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16778439810 afa124ff69 k 1024x683 Crítica: Nêgo esfrega racismo na cara da elite curitibana com dança potente

Black power: Bailarinos do espetáculo Nêgo dançam no palco do Guairão - Foto: Humberto Araújo/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos HUMBERTO ARAÚJO/Clix

A plateia do tradicional Teatro Guaíra não estava lotada para ver a apresentação de estreia de Nêgo (Eu.Ele.Nós. Tudo Preto!) no Festival de Teatro de Curitiba. E era noite de sábado (28), a mais nobre do evento no mais nobre palco.

Pelo menos a curadoria, que escalou vários espetáculos sobre a cultura judaica, lembrou-se também de escalar pelo menos uma montagem de um grupo étnico-social que também foi vítima de genocídio e que segue sendo perseguido no País: o negro.

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Montagem Nêgo tem coreografias duras para denunciar violência do racismo - Foto: Humberto Araújo/Clix

Com direção de Sonia Destri Li com a Companhia Urbana de Dança, a obra é uma coreografia street/contemporânea potente e politizada, que escancara o racismo cotidiano (e muitas vezes velado) tão presente no Brasil.

De cara, joga uma luz em contra na cara do público, tal qual os faróis de uma viatura que muitos brasileiros negros trabalhadores precisam encarar na rua. Porque o racismo dói, é violento e existe. Mesmo que de forma silenciosa.

E Curitiba não fica atrás. Na plateia do Guairão, praticamente não havia negros. O espaço é comumente o da elite branca curitibana. De negros, havia este crítico, um ou outro espectador com muita sorte, alguns seguranças e os bailarinos no palco.

E os artistas merecem ser nominados: Tiago Souza, Raphael Russier, Miguel Fernandez, André Virgílio, Johnny Brito, Julio Rocha, Jessica Nascimento, Allan Wagner e Rafael Balbino.

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Zumbi é evocado durante a dança de Nêgo para lembrar o genocídio cometido contra esta etnia - Foto: Humberto Araújo/Clix

Com uma iluminação na penumbra e uma trilha que mistura sonoridades urbanas da favela com sons de batuques africanos, incluindo a evocação de Zumbi na bela voz da bailarina Jessica Nascimento, o espetáculo é duro em sua concepção estética tal qual é um ato de racismo. Não quer atenuar sua denúncia com beleza plástica. O que faz muito bem.

Enquanto os bailarinos dançavam muitas vezes passos violentos, ouvia-se uma a voz a repetir as palavras repletas de discriminação que um negro precisa escutar sobre sua etnia diariamente neste Brasil racista: "neguinho, azul, criolo, macaco, moreno, moreninho, escurinho, tição" e tantas outras mais.

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Corpos negros em movimento no palco da tradicional elite branca curitibana - Foto: Humberto Araújo/Clix

Ao fim, com a exaustão de uma dança repetida muitas vezes, tal qual a luta pela resistência negra, só resta uma palavra, como rebate a isso tudo: Nêgo. Um retrato da agonia de uma etnia vítima de preconceito diário.

Diante da montagem aguerrida, o R7 percebeu que alguns espectadores preferiram deixar o teatro no meio da obra. Talvez, não suportaram serem esbofeteados com a verdade do racismo que cometem cotidianamente de forma velada em nome da tal falácia da cordialidade racial.

Contudo, a maioria do público permaneceu até o fim. E aplaudiu fartamente o espetáculo. E de pé.

Nêgo (Eu.Ele.Nós. Tudo Preto!) 
Avaliação: Ótimo
Avaliacao Otimo R7 Teatro PQ Crítica: Nêgo esfrega racismo na cara da elite curitibana com dança potente

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Nêgo é retrato da agonia de uma etnia negra, vítima de preconceito diário - Foto: Humberto Araújo/Clix

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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16944166651 fff501f3c5 z Crítica: Gotas D’Água sobre Pedras Escaldantes conquista Curitiba com quarteto de amor e fúria

Luciano Chirolli e Felipe Aidar: embate de talento maduro e jovem no palco de Curitiba - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos ANNELIZE TOZETTO/Clix

Desde que o cineasta parisiense François Ozon resolveu em 2000 levar ao cinema o texto Gotas D’Água sobre Pedras Escaldantes, a história escrita pelo alemão Reiner Fassbinder (1945-1982) com apenas 19 anos ganhou o mundo.

Primeiro, porque o roteiro era mesmo fantástico e perturbador. Depois, porque o filme conseguiu também merecer os mesmos adjetivos.

Em Buenos Aires, na Argentina, o filme impulsionou a peça La Banalidad, dirigida por Galo Ontivero, em 2005, e com o ator Juan Manuel Tellategui, hoje fazendo teatro em São Paulo, na pele do personagem Franz. A obra portenha era inspirada na peça de Fassbinder e não o texto na íntegra, como montado agora no Brasil.

Também foi o filme de Ozon, com doses fatais de submissão e tirania imersas em ironia fina, que aproximou o diretor Rafael Gomes da peça e o fez desejar montá-la no Brasil. E ele foi muito bem sucedido na empreitada.

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Quarteto explosivo no palco: Gotas D´Água sobre Pedras Escaldantes conquista Curitiba - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Após carreira de sucesso em São Paulo, o que rendeu à obra indicações para o Prêmio Shell de melhor ator, para Luciano Chirolli, e melhor atriz, para Gilda Nomacce, a peça arrebatou o Festival de Teatro de Curitiba nesta quinta (26) e sexta (27) no palco do Teatro Guairinha.

Com um elenco talentoso e com presença cênica indiscutível, Rafael Gomes apresenta uma encenação pop e sofisticada para o texto de Fassbinder sobre a tirania e a submissão em simples (ou complicadíssimas?) relações amorosas humanas.

O olhar para a obra é tão pop e contemporâneo que o diretor até coloca na trilha uma refinada versão de Toxic, de Britney Spears – outra versão inusitada da mesma música também foi muito bem utilizada na peça Bichado, do norte-americano Tracy Letts, dirigida por Zé Henrique de Paula no Festival de Curitiba de 2014.

A beleza plástica da obra é reforçada por uma luz cinematográfica de Wagner Antonio e pelo cenário elegante de André Cortez. A mesma sobriedade (com pitadas de exuberância) estão no figurino assinado pelo estilista João Pimenta.

Gotas D’Agua sobre Pedras Escaldantes mostra a vida do cinquentão dominador Leopold, que se envolve com o jovem Franz, a quem logo transforma em uma espécie de capacho-mucama-prestador-de-serviços-sexuais.

Não bastasse a relação explosiva a dois, mais tarde, surgem duas mulheres para dar novo tempero à história de final surpreendente: Ana, na ex-namorada de Franz e Vera, a transexual ex-namorada de Leopold.

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Sexo e fúria garantem um drama de final surpreendente - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Atuações precisas

Luciano Chirolli demonstra tempo preciso e toda a segurança do mundo para compor seu Leopold, odiosamente carismático.

O jovem Felipe Aidar é uma revelação ao não se intimidar com o talento do colega de cena e encontrar a dose exata entre juventude, docilidade e fragilidade em sua composição de Franz, sabendo se impor também e tornando o embate com Chirolli sempre potente.

Além da sintonia fina entre os dois atores na primeira parte da montagem, surgem as duas mulheres, cada qual com sua energia própria, para dar maior peso à obra.

Nana Yazbeck faz corretamente sua personagem, a volúvel Ana, mas é Gilda Nomacce, já no finzinho da peça, quem rouba a cena como Vera, hoje mulher, mas que no passado foi  um menino frágil nas mãos de Leopold, tal qual Franz no presente da obra. Em sua volta ao teatro, após um hiato de quatro anos nos quais se dedicou ao cinema, Gilda impõe um misto de desespero, decadência e resignação à personagem, o que provoca risos nervosos do público.

Com sua versão de Gotas D’Água sobre Pedras Escaldantes, Rafael Gomes se impõe como um jovem diretor que apresenta ter domínio da linguagem cênica para imprimir seu olhar estético minucioso à uma boa história. O resultado disso é um ótimo espetáculo, com boas doses de amor e fúria.

Gotas D'Água sobre Pedras Escaldantes
Avaliação: Ótimo
Avaliacao Otimo R7 Teatro PQ Crítica: Gotas D’Água sobre Pedras Escaldantes conquista Curitiba com quarteto de amor e fúria

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Luciano Chirolli e Gilda Nomacce: encontro de dois grandes talentos - Foto: Annelize Tozetto/Clix

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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lamalditavanidad Crítica: Colombianos dão aula de drama realista na MITsp

Matando o Tempo, com o grupo La Maldita Vanidad: aula de atuação verossímil - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Em meio a tanta pós-modernidade, coube aos colombianos do grupo La Maldita Vanidad apresentar um drama realista na MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo): Matando el Timpo (Matando o Tempo, em português).

Na verdade, o grupo mergulha no hiper-realismo para contar a história de uma conturbada família da elite colombiana, que poderia ser da elite argentina, peruana ou brasileira.

Apresentada no histórico prédio da Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro, a obra coloca o público no lugar de espia, como se enxergasse por uma fresta o que acontece na sala de jantar da família.

Os atores apostam em uma atuação que mistura força e delicadeza, fazendo com que o público não duvide estar dentro de um longo plano sequência. Os artistas conseguem um registro cheio de verossimilhança, raro de se ver em palcos brasileiros. Dão aula de atuação.

Se tudo começa como um elegante jantar, logo descamba para o afloramento das tramas e hipocrisias que mantêm a elite no poder, num jogo perverso de silêncios, tramoias e humilhações.

Ao reconstruir com perfeição tal comportamento dos que detêm o dinheiro, a obra dirigida por José Hugo Marín torna-se um espelho cruel dos poderosos nos países latino-americanos, sempre com sua ideia fixa de copiar a Europa e os Estados Unidos. E mais: gente que não abandona comportamento escravocrata internalizado e faz questão de manter o desprezo pelos interesses da população como um todo. Tais seres preferem focar apenas em seus próprios umbigos, manipulando "verdades" e zombando a todo instante do sistema viciado. E de todos nós.

Matando o tempo, do grupo La Maldita Vanidad
Avaliação: Muito bom
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Colombianos dão aula de drama realista na MITsp

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agaivota4 Crítica: Butusov liberta A Gaivota para voar com o público

Poética e técnica: cena da peça russa A Gaivota, que abriu a 2ª MITsp: veja galeria- Foto: João Valério

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Remontar um clássico requer coragem e, sobretudo, autenticidade. Para mais do mesmo, é melhor a lembrança e os registros do já feito. E o diretor russo Yuri Butusov demonstra saber disso muito bem com seu olhar contemporâneo para sua encenação de A Gaivota, escrita por Anton Tchekhov (1860-1904).

A obra foi a escolhida para abrir a programação da 2ª MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). É preciso saudar aos diretores do evento, Antonio Araújo e Guilherme Marques, pela eleição assertiva. Afinal, nada seria mais apropriado do que a obra criada por Butusov e o Teatro Satirikon para a abertura de um festival internacional tão significativo, como vem se tornando a MITsp.

Escrita em 1895 como uma comédia e encenada pela primeira vez em 1896, em Moscou, com vaias e fracasso, A Gaivota só alcançou o sucesso dois anos depois, em 1898, na montagem de Constantin Stanislavski (1863-1938). Na obra, o teatro é o meio e o veículo do enredo, autorreferenciando-se por meio do metateatro.

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A encenação russa é repleta de referências ao próprio fazer teatral - Foto: João Valério

A proposta estética de Butusov está dentro das bases que norteiam o teatro pós-moderno. O diretor encena um olhar contemporâneo ao nosso contexto social (do século 21). Ele materializa o texto clássico por meio de recursos potentes que ironizam a própria obra.

O diretor propõe um encontro com o público, convidando-o a participar, co-criando nas lacunas propositais com os diversos enunciadores do discurso que aparecem simultaneamente na peça.

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Obra de Butusov faz conversa de formas - Foto: João Valério

Revelar os recursos com os quais são criadas cenas é a base da versão de Butusov; encena-se o processo e é a partir daí que se revelam as diferentes camadas do metateatro. Há diálogo constante, por meio de referentes de outras expressões artísticas, como a música, a dança e as artes plásticas.

A obra é uma colocação política do diretor cujo resultado se dá na experiência do espectador e não em uma forma. Evidencia-se a qualificação técnica do elenco, revelando destrezas performáticas, tal qual o diretor, presente no palco ao fim de cada ato, deixando-se afetar pela sonoplastia.

Dividida em quatro atos, somando quase cinco horas de espetáculo, a peça desperta interesse a cada minuto. O estado de presença (no presente) dos atores (vivos) convida o público a jogar o jogo proposto, levando-o a um estado lúdico, repleto de prazer criativo e autonomia, a partir de referências pessoais. Butusov liberta A Gaivota para voar com o público.

E é nesta conversa de formas que o diretor apresenta sua extraordinária (que foge dos padrões comuns) versão de A Gaivota. Afinal, como diz o próprio Tchekhov no texto encenado: "Precisamos de novas formas. Formas novas são indispensáveis e, se não existirem, então, é melhor que não haja nada".

A Gaivota (direção Yuri Butusov)
Avaliação: Ótimo
Avaliacao Otimo R7 Teatro PQ Crítica: Butusov liberta A Gaivota para voar com o público

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A Gaivota dialoga com expressões artísticas como música, dança e artes plásticas - Foto: João Valério; veja galeria

Veja como foi a abertura da MITsp

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Puzzled foto Adauto Perin 7 Crítica: Puzze (d) é deboche atrevido da ignorância do Brasil

A atriz Magali Biff em cena de Puzzle (d): um retrato desconcertante de nós - Foto: Adalto Perin

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Os tempos não andam fáceis. No cenário nacional, vemos uma onda crescente de conservadorismo e enfrentamento sem necessidade de uma argumentação racional. Tudo isso marcado pelo desrespeito à diferença do outro, talvez fruto de uma explosiva mistura de política e religião.

A mesma mistura colérica também assusta o mundo lá fora, em demonstrações cada vez mais irracionais de intolerância e necessidade de imposição de uma visão por meio de força violenta. Parece que o mundo esqueceu-se da dialética.

Todas essas inquietudes estão presentes no palco de Puzzle (d), espetáculo dialético dirigido por Felipe Hirsch com seu grupo Ultralíricos. Cercado de profissionais gabaritados da atuação, o diretor faz com que textos literários conversem e se tornem um deboche atrevido da ignorância do Brasil. Esfrega o dedo em muitas das feridas que o País faz questão de exibir, orgulhoso. É, antes de mais nada, uma obra necessária e desconcertante.

A peça é resultado de uma série de três espetáculos criados por conta do ano do Brasil na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, em 2013 (Puzzle (a), (b) e (c)), e sua quarta parte foi desenvolvida para a abertura do último festival Mirada, em Santos, em 2014.

Como diz o nome da obra, que em inglês significa quebra-cabeças, Hirsch constrói seu discurso na junção de peças distintas, formadas por textos de autores recentes: André Sant'Anna, Haroldo de Campos, Paulo Leminski e Roberto Bolaño, em pequenos monólogos defendidos por seus atores.

As palavras saem de modo visceral da boca do elenco coeso, que une técnica precisa ao talento evidente para a atuação: Georgette Fadel, Guilherme Weber, Javier Drolas, Luiz Paetöw, Luna Martinelli e Magali Biff.

Magali Biff é um assombro potente a cada aparição, fazendo de sua presença os melhores momentos do espetáculo. É dela a melhor atuação feminina até o momento neste ano nos palcos de São Paulo. Primeiramente, no monólogo irônico sobre a bondade do povo brasileiro. E, mais tarde, está digna de aplauso de pé pelo seu desempenho no texto que é uma verdadeira aula de introdução ao pensamento científico, forte, densa e nada sonolenta.

Outro detalhe que merece atenção é o fato de o ator argentino Javier Drolas falar na peça em seu idioma natal, o castelhano portenho, o que demonstra uma direção aberta à diversidade no palco e sem prisões às amarras mesquinhas da ignorância e do lugar-comum que diretores menos potentes dão aos artistas estrangeiros no País.

Weber demonstra eloquência ao fazer do palco um verdadeiro púlpito. Paetöw mergulha sem medo em uma proposta cheia de técnica e potência. Georgette conquista a todos com um portunhol safado e malandro, provocando o riso cúmplice. Enquanto Luna, mesmo com complicado texto de Bolaño sobre a entrada de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras, segura a cena, com sua atuação soturna e sempre precisa.

puzzle d adalto perin12 Crítica: Puzze (d) é deboche atrevido da ignorância do Brasil

Mestre do sentido, Felipe Hirsch tem elenco potente em Puzzle (d) - Foto: Adalto Perin

Tudo isso soa em cima de um palco no qual está evidente trabalho minucioso da direção de arte de Daniela Thomas e Felipe Tassara, que foge de nossa bandeira multicor para mergulhar tudo em tinta preta viscosa (atirada pelos atores destemidos no papel branco), repleta de significado poético o cenário — evidenciado pela luz dura proposta por Beto Bruel e em diálogo com o figurino sóbrio de Cristina Camargo — é gigante, mas frágil, tal qual nosso País, o gigante ignorante.

Dissolvente, a obra desconstrói chavões ufanistas aos quais o brasileiro se habituou, para criar uma imagem dilacerante e bem mais condizente com a realidade social contemporânea do País. Sai de cena a suposta cordialidade para entrar o ódio e a burrice presunçosa.

Em Puzzle (d), como um mestre do sentido, Felipe Hirsch fecha seu quebra-cabeça com a paciência de um menino persistente em sua brincadeira, que não desiste até que a junção das peças alcancem o resultado desejado. Assim, apresenta um retrato irônico e ao mesmo tempo despido de truques, que sacode o espectador e funciona como uma mensagem nada sutil, que diz, debochadamente: olha, seu bobo, o Brasil nem você são tão bons assim.

Puzzle (d)
Avaliação: Ótimo
Quando: Sexta e sábado, 21h, domingo, 18h. 70 min. Até 8/3/2015
Onde: Sesc Vila Mariana (r. Pelotas, 141, Vila Mariana, metrô Ana Rosa, São Paulo, tel. 0/xx/11 5080-3000)
Quanto: R$ 12 a R$ 40
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Otimo R7 Teatro PQ Crítica: Puzze (d) é deboche atrevido da ignorância do Brasil

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einat Crítica: Animais de Hábitos Noturnos mostra crueza do fracasso

A atriz Einat Fabel é o destaque da peça Animais de Hábitos Noturnos - Foto: Leekyung Kim

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Nem sempre os sonhos que temos para nós condizem com a realidade. E a não realização da expectativa sempre gera angústia e frustração. Estes sentimentos estão presentes na peça Animais de Hábitos Noturnos.

A obra tem texto e direção de Robson Phoenix, que se baseou na obra do gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996) — autor que soube como poucos dissecar o vazio da solidão na urbanidade.

No desfile de seres desiludidos, o clima soturno impera na obra, seja na escolha estética, casada com a própria temática, seja no caminho denso de atuação escolhido pela maioria do elenco, formado por André Fusko, Rodrigo Caetano, Wanessa Morgado e Einat Falbel.

Mas é esta última, ao propor um olhar irônico para o texto, que torna-se o destaque. Einat tem tempo preciso de fala e respiração que enchem de sentido, verdade e ironia qualquer coisa que diga. Assim, suas aparições são altamente interessantes e indispensáveis à obra.

andre fusko Crítica: Animais de Hábitos Noturnos mostra crueza do fracasso

O ator André Fusko em cena: atuação minimalista e convincente - Foto: Leekyung Kim

André Fusko consegue se sobressair no monólogo no qual faz um homem abandonado, em uma atuação minimalista e convincente. Faz a gente lembrar de como é dura a fossa. Porque, mesmo sem querer, a gente acaba conhecendo algum dia o outro lado do amor.

Se o tema da peça vai ao encontro de muitos espectadores, sobretudo por ser apresentada na praça Roosevelt, cenário onde os personagens poderiam facilmente perambular, o excesso narrativo e as reiterações acabam tirando  ritmo da obra. Um pouco de ação teria atenuado a sensação.

De todo modo, Animais de Hábitos Noturnos consegue construir sem julgamentos a dureza do fracasso e encontra no palco do Parlapatões, uma sala de teatro ao fundo de um movimentado bar, seu lugar ideal de diálogo artístico.

Animais de Hábitos Noturnos
Avaliação: Bom
Quando: Quinta e sexta, 21h. 80 min. Até 27/2/2015.
Onde: Espaço dos Parlapatões (praça Roosevelt, 158, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-4449)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 18 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Animais de Hábitos Noturnos mostra crueza do fracasso

 

 

 

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sobressalto matheus rocha Crítica: Eduardo Gomes cria atmosfera agonizante em Sobressalto

O ator Eduardo Gomes, em seu quarto, em cena de Sobressalto: teatro intimista - Foto: Matheus Rocha

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Numa cidade tão dura como São Paulo, onde as pessoas se empurram umas às outras sem que sejam ouvidas as palavras "desculpa" ou "com licença", um ator se propor a receber a plateia em seu quarto é um alento de humanidade. É isto que acontece em Sobressalto.

Talvez tamanha hospitalidade seja porque o ator Eduardo Gomes tenha um excesso de sensibilidade incomum na grande metrópole hostil. Talvez também porque seja baiano, povo que sempre soube exercer muito bem a arte de ser anfitrião.

Fato é que Eduardo deixa o diminuto público de cada sessão — são recebidas de uma a cinco pessoas apenas por apresentação, que agendam previamente sua ida com o próprio ator por meio de mensagem privada no Facebook — à vontade em seu apartamento.

Assim que adentra a sala, o espectador pode encontrar-se só ou dar-se de cara com os outros colegas de sessão. O ator não está por ali. O anfitrião apenas está presente nas letras a giz em um quadro com orientações de como proceder e encontrá-lo no espaço de encenação: seu quarto. Tudo é feito de forma exclusiva e aconchegante.

Sobressalto traz a angústia da morte à espreita. É resultado de uma inquietação do ator, que também dirige a obra, a partir do conto A Outra Costela da Morte, do escritor colombiano Gabriel García Márquez.

Na sessão vista pelo Atores & Bastidores do R7, em uma noite quente, cada espectador experimentou na própria pele o ar se tornar cada vez mais pesado e sufocante, enquanto o texto soava tal qual um mantra.

Quando, enfim, o ar se renovou, com a janela aberta diante de frondosa árvore em meio aos prédios, foi como se a vida voltasse outra vez, experiência sensorial que casou perfeitamente com o clima agonizante do texto narrativo saído da boca do ator.

Atento ao mínimo, Eduardo Gomes, em Sobressalto, cria atmosfera densa e propícia para que o simples respiro torne-se consciente e valorizado. Esta minúcia estética é o mérito da obra.

Sobressalto
Avaliação: Muito bom
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Eduardo Gomes cria atmosfera agonizante em Sobressalto

sobressalto matheus rocha 2 Crítica: Eduardo Gomes cria atmosfera agonizante em Sobressalto

Peça Sobressalto faz o espectador valorizar o simples ato de respirar - Foto: Matheus Rocha

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 Crítica: As Noviças Rebeldes é volta melancólica a sucesso do passado

As Noviças Rebeldes: falta tempo de humor ao novo elenco de Wolf Maya - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Como diz Gilberto Gil, “toda menina baiana tem um jeito, que Deus dá”. E todo menino baiano também.

Por isso, a versão dos anos 1990 para As Noviças Rebeldes de Wolf Maya, com os atores da Cia. Baiana de Patifaria, entrou para a história do teatro brasileiro recente, tamanha a quantidade de gargalhadas que a plateia dava.

O êxito foi tanto que os baianos foram com Wolf para Nova York, onde ficaram hospedados na casa do autor, Dan Goggin, e conquistaram o circuito off-Broadway por duas semanas, rendendo elogios até do sisudo The New York Times.

Pois a nova versão da peça, dirigida pelo mesmo Wolf, mas com um elenco absolutamente técnico, não tem o apelo da montagem anterior. É uma espécie de volta melancólica a um sucesso do passado.

Na nova versão, até sobra precisão vocal, mas falta alma, graça, caco. Falta vida pulsante e real no palco. E este era o segredo do sucesso da versão brasileira-baiana da peça.

O novo elenco é formado por Soraya Ravenle, Sabrina Korgut, Helga Nemeczyk, Carol Puntel, Simony Lino e Mauricio Xavier — único homem do elenco e espécie de homenagem à versão consagrada.

O texto de Dan Goggin, adaptado por Flávio Marinho, mostra um grupo de cinco freirinhas que resolvem fazer uma “apresentação artística” para angariar fundos para o enterro de um grupo de irmãs falecidas após tomar sopa com data de validade vencida.

O enredo é mesmo absurdo. Trata-se apenas uma deixa para que o show das irmãs aconteça, desvendando as estrelas que habitam dentro de cada uma delas e levando o público a se divertir com o inusitado.

O novo elenco, garimpado no mercado dos musicais recentes, tem domínio técnico e canta bem. Mas não consegue segurar o tempo de comédia.

Quando falam, quase tudo soa forçado e artificial, tal qual o cenário que está mais para mesquita muçulmana do que para convento católico.

Sabrina Korgut é a única que consegue algum grau de verdade,  quando faz dueto consigo mesma e seu fantoche de freira desbocada — número que já tem meio caminho andado para divertir o público.

A falta de precisão nas coreografias provoca a dúvida: será que o elenco está dançando mal porque as freirinhas não sabem dançar direito ou será que realmente a coreografia está suja?

As Noviças Rebeldes é um espetáculo que só funciona quando tem atuadores com tempo nato de comédia, aquele talento único que se nasce com ele, ou não há conversa. E é a falta gritante desta dádiva divina o grande problema da montagem atual.

As Noviças Rebeldes
Avaliação: Regular
Quando: Sexta e sábado, 21h30, domingo, 19h. 80 min. Até 8/3/2015
Onde: Theatro NET São Paulo (r. Olimpíadas, 360, shopping Vila Olímpia, São Paulo, tel. 0/xx/11 4003-1212)
Quanto: R$ 150 (plateia) e R$ 100 (balcão)
Classificação etária: 12 anos
Avalicacao Regular R7 Teatro PQ Crítica: As Noviças Rebeldes é volta melancólica a sucesso do passado

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como matar a mae 3 atos guto muniz 1 Crítica: Como Matar a Mãe   3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

Cena da peça Como Matar a Mãe - 3 Atos: montagem de estreia da Sofisticada Companhia de Teatro encerrou a Satyrianas no palco da SP Escola de Teatro - Foto: Guto Muniz

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Mãe muitas vezes é ferida complicada, muito profunda. Amor de mãe dói tanto quanto amor de filho. É difícil cortar o cordão umbilical. Muitas coisas ficam pelo caminho, muitas expectativas, exigências, frases ditas, não ditas, possíveis e impossíveis realidades.

Foi tudo isso que a mineira Sofisticada Companhia de Teatro resolveu propor no espetáculo que encerrou a Satyrianas 2014: Como Matar a Mãe - 3 Atos. A montagem não poderia ser mais apropriada para ser a última peça do evento teatral que tem seu epicentro na praça Roosevelt, lugar de muita gente que precisou deixar a mãe para trás para simplesmente seguir em frente e ser.

Como Matar a Mãe - 3 Atos é uma grande catarse. Daquelas necessárias para deixar (em parte) a dor para trás. Bebendo na fonte das grandes figuras maternas do teatro, a obra traz o dilema da relação mãe-filho para o presente e a vida dos artistas no palco, transformando tudo em arte potente, dilacerante.

Os três atores-diretores, Fabiane Aguiar, Léo Kildare Louback e Soraya Martins descortinam parte das próprias relações com suas mães, mas o fazem de forma poética e sensível. E, por isso, tão tocante.

como matar a mae 3 atos guto muniz 2 Crítica: Como Matar a Mãe   3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

Como Matar a Mãe - 3 Atos: biografias se misturam a mitos maternos do teatro - Foto: Guto Muniz

A peça traz a sofisticação de ter trilha executada ao vivo, pelo pianista Thiago Quintino e a cantora apaixonada por cada verso Karine Amorim, o que torna tudo mais pungente. A referência explícita a Almodóvar com a canção Puro Teatro é um dos momentos fortes do espetáculo.

Sempre em jogo e vestindo figurino simples e impactantes ao mesmo tempo, os artistas contam suas histórias-desabafos. Ora são os filhos, ora as próprias mães. Algumas são mais fáceis de serem digeridas, outras ficam atravessadas na garganta.

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Os atores Soraya Martins e Léo Kildare Louback: duelo cênico potente - Foto: Guto Muniz

Uma cena potente é o embate entre os atores Léo Kildare Louback e Soraya Martins, presentes e intensos. Léo na pele de uma mãe arraigada em sua visão de mundo que fere profundamente a filha, papel de Soraya.

Neste duelo cênico, o racismo ganha contornos familiares-afetivos e é justificado pelo amor. E a grande pergunta inquietante que se deixa, ao fim, é: afinal, amor de mãe justifica tudo?

Pelo jeito, a negação do outro não reduz o sofrimento que este possa ter; muito pelo contrário, o aumenta, provocando dores intransponíveis, profundas.

Mas, para quem deseja sobreviver e se reconstruir com base na própria cabeça, só resta seguir em frente e tentar poetizar as relações reais, transformando-as em arte, coisas que os artistas da Sofisticada Companhia de Teatro fazem muito bem. E isso acaba sendo uma forma de matar a mãe, mas também de deixá-la viva ao mesmo tempo.

como matar a mae 3 atos guto muniz 4 Crítica: Como Matar a Mãe   3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

Fabiane Aguiar, Léo Kildare Louback e Soraya Martins formam a Sofisticada Companhia de Teatro - Foto: Guto Muniz

Com Matar a Mãe - 3 Atos
Avaliação: Muito Bom
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Como Matar a Mãe   3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

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unnamed 2 Crítica: Tão Pesado Quanto o Céu é lirismo interiorano na metrópole de puro concreto

Cena da peça Tão Pesado Quanto o Céu, do autor Ricardo Inhan - Foto: Adrianne Lopes

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Assim que o espectador chega para assistir à peça Tão Pesado Quanto o Céu, é convidado a ocupar os balanços distribuídos pelo espaço e onde estão também os dois atores: Pedro Stempniewski e Ricardo Henrique.

É tudo silêncio enquanto cada qual busca seu rumo, seu lugar. Quem escolhe os balanços se aproxima da infância, do tempo dos sonhos, da simplicidade da vida.

Quem precisa de uma base imóvel escolhe as poltronas distribuídas pelo espaço, onde atuadores e público estão juntos, cúmplices.

A direção de Mariana Vaz (com assistência de Stella Garcia) aposta no jogo dos atores e na fragmentação para construir o que o autor Ricardo Inhan chama de "peça hQ". Apesar de em alguns momentos o primeiro sobressair, tanto Ricardo quanto Pedro estão ali, presentes, jogando. A gente sente.

unnamed 4 Crítica: Tão Pesado Quanto o Céu é lirismo interiorano na metrópole de puro concreto

Tão Pesado Quanto o Céu: olhar lírico para a vida interiorana reprimida - Foto: Adrianne Lopes

A obra pode ser vista como um olhar lírico para a vida interiorana, onde o ir-se parece ser mais desejável do que ficar no pacato cotidiano onde nada (?) acontece. E, enquanto se espera a fuga para o movimento futuro, muito se passa, mesmo que tudo pareça igual. Há, naquela cidade pequena, uma impossibilidade de relação entre os dois personagens, um desejo reprimido, mas latente, que já não aguenta mais ficar trancado.

A este crítico, a peça ainda ganhou novo significado apresentada em um lugar frenético como São Paulo. A impossibilidade de relacionamento como se apresenta no contexto da peça ganha nova dimensão em um contexto paulistano, onde as relações também são difíceis, onde o tempo nunca basta e o excesso cansa. O paralelo deixa a peça mais poética e provocativa.

As falas dos dois homens, que ora estão no corpo de um ator, ora no do outro, são como balões de uma revistinha de histórias em quadrinhos cuja página seguinte foi rasgada.

Mais que a historinha para ser entendida, há no palco um estado, uma angústia.

Diante da crueldade de São Paulo, a peça, com seu ar fresco de descoberta da sexualidade, remete àqueles tempos adolescentes (longe daqui, para os forasteiros), repletos da necessidade de se alçar voo, tal qual um pássaro que ainda não sabe que o céu pode ser muito pesado.

unnamed 3 Crítica: Tão Pesado Quanto o Céu é lirismo interiorano na metrópole de puro concreto

Ricardo Henrique e Pedro Stempniewski em cena sob direção de Mariana Vaz: Tão Pesado Quanto o Céu - Foto: Adrianne Lopes

Tão Pesado Quanto o Céu
Avaliação: Bom
Quando: Sábado (15) e domingo (16), 20h. 55 min. Até 16/11/2014
Onde: Funarte São Paulo (al. Nothmann, 1058, metrô Santa Cecília, São Paulo, tel. 0/xx/11 3662-5177)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Tão Pesado Quanto o Céu é lirismo interiorano na metrópole de puro concreto

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