Posts com a tag "crítica"

Puzzled foto Adauto Perin 7 Crítica: Puzze (d) é deboche atrevido da ignorância do Brasil

A atriz Magali Biff em cena de Puzzle (d): um retrato desconcertante de nós - Foto: Adalto Perin

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Os tempos não andam fáceis. No cenário nacional, vemos uma onda crescente de conservadorismo e enfrentamento sem necessidade de uma argumentação racional. Tudo isso marcado pelo desrespeito à diferença do outro, talvez fruto de uma explosiva mistura de política e religião.

A mesma mistura colérica também assusta o mundo lá fora, em demonstrações cada vez mais irracionais de intolerância e necessidade de imposição de uma visão por meio de força violenta. Parece que o mundo esqueceu-se da dialética.

Todas essas inquietudes estão presentes no palco de Puzzle (d), espetáculo dialético dirigido por Felipe Hirsch com seu grupo Ultralíricos. Cercado de profissionais gabaritados da atuação, o diretor faz com que textos literários conversem e se tornem um deboche atrevido da ignorância do Brasil. Esfrega o dedo em muitas das feridas que o País faz questão de exibir, orgulhoso. É, antes de mais nada, uma obra necessária e desconcertante.

A peça é resultado de uma série de três espetáculos criados por conta do ano do Brasil na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, em 2013 (Puzzle (a), (b) e (c)), e sua quarta parte foi desenvolvida para a abertura do último festival Mirada, em Santos, em 2014.

Como diz o nome da obra, que em inglês significa quebra-cabeças, Hirsch constrói seu discurso na junção de peças distintas, formadas por textos de autores recentes: André Sant'Anna, Haroldo de Campos, Paulo Leminski e Roberto Bolaño, em pequenos monólogos defendidos por seus atores.

As palavras saem de modo visceral da boca do elenco coeso, que une técnica precisa ao talento evidente para a atuação: Georgette Fadel, Guilherme Weber, Javier Drolas, Luiz Paetöw, Luna Martinelli e Magali Biff.

Magali Biff é um assombro potente a cada aparição, fazendo de sua presença os melhores momentos do espetáculo. É dela a melhor atuação feminina até o momento neste ano nos palcos de São Paulo. Primeiramente, no monólogo irônico sobre a bondade do povo brasileiro. E, mais tarde, está digna de aplauso de pé pelo seu desempenho no texto que é uma verdadeira aula de introdução ao pensamento científico, forte, densa e nada sonolenta.

Outro detalhe que merece atenção é o fato de o ator argentino Javier Drolas falar na peça em seu idioma natal, o castelhano portenho, o que demonstra uma direção aberta à diversidade no palco e sem prisões às amarras mesquinhas da ignorância e do lugar-comum que diretores menos potentes dão aos artistas estrangeiros no País.

Weber demonstra eloquência ao fazer do palco um verdadeiro púlpito. Paetöw mergulha sem medo em uma proposta cheia de técnica e potência. Georgette conquista a todos com um portunhol safado e malandro, provocando o riso cúmplice. Enquanto Luna, mesmo com complicado texto de Bolaño sobre a entrada de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras, segura a cena, com sua atuação soturna e sempre precisa.

puzzle d adalto perin12 Crítica: Puzze (d) é deboche atrevido da ignorância do Brasil

Mestre do sentido, Felipe Hirsch tem elenco potente em Puzzle (d) - Foto: Adalto Perin

Tudo isso soa em cima de um palco no qual está evidente trabalho minucioso da direção de arte de Daniela Thomas e Felipe Tassara, que foge de nossa bandeira multicor para mergulhar tudo em tinta preta viscosa (atirada pelos atores destemidos no papel branco), repleta de significado poético o cenário — evidenciado pela luz dura proposta por Beto Bruel e em diálogo com o figurino sóbrio de Cristina Camargo — é gigante, mas frágil, tal qual nosso País, o gigante ignorante.

Dissolvente, a obra desconstrói chavões ufanistas aos quais o brasileiro se habituou, para criar uma imagem dilacerante e bem mais condizente com a realidade social contemporânea do País. Sai de cena a suposta cordialidade para entrar o ódio e a burrice presunçosa.

Em Puzzle (d), como um mestre do sentido, Felipe Hirsch fecha seu quebra-cabeça com a paciência de um menino persistente em sua brincadeira, que não desiste até que a junção das peças alcancem o resultado desejado. Assim, apresenta um retrato irônico e ao mesmo tempo despido de truques, que sacode o espectador e funciona como uma mensagem nada sutil, que diz, debochadamente: olha, seu bobo, o Brasil nem você são tão bons assim.

Puzzle (d)
Avaliação: Ótimo
Quando: Sexta e sábado, 21h, domingo, 18h. 70 min. Até 8/3/2015
Onde: Sesc Vila Mariana (r. Pelotas, 141, Vila Mariana, metrô Ana Rosa, São Paulo, tel. 0/xx/11 5080-3000)
Quanto: R$ 12 a R$ 40
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Otimo R7 Teatro PQ Crítica: Puzze (d) é deboche atrevido da ignorância do Brasil

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einat Crítica: Animais de Hábitos Noturnos mostra crueza do fracasso

A atriz Einat Fabel é o destaque da peça Animais de Hábitos Noturnos - Foto: Leekyung Kim

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Nem sempre os sonhos que temos para nós condizem com a realidade. E a não realização da expectativa sempre gera angústia e frustração. Estes sentimentos estão presentes na peça Animais de Hábitos Noturnos.

A obra tem texto e direção de Robson Phoenix, que se baseou na obra do gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996) — autor que soube como poucos dissecar o vazio da solidão na urbanidade.

No desfile de seres desiludidos, o clima soturno impera na obra, seja na escolha estética, casada com a própria temática, seja no caminho denso de atuação escolhido pela maioria do elenco, formado por André Fusko, Rodrigo Caetano, Wanessa Morgado e Einat Falbel.

Mas é esta última, ao propor um olhar irônico para o texto, que torna-se o destaque. Einat tem tempo preciso de fala e respiração que enchem de sentido, verdade e ironia qualquer coisa que diga. Assim, suas aparições são altamente interessantes e indispensáveis à obra.

andre fusko Crítica: Animais de Hábitos Noturnos mostra crueza do fracasso

O ator André Fusko em cena: atuação minimalista e convincente - Foto: Leekyung Kim

André Fusko consegue se sobressair no monólogo no qual faz um homem abandonado, em uma atuação minimalista e convincente. Faz a gente lembrar de como é dura a fossa. Porque, mesmo sem querer, a gente acaba conhecendo algum dia o outro lado do amor.

Se o tema da peça vai ao encontro de muitos espectadores, sobretudo por ser apresentada na praça Roosevelt, cenário onde os personagens poderiam facilmente perambular, o excesso narrativo e as reiterações acabam tirando  ritmo da obra. Um pouco de ação teria atenuado a sensação.

De todo modo, Animais de Hábitos Noturnos consegue construir sem julgamentos a dureza do fracasso e encontra no palco do Parlapatões, uma sala de teatro ao fundo de um movimentado bar, seu lugar ideal de diálogo artístico.

Animais de Hábitos Noturnos
Avaliação: Bom
Quando: Quinta e sexta, 21h. 80 min. Até 27/2/2015.
Onde: Espaço dos Parlapatões (praça Roosevelt, 158, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-4449)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 18 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Animais de Hábitos Noturnos mostra crueza do fracasso

 

 

 

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sobressalto matheus rocha Crítica: Eduardo Gomes cria atmosfera agonizante em Sobressalto

O ator Eduardo Gomes, em seu quarto, em cena de Sobressalto: teatro intimista - Foto: Matheus Rocha

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Numa cidade tão dura como São Paulo, onde as pessoas se empurram umas às outras sem que sejam ouvidas as palavras "desculpa" ou "com licença", um ator se propor a receber a plateia em seu quarto é um alento de humanidade. É isto que acontece em Sobressalto.

Talvez tamanha hospitalidade seja porque o ator Eduardo Gomes tenha um excesso de sensibilidade incomum na grande metrópole hostil. Talvez também porque seja baiano, povo que sempre soube exercer muito bem a arte de ser anfitrião.

Fato é que Eduardo deixa o diminuto público de cada sessão — são recebidas de uma a cinco pessoas apenas por apresentação, que agendam previamente sua ida com o próprio ator por meio de mensagem privada no Facebook — à vontade em seu apartamento.

Assim que adentra a sala, o espectador pode encontrar-se só ou dar-se de cara com os outros colegas de sessão. O ator não está por ali. O anfitrião apenas está presente nas letras a giz em um quadro com orientações de como proceder e encontrá-lo no espaço de encenação: seu quarto. Tudo é feito de forma exclusiva e aconchegante.

Sobressalto traz a angústia da morte à espreita. É resultado de uma inquietação do ator, que também dirige a obra, a partir do conto A Outra Costela da Morte, do escritor colombiano Gabriel García Márquez.

Na sessão vista pelo Atores & Bastidores do R7, em uma noite quente, cada espectador experimentou na própria pele o ar se tornar cada vez mais pesado e sufocante, enquanto o texto soava tal qual um mantra.

Quando, enfim, o ar se renovou, com a janela aberta diante de frondosa árvore em meio aos prédios, foi como se a vida voltasse outra vez, experiência sensorial que casou perfeitamente com o clima agonizante do texto narrativo saído da boca do ator.

Atento ao mínimo, Eduardo Gomes, em Sobressalto, cria atmosfera densa e propícia para que o simples respiro torne-se consciente e valorizado. Esta minúcia estética é o mérito da obra.

Sobressalto
Avaliação: Muito bom
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Eduardo Gomes cria atmosfera agonizante em Sobressalto

sobressalto matheus rocha 2 Crítica: Eduardo Gomes cria atmosfera agonizante em Sobressalto

Peça Sobressalto faz o espectador valorizar o simples ato de respirar - Foto: Matheus Rocha

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 Crítica: As Noviças Rebeldes é volta melancólica a sucesso do passado

As Noviças Rebeldes: falta tempo de humor ao novo elenco de Wolf Maya - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Como diz Gilberto Gil, “toda menina baiana tem um jeito, que Deus dá”. E todo menino baiano também.

Por isso, a versão dos anos 1990 para As Noviças Rebeldes de Wolf Maya, com os atores da Cia. Baiana de Patifaria, entrou para a história do teatro brasileiro recente, tamanha a quantidade de gargalhadas que a plateia dava.

O êxito foi tanto que os baianos foram com Wolf para Nova York, onde ficaram hospedados na casa do autor, Dan Goggin, e conquistaram o circuito off-Broadway por duas semanas, rendendo elogios até do sisudo The New York Times.

Pois a nova versão da peça, dirigida pelo mesmo Wolf, mas com um elenco absolutamente técnico, não tem o apelo da montagem anterior. É uma espécie de volta melancólica a um sucesso do passado.

Na nova versão, até sobra precisão vocal, mas falta alma, graça, caco. Falta vida pulsante e real no palco. E este era o segredo do sucesso da versão brasileira-baiana da peça.

O novo elenco é formado por Soraya Ravenle, Sabrina Korgut, Helga Nemeczyk, Carol Puntel, Simony Lino e Mauricio Xavier — único homem do elenco e espécie de homenagem à versão consagrada.

O texto de Dan Goggin, adaptado por Flávio Marinho, mostra um grupo de cinco freirinhas que resolvem fazer uma “apresentação artística” para angariar fundos para o enterro de um grupo de irmãs falecidas após tomar sopa com data de validade vencida.

O enredo é mesmo absurdo. Trata-se apenas uma deixa para que o show das irmãs aconteça, desvendando as estrelas que habitam dentro de cada uma delas e levando o público a se divertir com o inusitado.

O novo elenco, garimpado no mercado dos musicais recentes, tem domínio técnico e canta bem. Mas não consegue segurar o tempo de comédia.

Quando falam, quase tudo soa forçado e artificial, tal qual o cenário que está mais para mesquita muçulmana do que para convento católico.

Sabrina Korgut é a única que consegue algum grau de verdade,  quando faz dueto consigo mesma e seu fantoche de freira desbocada — número que já tem meio caminho andado para divertir o público.

A falta de precisão nas coreografias provoca a dúvida: será que o elenco está dançando mal porque as freirinhas não sabem dançar direito ou será que realmente a coreografia está suja?

As Noviças Rebeldes é um espetáculo que só funciona quando tem atuadores com tempo nato de comédia, aquele talento único que se nasce com ele, ou não há conversa. E é a falta gritante desta dádiva divina o grande problema da montagem atual.

As Noviças Rebeldes
Avaliação: Regular
Quando: Sexta e sábado, 21h30, domingo, 19h. 80 min. Até 8/3/2015
Onde: Theatro NET São Paulo (r. Olimpíadas, 360, shopping Vila Olímpia, São Paulo, tel. 0/xx/11 4003-1212)
Quanto: R$ 150 (plateia) e R$ 100 (balcão)
Classificação etária: 12 anos
Avalicacao Regular R7 Teatro PQ Crítica: As Noviças Rebeldes é volta melancólica a sucesso do passado

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como matar a mae 3 atos guto muniz 1 Crítica: Como Matar a Mãe   3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

Cena da peça Como Matar a Mãe - 3 Atos: montagem de estreia da Sofisticada Companhia de Teatro encerrou a Satyrianas no palco da SP Escola de Teatro - Foto: Guto Muniz

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Mãe muitas vezes é ferida complicada, muito profunda. Amor de mãe dói tanto quanto amor de filho. É difícil cortar o cordão umbilical. Muitas coisas ficam pelo caminho, muitas expectativas, exigências, frases ditas, não ditas, possíveis e impossíveis realidades.

Foi tudo isso que a mineira Sofisticada Companhia de Teatro resolveu propor no espetáculo que encerrou a Satyrianas 2014: Como Matar a Mãe - 3 Atos. A montagem não poderia ser mais apropriada para ser a última peça do evento teatral que tem seu epicentro na praça Roosevelt, lugar de muita gente que precisou deixar a mãe para trás para simplesmente seguir em frente e ser.

Como Matar a Mãe - 3 Atos é uma grande catarse. Daquelas necessárias para deixar (em parte) a dor para trás. Bebendo na fonte das grandes figuras maternas do teatro, a obra traz o dilema da relação mãe-filho para o presente e a vida dos artistas no palco, transformando tudo em arte potente, dilacerante.

Os três atores-diretores, Fabiane Aguiar, Léo Kildare Louback e Soraya Martins descortinam parte das próprias relações com suas mães, mas o fazem de forma poética e sensível. E, por isso, tão tocante.

como matar a mae 3 atos guto muniz 2 Crítica: Como Matar a Mãe   3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

Como Matar a Mãe - 3 Atos: biografias se misturam a mitos maternos do teatro - Foto: Guto Muniz

A peça traz a sofisticação de ter trilha executada ao vivo, pelo pianista Thiago Quintino e a cantora apaixonada por cada verso Karine Amorim, o que torna tudo mais pungente. A referência explícita a Almodóvar com a canção Puro Teatro é um dos momentos fortes do espetáculo.

Sempre em jogo e vestindo figurino simples e impactantes ao mesmo tempo, os artistas contam suas histórias-desabafos. Ora são os filhos, ora as próprias mães. Algumas são mais fáceis de serem digeridas, outras ficam atravessadas na garganta.

como matar a mae 3 atos guto muniz 3 Crítica: Como Matar a Mãe   3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

Os atores Soraya Martins e Léo Kildare Louback: duelo cênico potente - Foto: Guto Muniz

Uma cena potente é o embate entre os atores Léo Kildare Louback e Soraya Martins, presentes e intensos. Léo na pele de uma mãe arraigada em sua visão de mundo que fere profundamente a filha, papel de Soraya.

Neste duelo cênico, o racismo ganha contornos familiares-afetivos e é justificado pelo amor. E a grande pergunta inquietante que se deixa, ao fim, é: afinal, amor de mãe justifica tudo?

Pelo jeito, a negação do outro não reduz o sofrimento que este possa ter; muito pelo contrário, o aumenta, provocando dores intransponíveis, profundas.

Mas, para quem deseja sobreviver e se reconstruir com base na própria cabeça, só resta seguir em frente e tentar poetizar as relações reais, transformando-as em arte, coisas que os artistas da Sofisticada Companhia de Teatro fazem muito bem. E isso acaba sendo uma forma de matar a mãe, mas também de deixá-la viva ao mesmo tempo.

como matar a mae 3 atos guto muniz 4 Crítica: Como Matar a Mãe   3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

Fabiane Aguiar, Léo Kildare Louback e Soraya Martins formam a Sofisticada Companhia de Teatro - Foto: Guto Muniz

Com Matar a Mãe - 3 Atos
Avaliação: Muito Bom
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Como Matar a Mãe   3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

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unnamed 2 Crítica: Tão Pesado Quanto o Céu é lirismo interiorano na metrópole de puro concreto

Cena da peça Tão Pesado Quanto o Céu, do autor Ricardo Inhan - Foto: Adrianne Lopes

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Assim que o espectador chega para assistir à peça Tão Pesado Quanto o Céu, é convidado a ocupar os balanços distribuídos pelo espaço e onde estão também os dois atores: Pedro Stempniewski e Ricardo Henrique.

É tudo silêncio enquanto cada qual busca seu rumo, seu lugar. Quem escolhe os balanços se aproxima da infância, do tempo dos sonhos, da simplicidade da vida.

Quem precisa de uma base imóvel escolhe as poltronas distribuídas pelo espaço, onde atuadores e público estão juntos, cúmplices.

A direção de Mariana Vaz (com assistência de Stella Garcia) aposta no jogo dos atores e na fragmentação para construir o que o autor Ricardo Inhan chama de "peça hQ". Apesar de em alguns momentos o primeiro sobressair, tanto Ricardo quanto Pedro estão ali, presentes, jogando. A gente sente.

unnamed 4 Crítica: Tão Pesado Quanto o Céu é lirismo interiorano na metrópole de puro concreto

Tão Pesado Quanto o Céu: olhar lírico para a vida interiorana reprimida - Foto: Adrianne Lopes

A obra pode ser vista como um olhar lírico para a vida interiorana, onde o ir-se parece ser mais desejável do que ficar no pacato cotidiano onde nada (?) acontece. E, enquanto se espera a fuga para o movimento futuro, muito se passa, mesmo que tudo pareça igual. Há, naquela cidade pequena, uma impossibilidade de relação entre os dois personagens, um desejo reprimido, mas latente, que já não aguenta mais ficar trancado.

A este crítico, a peça ainda ganhou novo significado apresentada em um lugar frenético como São Paulo. A impossibilidade de relacionamento como se apresenta no contexto da peça ganha nova dimensão em um contexto paulistano, onde as relações também são difíceis, onde o tempo nunca basta e o excesso cansa. O paralelo deixa a peça mais poética e provocativa.

As falas dos dois homens, que ora estão no corpo de um ator, ora no do outro, são como balões de uma revistinha de histórias em quadrinhos cuja página seguinte foi rasgada.

Mais que a historinha para ser entendida, há no palco um estado, uma angústia.

Diante da crueldade de São Paulo, a peça, com seu ar fresco de descoberta da sexualidade, remete àqueles tempos adolescentes (longe daqui, para os forasteiros), repletos da necessidade de se alçar voo, tal qual um pássaro que ainda não sabe que o céu pode ser muito pesado.

unnamed 3 Crítica: Tão Pesado Quanto o Céu é lirismo interiorano na metrópole de puro concreto

Ricardo Henrique e Pedro Stempniewski em cena sob direção de Mariana Vaz: Tão Pesado Quanto o Céu - Foto: Adrianne Lopes

Tão Pesado Quanto o Céu
Avaliação: Bom
Quando: Sábado (15) e domingo (16), 20h. 55 min. Até 16/11/2014
Onde: Funarte São Paulo (al. Nothmann, 1058, metrô Santa Cecília, São Paulo, tel. 0/xx/11 3662-5177)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Tão Pesado Quanto o Céu é lirismo interiorano na metrópole de puro concreto

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preto no branco1 Crítica: Preto no Branco reforça o preconceito

Bruna Thedy e Sidney Santiago Kuanza em cena da peça Preto no Branco - Foto: Ronaldo Gutierrez

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

 "A carne mais barata do mercado é a carne negra"
 (A Carne, de Seu Jorge, Marcelo Yuka e Ulisses Cappelletti, na voz de Elza Soares)

Antes de mais nada, é preciso deixar claro que o diretor Zé Henrique de Paula e seu Núcleo Experimental são artistas talentosos, aguerridos, de boa vontade e que afirmam buscar melhorar a sociedade na qual fazem sua arte, mesmo que haja, neste caminho, tropeços imprevisíveis.

É preciso reconhecer tal qualidade do grupo e de seu diretor. Posto isto, passemos a explicar o porquê da perplexidade diante do espetáculo Preto no Branco, em cartaz em São Paulo.

Após tocar no tema da homossexualidade na peça Ou Você Poderia me Beijar, de forma sutil e poética, Zé Henrique de Paula e seu Núcleo Experimental resolveram falar de racismo de uma forma dura e cruel.

Efeito colateral

O texto combina violência com a ironia típica do humor inglês — distante da plateia brasileira, que insiste em enxergá-lo de forma literal.Assim, o discurso desejado tem efeito contrário.

preto no branco 21 Crítica: Preto no Branco reforça o preconceito

Clara Carvalho e Marco Antônio Pâmio em cena da peça Preto no Branco - Foto: Ronaldo Gutierrez

Preto no Branco é um discurso (branco) sobre o racismo que os negros sofrem. Isso começa no próprio título brasileiro, que sugere uma invasão negra de um espaço previamente do branco (o título original inglês é menos explícito em relação ao enfrentamento racial: Mirror Teeth, "dentes no espelho").

Pensada originalmente para a sociedade inglesa, a peça, ao ser transposta para outra realidade, a brasileira, que vive um momento de ebulição de seus preconceitos, jogando por terra o mito de povo cordial, ganha novos contornos, novos significados e novas apreensões. Assim, a peça, no encontro com o público brasileiro, acaba subvertida.

Gargalhadas preconceituosas

A autoria é do jovem britânico (branco) Nick Gill, que parece ter tido boa intenção ao escrever a obra. O recurso que ele utiliza é evidenciar a problemática, expondo padrões de comportamento preconceituosos em relação ao negro (e também às mulheres). Só que, em vez de a obra tornar-se uma experiência pedagógica para o público brasileiro, opera como reforço do preconceito que deseja combater.

Na sessão vista pelo R7, grande parte da plateia se identificou com a família (branca) racista. Cada frase preconceituosa no palco gerava gargalhadas. E o texto é repleto de frases duras e cruéis que, ditas fora do palco, levariam à prisão a quem as proferisse.

Em forma de riso, parte do público desvenda um racismo velado, que não deixa de ofender e oprimir. Esta encenação possibilita isso. Uma analogia possível seria colocar judeus para ouvirem piadas no palco sobre o holocausto e ainda terem o espectador da poltrona ao lado gargalhando.

Lembrando o teórico francês do teatro contemporâneo Jean-Pierre Serrazac, no seu livro Crítica do Teatro, "o espectador compreende se é compreendido e só é compreendido se compreender”. Assim, o espetáculo, pensado como um alerta, torna-se uma aberração de si próprio no encontro com um espectador que não consegue dialogar com a ironia proposta pela dramaturgia.

Diante da proposta estética, parte do público se sente à vontade para externar seu preconceito também.

preto no branco 31 Crítica: Preto no Branco reforça o preconceito

Thiago Carreira e Bruna Thedy na peça Preto no Branco - Foto: Ronaldo Gutierrez

O pensado originalmente em Preto no Branco é pervertido por seu estilo realista, que faz com que o público se identifique com os personagens arquetípicos de uma família classe média branca racista e, mais ainda, pela potência das atuações de seu talentoso elenco: Clara Carvalho (a mãe), Marco Antônio Pâmio (o pai), Thiago Carreira (o filho), Bruna Thedy (a filha e a namorada do filho) e Sidney Santiago Kuanza (o jovem namorado negro e um policial negro).

O papel do negro

O enredo se baseia na história de uma família que se espanta com o novo namorado da filha, negro e muçulmano. E segue apresentando como esta família lida com o “incômodo” dentro de casa. A encenação respeita as gags de humor propostas pela dramaturgia, com entradas e saídas de atores ao modo vaudeville.

Em Preto no Branco o lugar do negro é: inferior, subalterno, submisso, desejável só para a prática sexual, assediado, subjugado, aliciado e estuprador.

Basta ver o percurso do único ator negro na obra. O primeiro personagem, o jovem namorado (negro), aceita as humilhações às quais é exposto sem revidar, até ser persuadido a tornar-se uma espécie de capanga do pai (branco) da namorada, para ser parte da família.

O segundo personagem, o jovem policial (negro) que investiga um crime ocorrido, a princípio aparece como um possível redentor. Mas, logo é subjugado e incentivado pela família (branca) a cometer um crime bárbaro, que no discurso racista da própria peça seria comum aos negros.

Para que não haja dúvidas, o crime hediondo (cometido contra uma jovem branca desacordada) é apresentado de forma violenta e realista até que as luzes se apagam. Esta é a última imagem do negro que a peça deixa.

PS. Seria interessante (e provocante) para a realidade da plateia brasileira uma encenação que propusesse o enredo da peça com uma família negra se espantando com o namorado branco da filha.

Preto no Branco
Avaliação: Fraco
Quando: Sexta, 20h; sábado, 19h; domingo, 18h. 90 min. Até 30/11/2014
Onde: Sesc Bom Retiro (al. Nothmann, 185, Bom Retiro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3332-3600)
Quanto: R$ 30 (inteira); R$ 15 (meia-entrada); R$ 9 (comerciários e dependentes)
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Fraco R7 Teatro PQ Crítica: Preto no Branco reforça o preconceito

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rei leao1 Crítica: Musical O Rei Leão enche olhos do público

Tiago Barbosa como Simba, protagonista de O Rei Leão: produção funciona mesmo com atuações irregulares; musical teve investimento de R$ 50 milhões e pode alcançar público de 1 milhão de pessoas - Foto: João Caldas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Com custo de R$ 50 milhões, o mais caro da história dos musicais brasileiro, O Rei Leão é um sucesso retumbante em São Paulo. Se no mundo já acumula público de 65 milhões de pessoas desde que foi lançado na Broadway em 1997, no Brasil pode bater em breve a marca de 1 milhão de espectadores até o fim da temporada, que foi estendida até 14 de dezembro de 2014.

Foram mais de 500 sessões no Teatro Renault, centro paulistano, onde cabem 1.500 pessoas. Público ávido em ver 53 artistas em cena, entre eles nove sul-africanos, além dos alardeados bonecos que dão vida aos animais da savana africana.

A razão de tanto sucesso em terras brasileiras ocorre pela junção de três coisas fundamentais.

Primeiro: a obra é baseada no filme arrasa-quarteirão da Disney de 1994 — com quase US$ 1 bilhão arrecadado é o 20º filme mais lucrativo e a terceira animação mais rentável até hoje.

Segundo motivo: as crianças que ficaram fascinadas por Simba, Nala, Timão e Pumba vinte anos atrás hoje, adultas, levam os filhos às sessões no Teatro Renault. Querem apresentá-los a seus ídolos do passado.

Terceiro e último: a superprodução é impecável e funciona com uma engrenagem capaz até de esconder até atores que ainda engatinham no quesito atuação.

rei leao 4 Crítica: Musical O Rei Leão enche olhos do público

A sul-africana Ntsepa Pitjeng, como Rafiki, um dos destaques no elenco - Foto: João Caldas

É tudo grandioso e envolvente no espetáculo dirigido por Julie Taymor. A começar pela música de qualidade assinada por Elton John e Tim Rice, para o texto redondo de Roger Allers e Irene Mecchi.

Os figurinos de Julie Toymor são impactantes e a cenografia de Richard Hudson transforma o palco no que for preciso para que a história seja contada. E tem a fiel ajuda da luz inteligente de Donald Holder. E, claro, o grande charme são as máscaras e esculturas animadas criados pela dupla Julie Taymor e Michael Curry, que se completam com a maquiagem-arte de Michael Ward.

A orquestra regida por Vânia Pajares — e, sobretudo, os percussionistas Felipe Veiga e Helvio Mendes — é repleta de virtuose. Bem como as coreografias de Garth Fagan supervisionadas por Marey Griffith enchem os olhos, sobretudo em um palco apinhado de gente. A gente até se esquece de ver que um ou outro bailarino atrasou um passo.

E o que dizer das vozes? São belíssimas e potentes, sobretudo por dispor de um elenco majoritariamente negro — uma raridade no mercado de musicais e também no teatro como um todo que precisa ser comemorada.

A cena de abertura é para arrepiar qualquer desavisado. Com o bebê Simba sendo apresentado ao reino animal, surgem nos corredores do teatro os mais diversos bichos, como girafas, hipopótamos e elefantes , rumando ao palco que explode em cores e cantigas africanas.

Em uma boa tática de aproximar o público da história, o corredor é usado diversas vezes ao longo da obra, como quando Simba foge, acreditando ser responsável pela morte do pai.

Falando nele, o enredo de O Rei Leão é um dos melhores roteiros cinematográficos de Hollywood. É didático, sem ser tonto. Traz conflitos fundamentais, uma boa dose de martírio para o herói e, claro, sua redenção para o final feliz com o bem vencendo o mal. É para deixar qualquer grego da antiguidade morrendo de inveja.

rei leao 2 Crítica: Musical O Rei Leão enche olhos do público

Cena da apresentação de Simba, na abertura do musical: plateia impactada - Foto: João Caldas

Se toda a parte técnica vai muito bem, a atuação de boa parte do elenco deixa a desejar, aí incluso o alardeado protagonista Tiago Barbosa, selecionado entre milhares. Ele e boa parte de seus colegas, quando abrem a boca, apenas repetem um texto decorado. Falta peso, falta atuação convincente.

Mas há destaques, como a sul-africana Ntsepa Pitjeng, que empresta carisma e potência ao bruxo Rafiki; Felipe Carvalhido, como o amargurado Scar, o tio malvado de Simba; e Claudio Galvan, como o passarinho-mordomo Zazu. Ronaldo Reis também conquista a plateia dando espontaneidade ao seu Timão.

Na sessão vista pelo R7, Queren Raquel e Carolina Miranda também seguraram a personagem Nala, na infância e crescida, respectivamente. Ambas engoliram os simbas Cauã Martins (criança) e Tiago Barbosa (adulto).

Voltando à nostalgia das ex-crianças de 1994 hoje na faixa dos 30, esta encontra uma barreira na versão das canções assinada por Gilberto Gil. O compositor baiano resolveu mexer em letras que já fazem parte do imaginário coletivo em canções como Hakuna Matata.

Boa parte do público aprendeu a cantar as canções tais quais foram traduzidas na versão dublada do filme da Disney de 1994. Portanto, ouvir agora uma nova letra, diferente daquela velha conhecida, é um desalento, um choque emocional. Seria como mexer no tempero da comida da mãe. Dá uma dor no peito, mas, é tudo tão bonito, tão impactante, que dá para sobreviver.

rei leao 3 Crítica: Musical O Rei Leão enche olhos do público

Muitas cores e muitas danças: figurino e coreografia brilham aos olhos do público - Foto: João Caldas

O Rei Leão
Avaliação: Bom
Quando: Quarta a sexta, 21h, sábado, 16h e 21h; domingo, 14h e 18h30. 180 min. Até 14/12/2014
Onde: Teatro Renault (av. Brigadeiro Luis Antônio, 411, Bela Vista, São Paulo, tel. 0/xx/11 4003-5588)
Quanto: R$ 50 a R$ 280
Classificação etária: Livre
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Musical O Rei Leão enche olhos do público

Você acha que foi errado o musical mudar as letras das canções como eram no filme O Rei Leão dublado de 1994?

  • Sim, foi um erro querer criar novas letras, se as outras já eram conhecidas por todos que viram o filme. Gilberto Gil errou.
  • Não, acho que o musical, como um novo produto artístico, pedia letras novas para aquelas canções. Gilberto Gil fez bem em mudar.

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 Crítica: Dignidade vence medo em Caros Ouvintes

Agnes Zuliani, Rodrigo Lopez, Alexandre Slaviero, Alex Grulli, Amanda Acosta, Petrônio Gontijo, Eduardo Semerjian e Nathália Rodrigues: elenco potente nas mãos de um autor e diretor sensível em Caros Ouvintes - Foto: Priscila Prade

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Há em Caros Ouvintes um desgosto que paira no ar. Uma melancolia imersa no medo iminente que tira a liberdade, enjaula a arte e assusta a todos. Mas, isso não é algo ruim. Muito pelo contrário, na obra a melancolia é perfeita e potencializa o discurso político que está por detrás do melodrama encenado.

O grande mérito do espetáculo produzido por Ed Júlio é, sob o pretexto de mostrar a decadência no rádio no Brasil à medida que os militares ganham cada vez maior poder na década de 1960, exibir que pensamentos tidos como já vencidos estão de volta. E seguem provocando pavor e ódio.

 Crítica: Dignidade vence medo em Caros Ouvintes

Artistas tentam encenar a última radionovela de uma rádio prestes a fechar as portas - Foto: Priscila Prade

Na obra, um grupo de artistas de rádio oprimidos pelo anunciante ignorante tenta, a duras penas, manter a emissora em funcionamento. Fazem com dignidade os últimos capítulos de sua tradicional radionovela, mesmo que tudo do lado de fora diga que este tempo já passou, com a chegada da televisão repleta de imagens e obviedades.

A realidade de imagens pré-fabricadas parece ter suplantado a possibilidade de se fantasiar uma história a partir de vozes. Cada criando a sua própria, com o que possui. Pensar por conta própria: algo "perigoso" demais.

O cenário de Marco Lima reproduz com elegância — assim como os figurinos de Fabio Namatame — um antigo estúdio de rádio. É uma cenografia cuidadosa, delicada, detalhista, o que potencializa o realismo da história. Wagner Freire criou uma luz que dialoga com os momentos emocionais da peça, sendo quase um ator junto do elenco.

Otávio Martins se destaca como o autor do texto que faz rir e também chorar, sem abrir mão da inteligência. Ele também assume a função de diretor, e conduz a obra de maneira delicada, na qual vai, aos poucos, dando as nuances do que está por vir, em uma simbiose de drama e comédia, como é a vida.

O diretor extrai do elenco o que cada um tem de melhor, gerando um retrato convincente de sua história. Caros Ouvintes não é só uma comédia musical divertida. É bem mais que isso. Traz em seu subtexto um discurso de resistência, de liberdade e, principalmente, de dignidade.

A força reacionária é representada por uma das atrizes da própria radionovela, interpretada brilhantemente por Agnes Zuliani. Na obra, ela é a delatora de seus colegas de esquerda junto ao regime, por crer ser superior aos demais. Sua vaidade e falta de amor ao próximo nada condiz com sua alardeada condição de defensora da família e dos valores cristãos. Porque o que ela tem se parece mais com ódio do que com o amor de Cristo. A cena na qual a personagem discursa é a mais impactante da obra e Agnes mostra ser uma grande atriz.

 Crítica: Dignidade vence medo em Caros Ouvintes

Obra traz artistas de rádio que afundam com a ascensão da televisão no Brasil - Foto: Priscila Prade

Outra que se sobressai é Amanda Acosta, na pele daquela cantora que já não tem mais o brilho de outrora, que faz de sua própria vida a expressão máxima de sua arte. Tal qual uma Maysa Matarazzo. Amanda dá peso à personagem — que nas mãos de uma atriz inexperiente poderia virar uma caricatura —, fazendo de sua cantora mulher crível e admirável. Mesmo decadente, não é digna de pena, mas de admiração.

Rodrigo Lopez, que interpreta o locutor da rádio, também chama a atenção. Seu personagem mantém, na clandestinidade, uma relação de amor com o futuro galã da TV. Tal qual muitos por aí. Contudo, com o sofrimento diante da prisão de seu amado pelos militares, seu amor e preocupação genuínos tocam a todos, fazendo com que a hipocrisia caia por terra, numa vitória do amor ao preconceito.

Eduardo Semerjian, por sua vez, na pele do galã de rádio ultrapassado, que vive de alardear as fãs que já não possui mais, empresta carisma e intensidade ao seu personagem. Ele representa alguém que, independentemente da vaidade que o move, é apenas mais um tentando sobreviver e tendo de encarar o momento em que a vida lhe cospe, usado, gasto. É um grande personagem na carreira do ator no teatro.

Ainda compõem o elenco entrosado Alex Grulli, como o sonoplasta, Alexandre Slaviero, como o patrocinador capitalista, Nathália Rodrigues, como a mocinha que vai virar estrela da TV em breve, e Petrônio Gontijo, que faz o chefe da rádio com a dignidade de um capitão que prefere afundar junto de seu barco a abrir mão de sua ideologia.

Um tipo de gente cada vez mais rara de se ver.

Caros Ouvintes
Avaliação: Muito bom
Quando: Sexta, 18h e 21; sábado, 21h; domingo, 19h30. 100 min. Até 14/12/2014
Onde: Grande Auditório do Masp (av. Paulista, 1578, São Paulo, tel. 0/xx/11 3251-5644)
Quanto: R$ 30 (sex., 18h); R$ 40 (sex., 21h; e dom.) e R$ 50 (sáb.)
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Dignidade vence medo em Caros Ouvintes

caros ouvintes priscila prade4 Crítica: Dignidade vence medo em Caros Ouvintes

Cena da peça Caros Ouvintes: musical com discurso político nas entrelinhas - Foto: Priscila Prade

Você gostaria que as radionovelas voltassem?

  • Sim, era maravilhoso o tempo em que a gente podia imaginar toda a história. E os atores das radionovelas eram melhores que os da TV.
  • Não, acho que já passou o tempo das radionovelas e detesto qualquer tipo de saudosismo. Prefiro ver telenovela.

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homem de la mancha joao caldas1 Crítica: O Homem de la Mancha é o musical do ano

Cena de O Homem de la Mancha: a melhor produção do ano no gênero musical tem entrada grátis no Teatro do Sesi-SP, na avenida Paulista, até 21/12; Miguel Falabella dirige elenco potente - Foto: João Caldas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O público paulistano tem a possibilidade de ver sem gastar um só centavo o melhor musical apresentado na cidade neste ano de 2014. Trata-se de O Homem de la Mancha, adaptado e dirigido por Miguel Falabella do texto original de Dale Wasserman, com música de Mitch Leigh e letras de Joe Darion, encenado pela primeira vez em 1965 e com produção brasileira histórica em 1972, com Paulo Autran, Bibi Ferreira, Dante Rui e Grande Othelo, sob direção de Flávio Rangel.

Prestes a completar cinco décadas de vida, o espetáculo celebra os 50 anos do Teatro do Sesi São Paulo, onde fica em cartaz com sessões de quarta a domingo até 21 de dezembro de 2014.

cletoohomemdelamanchaFoto Joao Caldas Fº 137697 Crítica: O Homem de la Mancha é o musical do ano

Cleto Baccic, como o protagonista, Dom Quixote: momento importante na carreira do ator - Foto: João Caldas

O Homem de la Mancha de Falabella é um musical redondo, bem produzido. Além de ser puro entretenimento, traz consigo um discurso político inquietante e questionador da sociedade na qual vivemos. Para completar, conta com atuações memoráveis tanto no quesito artístico quanto técnico.

Elenco expressivo

O diretor conseguiu reunir elenco de peso, com nomes expressivos do mundo do musical brasileiro neste século 21. E é generoso com este, dando às atuações papel fundamental na obra. O trio de protagonista é irretocável.

Cleto Baccic constrói um Dom Quixote que exala verdade em cada "loucura". O ator dá intensidade ao personagem, fazendo com que cada palavra que diga tenha perspicácia e sabedoria embutida com nuance. Há evidente trabalho de corpo e voz. E presença de sobra.

O ator segura a obra sem esforço aparente. O que, por si só, é resultado de muito trabalho. Sem dúvida, o personagem de Dom Quixote é um dos grandes momentos na carreira do artista.

sara sarresFoto Joao Caldas Fo 137541 Crítica: O Homem de la Mancha é o musical do ano

Sara Sarres, domínio de voz, corpo e técnica - Foto: João Caldas

Por sua vez, Sara Sarres, outra experiente atriz dos musicais, transmite toda força que sua Aldonza, ou Dulcinéia, necessita para fazer par com Baccic. Tem domínio de voz, corpo e técnica. Com forte presença cênica, empresta altivez e dignidade à sua personagem prostituta e tão maltratada pela vida. Quem não se apaixonar por ela é porque não tem libido.

Mas o grande charme no trio de protagonistas é, sem dúvida, Jorge Maya. Na pele de Sancho, o fiel escudeiro de Dom Quixote, o ator arrebata a plateia com um carisma genuíno e um preciso tempo para comédia.

O restante do elenco segue atrás do ritmo do trio de protagonistas. E o faz muito bem. Guilherme Sant'Anna, com sua voz de trovão, é sempre uma aparição interessante. Carlos Capeletti, mesmo em papel pequeno, se faz presente e mostra seu domínio do humor.

Outros grandes nomes dos musicais também aproveitam bem o que têm e mostram serviço, gente como Frederico Silveira, Ivan Parente (que segurou muito bem o posto de protagonista na produção anterior de Falabella, A Madrinha Embriagada) e Kiara Sasso, uma das estrelas do gênero, agora em um papel simples, mas que ela sabe potencializar.

Coro vigoroso

O coro segue no mesmo ritmo. Mesmo no fundo, no alto de uma escada ou num canto escuro do palco, estão todos ali, vivenciando cada emoção que a obra propõe. E o público percebe esse vigor dos artistas e se envolve com a história.

Por isso, merecem citação nome por nome: Ivanna Domenyco, Edgar Bustamente, Frederico Reuter, Arízio Magalhães, Fabi Bang, Luciana Milano, Anelita Gallo, Clarty Galvão, Carol Isolani, Ingrid Gaigher, Jana Amorim, Mariana Saraiva, Naomy Schölling, Elton Towersey, Ditto Leite, Felipe Guadanucci, Johnny Camolese, Jessé Scarpellini, Julio Mancini, Lázaro Menezes, Marcelo Góes, Pedro Arrais, Philipe Azevedo, Tiago Kaltenbacher, Tony Germano, Ygor Zago e Vandson Paiva.

Técnica em harmonia

Na parte técnica, Claudio Bauzys faz uma direção musical que faz a história fluir em ritmo harmonioso, e o mérito também é de Gabriel D'Angelo, que criou o desenho de som da obra. Nada soa agressivo, é tudo um fluído constante. Destaque para o talento da orquestra regida por Ronnie Kneblewski.

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Cena do musical O Homem de la Mancha: produção nacional de musicais mostra sua excelência - Foto: João Caldas

Kátia Barros, por sua vez, mostra criatividade revigorante nas coreografias que o elenco executa de forma precisa. Ultimamente, os musicais andam repletos de coreografias preguiçosas e ver este trabalho em cena é um alento a quem aprecia a dança.

A estética do musical teve forte inspiração na obra de Arthur Bispo do Rosário, ícone das artes plásticas brasileiras que passou a vida inteira internada num manicômio.

Ela está nos figurinos do emblemático Claudio Tovar, que exalam brasilidade em cada tela e são peças fundamentais na ambientação, dialogando constantemente com o cenário de Matt Kinley — outro achado diante dos pavorosos cenários de LED ou de plataformas de madeira que enfeiam muitos musicais em São Paulo.

Também merece menção a luz envolvente e inteligente de Drika Matheus, que dialoga diretamente com cada emoção da peça. E, em muitos momentos, a transforma em pintura.

O Homem de la Mancha é uma produção que mostra o nível de excelência conquistado pelo teatro musical nacional, que nada fica a dever para qualquer outro feito no exterior. Ele só precisa de apoio. De gente que acredite que é possível. E mostra isso ao fazer um clássico mundial com nossa pitada brasileira em uma resultado de qualidade inquestionável.

homem de la mancha joao caldas3 Crítica: O Homem de la Mancha é o musical do ano

O Homem de la Mancha: musical do ano de 2014 deve ser visto por todos - Foto: João Caldas

O Homem de la Mancha
Avaliação: Ótimo
Quando: quarta a sexta, 21h; sábado, 17h e 21h; domingo, 19h. 105 min. Até 21/12/2014
Onde: Teatro do Sesi-SP (av. Paulista, 1313, São Paulo, tel. 0/xx/11 3284-9787)
Quanto: Grátis (reservar pelo site ou telefone)
Classificação etária: 10 anos
Avaliacao Otimo R7 Teatro PQ Crítica: O Homem de la Mancha é o musical do ano

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