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critica atila Crítica: Ao expor angústia de rapaz que só diz uma palavra por dia, Solilóquio recupera a ingenuidade

Peça carioca Solilóquio traz outra vez a inocência dos tempos de outrora - Foto: Divulgação

Por ÁTILA MORENO
Especial para o R7*

Hoje em dia, num mundo cada vez mais banalizado, compensa mesmo falar de amor? Ainda mais um tema abordado tantas vezes? Pelo menos a peça Solilóquio, um Amor sem Palavras, em cartaz no Centro Cultural Solar de Botafogo, na capital fluminense, calibra muito bem sua principal arma: ele mesmo, o amor.

O caminho utilizado pelo diretor Zé Helou é contumaz. Aproveitou a leveza e o ótimo texto de Renata Amaral, adaptado da peça Humulus, o Mudo, de Jean Anouilh e Jean Aurenche,  para contar a história peculiar de Haroldo.

Este, um menino criado pela avó e três tias, que acaba sendo vítima de uma tragédia que o leva a uma anormalidade: ele só pode falar uma palavra por dia. Depois de se apaixonar na infância, ele decide guardar as palavras para poder se declarar ao seu amor.

Camadas

Não é uma história qualquer sobre amor. Aí está o grande acerto. Com uma sinopse primorosa, o diretor desfia o amor em diversas camadas.

Solilóquio pode sugerir a analogia com o amor platônico, tanto aquela ideia do senso comum, quanto aquela defendida pelo filósofo Platão (348/347 a.C.).

soliloquio Crítica: Ao expor angústia de rapaz que só diz uma palavra por dia, Solilóquio recupera a ingenuidade

Amor platônico está presente na peça - Foto: Divulgação

Haroldo vivencia esse amor platônico, ou seja, o amor não correspondido. Ao se apaixonar por Helena (Viviana Rocha), ele não a toca, não se aproxima, não consegue se manifestar devido à sua condição e fica preso num mundo mais idealizado.

Amor carnal

De uma maneira mais geral, Platão via o amor carnal como uma escada que poderia levar a outros mais elevados. De certa forma, Haroldo vai passando por essas situações até se firmar naquele amor que é a raiz de todas as suas virtudes.

Mas, antes disso, o protagonista vivencia o amor físico, o amor ao belo, o amor ao conhecimento (a chegada do professor Teodoro), todos esses o levam a algum lugar de encontro consigo mesmo.

O personagem principal parece reproduzir esse amor platônico no nosso olhar mais comum. Mas diante da trama, vemos que ele se desloca para o outro amor, dinamizado por Platão.

Elenco tem química

Mas tudo isso poderia soar piegas se a peça não trouxesse um envolvimento dos seus atores de forma tão natural. A química entre eles é a base que amarra todo esse êxito.

Coadjuvantes e protagonistas (Haroldo é interpretado por dois atores em diferentes fases da vida) mostram um talento raro de se achar nesse tipo de produção carioca, que exige um esforço ímpar dos profissionais: aqueles que vão interpretando vários personagens ao mesmo tempo e não perdem a simbiose diante de diálogos ágeis, dinâmicos e criativos.

Há de se destacar que Rodrigo Miranda (Haroldo mais novo) e Jonas de Sá (Haroldo na fase adulta) dão cada um o peso que o personagem exige e inclusive num tempo da história que não é cronológico. O primeiro expressa muito a timidez e a introspecção na infância, e o outro dá o tom perfeito ao atuar somente com os gestos, conseguindo ampliar ainda mais as angústias do protagonista.

As atrizes que interpretam as tias dão um show particular. Laura Araujo, Mariana Bassoul e Renata Amaral se configuram como o cronômetro indispensável na vertente cômica da peça. São personagens deliciosas que merecem até uma história separada numa outra produção, ou seja, um reboot como é chamado nos seriados televisivos.

O roteiro não entrega nada tão fácil e abusa bastante dos elementos disponíveis em cena. O cenário de Lilian Doyle traz um espetáculo a parte, com suas mudanças repentinas e que se encaixam perfeitamente no quebra-cabeça cênico. A direção de movimentos ficou a cargo de Fabiana Valor que fez um trabalho sincronizado e que chega ser quase mimético, de tão emblemático.

Entraves

No entanto, Solilóquio padece de alguns entraves. Apesar de equilibrar muito bem o lado cômico e dramático, esse mesmo humor parece caçoar das aflições vivenciadas pelo protagonista, principalmente na cena em que ele é levado para uma casa de prostituição. É algo que, por pouco, quase perde a mão, ficando escrachado demais.

Alguns termos usados nos diálogos não condizem com a época que a peça sugere indicar, até mesmo com a localidade onde a história se passa e também com a idade dos seus personagens. Isso se nota no discurso das três irmãs em determinados momentos da trama.

Mesmo assim, Solilóquio ganha mérito por nos revelar uma ingenuidade perdida nos tempos atuais. Uma ingenuidade gostosa e nostálgica que talvez amacie esses tempos tão banalizados, nem que seja por meros 75 minutos.

*Jornalista mineiro radicado no Rio, Átila Moreno é graduado pelo UNI-BH e tem pós-graduação em Produção e Crítica Cultural pela PUC-Minas.

Solilóquio, um amor sem palavras
Avaliação: Bom
Quando: Terça e quarta às 20h. 75 min. Até 1º/10/2014
Onde: Centro Cultural Solar de Botafogo (Rua General Polidoro, 180, Botafogo, Rio, tel. 0/xx/11 2543-5411)
Quanto: R$30 (inteira) R$15 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Ao expor angústia de rapaz que só diz uma palavra por dia, Solilóquio recupera a ingenuidade

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menores foto copo diseno Crítica: Teatro dando uma de pobre coitado vira motivo de riso em peça mexicana no Mirada

Mexicana Menores que o Guggenheim mostra angústia de se fazer teatro - Foto: Copo Diseño

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Santos*

Estar atentos aos editais. Escrever projetos. Entregar toda a documentação direitinho. Esperar pelo resultado. Nem sempre ganhar. E, quando tudo dá certo, a vitória vai só até o fim da temporada. Porque, depois, é preciso recomeçar tudo outra vez.

A conhecida instabilidade profissional e financeira do artista de teatro na América Latina é o pano de fundo da peça mexicana Menores que o Guggenheim, do grupo Los Guggenheim. O espetáculo foi apresentado no Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, que chegou ao fim neste sábado (13).

Na encenação, mergulhada na metalinguagem até o último fio de cabelo, um grupo de teatro tenta sobreviver com uma nova peça, enquanto procura espantar o fantasma dos tempos em que dois de seus integrantes tentaram se aventurar na Europa em um sonho fracassado de conquistar o "Primeiro Mundo".

O título da peça sai da relação de um dos personagens com o Museu Guggenheim Bilbao, no País Basco, diante do qual se dá conta de ser um latino-americano e não um europeu, em um rompante de autopreconceito.

Alejandro Ricaño, que assina dramaturgia e direção, constrói uma atmosfera de fracasso iminente, tão comum nos países latino-americanos, com um sentimento presente de inferioridade diante da metrópole de seu passado colonial que ainda é difícil expurgar.

O achado da montagem é expor esta realidade de interiorização da própria cultura diante daquela europeia, vista como superior, infelizmente, ainda tão presente neste lado do Atlântico. E ainda mostrar que os donos do discurso de que o teatro é um pobre coitado também têm seus mecanismos de oprimir o ainda em situação pior. Isso fica muito claro na relação de opressão que os produtor-diretor da peça tem com seu elenco.

A peça acerta ao fazer seu discurso sobre uma base de humor, tendo intérpretes carismáticos em cena conquistando o espectador até mesmo quando os diálogos são de um preconceito evidente.

Na encenação, o artifício dos artistas para levantar a obra de teatro dentro da obra de teatro dá lugar a outras discussões latentes que circundam a história, como a orientação sexual escondida de um dos integrantes ou o racismo em relação ao ator albino do elenco — uma metáfora para a situação do próprio negro no teatro mexicano; e também brasileiro.

O único tropeço da peça é estender-se demasiadamente em sua reta final, o que acaba de tornar enfadonho o seu repetir tal qual um disco arranhado sobre o mesmo tema. Um bom corte na parte derradeira teria feito muito bem.

De toda forma, Menores que o Guggenheim é um espetáculo que registra com propriedade a angústia cotidiana comum ao artista latino-americano, com seu sonho de realizar sua arte. Por mais que olhe para o próprio umbigo, o faz com mérito, inteligência e graça. E mostra que, para sair desse disco arranhado de pobre coitadinho é preciso, antes de tudo, abandonar de vez esse choramingar.

Menores que o Guggenheim
Avaliação: Bom
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Teatro dando uma de pobre coitado vira motivo de riso em peça mexicana no Mirada

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo.

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Avaliação: Bom

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rapsodia gutomuniz Crítica: Cubana tortura plateia do Mirada e expõe com crueza sobrevivência na ilha de Fidel Castro

Cena da peça Rapsódia para uma Mula (Rapsódia para el Mulo): grito de sobrevivência em meio à derrocada do socialismo em Cuba - Foto: Guto Muniz

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Santos*

Espetáculos cubanos são sempre motivo de curiosidade quando apresentados fora da ilha sob comando dos irmãos Castro desde 1959.

Afinal, ver artistas deste país em cena é uma forma de apreender o que se passa realmente no contexto cubano, o que não costuma ser objeto de divulgação nos meios oficiais.

Quem viu Rapsódia para uma Mula, peça do grupo El Ciervo Encantado que representou Cuba na terceira edição do Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, esteve diante de uma visão sombria e confrontante da realidade cubana. Quase que intragável.

Assim que os refletores que quase cegam a plateia — uma referência clara à tortura — diminuem sua força, o público vê surgir no espetáculo-performance a artista Mariela Brito. Ela está nua, com o corpo apenas pintado de forma tribal. E começa a arrastar por intermináveis 55 minutos uma carroça pelo cenário, num rumo que é dar voltas sobre o próprio eixo.

rapsodia 2 Crítica: Cubana tortura plateia do Mirada e expõe com crueza sobrevivência na ilha de Fidel Castro

Rapsódia para uma Mula: combate diário pela sobrevivência em Cuba sem perder a esperança - Foto: Divulgação

Espécie de Mãe Coragem da ruína socialista, ela traz em sua carroça bugigangas distintas, em um arrastar cotidiano, uma espécie de combate diário repleto de esperança. Entre outros objetos, há espaço na carroça para uma pedra pesada, um retrato de família e um livro que faz clara referência ao comunismo decadente.

Enquanto a atriz se arrasta pelo palco com uma expressão de espanto que não sai de seu rosto, fazendo com que babe durante a caminhada lenta, uma rádio toca trilhas sonoras de grandes sucessos do cinema hollywoodiano de forma leviana.

A inspiração para o espetáculo dirigido por Nelda Castillo foi o poema homônimo de José Lezama Lima. A direção e a perfomer conseguem traduzir um clima de tensão misturada com cansaço tanto no corpo da artista quanto na plateia.

A realidade cubana surge em uma alegoria triste e constantemente assombrada, mas, sobretudo, resignada com seu infortúnio.

O momento final, no qual Brito chega ao limite do corpo e utiliza uma necessidade fisiológica como recado artístico potente, é também a possibilidade de confronto a quem não tem o direito a voz, ao discurso livre.

Ao fim, refletores voltam a cegar a plateia, enquanto a atriz permanece imóvel em sua triste sina. Rapsódia para uma Mula é um espetáculo tão difícil quanto deve ser viver e ser artista em uma ditadura. Mesmo que de viés supostamente esquerdista.

É importante salientar que o fato de o espetáculo existir diz muito sobre a Cuba atual. Prova de que a censura na ilha hoje já não é mais tão feroz quanto em tempos de outrora. Sinal de que a ditadura também já não é mais tão potente assim.

Rapsódia para uma Mula
Avaliação: Bom
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Cubana tortura plateia do Mirada e expõe com crueza sobrevivência na ilha de Fidel Castro

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo.

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castigo valentino saldivar Crítica: Castigo desvenda abuso infantil no Mirada

Castigo: criança sem saída diante da opressão de um pai monstruoso em peça chilena - Foto: Valentino Saldivar

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Santos*

O Chile encerrou o Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, neste sábado (13), exibindo uma potência teatral que justifica ter sido o país convidado de honra no evento promovido pelo Sesc. Foram sete peças chilenas dentre as 25 internacionais da programação com 40 espetáculos.

Castigo, do Teatro La Memória em parceria com a Fundação Teatro a Mil, levou ao palco o incômodo tema do abuso infantil praticado em família, infelizmente tão comum em sociedades covardes, machistas e patriarcais.

Espinhento e muitas vezes ignorado, o assunto é tratado em um teatro de estado, com uma estética realista e ao mesmo tempo poética, na qual o silêncio diz muito ao impor opressão que não precisa sequer ser verbalizada. E tal opressão se dá em distintas camadas dentro das paredes daquela casa, em um jogo sórdido onde só há fracasso, maldade e rancor.

castigo1 Crítica: Castigo desvenda abuso infantil no Mirada

Um jantar intragável: ambiente realista de Castigo reproduz cotidiano opressor - Foto: Valentino Saldivar

A obra tem direção de dramaturgia de Cristian Plana, que se baseou em O Filho da Criada, de August Strindberg. A peça conta com um elenco que une técnica e talento, formado pelos talentosos Alexandra von Hummel, Daniela Ropert, Diego Salvo, Natalia Ríos e Rodrigo Soto.

castigo valentino saldivar2 Crítica: Castigo desvenda abuso infantil no Mirada

Olhar cúmplice com a maldade: Castigo mostrou potência teatral do Chile no Mirada - Foto: Valentino Saldivar

Juntos, formam uma família de um passado não tão distante assim, na qual o pai reina como opressor e abusador do menino, sob olhares cúmplices de sua mulher e da empregada da casa, e mais, traumatizando a filha menor, que cresce neste ambiente doentio repleta de traumas.

O cenário de Fernando Quiroga, Cristián Canales e Sandro Compayante dialoga com o tom realista da montagem, criando com perfeição a atmosfera de um jantar intragável na sala de uma espécie de casa grande na qual o senhor é dono de todos, sem chance de contestação.

O espetáculo é duro, como o é este tipo de abuso na vida real, no qual os próprios pais, em vez de proteger suas crias, como seria a lei natural da natureza, tornam-se seus algozes, gerando traumas e destruindo futuros.

A cena poética ao final, com os personagens lutando contra a força implacável de uma tempestade de neve que começa a encobrir tudo, mostra que, por mais que se tente enterrar algumas tristes memórias, elas são capazes de se manterem vivas e dilacerantes.

Castigo
Avaliação: Ótimo
Avaliacao Otimo R7 Teatro PQ Crítica: Castigo desvenda abuso infantil no Mirada

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo.

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rei lear Crítica: Juca de Oliveira encara sozinho Rei Lear para mostrar que amor de verdade não se compra

Sozinho no palco: Juca de Oliveira vive oito personagens em Rei Lear - Foto: João Caldas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Fazer Rei Lear, de William Shakespeare, é um para qualquer ator com algum grau de consciência. E isto não falta a Juca de Oliveira, que completa 60 anos de carreira e 80 anos de vida em 16 de março de 2015.

Amante do desafio, o ator assumiu a peça inteira. O feito é inédito, até então ninguém tinha tido tal coragem de aceitar o desafio de transformar Rei Lear em um monólogo. Neste, o ator dá vida a oito diferentes personagens da história do rei vaidoso que descobre que duas de suas filhas não lhe querem tanto quanto pensava e sucumbe à loucura.

A adaptação do texto feita pelo poeta Geraldo Carneiro, que picotou o texto e colocou tudo em linguagem coloquial. Tal qual na polêmica dos clássicos da literatura adaptados para estudantes da rede pública, é perceptível um reducionismo em cima do texto shakespeariano. Sinal dos tempos?

A direção de Elias Andreato deixa Juca praticamente voando sozinho com seu talento: o ator surge diante de um fundo preto, com figurino simplório e sem arroubos na luz ou na trilha — um tanto quanto melodramática.

Isso tudo torna a montagem cansativa em alguns momentos não só para o público como também para o ator: é nítido o esforço de Juca ao fazer tantas vozes ao mesmo tempo.

Talento Juca de Oliveira tem de sobra. Isto todos nós sabemos, mas talvez tenha sido um exagero colocá-lo para abarcar tantos personagens ao mesmo tempo. Mesmo diante de um profissionalismo ímpar, é perceptível o cansaço vocal do ator ao longo da peça.

Apesar disso, o texto passa um recado mais do que atual, em um mundo onde vemos filhos matando pais a torto e a direito: afeto não deve ser misturado com poder ou dinheiro. Até porque amor, de verdade, não se compra.

Rei Lear
Avaliação: Bom
Quando: Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h. 60 min. Até 12/10/2014
Onde: Teatro Eva Herz da Livraria Cultura do Conjunto Nacional (av. Paulista, 2073, Cerqueira César, São Paulo, tel. 0/xx/11 3170-4059)
Quanto: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Juca de Oliveira encara sozinho Rei Lear para mostrar que amor de verdade não se compra

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miguel mirada Equipe do Mirada faz vídeo sobre cobertura do jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado no R7

Miguel Arcanjo Prado fala sobre seu trabalho como colunista teatral do R7 no Mirada - Foto: Reprodução

O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado foi entrevistado pela equipe de vídeo que registra o Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos. O evento vai até o próximo sábado (13), com 40 peças, das quais 25 são internacionais. Veja o vídeo produzido pela Querô Filmes:

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puzzle Felipe Hirsch responde à crítica de Puzzle no Mirada

Imagem da peça Puzzle, apresentada no Mirada 2014, com direção de Felipe Hirsch - Foto: Divulgação

Nota do Editor: O diretor do projeto Puzzle, Felipe Hirsch, escreveu um texto em resposta à crítica Elenco de Puzzle potencializa discurso desesperançado sobre o Brasil de Felipe Hirsch. Abaixo, a argumentação do artista é reproduzida na íntegra:

"Amigos, eu não tenho por costume responder críticas e sei que o jornalista Miguel Arcanjo Prado fez seu trabalho com carinho, respeito e, pelo que se vê, admiração. Só o faço porque existem algumas suspeitas perigosas:

Primeiro, é importan...te situarmos o projeto com alguns textos aqui repetidos:

PUZZLE (a) fala sobre o extermínio da delicadeza.

É sobre isso a cena do menino com "a metralhadora suja".

Como disse o Wisnik, a reafirmação da violência avassaladora e generalizada.

Fala com raiva irracional, estupidez, enfim, com vários sentimentos que nos distanciam da sabedoria.

Puzzle é mal criado, mal educado.

Mas é, essencialmente, uma irônica peça de ficção científica (ultrapassada) que fala o que Jorge Mautner falou há 40 anos (e por isso mesmo, fala de novo) no conto Caos.

É também um grito primal sobre um país tão complexo, tão intraduzível, tão isolado, tão anestesiado, tão agredido e tão agressor.

Na parte (c) uma pessoa é arrastada para o teatro. E ela acha o teatro muito violento. Não a vida. O teatro. Íntimo demais. Próximo demais. Errado demais.

Puzzle é assim porque admitiu o acaso, o desespero, no meio de tantas opiniões e certezas.

O crítico aponta um erro gramatical cometido por um ator na estreia de Puzzle (d). E cobra isso. Afirma que "Puzzle (d) minimiza a língua portuguesa" mas, no entanto, não a usa com exatidão.

Ele acerta ao falar sobre o erro, mas desconsidera que uma palavra foi conjugada erradamente em uma sessão única na estreia do espetáculo. Um erro isolado no meio de um milhão de palavras em um único dia. Mas, está certo. Lembro do erro.

No entanto, ele está absolutamente equivocado quando afirma que "Puzzle (d) minimiza a língua portuguesa" (esta é a sua frase, infelizmente truncada, mas razoavelmente clara).

Delicadamente, explico:

PUZZLE (d)

começa falando sobre São Paulo e dos manifestos paulistanos (Somos Concretistas! diz o Antropofágico e anos depois o Noigandres).

Esses homens incríveis que pensaram uma arte brasileira genuína dentro de um contexto mundial.

Fala dos pixadores também, justiça e mais amor sp.

E relembra o Klavibm II do Duprat e do Damiano Cozzella.

Depois, ouvimos a tal declaração de Bolaño sobre a Academia Brasileira de Letras, o Paulo Coelho e sua "divulgação" da língua "Brasileira". Junto, um texto do Leminski sobre a inutilidade da arte em um mundo onde tudo tem que dar lucro.

Aqui está o foco da frase da crítica.

Atenção:

Falamos sobre a solidão de nossa língua. Falamos sobre o isolamento dos países da América Latina. Sobre o solipsismo dos seus poetas (todos com seus cursinhos de inglês e francês, e suas obras completas embaixo do braço).

Quanto aos muçulmanos, é triste ter que explicar a piada, mas vamos lá: o texto de André Sant'Anna repete frases ufanistas vazias, impostas e impositivas.

Falar que o Brasil é bom porque é e pronto.

Os marketeiros, o populismo evangélico.

Frases feitas, que opinam e repetem ideias pré-concebidas, não desenvolvidas, agressivas, preconceituosas etc. É claro que eu ou André, em hipótese alguma, afirmaríamos posições políticas contra ou a favor do estado Palestino, quando nosso assunto é outro. Bem distante desse.

Mais grave é a afirmação de que André Sant'Anna escreveu o texto do policial militar para culpar o povo, pobre e negro por sua desgraça. Um personagem está no palco. Um escritor se esconde atrás desse personagem. E ironiza na grandeza de um cargueiro de quatrocentas mil toneladas nossa desgraçada situação educacional.

Seria melhor ter lido o texto antes de escrever uma crítica perigosa dessas. Ainda que o faça com respeito, repito.

Copio aqui as últimas linhas do genial texto de André Sant'Anna para que tudo fique mais óbvio: "Essa é que a minha opinião sobre isso tudo que está por aí. Entendeu a metalinguagem, essas porra? Se não entendeu, é porque você é polícia, burro, burra. Você é burro hein?"

Por fim, o erro de leitura mais absoluto: a obra dos grandes artistas Dias & Riedwig chamada "O Universo do Baile" mostra Claudia Pantera lendo um capítulo da Constituição Federal sobre os direitos humanos. Como disse um jornalista, "é parte do jogo dos artistas e da própria Claudia, juntar a sensualidade que tem, que existe naquela boca, com a abjeção. Nesse momento então, alguns rirão com desdém, outros hesitarão e protestarão; o abjeto é aquilo que nos faz repensar. E é nesse momento que a obra demonstra seu lado extremamente humanista".

Qual a sua dose de nojo, reticência, vergonha e preconceito?

e

Quais são os direitos assegurados ao povo?

5 minutos antes do início do espetáculo, eu reuni todos os atores e equipe (todos são testemunhas) e disse: "A explosão de fúria dessa peça é justamente contra quem é capaz de ler essa última obra como um manifesto fascista contra negros, gays, pobres. Puzzle não ignora o desprezo com a educação no nosso país. Não o mascara. Não o ufaniza. Celebra o teatro, a música e, principalmente a literatura Brasileira com (como disse a crítica) alguns dos maiores artistas desse país.

O crítico afirma, indefinidamente, que eu "posso não ter tido o objetivo de ser racista".

Quem é estúpido a ponto de pensar que "negros e mestiços são culpados pelas mazelas do país", esses são o meu alvo.

A obra de Dias & Riedwig definitivamente não é racista.

Sobre Puzzle (a) cito, impressionado, um texto que o crítico ouviu (?) durante a mesma apresentação, ao lado de 500 pessoas. Esse texto é dito por um personagem, político, irônico e branco:

"Das milhões de pessoas consideradas indigentes no Brasil, 70% são negros. Eu tenho um orgulho de ser misturado, de sentir correndo pelas minhas veias, o sangue negro dos meus ancestrais africanos. É um país sem preconceitos".

Quer que eu desenhe? Quer que eu desenhe com tinta no papel do cenário?

Durante todo o período de produção e ensaios, por mais que saibamos o quanto Puzzle é perigoso e desafiador, nunca essa ideia de leitura infeliz foi sequer pensada. Eu tenho certeza que um dos motivos de ter escolhido essa profissão foi por me sentir livre para lidar com a ampla cultura de mouros, alemães, latinos e latino-americanos, anglo-saxões, judeus, negros, muçulmanos, esquimós etc. Enfim, acusações como essa são baseadas unicamente na subjetividade de uma interpretação injusta. Tentar atribuir preconceitos à força é cultivar sujeira comportamental na nossa sociedade. Esses supostos defensores de direitos humanos deformam o sério problema do preconceito e nos fazem perder o tempo precioso que dedicamos à cultura de nosso país.

Por fim, com respeito, me despeço do assunto definitivamente.

Felipe Hirsch"

Resposta do crítico Miguel Arcanjo Prado: É salutar que o diretor Felipe Hirsch deixe mais claro qual é seu ponto de vista, coisa que não fica evidente no espetáculo, que corre o perigo de ser apreendido como representante de um discurso oposto ao desejado. Até porque em um festival abrangente como o Mirada, o espetáculo não se comunica apenas com a classe teatral, muito pelo contrário, é visto por um público heterogêneo, formado por comerciários e aposentados em grande parte, como percebeu o R7. Não se pode exigir do espectador o domínio das referências intelectuais do diretor para compreensão da montagem. Tampouco que a veja em seu conjunto de quatro distintas encenações, já que apenas uma se apresentou na programação oficial. O artista precisa antever que um texto fora de seu contexto original pode gerar outras leituras por parte do espectador. Assim, o final de Puzzle (a) pode ser interpretado tal qual na crítica, mesmo que isso não tenha sido pensado intencionalmente pelo diretor. Fica o alerta.

Atualizado Às 23h29

Resposta do diretor Felipe Hirsch: Desculpe, Miguel. Mas o ponto de vista não ficou claro para você. Para outros, quem sabe? E sua tréplica é, ironicamente e ingenuamente, preconceituosa quando afirma que "o espetáculo não se comunica apenas com a classe teatral, muito pelo contrário, é visto por um público heterogêneo, formado por comerciários e aposentados". Quem disse que a classe teatral está mais preparada ou é mais sensível que um comerciário ou um aposentado? Que ideia estapafúrdia é essa? Não exijo referências intelectuais. Puzzle exige sensibilidade e dedicação. Coisa que lhe faltou. Não lhe vejo capaz de me dizer o que devo antever ou não. Sua leitura foi perigosa. Tenha medo dela. Não da peça. Não julgue ou adjetive um artista, precipitadamente, com "ismos de racismos". É covarde, despreparado, desrespeitoso e perigoso. E você não se parece com isso. Há quem possa lhe repetir cacatuamente. Há quem lhe possa repetir por conveniência. Um espaço deve ser honrado. Leia O Crítico como Artista de Oscar Wilde e siga.

Leia a cobertura do R7 no Mirada

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2014 09 08 Puzzle Foto Dani Sandrini 4515 Crítica: Elenco de Puzzle potencializa discurso desesperançado sobre o Brasil de Felipe Hirsch

Rodrigo Bolzan como um policial burro: melhor cena de Puzzle A, no Mirada - Foto: Dani Sandrini

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Santos*

Felipe Hirsch é inteligente, inventivo e contestador. E é importante que o diretor faça seu teatro com toda a liberdade possível. A obra que o representa no Mirada 2014, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, é parte de seu projeto Puzzle (quebra-cabeça, em inglês). Nome que o público custa a pronunciar, como observado durante o evento. Talvez comece daí sua provocação.

Até o momento, o projeto é divido em quatro distintos espetáculos. O último deles, a parte D, foi apresentada no lançamento do Mirada, em agosto passado, no Teatro Sesc Santos, e atacou o nacionalismo e a construção de uma identidade cultural latino-americana de forma visceral, mas nem por isso incontestável.

Em um dos atos, por exemplo, Puzzle D minimiza a língua portuguesa, enquanto o próprio texto comete um erro gramático contra ela, conjugando no plural o verbo haver no sentido de existir. O erro, isolado, soou complicado no contexto de quem quer ser dedo na ferida.

Outro momento tenso é quando o texto demoniza apenas os muçulmanos, como se fossem os únicos a promover a guerra na Palestina, esquecendo-se dos bombardeios de Israel. Ao se posicionar de um lado, perde força contestatória.

Fora isso, o espetáculo é repleto de momentos fundamentais, como aqueles que questionam o ufanismo demasiado de grande parte da Nação Verde-e-amarela.

Desesperança

Mas falemos de Puzzle A, que é o espetáculo oficialmente na programação do Mirada. Trata-se de um compilado de discursos de múltiplos autores, sempre com um ar de desesperança sobre a realidade brasileira.

O caos apresentado pela peça é compartilhado por qualquer um estupefato com o limbo do pensamento livre neste País.

Os artigos são repletos de ironia refinada e ganham potência teatral, sobretudo, por se valerem de alguns dos melhores atores do teatro brasileiro atual, escalados para dizerem os textos com toda a verdade possível e, por isso mesmo, tornando-os desconcertantes.

Hirsch foca no Rio de Janeiro, cidade mergulhada no caos há muito tempo e parece que não sairá dele tão cedo, entregue à disputa eterna entre milicianos e traficantes, com políticos corruptos no meio e polícia violenta que desconhece os direitos humanos.

O diretor aponta seu espetáculo, sobretudo, para a realidade deste lugar, representante do País no exterior, desconstruindo a imagem de paraíso associada à Cidade Maravilhosa.

Policial burro

O ator que mais se destaca é Rodrigo Bolzan, no melhor dos textos, na pele de um policial que discorre sobre sua burrice violenta que o leva a infringir torturas desumanas à população pobre. O ator faz a cena com domínio, levando a plateia a diversas emoções em poucos instantes, do riso ao ódio. Contudo, tal cena incorre em algo perigoso: culpa o povo, pobre e negro em sua maioria, por sua própria desgraça. Tal reducionismo a enfraquece.

A peça conta com uma verdadeira constelação do teatro nacional: Eric Lenate, substituindo Felipe Rocha de última hora, leu com propriedade seu texto, mas nem por isso deixou de imprimir atuação carismática ao discorrer sobre nossas desgraças, transformando-as em dados positivos.

Outro destaque é Luna Martinelli, uma das atrizes de peso da nova geração, que vive a dor de uma mulher cujo amante a abandonou. Seu discurso é traduzido simultaneamente para o alemão, por ninguém menos que Georgette Fadel, referência do teatro paulistano, e para o castelhano, por Javier Drolas.

Colocar o ator argentino para falar em seu idioma é um ato de inteligência do diretor, que sabe respeitar a expressividade natural do ator, colocando-o no espetáculo em lugar de igualdade com seus companheiros brasileiros.

Magali Biff, mais ao fim da obra, é uma verdadeira explosão. E das boas. A peça ainda tem Isabel Teixeira, Luiz Päetow e Jorge Emil. Todos dando peso a cada palavra dita.

Choque de realidade

Com uma estética de impacto tal qual a tinta preta no papel branco, Hirsch faz bem em descontruir a imagem cordial e otimista do brasileiro. Seu espetáculo é um choque de realidade, expondo com crueza o que muitos de nossos governantes tentam esconder. Este é seu maior mérito como artista.

Entretanto, algo incomodou este crítico, e com profundidade, ao fim do espetáculo. E não foi o problema que o elenco teve para rasgar os papéis do fundo do cenário, muito menos com a legenda que não funcionou durante boa parte da peça.

O lugar do negro?

O problema é com o epílogo audiovisual final: uma bandeira do Brasil invertida surge no meio de duas imagens fortes: à esquerda, um vídeo mostra um homossexual negro e desdentado lendo com muita dificuldade a Constituição Brasileira, expondo seus artigos que não são respeitados sequer pelo próprio Estado; à direita, imagens de corpos também negros requebram.

Tal visão, com negros como alegorias da imbecilidade nacional, é complicada e perigosa. Até porque não há negros no elenco – uma atriz negra de peso, como Grace Passô, teria feito bem à obra.

Por mais que este possa não ter sido o objetivo do diretor, o que esta crítica acredita, tais imagens finais podem ser interpretadas como afirmação de um pensamento ainda presente no Brasil, que culpa negros e mestiços pelas mazelas do País. Um discurso racista e inaceitável.

Leia a resposta do diretor Felipe Hirsch para esta crítica

Puzzle
Avaliação: Bom
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Elenco de Puzzle potencializa discurso desesperançado sobre o Brasil de Felipe Hirsch

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo.

Leia a cobertura do R7 no Mirada

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Utopia Foto Dani Sandrini 3614 Crítica: Maria Pagés põe fogo no palco do Teatro Coliseu com flamenco contra a caretice do mundo

Maria Pagéns dança no Teatro Coliseu, em Santos, durante o Mirada 2014: em seu corpo a dança flamenca ganha contornos inimagináveis, como as da das curvas no concreto de Oscar Niemeyer - Foto: Dani Sandrini

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Santos*

O vermelho que envolve o corpo da bailarina Maria Pagés é um grito de resistência contra a morte da utopia. Afinal, se não há mais a possibilidade de se sonhar com algo melhor, o que nos resta?

No corpo de Pagés, a dança flamenca ganha contornos inimagináveis tais quais os das curvas propostas no concreto do arquiteto Oscar Niemeyer, com o qual dialoga no espetáculo Utopia, um dos destaques do Mirada 2014, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos realizado pelo Sesc São Paulo até o próximo dia 13.

Na montagem, a coreógrafa e bailarina espanhola e seu grupo investigam os limites da ideologia impossível no embalo da onda que se ergueu no mar. O espetáculo, apresentado diante de um boquiaberto Teatro Coliseu, em Santos, no último fim de semana, é um convite ao sonho que não pode ser esmagado pela realidade mesquinha e conservadora.

Marcha careta

Ela faz isso muito bem ao substituir uma marcha militar repleta de caretas medonhas por samba solar. É um samba de beira de praia, acompanhado de forma vibrante pelos bailarinos. É a forma de Pagés dialogar com o Brasil e a cidade que a recebe.

O espetáculo assume nuances distintas. Vai do fogo puro a momentos de introspecção. E mesmo após o samba, no Brasil praticamente o fim de tudo, ela consegue voltar a momentos mais densos, um grande feito.

A música, executada ao vivo por Ana Ramón, Chema Uriarte, Fred Martins, José Fyty Carrillo, Juan de Mairena, Rubén Levaniegos e Sergio Menem enche ainda mais a dança de sentido em um diálogo que atinge diretamente o coração do espectador, tudo sob o comando de som minucioso de Albert Cortada.
 
Bailarinos entregues

Maria Pagés, que não é boba, além de ter José Barrios como assistente coreográfico, faz questão de ser cercada de um time de bailarinos cheios de paixão e que merecem ser nomeados: Eva Varela, José Barrios, José Antonio Jurado, Isabel Rodríguez, Maria Pagés, Paco Berbel e Rubén Puertas.

Juntos formam um conjunto coeso e entregue, merecedor dos aplausos fartos no final da obra e que enganaram até o operador da cortina do Teatro Coliseu, que teimou em fechá-la antes do tempo correto do fim da obra na sessão vista pelo R7. Mas nada que a força de Maria Pagés e seu grupo não tirassem de letra.

Utopia
Avaliação: Ótimo
Avaliacao Otimo R7 Teatro PQ Crítica: Maria Pagés põe fogo no palco do Teatro Coliseu com flamenco contra a caretice do mundo

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo.

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2014 09 06 Banhos Roma Foto Dani Sandrini 3456 Vida de boxeador decadente é pretexto para atores mexicanos refletirem mazelas de seu país no Mirada

Jorge León e Viany Salinas em cena de Baños Roma (Banhos Roma): história de lutador do México vira ponte para descortinar realidade do norte do país - Foto: Dani Sandrini

Por MIGUEL ARCANJO PRADO*
Enviado especial do R7 a Santos

Os mexicanos do Teatro Línea de Sombra já chegaram ao Mirada 2014 como um dos destaques do Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, promovido pelo Sesc São Paulo na Baixada Santista até o próximo dia 13.

Se em 2012, causaram frenesi com Amarillo, obra na qual revelaram os horrores da imigração ilegal entre México e Estados Unidos. Desta vez, na peça Baños Roma (Banhos Roma), investiga uma figura mítica do box mundial: José Ángel Nápolis, ou apenas Mantequilla, apelido que consagrou o lutador cubano naturalizado mexicano.

No presente, Mantequilla refugiou-se em Ciudad Juárez, na fronteira com os Estados Unidos, em pleno deserto, desprovido da opulência dos tempos de outrora.

Com o pretexto de se aproximar desta figura pop emblemática de seu país, o grupo se aproxima de um universo bem maior de questões que vão além da história do boxeador que chegou a ser amigo de Alain Delon. Para o público brasileiro, Mantequilla poderia ser um Maguila dos dias atuais ou um Anderson Silva no futuro.

Relatos e tecnologia

Baños Roma vai na mesma linha estética de Amarillo: um teatro narrativo, com pitadas de documentário, mergulhado em um mar tecnológico acrescido de imagens poéticas, em uma descontrução pós-dramática.

E é nessa desconstrução que a construção da história se faz presente, na mistura dos relatos pessoais do elenco no palco à investigação da história do boxeador. Afinal, como dizem os artistas em cena: "quando uma história é contada ela já está alterada". Ou "as fotografias não mentem, tampouco revelam a verdade".

O embate que faz a peça ser vibrante e mantém a atenção do espectador durante toda a encenação. O elenco surge em um registro sem afetações, o que contribui ainda mais para dar peso à obra.

Alicia Laguna, uma potente atriz, se junta a Jorge León, ator que também já lutou boxe, Malcom Vargas – grafiteiro que faz uma simples e impactante cena na qual conta seus embates com os policiais de Ciudad Juarez durante a pesquisa para a peça, Viany Salinas – com sua voz diminuta, mas presente - e Zuadd Atala compõem o elenco, que conta ainda com o cantor Jesús Hernandez, com sua voz gutural já conhecida do público santista.

Revelações

Mais do que revelar a história de Mantequilla, Baños Roma descortina o processo pelo qual a peça foi feita, sem que isso soe chato ou apenas um exercício de ego, como é muito comum no teatro pós-moderno.

Tudo o que eles contam no palco tem peso e beleza artística, ademais de criarem imagens repletas de poesia enquanto fazem seus relatos.

Baños Roma que titula a peça na verdade é o clube social da cidade, que já viveu tempos de glória no passado, e hoje se tornou um lugar decadente. Uma analogia à própria história do boxeador Mantequilla, que hoje apenas fuma em frente à sua casa na cidade, e também à história de Ciudad Juárez, uma terra de ninguém, onde o medo está por perto.

Ao contar a saga para revelar Mantequilla, os atores do Línea de Sombra desvendam um pouco de si e, sobretudo, expõem parte das agruras de uma região do México entregue nas mãos dos traficantes e onde o direito básico de ir e vir precisa ser justificado a cada instante. Como em muitos lugares deste nosso Brasil.

Baños Roma (Banhos Roma)
Avaliação: Muito bom

Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Vida de boxeador decadente é pretexto para atores mexicanos refletirem mazelas de seu país no Mirada

Entrevista: Jorge León e Viany Salinas, atores de Baños Roma

R7 conversou com exclusividade com os atores mexicanos Jorge León e Viany Salinas, da peça Baños Roma (Banhos Roma), do Teatro Línea de Sombra, apresentada no Mirada 2014. Leia o bate-papo:

Miguel Arcanjo Prado – Jorge, você também é boxeador?
Jorge León – Comecei sendo ator antes de ser boxeador. Topei com um projeto que me exigiu aprender boxe. Aí lutei cinco anos. Fiz 21 lutas, obtive 18 vitórias, um empate e duas derrotas.

Miguel Arcanjo Prado – Então, você entrou no projeto por isso?
Jorge León – Também. Fiz teatro na Universidade Nacional Autônoma do México e fui aluno do Jorge Vargas [diretor do Teatro Línea de Sombra]. Comentei com ele que havia lutado boxe e ele me chamou para fazer este projeto. O mais curioso é que minha mãe, a atriz Sonia León, fez uma fotonovela com o Mantequilla em 1974. Então, foi uma coisa do destino.

Miguel Arcanjo Prado – Você também é do norte do México, lugar onde se passa a peça?
Jorge León – Sim, sou de Hermosillo Sonor. Há 15 anos vivo na Cidade do México. O norte do país foi isolado na guerra do narcotráfico. É a região mais violenta do país. Regressar ao norte para mim foi regressar às minhas origens.

Miguel Arcanjo Prado – O processo investigativo da peça foi complicado?
Jorge León – Nos passaram muitas coisas nestes dois meses que estivemos em Ciudad Juarez. Aí, um dia, no hotel, nos demos conta de que era tudo muito maior do que havíamos pensado no começo. É uma cidade onde tudo se sabe e havia muita desconfiança em relação ao nosso trabalho. Chegamos a receber ameaças por telefone. A obra fala de tudo o que nos sucedeu buscando contar a história de Mantequilla.
Viany Salinas – Eu não fui à viagem e soube de tudo por eles. E resolvemos colocar isso também na peça. As coisas aconteceram de uma maneira não planejada. Surgiram coisas surpreendentes no processo desta peça que precisavam ser contadas no palco.

Miguel Arcanjo Prado – Viany, você esteve no Mirada em 2012. Como é voltar para o festival?
Viany Salinas – Estivemos com Amarillo em 2012, o Jorge nesse ano veio também, mas com Incêndios. Acho que o Amarillo abriu portas para o grupo no mundo todo, inclusive aqui no Brasil. Tivemos muita sorte. Acho que este convite para voltar é sinal de que acreditam no nosso trabalho. Ficamos muito felizes com isso.

Miguel Arcanjo Prado – Jorge, é verdade que quando você contou para o Mantequilla que sua mãe havia feito uma fotonovela com ele nos anos 70 ele nem ligou?
Jorge León – Foi isso mesmo. Eu esperava que ele fosse ter uma reação forte, mas ele nem parecia se lembrar e não deu muita importância. Aí eu percebi que aquilo era muito mais importante para mim do que para ele. Aquela fotonovela era uma memória da minha infância.

Miguel Arcanjo Prado – Em Amarillo, o grupo descortinou a imigração ilegal para os EUA pela fronteira do México. Agora, fala da situação de medo no norte do País, ao contar a história de um boxeador que foi parar na região. Vocês gostam de fazer um teatro que exponha a problemática social?
Jorge León – Não entendemos um teatro que não sirva à realidade, que esteja apartado dela. Nossa prioridade é mexer com a realidade e desenvolver nossa estética a partir daí. É preciso falar o que está sucedendo. Curiosamente, o Teatro Línea de Sombra se apresenta mais no estrangeiro do que no México. É que há tems que não são muito cômodos de se verem no palco, sobretudo para os governantes mexicanos.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo.

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