Posts com a tag "crítica"

como matar a mae 3 atos guto muniz 1 Crítica: Como Matar a Mãe   3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

Cena da peça Como Matar a Mãe - 3 Atos: montagem de estreia da Sofisticada Companhia de Teatro encerrou a Satyrianas no palco da SP Escola de Teatro - Foto: Guto Muniz

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Mãe muitas vezes é ferida complicada, muito profunda. Amor de mãe dói tanto quanto amor de filho. É difícil cortar o cordão umbilical. Muitas coisas ficam pelo caminho, muitas expectativas, exigências, frases ditas, não ditas, possíveis e impossíveis realidades.

Foi tudo isso que a mineira Sofisticada Companhia de Teatro resolveu propor no espetáculo que encerrou a Satyrianas 2014: Como Matar a Mãe - 3 Atos. A montagem não poderia ser mais apropriada para ser a última peça do evento teatral que tem seu epicentro na praça Roosevelt, lugar de muita gente que precisou deixar a mãe para trás para simplesmente seguir em frente e ser.

Como Matar a Mãe - 3 Atos é uma grande catarse. Daquelas necessárias para deixar (em parte) a dor para trás. Bebendo na fonte das grandes figuras maternas do teatro, a obra traz o dilema da relação mãe-filho para o presente e a vida dos artistas no palco, transformando tudo em arte potente, dilacerante.

Os três atores-diretores, Fabiane Aguiar, Léo Kildare Louback e Soraya Martins descortinam parte das próprias relações com suas mães, mas o fazem de forma poética e sensível. E, por isso, tão tocante.

como matar a mae 3 atos guto muniz 2 Crítica: Como Matar a Mãe   3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

Como Matar a Mãe - 3 Atos: biografias se misturam a mitos maternos do teatro - Foto: Guto Muniz

A peça traz a sofisticação de ter trilha executada ao vivo, pelo pianista Thiago Quintino e a cantora apaixonada por cada verso Karine Amorim, o que torna tudo mais pungente. A referência explícita a Almodóvar com a canção Puro Teatro é um dos momentos fortes do espetáculo.

Sempre em jogo e vestindo figurino simples e impactantes ao mesmo tempo, os artistas contam suas histórias-desabafos. Ora são os filhos, ora as próprias mães. Algumas são mais fáceis de serem digeridas, outras ficam atravessadas na garganta.

como matar a mae 3 atos guto muniz 3 Crítica: Como Matar a Mãe   3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

Os atores Soraya Martins e Léo Kildare Louback: duelo cênico potente - Foto: Guto Muniz

Uma cena potente é o embate entre os atores Léo Kildare Louback e Soraya Martins, presentes e intensos. Léo na pele de uma mãe arraigada em sua visão de mundo que fere profundamente a filha, papel de Soraya.

Neste duelo cênico, o racismo ganha contornos familiares-afetivos e é justificado pelo amor. E a grande pergunta inquietante que se deixa, ao fim, é: afinal, amor de mãe justifica tudo?

Pelo jeito, a negação do outro não reduz o sofrimento que este possa ter; muito pelo contrário, o aumenta, provocando dores intransponíveis, profundas.

Mas, para quem deseja sobreviver e se reconstruir com base na própria cabeça, só resta seguir em frente e tentar poetizar as relações reais, transformando-as em arte, coisas que os artistas da Sofisticada Companhia de Teatro fazem muito bem. E isso acaba sendo uma forma de matar a mãe, mas também de deixá-la viva ao mesmo tempo.

como matar a mae 3 atos guto muniz 4 Crítica: Como Matar a Mãe   3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

Fabiane Aguiar, Léo Kildare Louback e Soraya Martins formam a Sofisticada Companhia de Teatro - Foto: Guto Muniz

Com Matar a Mãe - 3 Atos
Avaliação: Muito Bom
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Como Matar a Mãe   3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

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unnamed 2 Crítica: Tão Pesado Quanto o Céu é lirismo interiorano na metrópole de puro concreto

Cena da peça Tão Pesado Quanto o Céu, do autor Ricardo Inhan - Foto: Adrianne Lopes

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Assim que o espectador chega para assistir à peça Tão Pesado Quanto o Céu, é convidado a ocupar os balanços distribuídos pelo espaço e onde estão também os dois atores: Pedro Stempniewski e Ricardo Henrique.

É tudo silêncio enquanto cada qual busca seu rumo, seu lugar. Quem escolhe os balanços se aproxima da infância, do tempo dos sonhos, da simplicidade da vida.

Quem precisa de uma base imóvel escolhe as poltronas distribuídas pelo espaço, onde atuadores e público estão juntos, cúmplices.

A direção de Mariana Vaz (com assistência de Stella Garcia) aposta no jogo dos atores e na fragmentação para construir o que o autor Ricardo Inhan chama de "peça hQ". Apesar de em alguns momentos o primeiro sobressair, tanto Ricardo quanto Pedro estão ali, presentes, jogando. A gente sente.

unnamed 4 Crítica: Tão Pesado Quanto o Céu é lirismo interiorano na metrópole de puro concreto

Tão Pesado Quanto o Céu: olhar lírico para a vida interiorana reprimida - Foto: Adrianne Lopes

A obra pode ser vista como um olhar lírico para a vida interiorana, onde o ir-se parece ser mais desejável do que ficar no pacato cotidiano onde nada (?) acontece. E, enquanto se espera a fuga para o movimento futuro, muito se passa, mesmo que tudo pareça igual. Há, naquela cidade pequena, uma impossibilidade de relação entre os dois personagens, um desejo reprimido, mas latente, que já não aguenta mais ficar trancado.

A este crítico, a peça ainda ganhou novo significado apresentada em um lugar frenético como São Paulo. A impossibilidade de relacionamento como se apresenta no contexto da peça ganha nova dimensão em um contexto paulistano, onde as relações também são difíceis, onde o tempo nunca basta e o excesso cansa. O paralelo deixa a peça mais poética e provocativa.

As falas dos dois homens, que ora estão no corpo de um ator, ora no do outro, são como balões de uma revistinha de histórias em quadrinhos cuja página seguinte foi rasgada.

Mais que a historinha para ser entendida, há no palco um estado, uma angústia.

Diante da crueldade de São Paulo, a peça, com seu ar fresco de descoberta da sexualidade, remete àqueles tempos adolescentes (longe daqui, para os forasteiros), repletos da necessidade de se alçar voo, tal qual um pássaro que ainda não sabe que o céu pode ser muito pesado.

unnamed 3 Crítica: Tão Pesado Quanto o Céu é lirismo interiorano na metrópole de puro concreto

Ricardo Henrique e Pedro Stempniewski em cena sob direção de Mariana Vaz: Tão Pesado Quanto o Céu - Foto: Adrianne Lopes

Tão Pesado Quanto o Céu
Avaliação: Bom
Quando: Sábado (15) e domingo (16), 20h. 55 min. Até 16/11/2014
Onde: Funarte São Paulo (al. Nothmann, 1058, metrô Santa Cecília, São Paulo, tel. 0/xx/11 3662-5177)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Tão Pesado Quanto o Céu é lirismo interiorano na metrópole de puro concreto

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preto no branco1 Crítica: Preto no Branco reforça o preconceito

Bruna Thedy e Sidney Santiago Kuanza em cena da peça Preto no Branco - Foto: Ronaldo Gutierrez

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

 "A carne mais barata do mercado é a carne negra"
 (A Carne, de Seu Jorge, Marcelo Yuka e Ulisses Cappelletti, na voz de Elza Soares)

Antes de mais nada, é preciso deixar claro que o diretor Zé Henrique de Paula e seu Núcleo Experimental são artistas talentosos, aguerridos, de boa vontade e que afirmam buscar melhorar a sociedade na qual fazem sua arte, mesmo que haja, neste caminho, tropeços imprevisíveis.

É preciso reconhecer tal qualidade do grupo e de seu diretor. Posto isto, passemos a explicar o porquê da perplexidade diante do espetáculo Preto no Branco, em cartaz em São Paulo.

Após tocar no tema da homossexualidade na peça Ou Você Poderia me Beijar, de forma sutil e poética, Zé Henrique de Paula e seu Núcleo Experimental resolveram falar de racismo de uma forma dura e cruel.

Efeito colateral

O texto combina violência com a ironia típica do humor inglês — distante da plateia brasileira, que insiste em enxergá-lo de forma literal.Assim, o discurso desejado tem efeito contrário.

preto no branco 21 Crítica: Preto no Branco reforça o preconceito

Clara Carvalho e Marco Antônio Pâmio em cena da peça Preto no Branco - Foto: Ronaldo Gutierrez

Preto no Branco é um discurso (branco) sobre o racismo que os negros sofrem. Isso começa no próprio título brasileiro, que sugere uma invasão negra de um espaço previamente do branco (o título original inglês é menos explícito em relação ao enfrentamento racial: Mirror Teeth, "dentes no espelho").

Pensada originalmente para a sociedade inglesa, a peça, ao ser transposta para outra realidade, a brasileira, que vive um momento de ebulição de seus preconceitos, jogando por terra o mito de povo cordial, ganha novos contornos, novos significados e novas apreensões. Assim, a peça, no encontro com o público brasileiro, acaba subvertida.

Gargalhadas preconceituosas

A autoria é do jovem britânico (branco) Nick Gill, que parece ter tido boa intenção ao escrever a obra. O recurso que ele utiliza é evidenciar a problemática, expondo padrões de comportamento preconceituosos em relação ao negro (e também às mulheres). Só que, em vez de a obra tornar-se uma experiência pedagógica para o público brasileiro, opera como reforço do preconceito que deseja combater.

Na sessão vista pelo R7, grande parte da plateia se identificou com a família (branca) racista. Cada frase preconceituosa no palco gerava gargalhadas. E o texto é repleto de frases duras e cruéis que, ditas fora do palco, levariam à prisão a quem as proferisse.

Em forma de riso, parte do público desvenda um racismo velado, que não deixa de ofender e oprimir. Esta encenação possibilita isso. Uma analogia possível seria colocar judeus para ouvirem piadas no palco sobre o holocausto e ainda terem o espectador da poltrona ao lado gargalhando.

Lembrando o teórico francês do teatro contemporâneo Jean-Pierre Serrazac, no seu livro Crítica do Teatro, "o espectador compreende se é compreendido e só é compreendido se compreender”. Assim, o espetáculo, pensado como um alerta, torna-se uma aberração de si próprio no encontro com um espectador que não consegue dialogar com a ironia proposta pela dramaturgia.

Diante da proposta estética, parte do público se sente à vontade para externar seu preconceito também.

preto no branco 31 Crítica: Preto no Branco reforça o preconceito

Thiago Carreira e Bruna Thedy na peça Preto no Branco - Foto: Ronaldo Gutierrez

O pensado originalmente em Preto no Branco é pervertido por seu estilo realista, que faz com que o público se identifique com os personagens arquetípicos de uma família classe média branca racista e, mais ainda, pela potência das atuações de seu talentoso elenco: Clara Carvalho (a mãe), Marco Antônio Pâmio (o pai), Thiago Carreira (o filho), Bruna Thedy (a filha e a namorada do filho) e Sidney Santiago Kuanza (o jovem namorado negro e um policial negro).

O papel do negro

O enredo se baseia na história de uma família que se espanta com o novo namorado da filha, negro e muçulmano. E segue apresentando como esta família lida com o “incômodo” dentro de casa. A encenação respeita as gags de humor propostas pela dramaturgia, com entradas e saídas de atores ao modo vaudeville.

Em Preto no Branco o lugar do negro é: inferior, subalterno, submisso, desejável só para a prática sexual, assediado, subjugado, aliciado e estuprador.

Basta ver o percurso do único ator negro na obra. O primeiro personagem, o jovem namorado (negro), aceita as humilhações às quais é exposto sem revidar, até ser persuadido a tornar-se uma espécie de capanga do pai (branco) da namorada, para ser parte da família.

O segundo personagem, o jovem policial (negro) que investiga um crime ocorrido, a princípio aparece como um possível redentor. Mas, logo é subjugado e incentivado pela família (branca) a cometer um crime bárbaro, que no discurso racista da própria peça seria comum aos negros.

Para que não haja dúvidas, o crime hediondo (cometido contra uma jovem branca desacordada) é apresentado de forma violenta e realista até que as luzes se apagam. Esta é a última imagem do negro que a peça deixa.

PS. Seria interessante (e provocante) para a realidade da plateia brasileira uma encenação que propusesse o enredo da peça com uma família negra se espantando com o namorado branco da filha.

Preto no Branco
Avaliação: Fraco
Quando: Sexta, 20h; sábado, 19h; domingo, 18h. 90 min. Até 30/11/2014
Onde: Sesc Bom Retiro (al. Nothmann, 185, Bom Retiro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3332-3600)
Quanto: R$ 30 (inteira); R$ 15 (meia-entrada); R$ 9 (comerciários e dependentes)
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Fraco R7 Teatro PQ Crítica: Preto no Branco reforça o preconceito

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rei leao1 Crítica: Musical O Rei Leão enche olhos do público

Tiago Barbosa como Simba, protagonista de O Rei Leão: produção funciona mesmo com atuações irregulares; musical teve investimento de R$ 50 milhões e pode alcançar público de 1 milhão de pessoas - Foto: João Caldas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Com custo de R$ 50 milhões, o mais caro da história dos musicais brasileiro, O Rei Leão é um sucesso retumbante em São Paulo. Se no mundo já acumula público de 65 milhões de pessoas desde que foi lançado na Broadway em 1997, no Brasil pode bater em breve a marca de 1 milhão de espectadores até o fim da temporada, que foi estendida até 14 de dezembro de 2014.

Foram mais de 500 sessões no Teatro Renault, centro paulistano, onde cabem 1.500 pessoas. Público ávido em ver 53 artistas em cena, entre eles nove sul-africanos, além dos alardeados bonecos que dão vida aos animais da savana africana.

A razão de tanto sucesso em terras brasileiras ocorre pela junção de três coisas fundamentais.

Primeiro: a obra é baseada no filme arrasa-quarteirão da Disney de 1994 — com quase US$ 1 bilhão arrecadado é o 20º filme mais lucrativo e a terceira animação mais rentável até hoje.

Segundo motivo: as crianças que ficaram fascinadas por Simba, Nala, Timão e Pumba vinte anos atrás hoje, adultas, levam os filhos às sessões no Teatro Renault. Querem apresentá-los a seus ídolos do passado.

Terceiro e último: a superprodução é impecável e funciona com uma engrenagem capaz até de esconder até atores que ainda engatinham no quesito atuação.

rei leao 4 Crítica: Musical O Rei Leão enche olhos do público

A sul-africana Ntsepa Pitjeng, como Rafiki, um dos destaques no elenco - Foto: João Caldas

É tudo grandioso e envolvente no espetáculo dirigido por Julie Taymor. A começar pela música de qualidade assinada por Elton John e Tim Rice, para o texto redondo de Roger Allers e Irene Mecchi.

Os figurinos de Julie Toymor são impactantes e a cenografia de Richard Hudson transforma o palco no que for preciso para que a história seja contada. E tem a fiel ajuda da luz inteligente de Donald Holder. E, claro, o grande charme são as máscaras e esculturas animadas criados pela dupla Julie Taymor e Michael Curry, que se completam com a maquiagem-arte de Michael Ward.

A orquestra regida por Vânia Pajares — e, sobretudo, os percussionistas Felipe Veiga e Helvio Mendes — é repleta de virtuose. Bem como as coreografias de Garth Fagan supervisionadas por Marey Griffith enchem os olhos, sobretudo em um palco apinhado de gente. A gente até se esquece de ver que um ou outro bailarino atrasou um passo.

E o que dizer das vozes? São belíssimas e potentes, sobretudo por dispor de um elenco majoritariamente negro — uma raridade no mercado de musicais e também no teatro como um todo que precisa ser comemorada.

A cena de abertura é para arrepiar qualquer desavisado. Com o bebê Simba sendo apresentado ao reino animal, surgem nos corredores do teatro os mais diversos bichos, como girafas, hipopótamos e elefantes , rumando ao palco que explode em cores e cantigas africanas.

Em uma boa tática de aproximar o público da história, o corredor é usado diversas vezes ao longo da obra, como quando Simba foge, acreditando ser responsável pela morte do pai.

Falando nele, o enredo de O Rei Leão é um dos melhores roteiros cinematográficos de Hollywood. É didático, sem ser tonto. Traz conflitos fundamentais, uma boa dose de martírio para o herói e, claro, sua redenção para o final feliz com o bem vencendo o mal. É para deixar qualquer grego da antiguidade morrendo de inveja.

rei leao 2 Crítica: Musical O Rei Leão enche olhos do público

Cena da apresentação de Simba, na abertura do musical: plateia impactada - Foto: João Caldas

Se toda a parte técnica vai muito bem, a atuação de boa parte do elenco deixa a desejar, aí incluso o alardeado protagonista Tiago Barbosa, selecionado entre milhares. Ele e boa parte de seus colegas, quando abrem a boca, apenas repetem um texto decorado. Falta peso, falta atuação convincente.

Mas há destaques, como a sul-africana Ntsepa Pitjeng, que empresta carisma e potência ao bruxo Rafiki; Felipe Carvalhido, como o amargurado Scar, o tio malvado de Simba; e Claudio Galvan, como o passarinho-mordomo Zazu. Ronaldo Reis também conquista a plateia dando espontaneidade ao seu Timão.

Na sessão vista pelo R7, Queren Raquel e Carolina Miranda também seguraram a personagem Nala, na infância e crescida, respectivamente. Ambas engoliram os simbas Cauã Martins (criança) e Tiago Barbosa (adulto).

Voltando à nostalgia das ex-crianças de 1994 hoje na faixa dos 30, esta encontra uma barreira na versão das canções assinada por Gilberto Gil. O compositor baiano resolveu mexer em letras que já fazem parte do imaginário coletivo em canções como Hakuna Matata.

Boa parte do público aprendeu a cantar as canções tais quais foram traduzidas na versão dublada do filme da Disney de 1994. Portanto, ouvir agora uma nova letra, diferente daquela velha conhecida, é um desalento, um choque emocional. Seria como mexer no tempero da comida da mãe. Dá uma dor no peito, mas, é tudo tão bonito, tão impactante, que dá para sobreviver.

rei leao 3 Crítica: Musical O Rei Leão enche olhos do público

Muitas cores e muitas danças: figurino e coreografia brilham aos olhos do público - Foto: João Caldas

O Rei Leão
Avaliação: Bom
Quando: Quarta a sexta, 21h, sábado, 16h e 21h; domingo, 14h e 18h30. 180 min. Até 14/12/2014
Onde: Teatro Renault (av. Brigadeiro Luis Antônio, 411, Bela Vista, São Paulo, tel. 0/xx/11 4003-5588)
Quanto: R$ 50 a R$ 280
Classificação etária: Livre
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Musical O Rei Leão enche olhos do público

Você acha que foi errado o musical mudar as letras das canções como eram no filme O Rei Leão dublado de 1994?

  • Sim, foi um erro querer criar novas letras, se as outras já eram conhecidas por todos que viram o filme. Gilberto Gil errou.
  • Não, acho que o musical, como um novo produto artístico, pedia letras novas para aquelas canções. Gilberto Gil fez bem em mudar.

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 Crítica: Dignidade vence medo em Caros Ouvintes

Agnes Zuliani, Rodrigo Lopez, Alexandre Slaviero, Alex Grulli, Amanda Acosta, Petrônio Gontijo, Eduardo Semerjian e Nathália Rodrigues: elenco potente nas mãos de um autor e diretor sensível em Caros Ouvintes - Foto: Priscila Prade

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Há em Caros Ouvintes um desgosto que paira no ar. Uma melancolia imersa no medo iminente que tira a liberdade, enjaula a arte e assusta a todos. Mas, isso não é algo ruim. Muito pelo contrário, na obra a melancolia é perfeita e potencializa o discurso político que está por detrás do melodrama encenado.

O grande mérito do espetáculo produzido por Ed Júlio é, sob o pretexto de mostrar a decadência no rádio no Brasil à medida que os militares ganham cada vez maior poder na década de 1960, exibir que pensamentos tidos como já vencidos estão de volta. E seguem provocando pavor e ódio.

 Crítica: Dignidade vence medo em Caros Ouvintes

Artistas tentam encenar a última radionovela de uma rádio prestes a fechar as portas - Foto: Priscila Prade

Na obra, um grupo de artistas de rádio oprimidos pelo anunciante ignorante tenta, a duras penas, manter a emissora em funcionamento. Fazem com dignidade os últimos capítulos de sua tradicional radionovela, mesmo que tudo do lado de fora diga que este tempo já passou, com a chegada da televisão repleta de imagens e obviedades.

A realidade de imagens pré-fabricadas parece ter suplantado a possibilidade de se fantasiar uma história a partir de vozes. Cada criando a sua própria, com o que possui. Pensar por conta própria: algo "perigoso" demais.

O cenário de Marco Lima reproduz com elegância — assim como os figurinos de Fabio Namatame — um antigo estúdio de rádio. É uma cenografia cuidadosa, delicada, detalhista, o que potencializa o realismo da história. Wagner Freire criou uma luz que dialoga com os momentos emocionais da peça, sendo quase um ator junto do elenco.

Otávio Martins se destaca como o autor do texto que faz rir e também chorar, sem abrir mão da inteligência. Ele também assume a função de diretor, e conduz a obra de maneira delicada, na qual vai, aos poucos, dando as nuances do que está por vir, em uma simbiose de drama e comédia, como é a vida.

O diretor extrai do elenco o que cada um tem de melhor, gerando um retrato convincente de sua história. Caros Ouvintes não é só uma comédia musical divertida. É bem mais que isso. Traz em seu subtexto um discurso de resistência, de liberdade e, principalmente, de dignidade.

A força reacionária é representada por uma das atrizes da própria radionovela, interpretada brilhantemente por Agnes Zuliani. Na obra, ela é a delatora de seus colegas de esquerda junto ao regime, por crer ser superior aos demais. Sua vaidade e falta de amor ao próximo nada condiz com sua alardeada condição de defensora da família e dos valores cristãos. Porque o que ela tem se parece mais com ódio do que com o amor de Cristo. A cena na qual a personagem discursa é a mais impactante da obra e Agnes mostra ser uma grande atriz.

 Crítica: Dignidade vence medo em Caros Ouvintes

Obra traz artistas de rádio que afundam com a ascensão da televisão no Brasil - Foto: Priscila Prade

Outra que se sobressai é Amanda Acosta, na pele daquela cantora que já não tem mais o brilho de outrora, que faz de sua própria vida a expressão máxima de sua arte. Tal qual uma Maysa Matarazzo. Amanda dá peso à personagem — que nas mãos de uma atriz inexperiente poderia virar uma caricatura —, fazendo de sua cantora mulher crível e admirável. Mesmo decadente, não é digna de pena, mas de admiração.

Rodrigo Lopez, que interpreta o locutor da rádio, também chama a atenção. Seu personagem mantém, na clandestinidade, uma relação de amor com o futuro galã da TV. Tal qual muitos por aí. Contudo, com o sofrimento diante da prisão de seu amado pelos militares, seu amor e preocupação genuínos tocam a todos, fazendo com que a hipocrisia caia por terra, numa vitória do amor ao preconceito.

Eduardo Semerjian, por sua vez, na pele do galã de rádio ultrapassado, que vive de alardear as fãs que já não possui mais, empresta carisma e intensidade ao seu personagem. Ele representa alguém que, independentemente da vaidade que o move, é apenas mais um tentando sobreviver e tendo de encarar o momento em que a vida lhe cospe, usado, gasto. É um grande personagem na carreira do ator no teatro.

Ainda compõem o elenco entrosado Alex Grulli, como o sonoplasta, Alexandre Slaviero, como o patrocinador capitalista, Nathália Rodrigues, como a mocinha que vai virar estrela da TV em breve, e Petrônio Gontijo, que faz o chefe da rádio com a dignidade de um capitão que prefere afundar junto de seu barco a abrir mão de sua ideologia.

Um tipo de gente cada vez mais rara de se ver.

Caros Ouvintes
Avaliação: Muito bom
Quando: Sexta, 18h e 21; sábado, 21h; domingo, 19h30. 100 min. Até 14/12/2014
Onde: Grande Auditório do Masp (av. Paulista, 1578, São Paulo, tel. 0/xx/11 3251-5644)
Quanto: R$ 30 (sex., 18h); R$ 40 (sex., 21h; e dom.) e R$ 50 (sáb.)
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Dignidade vence medo em Caros Ouvintes

caros ouvintes priscila prade4 Crítica: Dignidade vence medo em Caros Ouvintes

Cena da peça Caros Ouvintes: musical com discurso político nas entrelinhas - Foto: Priscila Prade

Você gostaria que as radionovelas voltassem?

  • Sim, era maravilhoso o tempo em que a gente podia imaginar toda a história. E os atores das radionovelas eram melhores que os da TV.
  • Não, acho que já passou o tempo das radionovelas e detesto qualquer tipo de saudosismo. Prefiro ver telenovela.

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homem de la mancha joao caldas1 Crítica: O Homem de la Mancha é o musical do ano

Cena de O Homem de la Mancha: a melhor produção do ano no gênero musical tem entrada grátis no Teatro do Sesi-SP, na avenida Paulista, até 21/12; Miguel Falabella dirige elenco potente - Foto: João Caldas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O público paulistano tem a possibilidade de ver sem gastar um só centavo o melhor musical apresentado na cidade neste ano de 2014. Trata-se de O Homem de la Mancha, adaptado e dirigido por Miguel Falabella do texto original de Dale Wasserman, com música de Mitch Leigh e letras de Joe Darion, encenado pela primeira vez em 1965 e com produção brasileira histórica em 1972, com Paulo Autran, Bibi Ferreira, Dante Rui e Grande Othelo, sob direção de Flávio Rangel.

Prestes a completar cinco décadas de vida, o espetáculo celebra os 50 anos do Teatro do Sesi São Paulo, onde fica em cartaz com sessões de quarta a domingo até 21 de dezembro de 2014.

cletoohomemdelamanchaFoto Joao Caldas Fº 137697 Crítica: O Homem de la Mancha é o musical do ano

Cleto Baccic, como o protagonista, Dom Quixote: momento importante na carreira do ator - Foto: João Caldas

O Homem de la Mancha de Falabella é um musical redondo, bem produzido. Além de ser puro entretenimento, traz consigo um discurso político inquietante e questionador da sociedade na qual vivemos. Para completar, conta com atuações memoráveis tanto no quesito artístico quanto técnico.

Elenco expressivo

O diretor conseguiu reunir elenco de peso, com nomes expressivos do mundo do musical brasileiro neste século 21. E é generoso com este, dando às atuações papel fundamental na obra. O trio de protagonista é irretocável.

Cleto Baccic constrói um Dom Quixote que exala verdade em cada "loucura". O ator dá intensidade ao personagem, fazendo com que cada palavra que diga tenha perspicácia e sabedoria embutida com nuance. Há evidente trabalho de corpo e voz. E presença de sobra.

O ator segura a obra sem esforço aparente. O que, por si só, é resultado de muito trabalho. Sem dúvida, o personagem de Dom Quixote é um dos grandes momentos na carreira do artista.

sara sarresFoto Joao Caldas Fo 137541 Crítica: O Homem de la Mancha é o musical do ano

Sara Sarres, domínio de voz, corpo e técnica - Foto: João Caldas

Por sua vez, Sara Sarres, outra experiente atriz dos musicais, transmite toda força que sua Aldonza, ou Dulcinéia, necessita para fazer par com Baccic. Tem domínio de voz, corpo e técnica. Com forte presença cênica, empresta altivez e dignidade à sua personagem prostituta e tão maltratada pela vida. Quem não se apaixonar por ela é porque não tem libido.

Mas o grande charme no trio de protagonistas é, sem dúvida, Jorge Maya. Na pele de Sancho, o fiel escudeiro de Dom Quixote, o ator arrebata a plateia com um carisma genuíno e um preciso tempo para comédia.

O restante do elenco segue atrás do ritmo do trio de protagonistas. E o faz muito bem. Guilherme Sant'Anna, com sua voz de trovão, é sempre uma aparição interessante. Carlos Capeletti, mesmo em papel pequeno, se faz presente e mostra seu domínio do humor.

Outros grandes nomes dos musicais também aproveitam bem o que têm e mostram serviço, gente como Frederico Silveira, Ivan Parente (que segurou muito bem o posto de protagonista na produção anterior de Falabella, A Madrinha Embriagada) e Kiara Sasso, uma das estrelas do gênero, agora em um papel simples, mas que ela sabe potencializar.

Coro vigoroso

O coro segue no mesmo ritmo. Mesmo no fundo, no alto de uma escada ou num canto escuro do palco, estão todos ali, vivenciando cada emoção que a obra propõe. E o público percebe esse vigor dos artistas e se envolve com a história.

Por isso, merecem citação nome por nome: Ivanna Domenyco, Edgar Bustamente, Frederico Reuter, Arízio Magalhães, Fabi Bang, Luciana Milano, Anelita Gallo, Clarty Galvão, Carol Isolani, Ingrid Gaigher, Jana Amorim, Mariana Saraiva, Naomy Schölling, Elton Towersey, Ditto Leite, Felipe Guadanucci, Johnny Camolese, Jessé Scarpellini, Julio Mancini, Lázaro Menezes, Marcelo Góes, Pedro Arrais, Philipe Azevedo, Tiago Kaltenbacher, Tony Germano, Ygor Zago e Vandson Paiva.

Técnica em harmonia

Na parte técnica, Claudio Bauzys faz uma direção musical que faz a história fluir em ritmo harmonioso, e o mérito também é de Gabriel D'Angelo, que criou o desenho de som da obra. Nada soa agressivo, é tudo um fluído constante. Destaque para o talento da orquestra regida por Ronnie Kneblewski.

homem de la mancha joao caldas2 Crítica: O Homem de la Mancha é o musical do ano

Cena do musical O Homem de la Mancha: produção nacional de musicais mostra sua excelência - Foto: João Caldas

Kátia Barros, por sua vez, mostra criatividade revigorante nas coreografias que o elenco executa de forma precisa. Ultimamente, os musicais andam repletos de coreografias preguiçosas e ver este trabalho em cena é um alento a quem aprecia a dança.

A estética do musical teve forte inspiração na obra de Arthur Bispo do Rosário, ícone das artes plásticas brasileiras que passou a vida inteira internada num manicômio.

Ela está nos figurinos do emblemático Claudio Tovar, que exalam brasilidade em cada tela e são peças fundamentais na ambientação, dialogando constantemente com o cenário de Matt Kinley — outro achado diante dos pavorosos cenários de LED ou de plataformas de madeira que enfeiam muitos musicais em São Paulo.

Também merece menção a luz envolvente e inteligente de Drika Matheus, que dialoga diretamente com cada emoção da peça. E, em muitos momentos, a transforma em pintura.

O Homem de la Mancha é uma produção que mostra o nível de excelência conquistado pelo teatro musical nacional, que nada fica a dever para qualquer outro feito no exterior. Ele só precisa de apoio. De gente que acredite que é possível. E mostra isso ao fazer um clássico mundial com nossa pitada brasileira em uma resultado de qualidade inquestionável.

homem de la mancha joao caldas3 Crítica: O Homem de la Mancha é o musical do ano

O Homem de la Mancha: musical do ano de 2014 deve ser visto por todos - Foto: João Caldas

O Homem de la Mancha
Avaliação: Ótimo
Quando: quarta a sexta, 21h; sábado, 17h e 21h; domingo, 19h. 105 min. Até 21/12/2014
Onde: Teatro do Sesi-SP (av. Paulista, 1313, São Paulo, tel. 0/xx/11 3284-9787)
Quanto: Grátis (reservar pelo site ou telefone)
Classificação etária: 10 anos
Avaliacao Otimo R7 Teatro PQ Crítica: O Homem de la Mancha é o musical do ano

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pessoas perfeitas 1 Crítica: Satyros dá poesia aos párias de São Paulo

Eduardo Chagas e Marta Baião estão grandiosos na peça Pessoas Perfeitas, do Satyros - Foto: André Stéfano

Por BRUNA FERREIRA*

Deve ter alguma coisa no anonimato que reúne as pessoas. Pode ser um tipo de prazer em passar despercebido pela multidão ou, talvez, a solidão e angústia de ser só mais um no todo incontrolável.

pessoas perfeitas 2 Crítica: Satyros dá poesia aos párias de São Paulo

Henrique Mello e Julia Bobrow em cena da peça - Foto: André Stéfano

É nesse lugar de encontro entre desconhecidos, fugaz e imprevisível, que está o mote do espetáculo Pessoas Perfeitas, do Satyros.

Os personagens são caricaturas de moradores de São Paulo. As histórias, em princípio, parecem distantes umas das outras, mas todas mostram pessoas em fuga. Todas também estão em busca. A vida anônima, solitária e difícil na grande metrópole as une.

Medalha (Julia Bobrow) é uma jovem mística que deixa o interior para viver uma experiência transcendente na cidade logo após perder os pais. Ela se apaixona por Binho (Henrique Mello), um garoto de programa, que se esconde dos pais, um açougueiro chamado Robalo (Eduardo Chagas) e sua mulher, Cacilda (Marta Baião).

Vez ou outra, Robalo frequenta uma linha de disque amizade, onde conhece Sarah (Ivam Cabral), travesti cujo nome de batismo é Ruy e que passa os próprios dias cuidando da mãe com Alzheimer. Não por acaso, a senhora adoentada se chama Esperança e sua vida encontra-se por um fio, a metáfora para a existência de todos os personagens.

Sarah/Ruy tem uma irmã, Maristela (Adriana Capparelli), uma cantora decadente e solitária que está sozinha e morrendo de câncer na laringe. Ela chega ao fim da vida movida a cigarros, lembranças de uma vida que não aconteceu e uma paixão doentia por Elder (Fábio Penna), um poeta fracassado, que debocha da humanidade enquanto bebe uísque e cheira cocaína.

Força poética dos párias

O Satyros, mais uma vez, tem o mérito de mostrar a força poética dos párias da sociedade, trazem a invisibilidade para a luz; ela vem à tona com o lirismo e a violência que lhe são devidos. Este é um trabalho que o grupo teatral vem se especializando ao longo dos anos e em outras produções.

pessoas perfeitas 3 Crítica: Satyros dá poesia aos párias de São Paulo

Ivam Cabral, ator da peça e também autor, ao lado do diretor Rodolfo García Vázquez - Foto: André Stéfano

A direção é de Rodolfo García Vázquez, que também assina o texto com Ivam Cabral. Este último, dá vida a Sarah/Ruy, personagem mais cheio de contornos da peça.

Diferente das demais, talvez por sua própria condição, Sarah não abraça a infelicidade, ela constrói a si mesma e se refaz. O público acaba se agarrando às expectativas dela, mas é preciso se lembrar, que em Pessoas Perfeitas, dona Esperança está entre a vida e a morte.

Grandioso trabalho é feito por Eduardo Chagas e Marta Baião. Robalo tem ares de palhaço tragicômico, sua suavidade quebra o ritmo do espetáculo e fica ainda mais evidente no contraste com sua principal parceira de cena, Cacilda. Marta Baião empresta uma dignidade para sua personagem que, em determinado momento, faz o escárnio da plateia e do mundo calar a boca, culpado e cúmplice.

A peça vem fazendo tanto sucesso junto ao público que teve temporada estendida. As apresentações são de quinta a domingo, mas é bom chegar cedo para garantir um lugar. As sessões costumam lotar e quem não aceita sentar nas escadas, acaba saindo com ingressos para o dia seguinte.

*Bruna Ferreira é repórter do R7. É formada em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP (Universidade de São Paulo), onde cursa mestrado.

Pessoas Perfeitas
Avaliação: Muito bom
Quando: Quinta a domingo, às 21h. 80 min. Até 26/10/2014
Onde: Espaço dos Satyros Um (Praça Roosevelt, 214, Consolação, tel. 0/xx/11 3258 -6345)
Quanto: R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia-entrada) R$ 5 (moradores da Praça Roosevelt)
Classificação etária: 16 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Satyros dá poesia aos párias de São Paulo

pessoas perfeitas 4 Crítica: Satyros dá poesia aos párias de São Paulo

Elenco de Pessoas Perfeitas, do Satyros: moradores do centro paulistano com poesia - Foto: André Stefano

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critica atila Crítica: Ao expor angústia de rapaz que só diz uma palavra por dia, Solilóquio recupera a ingenuidade

Peça carioca Solilóquio traz outra vez a inocência dos tempos de outrora - Foto: Divulgação

Por ÁTILA MORENO
Especial para o R7*

Hoje em dia, num mundo cada vez mais banalizado, compensa mesmo falar de amor? Ainda mais um tema abordado tantas vezes? Pelo menos a peça Solilóquio, um Amor sem Palavras, em cartaz no Centro Cultural Solar de Botafogo, na capital fluminense, calibra muito bem sua principal arma: ele mesmo, o amor.

O caminho utilizado pelo diretor Zé Helou é contumaz. Aproveitou a leveza e o ótimo texto de Renata Amaral, adaptado da peça Humulus, o Mudo, de Jean Anouilh e Jean Aurenche,  para contar a história peculiar de Haroldo.

Este, um menino criado pela avó e três tias, que acaba sendo vítima de uma tragédia que o leva a uma anormalidade: ele só pode falar uma palavra por dia. Depois de se apaixonar na infância, ele decide guardar as palavras para poder se declarar ao seu amor.

Camadas

Não é uma história qualquer sobre amor. Aí está o grande acerto. Com uma sinopse primorosa, o diretor desfia o amor em diversas camadas.

Solilóquio pode sugerir a analogia com o amor platônico, tanto aquela ideia do senso comum, quanto aquela defendida pelo filósofo Platão (348/347 a.C.).

soliloquio Crítica: Ao expor angústia de rapaz que só diz uma palavra por dia, Solilóquio recupera a ingenuidade

Amor platônico está presente na peça - Foto: Divulgação

Haroldo vivencia esse amor platônico, ou seja, o amor não correspondido. Ao se apaixonar por Helena (Viviana Rocha), ele não a toca, não se aproxima, não consegue se manifestar devido à sua condição e fica preso num mundo mais idealizado.

Amor carnal

De uma maneira mais geral, Platão via o amor carnal como uma escada que poderia levar a outros mais elevados. De certa forma, Haroldo vai passando por essas situações até se firmar naquele amor que é a raiz de todas as suas virtudes.

Mas, antes disso, o protagonista vivencia o amor físico, o amor ao belo, o amor ao conhecimento (a chegada do professor Teodoro), todos esses o levam a algum lugar de encontro consigo mesmo.

O personagem principal parece reproduzir esse amor platônico no nosso olhar mais comum. Mas diante da trama, vemos que ele se desloca para o outro amor, dinamizado por Platão.

Elenco tem química

Mas tudo isso poderia soar piegas se a peça não trouxesse um envolvimento dos seus atores de forma tão natural. A química entre eles é a base que amarra todo esse êxito.

Coadjuvantes e protagonistas (Haroldo é interpretado por dois atores em diferentes fases da vida) mostram um talento raro de se achar nesse tipo de produção carioca, que exige um esforço ímpar dos profissionais: aqueles que vão interpretando vários personagens ao mesmo tempo e não perdem a simbiose diante de diálogos ágeis, dinâmicos e criativos.

Há de se destacar que Rodrigo Miranda (Haroldo mais novo) e Jonas de Sá (Haroldo na fase adulta) dão cada um o peso que o personagem exige e inclusive num tempo da história que não é cronológico. O primeiro expressa muito a timidez e a introspecção na infância, e o outro dá o tom perfeito ao atuar somente com os gestos, conseguindo ampliar ainda mais as angústias do protagonista.

As atrizes que interpretam as tias dão um show particular. Laura Araujo, Mariana Bassoul e Renata Amaral se configuram como o cronômetro indispensável na vertente cômica da peça. São personagens deliciosas que merecem até uma história separada numa outra produção, ou seja, um reboot como é chamado nos seriados televisivos.

O roteiro não entrega nada tão fácil e abusa bastante dos elementos disponíveis em cena. O cenário de Lilian Doyle traz um espetáculo a parte, com suas mudanças repentinas e que se encaixam perfeitamente no quebra-cabeça cênico. A direção de movimentos ficou a cargo de Fabiana Valor que fez um trabalho sincronizado e que chega ser quase mimético, de tão emblemático.

Entraves

No entanto, Solilóquio padece de alguns entraves. Apesar de equilibrar muito bem o lado cômico e dramático, esse mesmo humor parece caçoar das aflições vivenciadas pelo protagonista, principalmente na cena em que ele é levado para uma casa de prostituição. É algo que, por pouco, quase perde a mão, ficando escrachado demais.

Alguns termos usados nos diálogos não condizem com a época que a peça sugere indicar, até mesmo com a localidade onde a história se passa e também com a idade dos seus personagens. Isso se nota no discurso das três irmãs em determinados momentos da trama.

Mesmo assim, Solilóquio ganha mérito por nos revelar uma ingenuidade perdida nos tempos atuais. Uma ingenuidade gostosa e nostálgica que talvez amacie esses tempos tão banalizados, nem que seja por meros 75 minutos.

*Jornalista mineiro radicado no Rio, Átila Moreno é graduado pelo UNI-BH e tem pós-graduação em Produção e Crítica Cultural pela PUC-Minas.

Solilóquio, um amor sem palavras
Avaliação: Bom
Quando: Terça e quarta às 20h. 75 min. Até 1º/10/2014
Onde: Centro Cultural Solar de Botafogo (Rua General Polidoro, 180, Botafogo, Rio, tel. 0/xx/11 2543-5411)
Quanto: R$30 (inteira) R$15 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Ao expor angústia de rapaz que só diz uma palavra por dia, Solilóquio recupera a ingenuidade

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menores foto copo diseno Crítica: Teatro dando uma de pobre coitado vira motivo de riso em peça mexicana no Mirada

Mexicana Menores que o Guggenheim mostra angústia de se fazer teatro - Foto: Copo Diseño

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Santos*

Estar atentos aos editais. Escrever projetos. Entregar toda a documentação direitinho. Esperar pelo resultado. Nem sempre ganhar. E, quando tudo dá certo, a vitória vai só até o fim da temporada. Porque, depois, é preciso recomeçar tudo outra vez.

A conhecida instabilidade profissional e financeira do artista de teatro na América Latina é o pano de fundo da peça mexicana Menores que o Guggenheim, do grupo Los Guggenheim. O espetáculo foi apresentado no Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, que chegou ao fim neste sábado (13).

Na encenação, mergulhada na metalinguagem até o último fio de cabelo, um grupo de teatro tenta sobreviver com uma nova peça, enquanto procura espantar o fantasma dos tempos em que dois de seus integrantes tentaram se aventurar na Europa em um sonho fracassado de conquistar o "Primeiro Mundo".

O título da peça sai da relação de um dos personagens com o Museu Guggenheim Bilbao, no País Basco, diante do qual se dá conta de ser um latino-americano e não um europeu, em um rompante de autopreconceito.

Alejandro Ricaño, que assina dramaturgia e direção, constrói uma atmosfera de fracasso iminente, tão comum nos países latino-americanos, com um sentimento presente de inferioridade diante da metrópole de seu passado colonial que ainda é difícil expurgar.

O achado da montagem é expor esta realidade de interiorização da própria cultura diante daquela europeia, vista como superior, infelizmente, ainda tão presente neste lado do Atlântico. E ainda mostrar que os donos do discurso de que o teatro é um pobre coitado também têm seus mecanismos de oprimir o ainda em situação pior. Isso fica muito claro na relação de opressão que os produtor-diretor da peça tem com seu elenco.

A peça acerta ao fazer seu discurso sobre uma base de humor, tendo intérpretes carismáticos em cena conquistando o espectador até mesmo quando os diálogos são de um preconceito evidente.

Na encenação, o artifício dos artistas para levantar a obra de teatro dentro da obra de teatro dá lugar a outras discussões latentes que circundam a história, como a orientação sexual escondida de um dos integrantes ou o racismo em relação ao ator albino do elenco — uma metáfora para a situação do próprio negro no teatro mexicano; e também brasileiro.

O único tropeço da peça é estender-se demasiadamente em sua reta final, o que acaba de tornar enfadonho o seu repetir tal qual um disco arranhado sobre o mesmo tema. Um bom corte na parte derradeira teria feito muito bem.

De toda forma, Menores que o Guggenheim é um espetáculo que registra com propriedade a angústia cotidiana comum ao artista latino-americano, com seu sonho de realizar sua arte. Por mais que olhe para o próprio umbigo, o faz com mérito, inteligência e graça. E mostra que, para sair desse disco arranhado de pobre coitadinho é preciso, antes de tudo, abandonar de vez esse choramingar.

Menores que o Guggenheim
Avaliação: Bom
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Teatro dando uma de pobre coitado vira motivo de riso em peça mexicana no Mirada

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo.

Leia a cobertura do R7 no Mirada

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rapsodia gutomuniz Crítica: Cubana tortura plateia do Mirada e expõe com crueza sobrevivência na ilha de Fidel Castro

Cena da peça Rapsódia para uma Mula (Rapsódia para el Mulo): grito de sobrevivência em meio à derrocada do socialismo em Cuba - Foto: Guto Muniz

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Santos*

Espetáculos cubanos são sempre motivo de curiosidade quando apresentados fora da ilha sob comando dos irmãos Castro desde 1959.

Afinal, ver artistas deste país em cena é uma forma de apreender o que se passa realmente no contexto cubano, o que não costuma ser objeto de divulgação nos meios oficiais.

Quem viu Rapsódia para uma Mula, peça do grupo El Ciervo Encantado que representou Cuba na terceira edição do Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, esteve diante de uma visão sombria e confrontante da realidade cubana. Quase que intragável.

Assim que os refletores que quase cegam a plateia — uma referência clara à tortura — diminuem sua força, o público vê surgir no espetáculo-performance a artista Mariela Brito. Ela está nua, com o corpo apenas pintado de forma tribal. E começa a arrastar por intermináveis 55 minutos uma carroça pelo cenário, num rumo que é dar voltas sobre o próprio eixo.

rapsodia 2 Crítica: Cubana tortura plateia do Mirada e expõe com crueza sobrevivência na ilha de Fidel Castro

Rapsódia para uma Mula: combate diário pela sobrevivência em Cuba sem perder a esperança - Foto: Divulgação

Espécie de Mãe Coragem da ruína socialista, ela traz em sua carroça bugigangas distintas, em um arrastar cotidiano, uma espécie de combate diário repleto de esperança. Entre outros objetos, há espaço na carroça para uma pedra pesada, um retrato de família e um livro que faz clara referência ao comunismo decadente.

Enquanto a atriz se arrasta pelo palco com uma expressão de espanto que não sai de seu rosto, fazendo com que babe durante a caminhada lenta, uma rádio toca trilhas sonoras de grandes sucessos do cinema hollywoodiano de forma leviana.

A inspiração para o espetáculo dirigido por Nelda Castillo foi o poema homônimo de José Lezama Lima. A direção e a perfomer conseguem traduzir um clima de tensão misturada com cansaço tanto no corpo da artista quanto na plateia.

A realidade cubana surge em uma alegoria triste e constantemente assombrada, mas, sobretudo, resignada com seu infortúnio.

O momento final, no qual Brito chega ao limite do corpo e utiliza uma necessidade fisiológica como recado artístico potente, é também a possibilidade de confronto a quem não tem o direito a voz, ao discurso livre.

Ao fim, refletores voltam a cegar a plateia, enquanto a atriz permanece imóvel em sua triste sina. Rapsódia para uma Mula é um espetáculo tão difícil quanto deve ser viver e ser artista em uma ditadura. Mesmo que de viés supostamente esquerdista.

É importante salientar que o fato de o espetáculo existir diz muito sobre a Cuba atual. Prova de que a censura na ilha hoje já não é mais tão feroz quanto em tempos de outrora. Sinal de que a ditadura também já não é mais tão potente assim.

Rapsódia para uma Mula
Avaliação: Bom
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Cubana tortura plateia do Mirada e expõe com crueza sobrevivência na ilha de Fidel Castro

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo.

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