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dafoe baryshnicov bob sousa “Bob Wilson joga anzol e pesca o mais profundo de nós”, dizem Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe

Willem Dafoe e Mikhail Baryshnikov durante a conversa no Sesc Pinheiros, em São Paulo - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

Quando era pequeno, na extinta União Soviética da década de 1950, o menino Mikhail Baryshnikov pensava “em futebol” quando ouvia a palavra Brasil. Já no norte dos Estados Unidos, no começo dos anos 1960, o pequeno Willem Dafoe achava que Brasil era sinônimo “de selva”.

São lembranças deste tipo que contam ao R7, durante o encontro na tarde desta terça (22), para falar do espetáculo The Old Woman (A Velha). A obra dirigida por Robert Wilson, ou apenas Bob Wilson, estreia em São Paulo, no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros, nesta quinta (24). A temporada promovida pelo Sesc São Paulo será de apenas 11 sessões, já com ingressos esgotados. Wilson não virá ao Brasil.

dafoe bob sousa 1 “Bob Wilson joga anzol e pesca o mais profundo de nós”, dizem Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe

Willem Dafoe: "Preparação para trabalhar com Bob é ser flexível" - Foto: Bob Sousa

Aniversário e caipirinha

De volta ao encontro, Dafoe conta que tem prazer em trabalhar com o diretor texano que virou referência de teatro em todo o mundo. “A coisa mais bonita do teatro é sua artificialidade, e o Bob sabe utilizar isso. Gosto de ser moldado por ele”, afirma.

Dafoe completa 59 anos nesta terça (22). Vai comemorar com trabalho. “Saio daqui e vou ensaiar. Quem sabe depois não bebo uma caipirinha?”.

Mesmo com tanta labuta, ele e seu colega de cena, Baryshnikov, encontraram tempo para conferir nesta segunda (21) o show Gilbertos Samba, de Gilberto Gil, no Theatro NET São Paulo.

Dafoe também pode ser visto nos cinemas, no filme O Grande Hotel Budapeste. Mas faz questão de dizer que o teatro também sempre foi sua praia, já que fez parte do grupo nova-iorquino The Wooster Group entre 1977 e 2005. E frisa: “Diariamente”. Agora, se lança em trabalhos independentes, que lhe tragam desafios: “Eu me sinto desconfortável quando estou no conforto”.

Foi dos tempos de teatro de grupo que conheceu Wilson, uma das influências de seu grupo. “É a segunda vez que faço algo com ele. A preparação é ser flexível, se entregar à preparação dele. Fizemos antes A Vida e a Morte de Marina Abramovic”, ao lado da artista nascida na Sérvia. E lembra de um fato engraçado na montagem. “Como o espetáculo era baseado na vida dela, a Marina chorava em cena. Bob falava: ‘Não quero que você chore, deixe que o público chore por você”. E a Marina me dizia: “Willem, eu choro todos os dias!”

baryshnikov bob sousa “Bob Wilson joga anzol e pesca o mais profundo de nós”, dizem Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe

Mikhail Baryshnikov: "Com o Bob Wilson, você é o que você é" - Foto: Bob Sousa

Corpo moldado há quase 60 anos

Baryshnikov, lenda viva da dança mundial, conta que o convite de Bob Wilson veio “num desses jantares da vida, quando a gente fala: precisamos trabalhar juntos”. E revela que o diretor é um excelente dançarino: “Ele faz uns movimentos idiossincráticos, abruptos. Quanto mais esquisito, melhor para ele”. Tanto que algumas cenas foram criadas a partir de danças de Wilson. Baryshnikov ainda surpreende na obra: “Canto por 30 segundos, o que é suficientemente assustador [risos]”.

O bailarino de 66 anos diz que seu corpo, moldado pela dança desde os 9, logo se adaptou ao estilo de movimentação “egípcia” de Bob Wilson, na qual é importante “sustentar a imobilidade”. “Trago no corpo um acúmulo de diversas linguagens”, afirma. “Com o Bob Wilson, você é o que você é. Ele joga o anzol e pesca o mais profundo de nós”.

Os atores, assim como o diretor, não querem se precipitar ao dizer o que o público sentirá ao ver a obra, baseada na novela do russo Daniil Kharms. “Acho que isso de tudo ser feito atrás de uma máscara, convida o público a achar engraçado ou não. Não queremos incorporar o que a plateia vai sentir. Ela tem de sentir por si só”, diz Baryshnikov.

Veja fotos da peça de Bob Wilson com Baryshnikov e Dafoe 

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juliana lourencao bob sousa O Retrato do Bob: Juliana Lourenção, bonequinha de luxoFoto BOB SOUSA
Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A atriz Juliana Lourenção é de Florianópolis, mas, aos poucos, começa a conquistar São Paulo, onde se formou no Teatro-Escola Célia Helena. Em sua terra natal, dançou no Jovem Ballet de Santa Catarina, com direção de Bárbara Rey, e também atuou na peça Quatro, do Grupo Círculo, dirigido por Christiano Scheiner. Além de manter a velha paixão com a dança, gosta de transitar entre o teatro e o cinema. Assim, está tanto no Grupo de Cinema Ap43, dirigido por Nara Sakarê, quanto no teatral Grupo Instante, dirigido por Paulo Marcello. E ainda encontra tempo para participar do Coletivo Zimbabwe, que prepara nova peça para setembro no Núcleo Artístico Pedro Costa, no Bixiga. A moça, que tem este rosto eternizado por Bob Sousa, delicado como o de Audrey Hepburn, está só começando...

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gilberto gil palco bob sousa Gil cria realidade paralela ao reencontrar João

Gilberto Gil toca sambas consagrados por João Gilberto no Theatro NET São Paulo - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto BOB SOUSA

A lágrima clara sobre a pele escura de Gilberto Gil, no meio do show, faz lembrar muita coisa. Comove. Mexe com a gente.

Ele inaugurou o Theatro NET São Paulo neste fim de semana com o show de seu novo disco, Gilbertos Samba.

O álbum é uma volta ao começo, homenagem explícita a João Gilberto e seu violão.

Gil surge em palco enxuto, acompanhado de seu filho Bem Gil, de Domenico Lancelotti e Maestrinho, em sintonia fina.

Tudo começa com Aos Pés da Cruz, seguida de Você e Eu. A serenidade da bossa nova invade tudo e tira o ritmo frenético da metrópole. A gente embarca na doce viagem de Gil.

Ele diz que estar em São Paulo é uma satisfação e conta que o disco nasceu “das coisas naturais e fantasias da cabeça do artista”.

Foi em pleno deserto australiano que ele pegou o violão e as músicas de João foram surgindo, naturalmente, começando pela Aos Pés da Cruz. “Aí veio Doralice, O Pato... E me dei conta que era o disco de sambas do João Gilberto que estava vindo”. Gilbertos Samba, uma mistura dos dois.

Gil revela que fez nova música para o Rio, trilha do filme Rio, Eu te Amo. A cidade já ganhou a emblemática Aquele Abraço, quando ele partiu para o exílio em Londres mais de 40 anos atrás, deixando amargura no sorriso de quem ficou.

Explica o novo refrão, uma brincadeira com as palavras “choro e rio”. O público aprende rápido, e Gil comemora: “O Brasil tem essas coisas incríveis: São Paulo cantando para o Rio”.

Gil grita “Ajayô”. A banda responde, prontamente, “ê”. Os Filhos de Gandhy se fazem presentes num átimo de segundo antes de Doralice. “Cantar na atmosfera do João é tudo de bom”, pondera o cantor.

Diz que João abriu portas. “O João facilitou a vida da gente, prestou esse serviço a todos nós, cantar com nossas vozes, do nosso jeito”.

Conta que decidiu deixar um pouco o acordeom de lado e se aventurar no violão quando ouviu Chega de Saudade tocada e cantada por João na emblemática gravação de 1958. E lembra que não foi só ele: “Eu, Milton, Chico, Caetano, Edu... Todos nós fomos tocar violão por causa do João. Até rima [risos]”.

Gil se atreveu a colocar letra em Um Abraço no Bonfá, de João, durante uma viagem à Tunísia. Depois, para que houvesse reflexo no espelho musical criado por ele, compôs também, em Itajubá, Minas Gerais, Um Abraço no João, sem palavras.

Canta Ladeira da Preguiça e explica o porquê: “É uma forma de lembrar dela, a Pimentinha, que gravou essa canção”, referindo-se à amiga Elis Regina que o lançou para todo o Brasil. Curiosamente, é a voz dela que recebe o público antes de o show começar.

As coisas caminham para o fim, quando Gil anuncia: “Este samba vai para Dorival Caymmi, João Gilberto e Caetano Veloso”. A plateia delira e sucumbe à música. E ele vai mandando Aquele Abraço. O aplauso é forte. Gil sai do palco e fica difícil viver sem a realidade paralela criada por ele. E João.

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sabato magaldi foto bob sousa8 O Retrato do Bob: Sábato Magaldi, o imortalFoto BOB SOUSA
Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Sábato Magaldi é um dos maiores críticos  e pensadores da história do teatro brasileiro. É considerado a maior referência sobre a obra de Nelson Rodrigues. Desde 1994, ocupa a cadeira 24 da Academia Brasileira de Letras. Mineiro de Belo Horizonte, onde nasceu em 9 de maio de 1927, formou-se em direito pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e também estudou estética na Sorbonne, em Paris. Começou na crítica teatral no Rio, no Diário Carioca, em 1950. Três anos depois, atendeu ao convite de Alfredo Mesquista para dar aula de história do teatro brasileiro na EAD (Escola de Arte Dramática), em São Paulo, cidade na qual vive e onde foi retratado por Bob Sousa, em sua casa, no bairro Higienópolis. No mesmo período em que começou a lecionar na EAD, foi redator e repórter teatral do Estadão, que tinha como crítico Décio de Almeida Prado. Depois, assumiu a crítica do extinto Jornal da Tarde, onde ficou até se aposentar, em 1988. É doutor pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (Universidade de São Paulo) e professor emérito da Escola de Comunicações e Artes desde 2000. É mesmo um imortal.

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maria thereza vargas foto bob sousa4 O Retrato do Bob: Maria Thereza Vargas, memória viva do teatro brasileiroFoto BOB SOUSA
Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Maria Thereza Vargas cuida do teatro brasileiro como uma mãe a um filho querido. Uma das principais pesquisadoras de nosso palco, viveu neste ano de 2014 a glória de ser condecorada com o Grande Prêmio da Crítica da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) pela sua dedicação às artes cênicas e pelo livro Cacilda Becker - Uma Mulher de Muita Importância, lançado pela Imprensa Oficial. Paulistana, a estudiosa se formou em dramaturgia e em crítica teatral pela EAD (Escola de Arte Dramática), onde também coordenou a secretaria. Já atuou em variados órgãos de preservação da nossa cultura e lançou obras de referência sobre o nosso teatro, como Cem Anos de Teatro em São Paulo, em parceria com o crítico Sábato Magaldi. Afinal, Maria Thereza Vargas é a memória viva de nosso teatro.

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TeatrodeBonecas ze aires Coluna do Mate: Formação é importante no teatro

Milena Filócomo e Jackeline Stefanski em cena de Teatro de Bonecas - Foto: Zé Aires

Breves apontamentos sobre a importância das escolas de formação de atores e atrizes

alexandre mate foto bob sousa Coluna do Mate: Formação é importante no teatro

Alexandre Mate: Foto: Bob Sousa

Por ALEXANDRE MATE*
Especial para o Atores & Bastidores

A paixão (e, quase sempre, a necessidade) de dedicar-se ao teatro poucas vezes consegue ser explicada racionalmente. Por intermédio de entrevistas ou relatos de artistas pode-se conhecer as aventuras e dificuldades que a quase totalidade teve de vencer para que sua necessidade se transformasse em ação.

Verdade que atualmente, e sobretudo graças inicialmente ao cinema, e no caso brasileiro à televisão, o preconceito contra a arte da representação diminuiu sobremaneira. Portanto, se a representação teatral foi condenada, levando artistas, inclusive à morte, em boa parte da Idade Média na Europa central, hoje, os chamados bem sucedidos na profissão tem uma vida repleta de glórias e de reconhecimento.

O grande poeta português Luís Vaz de Camões, em Sonetos, afirma: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança:/ Todo o mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades.”

Em tese, o preconceito contra a representação (ou contra os atores e atrizes) existe no mundo ocidental desde a invenção da linguagem teatral pelos gregos da Antiguidade clássica. No teatro popular, homens e mulheres sempre estiveram juntos na cena, mas, no teatro erudito, as mulheres vão para a cena apenas no século 17.

Patriarcal e machista

Como se sabe, vivemos em uma sociedade, desde sempre, patriarcal (e machista, como se costuma dizer). Desse modo, o controle sobre as mulheres vem sendo exercido desde o início da humanidade.

Ibsen  Coluna do Mate: Formação é importante no teatro

Ibsen, criador de Casa de Bonecas - Foto: Divulgação

Em teatro isso também existiu. Apenas para se ter uma ideia do controle exercido sobre as mulheres, a obra teatral mais proibida de toda a história da dramaturgia mundial (e até hoje, de diferentes modos) é o texto de 1879 “Casa de Bonecas”, do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen.

De modo bastante sucinto: Nora, casada com Torvald, durante oito anos paga um empréstimo feito às escondidas para salvar o marido de grave doença. Nora faz o empréstimo de um agiota, falsificando a assinatura do próprio pai. Passados oito anos, e liberta do grande pesadelo, o marido está prestes a ser o novo gerente do banco e quer demitir algumas pessoas; uma delas é o agiota. Este não aceita a decisão e chantageia Nora.

Caso ela não o defenda, o agiota diz que escreverá carta contando tudo ao marido. Desesperada, mas acreditando no amor e dedicação ao marido e família durante os oito anos, Nora conta a verdade. Torvald não aceita e condena a esposa sumariamente: ele não pode ter sua imagem afetada.

O agiota se arrepende, Torvald “perdoa” Nora. Esta, absolutamente desamparada, e consciente de ter vivido uma mentira durante os últimos oito anos, vai embora de casa: abandonando o marido e os filhos. Desesperado, Torvald pede-lhe para ficar ainda aquela noite, Nora responde não poder dormir com um estranho!

teatrodebonecas ze aires 2 Coluna do Mate: Formação é importante no teatro

Cena de Teatro de Bonecas, com direção de Adriano Cypriano para o texto de Ibsen - Foto: Zé Aires

Por que a obra Casa de Bonecas vem sendo proibida? Simplesmente porque, pela moral vigente até hoje, não se admite que uma mãe possa abandonar os filhos. Os pais que fazem isso podem até ganhar alguma crítica, mas, o mesmo não é admitido com relação às mães. Montagens antológicas, e mesmo adaptações, vêm sendo feitas da obra. Recentemente, Milena Filócomo adaptou a obra, dirigida por Adriano Cypriano, batizada Teatro de Bonecas.

Escolas têm importância vital

O assunto deste texto são as escolas de formação de intérpretes, prioritariamente em São Paulo. Desse modo, a introdução apresentada oferece algumas determinações na importância do teatro no contexto sociocultural da humanidade. Algumas pessoas aproximam-se do teatro pela representação, outras pelo seu alcance, outras pelas transformações que podem propor na vida das pessoas... Enfim, há uma gama de intenções que aproximam os seres da linguagem. Para facilitar o acesso, preparar os sujeitos, descortinar o mundo do teatro as escolas de formação têm importância vital.

retrato de alfredo mesquita Coluna do Mate: Formação é importante no teatro

Retrato de Alfredo Mesquita, fundador da EAD, pintado por Octávio Araújo em 1976, hoje no acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo - Reprodução

Basicamente, e até determinado momento da história, o processo de formação de atores e atrizes ocorria de modo autodidata, isto é, se aprendia fazendo, em cena. Basicamente, e de modo sistemático, a primeira escola de formação de intérpretes em São Paulo foi a Escola de Arte Dramática, a EAD, fundada em 1948, por Alfredo Mesquita.

Sucintamente, a escola foi fundada para formar atores e atrizes para ingressarem no Teatro Brasileiro de Comédia, fundado no mesmo ano e coordenado por Franco Zampari. De lá para cá, a prestigiadíssima escola já formou mais de 60 turmas.

De todas as turmas formadas na escola, o Grupo 59 de Teatro, sem dúvida pode ser destacado. Formado em 2011, e com quatorze integrantes, o grupo montou e mantém em seu repertório: O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, dirigida por Cristiane Paoli Quito, Mockinpó, dirigida por Claudia Schapira e a Última História, dirigida por Tiche Vianna.

Fundação das Artes de São Caetano do Sul

A Fundação das Artes de São Caetano do Sul foi criada, em 25 de abril de 1968, pelo saudoso Milton Andrade. Mantida por intermédio do poder público, a escola teve problemas para sua manutenção, e, em sua história, formou inúmeras turmas.

homem cavalo sociedade anonima foto bob sousa Coluna do Mate: Formação é importante no teatro

Cena de Homem-Cavalo & Sociedade Anônima - Foto: Bob Sousa

De todas elas a mais conhecida é a Companhia Estável, formada em 2000, e com mais de dez espetáculos já montados. Atualmente, o grupo apresenta, em espaços híbridos, A Exceção e a Regra, trabalho com direção coletiva; prepara intervenção fundamentada em teatro de agitprop (agitação e propaganda), com direção de Renata Zhaneta e mantém em seu repertório o espetáculo Homem-Cavalo & Sociedade Anônima.

Teatro-escola Macunaíma

Fundada em 1974 pelo casal de Myriam Muniz e Silvio Zilber, o Teatro-escola Macunaíma, atualmente oferece cursos profissionalizantes e livres, para crianças, jovens e adultos.

Exatamente pelos anos de existência e pela quantidade de cursos oferecidos, há uma brincadeira entre os artistas de teatro segundo a qual, não há profissional na cidade que não tenha ministrado aulas na instituição.

Apesar de ter tido grandes profissionais a ensinar e grandes intérpretes formados na instituição, não há um grupo especificamente formado na escola. Atores e atrizes da escola estão espalhados em muitos dos quase 300 grupos de teatro da cidade.

Teatro-escola Célia Helena

O Teatro-escola Célia Helena foi fundado pela inesquecível atriz Célia Helena, em 1977. Atualmente, a escola oferece uma variedade significativa de processos de formação: profissionalizante de ator; cursos livres para crianças, adolescentes e adultos; curso de interpretação superior e curso de pós-graduação lato sensu.

o jardim das cerejeiras valeriemesquitafotografia 9 Coluna do Mate: Formação é importante no teatro

Cena de O Jardim das Cerejeiras - Foto: Valéria Mesquita

Das propostas de formação, o mais tradicional é o curso de formação de atores. De todas as companhias formadas pela escola, a mais conhecida, e com mais de dez montagens, sempre dirigidas por Marcelo Lazaratto, é a Companhia Elevador de Teatro Panorâmico, formada em 2000. Até o mês passado, a companhia ficou em cartaz com O Jardim das Cerejeiras, de Anton Tchekhov.

Escola Livre de Teatro de Santo André

A Escola Livre de Teatro de Santo André foi fundada em 1990 e por ser mantida pelo poder municipal passou por problemas de manutenção. Idealizada pela excepcional criadora e pesquisadora Maria Thais, a escola transformou-se em referência nacional, sobretudo pelos procedimentos de criação, fundamentados no conceito de processo colaborativo.

Compreendendo, pelo menos, três anos de formação, as turmas passam por módulos específicos de formação: teatro épico, teatro realista, circo etc. Até pouco tempo atrás, o incentivo no processo de criação compreendia o desenvolvimento em potência de aprendizes- criadores. Música, coreografia, texto, cena, figurino, maquiagem eram experimentados e criados pelo conjunto de aprendizes.

azar valdemar foto bob sousa Coluna do Mate: Formação é importante no teatro

Cena de Azar do Valdemar - Foto: Bob Sousa

Decorrentes de improvisação e ancorados no conceito de práxis, depois de amplos processos de experimentação, desenvolvia-se um processo de costura ou elaboração final de profissional específico. Das diversas turmas formadas na escola, a Companhia d’Os Inventivos, formada em 2005, e dedicada ao teatro de rua, tem em seu repertório (decorrente da adaptação do romance Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro) uma trilogia que compreende: Canteiro; Bandido É Quem Anda em Bando e Azar do Valdemar, espetáculos dirigidos por Edgar Castro.

Outras instituições

Além das instituições apresentadas, ainda como escolas profissionalizantes, podem ser citadas: Braapa Escola de Atores, Conservatório Dramático Emílio Fontana, Escola de Atores Wolf Maya, Incenna Escola de Teatro, Televisão e Cinema, Instituto de Artes e Ciência – mais conhecida como Indac, RecriArte – Escola de Atores. Entretanto, buscou-se neste texto apresentar nomes de grupos e não de indivíduos. Como no processo de pesquisa não se conseguiu encontrar nomes de companhias formadas nas escolas citadas, destacou-se apenas os nomes destas outras instituições de formação.

Ensino superior

Além das escolas específicas de formação de intérpretes, várias instituições de ensino superior, tanto públicas como particulares, têm ministrado cursos de formação em teatro (licenciatura e bacharelado). Dentre elas, podem ser destacadas: Escola de Comunicações e Artes da USP (bacharelado e licenciatura) – sem dúvida esta é uma das mais importantes instituições na formação de artistas; o Instituto de Artes da Unesp (bacharelado e licenciatura) – escola importante na formação de professores, implantou o curso de formação de intérpretes em 2014; Instituto de Artes da Unicamp (bacharelado) – escola criada na década de 1966, mas o curso de teatro inicia-se na década posterior e foi organizado pelo diretor Celso Nunes; comunicação e artes do corpo da PUC-SP (bacharelado) – a universidade forma profissionais para atuar nas áreas de artes cênicas, como dramaturgo ou criador-intérprete; as universidade São Judas Tadeu, Mozarteum e Anhembi Morumbi, em tese, desenvolvem cursos de licenciatura em artes cênicas.

*Alexandre Mate é professor do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e pesquisador de teatro. Ele escreve no blog sempre no começo de cada mês.

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alessandro ubirajara foto bob sousa2 Entrevista de Quinta: “Misturo sabores e alimento artistas”, diz Alessandro Ubirajara, chef do Oficina

Ator, artista plástico e chef: Alessandro Ubirajara cuida da comida do Oficina - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

As peças do Teat(r)o Oficina exigem muito fisicamente de seus artistas. Nos espetáculos-ritual comandados por José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, estar com vigor é fundamental.

No coro do grupo, um ator sempre se destacou, por sua intensidade: Alessandro Ubirajara. Com o tempo, um outro talento do jovem, que também é artista plástico, conquistou o paladar de seus colegas: as comidinhas que ele trazia para o camarim, todas minuciosamente preparadas.

Há um ano, resolveu que teria de ser um artista a comandar o posto de alimentar os artistas do Oficina. E assumiu o posto de chef do grupo.

Gaúcho radicado em São Paulo desde 2007, Ubirajara desenvolve pesquisa potente e pioneira sobre a comida no teatro. De forma antropofágica, diz: “Misturo cheiros e sabores para alimentar artistas”.

Quem quiser provar seu tempero pode ir hoje ao Jantar Orgânico que ele vai promover no restaurante A Leiteria da Canastra, no Butantã, zona oeste de São Paulo [veja serviço ao fim].

Em uma tarde de inverno no Oficina, Ubirajara conversou com o Atores & Bastidores do R7 nesta Entrevista de Quinta sobre este seu momento e também contou sua trajetória. Artimanha do destino, revelou que conheceu Zé Celso na Polícia Federal, onde trabalhava no setor de passaportes.

Leia com toda a calma do mundo.

alessandro ubirajara foto bob sousa3 Entrevista de Quinta: “Misturo sabores e alimento artistas”, diz Alessandro Ubirajara, chef do Oficina

Radicado em São Paulo desde 2007, o gaúcho Alessandro Ubirajara é artista de diversas frentes; atualmente, busca aliar a alimentação saudável ao teatro no Oficina - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado —Por que Ubirajara?
Alessandro Ubirajara — Meu pai também é Ubirajara. Meu avô lia muito José de Alencar [risos].

Miguel Arcanjo Prado — De onde você é? Quem é sua família?
Alessandro Ubirajara — De Pinheiro Machado, no Rio Grande do Sul, bem perto da fronteira com o Uruguai. Lá faz muito frio. Até neva... Sou o mais velho da Maria do Carmo e do Charlei Ubirajara, meus pais. Tenho avó japonesa, avô negro do Uruguai, e também sangue italiano, alemão e índio.

Miguel Arcanjo Prado — Isso é que é antropofagia. E o que você queria ser quando crescesse?
Alessandro Ubirajara — Artista plástico. Tanto que me formei na área lá em Porto Alegre. Morei muito tempo em Sapucaia, que é perto. Meu avô era agente ferroviário. Cheguei a morar em muitas estações de trem. Sempre mudei muito.

Miguel Arcanjo Prado — Como você era quando pequenino?
Alessandro Ubirajara — Eu gostava de desenhar, colorir, pintar. Meu apelido na escola era Pintor. Todo mundo em Sapucaia lembra quando eu pintei o túnel da cidade...

Miguel Arcanjo Prado — E como você chegou em São Paulo?
Alessandro Ubirajara — Foi em 2007. Sempre ouvia falar daqui, do Masp, da Pinacoteca, da USP. Queria muito viver em São Paulo. Mas, cheguei tão ingênuo que fui nas galerias com uma pastinha na mão apresentar meus trabalhos, achando que iria expor de cara.

alessandro ubirajara foto bob sousa51 Entrevista de Quinta: “Misturo sabores e alimento artistas”, diz Alessandro Ubirajara, chef do Oficina

Alessandro Ubirajara mudou-se para São Paulo com uma pasta debaixo do braço - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Levou muitos nãos?
Alessandro Ubirajara — Sim. Só a Casa da Xiclet, na Vila Madalena, aceitou meu trabalho. São Paulo tem uma frieza e um anonimato. Mas também tem uma liberdade absoluta. Quando eu me sinto inseguro, vou a lugares de arte, a museus e bibliotecas. Eu busquei o anticorpo para me possibilitar sobreviver na cidade.

Miguel Arcanjo Prado — E como você sobreviveu?
Alessandro Ubirajara — Foi difícil. Fui morar com uma amiga. Comecei em Guaianases [na zona leste], muito depois fui para Santa Cecília [bairro do centro]. Arrumei um emprego no setor de passaportes da Polícia Federal, na Lapa. Fiquei lá dois anos. E isso foi muito importante, porque um dia atendi a uma pessoa muito especial.

Miguel Arcanjo Prado — Quem?
Alessandro Ubirajara — O Zé Celso. Eu já tinha visto Os Bandidos em Porto Alegre e fiquei impressionado com o Oficina. Vendo aquela peça, parecia que tudo me entendia. Era completo e epifânico. Acho que meu destino era o Oficina. O Zé entrou na PF lendo um livro, como se não estivesse em lugar nenhum. Estava ligado na busca dele, em sua perspectiva artística. Isso mexeu comigo. Fiquei louco.

Miguel Arcanjo Prado — E vocês se aproximaram a partir daí?
Alessandro Ubirajara — Sim. Eu fiz o passaporte dele. E fiquei com aquilo do Oficina na cabeça. Ele me convidou para ver a exposição Ocupação Zé Celso. Quando cheguei lá, falei par ele: “eu quero ser artista”. No dia seguinte, ele me ligou e me chamou para fazer Cacilda !!.

alessandro ubirajara foto bob sousa6 Entrevista de Quinta: “Misturo sabores e alimento artistas”, diz Alessandro Ubirajara, chef do Oficina

No começo no Oficina, Alessandro Ubirajara conciliou trabalho na Polícia Federal, onde conheceu Zé Celso no setor de passaportes, e teatro: sempre um ator ativo e intenso nas peças - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — E você conciliou a Polícia Federal com o Oficina?
Alessandro Ubirajara — No começo, sim. Era muito engraçado. Mas aí eu resolvi sair de lá, porque comecei a viajar com as peças. Fui aprendendo a produzir também, com a Elisete Jeremias, que era a diretora de cena do Oficina. Morei com ela um ano e aprendi muita coisa. Passei a ter de sobreviver de forma antropofágica, trabalhando e aprendendo.

Miguel Arcanjo Prado — E como veio a cozinha na sua vida?
Alessandro Ubirajara — A cozinha entrou nesse meu aprendizado antropofágico. É o lugar onde exploro potencialidades. Em 2012, fizemos um circo no terreno aqui ao lado do Oficina. E criamos um bar, eu, a Danielle Rosa e o Bruno Nogueira. Chamava-se Bambambã Cabaret Bar. Comecei a me interessar em pesquisar a cozinha no teatro. Era uma habilidade que eu já tinha, todo mundo amava minha polenta.

Miguel Arcanjo Prado — E você foi se aprofundando na cozinha?
Alessandro Ubirajara — Sim. Percebi que a cozinha era um ponto central, um ponto de encontro. Fizemos uma festa junina no Oficina que foi linda. Eu criei muitas comidas, assumi a cozinha, vieram vários chefes que me ensinaram muita coisa. Gente como a Bia Magalhães, a Elaine Vargas, o Paulo Franco.

alessandro ubirajara foto bob sousa4 Entrevista de Quinta: “Misturo sabores e alimento artistas”, diz Alessandro Ubirajara, chef do Oficina

Alessandro Ubirajara, o artista da cozinha do Teat(r)o Oficina - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você se divide entre cozinha e palco?
Alessandro Ubirajara — Sim. Até Walmor y Cacilda 64: Robogolpe eu fiz isso. No Cacilda!!!!!, que estreia no fim do mês, eu vou ficar só na cozinha. Vai ser o primeiro que não vou estar em cena. Eu comecei uma pesquisa sobre a comida do ator, pensando na sua saúde e nutrição. Porque para fazer uma peça do oficina tem de estar forte, é comida de atleta, mas não pode ser pesada. Tem de ter comida no camarim. E, para que ela existisse de verdade, alguém precisava assumir isso. Adoro acordar cedo e ir na zona cerealista buscar os ingredientes. E faço de tudo: o Zé é cardíaco e tenho de fazer algo que não prejudique o coração dele. Já a Camila Mota é macrobiótica. Os nordestinos não comem sem carne. Então, alimento os corpos destes artistas diversos.

Miguel Arcanjo Prado — Você é um artista da cozinha?
Alessandro Ubirajara — Sim. A comida é ritual, é uma ligação. Ela dialoga. É um personagem. Sinto que estou ligado por este trabalho. O Zé Celso disse que minha força maior está na cozinha de teatro. A minha pesquisa artista neste momento é esta. Estou misturando sabores e cheiros. Eu já fui primeiro artista plástico, depois ator, agora chef. Estou buscando meu lugar, mas, durante a busca, não paro de criar.

alessandro ubirajara foto bob sousa11 Entrevista de Quinta: “Misturo sabores e alimento artistas”, diz Alessandro Ubirajara, chef do Oficina

Alessandro Ubirajara, no palco do Oficina: ele alimenta artistas com consciência - Foto: Bob Sousa

Jantar Orgânico pelo chef Alessandro Ubirajara
Quando: Quinta (3/7/2014), 18h às 21h
Onde: A Leiteria da Canastra (rua Major Almeida Queiroz, 18, Butantã, São Paulo, tel. 0/xx/11 4563-9525 ou 0/xx/11 9-8120-1471)
Quanto: Couvert (R$ 10); jantar adulto (R$ 35); jantar infantil (R$ 20); taça de vinho (R$ 15); taça de suco de uva ou mexerica (R$ 4); aceita dinheiro e cheque
Classificação etária: livre

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thiago liberdade magiluth foto bob sousa8 O Retrato do Bob: Thiago Liberdade, o fim e o início do Grupo Magiluth
Foto de BOB SOUSA
Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Thiago Liberdade é onde começa e termina o Magiluth, principal grupo teatral surgido em Pernambuco nos últimos tempos. Nascido no Rio, filho de um pernambucano e de uma maranhense, chegou ao Recife com oito anos. Hoje, é pernambucano nato. Começou no teatro por acaso, na montagem que a irmã fazia na escola: Sonho de Uma Noite de Verão, de William Shakespeare. Não parou mais. No vestibular, marcou artes cênicas e entrou para a UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Em 2004, fundou o Magiluth com outros três amigos do curso. No nome, as iniciais de cada um. Logo o grupo cresceu, Thiago foi fazer intercâmbio em Portugal, voltou e resolveu que queria cursar design. Em março de 2010, pediu para sair e se concentrar no novo curso. Justamente neste período, o Magiluth circulou pelo Brasil e ganhou reconhecimento nacional. Viu tudo, de longe. Quando voltaram ao Recife, em 2012, para a apresentação consagradora no Teatro Santa Isabel de Viúva, porém Honesta, de Nelson Rodrigues, Thiago chorou como um menino. No dia seguinte, escreveu uma emocionada carta pedindo para voltar. Foi aceito de cara. Desde então, é responsável pela comunicação e arte gráfica do grupo, uma das melhores do teatro brasileiro contemporâneo. Competente nos bastidores, volta aos palcos aos poucos: já fez algumas substituições em turnês e estará no elenco da nova peça, prevista para estrear em 2015. Não se considera o filho pródigo do Magiluth: “Porque, mesmo de longe, sempre estive presente”, diz. E sabe que sua presença, hoje, é imprescindível: “A gente se mata e renasce todos os dias. Por isso temos unidade. Porque amamos fazer teatro”.

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michelle ferreira foto bob sousa51 Entrevista de Quinta: “Não sei qual é a cara do meu trabalho, mas sei que tem”, diz Michelle Ferreira

Michelle Ferreira: atriz formada na EAD vira dramaturga de sucesso - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

Michelle Ferreira desconstrói a imagem que muita gente ainda tem da figura do dramaturgo. Jovem, bonita, articulada e decidida, já é um dos novos nomes da cena teatral paulistana, sobretudo após a ter escrito e dirigido a elogiada peça Os Adultos Estão na Sala.

Nesta sexta (27), vive momento marcante. Estreia no palco do Teatro Anchieta do Sesc Consolação, um dos mais tradicionais de São Paulo, sua peça Sit Down Drama, com elenco de 12 atores capitaneados pelo diretor Eric Lenate. A obra conta a história de um humorista que se dá mal após fazer uma piada ao vivo na TV.

A estreia é uma espécie de volta para a casa. Já que integrou por oito anos o Círculo de Dramaturgia do CPT (Centro de Pesquisa Teatral), sob comando de Antunes Filho, que fica no mesmo prédio do teatro.

Em uma tarde de sol de inverno no Teat(r)o Oficina, ela se encontrou com o Atores & Bastidores do R7 nesta Entrevista de Quinta.

Falou sobre o enredo de sua peça se parecer com a história real ocorrida com Rafinha Bastos e Wanessa Camargo, contou seu começo com uma peça escolar e falou sobre este momento de destaque.

Leia com toda a calma do mundo.

michelle ferreira foto bob sousa32 Entrevista de Quinta: “Não sei qual é a cara do meu trabalho, mas sei que tem”, diz Michelle Ferreira

Michelle Ferreira é autora da peça Sit Down Drama, que estreia em SP - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — A história da sua peça lembra muito o caso Rafinha Bastos versus Wanessa Camargo. Se alguém falar que você se inspirou nele o que você diz?
Michelle Ferreira — Que é mentira. Porque eu escrevi a peça antes de tudo isso acontecer. Vou até brincar: ele que deveria me pagar os direitos da própria história [risos]. Desenvolvi a história de 2008 para 2009 [o episódio Rafinha x Wanessa, quando ele disse no ar no CQC que comeria Wanessa e seu bebê, gerando sua demissão da Band, ocorreu em 2011]. E a história não é igual ao que aconteceu com ele. É só parecida. Sit Down Drama representa outras coisas também.

Miguel Arcanjo Prado — O que você acha dessa coincidência de escrever um argumento que logo depois aconteceu de verdade?
Michelle Ferreira — A coincidência é engraçada, louca, inusitada. Eu não acredito em nada, sou ateia, mas as coisas estão aí... A gente respira o mesmo ar...

Miguel Arcanjo Prado —Você quis em sua peça criticar o politicamente correto?
Michelle Ferreira — A gente vive um momento de muito politicamente correto. O que aconteceu com o Rafinha Bastos é por causa desse “Vigiar e Punir” quem cria. Tomara que ele vá assistir. Eu respeito a história dele, mas a peça não é ela, é muito mais do que isso. A diferença para o Rafinha Bastos é que meu personagem não se redime. É através dessa derrocada que o personagem se entende.

Miguel Arcanjo Prado — Como você escreve?
Michelle Ferreira — Depende. Quando estava no CPT [Centro de Pesquisa Teatral do Sesc Consolação, comandado por Antunes Filho] e não tinha perspectiva em montar, tomava mais tempo... Mas, você sabe, o melhor amigo do escritor é o deadline.

Miguel Arcanjo Prado — Do jornalista também.
Michelle Ferreira — Pois é. Normalmente, escrevo rápido. Preciso de uma teia mental antes para sentar e escrever. Mas, no momento em que escrevo, não consigo sossegar até acabar. Sou obsessiva. É vertical o negócio. Quando estou escrevendo, nem vivo direito.

Miguel Arcanjo Prado — Como você começou a escrever?
Michelle Ferreira — Desde muito criança. Eu dizia na EAD [Escola de Arte Dramática da USP], logo que eu entrei, com uns 20 anos, que eu já tinha 20 anos de carreira. Porque a minha avó me emprestou bebê para fazer o presépio vivo. Fiz o Menino Jesus, um grande papel [risos].

Miguel Arcanjo Prado — Como foi sua infância?
Michelle Ferreira — Sim. Sou filha única. Na verdade, sou neta única, porque fui criada pelos meus avós. Então, minhas companheiras de brincadeira eram a enciclopédia Barsa e o livro do Alexandre Dumas. Fui alfabetizada muito cedo. Gostava mais do mundo dos adultos do que das crianças.

Miguel Arcanjo Prado — Onde você morava?
Michelle Ferreira — Em Atibaia [região serrana próxima a São Paulo], em uma casa de campo. Fiquei lá dos sete aos 14 anos. Ficava isolada, não tinha vizinho. E meu avô me deu uma Olivetti [máquina de datilografia] quando eu tinha nove anos. Comecei a escrever muito.

Miguel Arcanjo Prado — E na escola?
Michelle Ferreira — Tinha uma professora de português descendente de alemães, chamada Hildegard, e um dia a contrariei.

Miguel Arcanjo Prado —Por quê?
Michelle Ferreira — Ela propôs de montarmos a peça Quem Casa Quer Casar, do Martins Pena. Achei uó. Eu já tinha visto muito coisa, muito cinema, nas fitas do meu avô: vi tudo do Charles Chaplin, O Poderoso Chefão, 2001 — Uma Odisseia no Espaço, Taxi Driver... Então, queria fazer outra coisa.

Miguel Arcanjo Prado —E você brigou com a professora?
Michelle Ferreira — Eu falei que não gostava da peça. Aí ela falou que já que eu achava a peça ruim, por que então não escrevia uma. Passei o fim de semana escrevendo e, na segunda, entreguei a ela minha primeira peça.

Miguel Arcanjo Prado — E ela montou?
Michelle Ferreira — Sim! Se chamava A Ascensão e Queda de um Político Corrupto. Estávamos na Era Collor, então criei um personagem que nascia no morro e terminava no Planalto. Mas tinha um fim moralista que hoje eu mudaria. O personagem termina a peça no inferno [risos].

michelle ferreira foto bob sousa41 Entrevista de Quinta: “Não sei qual é a cara do meu trabalho, mas sei que tem”, diz Michelle Ferreira

Michelle Ferreira escreveu sua primeira peça na infância - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você já sabia que faria teatro profissionalmente?
Michelle Ferreira — Sabia. Sempre soube. Outra coisa não ia dar... Meus avós sempre me deram muita força. Quando fiquei adolescente a gente voltou para São Paulo, porque queria me preparar para o vestibular, fazer um colegial mais forte. Eles me deram toda força. Fui muito estimulada. Mas antes do vestibular fiz intercâmbio.

Miguel Arcanjo Prado — Onde?
Michelle Ferreira — Connecticut, nos Estados Unidos. Fui crescer, me virar.

Miguel Arcanjo Prado — E o que fez na volta?
Michelle Ferreira — Queria fazer cinema por um tempo. Mas aí prestei vestibular para ciências sociais na FFLCH [Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP]. No segundo ano da faculdade, passei na EAD. Cheguei a fazer as duas juntas por dois anos, mas depois fiquei só na EAD.

Miguel Arcanjo Prado — Como era na EAD?
Michelle Ferreira — É um curso muito focado para atuação. Mas eu continuei a escrever por conta própria.

Miguel Arcanjo Prado — E como entrou para o Círculo de Dramaturgia do CPT?
Michelle Ferreira — Recebi um recorte de uma notinha no jornal, falando que estavam com processo seletivo aberto. Mandei dois textos e passei. Fiquei oito anos, de 2003 a 2011.

Miguel Arcanjo Prado — Como foi?
Michelle Ferreira — Era tudo focado na produção independente de casa um. A gente levava porrada do Antunes, mas sempre dentro do nosso universo. Foi no CPT que me tornei uma dramaturga de fato. Ele acabou comigo e me mandou ir em frente. O Antunes diz que é mais fácil ser campeão de Fórmula 1 do que um bom dramaturgo. A primeira peça que escrevi lá é Urubu Comum, que ainda não foi montada.

Miguel Arcanjo Prado —E a carreira foi deslanchando?
Michelle Ferreira — Pois é. Fui conhecendo muita gente. A primeira peça montada é metade minha e metade do Germano Mello, que é Como Ser uma Pessoa Pior, com a Lulu Pavarin. A segunda também não é só minha, Estudo Hamlet.com, que fiz para o Cacá Carvalho. A primeira só minha montada profissionalmente foi Os Adultos Estão na Sala, com a Má Cia. Provoca, que é o meu grupo.

Miguel Arcanjo Prado —Você descontrói a imagem que muita gente tem do dramaturgo.
Michelle Ferreira — Todo mundo pensa no velho barbudo no gabinete, né? [risos]

Miguel Arcanjo Prado —E Sit Down Drama?
Michelle Ferreira — O Ricardo Grasson me pediu uma peça para poucos atores. Falei: não tenho condição agora de fazer uma nova. E ofereci essa. Ele leu, gostou, aí eu joguei o nome do Eric Lenate para dirigir, porque sempre quis trabalhar com ele. Só que ele me pediu uma peça com poucos atores e são 12 pessoas em cena! [risos]

Miguel Arcanjo Prado — Como você lida com essa repercussão do seu trabalho na classe artística e também junto aos críticos?
Michelle Ferreira — Eu tento achar tudo normal, embora não seja [risos]. Acho tudo louco. Isso de estrear sexta agora na casa do mestre. Chego lá no Teatro Anchieta do Sesc Consolação com o maior respeito. Não sei como vai ser. Vamos ver o que as pessoas vão achar. Podemos sair aplaudidos ou dentro de um camburão. O que é bom também, porque faz parte do folclore.

Miguel Arcanjo Prado — Tem novos projetos?
Michelle Ferreira — Vou estrear no segundo semestre Reality Final, que é uma peça que faz dupla com Sit Down Drama. Vai ser com meu grupo, a Má Cia. Provoca, que tem eu, a Flávia Strongoli, a Michelle Boeschie, o Ramiro Silveira, a Maura Hayas e a Solange Akerman. Também tenho uma produtora audiovisual, a No Cubo Filmes. Tenho feito pilotos para TV... Em julho, estreia em Porto Alegre a peça A Vida Dele. Neste ano, também vai estrear Animais na Pista, outro texto meu.

Miguel Arcanjo Prado — Você quer fazer, além de teatro, cinema e TV?
Michelle Ferreira — Sim. Eu gosto do sim para tudo.

Miguel Arcanjo Prado —Qual é a cara do seu trabalho?
Michelle Ferreira — [pensativa] Qualquer outra pessoa responderia essa sua pergunta muito melhor do que eu... Voltando à sua pergunta, não sei que cara que é, mas sei que tem.

michelle ferreira foto bob sousa21 Entrevista de Quinta: “Não sei qual é a cara do meu trabalho, mas sei que tem”, diz Michelle Ferreira

"Não sei qual é a cara do meu trabalho, mas sei que tem", diz Michelle Ferreira - Foto: Bob Sousa

Sit Down Drama
Quando: Sexta e sábado, 21h, domingo, 18h. 80 min. Até 10/8/2014
Onde: Sesc Consolação - Teatro Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo, tel. 0/xx/11 3234-3000)
Quanto: R$ 6 a R$ 30
Classificação etária: 16 anos

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dan stulbach foto bob sousa1 O Retrato do Bob: Dan Stulbach, o homemFoto de BOB SOUSA
Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O ator paulistano Dan Stulbach no momento é ninguém menos do que Deus nos palcos. Ele vive o Todo-Poderoso na peça Meu Deus!, em cartaz no Teatro Faap até 27 de julho. Na obra, contracena com a grande atriz Irene Ravache. Apesar do papel nas alturas, Dan gosta da simplicidade. Afinal, começou nos bastidores do teatro, fazendo funções técnicas e conquistou, degrau por degrau, o posto de destaque que hoje ocupa na dramaturgia brasileira, seja nos palcos, cinema, televisão ou como diretor do Teatro Eva Herz da Livraria Cultura. É formado em atuação na EAD (Escola de Arte Dramática) da USP e também concluiu o curso de comunicação social da ESPM. Não à toa, tem se saído muito bem como comunicador, seja em seu programa de rádio ou cobrindo a Fátima Bernardes nas manhãs da Globo. Mas, a praia onde se sente em casa, é mesmo o teatro. Tanto que foi retratado pelo nosso Bob Sousa no CPT (Centro de Pesquisa Teatral), grande templo teatral paulistano do mestre Antunes Filho. Em foco, mais do que o artista, o grande homem.

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