Posts com a tag "crítica"

geladeira fotoraulzito 03 Crítica: A Geladeira é grito corajoso no mar de desesperança

Fernando Fecchio em cena da peça A Geladeira, de Copi - Foto: Raul Zito

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Copi é um dos grandes nomes da escrita argentina do fim do século 20. Raúl Damonte Botana, seu nome verdadeiro, nasceu em meio aristocrático — tanto a família paterna quanto a materna eram donas de importantes diários de Buenos Aires —, mas foi por meio do desbunde, com sua prosa inteligente e ferina, que se fez conhecido.

Com uma infância rodeada do melhor que a cultura mundial poderia lhe oferecer, logo, Copi decidiu cruzar o Rio da Plata e também o oceano Atlântico e se radicar em Paris, onde se juntou a nomes potentes como o uruguaio Alejandro Jodorowski e o espanhol Fernando Arrabal, revolucionando a cena artística underground parisiense.

Além de tudo isso, Copi era gay. E fazia questão de militar em prol de direitos civis para esta parcela da população. E, como tantos outros grandes artistas jovens naquele começo dos anos 1980, como o cantor brasileiro Cazuza e o desenhista norte-americano Keith Haring, ele contraiu o vírus HIV, para o qual perdeu a luta pela vida em 1987.

Mas a obra de Copi perdura e continua a dialogar com as gerações contemporâneas. Inclusive a brasileira. Prova disso é a montagem A Geladeira, monólogo com o ator Fernando Fecchio, sob direção de Nelson Baskerville, em São Paulo (o texto também teve outra montagem neste ano, no Rio, pelo ator Márcio Vito).

ageladeira fotoamandavieira 15 Crítica: A Geladeira é grito corajoso no mar de desesperança

Fernando Fecchio em cena de A Geladeira - Foto: Amanda Vieira

A obra mostra um homem, L., que, diante do seu aniversário de 50 anos, se depara com uma geladeira, que lhe faz aflorar personagens de seu passado, que vão desde a mãe até sua psicanalista.

Sobram sentidos na peça de Copi, que faz uma espécie de releitura atrevida de si próprio na obra, desconstruindo padrões de identidade e de sexualidade preestabelecidos.

Apesar de repetir fórmulas já utilizadas em Luis Antonio - Gabriela, o diretor Nelson Baskerville leva essa ebulição de sentidos para o palco, no cenário de pitadas surrealistas criado com Amanda Vieira.

Fecchio faz entrega verdadeira ao personagem, abarcando seus medos e excentricidades, além de se aproximar sem temor do bizarro.

A montagem tenta forçar uma aproximação da realidade de Copi, um argentino, gay e rico exilado em Paris, com o Brasil — o samba carnavalesco talvez seja o máximo do exagero buscado. Mas, a obra consegue abarcar até isso.

Até mesmo porque faz todo o sentido, nesta feroz e violenta cidade de São Paulo, olhar para Copi sob uma perspectiva da realidade contemporânea do Brasil, país mergulhado em uma assustadora onda conservadora, que muitas vezes grita de forma mais feroz do que nos tempos sombrios da ditadura.

Por isso, a inquietude presente em A Geladeira (e sua desesperança também) mexe tanto com a gente. Fernando Fecchio merece os parabéns pela coragem. E por nos fazer pensar, que é o que todos nós precisamos para não sucumbir. E resistir.

A Geladeira
Avaliação: Bom
Quando: Quarta, 21h. 60 min. De 8/7/2015 a 12/8/2015
Onde: Espaço dos Parlapatões (praça Roosevelt, 158, centro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-4449)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: A Geladeira é grito corajoso no mar de desesperança

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bonde4 joaocaldas Crítica: Maria Luísa Mendonça carrega Bonde nas costas

Só dá ela: Maria Luísa Mendonça em cena da peça Um Bonde Chamado Desejo - Foto: João Caldas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Um Bonde Chamado Desejo é a mais aclamada peça de Tennessee Williams (1911-1983); considerada um dos melhores textos do século 20. Desde que foi escrita, em 1947, tornou-se obsessão de diretores e artistas, tamanha riqueza de embates e leituras que apresenta.

A peça mostra a chegada de Blanche DuBois à casa da irmã, Stella, casada com um homem rude, Stanley, com quem Blanche vive uma relação de tensão e desejo.

A cristalização da história na mente do mundo veio em 1951, com o sucesso do filme homônimo dirigido por Elia Kazan, que já havia levado a história aos palcos da Broadway com sucesso retumbante.

bonde filme Crítica: Maria Luísa Mendonça carrega Bonde nas costas

Clássico de Hollywood: Vivien Leigh e Marlon Brando no filme de 1951 - Foto: Divulgação

O longa, um dos clássicos da era de ouro de Hollywood, tem potente elenco encabeçado por Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter e Karl Malden. Do quarteto, apenas Brando não levou o Oscar para a casa — o que foi uma injustiça.

Recriar uma peça cujas atuações destes atores fazem parte do imaginário coletivo é um ato corajoso. Mas também é um a possibilidade de apresentar um texto teatral de excelência artística às novas gerações — a peça não era montada no Brasil havia 13 anos.

Nova encenação

E a atual encenação, no palco do Tucarena, vem para celebrar duas efemérides: os 50 anos do próprio espaço cênico e os 30 anos da Morente Forte, produtora que encabeça o espetáculo e é uma das grandes grifes do teatro paulistano.

Jovem diretor que vem se sobressaindo na cena paulistana, sobretudo após sua montagem para Gotas D’Água sobre Pedras Escaldantes, de Fassbinder, Rafael Gomes foi o escolhido para comandar a nova encenação.

O diretor imprime seu olhar estético à história, a começar da trilha sonora moderninha que escolhe, tal qual já havia feito em Gotas, mas que, nesta montagem, soa mais como ruído do que conexão.

O enfrentamento entre a sonhadora Blanche e a vida de casada de sua irmã possibilita infinitas leituras, até mesmo em relação ao Brasil contemporâneo, com o embate conservador de qualquer visão progressista sobre a vida.

Blanche pode representar a liberdade, enquanto Stanley — e Stella, sob seu cabresto — podem ser alegorias do aprisionamento e da mediocridade, mas também são o novo que atropela o velho de forma impiedosa e humilhante.

Gomes, em sua encenação, parte de um olhar contemporâneo, com pitadas do pós-moderno, para apresentar sua releitura da peça escrita quase sete décadas atrás.

Isso está claro quando se alia ao cenógrafo André Cortez, que apresenta um cenário não-realista, que cerca e aprisiona os personagens dentro daquela casa, por mais que estes pulem para fora o tempo todo. Há alguma tentativa de jogar com as peças, mais presente no começo da montagem, mas que não se desenvolve por completo como significado.

Outro olhar contemporâneo é o figurino de Fause Haten, estilista de sucesso reconhecido no mercado da moda. Contudo, se as roupas de Blanche potencializam a personagem, as vestimentas de Stella e Stanley os contradiz, por seus cortes demasiadamente elegantes para o contexto de ambos na obra, fazendo uma quebra e possibilitando até mesmo um signo que não condiz com os personagens criados por Williams.

 Crítica: Maria Luísa Mendonça carrega Bonde nas costas

Eduardo Moscovis e Maria Luísa Mendonça em cena de Um Bonde Chamado Desejo - Foto: João Caldas

Atriz domina montagem

No elenco, é Maria Luísa Mendonça quem carrega o bonde. Como é de se esperar de uma atriz que recebe uma das melhores personagens escritas pela dramaturgia mundial, ela assume todos os riscos na construção de sua Blanche — Eva Wilma também já viveu com sucesso a personagem em palcos nacionais na década em 1974, acompanhada de Nuno Leal Maia como Stanley. E acerta.

Maria Luisa é quem conduz a obra e, em muitos momentos, parece sozinha no palco, a anos-luz do que os colegas de elenco conseguem lhe oferecer.

Do outro lado, o responsável pelo embate com sua personagem, Eduardo Moscovis, na pele de Stanley, não propõe nada que seja substancial ou crível para o personagem imortalizado pela força masculina que Marlon Brandon lhe imprimiu de forma definitiva. Moscovis faz um Stanley deixado, sem corpo, quase sem vida ou presença. Falta verdade e intensidade cênicas ao ator, que parece levar para o palco o vício da TV de se atuar apenas com o rosto, e nem isso consegue. Falha até no emblemático grito "Stella".

O restante do elenco, que muitas vezes aparece perdido e evidenciado em cena mesmo quando não está em ação, também perde a chance de se sobressair nos momentos em que tem a peça a seu favor, coisa que um bom ator deve fazer sempre.

Um Bonde Chamado Desejo é uma produção que tem o mérito de tentar inovar e trazer frescor a um clássico, mas que acaba servindo mais como  como veículo para que uma atriz confirme talento já esperado, não possibilitando que esta encontre diálogo cênico à altura. Mesmo assim, Maria Luísa Mendonça segura o Bonde e o carrega nas costas.

Um Bonde Chamado Desejo
Avaliação: Bom
Quando: Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 18h. 110 min. Até 2/8/2015
Onde: Tucarena (r. Monte Alegre, 1.024, esq. com r. Bartira, Perdizes, São Paulo, tel. 0/xx/11 3670-8455)
Quanto: R$ 50 e R$ 70
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Maria Luísa Mendonça carrega Bonde nas costas

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horario nobre Crítica: Horário Nobre empurra dois homens para o abismo

Antonio Destro e Paulinho Faria em cena na peça Horário Nobre, dirigida por Elisa Fingermann- Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A dupla de artistas formada por Elisa Fingermann e Paulinho Faria tem como costume trazer propostas interessantes para os palcos paulistas com sua Cia. Contraponto. Ambos detêm um olhar sensível e inteligente para o mundo ao seu entorno.

A mais recente proposição é a intimista montagem Horário Nobre, em cartaz aos domingos, às 19h, no Estação Satyros, na praça Roosevelt [veja serviço completo ao fim].

Mais uma vez, Paulinho está em cena, desta vez acompanhado de Antonio Destro, sob direção de Elisa.

Em um teatro alternativo paulistano repleto de pós-modernidade e performatividade, chama a atenção a proposta realista da montagem, fazendo com que a mesma se destaque no contexto que a rodeia.

Sobretudo, por investir forte na atuação dos dois artistas no palco. Em vez de truques cênicos, há dedicado trabalho de atores na construção de seus personagens.

É interessante a proximidade entre público e atores, todos debaixo da lona do barraco onde se encontram os personagens, à margem da sociedade legitimada.

Os dois homens vivem juntos. O elo entre os dois não chega a ser descortinado por completo pela dramaturgia, mas, há um tensão no ar. Em alguns momentos, a ligação poderia ser até mesmo passar pela sexualidade —vide as paredes repletas de fotografias de mulheres nuas (tentativa de se provar uma masculinidade em questionamento?).

Paulinho Faria também assina o texto, que mostra os dois homens, numa noite, em seu paupérrimo barraco, quando um deles, o mais jovem (Paulinho), traz uma televisão quebrada.

O ímpeto do rapaz em consertá-la vai mexer com a ordem estabelecida até então.

O outro homem (Antonio) é mais resignado com a vida que tem: sustenta a casa, alimenta o companheiro e parece já ter deixado de sonhar com outras vidas possíveis: vive do mundo que tem, das migalhas de afeto violento que a relação complicada com seu companheiro lhe dá, só precisa dormir para começar um novo dia.

Os dois atores apresentam resultado crível de atuação — coisa, infelizmente, ainda rara em boa parte da cena paulistana, repleta de exageros e de um registro próximo ao escolar, coisa que não se passa nesta obra.

Ambos têm uma prosódia semelhante à de moradores de rua que muitos de nós evitamos cruzar pelas ruas da cidade. A proposta é tamanha que muitas frases soam em português ininteligível. Contudo, como em uma boa obra de teatro, o que as palavras escondem, os corpos revelam.

A direção aposta no teatro de estado proposto pela dramaturgia, investindo em silêncios que trazem tensão para os momentos de fala. Talvez trouxesse mais potência à obra, sobretudo no contexto sociopolítico do Brasil atual, apostar em uma virada dramatúrgica mais forte, descortinando a relação que une aqueles dois — há um ódio mútuo contido presente; qual sua origem?.

De todo modo, a encenação apresenta a banalidade com que se enxerga a vida do outro na obsessão de um consigo mesmo, com seu próprio desejo. Essa violência, que pode ser materializada ou não, está presente em boa parte das relações contemporâneas, independentemente de classe social. Muitos por aí agem como predadores que tiram do outro o máximo proveito e, diante de qualquer resistência, preferem destroçá-lo ao tentar a via do diálogo.

A peça da Cia. Contraponto mostra justamente isso, colocando a violência ali, tão perto de nós. Vale a pena passar por cima do outro para ter o que se quer? E a obra ainda dialoga com outro clássico do nosso teatro underground: Dois Perdidos Numa Noite Suja, escrita por Plínio Marcos em 1966.

Quase 50 anos depois, as coisas permanecem as mesmas (ou pioraram?), para desespero de todos nós.

Horário Nobre
Avaliação:
Bom
Quando: domingo, 19h. 60 min. Até 12/7/2015
Onde: Estação Satyros (praça Roosevelt, 132, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 9-8727-7338)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos
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 Crítica: Gattu espeta políticos com riso mordaz em Reino 2

Eloisa Vitz, Daniel Gonzales e Miriam Jardim em Reino 2: deboche da política atual - Foto: Renato Rebizzi

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Em Reino, a dramaturga e diretora Eloisa Vitz fez um acerto com seu Grupo Gattu ao propor um teatro no qual fábula infantil se mistura de forma corrosiva ao teatro político.

Diante do bem sucedido espetáculo, propôs uma continuação: Reino 2, em cartaz no Teatro do Sol, em Santana, na zona norte paulistana.

Acostumado a um teatro infantilizado (mesmo em muitas montagens adultas), o público abraça a obra, vendo ou não suas nuances políticas ferinas e debochadas ao mesmo tempo.

Um acerto é trocar a plateia do Teatro do Sol de lugar. O povo foi para o lado inferior, enquanto a encenação ocupa a arquibancada, em um plano superior, demonstrando o poder que paira sobre a população.

A continuação mantém a intenção da primeira montagem, mas não a supera.

É clara a associação da rainha mandona e vaidosa vivida por Eloisa com a figura da Presidente da República, sempre rodeada por infinitos ministros que pouco fazem de concreto (na peça ou na vida real?). Também estão presentes as concessões cotidianas pelo poder, enquanto o povo, de memória frágil, a tudo esquece.

Mais uma vez, o texto acerta ao colocar o Ministro da Cultura como uma espécie de bobo da corte, já que o assunto de sua pasta não é tão interessante assim para os poderosos. Resta a ele ser uma espécie de verniz ambulante.

O teatro também entra na dança, em uma cena de deboche do êxito dos musicais da Broadway, com uma divertida versão mambembe de O Rei Leão.

Eloisa é quem mais se destaca no elenco (no qual faz falta Marília Goes, um dos destaques de Reino, com sua presença inquestionável). Mas, talvez, aí também more o ponto frágil da montagem. Enquanto Eloisa está num registro crível e ao mesmo tempo profundamente irônico, boa parte do elenco está mais próxima do registro de um teatro infantil.

E, apesar de a obra utilizar-se dos elementos do teatro infantil para contar sua fábula política, trata-se de uma montagem adulta. E é esta dualidade que a torna potente. Eloisa, como diretora, precisa conseguir maior unidade nas atuações de seu elenco. Assim, a obra crescerá.

Um retoque final na dramaturgia de Reino 2 cairia bem, para que a obra ganhe um norte. Assumir claramente um discurso político, mesmo que seja contra todos os poderosos independentemente de partidos, daria mais peso ao espetáculo.

Em Reino, isso ficava mais claro, quando debochava também do governo da província por ter deixado o povo sem água ao mesmo tempo em que atacava a poderosa Rainha.

De todo modo, Reino 2 é a continuidade do Grupo Gattu em espetar o poder com riso mordaz. Faz muito bem. Este é o papel do artista inteligente e atuante. Estar ao lado do povo e não do poder. Isso não pode ser esquecido jamais.

Reino 2
Avaliação: Bom
Quando:
Sábado, 21h, domingo, 20h. 60 min. Em cartaz por tempo indeterminado.
Onde: Teatro do Sol (r. Damiana da Cunha, 413, Santana, São Paulo, tel. 0/xx/11 3791-2023)
Quanto: Grátis
Classificação etária: Livre
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Gattu espeta políticos com riso mordaz em Reino 2

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IMG 9399 682x1024 Crítica: Bruno Motta supera texto de 1 Milhão de Anos em 1 Hora

O humorista Bruno Motta se apresenta no Rio com seu solo 1 Milhão de Anos em 1 Hora - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Bruno Motta é um dos humoristas mais inteligentes da nova geração. Tem pegada ácida, mas sem partir para a ofensa barata, como é comum no trabalho de muitos de seus colegas.

Outra coisa que o diferencia Bruno de nomes como Rafinha Bastos e Danilo Gentili é que seu humor ataca os opressores e não os oprimidos, como o boa receita de humor manda fazer. Afinal, bater em quem já apanha da vida é covardia.

Bruno coloca sua capacidade de segurar uma plateia em ação na montagem 1 Milhão de Anos em 1 Hora, que chega ao Teatro Leblon, no Rio, no próximo dia 9 de maio, após temporada de êxito no Teatro Nair Bello, em São Paulo.

A comédia do norte-americano Colin Quinn teve direção original de ninguém menos do que Jerry Seinfeld em Nova York. A versão brasileira é assinada por Marcelo Adnet, com direção de Cláudio Torres Gonzaga.

A premissa do espetáculo é simples: contar toda a evolução humana em uma hora, como diz o título. E, nisto, Bruno Motta é preciso e faz até questão de utilizar um relógio para garantir que o tempo seja cumprido — ao contrário de Claudio Botelho, que trapaceou a plateia fazendo durar bem mais do que duas horas o espetáculo Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos, o que fez com que muitos espectadores deixassem a sala, sentindo-se desrespeitados pelo título enganoso.

Bruno tem a elegância de virar o relógio para o fundo do palco, enquanto a peça acontece, para que o público não se distraia com a contagem, o que faz muito bem.

O texto é divertido em muitos momentos, traça alguns perfis impagáveis de ícones históricos, mas, em certos momentos, carrega certa dose de preconceito: sobretudo com muçulmanos, latino-americanos e africanos.

Isto reflete que a obra não deixa de ser uma visão da história a partir do ponto de vista de um homem branco e norte-americano. A plateia precisa estar atenta a isso, para não tomar o dito no palco como “verdade história absoluta”. Sabemos que, claramente, é uma peça de ficção, mas em se tratando de público nacional, é sempre bom reforçar.

Os melhores momentos da montagem são quando Bruno Motta foge do texto original e é ele mesmo, improvisando ou mesmo fazendo textos que já integram seu repertório — quem acompanha o trabalho do artista certamente consegue reconhecer estes momentos. E a plateia reconhece isso, ao gargalhar com mais veemência nos momentos de autenticidade.

Isso nos faz chegar à seguinte conclusão: Bruno Motta não precisa de texto nova-iorquino para montar um espetáculo solo de humor. Ele mesmo é capaz de criar textos bem mais interessantes e de diálogos mais profundos com a plateia brasileira, a qual conhece como ninguém. O resultado quando este encontro acontece é riso farto.

1 Milhão de Anos em 1 Hora
Avaliação: Bom
Quando: Quinta, sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h. De 9/5/2015 a 31/5/2015
Onde: Teatro do Leblon (r. Conde Bernadotte, 26, Leblon, Rio de Janeiro)
Quanto: R$ 50
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Bruno Motta supera texto de 1 Milhão de Anos em 1 Hora

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Foto Joao Caldas Fº 103037 Crítica: Quando Eu Era Bonita é grito de liberdade feminina

A mulher pode envelhecer: Lulu Pavarin e Ester Laccava em Quando Eu Era Bonita - Foto: João Caldas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Em pleno século 21, o discurso machista de que uma mulher só tem vida útil enquanto é jovem (e bonita) ainda paira de forma assustadora em parte da sociedade. E é reverberado por aí por muita gente que se diz inteligente. O que é um verdadeiro horror.

Por isso, ver uma peça como Quando Eu Era Bonita, um verdadeiro grito de liberdade feminina contra as amarras preconceituosas que sufocam muitas mulheres, é um alento. A obra é escrita e dirigida por Elzemann Neves, que coloca no palco duas mulheres de meia idade em reflexão constante sobre o que sobrou delas e para elas.

Sabiamente, a encenação aposta no que tem de melhor: suas duas boas atrizes no palco, Lulu Pavarin e Ester Laccava. O centro da montagem é o diálogo constante entre ambas, num embate no qual rememoram seus dias de glória, acrescido de tédio profundo com os dias atuais, quando já não são tão mais bonitas assim e o mundo está bem mais careta e complicado.

Ambas fazem opções distintas de entrega às personagens, cada qual com seu brilho. Enquanto Ester demonstra técnica precisa, Lulu Pavarin chama o público para si com tempo cômico e entrega mais performativa à sua personagem. Apesar das nuances distintas, é evidente que há mais cumplicidade do que competição no palco.

Quando Eu Era Bonita é uma peça bem escrita e com duas potentes atrizes para dar ainda mais sentido ainda a cada uma das palavras ditas. De forma envolvente e até mesmo cúmplice, o espetáculo coloca a plateia para refletir que essa história de tempo útil para uma mulher é uma grande bobagem que só interessa a homens e mulheres preconceituosos. Gente interessante pensa diferente. Ainda bem.

Quando Eu Era Bonita
Avaliação: Muito bom
Quando: Sexta, 21h. 55 min. Até 1º/5/2015
Onde: Espaço dos Parlapatões (praça Roosevelt, 158, metrô República, São Paulo, tel.0/xx/11 3258-4449)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Quando Eu Era Bonita é grito de liberdade feminina

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Potestad. Fotos Joao Caldas 3 1024x763 Crítica: Potestad cumpre papel de lembrar horror da ditadura

Os atores Laura Brauer e Celso Frateschi em cena de Potestad - Foto: João Caldas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

É mais que bem-vindo neste momento político em que o Brasil vê parte de sua sociedade conservadora sair às ruas para pedir a volta dos militares um espetáculo que descortine a maldade de um regime de exceção.

No caso, a ditadura sob enfoque é a que vigorou na Argentina entre 1976 e 1983, não diferente em sua crueldade da praticada no Brasil entre 1964 e 1985.

O período sombrio é pano de fundo da peça Potestad, escrita pelo argentino Eduardo Pavlovsky em 1985 para contar um dos mais horrendos crimes cometidos pelos militares naquele país e que até hoje é notícia em todo o mundo: o roubo de bebês de presos políticos nos porões de tortura, adotados por famílias de raptadores.

Celso Frateschi, aguerrido ator da cena teatral e política, aceitou a escolha do texto, feita pelo diretor Pedro Mantovani, como forma de celebrar seus 45 anos de carreira, iniciada no Teatro de Arena em tempos de atores e diretores presos pelo Estado, inclusive ele.

A direção opta por uma encenação crua, na qual na primeira parte do espetáculo o personagem de Frateschi se abre diante de um público iluminado com uma luz de serviço, tal qual um holofote de tortura — o signo do recurso é compreensível, mas em certos momentos prejudica a visão do ator no centro da arena.

Ao lado de um berço coberto por um lençol branco, o senhor revela, aos poucos, que a filha tão amada por ele e sua mulher, na verdade foi retirada de dois torturados mortos, a quem ele, médico, constatou o óbito a serviço dos militares.

Diante da impossibilidade de ter filhos, o médico raptou o bebê. O personagem primeiro se apresenta como vítima de alguém a quem o filho foi retirado, quando, na realidade, é ele o algoz de outra família: de fato, a filha retirada dele foi devolvida à sua família de fato, revelando o crime cometido e do qual não demonstra ter arrependimento.

A encenação prioriza Frateschi no palco. À sua colega de cena, a atriz argentina Laura Brauer, resta ser o contraponto silencioso (mas, potente) para a verborragia excessiva do personagem vivido pelo ator. A atriz poderia ter sido melhor aproveitada pela encenação.

Frateschi tem talento reconhecido, mas, em alguns momentos, a direção o deixa escorregar no grito de fácil impacto, quando uma construção mais intimista teria elevado a potência de seu personagem e seria mais condizente com o tipo portenho por ele interpretado.

De todo modo, Potestad cumpre o papel de reavivar a barbárie dos regimes militares que assolaram a América Latina de três décadas atrás.

É importante não parar de falar sobre o que aconteceu neste lado do mundo, onde homens donos do poder converteram-se na face cruel de um Estado assassino. É importante lembrar. Para que estes tempos não voltem jamais.

Potestad
Avaliação: Bom
Quando: Quinta, sexta e sábado, 21h; domingo e feriado, 19h. 60 min. Até 17/5/2015
Onde: Espaço Cênico do Sesc Pompeia (r. Clélia, 93, Pompeia, São Paulo, tel. 0/xx/11 3871-7700)
Quanto: R$ 25 (inteira); R$ 12,50 (meia) e R$ 7,50 (comerciários e dependentes)
Classificação etária: 16 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Potestad cumpre papel de lembrar horror da ditadura

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 Crítica: Maria Alice Vergueiro morre em cena para viver mais em Why the Horse?

Maria Alice Vergueiro recebe beijo do espectador Rodrigo Eloi após estreia de Why the Horse?, na última sexta (10), no palco do Teatro do Sesc Santana, em São Paulo - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

Há uma certa curiosidade mórbida por parte do público diante do espetáculo Why the Horse? [Por que o Cavalo?]. Afinal, antes da estreia, a diretora e protagonista, Maria Alice Vergueiro, afirmou à imprensa que encenaria a própria morte e velório neste espetáculo.

A notícia impactante e a coragem performática da artista em anunciá-la mexeu fundo com o público e, sobretudo, com a classe teatral, da qual Vergueiro, com mais de 50 anos de carreira, é uma das figuras mais queridas e respeitadas.

Com 80 anos completados em 19 de janeiro último, a atriz sofre de Parkinson em estágio avançado. Mas, como diz a acertada música de Gilberto Gil que soa no espetáculo sob direção musical de Otávio Ortega, Maria Alice Vergueiro não tem medo da morte.

Muito pelo contrário, transforma a proximidade do fim em cena viva e pulsante ao lado de seu Grupo Pândega.

 Crítica: Maria Alice Vergueiro morre em cena para viver mais em Why the Horse?

Em primeiro plano, Maria Alice Vergueiro, rodeada pelos atores Luciano Chirolli, Carolina Splendore e Robson Catalunha, na estreia de Why the Horse? - Foto: Bob Sousa

Luciano Chirolli, seu parceiro criativo na vida real, também é o principal companheiro de Maria Alice na peça. Além de ampará-la, a confronta também, nas melhores cenas da montagem feita em formato happening nas bases de Jodorowsky e com parte do público em cima do palco do Teatro do Sesc Santana.

O cenário sóbrio criado por J. C. Serroni traz epitáfios com nomes de mortos famosos do teatro brasileiro e universal, indo desde Paulo Autran a Samuel Beckett, num prenúncio futuro do nome de Maria Alice Vergueiro entre eles.

Guilherme Bonfanti faz desenho de luz sutil e condizente com a proposta estética da obra, criando pequenas atmosferas sensoriais onde a presença dos atores por si só desenvolve a dramaturgia de Fábio Furtado. O fim inexorável também está presente nos figurinos carcomidos criados por Telumi Hellen.

Choro cala profundo

O espetáculo traz um tom de deboche com a própria morbidez que propõe. Mesmo assim, consegue inúmeros momentos de sensibilidade à flor da pele, como quando Chirolli chora copiosamente diante de Vergueiro morta, produzindo um som ininteligível. É uma cena que cala profundo em quem ama o teatro.

Carolina Splendore, Alexandre Magno e Robson Catalunha completam o elenco, servindo de representação para as novas gerações com as quais Vergueiro não se cansa de dialogar, de forma generosa. Prova disso são as selfies que tira com o público ao fim da peça; Vergueiro quer mesmo estar presente por todos os lados. Splendore representa ainda a própria explosão de juventude, contestação e força de Vergueiro de outrora, em uma linda imagem metafórica quando desnuda seus seios.

Em Why the Horse?, Maria Alice Vergueiro mostra ser ainda uma garota atrevida, que não se cansa de fazer suas travessuras artísticas, surpreendendo a todos nós. Desafiadora e performática, ensaia seu próprio fim diante de seu público, que não sabe se rir ou chorar. Mas uma coisa é certa. Ela morre em cena para, assim, viver mais.

Why the Horse?
Avaliação: Ótimo
Quando: Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h. 60 min. Até 10/5/2015
Onde: Teatro do Sesc Santana (av. Luiz Dumont Villares, 579, metrô Jardim São Paulo, São Paulo, tel. 0/xx/11 2971-8700)
Quanto: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia) e R$ 9 (comerciário e dependentes)
Classificação etária: 16 anos
Avaliacao Otimo R7 Teatro PQ Crítica: Maria Alice Vergueiro morre em cena para viver mais em Why the Horse?

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anta Artistas do Fringe superam famosos no Festival de Teatro de Curitiba 2015

Adriano Petermann em A Anta de Copacabana, apresentada no Fringe: ator é o grande destaque masculino no Festival de Teatro de Curitiba 2015 - Foto: Virginia Benevenuto/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*

Artistas desconhecidos do grande público mostraram muito mais fôlego do que as celebridades da televisão neste 24º Festival de Teatro de Curitiba, que chegou ao fim neste domingo (5), após 13 dias e 422 peças na programação.

As peças do Fringe, a mostra paralela com atores vindos dos quatro cantos do País na raça, foram muito mais instigantes do que as apresentadas na Mostra Oficial repleta de artistas mais famosos.

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Sem apoio financeiro e muitas vezes bancadas pela garra dos próprios artistas, as peças do Fringe tiveram atores presentes no palco de forma interessante e intensa. Já peças como famosos, como Através de um Espelho ou Depois do Ensaio, derraparam com apresentações insossas e atuações desprovidas de verdade.

Além disso, mais do que na Mostra Oficial, no Fringe pulsaram temas que mobilizam a sociedade, em espetáculos que dialogam com o contemporâneo e a realidade nacional, repleta de problemas.

O ator Adriano Petermann mostrou segurança e propriedade no monólogo A Anta de Copacabana (leia crítica), o boca a boca mais comentado do Fringe em 2015, com direção de Rafael Camargo. Tornou célebre a frase: "Tudo uma cambada de filha da puta". Outra peça que conquistou o público e foi comentada em cada esquina curitibana foi Tchekhov, na Mostra Ave Lola, com o tradicional grupo da capital paranaense.

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Comédia O Último Copo abordou crise hídrica e alfinetou PT e PSDB no palco - Foto: Nilton Russo/Clix

A comédia O Último Copo, apresentada pela Cia. Aerolito, de Curitiba, sob direção do Palhaço Macacheira, fez o público do TUC (Teatro Universitário de Curitiba) refletir sobre a situação de falta d’água que atormenta grandes cidades brasileiras. Em linguagem clown, a Palhaça Semilla e o Palhaço Tchonsky fizeram o público entrar em sua proposta altamente subversiva em relação ao poder instalado, seja ele à direita ou à esquerda. Riram tanto do tucano quanto da estrela vermelha. E o público foi ao delírio.

O mesmo palco do TUC abordou a sexualidade dos moradores de rua e o problema do vício no crack, mazela que tanto perturba nosso ambiente urbano, na peça Estação dos Passageiros Invisíveis. Os artistas da InMundos Companhia Teatral, de Juiz de Fora, Minas Gerais, apresentaram um panorama desconcertante. A atriz Pri Helena destacou-se com uma atuação segura e nada histriônica.

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Qual o preço do caráter? O ator André Félix em Iepe, da Trupe Temdona - Foto: Annelize Tozetto/Clix

O poder e sua influência no comportamento de uma pessoa foi o foco da peça Iepe, da Trupe Temdona, de São Caetano do Sul, região do ABC Paulista. Já os gaúchos do Grupo Trilho de Teatro Popular, de Porto Alegre, mostraram no espetáculo Umbigo a situação de isolamento do homem atual. Ambos recados cheios de potência.

A violência urbana permeou A Bolsa, com Taciana Moura Morais, de Fortaleza, Ceará. Em uma encenação simples, a atriz deu vida à angústia de uma mulher vítima de uma assalto que revira sua cabeça por completo. Já o amor e suas mazelas foi tema da peça paulistana Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, inspirada pelo disco homônimo de Marisa Monte e em fatos reais vividos pelos integrantes do grupo Atocontínuo.

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Geleia Geral mostrou vida e obra de Torquato Neto com vigor, poesia e inocência - Foto: Divulgação

Um espetáculo original foi Geleia Geral, do grupo Conexão Street, de Teresina, Piauí. Vitorino Rodrigues criou uma encenação surreal para apresentar a vida e a obra do compositor Torquato Neto, um dos criadores da Tropicália. Com um misto de vigor e inocência, a trupe comoveu o público do Café Teatro Toucher la Lune com sua apresentação corajosa, experimental e viva.

Fernanda Fuchs foi um dos destaques femininos no Fringe. A atriz de Curitiba mostrou vigor e domínio da plateia em Corrente Fria, Corrente Quente, peça escrita por ela mesma. No monólogo, vive uma menina que espera, em um porto, o pai voltar do mar. Com um canto envolvente, convida a plateia a embarcar em seus devaneios sensoriais sem medo. E o público vai junto, sem culpa ou vergonha, no ritual cênico estabelecido.

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Relato bíblico sob a prisma do teatro contemporâneo: A Vaca Pródiga - Foto: Annelize Tozetto/Clix

A Vaca Pródiga, da Cia. de Teatro de Breque, de Curitiba, mostrou irreverência cênica ao misturar parábola bíblica e teatro contemporâneo sob direção de Nina Rosa Sá e com Pablito Kucarz e Tatiana Blum no elenco. O deboche também esteve presente em O Jumento e a Moça, do grupo Anaïs Teatrum, de Palhoça, Santa Catarina, que, de forma simples, desconstruiu tabus sexuais desavergonhadamente.

O discurso político e pró-diversidade também esteve presente no Fringe. Homofobia – Livre-se Desse Preconceito falou deste mal tão em voga em nossa sociedade, sobretudo entre políticos conservadores. A peça da Cia. de Teatro Saltimbancos, de Curitiba, fez graça com um tal de Infeliciano, que tenta impedir a felicidade alheia a todo o custo. O público aprovou. Na cena off Festival, Simone Magalhães foi ovacionada na Casa Selvática com seu show Por que Não Tem Paquita Preta? (leia a crítica).

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Fagner Zadra, que ficou tetraplégico em um acidente na festa de abertura do Festival de Teatro de Curitiba de 2014, riu de sua situação na comédia "sit down" Rizadra e foi muito aplaudido pelo público pela coragem - Foto: Nilton Russo/Clix

Rir da própria situação como forma de exorcizar o que não se explica foi o que garantiu o sucesso do espetáculo Rizadra – Sit Down Comedy. Como o nome do espetáculo indica, o ator e humorista Fagner Zadra, que ficou tetraplégico após um acidente na abertura do Festival de Teatro de Curitiba em 2014 (leia entrevista exclusiva), cria um novo gênero de humor “stand-up” (de pé, em inglês): o “sit down” (sentado, em inglês). Ao brincar consigo mesmo, conseguiu respeito e aplauso cúmplice do público.

O Fringe ainda deu espaço a trabalhos experimentais e frutos de árdua pesquisa. Como a do gênero horror, abordado na Mostra Glóriah Vigor Mortis, com peças assustadoras dirigidas por Paulo Biscaia Filho e atores da Cia. Vigor Mortis com toda a intensidade que o estilo pede.

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Flávio Magalhães em cena de Encruzilhada: encontro com o outro - Foto: Lina Sumizono/Clix

Encruzilhada, com o Grupo de Pesquisa e Experimentação em Arte e Cultura da Unespar, também de Curitiba, apresentou um trio de artistas entregues no palco. Com música ao vivo, convidaram o público a adentrar um espaço diminuto onde se desnudaram e expuseram delicado estudo do movimento corporal para estabelecer uma conexão real entre gente.

Também na linha experimental e repleta de ousadia, outro grande destaque do Festival de Teatro de Curitiba em 2015 foi a peça Escravagina, com a atriz Maite Schneider. Na obra, a transexual desnuda seu corpo e alma em um grito de fúria contra o sistema opressor e em busca do amor verdadeiro, aquele que deixa o outro existir, em vez de exigir sua morte. Nesta montagem, Cesar Almeida encontra direção sensível para deixar que a performance aconteça sem barreiras. E o público compreende a necessidade de Maite transbordar-se diante de todos para seguir em frente com dignidade. Foi aplaudida de pé.

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Escravagina: Maite Schneider fez grito de amor e fúria no palco do Mini-Guaíra - Foto: Divulgação

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*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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pqnãotempaquitapreta 063 emiphotoart DSC 0148 680x1024 Crítica: Simone Magalhães dá relevância à cena off do Festival de Curitiba com show inesquecível

Simone Magalhães: ela é a grande diva dos palcos curitibanos - Foto: Emi Hoshi/Emi PhotoArt

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba
Fotos EMI HOSHI/Emi PhotoArt

O nome do show já é instigante: Por que Não Tem Paquita Preta?. De cara, é uma colocação política, étnica e performática da cantora e atriz Simone Magalhães.

Ela é um dos ícones dos palcos paranaenses e brasileiros. Como o Brasil tem complexo de vira-lata, como diria Nelson Rodrigues, ela ficou de fora da programação oficial do Festival de Teatro de Curitiba 2015.

Suas apresentações se deram na cena off, a convite da sacudida turma de artistas da Casa Selvática, uma charmosa propriedade da Selvática Ações Artísticas de dois andares na rua Nunes Machado, 950, no bairro curitibano Rebouças.

O público chega ávido. Toma cerveja enquanto não começa. Logo, é convidado a se acomodar na pequena sala, preparada com luzes e até um efeito de fumaça para receber Simone, seu violão e sua grande voz.

Ela chega com tudo, fazendo os corações e mentes girarem de imediato.

pqnãotempaquitapreta 060 emiphotoart DSC 0135 1024x679 Crítica: Simone Magalhães dá relevância à cena off do Festival de Curitiba com show inesquecível

Simone Magalhães mistura experiências pessoais e música em seu show Por que Não Tem Paquita Preta?, apresentado na Casa Selvática, em Curitiba - Foto: Emi Hoshi/Emi PhotoArt

A partir de experiências pessoais, a artista traz ao palco situações comuns neste Brasil cada vez menos tolerante com a diversidade, mergulhado no preconceito e no ódio.

Para ela, mesmo vítima por exemplo de uma violenta batida policial nas ruas curitibanas, o amor fraternal é capaz de vencer. E sua arte também.

Sofrendo na pele tais mazelas, Simone é um extravaso de amor no palco. Brinca e diz que, se pudesse, levava todo mundo para a sua cama. Ela se apaixona fácil. E a gente por ela também.

Dona de um carisma inigualavelmente intenso, Simone consegue fazer o público transitar por momentos duros em seu show, narrando fatos impactantes, de tristeza e também de conscientização.

Mas, ela consegue recuperar o ritmo em um passe de mágica. É inacreditável a forma em que transita por tantas emoções de maneira singular e potente, nos levando juntos.

pqnãotempaquitapreta 047 emiphotoart DSC 0083 680x1024 Crítica: Simone Magalhães dá relevância à cena off do Festival de Curitiba com show inesquecível

Na cena off, show de Simone Magalhães foi uma das experiências artísticas mais significativas realizadas durante Festival de Teatro de Curitiba 2015 - Foto: Emi Hoshi/Emi PhotoArt

O show de Simone Magalhães Por que Não Tem Paquita Preta? é um das propostas mais significativas que aconteceram neste Festival de Teatro de Curitiba de 2015. E, ironicamente, não fez parte dele, oficialmente. É uma resistência underground, onde geralmente a grande arte costuma habitar.

O espetáculo de Simone Magalhães poderia ser considerado como uma versão análoga à do norte-americano Holcomber Waller - que ganhou o palco do Guairinha na Mostra Oficial com seu espetáculo Surfacing -,  só que vernácula e provocativa.

Simone é muito mais gente, muito mais Brasil, muito mais artista, muito mais interessante, muito mais talento, muito mais música, muito mais teatro. Por isso, ela deveria ter destaque não só na cena curitibana, como na brasileira e nas próximas edições deste Festival de Teatro de Curitiba. O público pede.

Ainda bem que existem os resistentes artistas da Casa Selvática para reparar que Simone merece o espaço do palco, lugar onde se encontra para dialogar com o público ávido por experiências intensas, “fazendo a gira girar”.

Simone Magalhães em Por que Não Tem Paquita Preta?
Avaliação: Ótimo
Avaliacao Otimo R7 Teatro PQ Crítica: Simone Magalhães dá relevância à cena off do Festival de Curitiba com show inesquecível

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Simone Magalhães com a turma da Selvática Ações Artísticas - Foto: Emi Hoshi/Emi PhotoArt

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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