phedra cordoba bob sousa4 O Retrato do Bob: Phedra D. Córdoba, fundamental

Atriz dos Satyros, Phedra D. Córdoba faz 76 anos: diva dos palcos alternativos - Foto: Bob Sousa

Fotos de BOB SOUSA
Por MIGUEL ARCANJO PRADO

26 de maio é data especial no teatro brasileiro. Dia de celebrar uma de nossas maiores divas. Afinal, é aniversário de Phedra D. Córdoba, a cubana que se converteu no maior nome dos palcos alternativos deste País. Phedra é Havana, é Walter Pinto, é calle Corrientes, é Medieval, é Nostro Mundo, é Homo Sapiens, é a árvore mais frondosa da Praça Roosevelt, pertence ao público. Phedra faz 76 anos. Merece mimos, carinhos e elogios. Porque conserva uma energia de menina. Quem duvida, vá vê-la cantar Beatles no Espaço dos Satyros 1, na peça Não Morrerás, da qual é estrela absoluta. Porque Phedra não sai do cartaz. Tem carisma de sobra. Tem técnica. Tem viço. Tem bom gosto. Tem elegância sutil. Tudo com seu sotaque gostoso de ouvir. É claro que ela teria de posar para o nosso Bob Sousa em data tão nobre. E em dose dupla. Porque Phedra D. Córdoba é fundamental.

phedra cordoba bob sousa11 O Retrato do Bob: Phedra D. Córdoba, fundamental

Phedra D. Córdoba, aos 76 anos: energia e carisma de uma eterna menina - Foto: Bob Sousa

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maria alice vergueiro tres velhas bob sousa Consagrada, As Três Velhas volta a São Paulo com Maria Alice Vergueiro em três sessões imperdíveis

50 anos de carreira: Maria Alice Vergueiro, em cena da peça As Três Velhas - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de BOB SOUSA

Quem não viu a montagem de As Três Velhas, com Maria Alice Vergueiro e seu Grupo Pândega de Teatro, tem chance única de conferir a aclamada obra se estiver em São Paulo. Sobretudo porque a montagem é do tipo obrigatória.

A peça volta para apenas três apresentações na SP Escola de Teatro, na praça Roosevelt, centro paulistano. As datas já estão fechadas: serão nos dias 2, 9 e 16 de junho, sempre às 21h. Os ingressos prometem ser disputados a tapa.

Na peça, Vergueiro atua ao lado de Luciano Chirolli e Danilo Grangheia. Todos em grande performance.

Escrito pelo chileno Alejandro Jodorowsky e traduzido por Fábio Furtado, o espetáculo teve concorridas temporadas na cidade e arrebatou público e crítica. Tanto que Maria Alice Vergueiro recebeu o Prêmio Shell Especial em 2011 justamente por conta da obra.

A montagem já passou pelo Rio, Florianópolis, Belo Horizonte, Londrina, Brasília, Fortaleza e Recife, entre outras cidades. E também foi apresentada em Cuba.

A peça mistura tragédia e comédia e é definida pelo autor como "melodrama grotesco"; o enredo mostra duas nobres decadentes, vividas por Chirolli e Grangheia, que são acompanhadas por uma criada centenária, papel de Vergueiro, que também dirige a obra. O talento e a química dos três atores em cena consegue chamar ainda mais atenção do que o texto.

Além de Vergueiro, integram o Grupo Pândega de Teatro, que existe há cinco anos, os artistas Fábio Furtado e Luciano Chirolli, Danilo Grangheia, Carolina Splendore e Elisete Jeremias.

Maria Alice Vergueiro é um dos maiores nomes do teatro brasileiro. Ao lado de Cacá Rosset e Luiz Roberto Galízia, fundou o Teatro do Ornitorrinco, que marcou época na década de 1970.

Em mais de 50 anos de carreira, coleciona sucessos como O Rei da Vela, no qual foi dirigida por José Celso Martinez Corrêa, Mahagony Songspiel, dirigida por Cacá Rosset; Electra com Creta, sob comando de Gerald Thomas e Mãe Coragem, dirigida por Sérgio Ferrara.

Poder vê-la em cena é um privilégio que não se pode perder.

as tres velhas bob sousa Consagrada, As Três Velhas volta a São Paulo com Maria Alice Vergueiro em três sessões imperdíveis

Os atores Danilo Grangheia e Luciano Chirolli: dois parceiros à altura do talento de Maria Alice Vergueiro no espetáculo As Três Velhas; três sessões apenas - Foto: Bob Sousa

As Três Velhas
Avaliação: Muito bom
Quando: 2, 9 e 16/6/2014, às 21h. 70 min.
Onde: SP Escola de Teatro – Sede Roosevelt (praça Roosevelt, 210, metrô República, 0/xx/11 3775-8600)
Quanto: R$ 30
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Consagrada, As Três Velhas volta a São Paulo com Maria Alice Vergueiro em três sessões imperdíveis

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roberto carlos Domingou: Roberto, não proíba mais um livro!

Roberto Carlos, sempre no holofote: não proíba mais um livro, por favor - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO*

Como não é bobo, Paulo Cesar de Araújo lançou nesta semana, sem alarde, seu livro O Réu e o Rei, pela Companhia das Letras, no qual esmiúça sua relação de amor e ódio com o cantor e compositor Roberto Carlos. Afinal, ele é gato escaldado.

Não dá para esquecer que o Rei conseguiu na Justiça o direito de recolher nas livrarias a biografia que Araújo escreveu sobre ele, lançada em 2007: Roberto Carlos em Detalhes. Hoje, os exemplares que sobraram são disputados por colecionadores.

Em entrevista exclusiva à repórter do R7 Paola Corrêa, Araújo contou o que pensa sobre seu antigo ídolo e hoje virou inimigo nos tribunais. “Roberto Carlos quer ter o controle de tudo”.

Tal pretensão soa inconcebível para uma figura pública. Desde o momento em que Roberto quis ser famoso – e lutou um bocado para isso –, deveria ter consciência de que estaria trilhando uma história que não pertence só a ele.

Agora, pelo menos parte dessa história não pertence mais apenas a ele: a briga na Justiça com Araújo foi pública e pertence aos dois, cada qual com sua versão. E o público tem o direito de ouvir — e ler — ambas.

É lamentável um artista transformar seu biógrafo em réu. Se Araújo houvesse feito um livro de má fé, repleto de inverdades inventadas, seria compreensível o ódio de Roberto. Mas, não. O livro é fruto de trabalho árduo, entrevistas intermináveis, mesmo aquelas depois desmentidas, como fez Chico Buarque, que logo precisou voltar atrás após Araújo apresentar provas, levando a moral do autor de Pedro Pedreiro lá para baixo.

Os advogados de Roberto, por sua vez, já anunciaram que estão lendo a nova obra de Araújo. Aos defensores da liberdade de pensamento e de informação, só resta pedir, com todo carinho do mundo: Por favor, Roberto, não proíba o segundo livro do cara! Você não merece entrar para a história como um artista que mandou duas obras para a fogueira.

Roberto Carlos precisa entender que não durará para sempre. E que as futuras gerações têm o direito de saber quem ele foi, o que fez, em uma visão mais isenta, que é a de um pesquisador.

O Brasil precisa acordar para o perigo que é transformar uma história em peça de marketing aprovada pelo protagonista. Geralmente, atitudes desse tipo são comuns a ditadores. Não a artistas.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e é contra a censura. A coluna Domingou, uma crônica semanal, é publicada todo domingo no blog Atores & Bastidores do R7.

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nas alturas 2 Crítica: Dança potente não salva musical Nas Alturas

Cena do musical Nas Alturas: street dance é destaque na montagem do texto da Broadway - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A montagem brasileira para o espetáculo norte-americano In the Heights, chamado por aqui de Nas Alturas – Um Musical da Broadway, chega ao fim neste domingo (25) no Teatro Bradesco, em São Paulo. André Dias é o responsável pela direção, enquanto que Paulo Nogueira assina a direção musical.

Em Nova York, a montagem foi conquistando público aos poucos, desde sua estreia na off-Broadway em 1999 até chegar às salas grandiosas da Broadway em 2008. Tudo por levar para o palco o mundo dos imigrantes latino-americanos tão comuns em Nova York, representados no bairro Washington Heights, cenário onde a história se passa.

A encenação brasileira tenta reproduzir a realidade latino-americana nova-iorquina — o cenário da montagem é um dos melhores dos musicais apresentados em 2014. Porém, a sensação é de que algo não sai a contento.

Algumas tentativas de aproximação da história tão norte-americana com a plateia paulistana soam forçadas, como ouvir um personagem chegar à cena dizendo que estava preso na Marginal, sendo que os cartazes atrás dele estão em inglês e os prédios de Nova York permanecem no horizonte.

nas alturas Crítica: Dança potente não salva musical Nas Alturas

Musical Nas Alturas foca na comunidade latino-americana nos EUA - Foto: Divulgação

O enredo escrito por Lin-Manuel Miranda é praticamente o de um folhetim básico e sem muita força dramática: o grande problema em questão é o de uma jovem que abandona a universidade, para desgostos dos pais latinos, que sonham em ver a filha diplomada nos EUA. Para desgosto ainda maior dos pais, ela namora um jovem que não tem a mesma origem. Aí mora um dos melhores aspectos do texto, que poderia ser melhor explorado: a discussão do preconceito justamente dentro de uma comunidade que tanto pena por ele.

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A homenagem aos latinos muitas vezes não soa como tal, já que sobram estereótipos, a começar nos figurinos de corres berrantes. É como ver uma visão de um norte-americano branco para os latinos que insistem em atravessar a fronteira de seu rico país. Falta um olhar mais crítico. Um dos subtextos presentes é de que um latino não consegue levar os estudos a sério e só pode vencer na vida se ganhar um bilhete na loteria. Fazer o “sonho americano” a partir do próprio mérito não seria possível para os latinos?

A montagem paulistana apresenta versões complicadas para algumas canções, cujos versos parecem teimar em não entrar na melodia, além do excesso de concretude, ou falta de poesia, dos mesmos.

As coreografias de Andy Blankenbuehler são potentes. Talvez, seja o melhor deste musical. Nos números de street dance, há uma força jovem presente, e até certo exibicionismo. E o elenco, composto de excelentes bailarinos, dá conta do recado.

Fica, entretanto, a sensação de que, em alguns momentos, a dança conjunta peca pelo excesso, deixando o palco confuso. O objetivo é mesmo impactar e deixar o espectador sem fôlego, mas isso o tempo todo dispersa a plateia, que fica sem foco. Muitas vezes, menos é mais.

nas alturas 4 Crítica: Dança potente não salva musical Nas Alturas

Casal de protagonistas: falta peso às atuações - Foto: Divulgação

O elenco poderia ter sido mais exigido e trabalhado, sobretudo para não deixar tão evidente a imaturidade, escancarada nas atuações. Muitos não conseguem sustentar um diálogo de mais de três frases. Outros apelam para uma atuação mais próxima à do teatro infantil.

Na execução das canções, a técnica é evidente, mas falta a sensibilidade de perceber que algumas colocações, sobretudo em agudos, deixam irritantes as vozes de algumas atrizes. Baixar o tom e trabalhar os graves teria sido melhor para os ouvidos mais sensíveis.

Há que se dizer que o elenco está entregue, mesmo que de forma quase inocente. Parece não ter consciência de seus percalços, executando as marcações da forma que podem. Aí, faltou uma mão mais pesada da direção em lapidar a turma com cuidado, sobretudo para não expor o elenco desta forma.

A exceção positiva está em Cleide Queiroz, na pele da “abuela” latina. Mais madura e com estrada artística, é a única a trazer algum tipo de verdade à encenação. A plateia retribui com aplausos generosos à sua performance.

O que Nas Alturas – Um Musical da Broadway explicita é que a produção brasileira de musicais anda tão farta que já podemos até a nos dar ao luxo de fazer um espetáculo que não dá tão certo assim.

Nas Alturas – Um Musical da Broadway
Avaliação: Fraco
Quando: Domingo, 19h30. 140 min. Até 25/5/2014
Onde: Teatro Bradesco – Shopping Bourbon (r. Turiassu, 2.100, Perdizes, São Paulo, tel. 0/xx/11 3670-4100)
Quanto: R$ 30 a R$ 180
Classificação etária: 10 anos
Avaliacao Fraco R7 Teatro PQ Crítica: Dança potente não salva musical Nas Alturas

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luiza ambiel Luiza Ambiel protagoniza comédia Nua na Plateia

Luiza Ambiel: nada de Banheira do Gugu, ela agora é atriz de teatro - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Luiza Ambiel ficou famosa em todo o Brasil na década de 1990, quando participava do quadro Banheira do Gugu, no programa Domingo Legal, no SBT. Aquele do sabonete.

Contudo, pouca gente sabe que ela se aventura há um bom tempo nos palcos paulistanos. E prefere falar de seu presente trabalho do que ficar relembrando o passado para sempre.

Após o furor televisivo, Ambiel se tornou atriz requisitada no mundo das comédias paulistanas, sobretudo nos teatros da Bela Vista dedicados ao gênero.

Sua mais recente incursão nos tablados é Nua na Plateia.

O texto de Ronaldo Ciambroni ganha direção do mineiro Ílvio Amaral (de Acredite, um Espírito Baixou em Mim), no Teatro Ruth Escobar, na Bela Vista, em São Paulo [veja serviço ao fim].

O enredo que já fez sucesso mais de duas décadas atrás foi transportado para os tempos atuais.

A peça conta a história de uma modelo, vivida por Ambiel, que tenta emplacar na carreira, mas acaba se envolvendo com picaretas. A obra desconstrói o glamour com que este mundo geralmente é visto. Com direito a muitas risadas.

Além de Ambiel, também estão no elenco Élcio Junior e André Maizena.

Nua na Plateia
Quando: Quinta, 21h30. 60 min. Até 29/5/2014
Onde: Teatro Ruth Escobar - Sala Gil Vicente (r. dos Ingleses, 209, Bela Vista, metrô Brigadeiro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3289-2358)
Quanto: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

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Amarillo Compania de Teatro Linea de Sombra13 Brasil abre o palco para teatro da América Latina

Um palco latino: o ator mexicano Raúl Mendoza, em Amarillo, do Teatro Línea de Sombra - Foto: Divulgação

Por MAÍRA DE CARVALHO MORAES e MIGUEL ARCANJO PRADO*

Um imigrante mexicano escala um muro intransponível em busca do sonho de imigração para os Estados Unidos. Um palhaço boliviano fala à plateia da resistência em fazer sua arte em um país com tantas dificuldades. Prostitutas, travestis e traficantes cubanos surgem detrás dos cantos escuros de Havana. Uma jovem Mapuche chilena brada contra o descaso governamental para com sua dor. Tais cenas puderam ser vistas em 2013 nos palcos brasileiros ao som da língua castelhana.

la muerte de un actor foto helio dusk Brasil abre o palco para teatro da América Latina

Público paulistano vê La Muerte de un Actor, com Antonio Peredo, da Bolívia - Foto: Hélio Dusk/SP Escola de Teatro

São imagens dos tempos atuais de um lugar chamado América Latina. E o teatro é arte intrinsecamente ligada a seu tempo. Efêmero, reflete no presente a sociedade que o gera em cima do palco. E, como tais enredos cênicos explicitam, a integração latino-americana começa a chegar de fato aos tablados, ainda que haja muito a avançar.

Há algum tempo, a discussão sobre a integração entre os países que formam a América Latina alcançava apenas a reflexão sobre o intercâmbio econômico. No afã de formar um grande mercado para competir no contexto global, as similaridades históricas, sociais e culturais entre os países latino-americanos, muito maiores do que nossos acordos econômicos, pareciam passar despercebidas.

No entanto, nos últimos anos, iniciativas de intercâmbio cultural têm sido mais perceptíveis. No teatro não é diferente. E isso ocorre mesmo sendo esta arte afetada pela precariedade de visibilidade e de financiamento.

Festivais latinos

Um dos eventos mais importantes no sentido de integrar os palcos desta região do planeta foi criado em 2006, quando houve a primeira edição da Mostra Latino-americana de Teatro de Grupo, a partir de então realizada anualmente no Centro Cultural São Paulo (CCSP) com entrada gratuita e público anual de cerca de 4.000 espectadores.

ney piacentini bob sousa Brasil abre o palco para teatro da América Latina

Ney Piacentini, idealizador da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo de São Paulo - Foto: Bob Sousa

A oitava edição aconteceu entre 16 e 21 de abril de 2013 e registrou participação de mais de cem artistas de 11 companhias teatrais latino-americanas. Idealizador do projeto, o ator Ney Piacentini, integrante da Cia. Do Latão e ex-presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, afirma que o evento promove intercâmbio entre grupos de teatro de diversas linguagens e orientações.

Piacentini conta que a Mostra dá espaço, prioritariamente, para produções alternativas. “Convidamos via de regra obras pouco conhecidas para o espectador de São Paulo, para quebrar protocolos na relação entre quem está em cena e quem os vê”, diz. A Mostra também promove um intercâmbio entre atores e encenadores, que demonstram e discutem seus processos criativos, além de assistirem mutuamente a todos os espetáculos.

Piacentini afirma que tal modelo inspira novos projetos. “Desde que lançamos a mostra, depois vieram o Festival Ibero-americano de Teatro de São Paulo [Festibero], realizado anualmente no Memorial da América Latina, o Festival Latino-Americano de Teatro da Bahia [Filte], e o Festival Ibero-americano de Artes Cênicas de Santos, o Mirada”, lembra.

Mais de 100 mil no Mirada

Realizado bianualmente pelo Sesc Santos desde 2010, o Mirada já se tornou, assim como a Mostra, referência entre os festivais latino-americanos. Enquanto na edição de 2010 foram 18 espetáculos internacionais e 13 nacionais, em 2012 o número cresceu para 23 peça internacionais e 15 nacionais. O público também dobrou: em 2010, 50 mil pessoas viram o Mirada. Em 2012, o número passou para 100 mil pessoas, segundo o Sesc São Paulo – metade deste número participante de atividades ao ar livre. A edição de 2014 já está agendada para setembro.

mirada Brasil abre o palco para teatro da América Latina

Público lota Sesc Santos, no litoral paulista, no Mirada: edição de 2014 será em setembro - Foto: Divulgação

Festivais como o Mirada, patrocinado por verbas do comércio destinadas ao Sesc São Paulo, em parceria com a Prefeitura de Santos, e a Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, cujo maior patrocinador é a Petrobras, são exemplos de eventos em que a presença das expressões teatrais de outros países da América Latina estão acessíveis.

A Petrobras, multinacional brasileira principal apoiadora da Mostra, tem interesses econômicos explícitos na América Latina, já que mantém atividades operacionais em nove países da região: Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Uruguai, Colômbia, Peru, Venezuela e México.

O incentivo, assim,  não é uma coincidência. Com essas ações culturais a empresa pretende vincular sua imagem à cultura e, consequentemente, à classe artística. Assim, gera empatia dos consumidores pela marca, firmando uma aproximação cultural, ainda que marcada pelo marketing.

Além da acolhida do público, esses eventos já conquistaram espaço e cobertura nos principais veículos de comunicação que cobrem o teatro. Mas, nem sempre a presença de espetáculos latino-americanos em território brasileiro foi algo bem visto pela imprensa, muito pelo contrário.

Passado de ataques

O ator Procópio Ferreira (1898-1979), no livro Procópio Ferreira Apresenta Procópio [Editora Rocco,2000], conta que foi achincalhado pelos jornais brasileiros em 1924, quando propôs a encenação no Brasil de peças argentinas, bem como a realização de viagens de montagens brasileiras a Buenos Aires.

O La Nación, tradicional jornal argentino, reconheceu o esforço de Ferreira, em matéria publicada em 15 de maio de 1924, na qual afirmou que “Procópio Ferreira tem sido inegavelmente o primeiro realizador do programa de divulgação do teatro argentino”.

Contudo, tal iniciativa não foi bem recebida na imprensa brasileira. O jornal carioca O Brasil chegou a dizer naquele então, em tom de deboche: “À guisa de aproximação sul-americana, começam a ser traduzidas para a nossa língua diversas pecinhas do teatro argentino, enquanto dizem por aí que algumas farsas do Teatro Nacional serão montadas em Buenos Aires”. A mesma publicação decretou: “De coisinhas para rir nós estamos fartos. Dispensa-se a troca”. Em resposta, Procópio Ferreira defendeu a integração em entrevista ao jornal A Noite, publicada em 8 de setembro de 1924. “Nas peças argentinas há teatro. E teatro a valer. Eu as represento com o maior encanto”.

foto autor Jefferson Del Rios Brasil abre o palco para teatro da América Latina

Crítica se aproxima: Jefferson del Rios pesquisou a obra do argentino Victor García - Foto: Divulgação

Demorou mais de 40 anos para que o teatro feito em parceria com a Argentina ganhasse reconhecimento da crítica especializada brasileira. Tal fato só veio a ocorrer em 1968, quando o diretor argentino Victor Garcia fez uma montagem em São Paulo do espetáculo Cemitério de Automóveis com atores brasileiros e abocanhou os prêmios de melhor diretor e melhor espetáculo da Associação Paulista de Críticos de Teatro, a atual APCA, como lembra Jefferson Del Rios no livro Victor Garcia – A Vida Sempre em Jogo (Edições Sesc SP, 2012).

Mineiros e portenhos

Na atualidade, o cenário é bem diferente daquele encontrado por Procópio Ferreira em sua tentativa de aproximação de nosso teatro com o feito por nossos vizinhos. O dramaturgo e diretor argentino Daniel Veronese, um dos grandes expoentes da cena portenha contemporânea, tem apresentado constantemente seus espetáculos no Brasil nos últimos anos.

fit grace Brasil abre o palco para teatro da América Latina

A atriz e diretora mineira Grace Passô, em cena do texto argentino O Líquido Tátil - Foto: Guto Muniz

Em 2013, teve sua peça O Líquido Tátil encenada sob sua direção pelo grupo Espanca!, de Belo Horizonte. Apresentada no Festival de Teatro de Curitiba e no Sesc Pompeia, em São Paulo, a peça destacou a integração entre os artistas de diferentes países como um de seus principais objetivos. Em 2014, foi apresentada no FIT-BH (Festival Internacional de Teatro, Palco e Rua de Belo Horizonte).

Grace Passô, atriz da montagem e diretora da trupe mineira, diz que partiu deles o convite. “O trabalho do Veronese é uma referência. Ele constrói trabalhos de estilos diferentes, com focos distintos, mas sempre com uma encenação radical”. Veronese também elogia o trabalho dos atores brasileiros. “São disciplinados e trabalhadores. Tivemos um ótimo contato porque eles são abertos a escutar”.

Experiências enriquecedoras

O grupo mineiro não é o único com vontade de intercâmbio. Lee Taylor, que integrou por dez anos o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Sesc São Paulo comandado por Antunes Filho e hoje dirige o Núcleo de Artes Cênicas (NAC), também confessa ser fã do trabalho de Veronese.

Ele revela que viu todas as montagens do argentino que estiveram em cartaz no Brasil. E conta que sempre está atento ao teatro que vem de outros países da América Latina.

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Tadeu Ibarra (acima) e Lee Taylor: atores brasileiros buscam dialogar com a América Latina - Foto: Bob Sousa

Taylor também já esteve do outro lado da moeda, apresentando-se em países da América Latina em peças de Antunes Filho, em lugares como Argentina, Colômbia e Peru. “Fiz estas viagens entre 2008 e 2012. Foram experiências enriquecedoras do ponto de vista de troca entre artistas do teatro. Pude confirmar a força das manifestações teatrais produzidas na América Latina. O que mais me chamou atenção foi a receptividade ao teatro brasileiro e a diversidade de produções nestes festivais”. Tal experiência faz Taylor declarar que “pretende afinar cada vez mais este intercâmbio” ao longo de sua carreira.

O ator carioca radicado em São Paulo Tadeu Ibarra, atualmente cursando a Escola de Arte Dramática da USP, também guarda boas lembranças de quando viajou como o grupo Os Satyros para o 14º Festival Internacional de Teatro de Havana, em Cuba, em 2011, mas crê que a viagem poderia ter sido mais proveitosa do ponto de vista de intercâmbio artístico. Na correria em apresentar sua peça, Cosmogonia, teve pouco contato com a cena cubana. “Foi muito trabalho, não consegui assistir a nenhuma peça do festival, apenas uma apresentação de um grupo folclórico”, lembra.

Por isso, agora aproveita suas férias para desbravar palcos vizinhos. Com parte da família uruguaia, Ibarra tem por hábito frequentar a cena teatral local sempre que visita o Uruguai. Além disso, sempre que há festivais que explorem a temática latina em São Paulo, faz questão de estar na plateia.

“Adoro assistir teatro latino-americano, não sei se pelo fato de parte de minha família ser uruguaia. Mas, acho que há muito mais incentivos para a vinda de grupos europeus para o Brasil, do que para grupos latinos”, lamenta o ator. Tadeu reforça que seu interesse no teatro latino-americano se dá “porque as problemáticas sociais são muito parecidas, bem como a estética e as dificuldades em se fazer teatro em um país sem estrutura”. E diz que, por isso, o diálogo acontece espontaneamente: “A gente se simpatiza, se entende”.

Boliviano no Brasil

Tal entendimento também ocorre do outro lado. Antonio Peredo, ator boliviano, se apresentou no Festibero 2013 com o monólogo La Muerte de Un Actor, em 2013, no qual se veste de palhaço para fazer uma reflexão da vida artística em seu país.

antonio peredo foto helio dusk Brasil abre o palco para teatro da América Latina

O ator boliviano Antonio Peredo: "Temos muito em comum" - Foto: Hélio Dusk/SP Escola de Teatro

Ele conta que ficou “impressionado ao perceber que o Brasil vive um momento de abertura para a América Latina que antes não tinha”. “Antes, o olhar estava voltado para a Europa”, afirma.

Para Peredo, tal aproximação é mais do que necessária: “Nós, bolivianos, brasileiros, latino-americanos, sofremos os mesmos acontecimentos, os mesmos episódios violentos. Temos indígenas mortos, escravidão, histórias de ditaduras. E nós, artistas latino-americanos, contamos essas histórias, seja em português ou castelhano. É isso que nos une e nos faz parte de um só mundo”.

Submundo cubano

Carlos Celdrán, diretor do grupo cubano Argos Teatro, afirma que vê muita aproximação entre o teatro feito na ilha caribenha e o do Brasil: “São muitas as semelhanças culturais, étnicas, musicais, rítmicas, alimentícias e sociais”.

Ele esteve em São Paulo a convite da Mostra Latino-americana de Teatro de Grupo em 2013, com Talco – Un Drama de Tocador, que apresenta o submundo das drogas e da prostituição em Havana.

Palco Latino Carlos Celdran cubano Foto Eduardo Enomoto Brasil abre o palco para teatro da América Latina

O diretor cubano do Argos Teatro Carlos Celdrán: "Brasileiros são amáveis" - Foto: Eduardo Enomoto

Contudo, no âmbito da produção teatral, Brasil e Cuba tem diferenças, como aponta Celdrán: “Em Cuba o teatro é pago e aprovado pelo Estado. Não existe um teatro comercial estabelecido como acontece no Brasil. Mas, artisticamente, não vejo diferenças; nos dois países coexistem todo tipo de poética teatral”.

O cubano conta que foi bem recebido e que percebeu que “as instituições culturais brasileiras que me convidaram são extremamente organizadas”. Ele também diz que será difícil se esquecer do público brasileiro: “Como espectadores de teatro são esplêndidos, amáveis e muito intensos em suas reações”, afirma.

Celdrán ressalta que todos os grupos de teatro cubano que já vieram ao Brasil tiveram suas viagens pagas pelos festivais e instituições brasileiras que fizeram o convite: “Em troca, os grupos brasileiros, que viajam a Cuba, em muitas ocasiões, pagaram suas viagens, pois Cuba não conta com recursos para arcar com tais despesas”. Ele reforça que viver de teatro em Cuba é questão de resistência e que “a classe teatral vive modestamente” na ilha.

Temática latina

Espetáculos como La Muerte de Un Actor e Talco – Drama de un Tocador, com temas genuinamente latino-americanos, têm sido a tônica do teatro, sobretudo o de grupo e não comercial feito na América Latina. Em 2013, o público paulistano teve a oportunidade de ver no palco do Sesc Pompeia outros dois espetáculos que trouxeram temas pungentes da região para o palco.

galvarino pierre duarte 2 paula gonzales seguel Brasil abre o palco para teatro da América Latina

A atriz e diretora chilena Paula Seguel, em Galvarino: visibilidade para histórias latinas - Foto: Pierre Duarte

Em Galvarino, espetáculo da Companhia Teatro Kimen, de Santiago do Chile, apresentado também no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, é contada a história da família da diretora, Paula González Seguel, da etnia mapuche. A peça mostra o descaso governamental com o desaparecimento de um membro da família. “O povo mapuche foi vítima de muitas injustiças. Mas, acho que, mais do que ser mapuche, a injustiça contada na peça aconteceu porque somos pobres. Acho que de alguma maneira o teatro dá visibilidade a isso”, conta a diretora. Ela lembra que o Brasil foi a primeira viagem internacional do grupo e que ficou impressionada em como a plateia paulista recebeu a história. “Acho que esta acolhida aconteceu porque é uma história universal de injustiça”, diz.

Já em Amarillo, do grupo mexicano Teatro Línea de Sombra, descortina-se a indústria de imigração ilegal entre México e Estados Unidos. Antígona González, atriz do grupo, diz que ficou “apaixonada pelos brasileiros”. E afirma: “O tratamento que tivemos no Brasil foi muito melhor do que nos países de primeiro mundo onde estivemos. O Brasil tem uma questão humana muito forte”, aponta.

Raúl Mendoza, que vive o imigrante protagonista da obra, diz que Amarillo é assimilada em toda América Latina. “Todos temos história com imigração. E o tráfico internacional de pessoas sempre foi um excelente negócio. Vamos ao particular para falar do universal. Hoje, há latino-americanos que vão para o Brasil”.

Brasil atrai artistas de países vizinhos

A atual fase econômica brasileira propiciou maiores investimentos na área cultural. E isso tem atraído um número cada vez maior de imigrantes de outros países da América Latina. No caso das profissões ligadas às artes, São Paulo, com sua pujança cultural, tem sido um polo atrativo.

São inúmeras salas de cinema, teatros, escolas de artes, museus e instituições culturais dispostos a investir cada vez mais em novidades.  Somam-se a isso as leis de Incentivo Cultural que propiciam captação de verbas ou mesmo o patrocínio através de editais, sejam dos governos federal, estadual e municipal.

Marba Goicochea Foto Eduardo Enomoto 2014 4 5 Brasil abre o palco para teatro da América Latina

A atriz peruana Marba Goicochea, no teatro paulistano há dez anos: "sotaque é diferencial" - Foto: Eduardo Enomoto

O Brasil e, sobretudo, São Paulo tem passado por um processo de mercantilização da cultura. Processo que pode propiciar a profissionalização e maior oferta de atividades culturais. A cena teatral paulistana tem atraído atores e encenadores de nossos vizinhos justamente pela possibilidade de, na cidade, se poder viver da profissão. Além disso, a cultura brasileira e a receptividade do povo brasileiro tem sido também um dos motivos de favorecimento desse intercâmbio.

Burocracia complicada

Marba Goicochea, atriz peruana radicada no Brasil, observa que encontrou relativa facilidade em trabalhar com teatro em São Paulo. “Fiz uma viagem ao Brasil para visitar meu irmão, e acabei indo aos Satyros [grupo teatral estabelecido na praça Roosevelt, na capital paulista]. Depois de um tempo, acabei conseguindo um estágio na companhia. A partir disso, fui conhecendo pessoas do meio. Já estou há 11 anos no Brasil”, conta.

Apesar da “burocracia complicada” para se estabelecer no país definitivamente, Marba destaca o fato de ter sido “muito acolhida pelas pessoas, tanto na vida pessoal quanto profissional”. A atriz conta que percebeu mais liberdade no Brasil em relação a obras peruanas. “O Peru é mais conservador. Por exemplo, lá não se vê no palco um [Marquês de] Sade, como tem aqui”.

A peruana não vê seu sotaque como empecilho para atuar em espetáculos falados em português. “Tenho tido a sorte de que justamente essa diferença seja algo que acrescente nos trabalhos que participo no teatro”.

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A atriz chilena-brasileira Paola Dourge: estudos na SP Escola de Teatro e na Escola de Arte Dramática da USP - Foto: Arquivo pessoal

Metade chilena

Paola Dourge, atriz brasileira que foi morar no Chile aos seis anos e voltou ao Brasil já adulta, diz que optou por estudar teatro e trabalhar com ele em São Paulo por conta da gama de possibilidades profissionais que a cidade lhe dá. “Um dos motivos é que existem muito mais oportunidades em termos artísticos, mais editais, mais opções, pois no Chile há poucas oportunidades se compararmos Santiago e São Paulo.”

A atriz, que se diz “metade chilena e metade brasileira”, finalizou em 2013 o curso de atuação na SP Escola de Teatro, mantida pelo Governo de São Paulo. Em 2014, começou a Escola de Arte Dramática da USP (Universidade de São Paulo). Ela, que está há pouco mais de dois anos no Brasil, afirma que tem percebido neste tempo o aumento das tentativas de intercâmbio entre o teatro brasileiro e o que é realizado em outros países da América Latina: “Sinto o movimento em relação a isso, mas poderia ser muito maior”.

Diálogo de fato para um palco latino

As iniciativas de intercâmbio cultural na cena teatral ainda não são ideais, mesmo que a oferta atual seja muito maior que antigamente. O crescimento econômico não possibilitou todavia uma maior integração entre os países latino-americanos. É necessário muito mais iniciativas para que a cena teatral latino americana seja horizontalizada, ou seja, algo diferente de um monólogo ditado pelo Brasil. É preciso que ocorra uma dialética entre os países latino-americanos.

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Cena da peça Talco - Un Drama de Tocador: mundo marginal cubano no palco de SP - Foto: Julio de la Nuez

É exatamente isso que defende o ator boliviano Antonio Peredo, que esteve em São Paulo no começo de 2013 mantido por pelo programa de intercâmbio da SP Escola de Teatro, além de participar do Festibero. “O intercâmbio que existe está circunscrito aos festivais. Contudo, este intercâmbio de espetáculos só permite um breve panorama da atualidade teatral. E não propicia maiores avanços. Os intercâmbios dedicados à formação teatral ainda são esporádicos e apenas começam a serem experimentados”, diz.

Para Peredo é preciso avançar. “Mais do que nos observarmos com admiração, devemos voltar nosso olhar para nós mesmos. Os intercâmbios precisam acontecer não só na educação e circulação, mas também na difusão na coprodução, na reflexão e na pesquisa, que são áreas propícias para o encontro”.

De acordo com o boliviano, só a partir desta perspectiva mais ampla “haverá um enriquecimento para os povos latino-americanos”. O ator mexicano Raúl Mendoza concorda com o colega: “Foram criados muitos guetos. Temos de quebrar as fronteiras e permitir que as pessoas se misturem”, afirma. E não há lugar melhor do que o palco latino para o encontro desta diversidade cultural tão exuberante.

*Maíra de Carvalho Moraes é historiadora formada pela USP (Universidade de São Paulo). Já Miguel Arcanjo Prado é jornalista formado pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Ambos são pós-graduandos em Mídia, Informação e Cultura pelo CELACC (Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação) da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP. Esta reportagem, originalmente, foi o trabalho final de ambos na disciplina Jornalismo Cultural, ministrada pela Profª Ms. Maria Bernardete Toneto.

 

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chico buarque rolling stone divulgacao Por trás do pano – Rapidinhas teatrais

Chico Buarque será homenageado no 2º Prêmio Bibi Ferreira - Foto: Divulgação/Rolling Stone

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Olha o Chico!
O cantor e compositor Chico Buarque, que completa 70 anos no próximo dia 19 de junho, será o grande homenageado da segunda edição do 2º Prêmio Bibi Ferreira, dedicado ao teatro musical brasileiro.

Pré-primavera
O evento já tem data marcada: será no dia 8 de setembro de 2014, no Theatro São Pedro, na Barra Funda, em São Paulo.

Zé Celso vai?
Quem pensa que só tem superprodução da Broadway na parada se engana. Entre os concorrentes, estão o musical Walmor y Cacilda 64: o Robogolpe, do Teat(r)o Oficina de José Celso Martinez Corrêa.

Corrida
Ao todo, 16 musicais estão concorrendo. Entre eles, superproduções como Elis, a Musical, Jesus Cristo Superstar, Gonzagão e Crazy for You.

Mestre de cerimônia
Alessandra Maestrini vai apresentar a festa, assim como ocorreu na primeira edição do prêmio.

Agenda Cultural da Record News

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A atriz Ana Kfouri em cena de Moi e Lui, um dos dois monólogos de Beckett no CIT-Ecum - Foto: Divulgação

Dobradinha
A atriz Ana Kfouri está em dois monólogos ao mesmo tempo no CIT-Ecum, em São Paulo. Ela pode ser vista tanto em Primeiro Amor (sábados, 19h) quanto em Moi Lui (sábados, 21h). Ambas as peças têm base em textos de Samuel Beckett, o grande homem do teatro mundial. Ficam em cartaz até 1º de junho com entrada a R$ 20 a inteira e R$ 10 a meia-entrada. Vai, gente!

O amor é lindo
Tem ator da praça Roosevelt, reduto do teatro alternativo paulistano, que não sai mais do Rio. Tudo por culpa de um amor global. A coluna deseja felicidade ao casal.

Não é o do Clube da Esquina
Muita gente que lê o nome do ator Betho Guedes no cartaz da peça Deus e o Diabo na Terra do Sol se engana. Ele não é o cantor mineiro do Clube da Esquina, seu xará Beto Guedes. A obra está em cartaz a partir desta sexta (23), no Espaço Sesc, em Copacabana, no Rio. É uma adaptação do filme clássico do Cinema Novo, do gênio baiano Glauber Rocha. A temporada, dirigida por Jefferson Almeida, que na peça vive Corisco, vai até 1º de junho. Pelo jeito, outra vez o sertão vai virar mar. E o mar vai virar sertão.

Musical
Deus e o Diabo na Terra do Sol é um musical com canções assinadas por Glauber Rocha e Sérgio Ricardo, aquele que quebrou o violão no Festival da Record de 1967.

Fecha de Caducidad 11 David Perez Por trás do pano – Rapidinhas teatrais

Fecha de Caducidad é um dos destaques do festival Circos - Foto: David Perez

Picadeiro 
A grande São Paulo viverá 130 horas de atrações circenses nos próximos dez dias. Porque começa nesta sexta (23) a segunda edição do Circos - Festival Internacional Sesc de Circo. Além da unidade de Santo André do ABC, 12 unidades da capital sediam 23 espetáculos. Eles reúnem 160 artistas vindos de lugares como Austrália, Bélgica, Espanha, França, Inglaterra, Peru e, claro, Brasil. Saiba a programação.

Gringos
O Circos - Festival Internacional Sesc de Circo tem participação de oito companhias internacionais que trazem espetáculos inéditos em São Paulo. Entre os destaques, está Fecha de Caducidad, da Organización Efímera, que será neste fim de semana no Sesc Belezinho. O grupo tem artistas espanhóis, mexicanos, argentinos e irlandeses. A atração vinda diretamente de Barcelona é dirigida por Rob Tannion, um dos bambambãs do circo europeu. Chique.

theatro municipal Por trás do pano – Rapidinhas teatrais

Theatro Municipal de São Paulo: entradas para ópera Carmen estão esgotadas - Foto: Divulgação

Última chance
Estão esgotados os ingressos para a temporada da ópera Carmen no Theatro Municipal de São Paulo, em cartaz até junho. Mas resta uma última oportunidade: a CIP (Congregação Israelita Paulista) será a anfitriã da pré-estreia, nesta segunda (26) e vende os ingressos para reverter a renda a obras sociais da entidade. Custam a partir de R$ 200, no posto na rua Antonio Carlos, 653, próximo à rua da Consolação. Informações pelo telefone 0/xx/11 2808-6299. Além da presença do maestro John Neschling, que fará a abertura do espetáculo, Carmen terá a regência do maestro espanhol Ramón Tebar, com a participação da mezzo-soprano israelense Rinat Shaham, pela primeira vez no Brasil, além de outros 150 artistas de palco. Um verdadeiro time de primeira qualidade.

Baila comigo
Você sabia que crianças também podem ver espetáculo de dança contemporânea? Pois esta é a aposta do grupo Balangandãs, que apresenta a partir deste fim de semana o espetáculo Ninhos - Performances para Grandes Pequenos, na praça de eventos do Sesc Belenzinho. A entrada é franca, sempre sábado e domingo, 14h. A temporada vai até 8 de junho. Georgia Lengos dirige o espetáculo que tem seis bailarinos em cena. Além de usarem movimentos animalescos de inspiração, eles até ensinam o alfabeto para os pequeninos. Que didático.

Está acabando
Termina neste fim de semana a temporada da peça Peter em Fúria, do coletivo Pequeno Teatro de Torneado. As últimas sessões são neste sábado e domingo, às 19h. O endereço é rua Álvaro de Carvalho, 75, no centro paulistano. William Costa Lima assina texto e direção. Bruno Lourenço faz a direção musical. O ingresso custa R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada). Estão todos convidados.

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Rui Ricardo Dias estreia monólogo no Sesc Ipiranga nesta sexta (23) - Foto: Bob Sousa

Lula no palco
O ator mineiro Rui Ricardo Dias, que fez o presidente Lula no filme Lula - O Filho do Brasil, de Fábio Barreto, se aventura nos palcos paulistas. Ele estreia nesta sexta (23), às 21h30, a peça A Hora e Vez, no Sesc Ipiranga. Olha ele aí acima, no clique do nosso Bob Sousa. A peça tem direção e dramaturgia por Antonio Januzelli, que se inspirou no clássico A Hora e a Vez de Augusto Matraga, do também mineiro Guimarães Rosa.

De volta às telonas
Além da peça, Rui Ricardo Dias está escalado para viver o Marechal Rondon, na série e no filme Rondon - O Grande Chefe.

azar valdemar foto bob sousa Por trás do pano – Rapidinhas teatrais

Aysha Nascimento e Flávio Rodrigues em Azar do Valdemar: apresentações gratuitas em SP - Foto: Bob Sousa

Teatro de Rua
Na próxima segunda (26), acontece a última apresentação da peça Azar do Valdemar, no largo São Bento, no centro de São Paulo. Começa às 19h. Depois, entre 2 e 5 de junho, também às 19h, o espetáculo de rua será apresentado na praça do Patriarca, também no centro paulistano. A montagem da Cia. dos Inventivos é livremente inspirada no livro Viva o Povo Brasileiro, do grande Darcy Ribeiro.

Falou e disse
Causou impacto na classe teatral a última Entrevista de Quinta, com Sidney Santiago Kuanza. Corajoso, disse coisas que muita gente por aí prefere fingir que não existe. Leia.

Ninguém merece
Falando em Sidney Santiago Kuanza, uma espectadora má educada deixou o celular tocar na sessão desta quinta (22), no Espaço dos Fofos, de seu monólogo Cartas a Madame Satã ou me Desespero sem Notícias Suas. E o incômodo barulho foi justamente em um dos momentos mais silenciosos da peça. Que feio!

Antenados
Quem vive com ideias fervilhando na cabeça pode dar um pulo no Festival Path, na SP Escola de Teatro, neste sábado (24) e domingo (25). Além de palestras, a programação inclui exibição de filmes grátis no MIS, o Museu da Imagem e do Som. Saiba mais.

Puxa a faca!
Olha aí abaixo, que beleza, no clique do nosso Bob Sousa, o elenco da peça Navalha na Carne, dirigida por Marcos Loureiro e que estreia o Galpão do Teatro Garagem, em São Paulo, no próximo dia 30 de maio. Wilson Loria, Fransérgio Araújo e Anette Naiman estão no clássico texto de Plínio Marcos, morto há 15 anos. Que bom ver sua obra perdurando nos palcos!

Navalha na Carne crédito Bob Sousa1 Por trás do pano – Rapidinhas teatrais

Wilson Loria, Fransérgio Araújo e Anette Naiman, de Plínio Marcos: estreia dia 30 em São Paulo - Foto: Bob Sousa

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agenda cultural record news1 Veja as dicas da Agenda Cultural do Hora News, na Record News, desta sexta feira, dia 23/05/2014

Muita cultura pra todos nós: Lidiane Shayuri e Miguel Arcanjo Prado na Record News - Foto: Divulgação

Na Agenda Cultural do Hora News, na Record News, nesta sexta-feira (23), o colunista de Cultura Miguel Arcanjo Prado conta para a apresentadora Lidiane Shayuri as melhores dicas em todo o Brasil. Tem temporada teatral do grupo Os Crespos em São Paulo, concerto de música barroca alemã em Salvador, apresentação gratuita do Grupo Galpão de Teatro em Belo Horizonte, no FIT-BH, show de Simone em Florianópolis. E ainda, as estreias nos cinemas: o documentário nacional Dominguinhos, a produção com o argentino Ricardo Darín, O Que os Homens Falam, e A Grande Escolha, com Kevin Kostner. Com edição de Aline Rocha Soares. Veja o vídeo:

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sidney santiago pablo rodrigues 7 Entrevista de Quinta: É traumático para o negro ir ao teatro, diz Sidney Santiago Kuanza, do Crespos

Sidney Santiago em cena da peça Cartas a Madame Satã ou me Desespero sem Notícias Suas, do grupo Os Crespos, em cartaz em São Paulo - Foto: Roniel Felipe

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de RONIEL FELIPE

O ator Sidney Santiago Kuanza é articulado, fala com propriedade e inteligência. Mas sempre com doçura. Seu discurso, apesar de aguerrido, jamais é chato. Muito pelo contrário, em sua argumentação, é impossível não concordar com tudo o que ele diz.

Paulista do Guarujá e morador da Bela Vista, no centro de São Paulo, ele integra o grupo teatral Os Crespos, surgido na Escola de Arte Dramática da USP (Universidade de São Paulo), trupe que já conquistou admiradores no Brasil e no mundo.

Atualmente, o grupo está com três peças em cartaz em três diferentes espaços da metrópole. Todos integram o projeto Dos Desmanches aos Sonhos - Poética em Legítima Defesa. No enredo das peças Além do Ponto, Engravidei, Pari Cavalos e Aprendi a Voar sem Asas e Cartas a Madame Satã ou me Desespero sem Notícias Suas, surgem questões pertinentes do homem e da mulher negra no Brasil contemporâneo.

Sidney Santiago Kuanza, que já esteve na Alemanha e também em Angola, conversou com exclusividade com o Atores & Bastidores do R7 nesta Entrevista de Quinta.

O ator já foi destaque na televisão, como na novela Caminho das Índias (Globo), na qual fez o elogiado personagem Ademir, que sofria de esquizofrenia. Entretanto, o lugar onde assume seu discurso com toda a potência é mesmo o palco. Não poderia ser de outra forma.

Leia com toda a calma do mundo.

crespos3 Entrevista de Quinta: É traumático para o negro ir ao teatro, diz Sidney Santiago Kuanza, do Crespos

Cartas a Madame Satã... se inspira no boêmio personagem da Lapa, no Rio - Foto: Roniel Felipe

Miguel Arcanjo Prado —Como surgiu o grupo Os Crespos?
Sidney Santiago Kuanza — Surgimos na EAD [Escola de Arte Dramática da USP], onde todos estudamos. Sempre entram 20 alunos na EAD. No meu ano, em 2005, pela primeira vez na história, dos 20 aprovados cinco eram negros.

Miguel Arcanjo Prado —Antes não era comum aluno negro na EAD?
Sidney Santiago Kuanza — Não. Até porque nem a EAD nem a USP jamais abriram espaço para qualquer ação afirmativa. Existe aquela história de que a EAD não quer formar ator para fazer papel de escravo na TV. De toda forma, ainda é uma escola elitista. Até porque exige dedicação em tempo praticamente integral, é difícil para quem precisa trabalhar. Por isso, quem estuda artes no Brasil geralmente pertence às classes mais favorecidas.

Miguel Arcanjo Prado — Como vocês foram recebidos?
Sidney Santiago Kuanza — Além dos cinco negros que entraram em 2005, em 2006 vieram mais quatro alunos negros. Ou seja, passaram a existir novos corpos na escola e, de alguma forma, estrangeiros àquela realidade.

Miguel Arcanjo Prado — Vocês se juntaram como questão de resistência?
Sidney Santiago Kuanza — Foi. Porque nas aulas não havia menção à importância do negro no teatro. Então, o grupo [de alunos negros] propôs à escola estudarmos a importância do negro nas artes brasileiras. Era uma proposta para todos: alunos, mestres, funcionários. Fazíamos saraus, debates.

Miguel Arcanjo Prado — E como foi a acolhida?
Sidney Santiago Kuanza — Por um acaso, só os alunos negros se interessaram pelo projeto. Chamava-se Negros em Questão. Uma pena. A formação do ator na EAD ainda é eurocêntrica. Aprende-se teatro grego, russo, alemão e até americano, mas ninguém fala da África. Nem na Ásia.

sidney santiago pablo rodrigues 6 Entrevista de Quinta: É traumático para o negro ir ao teatro, diz Sidney Santiago Kuanza, do Crespos

Temática do negro no palco: Os Crespos - Foto: Roniel Felipe

Miguel Arcanjo Prado — Que tristeza...
Sidney Santiago Kuanza — As pessoas precisam entender que a herança negra é de todos os brasileiros. O brasileiro branco também tem herança do negro. Fizemos o projeto por dois anos e, em 2007, resolvemos montar nosso grupo de teatro, Os Crespos, com os nove estudantes negros da EAD.

Miguel Arcanjo Prado — Qual a sensação que vocês tinham em não ouvir nada sobre o negro durante a formação?
Sidney Santiago Kuanza — Ninguém na universidade fala da origem africana de nosso teatro. A sensação de um aluno negro é que o sistema de ensino lhe negligencia. Tentamos propor para a grade curricular da escola que fossem inseridos nomes negros que foram de importância fundamental em nossas artes, como o Benjamim de Oliveira, nosso primeiro palhaço brasileiro, ou mesmo o Grande Otelo, o maior nome de nossa comédia. O diretor da época na EAD, o Celso Frateschi, nos deu apoio, mas a estrutura era muito complicada...

Miguel Arcanjo Prado — E o José Fernando de Azevedo, que é negro e hoje é diretor da EAD? A gestão dele melhorou essa questão do negro na escola?
Sidney Santiago Kuanza — É um problema estrutural. Ele é um homem negro, é comunista, e tem consciência desse problema. Mas a gestão dele ainda não trouxe mudanças quantitativas. O fato é que ele é o diretor, mas a estrutura ainda é arcaica. O Zé, como homem, é comprometido com essa bandeira, mas em termos de gestão, a estrutura permanece a mesma.

Miguel Arcanjo Prado — Por que não se fala da importância do negro no teatro?
Sidney Santiago Kuanza — Olha, no século 18, quem fazia teatro no Brasil eram os negros e mestiços. Porque era mal visto fazer teatro e brancos não atuavam. Era uma coisa degradante. A partir do século 19, quando artistas europeus do teatro passaram a se apresentar no Brasil, aí, sim, brancos começaram a fazer teatro. Mas, antes, tivemos quase um século e meio de teatro feito por negros que ninguém fala.

sidney santiago pablo rodrigues 3 Entrevista de Quinta: É traumático para o negro ir ao teatro, diz Sidney Santiago Kuanza, do Crespos

"Cerca de 85% do público de nossas peças são de negros", diz Sidney Santiago Kuanza - Foto: Roniel Felipe

Miguel Arcanjo Prado — Como o grupo Os Crespos foi recebido pelo público e pela classe artística?
Sidney Santiago Kuanza — Nosso primeiro diretor foi o alemão Frank Castorf. Estreamos na montagem dele Anjo Negro, na pesquisa sobre Nelson Rodrigues e Heiner Müller, em Berlim. A montagem tinha também grandes nomes de nosso teatro, como Georgette Faddell e Roberto Audio.

Miguel Arcanjo Prado —E quando voltaram para o Brasil, qual público encontraram?
Sidney Santiago Kuanza — Em nossas primeiras apresentações, ainda na universidade, 90% do público era branco. Depois, foi mudando. Hoje, 85% de nosso público são de negros, pessoas que se identificaram com nossa proposta.

Miguel Arcanjo Prado —Por quê?
Sidney Santiago Kuanza — No teatro, assim como em boa parte das artes brasileiras, o negro geralmente é o outro, o perigoso, o invisível, o cômico ou o sensual. Ele sempre está na chave do estereótipo. É traumático para o negro ir ao teatro.

Miguel Arcanjo Prado —Por quê?
Sidney Santiago Kuanza — Porque o negro quase sempre vai ao teatro para não se ver ou, pior, se ver de uma forma que não gostaria de ser visto.

Miguel Arcanjo Prado — E qual é o papel dos grupos teatrais negros, como vocês e também o Coletivo Negro, neste contexto?
Sidney Santiago Kuanza — Os grupos negros trazem pluralidade para o palco. Partimos da história não-oficial, porque a história oficial negligencia a história do negro.

Miguel Arcanjo Prado —E como a imprensa e a crítica reage a vocês?
Sidney Santiago Kuanza — Conseguimos atenção da imprensa. Até da Bárbara Heliodora já escreveu sobre nós. Contudo, ao analisar nossa obra, os críticos sempre partem de um viés sociológico, como se o artístico fosse irrelevante. A gente fica na sinuca de bico de ser tratado apenas como um objeto sociológico, com o produto artístico sempre em segundo plano.

Miguel Arcanjo Prado —Na televisão é difícil ser um ator negro, porque quase nunca há bons papeis fora do estereótipo escravo-empregada. O que eu considero o horror. Também é difícil ser ator negro no teatro?
Sidney Santiago Kuanza — O teatro de São Paulo já teve uma temporada com 750 peças em cartaz. Dessas, apenas 25 tinham atores negros, o que corresponde a 3% do total. E isso em uma cidade onde 36% da população são negros. Em números absolutos, São Paulo tem mais negros do que Salvador ou Nova York.

Miguel Arcanjo Prado —Há preconceito com os grupos teatrais negros?
Sidney Santiago Kuanza — Tem gente que se incomoda, olha para nós como se fôssemos revanchistas. Acham antiquado trazermos uma pauta que eles já consideram "ultrapassada". Dizem que a angústia do negro já foi superada.

Miguel Arcanjo Prado —E foi?
Sidney Santiago Kuanza —Não. Basta olharmos as estatísticas. Qualquer estatística negativa é encabeçada por negros: a do desemprego, a de morte de jovens, a de moradores de favelas, a do subemprego... Além disso, não somos representados positivamente nos meios de comunicação. Quando você é negro no Brasil, alguns atos de violência contra você são permitidos e não recebem punição. Estamos longe de acabar com o racismo.

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"O audiovisual brasileiro ainda é racista", diz Sidney Santiago Kuanza, do grupo Os Crespos - Foto: Roniel Felipe

Miguel Arcanjo Prado — A TV tem de se abrir mais para o artista negro?
Sidney Santiago Kuanza — Claro. O audiovisual, infelizmente, é muito racista ainda. Muitas vezes, a TV incute na cabeça do negro que ele não pode ter sonhos. Porque em uma novela, de uma centena de personagens, geralmente só tem três atores negros, e em papeis de empregados, sem direito a ter filho, família ou história própria. É muito retrógrado. Geralmente, quem escreve novela vive neste universo racista e o reproduz. Acho que o Brasil precisa pensar ações afirmativas no audiovisual. Ironicamente, a TV da Alemanha  ou da Suíça é mais negra do que a TV brasileira.

Miguel Arcanjo Prado —Por isso vocês levam questões do negro para o palco?
Sidney Santiago Kuanza — Sim, estamos trabalhando agora a afetividade, que é política também. Outro dia a Folha escreveu que tínhamos largado a política para falar de afeto. Como se isso não fosse político também... O afeto tem impacto na sociedade. Usamos de referência a autora norte-americana Bell Hooks, que é ótima. Nossas peças falam da afetividade em relações heterossexuais, homossexuais, tanto de mulheres quanto de homens negros. Queremos denunciar este lugar de invisibilidade social que o negro ocupa. Os atores negros não servem só para abrir e fechar portas em cena.

Miguel Arcanjo Prado — E de onde vocês tiram forças para resistir?
Sidney Santiago Kuanza —Fazemos parte de uma geração que, mesmo com tanto problema atualmente, é privilegiada em relação a seus pais. Nós pudemos estudar e trabalhar com o que sonhamos, mesmo com todas as dificuldades. O teatro para mim é o lugar de resistência, onde ainda é possível sonhar. Venho de um lugar de desespero, onde a esperança e a crença na mudança é o que nos mantêm vivos. Embora exista um forte corrente contra, as coisas vão mudar, sim. A gente tem de acreditar.

sidney santiago pablo rodrigues 2 Entrevista de Quinta: É traumático para o negro ir ao teatro, diz Sidney Santiago Kuanza, do Crespos

Sidney Santiago Kuanza e seu grupo, Os Crespos, lutam por maior presença do negro nas artes - Foto: Roniel Felipe

Os Crespos
Temporada Espaço dos Fofos
Quando: Cartas a Madame Satã ou Me Desespero sem Notícias Suas (Dias 21, 22 e 26/5/2014; quarta, quinta e segunda, 21h; 25/5/2014, domingo, 19h); Além do Ponto (23/5/2014, sexta-feira, 21h); Engravidei, Pari Cavalos e Aprendi a Voar sem Asas (24/5/2014, sábado, 21h)
Onde: Rua Adoniran Barbosa, 151, Bela Vista, São Paulo, tel. 0/xx/11 3101-6640
Quanto: R$ 15 (inteira) e R$ 7 (meia-entrada)

Temporada Centro de Formação Cultural Cidades Tiradentes
Quando: Além do Ponto (6/6/2014, sexta-feira, 20h30); Engravidei, Pari Cavalos e Aprendi a Voar sem Asas (7/6/2014, sábado, 20h); Cartas a Madame Satã ou me Desespero sem Notícias Suas (8/6/2014, domingo, 19h)
Onde:
Rua Inácio Monteiro, 6.900, Cidade Tiradentes, São Paulo, tel. 0/xx/11 2555-2810
Quanto: Grátis

Temporada Galeria Olido
Quando: Além do Ponto (13/6/2014, sexta, 20h); Engravidei, Pari Cavalos e Aprendi a Voar sem Asas (14/6/2014, sábado, 20h); Cartas a Madame Satã ou Me Desespero Sem Notícias Suas (15/6/2014, domingo, 18h)
Onde: Av. São João, 473, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3397-0171
Quanto: Grátis

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relampiao joca duarte Cangaço e cultura brasileira são temas de Relampião, peça da Cia. do Miolo, grátis em SP

Cultura popular brasileira no teatro: cena da peça Relampião, que terá sessão grátis dia 31 - Foto: Joca Duarte

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A Companhia do Miolo agendou para o próximo dia 31 de maio, um sábado, uma apresentação gratuita da peça Relampião.

Com parceria com a Cia. Pauliceia, a obra de rua tem como inspiração o cangaço brasileiro.

A sessão especial será às 15h, no largo do Rosário, na Penha, zona leste de São Paulo.

Para compor a montagem, o grupo de artistas mergulhou fundo na cultura nacional, investigando nossas raízes para criar uma obra que se comunica com qualquer plateia.

A luta do cangaço serve de mote para uma comparação com o mundo atual, repleto de Lampiões e Marias Bonitas, na visão do grupo.

Entre as inspirações confessas, as carrancas do Rio São Francisco e o movimento folclórico de folguedo cênico Cavalo Marinho.

Relampião
Quando: Sábado, 31/5/2014, às 15h (única apresentação)
Onde: Largo do Rosário, Penha, zona leste de São Paulo
Quanto: Grátis
Classificação etária: Livre

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