor do Departamento de Teatro da Secretaria Municipal de Cultura nos dois últimos anos da gestão Marta Suplicy e ali gerenciei junto a um pequeno batalhão de agentes culturais, entre outras coisas, os primeiros momentos de implantação da Lei de Fomento ao Teatro, o Programa Formação de público (que atendeu a centenas de milhares de estudantes e docentes), o Teatro Vocacional, etc. Foi uma aventura intensa e com todos os problemas que já conhecemos a respeito do processo de uma política cultural mais avançada dentro da máquina, que tende a só reconhecer a si mesma e é o avesso da cultura. Aquele momento foi rico neste aspecto também: para nos colocar no centro da avaliação, o que é mais que justo. Acho não só natural como necessário. Mesmo em posições modestas como esta uma gestão que não reconhece a crítica tende a também não reconhecer a diferença entre o público e o privado. E a tarefa é cuidar do bem comum, que não é pessoal, é da cidade.

Miguel Arcanjo Prado – Você acha que este novo governo municipal, do Fernando Haddad, vai olhar mais para a turma do teatro?  
Kil Abreu – Sinceramente, não julgo que o teatro em São Paulo esteja desamparado, nem que o Governo Kassab não tenha olhado para ele. Eu desejaria a mesma situação para a grande maioria das capitais, Brasil afora, que vivem quadros calamitosos não só no teatro, mas em todos os aspectos da política cultural. É claro que sempre se pode avançar e não são poucas as demandas para uma cidade deste tamanho. Mas, em São Paulo há instrumentos legais que forçam esse olhar na direção do teatro e que são frutos da mobilização dos artistas. É uma garantia. Não tenho nenhuma dúvida de que a nova gestão vai cuidar muito bem disso.

Miguel Arcanjo Prado – E como será a verba que você vai administrar?
Kil Abreu – É uma verba modesta. Em princípio, não haveria do que reclamar porque a ocupação das salas é feita tendo como contrapartida a bilheteria, que vai para o artista ou grupo. Mas, se observarmos que não se trata de um espaço vocacionado para o teatro comercial e que os preços dos ingressos são – têm que ser – acessíveis, aí já teremos uma boa tarefa, que é a seguinte: como manter a qualidade de uma programação que não pode ser pautada sob a promessa de sobrevivência através da bilheteria?

Miguel Arcanjo Prado – É uma questão complicada...
Kil Abreu – No meu ponto de vista, há de novo a questão do interesse público. Se é uma produção que carrega consigo um capital simbólico que interessa ao fomento da arte e ao usufruto da população, e que não sobrevive sozinha, deve haver uma contrapartida da gestão na direção dela. Não é porque a arte tem que ser necessariamente subvencionada. É que a arte que aquele espaço abriga, com razão, tende a não sobreviver em um esquema de bilheteria, como no teatro comercial. E há, além dos espetáculos, a programação de outras tantas atividades que o Centro pode comportar e que pedem investimento também. De todo modo, penso junto com o Peter Brook: é preciso saber o que fazer com ou sem dinheiro. Porque podemos fazer coisas ruins com muito dinheiro também.

kil abreu foto miguelarcanjoprado 2 Entrevista de Quinta: Novo curador teatral do CCSP, Kil Abreu quer palco inteligente e popular [4]

Kil Abreu quer levar a programação teatral do CCSP para outros lugares - Foto: Miguel Arcanjo Prado

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