magiluth foto bob sousa11 Entrevista de Quinta: “Viramos o Pequeno Príncipe”, dizem artistas do Grupo Magiluth

Os sete integrantes do Grupo Magiluth, na tradicional rua Avanhandava, no centro paulistano: "Viramos o Pequeno Prínicipe"; a partir da esq.: Thiago Liberdade, Lucas Torres, Giordano Castro, Erivaldo Oliveira, Pedro Wagner, Pedro Vilela e Mário Sergio Cabral  - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de BOB SOUSA

Eles agora não estão mais em um apartamento de frente para o Minhocão, mas, em um hotel bacaninha do centro paulistano. Após a marcante estada em São Paulo no inverno de 2012, o Grupo Magiluth está de volta à metrópole que abriga todas as matizes do pulsante teatro brasileiro.

Agora, os garotos do mais inquieto teatro pernambucano são sete: Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio Cabral, Pedro Vilela, Pedro Wagner e Thiago Liberdade – este último uma espécie de filho pródigo que retornou ao grupo que ajudou a fundar dez anos atrás.

As fronteiras de Recife já foram perpassadas há muito por estes artistas, que em breve atravessam o oceano Atlântico para uma parceria com uma companhia europeia. Outro dia, uma fã, sim eles têm fãs, disse que o Magiluth é seu novo Pequeno Príncipe. Os Novos Pernambucanos do teatro brasileiro adoram uma relação próxima com a plateia.

Ficam até o fim do mês em São Paulo com sua debochada versão para a peça Viúva, porém Honesta, do também pernambucano Nelson Rodrigues. O espetáculo já causou furor por todo o País e chega ao olhar do exigente público paulista com a maturidade de mais de cem apresentações.

Eles passam o feriadão de Páscoa no palco do Itaú Cultural, onde se apresentam até este domingo (20), com entrada gratuita. Depois, entre 23 e 27 de abril, sempre às 20h, se apresentam na Funarte de São Paulo [veja os serviços ao fim da entrevista].

O septeto recebeu o Atores & Bastidores do R7 com exclusividade para esta Entrevista de Quinta. Em um bate-papo inteligente e bem-humorado após o café da manhã, falaram coisas fundamentais. E ainda responderam quem inspirou o Dorothy Dalton, o lendário crítico teatral criado por Nelson Rodrigues que surge na peça do grupo de forma provocativa.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Como é esta volta a São Paulo quase dois anos depois? E vocês trouxeram o frio de novo...
Giordano Castro – Quanto frio que a gente passou naquela outra vez! Agora, a gente chegou e esfriou  [risos]
Pedro Vilela – A gente montou o Viúva, porém Honesta aqui em São Paulo, na Funarte, naquela vez. Foram dois meses ensaiando. É importante estrear  aqui após fazer 132 apresentações em 2013. Esta turnê que fizemos nos últimos meses nos trouxe maturidade no ofício. Mas, também a gente percebe que muitas dificuldades permanecem dois anos depois, sejam de comunicação e de estrutura de trabalho.

Miguel Arcanjo Prado – Estar em São Paulo é importante?
Pedro Wagner – Vir para cá sempre causa certo furor. Este trabalho demorou muito para chegar aqui. É um lerê da porra conseguir descer, conseguir chegar a São Paulo. Mas quando a gente chega é muito instigante. E também já temos amigos na cidade.
Pedro Vilela – São Paulo é o olho do furacão. É bom estar por aqui.

Miguel Arcanjo Prado – Eu percebo que vocês estão sempre em troca com outros grupos do Brasil. Gostam de trabalhar em rede?
Giordano Castro – Estamos sempre em trocas com outros artistas. Na época da montagem, também. E não só com grupos, como também com nosso público. Em Recife tem uma turma que acompanha de perto o trabalho do Magiluth.

Miguel Arcanjo Prado – Para vocês estar em São Paulo ajuda quando voltam em Recife? Porque percebi que depois daquele 2012 vocês voltaram por cima para lá...
Pedro Vilela – Recife ainda precisa que alguém de fora reconheça algo, para então passar a ter reconhecimento por lá...
Pedro Vilela – Quando voltamos, parecia a volta dos Beatles [risos].
Erivaldo Oliveira – Mas tinha um público que já nos acompanhava. E nem é um público de teatro geral, não. É um público que via as peças do Magiluth. Gente que nos ajudou a consolidar nosso trabalho.
Mário Sergio Cabral – Hoje, a gente circula o Brasil e também faz todo o Estado do Pernambuco sempre.

Miguel Arcanjo Prado – Vocês têm uma relação muito forte com Recife?
Pedro Vilela – A gente propõe festival de teatro, o Trema!, realiza intervenções nas ruas, propõe ingressos ao preço de pague quanto puder.
Pedro Wagner – Acho que esse reconhecimento hoje é possível, bem como essas ações porque conseguimos entrar em alguns lugares.
Mário Sérgio Cabral – Eu me lembro da nossa entrevista de 2012, da gente dizendo que nunca tinha conseguido patrocínio do governo de Pernambuco. Hoje, esta circulação tem apoio estadual.
Pedro Vilela – A gente ainda não se apresentou em Recife neste ano. Só temos previsto fazer Luiz Lua Gonzaga em maio, no Palco Giratório, do Sesc. Mas estamos dando um jeito de conseguir fazer mais apresentações. Estar ausente muito tempo é perigoso. Queremos voltar.
Giordano Castro – Somos de Recife. Viver lá nos interessa para nós e para o nosso trabalho. Dar este retorno à cidade é massa.

Miguel Arcanjo Prado – É uma relação forte?
Pedro Wagner – É tão forte a relação que temos com Recife que digo que ela é de amor e ódio. É tão intenso que fomos para as ruas. Não tínhamos trabalhado com performance e arte urbana até então. E foi ótimo. A cidade está um caos nestas vésperas da Copa, o trânsito está caótico. Fomos para a rua e descobrimos outras perspectivas.
Pedro Vilela – Viramos quase guerrilheiros [risos].
Pedro Wagner – Nossa página no Facebook virou espaço de denúncia.
Mário Sérgio Cabral – Isso mudou nossa postura. Por exemplo, o Giordano foi morar perto do trabalho. E ele sempre era o mais tranquilo nos ensaios. A gente, que vinha de longe e ficava preso no trânsito, chegava estressado. Recife hoje vive uma angústia.

magiluth foto bob sousa121 Entrevista de Quinta: “Viramos o Pequeno Príncipe”, dizem artistas do Grupo Magiluth

Grupo Magiluth na garoa de São Paulo: os Novos Pernambucanos do teatro - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado – Vocês são muito conectados nas redes sociais. Este trabalho de comunicação é consciente?
Thiago Liberdade – É totalmente consciente, é um reflexo desta nova era. Nossa primeira preocupação, lá no comecinho, foi em chamar o design e amigo Guilherme Luigi, para fazer a parte gráfica. Hoje, eu assumi esta parte.
Pedro Vilela – A gente começou sem nada. Então, percebemos que o melhor trabalho para fidelizar nosso público eram um bom trabalho de comunicação. Investimos em cartazes, bottons, camisetas... E nosso público sempre sentiu essa necessidade de se aproximar da gente.
Pedro Wagner – Nosso público tem relação de amizade mesmo com a gente. É muito doido isso. Teve uma espectadora que disse que nós somos seu novo Pequeno Príncipe [risos].
Thiago Liberdade – Por isso sempre viajamos em bloco, todos juntos. Isso é importante para mantermos nossa unidade não só no palco, como também no escritório, na comunicação.

Miguel Arcanjo Prado – É mais fácil circular hoje?
Giordano Castro – Hoje, existe uma rota de fuga, um circuito criado pelos próprios grupos. Mesmo em comunicação.
Thiago Liberdade – Se não conseguimos entrar em alguns espaços, criamos nossos espaços e comunicamos.

Miguel Arcanjo Prado – Quais são os próximos planos?
Pedro Vilela – Estamos começando um novo processo de investigação para estrear em 2015, sobre o fenômeno de fé fervorosa no Brasil contemporâneo. Também vamos fazer intercâmbio com o grupo português Mala Voadora. Vamos estrear lá em 2015 e no Brasil em 2016. É uma peça sobre felicidade.

Miguel Arcanjo Prado – Como é fazer Viúva com tanta estrada?
Lucas Torres – Foi uma peça que a gente teve estrutura para montar e ensaiar. Então, estreamos de forma tranquila. E a circulação tem sido assim também. Trabalhamos com plateias distintas, com diferentes níveis de humor.
Erivaldo Oliveira – Tem plateia que dá angústia. Fica lá quietinha, não produz nenhum som. Você tem sensação de que não estão reagindo, aí vem uma reação ao fim. E é positiva sempre.
Lucas Torres – Mesmo quem não gosta do tipo de humor que fazemos entra no jogo. Porque ele é muito dinâmico entre público e a gente.
Pedro Vilela – Hoje tenho de segurar os meninos e falar: não é stand-up, hoje ficou poluído demais. Porque se eles ficam soltos, fazem o que querem.

Miguel Arcanjo Prado – E como é este encontro com Nelson Rodrigues?
Pedro Wagner – Outro dia o Kil Abreu [crítico teatral], apesar de ainda não ter visto, disse que era o encontro de duas gerações de pernambucanos apimentados. Porque o Nelson tinha pimenta também. Ele escrevia com sangue nos olhos.
Mário Sergio Cabral – A gente faz teatro como se fosse a última vez. Eu tenho sempre que me aquecer muito.
Girdano Castro – A gente faz com um tesão do caralho.
Pedro Wagner – É isso. A gente tem tesão! O grupo é só de homens. Tem uma energia muito forte, sexual, presente. Somos homens libertinos.
Giordano Castro – Somos descarados uns com os outros [risos].

Miguel Arcanjo Prado – Por que vocês resolveram dar este olhar debochado a esta obra do Nelson?
Pedro Vilela – Gente, o próprio Nelson diz que Viúva, porém Honesta é uma farsa irresponsável.
Pedro Wagner – Hoje em dia, está ficando melhor ler Nelson Rodrigues do que ver montagens. Porque colocaram ele no pedestal e fazem coisas muito respeitosas.
Giordano Castro – Incharam o Nelson com tanto respeito. Não é que a gente não o respeite, mas, nós, como artistas, precisamos nos colocar na obra.
Pedro Vilela – O filho dele foi ver no Rio e veio conversar com a gente depois. Ele nos disse: “Meu pai ficaria muito feliz”. A neta dele também adorou.
Pedro Wagner – A gente se apresentou na festa de 15 anos da neta do Nelson.

Miguel Arcanjo Prado – Apesar de eu achar ótima, soube de gente que ficou com raiva da representação que vocês fazem da crítica teatral na figura do personagem Dorothy Dalton, o crítico da nova geração, com aquele cachecol. Apesar do frio, eu nem vim de cachecol hoje [risos].
Pedro Wagner – Então, a gente está colocando essa turma para sentir a sensação que a gente tem quando lê uma crítica [risos]. Quem levar muito a sério é pior para a própria pessoa. Tudo que falamos está no texto. O Nelson Rodrigues escreveu o Dorothy Dalton para um crítico específico, o Miroel Silveira. Tanto que é bem achatado o personagem. O nosso Dorothy Dalton é mais aberto. Não é para ser levado tão a sério.

Miguel Arcanjo Prado – Quem é o Dorothy Dalton do Magiluth?
Pedro Vilela – Se me perguntassem se você é o nosso Dorothy Dalton, eu responderia que sim e que não. Porque é você, e também você não é ele. Sim, porque, hoje em dia, você é o crítico que se coloca em seus textos, não tem medo de falar, cria “bafão”, ou seja, que não é aquele crítico chato, antigo. Você é realmente o crítico da nova geração, da nossa geração. Neste aspecto você é o Dorothy Dalton.
Pedro Wagner – Até porque parte da crítica ficou muito chata. Tem crítica que consegue ser mais chata que a peça!
Pedro Vilela – Mas eu digo que você não é ele também, porque o Dorothy Dalton não sabe o que está querendo dizer. Você não é assim.
Pedro Wagner – Resumindo: o Dorothy Dalton é bem mais irresponsável que você [risos].

Viúva, porém Honesta
Avaliação: Muito bom
Quando e onde: 15 a 19 de abril, às 20h; dia 20, às 19h no Itaú Cultural (av. Paulista, 149, metrô Brigadeiro); 23 a 27 de abril, às 20h, na Funarte (al. Nothmann, 1058, metrô Marechal Deodoro)
Quanto: Grátis
Classificação etária: 18 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Entrevista de Quinta: “Viramos o Pequeno Príncipe”, dizem artistas do Grupo Magiluth

magiluth foto bob sousa10 Entrevista de Quinta: “Viramos o Pequeno Príncipe”, dizem artistas do Grupo Magiluth

Magiluth conquista SP: humor cáustico pernambucano para clássico de Nelson Rodrigues - Foto: Bob Sousa

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Entredentes Credito Bob Sousa Crítica: Gerald Thomas solta grito entalado Entredentes e convida Brasil a pensar

Maria de Lima, Edi Botelho, Gerald Thomas e Ney Latorraca: preguiça ao Brasil em Entredentes - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de BOB SOUSA

Uma cena poderia resumir o espírito de Entredentes, a nova peça de Gerald Thomas, em cartaz no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo.

Ela se dá quando a atriz portuguesa Maria de Lima começa a esbravejar contra o Brasil, dizendo questões pertinentes e provocativas sobre questões histórico-sociais que não conseguimos ainda resolver.

Em seguida, a atriz explica à plateia que a fala não é dela, mas, sim, do diretor e autor, Gerald Thomas. Há um riso, de certo alívio. Mas é aí que ela, em primeira pessoa, passa a dizer o que ama no Brasil, citando como motivos coisas das quais não nos orgulhamos, como nossas favelas e o cheiro de xixi nas ruas.

Atônita com o discurso, a figura de Ney Latorraca só consegue uma saída diante da situação incômoda: a vaia.

Como em toda peça, muitas coisas estão implícitas nesta cena, cheia de signos fragmentados que permitem ao espectador diversas leituras. Não há discurso hegemônico, mas um convite ao espectador para ser uma espécie de coautor da encenação, preenchendo-a de significados.

entredentes foto alisson louback 8778 Crítica: Gerald Thomas solta grito entalado Entredentes e convida Brasil a pensar

Confronto entre Maria e Ney: verdade dita por boca do colonizador - Foto: Alison Louback

Na cena do confronto entre Maria e Ney, é preciso que a "verdade" seja dita por boca estrangeira. Mesmo assim, é necessário o grito para que seja escutada, evidenciando uma dependência brasileira ao olhar do Primeiro Mundo.

E tal discurso vem com sotaque colonizador. Talvez seja por tal ressentimento que este não é legitimado por Ney. Ou sequer contestado. A reação escolhida é quase que infantil, e bem brasileira. Em vez de partir para uma discussão dialética, o personagem de Ney prefere tentar desestabilizar seu interlocutor pela vaia e cortar o diálogo.

Thomas reúne três atores potentes no palco: Latorraca, Lima e Edi Botelho, este último o artista com quem mais trabalhou. Entregues ao jogo, Latorraca e Botelho fazem dupla. Primeiro, dois astronautas lunáticos. Depois, se alguém sente falta de historinha, um vira judeu e o outro, palestino.  Tudo diante de um painel com uma enorme vagina ou de um pichado Muro das Lamentações.

Diante do delírio, ambos são capazes de dizer coisas profundas que retumbam na cabeça do espectador.

Latorraca, para quem a peça foi escrita, faz excelente performance. Incorpora a si próprio em cena, que usa elementos de sua própria história, como a internação recente e a quase partida para o lado de lá. É ótimo ator e aproveita as liberdades do teatro de Thomas para apostar em seu tempo cômico, que ao mesmo tempo provoca o riso e desconcerta. Como quando diz: "It's amazing".

Entrevista: "É uma idiotice, um horror", diz Gerald Thomas

Outro grande destaque é Maria de Lima. Ela entra na peça, num primeiro momento, como alegoria sublinhada, como se a direção fizesse concessão ao didatismo que tal público está acostumado.

Logo sua personagem ganha peso e, em muitos momentos, se torna centro das atenções. Botelho chega a ir para a plateia para permitir que o duo de force entre Lima e Latorraca se faça sem interferências, como na cena que abriu esta crítica.

entredentes foto alisson louback 1004 Crítica: Gerald Thomas solta grito entalado Entredentes e convida Brasil a pensar

Ney Latorraca, em primeiro plano, e Edi Botelho, em cena de Entredentes - Foto: Alison Louback

Em seu teatro próximo à performance e com farta assinatura do diretor, Thomas abre a porteira para temas que perpassam o contemporâneo: desde a tensão política na Ucrânia após a invasão da Crimeia pela Rússia até a obsessão do povo brasileiro em acompanhar com afinco as telenovelas de roteiros repetidos.

Há uma preguiça para o Brasil - e os brasileiros - implícita na peça. Uma preguiça para um povo que não se cansa de retumbar às margens do rio Ipiranga, como diz uma das provocantes sacadas do texto, e que precisa terminar tudo em samba e Carnaval.

O recado de Entredentes não tem a obviedade que necessita quem busca riso fácil ou choro emotivo convulsivo, ou, como agora é moda, na relação de compromisso afetivo com artistas que ressuscitam no palco. Vai além disso.

É um teatro que se propõe a pensar a partir da quebra das estruturas sociais e comportamentais que move a sociedade e o pensamento brasileiros. A começar por quebrar a historinha. É fragmentado, propositivo e analítico.

Na obra que está mais para brado retumbante do que para revelação entredentes, Thomas cutuca a dormência anencéfala e tira a casca do verniz, revelando a mediocridade de nossa gente, tentando, ao mesmo tempo, despertá-la da alienação e do conformismo. É um mérito.

Entretendes
Avaliação: Muito bom
Quando: Sábado, 21h, domingo, 18h. 80 min. Até 11/5/2014
Onde: Teatro Anchieta do Sesc Consolação (r. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, metrô Santa Cecília, São Paulo, tel. 0/xx/11 3234-3000)
Quanto: R$ 35
Classificação etária: 16 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Gerald Thomas solta grito entalado Entredentes e convida Brasil a pensar

entredentes foto © Bob Sousa DSC 8852 Crítica: Gerald Thomas solta grito entalado Entredentes e convida Brasil a pensar

Gerald Thomas (ao centro, em pé) com elenco de Entredentes: Maria de Lima, Ney Latorraca e Edi Botelho - Foto: Bob Sousa

 

Entrevista: "É uma idiotice, um horror", diz Gerald Thomas

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elis regina 2 Crítica: Musical faz Elis virar mocinha da Broadway

Laila Garin na melhor cena do musical: Elis pouco antes da morte - Foto: Felipe Panfili/AgNews

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Apesar de ter tido como um de seus mestres um norte-americano vindo da Broadway, a gaúcha Elis Regina (1945-1982) não soava a uma princesinha dos musicais. Pelo contrário, a vida e a obra da maior cantora que o Brasil conheceu eram muito autênticas.

Elis, a Musical, peça de Nelson Motta e Patrícia Andrade, com direção do estreante em teatro Dennis Carvalho, tenta minimizar as contradições da vida de Elis, tornando-a mais homogênea, mais "mocinha". O espetáculo diminui a força da Elis real na tentativa de torná-la um produto palatável e comercial, quando justamente o que Elis fez foi provar que poderia ser um produto midiático de sucesso sem abrir mão do talento e da personalidade. Provava isso a cada especial de TV ou entrevista: sempre articulada, sincera e contraditória.

elis regina 5 Crítica: Musical faz Elis virar mocinha da Broadway

Talento de Laila Garin é destaque - Foto: Felipe Panfili/AgNews

A superprodução funciona mais como recital musical do que propriamente como espetáculo teatral. Antes de tudo, é preciso ressaltar o canto da atriz baiana Laila Garin. Mesmo aprisionada pela urgência e frivolidade do formato, recria Elis a seu modo e assombra a todos a cada canção - o talento evidente a distancia de boa parte do elenco. E ganha respeito como atriz na cena dramática em que recria a última entrevista de Elis a um programa de TV, semanas antes de sua morte. É seu grande momento.

Percebe-se que parte da plateia reage à obra de forma passional, o que é comum quando artistas que habitam o inconsciente coletivo "ressuscitam" no palco.  Foi assim também com Tim Maia - Vale Tudo. A emoção costuma ser imediata, e o critério para julgamento fica um tanto quanto anuviado.

Os homens de Elis

De forma simples, o enredo apresenta Elis como a menina pobre que conquistou o mundo. Apesar de a encenação fazer sumir o último namorado da cantora, o advogado Samuel MacDowell Figueiredo, com quem ela falou por telefone pouco antes da morte, sobraram Ronaldo Bôscoli, o primeiro marido, e César Camargo Mariano, o segundo. Diante do que lhes é dado pelo enredo e direção, os atores fazem o que podem.

Tuca Andrade vai bem como Ronaldo Bôscoli, pai do primeiro filho de Elis, João Marcello. Mesmo com o roteiro deixando o personagem próximo a um vilão de peça infantil, ele o torna crível.

Claudio Lins aposta na leveza para compor César Camargo Mariano, o pai de Pedro Mariano e Maria Rita, os dois últimos filhos de Elis.

Outro homem importante para Elis, o bailarino norte-americano Lennie Dale, ganha cena à altura. Este criou o movimento cênico de braços que marcaria a cantora. Na pele de Dale, Danilo Timm mostra-se um exímio bailarino e defende sua cena com brilho, carisma e precisão coreográfica.

Faz falta alguma referência à diretora Myriam Muniz, que criou com Elis o espetáculo Falso Brilhante, o mais importante da carreira da cantora. Ela não é lembrada no musical, que prioriza os personagens cariocas, em detrimento dos paulistas, mesmo tendo Elis escolhido viver em São Paulo, onde morreu.

elis regina Crítica: Musical faz Elis virar mocinha da Broadway

Elis, a Musical traz Laila Garin como a maior cantora do Brasil - Foto: Felipe Panfili/AgNews

Perplexidade

Algumas cenas causam perplexidade: como os bailarinos que se arrastam pelo chão com manequins, ou as imitações bizarras de Paulo Francis e Marília Gabriela. A caracterização de Francis é absurda porque se apropria da locução arrastada que marcaria o jornalista na tela da Globo em um plano pessoal no qual ele não falava daquele jeito. Já a imitação de Marília Gabriela é ainda mais complicada.

À medida que a obra usa nomes reais e fatos de quem sempre esmiuçou sua vida diante das câmeras de TV, é preciso, pelo menos, manter certa coerência com os fatos.

Alguns fatos sofrem reducionismo, como a briga com o cartunista Henfil, depois que este enterrou Elis em uma charge. Isto se deu após ela cantar nas Olimpíadas do Exército em tempos que artistas partiam para o exílio justamente por não colaborar com o regime. Elis, neste momento da obra, parece ingênua, coisa que nunca foi.

O próprio autor da peça, Nelson Motta, aparece como personagem, mas omite o caso de amor que teve com Elis, enquanto esta era casada com Bôscoli. Só fica o lado de Elis mulher humilhada e maltratada pelo primeiro marido. Não custa nada lembrar que o apelido dela era Pimentinha.

Incômodo com a morte trágica

Regina Echeverria, que escreveu a biografia Furacão Elis, afirma que "Elis morreu, de fato, de uma dose letal de Cinzano e cocaína. Um erro de dose. Um acidente". O próprio autor do musical, Nelson Motta, contou o mesmo em seu livro Noites Tropicais: "sempre preocupada com a voz, a garganta, seus maiores bens, [Elis] estava evitando inalar cocaína, preferindo misturá-la com uísque: dessa forma a droga vai para o estômago e demora mais a entrar na corrente sanguínea, tornando muito difícil controlar as quantidades. Foi o que matou Elis".

Mas há, no musical, um incômodo em lidar com a morte de Elis. Talvez seja por isso que a direção perde a chance de finalizar o espetáculo quando Laila tem sua grande cena, com Elis sozinha e frágil diante da luz, respondendo a uma entrevista. Dá nó na garanta.

elis regina 3 Crítica: Musical faz Elis virar mocinha da Broadway

Parece que é preciso encobrir a morte de Elis com muita cor e Carnaval - Foto: Felipe Panfili/AgNews

Mas, logo, apressados bailarinos deslizantes entram com confetes e serpentinas para carnavalizar tudo. Como se fosse proibido sentir tristeza pela partida precoce e trágica da cantora. Querer maquiar tal dor é ferir tudo que Elis foi: uma artista coerente com suas fragilidades até mesmo no momento da morte, aos 36 anos, trancada no quarto, com três filhos pequenos para criar.

Elis, a Musical enquadra a memória de nossa maior cantora nestes novos tempos do politicamente correto. Está ali uma grande cantora, mas falta a grande artista, tão viva e inquieta, sem meias verdades, que gostava de instigar, de desnortear, de provocar. O que fica é a pergunta: o que Elis Regina acharia da ideia de convertê-la em mocinha da Broadway?

Elis, a Musical
Avaliação: Bom
Quando: Sexta, 21h30; sábado, 16h (sem Laila Garin) e 20h; domingo, 17h; quinta, 21h. 180 min. Até 13/7/2014
Onde: Teatro Alfa (r. Bento Branco de Andrade Filho, 722, CPTM Santo Amaro, São Paulo, tel. 0/xx/11 5693-4000)
Quanto: R$ 40 a R$ 180
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Musical faz Elis virar mocinha da Broadway

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aplauso brasil ze celso antunes ed paiva Abraço de Zé Celso em Antunes Filho marca 2º Prêmio Aplauso Brasil; veja lista de ganhadores

Antunes Filho abraça Zé Celso Martinez Corrêa no palco do Theatro São Pedro - Foto: Ed Paiva

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A imagem do encontro dos homenageados Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa no palco do tradicional Theatro São Pedro marcou o 2º Prêmio Aplauso Brasil de Teatro, promovido pelo crítico Michel Fernandes. A cerimônia de entrega foi realizada nesta segunda (14), na Barra Funda, em São Paulo.

Além dos celebrados diretores, nomes como Débora Falabella, Yara de Novaes, Ivam Cabral e Bárbara Paz estiveram presentes. Esta última apresentou a festa, que teve música ao vivo pelo maestro Miguel Briamonte. Nydia Lícia, outro importante nome de nossos palcos, também foi homenageada.

A votação foi popular. Veja a lista completa de quem levou:

Homenagens:
Antunes Filho, José Celso Martinez Corrêa e Nydia Lícia

Melhor Espetáculo de Grupo:
S-antas, Amadododito Cia Teatral

Melhor Espetáculo de Produção independente:
Genet, o Poeta Ladrão, direção de Sérgio Ferrara

Melhor Espetáculo Musical:
A Madrinha Embriagada, Atelier de Cultura

Melhor Figurino:
Iraci de Jesus, por Bem-vindo Estranho e Genet, o Poeta Ladrão

Melhor Arquitetura Cênica (cenário, adereços e ambientação):
Eric Lenate, por Vestido de Noiva

Melhor Trilha Original:
Daniel Maia, por A Casa de Bernarda Alba, Jocasta (em parceria com Jonatan Harold) e Ricardo III

Melhor Dramaturgia:
Kiko Marques, por Cais ou da Indiferença das Embarcações

Melhor Diretor:
Silvio Vieira por Pessoa

Melhor Ator Coadjuvante:
Ubiracy Paraná do Brasil, por Alô Dolly! 

Melhor Ator:
Marcos Lemes, por Pessoa

Melhor Atriz Coadjuvante:
Marjorie Estiano, por O Desaparecimento do Elefante

yara debora nanda rovere Abraço de Zé Celso em Antunes Filho marca 2º Prêmio Aplauso Brasil; veja lista de ganhadores

Yara de Novaes e Débora Falabella foram receber o prêmio por dupla em Contrações - Foto: Nanda Rovere/Divulgação

Melhor Atriz:
Débora Falabella e Yara de Novaes, por Contrações

Melhor Elenco:
S-antas, direção Alan Pires

Destaque:
Satyrianas, por oferecer um festival com variadas opções em diversos segmentos de arte.

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PHEDRA ANDRE STEFANO Crítica: Satyros inverte lógica e Phedra D. Córdoba vive intensamente e canta Beatles em Não Morrerás

A diva cubana Phedra D. Córdoba canta Something, dos Beatles, em Não Morrerás, da Cia. Os Satyros: "I don't want to leave her now You know I believe and how" - Foto: André Stéfano

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Phedra D. Córdoba é um mar de signos. E o diretor Rodolfo García Vázquez parece saber disso muito bem ao colocá-la no centro do espetáculo Não Morrerás, do grupo Os Satyros, que tem texto do médico Drauzio Varella.

A obra faz parte da série E Se Fez a Humanidade Ciborgue em Sete Dias, com sete distintas montagens. Esta aborda a finitude da vida e também as diversas formas de corpos atuais, incluindo aí aqueles construídos, seja em mesas de cirurgias ou por meios digitalizados.

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A diva cubana Phedra D. Córdoba surge em cena com sua presença evidente de sempre. Faz um número musical, ao vivo, Something, dos Beatles, que começa com os versos "Alguma coisa no jeito que ela se move me atrai como nenhum outro amor". Uma verdadeira ode ao carisma de Phedra.

Os atores Bruno Gael, Fabio Ock, Fábio Penna, Tiago Leal e Henrique Mello são como pajens, rodeando as duas figuras centrais da obra.

BONECA ANDRE STEFANO POSTER Crítica: Satyros inverte lógica e Phedra D. Córdoba vive intensamente e canta Beatles em Não Morrerás

Rodeada pelos atores Henrique Mello e Bruno Gael, a atriz Katia Calsavara se transforma em uma boneca quase perfeita, não fosse a falta de vida, na peça Não Morrerás, do grupo Os Satyros - Foto: André Stéfano

Porque, em contraponto a Phedra, está a personagem de Katia Calsavara, uma boneca ciborgue cujo rosto coberto pela tela de um tablet vai sendo modificado ad infinitum, tal qual os obcecados por plásticas dos tempos atuais. Uma direta e poética crítica à ditadura da beleza.

E o público logo percebe que a personagem de Katia, que a constrói de forma sensível, é desprovida de vida, mesmo diante de toda beleza pré-fabricada. A seu lado, ali, no auge dos seus 75 anos, com sua beleza concreta e histórica, Phedra está muito mais viva e plena do que aquela boneca, praticamente morta em sua beleza inventada.

É por inverter a lógica óbvia que Não Morrerás se destaca. E, claro, por colocar Phedra no lugar em que merece estar: o de diva maior da praça Roosevelt, reinando sobre o palco mais inquieto do teatro alternativo paulistano.

Não Morrerás
Avaliação: Muito bom
Quando: Domingo, 15h30. 50 min. Até 28/9/2014
Onde: Espaço dos Satyros 1 (praça Roosevelt, 214, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Satyros inverte lógica e Phedra D. Córdoba vive intensamente e canta Beatles em Não Morrerás

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Foto do BOB SOUSA
Por MIGUEL ARCANJO PRADO

philippe gaulier foto bob sousa5 O Retrato do Bob: Philippe Gaulier, palhaço mestre
Philippe Gaulier acaba de completar 71 anos. Deu-se de presente aceitar uma viagem ao Brasil. Mas, não para fazer turismo. Muito pelo contrário. Esteve por aqui para disseminar seus conhecimentos sobre o universo clown em disputada oficina no Sesc Belenzinho, em São Paulo. No banco de aluno, os principais mestres do humor e pesquisadores do gênero do País. Palhaço respeitado e aclamado mundialmente, o artista francês é o criador da École Philippe Gaulier, em Paris, que ensina uma arte inteligente e provocativa há mais de 30 anos. Discípulo de Jacques Lecoq, ele apostou nas ideias próprias e ganhou seus seguidores de distintas nacionalidades, mas com uma coisa em comum: o amor pelo riso.

EXCLUSIVO: "Gente séria é muito perigosa", diz Philippe Gaulier

Visite o site de Bob Sousa

Baixe o livro Retratos do Teatro, de Bob Sousa

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feira boliviana 2 Teatro Documentário faz intervenção em feira de SP onde bolivianos seriam vendidos por R$ 1.000

Feira boliviana da rua Coimbra, no bairro Brás, em São Paulo - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Os integrantes da Cia. Teatro Documentário realizaram uma intervenção artística neste sábado (12), na feira boliviana da rua Coimbra, no Brás, em São Paulo.

A ação fez parte do projeto Fomento ao Teatro de São Paulo.

A obra abordou aspectos da vida dos imigrantes bolivianos na cidade, como a exploração de sua mão de obra em confecções e a saudade do país de origem.

Muitos bolivianos que passavam pela feira, assim como brasileiros, pararam para ver a performance, que foi feita em um "portunhol" improvisado pelos artistas.

Em fevereiro deste ano, a feirinha da rua Coimbra virou notícia com o fato de um homem tentar "vender" dois imigrantes bolivianos por R$ 1.000 cada um.

Estima-se que a população de bolivianos em São Paulo chegue a 300 mil habitantes, dos quais apenas cerca de 70 mil são registrados oficialmente.

teatro documentario Teatro Documentário faz intervenção em feira de SP onde bolivianos seriam vendidos por R$ 1.000

Cia. Teatro Documentário na ação na feira boliviana do Brás, em São Paulo - Foto: Divulgação

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genet bob sousa Crítica: Genet, o Poeta Ladrão grita contra caretice

Iluminação de Rodrigo Alves cria ambiente poético para Genet, o Poeta Ladrão - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto de BOB SOUSA

O gheto no qual habitam prostitutas, garotos de programa e gente viciada em toda espécie de drogas e  na vida bandida é o abrigo do espetáculo Genet, o Poeta Ladrão, encenação de Sergio Ferrara para texto de Zean Salles.

Se num primeiro aquele excesso de homens semidesnudos de corpos esculturais reforça signos homoeróticos, sugerindo que esta parcela da população seria seu público, sua força está justamente em conseguir chegar a uma diversidade maior da sociedade. Afinal, é esta quem precisa perceber o recado contestatório de Genet.

A montagem é uma espécie de homenagem a Jean Genet (1910-1986), o grande poeta francês do submundo. Ele próprio esteve no Brasil para acompanhar a montagem histórica de seu texto O Balcão, dirigida pelo argentino Victor Garcia no Teatro Ruth Escobar, em um Brasil mergulhado no horror da ditadura militar no fatídico ano de 1969. Tal acontecimento serve de pretexto para que a obra comece, para voltar rapidamente ao passado de juventude de Genet, filho de prostituta e de pai desconhecido, perambulando entre a cadeia e as ruas da capital francesa.

A direção aposta em imagens poéticas, reforçadas pela iluminação precisa e propositiva de Rodrigo Alves. Isso atenua o excesso de concretude do texto, muitas vezes escatológico e sexualmente verborrágico. O figurino de Iraci de Jesus veste os homens robustos do elenco com signos femininos, criando uma atmosfera onde os limites sexuais não são dados ou impostos.

Ricardo Gelli, como o protagonista, é o destaque no elenco de dez atores, com nove homens e uma mulher - Gabrielle Lopez. No decorrer da obra, ele vai se impondo aos poucos, para, no ponto extremo da crise quase convulsiva de seu personagem, conquistar de vez o respeito do espectador.

Fransérgio Araújo, como o trôpego parceiro de rua por quem Genet se apaixona, faz uma atuação que caminha próxima à performance. No elenco, ainda estão Nicolas Trevijano, Felipe Palhares, Ralph Maizza, Jhe Oliveira, Magno Argolo, Bruno Bianchi e Rogério Brito, que se destaca com seu tempo próprio para o humor.

Em um mundo no qual o conservadorismo ganha força, o espetáculo Genet, o Poeta Ladrão cumpre missão de apontar um olhar mais libertário para a sexualidade e a vida em si.

Se num primeiro momento o texto pode parecer excessivo em suas expressões chulas e no compromisso com uma vida vista como decadente por boa parte da sociedade, em um segundo olhar, mais preciso, percebe-se que a obra tem aí mesmo seu grito de resistência contra a dita moral, sempre acompanhada dos tais bons costumes. Livrar-se destas amarras comportamentais é o caminho para qualquer olhar inteligente sobre o mundo. E a peça de Ferrara faz isso com os recursos que tem a seu dispor.

Genet, o Poeta Ladrão
Avaliação: Bom
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Genet, o Poeta Ladrão grita contra caretice

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silvana garzaro 2 Domingou: Para Silvana Garzaro

A fotógrafa Silvana Garzaro: inteligência e sensibilidade de uma artista - Foto: Arquivo pessoal

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Foi com imensa alegria que subi, na última terça, ao palco do Teatro Bibi Ferreira para receber o Prêmio Inspiração do Amanhã pela atuação na cobertura teatral aqui no blog. O troféu, idealizado peça Cia. de Teatro Loucos do Tarô, me encheu de orgulho, sobretudo, por dividir o mesmo palco com gente que admiro desde que me entendo por gente.

Além dos internautas, dos colegas e direção do R7 e dos parceiros de trabalho no dia a dia, os fotógrafos Bob Sousa e Eduardo Enomoto, pensei também em uma baita companheira do meu comecinho de carreira em São Paulo.

Há sete anos vivo de jornalismo cultural nesta que é a maior e mais frenética cidade brasileira. Desde que cheguei na Selva de Pedra, recém-formado pela Universidade Federal de Minas Gerais para participar do Curso Abril de Jornalismo, na Editora Abril, sabia que as coisas não seriam tão fáceis assim. Mas nunca me faltou disposição.

Logo que o curso acabou, assumi vaga de repórter na revista Contigo!, numa aposta da ainda redatora-chefe da publicação Denise Gianoglio. Ainda não estava tão habituado ao mundo das celebridades, com seu excesso de ego, e com os eventos onde todos querem ver e, principalmente, serem vistos. Neste começo profissional, uma pessoa foi fundamental no meu processo de adaptação aos novos tempos: a fotógrafa Silvana Garzaro.

Silvana foi companheira em muitas de minhas primeiras pautas. Por pior que fosse, sempre nos divertíamos. Rápida, certeira, atenta. Não deixava passar uma. No carro, na ida ou na volta, sua diversão sempre foi me contar todos os filmes da Bette Davis, dizendo-me que, se eu queria ser um jornalista respeitado, deveria ver todos eles. Que absurdo não ter visto ainda!

Silvana também contava em detalhes o melhor da noite paulistana, seus personagens, suas lendas. Ela conhece tudo. Viu com os próprios olhos.

Se as celebridades que entrevistava muitas vezes eram ocas, Silvana preenchia meu trabalho de sentido. Inteligentíssima, digna e sensível. Uma verdadeira artista.

Ao subir ali naquele palco na última terça, um tanto quanto encabulado e cegado pela luz, que faz todo discurso parecer um átimo de segundo, pensei em muita gente importante para mim. E, entre elas, pensei em Silvana. No tanto que aprendi com esta profissional das mais competentes que conheci e que nunca, jamais, perdeu sua personalidade. E só os sensíveis percebem que esta é sua melhor parte.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e gosta de fazer grandes amigos. A coluna Domingou, uma crônica semanal, é publicada todo domingo no blog Atores & Bastidores do R7.

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laerte kessimos foto bob sousa Dois ou Um com Laerte Késsimos

O ator Laerte Késsimos pelas ruas da noite de São Paulo - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto de BOB SOUSA

Laerte Késsimos é ator mineiro radicado em São Paulo. É nome conhecido da classe artística, amigo de muita gente, sempre metido em bons trabalhos. Sua peça mais recente foi Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues com direção de Eric Lenate no Teatro do Núcleo Experimental. Na última semana, assustou a todos por ter sido vítima de uma agressão na rua Augusta, em São Paulo, que o deixou com o maxilar quebrado. Ele passou por cirurgia e passa bem. Em recuperação, o ator aceitou o convite do Atores & Bastidores do R7 para participar da coluna Dois ou Um. Dez perguntas cheias de possibilidades. Ou não.

Laerte Késsimos ou Laerte Coutinho?
Laerte Coutinho, é meu xará, é meu amor.

Praça Roosevelt ou rua Augusta?
Roosevelt.

São Paulo ou Governador Valadares?
São Paulo.

Esquerda ou direita?
Não pode ser no meio?

Não vai ter Copa ou Copa para todos?
Vai ter Copa e confusão.

Militância ou preguiça da política?
Preguiça total!

Satyros ou Oficina?
Cada um é cada um.

Vida louca ou vida bandida?
Vida louca.

Sexo verbal ou me enche de amor?
Me enche de amor, né?

O nosso amor a gente inventa ou eu vivo largado no mundo?
O nosso amor a gente inventa!

Leia outras edições da coluna Dois ou Um

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