oduelo Crítica: O Duelo produz instantes sublimes de teatro

Aury Porto e Camila Pitanga, em cena de O Duelo, da mundana companhia, no CCSP - Foto: Divulgação

Por Beth Néspoli*
Especial para o Atores & Bastidores

Vi O Duelo, da mundana companhia, no Centro Cultural São Paulo. Minha experiência como espectadora leva-me a dizer: se você teve vontade de ver e hesitou devido à longa duração (3h20), atravesse essa barreira e vá correndo, porque a temporada está no fim.

No teatro, às vezes, experimenta-se simultaneamente o envolvimento emocional e/ou racional com a ficção e prazer propiciado pela observação dos procedimentos criativos. Há muitos momentos assim em O Duelo.

Num deles, o grupo consegue instaurar com poucos elementos o intenso frescor do banho de mar, com direito a mergulho e natação, compartilhado pelas mulheres interpretadas por Camila Pitanga e Carol Brada.

Toda a ação transcorre na região do Cáucaso, em uma Rússia quente e litorânea e, nessa cena, o espectador não apenas é tocado pela situação ficcional, na qual a leveza do momento de lazer contrasta com a peso das emoções veladas da personagem vivida por Camila, como pode deleitar-se com as soluções cênicas criadas para colocar no palco o mar e seus fluxos.

Em outro momento do espetáculo, discreto estímulo sonoro, coreografia precisa que beira à imobilidade e algumas poucas palavras são elementos mobilizados para convocar a imaginação do espectador na criação de um amplo cenário.

O silêncio denso que se segue produz um daqueles instantes sublimes de teatro em que sentimos o próprio corpo plantado no presente e, ao mesmo tempo, transportado para a ficção. Experiência para ficar na memória.

O Duelo diverte o espectador, sem nada ter de frívolo. Mais do que isso, é encenação relevante para o momento histórico vivido no Brasil, esse nosso tempo em que ‘a ferro e fogo’ deixou de ser apenas uma metáfora para disputas de pensamento.

O tradicional duelo, com padrinhos e pistolas se faz presente, mas passa ao largo do motivo banal e não se restringe ao momento específico em que dois homens empunham armas.

Em jogo está um embate de visões de mundo que atravessa todo o espetáculo. Em uma das pontas um homem em crise existencial (Aury Porto) flagrado num momento de passagem e muitas dúvidas. Abandonou um modo de ser, mas ainda não se apropriou do que quer vir a ser.

Na outra ponta, um cientista determinado e pleno de certezas (Pascoal da Conceição). Para mediar o constante duelo entre eles Tchekhov cria um personagem (Vanderlei Bernardino), não por acaso um médico como ele próprio o era, que respeita diferenças e aposta no diálogo.

Já as partes em conflito só conseguem ver duas soluções para suas diferenças: o afastamento geográfico ou a eliminação do oponente. Não é um teatro de tese. O que acompanhamos no palco são atos de gente em seu cotidiano. E a abordagem não é coral. É atravessando subjetividades e relações interpessoais que Tchekhov trata da sociabilidade.

O homem em crise é de origem aristocrática e deixou a cosmopolita São Petersburgo para viver no distante Cáucaso, com sua mulher (Camila Pitanga) que, por sua vez, ousou abandonar o marido para se lançar na aventura. Porém dois anos depois – é quando tem início a narrativa – ambos se sentem entediados e solitários.

Cada cena do espetáculo está repleta de pequenos duelos, alguns com desdobramentos terríveis, muitos originados da oposição entre o comportamento do casal e os hábitos conservadores da distante província.

A linguagem do drama – mesmo que quebrado por procedimentos épicos como faz a mundana companhia – exige intérpretes com domínio técnico para dar forma não estereotipada a emoções e sentimentos múltiplos e contraditórios.

Nesse quesito é inegável a qualidade do conjunto de atores de O Duelo e não raro aquele já citado duplo prazer é proporcionado pela atuação do elenco. Por exemplo, na cena que poderíamos chamar de duelo final entre a mulher vivida por Camila Pitanga e seu opressor, o policial interpretado por Sérgio Siviero que a assedia sexualmente, é possível estar a um só tempo em estado de comoção pela tragédia iminente e apreciar o investimento criativo conjunto de atores e direção.

Uma miríade de sentimentos é trazida à tona por meios de recursos como o movimento corporal da atriz que oscila entre o vergar-se e o aprumar-se, a modulação da sua voz e a manipulação do figurino. Tudo na sua atuação converge para intensificar a atmosfera de impotência da presa que no breve instante que antecede a captura faz as últimas tentativas para escapar.

Do lado do predador, em vez do esperado gesto curto e reto da força bruta, Siviero opta pelo movimento sinuoso e por botes curtos, o que amplia em muito a densidade do momento. O desenho final contribui para ressaltar a opressão sobre o feminino como questão cultural grave.

Embora situado na Rússia de dois séculos atrás, o espetáculo diz muito sobre os nossos tempos. O Duelo fica em cartaz no CCSP até o dia 15 de dezembro de 2013. Não deixe de ver.

*Beth Néspoli é jornalista especializada em teatro e doutoranda em artes cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo).

O Duelo
Quando: Quinta a domingo, 19h30. 210 min. Até 15/12/2013
Onde: Centro Cultural São Paulo (r. Vergueiro, 1.000, metrô Vergueiro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3397-4002)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos

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mandela Nelson Mandela mostrou ao mundo que sonho de igualdade entre homens é única verdade possível

Nelson Mandela: homem que pagou com a própria liberdade por sonho de igualdade - Foto: Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado

Como, um dia, negros e brancos foram separados por leis racistas? A pergunta, esperamos todos, deverá surgir com ar de espanto em uma criança no futuro, sem entender como as coisas já foram tão cruéis e estúpidas neste mundo.

E, quem quer que responda ao questionamento, terá de mencionar um homem que, em meio a um cenário tão hostil ao seu redor, dedicou sua vida a simplesmente acreditar que negros e brancos são iguais.

Homem que ensinou ao mundo que todos, independentemente de etnia, somos apenas seres humanos. E que qualquer tipo de segregação racial é um torpe crime contra a humanidade. O nome deste homem é Nelson Mandela, que o mundo perdeu nesta quinta-feira (5), aos 95 anos.

Foi por meio de Mandela e sua luta, mesmo feita em grande parte de dentro de uma prisão, que o mundo soube do horror do apartheid, o regime racista da África do Sul que instaurou uma barreira de privilégios para brancos em detrimento de negros oprimidos entre 1948 e 1994 – sim, é absurdo que tenha durado até tão pouco tempo atrás.

A trajetória de Mandela é em si só uma vitória. Oriundo de família simples, foi o primeiro a estudar na sua casa. E não fez feio. Formou-se advogado e logo viu que seu caminho era o luta por igualdade. E por ela pagou preço caro: sua própria liberdade, amargando 27 anos na cadeia após ter sido preso em uma manifestação contra o apartheid.

Mas o homem que deu sua liberdade por conta do sonho de igualdade, jamais desistiu. Com sua obstinação e carisma, convenceu o mundo inteiro de que o seu sonho era a única verdade possível para a África do Sul: um lugar onde negros e brancos pudessem conviver de forma igualitária e em paz. Porque as coisas devem ser assim.

Tal qual sonhou também o mártir norte-americano Martin Luther King, assassinado por conta da luta contra o racismo nos EUA, Mandela inspirou gente no mundo todo – no Brasil foi cantado pelo Olodum. E, ao contrário do norte-americano, pôde viver para ver seu desejo se tornar realidade.

Da prisão foi para o posto de presidente de seu País, elevado de condição de vergonha mundial para o posto de mais próspero país africano e que recebeu a última Copa do Mundo, quando fez sua última aparição pública.

Mandela se vai, mas nos deixa intocadas sua garra, sua obstinação, seu exemplo, sua vida. Vida esta que o fez um dos grandes nomes da humanidade. Que o futuro saiba respeitar e propagar seu legado de igualdade.

Salve, Mandela!

Saiba também sobre a morte de Fauzi Arap, aos 75 anos

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fauzi arap21 Morre Fauzi Arap aos 75 anos em SP   Ele se preparou e morreu sereno, diz sobrinho

Fauzi Arap morreu aos 75 anos - Foto: SP Escola de Teatro

Por Miguel Arcanjo Prado

Será velado na noite desta quinta (5) na Catedral Ortodoxa do bairro do Paraíso, em São Paulo, o corpo do diretor, dramaturgo e ator Fauzi Arap.

Ele morreu em casa, na capital paulista, aos 75 anos, na madrugada desta quinta, segundo divulgou o site da SP Escola de Teatro, ligada ao governo estadual paulista. O artista sofria de câncer na bexiga.

O enterro do corpo será nesta sexta (6), às 11h, no Cemitério São Paulo, em Pinheiros, na zona oeste.

Leia também: Morre Nelson Mandela

O R7 conversou com Fábio Atui, sobrinho de Fauzi Arap que é médico e cuidou do familiar. Segundo ele, a partida do tio foi do modo como ele queria.

– Ele morreu sereno e viveu a vida como ele quis. Ele se preparou para este momento. Ele detestava as coisas materiais e arrumou tudo para partir.

Crítico teatral e ex-presidente da APCA, Aguinaldo Cristófani Ribeiro da Cunha afirmou que ficou "profundamente chocado" com a morte de Arap. Ele conheceu o diretor por meio de sua prima, Myriam Muniz.

– É uma perda enorme para o teatro brasileiro, por seu talento e postura como homem de teatro. Perda irrecuperável para nós, seus amigos. Seu teatro era autoral, personalíssimo, desde sempre.

Claudia Mello, que está em cartaz na obra Chorinho, dirigida e escrita por Arap, ao lado de Denise Fraga, falou, emocionada ao R7. A atriz era amiga do diretor havia mais de 40 anos.

– Ele deixa uma contribuição incrível ao teatro brasileiro. Ele uniu estética e ética. Ele tinha uma sensibilidade única e revolucionou a forma de se fazer teatro. Eu sempre ia visitá-lo.

Claudia Mello revelou que ela e Denise Fraga irão homenagear Fauzi Arap em Brasília, neste fim de semana, onde apresentam Chorinho no Teatro Brasil 21 Cultural, de sexta (6) a domingo (8). Ela ainda contou que planejava com Denise Fraga montar um novo texto de Arap, Doutor, Eu Quero Alta, em 2014.

Homem do teatro

Arap integrou o Teatro Oficina no começo do grupo, ao lado de José Celso Martinez Corrêa. Ganhou o Prêmio Saci, oferecido pelo jornal O Estado de S. Paulo, e também o Prêmio Governador do Estado, como melhor ator coadjuvante na peça A Vida Impressa em Dólar, de 1961.

Natural de São Paulo, onde nasceu em 1938, Arap era engenheiro civil pela USP (Universidade de São Paulo). Ele também trabalhou no Teatro de Arena.

Como diretor, apresentou textos de autores que se consagrariam mais tarde, como Plínio Marcos e Antônio Bivar. Em 1971, dirigiu Maria Bethânia no show Rosa dos Ventos. Recentemente, escreveu e dirigiu a peça Chorinho, que estreou em 2007 com Claudia Mello e Caio Blat, depois substituído por Denise Fraga no elenco.

fauzi arap Morre Fauzi Arap aos 75 anos em SP   Ele se preparou e morreu sereno, diz sobrinho

Fauzi Arap, à esq., conversa com José Wilker, Glauce Rocha, Clarice Lispector e Dirce Migliaccio sobre o espetáculo Perto do Coração Selvagem, primeira vez de um texto de Clarice no teatro, dirigido por Fauzi, em 1964 - Foto: Acervo Funarte

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É uma perda enorme para o teatro brasileiro, por seu talento e postura como homem de teatro. Perda irrecuperável para nós, seus amigos. Estou profundamente chocado. Fauzi era muito querido. Homem e artista de grande e singular personalidade. Ganhou o Grande Prêmio da Crítica da APCA não faz muito tempo, não foi buscá-lo pessoalmente, é claro, mas enviou seus queridos amigos Nilton Bicudo, Cláudia Mello e Denise Fraga para representá-lo na cerimônia no Teatro Paulo Autran. Seu teatro era autoral, personalíssimo, desde sempre, que me lembre (Rosa dos Ventos e tantos outros grandes espetáculos). Muito amigo de Flávio Império. Eu o conheci através de Miriam Muniz, de quem era amigo e cuja casa frequentava com assiduidade. Ficamos amigos. Lembro-me dele, extraordinário ator, ao lado de Guarnieri e de Miriam, em O Inspetor Geral, e ao lado de Cleyde Yáconis em O Fardão. Fauzi era muito querido. Homem e artista de grande e singular personalidade. Ganhou o Grande Prêmio da Crítica da APCA não faz muito tempo, não foi buscá-lo pessoalmente, é claro, mas enviou seus queridos amigos Nilton Bicudo, Cláudia Mello e Denise Fraga para representá-lo na cerimônia no Teatro Paulo Autran. Seu teatro era autoral, personalíssimo, desde sempre, que me lembre (Rosa dos Ventos e tantos outros grandes espetáculos). Muito amigo de Flávio Império. Eu o conheci através de Miriam Muniz, de quem era amigo e cuja casa frequentava com assiduidade. Ficamos amigos. Lembro-me dele, extraordinário ator, ao lado de Guarnieri e de Miriam, em O Inspetor Geral, e ao lado de Cleyde Yáconis em O Fardão.Seu teatro era autoral, personalíssimo, desde sempreSeu teatro era autoral, personalíssimo, desde sempre.

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BOB SOUSA 0307 Crítica: Limpe Todo o Sangue Antes que Manche o Carpete faz de sanha consumista patético fracasso

Ed Moraes e Daniel Tavares em cena de Limpe Todo o Sangue Antes que Manche o Carpete - Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Bob Sousa

Sabe quando aquela sensação de fracasso iminente paira no ar? E que qualquer tentativa de fugir dele só o tornará mais forte e palpável? Pois no espetáculo Limpe Todo o Sangue Antes que Manche o Carpete, da Cia. dos Inquietos, isso está mais do que evidente, quase sufocante.

E o fracasso ganha contornos irônicos que beiram o ridículo. Porque assim ele o é. Quem duvidar do patético da peça, pode dar uma voltinha na vida real e ver o quanto ela é encenada e absurda também.

A primeira montagem paulista para um texto do carioca Jô Bilac, considerado autor promissor da nova geração, ganha encenação inventiva de Eric Lenate. O diretor se apropria do discurso do texto e cria formas que o acentuam, tornando-o mais forte e impactante.

A peça conta a história de Wilson, um jovem que tenta inserir-se no mercado de trabalho, após ter se tornado uma espécie de celebridade escolar infanto-juvenil como menino gênio, coisa da qual ninguém se lembra mais, para sua decepção. Ele namora uma ambiciosa cuidadora de idosos, cujo sonho maior é um apartamento de frente para o mar – conjugado nem pensar.

Outros dois personagens completam a história: um jovem bonitão que disputa com Wilson uma vaga importante em uma grande empresa; e a amiga de sua noiva, também cuidadora de idosas - representadas por velhas vitrolas, em um grande achado da direção.

O texto é uma grande alegoria que explicita a sanha pós-moderna que vivemos, na qual é preciso se encaixar no sistema de mercado como forma de sobrevivência e status, e a vida mais se define pelo ter do que pelo ser.

A força empresarial sobre a vida das pessoas, que são capazes de tudo para manter um posto de trabalho – incluindo aí humilhar-se a si próprias e aos outros ao redor –, é encenada em cenas hilárias de impacto profundo.

Lenate impõe sua forma diante do bom texto de Bilac. E o resultado é um espetáculo teatral envolvente e que segura o espectador até o fim.

Ed Moraes constrói seu Wilson com propriedade. Faz o personagem patético, do qual ninguém tem pena, sobretudo diante da mediocridade que o mesmo exala.

Já sua noiva, que antes estava a cargo de uma inspirada Luna Martinelli, que deu interpretação definitiva à personagem, agora é assumida por Rita Batata – Luna precisou se ausentar desta temporada da montagem para integrar o projeto Puzzle, de Felipe Hirsch. Rita segue o rastro deixado por Luna, mas é complicado assumir uma personagem consagrada por outra atriz. Mesmo assim, demonstra coragem em fazê-lo e assumir o risco.

Daniel Tavares faz o jovem almofadinha concorrente de Wilson, que crê em sua predestinação em dominar o mundo corporativo. Ele encarna uma figura conhecida de todos nós nos escritórios e repartições da vida, crentes de que o seu servir aos grandes lhe dá algum tipo de poder. Na realidade, um pobre coitado. E o personagem é desmistificado ao fim da obra, tendo suas vísceras expostas por um feroz e acuado Wilsinho, em um grande momento da obra com o embate entre os dois personagens no qual as máscaras caem.

Já o charme desta recente montagem figura em João Paulo Bienemann, que assume a colega cuidadora da noiva de Wilson. Ele faz uma jovem em faniquito, cujo maior sonho de vida é ser a Rainha de Sabá, sim, a monarca bíblica que encantou o Rei Salomão. É hilária a cena na qual a personagem é corrompida pelo sonho de consumo: é o melhor momento do ator em cena, no qual vai da doçura tenra à uma fome animalesca pelo dinheiro.

Limpe Todo Sangue Antes que Manche o Carpete é mais um espetáculo que explicita o caos que vivemos, com relações subjugadas pelo sistema, onde o dinheiro domina sem alternativas e subir na vida é tarefa obrigatória. Contundente, o espetáculo joga na cara da plateia que o conto de fadas do consumismo pós-moderno, na verdade pode ser um pesadelo sem fim, um grande fracasso. Tal qual deixa claro a corda amarrada ao pescoço do protagonista. E é aí que mora seu grande mérito.

BOB SOUSA 0274 Crítica: Limpe Todo o Sangue Antes que Manche o Carpete faz de sanha consumista patético fracasso

Limpe Todo Sangue Antes que Manche o Carpete é dobradinha de Jô Bilac e Eric Lenate - Foto: Bob Sousa

Limpe Todo Sangue Antes que Manche o Carpete
Avaliação: Muito bom
Quando: Quinta e sexta, 21h. 70 min. Até 13/12/2013
Onde: CIT-Ecum (r. da Consolação, 1623, Consolação, metrô Paulista, tel. 0/xx/11 3255-5922)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Limpe Todo o Sangue Antes que Manche o Carpete faz de sanha consumista patético fracasso

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sonhos de um sedutor Crítica   Peça carioca Sonhos de um Sedutor é Woody Allen divertido, mas sem profundidade

Luana Piovani, George Sauma, Heitor Martinez e Georgiana Góes em Sonhos de um Sedutor - Foto: Matheus Cabral

Por Átila Moreno, no Rio*
Especial para o Atores & Bastidores

Adaptar uma obra de Woody Allen já é uma responsabilidade tamanha. Imagine quando a trama traz um protagonista que carrega o alter-ego desse cineasta e dramaturgo norte-americano.

Coube ao diretor Ernesto Piccolo essa difícil missão em Sonhos de um Sedutor, que está em cartaz no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro.

A peça foi encenada em 1969. Três anos depois, Woody Allen levou a história para os cinemas e também interpretou o personagem principal, com a direção de Herbert Ross.

Na montagem brasileira, George Sauma, que ficou conhecido na série Toma Lá Dá Cá, dá vida a Allan Felix,  um crítico de cinema, fã dos clássicos, que se encontra angustiado, após ser abandonado pela mulher. O ator se sai bem quando o texto exige o lado cômico e sua caracterização se assemelha bastante ao próprio Woody Allen.

sonhos de um sedutor cena credito matheus cabral Crítica   Peça carioca Sonhos de um Sedutor é Woody Allen divertido, mas sem profundidade

Diane Keaton e Woody Allen em versão carioca: Luana Piovani e George Sauma - Foto: Matheus Cabral

Georgiana Góes, que ficou famosa pela série Confissões de Adolescente, faz a namorada e também se debruça em outras seis mulheres, que entram na lista de conquistas desse novo solteiro. A atriz é o ponto alto do espetáculo.

Para enfrentar a solidão, a estratégia de caça é criada pelo casal de amigos, Dick (Heitor Martinez) e Linda (Luana Piovanni, que domina muito bem o papel que foi de Diane Keaton). Só que Allan não contava que iria se apaixonar pela esposa do melhor amigo.

O time de ajuda se completa com Rick,  do filme Casablanca, de 1942. É isso mesmo. Bem ao estilo Woody Allen, o personagem sai da televisão para dar conselhos ao tímido e desiludido amante. Heitor Martinez é quem se desdobra no palco para dar vida a esse co-protagonista, que foi eternizado pelo galã Humphrey Bogart.

E as referências ao clássico filme não param por aqui. Play it Again, Sam, título original da peça, se origina de Play it, Sam,uma das frases da atriz Ingrid Bergman na trama.

Por meio das desilusões amorosas, é que Allan tenta entender, escapar e dominar um jogo ao qual ele sempre perde. Woody Allen deu a exata projeção de como é problemático esse tabuleiro de sedução para as pessoas inseguras.

Talvez tenha faltado a esta montagem brasileira uma maior dimensão dramática.  Sonhos de um Sedutor funciona como comédia. O elenco é afinado, o cenário casa com ambientação intimista do personagem principal e o figurino segue esse mesmo estilo.

Mas falta algo, e é, justamente, no aprofundamento das relações amorosas ao qual Allan tenta costurar.

*Átila Moreno é jornalista formado pelo UNI-BH e tem pós-graduação em Produção e Crítica Cultural pela PUC Minas.

Sonhos de um Sedutor
Avaliação:
Bom
Quando:
 quinta, sexta e sábado, 21h; domingo, 20h. 75 min. Até 15/12/2013
Onde:
 Teatro Ipanema (r. Prudente de Moraes, 824, Ipanema, Rio, tel. 0/xx/21 2267-3750)
Quanto:
 R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
Classificação etária:
 livre
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica   Peça carioca Sonhos de um Sedutor é Woody Allen divertido, mas sem profundidade


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danielle rosa 1 foto eduardo enomoto 2013 Danielle Rosa, o furacão sereno do Teatro Oficina

Criada em Vitória da Conquista, na Bahia, Danielle Rosa é o furacão do Teat(r)o Oficina - Foto: Eduardo Enomoto

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Eduardo Enomoto

Quem vê Danielle Rosa no palco do Teat(r)o Oficina, em São Paulo, fica boquiaberto. A atriz exala confiança em cada cena. Seduz. Um verdadeiro furacão.

Quando a gente se encontra com Danielle fora do contexto cênico percebe que ela é calma, tranquila. Parece um pouco tímida, mas se entrega. É verdadeira.

Nasceu em Campinas, São Paulo, por um mero acaso. Considera-se baiana de Vitória da Conquista, terra de Glauber Rocha, onde morou de um aos 18 anos, quando abandonou a terra natal para estudar artes cênicas na Universidade Federal da Bahia, em Salvador.

Caçula dos cinco filhos da dona de casa Dinalva Rosa Oliveira e de João de Oliveira, que já morreu, infelizmente, ela diz ser filha "de família meio nômade".

— Decidi ser atriz com 11 anos. Lembro-me que um dia acordei e falei: vou ser atriz. Foi como se tivesse ouvido um chamado.

danielle rosa 3 foto eduardo enomoto 2013 Danielle Rosa, o furacão sereno do Teatro Oficina

Danielle Rosa é formada em artes cênicas pela UFBA e faz teatro desde os 15 anos - Foto: Eduardo Enomoto

Só começou nos palcos aos 15, primeiro com o grupo teatral do Instituto de Educação Euclides Dantas, onde estudou. Depois, com o grupo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia).

— Mudei-me para Salvador em 2013. Fui morar na Casa do Estudante da UFBA. Logo, montei com amigos o grupo Finos Trapos.

Mas a Bahia logo ficou pequena para o sonho simples e tão difícil de Danielle: sobreviver de sua profissão de atriz. Foi quando viu Os Sertões, encenação de José Celso Martinez Corrêa para o romance de Euclydes da Cunha com o Oficina em 2007. Conheceu ali o teatro que queria fazer. Decidiu que era hora de mudar-se mais uma vez.

— Vim para São Paulo com a cara e a coragem. Pensei comigo: não posso ficar esperando, preciso correr atrás do que acredito.

Sofreu muito na metrópole, mas decidiu "aguentar até o limite". Quando sente falta do acolhimento baiano, volta à terra natal para fazer "um respiro".

Entrou para o Oficina em 2011. No ano seguinte, embarcou com o grupo para a Europa, onde se apresentou na Bélgica e em Portugal com o espetáculo Bacantes. Depois, integrou Acordes, e, agora, Cacilda!!! Glória no TBC - Capítulo 1, no qual chamou a atenção do R7 e de todo o público como aquela sereia do inconsciente de todos nós.

danielle rosa 2 foto eduardo enomoto 2013 Danielle Rosa, o furacão sereno do Teatro Oficina

Sensual e de forte presença, Danielle Rosa foi um dos destaques de Cacilda!!! do Oficina - Foto: Eduardo Enomoto

Agora, viaja com o quarto e último espetáculo da saga sobre Cacilda Becker, Cacilda!!!! A Fábrica de Cinema e Teatro, que tem estreia marcada no palco do Oficina para o próximo dia 14 de dezembro.  Em meio a tantas peças, Danielle sonha ainda em fazer cinema, em conquistar estabilidade profissional cada dia mais.

Diz que gosta do jeito de fazer teatro de Zé Celso e sua turma. Conta que em "cada dia de ensaio é preciso estar plena", que vive "uma descoberta diária". Questionada de onde vem a força que demonstra em cena, pensa e responde.

— O aqui e agora é único. Isso dá muita vida a tudo o que acontece. Cada dia em que saio do fosso para fazer a cena é especial.

Sobre o destaque que teve em Cacilda!!!, explica de forma serena.

— Acho que aconteceu em parte porque sou a primeira a aparecer nua [risos]. Eu lido de forma natural com a nudez. Não penso nisso e busco a segurança no olhar das pessoas. Acredito muito em meu trabalho e neste teatro que faço. E também sou segura com meu corpo. Acho, que de alguma forma, o público sente isso também. No Oficina, sempre estou à vontade.

danielle rosa 4 foto eduardo enomoto 2013 Danielle Rosa, o furacão sereno do Teatro Oficina

De alma baiana, a atriz Danielle Rosa é um furacão cheio de serenidade - Foto: Eduardo Enomoto

 

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mateus carrieri nossa cidade emidio luisi Veja os indicados da APCA em teatro no 2º semestre

Nossa Cidade, de Antunes Filho: indicado melhor espetáculo, diretor e ator - Foto: Emidio Luisi

Por Miguel Arcanjo Prado

Os críticos de teatro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) – entidade da qual este vosso jornalista faz parte – avaliaram a temporada teatral do segundo semestre de 2013 (agosto a dezembro), em reunião de trabalho informal realizada em São Paulo, na noite desta segunda (2). Os críticos fizeram uma pré-seleção dos melhores do teatro paulista neste período.

O encontro definitivo para votar os melhores de 2013 será realizado na noite da próxima segunda (9),  no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, em assembléia ordinária anual da entidade. Como o volume de produções teatrais em São Paulo é farto, a comissão de teatro da APCA tem por hábito se reunir informalmente ao final de cada semestre para discutir e filtrar os principais nomes da temporada em questão.

Veja, abaixo, todos os indicados da APCA em teatro em 2013, no primeiro e no segundo semestre:

Espetáculo

Primeiro Semestre
Cais ou da Indiferença das Embarcações (Velha Companhia)
Folias Galileu (Grupo Folias D’Arte)
Quase Normal
São Manuel Bueno, Mártir (Grupo Sobrevento)

Segundo Semestre
A Madrinha Embriagada (Direção de Miguel Falabella)
Nossa Cidade (Direção de Antunes Filho)
Operação Trem Bala (Direção de Naum Alves de Souza)

Autor/Dramaturgo

Primeiro Semestre
Cássio Junqueira e Cássio Scapin – Eu Não Dava Praquilo
Kiko Marques – Cais ou da Indiferença das Embarcações
Laura Castro – Aos Nossos Filhos
Rafaela Penteado, Heloísa Cardoso e elenco – Folias Galileu

Segundo Semestre
Naum Alves de Souza (Operação Trem Bala)
Newton Moreno (Jacinta)

Diretor

Primeiro Semestre
Dagoberto Feliz – Folias Galileu
Elias Andreato – Eu Não Dava Parquilo e Mirna Sou Eu
Luiz André Cherubini e Sandra Vargas – São Manuel Bueno, Mártir

Segundo Semestre
Antunes Filho (Nossa Cidade)
Naum Alves de Souza (Operação Trem Bala)
Zé Henrique de Paula (Nossa Classe)

Ator

Primeiro Semestre
Cássio Scapin – Eu Não Dava Praquilo
Ésio Magalhães – WWW para Freedom
Henrique Schafer – Afogando em Terra Firme
Marcos Caruso – Em Nome do Jogo

Segundo Semestre
Enrique Diaz (Cine Monstro)
Leonardo Ventura (Nossa Cidade)
Marco Antonio Pâmio (Operação Trem Bala)
ZéCarlos Machado (Retratos Falantes – Brincando com Sanduíche)

Atriz

Primeiro Semestre
Bete Coelho e Ligia Cortez – A Dama do Mar
Maria de Medeiros – Aos Nossos Filhos
Marília Pêra – Alô, Dolly!
Rosana Stavis – Árvores Abatidas ou para Luis Mello

Segundo Semestre
Débora Duboc (Jocasta)
Débora Falabella e Yara de Novaes (Contrações)
Debora Olivieri (Rosa)
Jandira Martini (Prof! Profa!)

Prêmio Especial

Primeiro Semestre
Domingos Nunez e Cia. Ludens pelos dez anos dedicados ao teatro irlandês
Grupo Tapa pelo projeto Tapa no Arena – uma Ponte na História
Projeto Educacional do Sesi-SP em Teatro Musical

Segundo Semestre
Projeto Baú de Arethuza (Cia Os Fofos Encenam)
Projeto Cacilda (Teatro Oficina)
Projeto Puzzle (Direção de Felipe Hirsch)

Grande Prêmio da Crítica

Primeiro e segundo semestre
Eva Wilma pelos 60 anos de carreira da atriz
Maria Thereza Vargas pela longa e brilhante carreira de pesquisadora teatral e pela autoria do livro Cacilda Becker:Uma Mulher de Muita Importância

 

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laila garin Veja lista dos indicados ao Prêmio Shell de Teatro no Rio de Janeiro no segundo semestre de 2013

Elis, a Musical concorre em três categorias, incluindo melhor atriz para Laila Garin, que vive a cantora

Por Miguel Arcanjo Prado

Foi divulgada nesta segunda (2) a lista dos indicados ao Prêmio Shell de Teatro no Rio de Janeiro referente a espetáculos que estrearam no segundo semestre de 2013. Três espetáculos saem na frente e concorrem a três categorias cada: Elis, a Musical e Conselho de Classe.

A homenagem especial da 26ª edição do Prêmio Shell de Teatro irá para Marie Louise Nery por sua colaboração como aderecista, figurinista, cenógrafa e formadora de profissionais do teatro brasileiro por cinco décadas.

O vitorioso de cada categoria receberá uma escultura em metal do artista plástico Domenico Calabroni, com a forma de uma concha dourada, inspirada no logotipo da Shell, e uma premiação individual de R$ 8.000,00. A entrega deverá acontecer após o Carnaval de 2014.

O júri do Rio de Janeiro é formado por Ana Achcar, Bia Junqueira, João Madeira, Macksen Luiz e Sérgio Fonta.

Veja a lista completa dos indicados:

Autor
Jô Bilac por Conselho de Classe
Julia Spadaccini por A Porta da Frente
Rodrigo Portella por Antes da Chuva

Direção
Aderbal Freire-Filho por Incêndios
Bel Garcia e Susana Ribeiro por Conselho de Classe

Ator
Daniel Dantas por Quem Tem Medo de Virginia Woolf?
Enrique Diaz por Cine Monstro

Atriz:
Bárbara Paz por Venus em Visom
Laila Garin por Elis, a Musical
Zezé Polessa por Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

Cenário
Aurora dos Campos por Conselho de Classe
Joelson Gusson por As Horas entre Nós

Figurino
Marília Carneiro por Elis, a Musical
Thanara Schönardie por A Importância de Ser Perfeito

Iluminação
Maneco Quinderé por Jim
Paulo Cesar Medeiros por Venus em Visom

Música
Delia Fischer por Elis, a Musical
Ricco Vianna por Jim

Veja os indicados no primeiro semestre de 2013 ao Prêmio Shell de Teatro

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Foto de Bob Sousa
Por Miguel Arcanjo Prado

jo bilac foto bob sousa O Retrato do Bob: Jô Bilac conquista SP
Muita gente se assusta quando conhece pessoalmente o dramaturgo carioca Jô Bilac. É que o nome pomposo dá a ideia a muitos de que ele seja um homem velho e sisudo. Muito pelo contrário, o garoto é jovem, tem pinta moderna, jeitão de carioca da zona sul. Mas, a cada dia, conquista mais os paulistanos. Tanto que posou para o nosso Bob Sousa em plena rua da Consolação. Apontado como um dos talentos da nova geração, está em cartaz com duas peças ao mesmo tempo no CIT-Ecum, em São Paulo: Limpe Todo o Sangue Antes que Manche o Carpete, sua primeira montagem paulista com a Cia. dos Inquietos de Ed Moraes e direção de Eric Lenate, às quintas e sextas, e Caixa de Areia, com direção dele próprio com o colega Sandro Pamponet e Taís Araújo no elenco. Premiado várias vezes, o nome de Jô Bilac já está se tornando grife teatral. E olha que o rapaz ainda nem completou 30 anos.

Baixe gratuitamente o livro Retratos do Teatro de Bob Sousa

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um bonde chamado desejo broadway Coluna do Mate   Mulheres como minoria no teatro?

Kim Hunter, Marlon Brando (abraçados, à esquerda) e Jessica Tandy (à dir.) em Um Bonde Chamado Desejo, em 1947, na Broadway; o autor, Tennessee Williams, escreveu grandes personagens femininos - Foto: Divulgação

Quem, um dia, vai pagar o pathos por mais esta ideológica e bizarra condenação?

alexandre mate foto bob sousa Coluna do Mate   Mulheres como minoria no teatro?

Alexandre Mate: Foto: Bob Sousa

Por Alexandre Mate*
Especial para o Atores & Bastidores

Prólogo

Mês passado, escrevi sobre o travestimento: homens fazendo personagens femininas no teatro. Neste texto, agora, e de modo histórico, vou comentar sobre o aparecimento das mulheres nos palcos.

Atualmente, mais do que nunca, porque esta é uma questão que está na ordem do dia, é preciso pensar sobre as diferenças de gênero...

Se sexual e socialmente, ao longo da história, homens e mulheres têm sido apresentados como diversos que se completam, culturalmente as diferenças têm sido absolutamente apresentadas, separando aqueles destas.

Escolas e contextos históricos diferenciados tendem a retratar as mulheres, às vezes, de modo a desqualificá-las. No teatro erudito, por exemplo, as atrizes ganham o palco somente no século 17, enquanto que, nas tradições populares, desde sempre, as mulheres participaram dos espetáculos...

clube do bolinha Coluna do Mate   Mulheres como minoria no teatro?

Teatro já foi uma espécie de Clube do Bolinha no qual mulheres não entravam - Foto: Divulgação

Assim, das inúmeras oposições entre o teatro popular e o erudito, a linguagem teatral, quando não misógina, caracterizou-se em Clube do Bolinha, no qual a mulher, de fato, não entrava!

Primeiro ato

Em um de seus belos poemas (O que quereis?), Wladimir Maiakovisky afirma que: “O mar da história é agitado!” Essa agitação, metaforizando o viver concreto, tem sido, ao longo da história, muito maior para as mulheres. Elas – e não apenas em teatro, uma vez que para os gregos, sobretudo no século 5 a.C. (e, de lá para cá, será que as coisas mudaram tanto) – junto aos escravos, estrangeiros e crianças eram consideradas seres inferiores.

Necessitadas da tutela permanente do Estado, e como no mito de Sisifo: trancafiadas em casa e condenadas às tarefas cotidianas, as mulheres figuram idealizadamente nos documentos histórico-culturais como heroínas e deusas, mas não como mulheres! O aristocrático Aristófanes escreveu comédias significativas protagonizando mulheres, mas, e por exemplo, Lisístrata, em excelente tradução de Millôr Fernandes, depois de conseguir terminar com uma guerra, a líder do movimento, que propôs como tática e arma a greve dos sexos, recebe o marido, ajoelhando-se, subservientemente diante dele!

- Adélia Prado, mulher-poeta, “cantou”: “Minha mãe cozinhava exatamente arroz, feijão roxinho e molho de batatinha. Mas cantava”.

Voltando àquele tempo primeiro, dito de criação do berço ocidental, as mulheres não podiam atuar e sequer assistir às comédias: que eram consideradas inferiores em relação às tragédias.

Substituídas por homens travestidos, heroínas paradigmáticas povoaram tragédias e comédias encenadas: Medeias humanas enfrentaram, em versões diferentes, traições, preterições, legisladores e desterros; Antígonas humanas, defendendo a tradição (para além do prestar libações aos mortos), pagavam a desobediência com o suicídio, os aprisionamentos e tantos outros dilaceramentos, do vier... Seus destinos, entretanto, não figuram da documentação histórica.

- Marina Colasanti, mulher-escritora em Na primeira mulher:

Hoje, dia da mãe, eu própria me deixo envolver pelo logro dos comerciantes, pelo engodo da propaganda, e me olho, mãe, procurando meus sentidos. Hoje, dia de mim, da mãe que me pariu, das filhas que eu pari, pertenço à raça das mulheres de ancas fortes que forjam a longa corrente do tempo. [...]

Eu mãe de minhas filhas mães. Eu filha da minha mãe filha. Eu igual à mulher que veio antes de mim e à que me segue. Eu forma. Eu forno. Eu força da vida.

kabuki Coluna do Mate   Mulheres como minoria no teatro?

A fundadora do Kabuki, Izumo no Okuni- Foto: Reprodução

Entre ato

Num longo corte. Japão, 1586, uma dançarina sagrada, para angariar dinheiro para reforma de um templo, apresentou um tipo de balé que deu origem ao Kabuki. Apesar dessa origem, e até hoje, as mulheres não podem mais participar dessa dança, apresentada, magistralmente, é verdade, por homens.

Na Ópera de Pequim, também é assim, à mulher cabe apenas servir de modelo para os homens que apresentam as personagens femininas e assistir ao modo como elas são vistas e concebidas por homens: que desde crianças são preparados, por outros e velhos homens (que, em tantos casos, tem uma imagem da mulher).

Como já mencionado, pelo menos no concernente às artes, na tradição popular, as mulheres não têm sido tão segregadas e expulsas do templo representacional. Feminino idealizado? Mulher parceira? Homem-feminino?

Às mulheres-tão-sentimento que habitam a mulher, Chico Buarque de Hollanda compôs:

“Moças feito passarinho, avoando de edifícios”; “Dei pra maldizer o nosso lar, pra sujar teu nome, te humilhar e me vingar a qualquer preço, te adorando, pelo avesso. Então, ela se fez bonita como há muito tempo não podia ousar”; Vivo de biscate, queres que eu te sustente, se eu ganhar algum vendendo mate, dou-te uns badulaques de repente”; “De tudo o que é nego torto, do mangue ao caís do porto, ela já foi namorada”; “vou chegar a qualquer hora ao meu lugar/ e se uma outra pretendia um dia te roubar/ dispensa essa vadia/ eu vou voltar/ vou subir/ a nossa escada, a escada, a escada, a escada/ meu amor eu, vou partir/ de novo e sempre, feito viciada/ eu vou voltar”.

Segundo ato

Na Inglaterra, depois de momentos de glória para o teatro e para os atores homens, os Puritanos, em 1642, conseguem expulsar, não as mulheres, mas a atividade teatral da vida londrina.

shakespeare apaixonado Coluna do Mate   Mulheres como minoria no teatro?

Enterrado por decreto: cena do teatro elisabetano no filme Shakespeare Apaixonado - Foto: Divulgação

Enterrado por decreto, o deslumbrante teatro elisabetano leva consigo Ladys e Macbeths, Catarinas amansadas por Petruchios, Julietas e Romeus..., um “vermezinho” chamado Willian Prynne além de conseguir a proibição teatral, dentre tantos outros absurdos, afirmava, também, não passarem de prostitutas todas as atrizes francesas, e impôs sua patológica misogenia e ódio não só às mulheres, mas ao teatro e seus artistas.

Então, a partir dessa realidade, a luta redimensiona-se. O velho preconceito contra os artistas, parido, sobretudo, por clérigos nefandos e doentes do período medieval, foi reeditado por decreto! Mesmo na autodenominada cidade-luz, ao morrer, Molière não teve o direito de ser enterrado no dito solo sagrado de cemitério! Coube-lhe, depois de algumas gestões dos artistas junto aos nobres, ser enterrado do lado de fora do muro...

Marina Lima cantou magistralmente uma música “tola” em cujos versos se ouvia: “Você precisa de um homem pra chamar de teu/ mesmo que este homem seja eu”; Adriana Calcanhoto, inspiradíssima, dizia prestar muita atenção ao que seu irmão ouvia; Cássia Heller, sempre emocionada, de modo mais escondido sob a aparência de mulher arrojadíssima, leva aos prantos os fracos e sensíveis, como ela, em “[...] quando o segundo sol chegar, para realinhar as órbitas dos planetas”: lindas e intensas mulheres... muito mais do que criadoras de versos e músicas... Criaturas de um tempo de tantos seres partidos!

getulio vargas Coluna do Mate   Mulheres como minoria no teatro?

Presidente Getúlio Vargas obrigou atrizes a se submeterem a exames ginecológicos regulares - Foto: Divulgação

Reedições do preconceito contra as mulheres, artistas ou não, reaparecem todos os dias. O ditador Getúlio Vargas, tentando criar uma sociedade eugênica – cujos modelos vinham, sobretudo, da Itália fascista e da Alemanha nazista –, expulsou mendigos das ruas, pobres das praias, eliminou os adversários e obrigou determinadas artistas, sobretudo as do teatro de revista, por ele “visitadas”, a submeterem-se, junto a prostitutas a exames ginecológicos regulares! Algumas delas lembram em carteirinhas rosas (a mesma cor que os nazistas impuseram aos homossexuais...).

Pois é, e aqui a luta se redimensiona novamente, basta que se lembre, mas não exclusivamente, o que ocorre nas Delegacias de Mulheres. Toneladas de exames de “corpo de delito” de mulheres atacadas por homens que se dão ao direito (e a lei os protegem, não é mesmo!?), contra suas namoradas, mulheres, parceiras, vizinhas, parentes... Eles batem, batem, dão uma correção, lembram quem é o macho do terreiro e de quem é a vontade que vence! E batem, e corrigem, e são presos, mas liberados em seguida, rapidinho.

Então, como se pode depreender disso, mulheres padecem também porque o sistema social, erigido, construído e administrado por homens excluem-nas, do mesmo modo como o fazem com os pobres!

Outra mulher-poeta Cora Coralina, que açucarou tantos suores e lágrimas derramadas, legou:

"Não sei... se a vida é curta ou longa demais para nós, Mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas..

Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, Braço que envolve, Palavra que conforta, Silêncio que respeita, Alegria que contagia, Lágrima que corre, Olhar que acaricia, Desejo que sacia, Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja, nem longa demais, Mas que seja intensa, verdadeira, pura... Enquanto durar."

commedial del arte Coluna do Mate   Mulheres como minoria no teatro?

Cena de Commedia dell'arte: as atrizes faziam papeis de criadas e enamoradas - Foto: Pintor desconhecido

Entre ato

Antes de a commedia dell’arte ir à França, no século 17, as atrizes apresentavam-se nessas companhias fazendo os papéis de das innamorate (enamoradas) e das astuciosas zerbinete (criadas).

Na França, apresentando-se não mais nas ruas, mas nos palácios, elas perderam muito de sua graça e beleza para se duplicarem em número e expor partes de seus corpos para atender aos desejos dos homens. Esse mesmo fenômeno ocorreu, já no início do século 20, em duas formas-práticas teatrais distintas: o teatro de revista e nas serate dos futuristas.

Mais ou menos na mesma época, e por interesses distintos, o teatro apresenta e vende a imagem da chamada mulher-objeto.

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Cena de teatro de rua no Festival de Curitiba: homens e mulheres têm mesmo tamanho - Foto: Erika Zanatta

Cartaz com função épica

No teatro apresentado na rua, homens e mulheres, personagens masculinas e femininas costumam ter o mesmo tamanho. Talvez pelo fato de o teatro popular ter, exatamente, a estatura do mundo: o deslimite. Nele, a construção de grades e de quartas paredes é quase impossível, pela irreverência e pela epicização que intenta a imaginação.

Terceiro ato

As idealizadas heroínas românticas, injustiçadas nas sociedades gerocêntricas (poder do velho), alcançavam a redenção por intermédio da morte. A boníssima e pia Leonor de Mendonça de Gonçalves Dias, à semelhança de Desdêmona de Othelo, tem sua vida estrangulada pela misogenia de D. Jayme, menos por desconfiança de ela tê-lo traído, mas para livrar-se do fardo de estar casado com ela.

Embalado pelos interesses do Estado na louvação do ideário burguês, na França de 1843, por meio de editos premiantes, com patrocínio e espaço de representação oferecido pelo Estado, nas plagas brasileiras, José de Alencar e, sobretudo, Joaquim Manuel de Macedo, criaram personagens e situações moralistas dignas de figurar, de modo paradigmático, nos manuais de “bom-mocismos”. Do segundo autor, Macedo, a personagem Hortência, de Luxo e Vaidade, leva o marido a perder-se pelas aparências da ostentação e se caracteriza apenas em um exemplo disso.

denise fraga a alma boa de setsuan foto joao caldas Coluna do Mate   Mulheres como minoria no teatro?

Denise Fraga em A Alma Boa de Set Suan - Foto: João Caldas

De ardilosas e virtuosas Lucrécias em A Mandrágora, do preceptor de Príncipes, Maquiável; Shen Te/Shui Ta de A Alma Boa de Set Suan, do admirável Bertolt Brecht; passando por desiludidas três irmãs em Tchekhov; Nora, com a dissolução dos ideológicos e perversos valores do mundo burguês, em Casa de Bonecas de Ibsen; ganhando os discursos monofônicos nos monólogos: A Vinda do Messias de Timochenco Wehbi, A Bolsinha Mágica de Marly Emboada de Carlos Queiroz Telles, Quase Bibelô de Flávio de Souza, Apareceu a Margarida de Roberto Athayde, a dramaturgia contemporânea tem apresentado o feminino de modo entusiasmado e em permanente oposição aos juizes-defensores/advogados-carceireiros que, consoante aos interesses daqueles detentores do poder em voga, têm cumprido exemplarmente seu papel.

Jorge Andrade tem uma dramaturgia centrada em mulheres fortes, práticas e objetivas, da qual Marta é sua alegoria maior; Nelson Rodrigues, como se sabe, cria-as de modo “dadivoso” e quase sempre próximo ao patológico; Oswald de Andrade torna-as iconoclastas e transitando entre extremos: Plínio Marcos patetiza-as, porque frutos de uma sociedade desigual, predatória, excludente; Dias Gomes mostra-as vitimas de todo tipo de interesse, à vezes de seus mesmos...

Cartaz com função épica

Por que será que a gente quase nunca busca o pai para chorar e expor nossos problemas? Responder aqui com o clássico: porque a sociedade é machista e a educação cabe a mãe não responde nada!

Epílogo

Mulheres magistrais com almas atormentadas e aprisionadas, em: Lorca, Tennessee Willians, Brecht (Os fuzis da Sra. Carrar); mulheres que defendem o estômago para “caçar”, se for o caso, a moral depois, exemplares em: Neusa Sueli, de Navalha na Carne e a viúva Luckerniddle em Santa Joana dos Matadouros.

odete roitman Coluna do Mate   Mulheres como minoria no teatro?

"Odete Roitman, próxima de seu fim, ganhou todas as primeiras páginas dos jornais" - Foto: Divulgação

Soffredini que trouxe para uma comunidade paulistana Mafalda: induzida à morte por uma comunidade moralista e defensora da fachada-ideia de defesa da família, tão Doriana, como nas propagandas. Romana que segura a onda, que orienta o marido caso seja preso; Maria de Bella Ciao, que abandona o homem amado por medo de jamais saber se voltará à noite para casa. Mulheres que esperam permanente. Tantas mulheres, todas as mulheres do mundo!

Odete Roitman, próxima de seu fim, ganhou todas as primeiras páginas de ditos sérios jornais. Parecia tratar-se de uma pessoa de verdade!

Foi preciso inventar as revistas gay para que os homens pudessem aparecer pelados para as mulheres? Uma das três garças oswaldianas em O Homem e o Cavalo, lamenta-se pelo fato de ter-se conservado virgem toda a vida, uma vez que no céu não há sequer uma maçaneta onde ela pudesse se roçar.

*Alexandre Mate é professor do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista), pesquisador de teatro e integra o júri do Prêmio Shell de Teatro. Ele escreve no blog sempre no dia 1º.

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