enrico bonavera bob sousa 2014 Italiano Enrico Bonavera faz peça grátis em SP

O mestre italiano Enrico Bonavera posa no Teatro Commune, em SP - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto de BOB SOUSA

Após dar disputada oficina sobre commedia dell’arte no Teatro Commune, como adiantou o Atores & Bastidores do R7, o ator italiano Enrico Bonavera sobe ao palco do Itaú Cultural, nesta quarta (28), às 20h.

O endereço é avenida Paulista, 149, próximo ao metrô Brigadeiro. Os ingressos serão distribuídos meia hora antes. São 249 lugares.

O artista abre o projeto De Vez em Quarta, Teatro, composto de atrações das artes cênicas com entrada gratuita toda quarta-feira até o mês de dezembro.

Bonavera apresenta a obra L’Affaire Picpus. A apresentação tem apoio da SP Escola de Teatro e da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.

Inspirado em O Nariz, de Nicolaj Gogol, o espetáculo narra a vida do senhor Picpus, um homem comum que acorda um dia e percebe que seu nariz desapareceu do rosto. Liberto, seu nariz alcançará posições antes nunca pensadas.

Um dos maiores intérpretes do personagem Arlequim, Enrico Bonavera é considerado um dos mestres da commedia dell’arte de todos os tempos.

Saiba mais sobre ele e leia entrevista exclusiva na coluna O Retrato do Bob com Enrico Bonavera.

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edgar teatro kevin david1 Crítica: Edgar apresenta homem perdido, sem rumo

Ricardo Corrêa (à esquerda) vive Edgar: homem perdido em seus devaneios - Foto: Kevin David

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Fazer peça à meia-noite é tarefa árdua. Sobretudo no sábado. É difícil trazer o público, já solto na noite, para dentro da história. Por isso, tal horário, para funcionar, costuma exigir boa pitada de ousadia.

O espetáculo Edgar, do Grupo Eco Teatral, o mesmo de Sala de Espera, tenta a façanha no horário chamado de maldito. Encerra temporada no próximo sábado (31), à meia-noite, no Espaço dos Parlapatões, na praça Roosevelt, centro de São Paulo.

A obra é baseada em textos de Samuel Beckett, ícone do teatro do absurdo. O autor foi um dos últimos suspiros do modernismo, em seu afã de criar uma nova cultura. E precursor do pós-modernismo que nos tirou as bases de tudo.

O enredo conta a história de um homem que sofre uma enxaqueca terrível que não passa. Para conseguir sobreviver, precisa ser lobotomizado em uma mesa cirúrgica — apresentada em cena sem metáfora sobreposta.

O elenco, encabeçado por Ricardo Corrêa no papel-título, é talentoso e demonstra coerência com a proposta de encenação. Há trabalho, isso é evidente. Mas, o tom muitas vezes infantil imposto aos atores faz a peça perder força. Seria interessante ver as mesmas frases ditas sem tanto maneirismo. Talvez ganhassem mais peso.

A metáfora do inconformismo do homem moderno está presente. O vazio do palco, onde os atores estão em foco desprovidos de cenografia, representa esse sentimento de inquietação constante e não aceitação do tradicional. É uma briga cerebral tudo que se vê. Uma luta sem fim de tentativa de resistência ao sistema.

edgar tico dias Crítica: Edgar apresenta homem perdido, sem rumo

Ricardo Corrêa e Roberto Rezende em performance da peça Edgar - Foto: Tico Dias

Se consegue explicitar o sentimento presente na era moderna, a montagem, para dialogar melhor com os tempos atuais, poderia ter ressignificado o texto, tentando aproximá-lo do presente, trazendo para a encenação elementos da contemporaneidade. Uma timeline de Facebook atualizada constantemente por alguém frente a um celular ou computador não é um exemplo de lobotomia dos tempos de hoje?

É por não explicitar mais o seu tempo no palco que, muitas vezes, a direção de Thiago Franco Balieiro soa por demais formal e literal nas imagens sugeridas pelo texto. Falta ousadia.

Apesar de ser pungente, o discurso da obra já é sabido; não representa novidade. Sobretudo para quem frequenta a sessão maldita no Espaço dos Parlapatões. Gente já descolada há muito tempo na vida; e que talvez colecione expulsões do sistema.

Os espectadores estão fartos de saber que está tudo ficando insuportável. Nisso não há novidade. Nem que o mergulho cerebral em algum tipo de alívio muitas vezes soa como necessidade gritante.

Por isso, uma boa dose de deboche teria feito bem a Edgar. Porque, quanto tudo se anuvia em um tradicionalismo que coloca as manguinhas de fora, é preciso reinventar os cânones e rir deles.

Edgar
Avaliação: Regular
Quando: Sábado, à meia-noite. 60 min. Até 31/5/2014
Onde: Espaço dos Parlapatões (pça. Roosevelt, 158, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-4449)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos
Avalicacao Regular R7 Teatro PQ Crítica: Edgar apresenta homem perdido, sem rumo

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olivia martins 2 Atriz Olivia Martins vibra com parceria nos palcos com Fause Haten na peça A Feia Lulu

A atriz Olivia Martins em cena da peça A Feia Lulu, inspirada no mundo da moda - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Fause Haten é realmente um artista inquieto. Tanto que sua criatividade não cabe mais só no mundo da moda. O estilista está em cartaz em São Paulo, no Teatro Faap, com a peça A Feia Lulu.

A obra é uma produção coletiva. Assinam, além do estilista, Fábio Retti, Gregory Silvar, Francisco Carlos, Marina Caron e Ondina Clais Castilho.

A obra reúne variadas linguagens artísticas e teve sua origem na performance. No enredo, a vida de um misterioso estilista. A personagem foi criada para os quadrinhos por ninguém menos que Yves Saint Laurent.

No começo nos bastidores da montagem, uma atriz foi convidada para fazer parceria com Haten no palco: Olivia Martins. Ela conversou com o Atores & Bastidores do R7 sobre teatro, moda, a amizade com Haten e a peça que chega ao fim no dia 3 de junho.

Leia com toda a calma do mundo.

olivia martins Atriz Olivia Martins vibra com parceria nos palcos com Fause Haten na peça A Feia Lulu

Olivia Martins no camarim do Teatro Faap: peça A Feia Lulu vai até o dia 3 de junho - Foto: Divulgação

Miguel Arcanjo Prado – Como foi o convite para entrar na peça?
Olivia Martins – Em agosto do ano passado, fui chamada para trabalhar na produção dessa peça, pois se tratava de um monólogo do Fause. Com o passar do tempo, o projeto foi mudando, tomando outra forma, e o Fause começou a sentir necessidade de mais um personagem na peça, para introduzir algumas cenas para ele. E foi aí que eu saí da produção e entrei como atriz da peça.

yves saint laurent Atriz Olivia Martins vibra com parceria nos palcos com Fause Haten na peça A Feia Lulu

Estilista francês Yves Saint-Laurent inspirou obra - Foto: Divulgação

Miguel Arcanjo Prado – É um espetáculo bem alternativo. Como foi o trabalho de pesquisa e composição de personagem?
Olivia Martins – No meu trabalho como produtora já estava estudando muito, durante todo o processo, sobre a vida de Yves Saint Laurent. O livro que Yves escreveu chamado A Vilã Lulu chegou às minhas mãos no ano passado, e eu fiquei enlouquecida! Sabia que eu havia sido fisgada pela personagem. Falei para o Fause: "Se você não for usar essa personagem na sua peça, eu quero montar uma peça sobre esse ela". Acabou que o Fause usou a personagem e me chamou para ser a Ninon, a amiga da Lulu! E a personagem Ninon, que é uma criança, foi nascendo aos poucos... Tenho a sorte de dar aula de teatro para crianças de 6 a 17 anos em colégios. Observá-las me inspirou absurdamente na hora de criar e compor a personagem.

Miguel Arcanjo Prado – Você já conhecia o trabalho do Fause estilista? E o do Fause ator? Como está sendo este encontro?
Olivia Martins – Conheci o Fause quando fazíamos o curso de teatro na Escola Célia Helena. Nos formamos juntos. Primeiro, conheci o Fause ator, depois, o estilista. Isso me ajudou a não ver o Fause como um estilista famoso, e sim a vê-lo como um ator em construção, assim como eu. Ficamos amigos e o Fause me convidou para fazer assistência de figurino de musicais para ele, assistência de direção de desfile no SPFW... Foi então que surgiu A Feia Lulu e retomamos essa parceria, mas dessas vez como ator e atriz. Tem sido muito rico para nós e só tem reforçado da nossa certeza em continuarmos no caminho do teatro e da arte!

fause haten Atriz Olivia Martins vibra com parceria nos palcos com Fause Haten na peça A Feia Lulu

O estilista Fause Haten: ele também é ator - Foto: Divulgação

Miguel Arcanjo Prado – A peça tem referência no mundo da moda. Você é ligada a este ambiente? O que mais a atrai nele?
Olivia Martins – Não era muito ligada. Hoje, entendo mais por causa do Fause e da peça. O Fause traz esse universo para mim por meio da vivência diária dele. O que me atrai nesse universo é o poder de criação e de transformação que o estilista tem. Eles se inspiram e criam coisas absurdamente maravilhosas! Hoje, me interessa entender como uma peça é criada, desde o papel até sua chegada na passarela. Mas acho que ainda tenho muito que aprender. A moda não é algo que você compreende com facilidade, requer um olhar aguçado.

Miguel Arcanjo Prado – A temporada está chegando ao final. Como tem sido a recepção do público?
Olivia Martins – Muito positiva. O público foi generoso conosco. Graças a Deus, tivemos uma temporada muito boa de público, superando o desafio de estarmos em cartaz com uma peça que acontece às segundas e terças feiras. Tivemos público misturado, desde estudantes de diversos cursos da faculdade Faap a pessoas ligadas à moda. Conseguimos, no mínimo, fazer aquelas pessoas saírem da peça pensando bastante sobre o que tinham acabado de assistir. Está sendo muito gratificante!

Miguel Arcanjo Prado – Você espera viajar com a peça? Já tem algo agendado?
Olivia Martins – Com certeza espero viajar com a peça! Estamos em negociação com alguns festivais com os dedos cruzados, torcendo! Acredito que uma segunda temporada também possa surgir em São Paulo. Esta peça merece ser vista por mais pessoas.

Miguel Arcanjo Prado – Além da peça, você está com algum outro projeto?
Olivia Martins – Tenho projetos com outros grupos de teatro. Na nossa área não dá para ficar parado. Temos que agarrar tudo o que aparece com unhas e dentes, certo?

A Feia Lulu
Quando: Segunda e terça, 21h. 70 min. Até 3/6/2014
Onde: Teatro Faap (r. Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo, tel. 0/xx/11 3662-7233)
Quanto: R$ 60
Classificação etária: 14 anos

olivia martins fause haten1 Atriz Olivia Martins vibra com parceria nos palcos com Fause Haten na peça A Feia Lulu

Olivia Martins e o amigo Fause Haten: parceria nos palcos une teatro e moda - Foto: Divulgação

 

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Impromadrid Foto 2 São Paulo tem Copa do Mundo do Improviso

Grupo Impromadrid, da Espanha, vai se apresentar no CIT-Ecum, em SP, no festival - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Nos últimos tempos, assim como o stand-up, outro gênero tem se desenvolvido muito no Brasil e arrebatado público a cada dia: o improviso.

São Paulo acabou se tornando uma espécie de casa deste estilo de atuar com bom humor, atraindo artistas do Brasil e também do mundo. Nada mais justo do que a cidade, que também vai sediar a abertura da Copa do Mundo de Futebol, também fosse a casa da Copa do Mundo do Improviso.

Começou nesta segunda (26), em disputada sessão no Commedians Club, em São Paulo, o Improfest - Festival Internacional de Improviso.

Até o dia 1º de junho, artistas e grupos da Argentina, Chile, Colômbia, México e Espanha se juntam aos brasileiros na disputa de quem é o campeão do mundo na arte de improvisar. O vitorioso será escolhido pelo público.

A idealização do evento é de Márcio Ballas, um dos maiores nomes nacionais do gênero.

A partir desta terça (27) e até o próximo domingo (1º), o CIT-Ecum (r. da Consolação, 1.623) sedia as apresentações. As entradas custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada).

O projeto tem apoio do Iberescena (fundo de apoio a projetos de artes cênicas ibero-americanos) e tem patrocínio do canal TBS, especializado em humor.

A produção é assinada por Joca Paciello e Cristiani Zonzini.

Participam os grupos Impromadrid (Espanha), Acción Impro e Pic Nic (Colômbia), Complot Escena (México), Improtour (Argentina), Cia Nico Belmar (Chile), Caleidoscópio e Cia. do Quintal (Brasil). Veja a programação completa!

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phedra cordoba bob sousa4 O Retrato do Bob: Phedra D. Córdoba, fundamental

Atriz dos Satyros, Phedra D. Córdoba faz 76 anos: diva dos palcos alternativos - Foto: Bob Sousa

Fotos de BOB SOUSA
Por MIGUEL ARCANJO PRADO

26 de maio é data especial no teatro brasileiro. Dia de celebrar uma de nossas maiores divas. Afinal, é aniversário de Phedra D. Córdoba, a cubana que se converteu no maior nome dos palcos alternativos deste País. Phedra é Havana, é Walter Pinto, é calle Corrientes, é Medieval, é Nostro Mundo, é Homo Sapiens, é a árvore mais frondosa da Praça Roosevelt, pertence ao público. Phedra faz 76 anos. Merece mimos, carinhos e elogios. Porque conserva uma energia de menina. Quem duvida, vá vê-la cantar Beatles no Espaço dos Satyros 1, na peça Não Morrerás, da qual é estrela absoluta. Porque Phedra não sai do cartaz. Tem carisma de sobra. Tem técnica. Tem viço. Tem bom gosto. Tem elegância sutil. Tudo com seu sotaque gostoso de ouvir. É claro que ela teria de posar para o nosso Bob Sousa em data tão nobre. E em dose dupla. Porque Phedra D. Córdoba é fundamental.

phedra cordoba bob sousa11 O Retrato do Bob: Phedra D. Córdoba, fundamental

Phedra D. Córdoba, aos 76 anos: energia e carisma de uma eterna menina - Foto: Bob Sousa

Saiba mais sobre Phedra D. Córdoba!

Leia também: Brasil abre o palco para teatro da América Latina

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maria alice vergueiro tres velhas bob sousa Consagrada, As Três Velhas volta a São Paulo com Maria Alice Vergueiro em três sessões imperdíveis

50 anos de carreira: Maria Alice Vergueiro, em cena da peça As Três Velhas - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de BOB SOUSA

Quem não viu a montagem de As Três Velhas, com Maria Alice Vergueiro e seu Grupo Pândega de Teatro, tem chance única de conferir a aclamada obra se estiver em São Paulo. Sobretudo porque a montagem é do tipo obrigatória.

A peça volta para apenas três apresentações na SP Escola de Teatro, na praça Roosevelt, centro paulistano. As datas já estão fechadas: serão nos dias 2, 9 e 16 de junho, sempre às 21h. Os ingressos prometem ser disputados a tapa.

Na peça, Vergueiro atua ao lado de Luciano Chirolli e Danilo Grangheia. Todos em grande performance.

Escrito pelo chileno Alejandro Jodorowsky e traduzido por Fábio Furtado, o espetáculo teve concorridas temporadas na cidade e arrebatou público e crítica. Tanto que Maria Alice Vergueiro recebeu o Prêmio Shell Especial em 2011 justamente por conta da obra.

A montagem já passou pelo Rio, Florianópolis, Belo Horizonte, Londrina, Brasília, Fortaleza e Recife, entre outras cidades. E também foi apresentada em Cuba.

A peça mistura tragédia e comédia e é definida pelo autor como "melodrama grotesco"; o enredo mostra duas nobres decadentes, vividas por Chirolli e Grangheia, que são acompanhadas por uma criada centenária, papel de Vergueiro, que também dirige a obra. O talento e a química dos três atores em cena consegue chamar ainda mais atenção do que o texto.

Além de Vergueiro, integram o Grupo Pândega de Teatro, que existe há cinco anos, os artistas Fábio Furtado e Luciano Chirolli, Danilo Grangheia, Carolina Splendore e Elisete Jeremias.

Maria Alice Vergueiro é um dos maiores nomes do teatro brasileiro. Ao lado de Cacá Rosset e Luiz Roberto Galízia, fundou o Teatro do Ornitorrinco, que marcou época na década de 1970.

Em mais de 50 anos de carreira, coleciona sucessos como O Rei da Vela, no qual foi dirigida por José Celso Martinez Corrêa, Mahagony Songspiel, dirigida por Cacá Rosset; Electra com Creta, sob comando de Gerald Thomas e Mãe Coragem, dirigida por Sérgio Ferrara.

Poder vê-la em cena é um privilégio que não se pode perder.

as tres velhas bob sousa Consagrada, As Três Velhas volta a São Paulo com Maria Alice Vergueiro em três sessões imperdíveis

Os atores Danilo Grangheia e Luciano Chirolli: dois parceiros à altura do talento de Maria Alice Vergueiro no espetáculo As Três Velhas; três sessões apenas - Foto: Bob Sousa

As Três Velhas
Avaliação: Muito bom
Quando: 2, 9 e 16/6/2014, às 21h. 70 min.
Onde: SP Escola de Teatro – Sede Roosevelt (praça Roosevelt, 210, metrô República, 0/xx/11 3775-8600)
Quanto: R$ 30
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Consagrada, As Três Velhas volta a São Paulo com Maria Alice Vergueiro em três sessões imperdíveis

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roberto carlos Domingou: Roberto, não proíba mais um livro!

Roberto Carlos, sempre no holofote: não proíba mais um livro, por favor - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO*

Como não é bobo, Paulo Cesar de Araújo lançou nesta semana, sem alarde, seu livro O Réu e o Rei, pela Companhia das Letras, no qual esmiúça sua relação de amor e ódio com o cantor e compositor Roberto Carlos. Afinal, ele é gato escaldado.

Não dá para esquecer que o Rei conseguiu na Justiça o direito de recolher nas livrarias a biografia que Araújo escreveu sobre ele, lançada em 2007: Roberto Carlos em Detalhes. Hoje, os exemplares que sobraram são disputados por colecionadores.

Em entrevista exclusiva à repórter do R7 Paola Corrêa, Araújo contou o que pensa sobre seu antigo ídolo e hoje virou inimigo nos tribunais. “Roberto Carlos quer ter o controle de tudo”.

Tal pretensão soa inconcebível para uma figura pública. Desde o momento em que Roberto quis ser famoso – e lutou um bocado para isso –, deveria ter consciência de que estaria trilhando uma história que não pertence só a ele.

Agora, pelo menos parte dessa história não pertence mais apenas a ele: a briga na Justiça com Araújo foi pública e pertence aos dois, cada qual com sua versão. E o público tem o direito de ouvir — e ler — ambas.

É lamentável um artista transformar seu biógrafo em réu. Se Araújo houvesse feito um livro de má fé, repleto de inverdades inventadas, seria compreensível o ódio de Roberto. Mas, não. O livro é fruto de trabalho árduo, entrevistas intermináveis, mesmo aquelas depois desmentidas, como fez Chico Buarque, que logo precisou voltar atrás após Araújo apresentar provas, levando a moral do autor de Pedro Pedreiro lá para baixo.

Os advogados de Roberto, por sua vez, já anunciaram que estão lendo a nova obra de Araújo. Aos defensores da liberdade de pensamento e de informação, só resta pedir, com todo carinho do mundo: Por favor, Roberto, não proíba o segundo livro do cara! Você não merece entrar para a história como um artista que mandou duas obras para a fogueira.

Roberto Carlos precisa entender que não durará para sempre. E que as futuras gerações têm o direito de saber quem ele foi, o que fez, em uma visão mais isenta, que é a de um pesquisador.

O Brasil precisa acordar para o perigo que é transformar uma história em peça de marketing aprovada pelo protagonista. Geralmente, atitudes desse tipo são comuns a ditadores. Não a artistas.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e é contra a censura. A coluna Domingou, uma crônica semanal, é publicada todo domingo no blog Atores & Bastidores do R7.

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nas alturas 2 Crítica: Dança potente não salva musical Nas Alturas

Cena do musical Nas Alturas: street dance é destaque na montagem do texto da Broadway - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A montagem brasileira para o espetáculo norte-americano In the Heights, chamado por aqui de Nas Alturas – Um Musical da Broadway, chega ao fim neste domingo (25) no Teatro Bradesco, em São Paulo. André Dias é o responsável pela direção, enquanto que Paulo Nogueira assina a direção musical.

Em Nova York, a montagem foi conquistando público aos poucos, desde sua estreia na off-Broadway em 1999 até chegar às salas grandiosas da Broadway em 2008. Tudo por levar para o palco o mundo dos imigrantes latino-americanos tão comuns em Nova York, representados no bairro Washington Heights, cenário onde a história se passa.

A encenação brasileira tenta reproduzir a realidade latino-americana nova-iorquina — o cenário da montagem é um dos melhores dos musicais apresentados em 2014. Porém, a sensação é de que algo não sai a contento.

Algumas tentativas de aproximação da história tão norte-americana com a plateia paulistana soam forçadas, como ouvir um personagem chegar à cena dizendo que estava preso na Marginal, sendo que os cartazes atrás dele estão em inglês e os prédios de Nova York permanecem no horizonte.

nas alturas Crítica: Dança potente não salva musical Nas Alturas

Musical Nas Alturas foca na comunidade latino-americana nos EUA - Foto: Divulgação

O enredo escrito por Lin-Manuel Miranda é praticamente o de um folhetim básico e sem muita força dramática: o grande problema em questão é o de uma jovem que abandona a universidade, para desgostos dos pais latinos, que sonham em ver a filha diplomada nos EUA. Para desgosto ainda maior dos pais, ela namora um jovem que não tem a mesma origem. Aí mora um dos melhores aspectos do texto, que poderia ser melhor explorado: a discussão do preconceito justamente dentro de uma comunidade que tanto pena por ele.

Leia também: Brasil abre o palco para teatro da América Latina

A homenagem aos latinos muitas vezes não soa como tal, já que sobram estereótipos, a começar nos figurinos de corres berrantes. É como ver uma visão de um norte-americano branco para os latinos que insistem em atravessar a fronteira de seu rico país. Falta um olhar mais crítico. Um dos subtextos presentes é de que um latino não consegue levar os estudos a sério e só pode vencer na vida se ganhar um bilhete na loteria. Fazer o “sonho americano” a partir do próprio mérito não seria possível para os latinos?

A montagem paulistana apresenta versões complicadas para algumas canções, cujos versos parecem teimar em não entrar na melodia, além do excesso de concretude, ou falta de poesia, dos mesmos.

As coreografias de Andy Blankenbuehler são potentes. Talvez, seja o melhor deste musical. Nos números de street dance, há uma força jovem presente, e até certo exibicionismo. E o elenco, composto de excelentes bailarinos, dá conta do recado.

Fica, entretanto, a sensação de que, em alguns momentos, a dança conjunta peca pelo excesso, deixando o palco confuso. O objetivo é mesmo impactar e deixar o espectador sem fôlego, mas isso o tempo todo dispersa a plateia, que fica sem foco. Muitas vezes, menos é mais.

nas alturas 4 Crítica: Dança potente não salva musical Nas Alturas

Casal de protagonistas: falta peso às atuações - Foto: Divulgação

O elenco poderia ter sido mais exigido e trabalhado, sobretudo para não deixar tão evidente a imaturidade, escancarada nas atuações. Muitos não conseguem sustentar um diálogo de mais de três frases. Outros apelam para uma atuação mais próxima à do teatro infantil.

Na execução das canções, a técnica é evidente, mas falta a sensibilidade de perceber que algumas colocações, sobretudo em agudos, deixam irritantes as vozes de algumas atrizes. Baixar o tom e trabalhar os graves teria sido melhor para os ouvidos mais sensíveis.

Há que se dizer que o elenco está entregue, mesmo que de forma quase inocente. Parece não ter consciência de seus percalços, executando as marcações da forma que podem. Aí, faltou uma mão mais pesada da direção em lapidar a turma com cuidado, sobretudo para não expor o elenco desta forma.

A exceção positiva está em Cleide Queiroz, na pele da “abuela” latina. Mais madura e com estrada artística, é a única a trazer algum tipo de verdade à encenação. A plateia retribui com aplausos generosos à sua performance.

O que Nas Alturas – Um Musical da Broadway explicita é que a produção brasileira de musicais anda tão farta que já podemos até a nos dar ao luxo de fazer um espetáculo que não dá tão certo assim.

Nas Alturas – Um Musical da Broadway
Avaliação: Fraco
Quando: Domingo, 19h30. 140 min. Até 25/5/2014
Onde: Teatro Bradesco – Shopping Bourbon (r. Turiassu, 2.100, Perdizes, São Paulo, tel. 0/xx/11 3670-4100)
Quanto: R$ 30 a R$ 180
Classificação etária: 10 anos
Avaliacao Fraco R7 Teatro PQ Crítica: Dança potente não salva musical Nas Alturas

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luiza ambiel Luiza Ambiel protagoniza comédia Nua na Plateia

Luiza Ambiel: nada de Banheira do Gugu, ela agora é atriz de teatro - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Luiza Ambiel ficou famosa em todo o Brasil na década de 1990, quando participava do quadro Banheira do Gugu, no programa Domingo Legal, no SBT. Aquele do sabonete.

Contudo, pouca gente sabe que ela se aventura há um bom tempo nos palcos paulistanos. E prefere falar de seu presente trabalho do que ficar relembrando o passado para sempre.

Após o furor televisivo, Ambiel se tornou atriz requisitada no mundo das comédias paulistanas, sobretudo nos teatros da Bela Vista dedicados ao gênero.

Sua mais recente incursão nos tablados é Nua na Plateia.

O texto de Ronaldo Ciambroni ganha direção do mineiro Ílvio Amaral (de Acredite, um Espírito Baixou em Mim), no Teatro Ruth Escobar, na Bela Vista, em São Paulo [veja serviço ao fim].

O enredo que já fez sucesso mais de duas décadas atrás foi transportado para os tempos atuais.

A peça conta a história de uma modelo, vivida por Ambiel, que tenta emplacar na carreira, mas acaba se envolvendo com picaretas. A obra desconstrói o glamour com que este mundo geralmente é visto. Com direito a muitas risadas.

Além de Ambiel, também estão no elenco Élcio Junior e André Maizena.

Nua na Plateia
Quando: Quinta, 21h30. 60 min. Até 29/5/2014
Onde: Teatro Ruth Escobar - Sala Gil Vicente (r. dos Ingleses, 209, Bela Vista, metrô Brigadeiro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3289-2358)
Quanto: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

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Amarillo Compania de Teatro Linea de Sombra13 Brasil abre o palco para teatro da América Latina

Um palco latino: o ator mexicano Raúl Mendoza, em Amarillo, do Teatro Línea de Sombra - Foto: Divulgação

Por MAÍRA DE CARVALHO MORAES e MIGUEL ARCANJO PRADO*

Um imigrante mexicano escala um muro intransponível em busca do sonho de imigração para os Estados Unidos. Um palhaço boliviano fala à plateia da resistência em fazer sua arte em um país com tantas dificuldades. Prostitutas, travestis e traficantes cubanos surgem detrás dos cantos escuros de Havana. Uma jovem Mapuche chilena brada contra o descaso governamental para com sua dor. Tais cenas puderam ser vistas em 2013 nos palcos brasileiros ao som da língua castelhana.

la muerte de un actor foto helio dusk Brasil abre o palco para teatro da América Latina

Público paulistano vê La Muerte de un Actor, com Antonio Peredo, da Bolívia - Foto: Hélio Dusk/SP Escola de Teatro

São imagens dos tempos atuais de um lugar chamado América Latina. E o teatro é arte intrinsecamente ligada a seu tempo. Efêmero, reflete no presente a sociedade que o gera em cima do palco. E, como tais enredos cênicos explicitam, a integração latino-americana começa a chegar de fato aos tablados, ainda que haja muito a avançar.

Há algum tempo, a discussão sobre a integração entre os países que formam a América Latina alcançava apenas a reflexão sobre o intercâmbio econômico. No afã de formar um grande mercado para competir no contexto global, as similaridades históricas, sociais e culturais entre os países latino-americanos, muito maiores do que nossos acordos econômicos, pareciam passar despercebidas.

No entanto, nos últimos anos, iniciativas de intercâmbio cultural têm sido mais perceptíveis. No teatro não é diferente. E isso ocorre mesmo sendo esta arte afetada pela precariedade de visibilidade e de financiamento.

Festivais latinos

Um dos eventos mais importantes no sentido de integrar os palcos desta região do planeta foi criado em 2006, quando houve a primeira edição da Mostra Latino-americana de Teatro de Grupo, a partir de então realizada anualmente no Centro Cultural São Paulo (CCSP) com entrada gratuita e público anual de cerca de 4.000 espectadores.

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Ney Piacentini, idealizador da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo de São Paulo - Foto: Bob Sousa

A oitava edição aconteceu entre 16 e 21 de abril de 2013 e registrou participação de mais de cem artistas de 11 companhias teatrais latino-americanas. Idealizador do projeto, o ator Ney Piacentini, integrante da Cia. Do Latão e ex-presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, afirma que o evento promove intercâmbio entre grupos de teatro de diversas linguagens e orientações.

Piacentini conta que a Mostra dá espaço, prioritariamente, para produções alternativas. “Convidamos via de regra obras pouco conhecidas para o espectador de São Paulo, para quebrar protocolos na relação entre quem está em cena e quem os vê”, diz. A Mostra também promove um intercâmbio entre atores e encenadores, que demonstram e discutem seus processos criativos, além de assistirem mutuamente a todos os espetáculos.

Piacentini afirma que tal modelo inspira novos projetos. “Desde que lançamos a mostra, depois vieram o Festival Ibero-americano de Teatro de São Paulo [Festibero], realizado anualmente no Memorial da América Latina, o Festival Latino-Americano de Teatro da Bahia [Filte], e o Festival Ibero-americano de Artes Cênicas de Santos, o Mirada”, lembra.

Mais de 100 mil no Mirada

Realizado bianualmente pelo Sesc Santos desde 2010, o Mirada já se tornou, assim como a Mostra, referência entre os festivais latino-americanos. Enquanto na edição de 2010 foram 18 espetáculos internacionais e 13 nacionais, em 2012 o número cresceu para 23 peça internacionais e 15 nacionais. O público também dobrou: em 2010, 50 mil pessoas viram o Mirada. Em 2012, o número passou para 100 mil pessoas, segundo o Sesc São Paulo – metade deste número participante de atividades ao ar livre. A edição de 2014 já está agendada para setembro.

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Público lota Sesc Santos, no litoral paulista, no Mirada: edição de 2014 será em setembro - Foto: Divulgação

Festivais como o Mirada, patrocinado por verbas do comércio destinadas ao Sesc São Paulo, em parceria com a Prefeitura de Santos, e a Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, cujo maior patrocinador é a Petrobras, são exemplos de eventos em que a presença das expressões teatrais de outros países da América Latina estão acessíveis.

A Petrobras, multinacional brasileira principal apoiadora da Mostra, tem interesses econômicos explícitos na América Latina, já que mantém atividades operacionais em nove países da região: Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Uruguai, Colômbia, Peru, Venezuela e México.

O incentivo, assim,  não é uma coincidência. Com essas ações culturais a empresa pretende vincular sua imagem à cultura e, consequentemente, à classe artística. Assim, gera empatia dos consumidores pela marca, firmando uma aproximação cultural, ainda que marcada pelo marketing.

Além da acolhida do público, esses eventos já conquistaram espaço e cobertura nos principais veículos de comunicação que cobrem o teatro. Mas, nem sempre a presença de espetáculos latino-americanos em território brasileiro foi algo bem visto pela imprensa, muito pelo contrário.

Passado de ataques

O ator Procópio Ferreira (1898-1979), no livro Procópio Ferreira Apresenta Procópio [Editora Rocco,2000], conta que foi achincalhado pelos jornais brasileiros em 1924, quando propôs a encenação no Brasil de peças argentinas, bem como a realização de viagens de montagens brasileiras a Buenos Aires.

O La Nación, tradicional jornal argentino, reconheceu o esforço de Ferreira, em matéria publicada em 15 de maio de 1924, na qual afirmou que “Procópio Ferreira tem sido inegavelmente o primeiro realizador do programa de divulgação do teatro argentino”.

Contudo, tal iniciativa não foi bem recebida na imprensa brasileira. O jornal carioca O Brasil chegou a dizer naquele então, em tom de deboche: “À guisa de aproximação sul-americana, começam a ser traduzidas para a nossa língua diversas pecinhas do teatro argentino, enquanto dizem por aí que algumas farsas do Teatro Nacional serão montadas em Buenos Aires”. A mesma publicação decretou: “De coisinhas para rir nós estamos fartos. Dispensa-se a troca”. Em resposta, Procópio Ferreira defendeu a integração em entrevista ao jornal A Noite, publicada em 8 de setembro de 1924. “Nas peças argentinas há teatro. E teatro a valer. Eu as represento com o maior encanto”.

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Crítica se aproxima: Jefferson del Rios pesquisou a obra do argentino Victor García - Foto: Divulgação

Demorou mais de 40 anos para que o teatro feito em parceria com a Argentina ganhasse reconhecimento da crítica especializada brasileira. Tal fato só veio a ocorrer em 1968, quando o diretor argentino Victor Garcia fez uma montagem em São Paulo do espetáculo Cemitério de Automóveis com atores brasileiros e abocanhou os prêmios de melhor diretor e melhor espetáculo da Associação Paulista de Críticos de Teatro, a atual APCA, como lembra Jefferson Del Rios no livro Victor Garcia – A Vida Sempre em Jogo (Edições Sesc SP, 2012).

Mineiros e portenhos

Na atualidade, o cenário é bem diferente daquele encontrado por Procópio Ferreira em sua tentativa de aproximação de nosso teatro com o feito por nossos vizinhos. O dramaturgo e diretor argentino Daniel Veronese, um dos grandes expoentes da cena portenha contemporânea, tem apresentado constantemente seus espetáculos no Brasil nos últimos anos.

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A atriz e diretora mineira Grace Passô, em cena do texto argentino O Líquido Tátil - Foto: Guto Muniz

Em 2013, teve sua peça O Líquido Tátil encenada sob sua direção pelo grupo Espanca!, de Belo Horizonte. Apresentada no Festival de Teatro de Curitiba e no Sesc Pompeia, em São Paulo, a peça destacou a integração entre os artistas de diferentes países como um de seus principais objetivos. Em 2014, foi apresentada no FIT-BH (Festival Internacional de Teatro, Palco e Rua de Belo Horizonte).

Grace Passô, atriz da montagem e diretora da trupe mineira, diz que partiu deles o convite. “O trabalho do Veronese é uma referência. Ele constrói trabalhos de estilos diferentes, com focos distintos, mas sempre com uma encenação radical”. Veronese também elogia o trabalho dos atores brasileiros. “São disciplinados e trabalhadores. Tivemos um ótimo contato porque eles são abertos a escutar”.

Experiências enriquecedoras

O grupo mineiro não é o único com vontade de intercâmbio. Lee Taylor, que integrou por dez anos o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Sesc São Paulo comandado por Antunes Filho e hoje dirige o Núcleo de Artes Cênicas (NAC), também confessa ser fã do trabalho de Veronese.

Ele revela que viu todas as montagens do argentino que estiveram em cartaz no Brasil. E conta que sempre está atento ao teatro que vem de outros países da América Latina.

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Tadeu Ibarra (acima) e Lee Taylor: atores brasileiros buscam dialogar com a América Latina - Foto: Bob Sousa

Taylor também já esteve do outro lado da moeda, apresentando-se em países da América Latina em peças de Antunes Filho, em lugares como Argentina, Colômbia e Peru. “Fiz estas viagens entre 2008 e 2012. Foram experiências enriquecedoras do ponto de vista de troca entre artistas do teatro. Pude confirmar a força das manifestações teatrais produzidas na América Latina. O que mais me chamou atenção foi a receptividade ao teatro brasileiro e a diversidade de produções nestes festivais”. Tal experiência faz Taylor declarar que “pretende afinar cada vez mais este intercâmbio” ao longo de sua carreira.

O ator carioca radicado em São Paulo Tadeu Ibarra, atualmente cursando a Escola de Arte Dramática da USP, também guarda boas lembranças de quando viajou como o grupo Os Satyros para o 14º Festival Internacional de Teatro de Havana, em Cuba, em 2011, mas crê que a viagem poderia ter sido mais proveitosa do ponto de vista de intercâmbio artístico. Na correria em apresentar sua peça, Cosmogonia, teve pouco contato com a cena cubana. “Foi muito trabalho, não consegui assistir a nenhuma peça do festival, apenas uma apresentação de um grupo folclórico”, lembra.

Por isso, agora aproveita suas férias para desbravar palcos vizinhos. Com parte da família uruguaia, Ibarra tem por hábito frequentar a cena teatral local sempre que visita o Uruguai. Além disso, sempre que há festivais que explorem a temática latina em São Paulo, faz questão de estar na plateia.

“Adoro assistir teatro latino-americano, não sei se pelo fato de parte de minha família ser uruguaia. Mas, acho que há muito mais incentivos para a vinda de grupos europeus para o Brasil, do que para grupos latinos”, lamenta o ator. Tadeu reforça que seu interesse no teatro latino-americano se dá “porque as problemáticas sociais são muito parecidas, bem como a estética e as dificuldades em se fazer teatro em um país sem estrutura”. E diz que, por isso, o diálogo acontece espontaneamente: “A gente se simpatiza, se entende”.

Boliviano no Brasil

Tal entendimento também ocorre do outro lado. Antonio Peredo, ator boliviano, se apresentou no Festibero 2013 com o monólogo La Muerte de Un Actor, em 2013, no qual se veste de palhaço para fazer uma reflexão da vida artística em seu país.

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O ator boliviano Antonio Peredo: "Temos muito em comum" - Foto: Hélio Dusk/SP Escola de Teatro

Ele conta que ficou “impressionado ao perceber que o Brasil vive um momento de abertura para a América Latina que antes não tinha”. “Antes, o olhar estava voltado para a Europa”, afirma.

Para Peredo, tal aproximação é mais do que necessária: “Nós, bolivianos, brasileiros, latino-americanos, sofremos os mesmos acontecimentos, os mesmos episódios violentos. Temos indígenas mortos, escravidão, histórias de ditaduras. E nós, artistas latino-americanos, contamos essas histórias, seja em português ou castelhano. É isso que nos une e nos faz parte de um só mundo”.

Submundo cubano

Carlos Celdrán, diretor do grupo cubano Argos Teatro, afirma que vê muita aproximação entre o teatro feito na ilha caribenha e o do Brasil: “São muitas as semelhanças culturais, étnicas, musicais, rítmicas, alimentícias e sociais”.

Ele esteve em São Paulo a convite da Mostra Latino-americana de Teatro de Grupo em 2013, com Talco – Un Drama de Tocador, que apresenta o submundo das drogas e da prostituição em Havana.

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O diretor cubano do Argos Teatro Carlos Celdrán: "Brasileiros são amáveis" - Foto: Eduardo Enomoto

Contudo, no âmbito da produção teatral, Brasil e Cuba tem diferenças, como aponta Celdrán: “Em Cuba o teatro é pago e aprovado pelo Estado. Não existe um teatro comercial estabelecido como acontece no Brasil. Mas, artisticamente, não vejo diferenças; nos dois países coexistem todo tipo de poética teatral”.

O cubano conta que foi bem recebido e que percebeu que “as instituições culturais brasileiras que me convidaram são extremamente organizadas”. Ele também diz que será difícil se esquecer do público brasileiro: “Como espectadores de teatro são esplêndidos, amáveis e muito intensos em suas reações”, afirma.

Celdrán ressalta que todos os grupos de teatro cubano que já vieram ao Brasil tiveram suas viagens pagas pelos festivais e instituições brasileiras que fizeram o convite: “Em troca, os grupos brasileiros, que viajam a Cuba, em muitas ocasiões, pagaram suas viagens, pois Cuba não conta com recursos para arcar com tais despesas”. Ele reforça que viver de teatro em Cuba é questão de resistência e que “a classe teatral vive modestamente” na ilha.

Temática latina

Espetáculos como La Muerte de Un Actor e Talco – Drama de un Tocador, com temas genuinamente latino-americanos, têm sido a tônica do teatro, sobretudo o de grupo e não comercial feito na América Latina. Em 2013, o público paulistano teve a oportunidade de ver no palco do Sesc Pompeia outros dois espetáculos que trouxeram temas pungentes da região para o palco.

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A atriz e diretora chilena Paula Seguel, em Galvarino: visibilidade para histórias latinas - Foto: Pierre Duarte

Em Galvarino, espetáculo da Companhia Teatro Kimen, de Santiago do Chile, apresentado também no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, é contada a história da família da diretora, Paula González Seguel, da etnia mapuche. A peça mostra o descaso governamental com o desaparecimento de um membro da família. “O povo mapuche foi vítima de muitas injustiças. Mas, acho que, mais do que ser mapuche, a injustiça contada na peça aconteceu porque somos pobres. Acho que de alguma maneira o teatro dá visibilidade a isso”, conta a diretora. Ela lembra que o Brasil foi a primeira viagem internacional do grupo e que ficou impressionada em como a plateia paulista recebeu a história. “Acho que esta acolhida aconteceu porque é uma história universal de injustiça”, diz.

Já em Amarillo, do grupo mexicano Teatro Línea de Sombra, descortina-se a indústria de imigração ilegal entre México e Estados Unidos. Antígona González, atriz do grupo, diz que ficou “apaixonada pelos brasileiros”. E afirma: “O tratamento que tivemos no Brasil foi muito melhor do que nos países de primeiro mundo onde estivemos. O Brasil tem uma questão humana muito forte”, aponta.

Raúl Mendoza, que vive o imigrante protagonista da obra, diz que Amarillo é assimilada em toda América Latina. “Todos temos história com imigração. E o tráfico internacional de pessoas sempre foi um excelente negócio. Vamos ao particular para falar do universal. Hoje, há latino-americanos que vão para o Brasil”.

Brasil atrai artistas de países vizinhos

A atual fase econômica brasileira propiciou maiores investimentos na área cultural. E isso tem atraído um número cada vez maior de imigrantes de outros países da América Latina. No caso das profissões ligadas às artes, São Paulo, com sua pujança cultural, tem sido um polo atrativo.

São inúmeras salas de cinema, teatros, escolas de artes, museus e instituições culturais dispostos a investir cada vez mais em novidades.  Somam-se a isso as leis de Incentivo Cultural que propiciam captação de verbas ou mesmo o patrocínio através de editais, sejam dos governos federal, estadual e municipal.

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A atriz peruana Marba Goicochea, no teatro paulistano há dez anos: "sotaque é diferencial" - Foto: Eduardo Enomoto

O Brasil e, sobretudo, São Paulo tem passado por um processo de mercantilização da cultura. Processo que pode propiciar a profissionalização e maior oferta de atividades culturais. A cena teatral paulistana tem atraído atores e encenadores de nossos vizinhos justamente pela possibilidade de, na cidade, se poder viver da profissão. Além disso, a cultura brasileira e a receptividade do povo brasileiro tem sido também um dos motivos de favorecimento desse intercâmbio.

Burocracia complicada

Marba Goicochea, atriz peruana radicada no Brasil, observa que encontrou relativa facilidade em trabalhar com teatro em São Paulo. “Fiz uma viagem ao Brasil para visitar meu irmão, e acabei indo aos Satyros [grupo teatral estabelecido na praça Roosevelt, na capital paulista]. Depois de um tempo, acabei conseguindo um estágio na companhia. A partir disso, fui conhecendo pessoas do meio. Já estou há 11 anos no Brasil”, conta.

Apesar da “burocracia complicada” para se estabelecer no país definitivamente, Marba destaca o fato de ter sido “muito acolhida pelas pessoas, tanto na vida pessoal quanto profissional”. A atriz conta que percebeu mais liberdade no Brasil em relação a obras peruanas. “O Peru é mais conservador. Por exemplo, lá não se vê no palco um [Marquês de] Sade, como tem aqui”.

A peruana não vê seu sotaque como empecilho para atuar em espetáculos falados em português. “Tenho tido a sorte de que justamente essa diferença seja algo que acrescente nos trabalhos que participo no teatro”.

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A atriz chilena-brasileira Paola Dourge: estudos na SP Escola de Teatro e na Escola de Arte Dramática da USP - Foto: Arquivo pessoal

Metade chilena

Paola Dourge, atriz brasileira que foi morar no Chile aos seis anos e voltou ao Brasil já adulta, diz que optou por estudar teatro e trabalhar com ele em São Paulo por conta da gama de possibilidades profissionais que a cidade lhe dá. “Um dos motivos é que existem muito mais oportunidades em termos artísticos, mais editais, mais opções, pois no Chile há poucas oportunidades se compararmos Santiago e São Paulo.”

A atriz, que se diz “metade chilena e metade brasileira”, finalizou em 2013 o curso de atuação na SP Escola de Teatro, mantida pelo Governo de São Paulo. Em 2014, começou a Escola de Arte Dramática da USP (Universidade de São Paulo). Ela, que está há pouco mais de dois anos no Brasil, afirma que tem percebido neste tempo o aumento das tentativas de intercâmbio entre o teatro brasileiro e o que é realizado em outros países da América Latina: “Sinto o movimento em relação a isso, mas poderia ser muito maior”.

Diálogo de fato para um palco latino

As iniciativas de intercâmbio cultural na cena teatral ainda não são ideais, mesmo que a oferta atual seja muito maior que antigamente. O crescimento econômico não possibilitou todavia uma maior integração entre os países latino-americanos. É necessário muito mais iniciativas para que a cena teatral latino americana seja horizontalizada, ou seja, algo diferente de um monólogo ditado pelo Brasil. É preciso que ocorra uma dialética entre os países latino-americanos.

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Cena da peça Talco - Un Drama de Tocador: mundo marginal cubano no palco de SP - Foto: Julio de la Nuez

É exatamente isso que defende o ator boliviano Antonio Peredo, que esteve em São Paulo no começo de 2013 mantido por pelo programa de intercâmbio da SP Escola de Teatro, além de participar do Festibero. “O intercâmbio que existe está circunscrito aos festivais. Contudo, este intercâmbio de espetáculos só permite um breve panorama da atualidade teatral. E não propicia maiores avanços. Os intercâmbios dedicados à formação teatral ainda são esporádicos e apenas começam a serem experimentados”, diz.

Para Peredo é preciso avançar. “Mais do que nos observarmos com admiração, devemos voltar nosso olhar para nós mesmos. Os intercâmbios precisam acontecer não só na educação e circulação, mas também na difusão na coprodução, na reflexão e na pesquisa, que são áreas propícias para o encontro”.

De acordo com o boliviano, só a partir desta perspectiva mais ampla “haverá um enriquecimento para os povos latino-americanos”. O ator mexicano Raúl Mendoza concorda com o colega: “Foram criados muitos guetos. Temos de quebrar as fronteiras e permitir que as pessoas se misturem”, afirma. E não há lugar melhor do que o palco latino para o encontro desta diversidade cultural tão exuberante.

*Maíra de Carvalho Moraes é historiadora formada pela USP (Universidade de São Paulo). Já Miguel Arcanjo Prado é jornalista formado pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Ambos são pós-graduandos em Mídia, Informação e Cultura pelo CELACC (Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação) da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP. Esta reportagem, originalmente, foi o trabalho final de ambos na disciplina Jornalismo Cultural, ministrada pela Profª Ms. Maria Bernardete Toneto.

 

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