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cazuza leo aversa Crítica: Musical Cazuza é melhor do que o filme

Papel para se pedir de joelhos: Emílio Dantas conquista respeito como Cazuza - Foto: Leo Aversa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Cazuza sempre foi um herói às avessas dentro da cultura brasileira recente. Ele não morava no Olimpo, mas "no lado escuro da vida". Sua obra o tornou referência na música popular brasileira produzida durante a efervescente década de 1980, da qual ele foi chamado de o poeta máximo.

Cazuza era um artista que tinha coragem de sobra, seja para xingar quem lhe desse na telha ou para abrir publicamente sua sexualidade e também sua contaminação pelo vírus da Aids — em um tempo em que a doença carregava consigo um estigma de preconceito infinitamente maior do que o dos dias atuais.

Cazuza tinha personalidade e fazia com que sua arte caminhasse lado a lado com os dissabores de sua vida. Não era desses "artistas" pré-fabricados e trancados no armário da mediocridade dos tempos atuais.

Pois bem. Diante disso tudo, retratar Cazuza no teatro é tarefa de responsabilidade grandiosa. É preciso coragem do tamanho da que tinha o homenageado.

Pois João Fonseca teve e adaptou para os palcos a vida do roqueiro, mais uma vez sob a ótica autorizada de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza. Antes de ressuscitar Cazuza no palco, em Cazuza - Pro Dia Nascer Feliz, o Musical, Fonseca já havia feito o mesmo, e com sucesso, com Tim Maia, personagem que catapultou o ator Tiago Abravanel ao estrelato fazendo teatro — coisa raríssima no Brasil atual.

Lucinha é a maior guardiã da obra de Cazuza. Mesmo sendo mãe de filho único, sabe o filho que teve. Por isso, na medida do possível, tenta manter sua reprodução fiel ao original, pelo menos até onde deixa o mundo do showbiz.

Verdade seja dita: a peça é mais próxima de Cazuza do que o filme Cazuza - O Tempo Não Para, de 2004, dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho — pelo menos a obra teatral não dá chá de sumiço em Ney Matogrosso, figura essencial na vida e na trajetória artística de Cazuza, como o longa-metragem fez. Na peça, Ney aparece interpretado com competência e charme por Fabiano Medeiros.

O papel de Cazuza deveria ser o sonho para qualquer ator de musical na faixa dos 30 anos e com algum talento dramático. Desses para se implorar de joelhos para fazer. Pois o sortudo em ganhá-lo foi Emílio Dantas. Aprovado pelos pais de Cazuza, é claro.

cazuza leo aversa 4 Crítica: Musical Cazuza é melhor do que o filme

Musical se sustenta no talento dramático de Susana Ribeiro, como Lucinha, e Emílio Dantas, como Cazuza: ótimos embates cênicos entre mãe e filho - Foto: Leo Aversa

E Emílio não faz feio. Muito pelo contrário, faz um Cazuza crível, em sua rebeldia aliada ao excesso de carisma que o fez estrela nacional. É impressionante a semelhança do timbre de voz. Emílio canta como Cazuza, fala com o Cazuza, gesticula como Cazuza e, mais do que tudo, apronta como Cazuza. É o melhor papel da carreira do ator, e ele parece saber disso. Tanto que mergulha de cabeça e conquista respeito.

O talento do ator, aliado ao da atriz Susana Ribeiro, corretíssima na pele de Lucinha, é o que sustenta a montagem. As melhores cenas são as de embate entre os dois.

Na parte técnica, o cenário assinado por Nello Marrese é praticamente inexistente — trata-se de um conglomerado de plataformas de madeira apenas, mas a iluminação de Daniela Sanches e Paulo Nenem se sai melhor, conseguindo diálogo com a história escrita por Aloísio de Abreu, que faz boa adaptação do livro Só as Mães São Felizes, de Lucinha Araújo e Regina Echeverria.

Carol Lobato, por sua vez, revive a exuberância visual oitentista nos figurinos que transportam todos para a chamada "década perdida".

O restante do elenco é coerente com o gênero e executa o trabalho a contento. Cantam e dançam bem. E seguram como podem, vez ou outra, alguma ceninha dramática. Vão bem os integrantes da banda Barão Vermelho, Thiago Machado (Frejat), Oscar Fabião (Maurício Barros), Diego Montez (Guto Goffi) e Marcelo Ferrari (Dé Palmeira), assim como Bruno Narchi, que dá peso ao seu Serginho, um dos principais namorados de Cazuza.

Mas há incômodos. André Dias constrói um Ezequiel Neves — produtor do Barão e espécie de guru de Cazuza — em um registro totalmente diferente do restante do elenco. Há trabalho evidente do ator nesta construção, e ela poderia até se destacar, caso estivesse em outro contexto. Contudo, na interação com o restante da obra, há um ruído que faz com que Zeca vire uma caricatura. Este crítico foi amigo de Ezequiel Neves e é sabedor de que o jornalista e produtor musical era realmente um escândalo em pessoa. E até mesmo nas cartas que escrevia. Mas, mesmo assim, ainda era gente de carne e osso e não um desenho animado falante como surge no musical.

Outra que destoa é Brenda Nadler como Bebel Gilberto. Ela faz uma Bebel que parece ter misturado uísque com tranquilizantes o tempo todo. Tudo bem que a Bebel de hoje tem uma voz um tanto quanto adormecida, mas é sensacionalista levar isso a uma Bebel praticamente adolescente, que é a da peça. Também cansa os maneirismos da atriz na tentativa de quebrar forçosamente a quarta parede e provocar graça junto ao público — sobretudo na cena da composição de Eu Preciso Dizer que Te Amo, onde ela está em um registro completamente destoante de seus colegas.

Outro incômodo está na segunda metade do roteiro: a quantidade sem fim de cenas do sofrimento de Cazuza na luta contra a Aids. Todos sabemos que a doença foi cruel com ele e seus pais, mas não é preciso gastar tanto tempo cênico com esse sofrimento. Tem uma hora que a sensação é de que já deu para entender e a peça já está passando do ponto.

Se o filme, como já foi dito, cometeu graves omissões, a peça é mais condizente com a história, retratando sem hipocrisia detalhes da vida de Cazuza, desde seu vício em cocaína até mesmo fatos como a capa em que a revista Veja praticamente matou o cantor em vida, além da emblemática e corajosa entrevista na qual Cazuza assumiu ser portador do vírus HIV em uma época que a doença ainda chamada de "peste gay" era alvo de preconceito feroz.

O musical cumpre a função apresentar um personagem fundamental de nossa cultura ao mesmo tempo em que deixa o público entretido. É primordial que em tempos tão caretas a nova geração conheça um pouco da vida e da obra de um artista que não teve medo de se reinventar constantemente e de compartilhar com o público seus reais pensamentos — e medos também. O musical Cazuza - Pro Dia Nascer Feliz cumpre a missão: é um espetáculo que procura ser fiel ao homem que conseguiu aliar entretenimento da grande massa ao pensamento inteligente e à música de qualidade. E que faz uma baita falta.

Cazuza - Pro Dia Nascer Feliz
Avaliação: Muito bom
Quando: Quinta e sexta, 21h; sábado, 17h30 e 21h30. 165 min. Até 26/10/2014
Onde: Teatro Procópio Ferreira (r. Augusta, 2.823, Cerqueira César, São Paulo, tel. 0/xx/11 3083-4475)
Quanto: R$ 50 a R$ 180
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Musical Cazuza é melhor do que o filme

cazuza leo aversa 2 Crítica: Musical Cazuza é melhor do que o filme

Cazuza com a banda Barão Vermelho do musical em cartaz em SP: bem melhor do que o filme - Foto: Leo Aversa

Leia a crítica de Átila Moreno para o espetáculo durante a temporada no Rio

 

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criesp estevam avelar Domingou: Criança Esperança foi um desastre

Laila Garin (Elis), Emílio Dantas (Cazuza), Ney Matogrosso (ele mesmo) e Tiago Abravanel (Tim Maia): momento dos musicais foi a melhor parte de um Criança Esperança desastroso em 2014 - Foto: Estevam Avelar

Por MIGUEL ARCANJO PRADO*

Feito para ser um empolgante espetáculo musical, o Criança Esperança exibido pela Globo na noite deste sábado (16) foi um completo desastre.

O programa não honrou sua própria tradição de ser feito ao vivo e apresentou uma versão gravada vergonhosa. Alguns cortes pareciam feitos por estudantes do primeiro ano de rádio e TV. Nem a bailarina nua da edição passada justifica tirar o clima de ao vivo do programa. Seria melhor ter checado se as bailarinas estavam de calcinha antes de subir ao palco.

A única coisa que salvou o Criança Esperança da vergonha absoluta foi o número final, no qual o cantor Ney Matogrosso fez apresentação ao lado de estrelas dos espetáculos musicais que ressuscitaram com sucesso alguns de nossos cantores queridos que já se foram.

Assim, Emílio Dantas incorporou Cazuza, Tiago Abravanel, Tim Maia, e Laila Garin, Elis Regina — esta última com performance de deixar todos arrepiados, que já lhe valeu um Prêmio Shell de Teatro e a indicação ao Prêmio APCA deste ano. Fizeram emocionante apresentação de Canção da América, de Milton Nascimento.

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Didi, ou melhor, Renato Aragão, estava claramente magoado e teve de dividir cena com Fernanda Lima nos 29 anos do Criança Esperança - Foto: Estevam Avelar

O restante do show foi uma sucessão de apresentações burocráticas, frias. Não bastasse o palco morno, atores da Globo surgiram para falar textos contando como são bons e ajudam as pessoas, em um tom que soou arrogante — a única a falar com simpatia foi Glória Maria.

Ivete Sangalo até se esforçou na abertura, mas seu número também foi fraco comparado ao que ela já aprontou no palco em edições anteriores.

Para completar, um Didi, ou melhor, Renato Aragão destronado do programa, tendo de dividir espaço com Fernanda Lima, surgiu apenas no final, com muita mágoa, para dizer: "O Criança Esperança ninguém vai me tirar".

Está certo ele. Pelo menos nos tempos em que comandava a festa, então dirigida competentemente por Aloysio Legey no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, o show era vivo, intenso.

Antes de ser cortado, Didi garantiu que estará de volta em 2015, nos 30 anos do Criança Esperança. Tomara que não seja para mais uma grande decepção como foi esta 29ª edição.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e preferia o Criança Esperança de antigamente. A coluna Domingou, uma crônica semanal, é publicada todo domingo no blog Atores & Bastidores do R7.

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reino 4 Crítica: Na comédia Reino, Grupo Gattu renova teatro político com leveza, ironia e inteligência

Reino, do Grupo Gattu: discussão inteligente e bem humorada do Brasil no Teatro do Sol - Foto: Ary Brandi

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Muita gente por aí pensa que o teatro político precisa ser sisudo e enfadonho. Ou ter um certo ar de catequese, no qual pobres bons aprenderão que ricos são maus. Nada disso.

O espetáculo Reino, escrito e dirigido por Eloisa Vitz e encenado por seu Grupo Gattu, prova exatamente que o teatro político pode ser o contrário de tudo isso e, assim, bem mais potente em seu discurso:  é uma comédia política pop, que consegue ser leve, irônica e inteligente ao mesmo tempo. E nada inocente.

Primeiro texto assinado por Eloisa Vitz — que já escreveu Rapunzel e Frisante sob o pseudônimo Tito Sianini —, conta a história de uma rainha déspota que se sente ameaçada de perder seu poder. A arrogância com que trata os subalternos pode gerar a qualquer momento nos mesmos uma traição. Este é seu verdadeiro temor. Porque o povo ela sabe que já está domesticado.

reino 2 Crítica: Na comédia Reino, Grupo Gattu renova teatro político com leveza, ironia e inteligência

Daniel Gonzales e Miriam Jardim - Foto: Ary Brandi

A premissa do texto serve para um desabafo da própria autora e seu grupo para o Brasil atual. Naquele reino longínquo os problemas são muito parecidos com os do nosso cotidiano, como a água que periga secar nas torneiras da maior cidade do País sem que nenhum governante assuma a responsabilidade. Ou a liquidação de cargos em Brasília por um apoio interesseiro e desavergonhado.

Diante de Reino, a gente ri muito, mas é de desespero, por tornar-se consciente de não ter por onde escapar. O Gattu, com seu teatro de poucos recursos financeiros, mas cheio de perspicácia, aclara tudo de forma desconcertante.

Num primeiro momento, a montagem pode até ter ares de teatro infantil, mas que o espectador não se confunda. Logo, a peça revela que sua complexidade vai bem além. É teatro mais do que adulto. Seu diálogo com a linguagem do infantil serve, inclusive, para mostrar como muitas vezes ainda somos crianças quando o assunto é evolução social. Quem sabe contando a nossa periclitante situação com ares de conto de fadas acordemos do mundo da fantasia no qual nos instalamos.

Como diz certa hora o texto: o rio fede e nem percebemos mais. Acostumamo-nos com o descaso, com as regras já dadas, em nossa passividade cotidiana. E quem está no poder tripudia do povo alienado — seja os da dita direita ou os da dita esquerda. Este é o grito do Gattu.

Em um palco praticamente desprovido de cenário e vestidos por Ana Fernandes, a produção foca no trabalho de seus atores o sustento da obra. E eles estão ali, presentes. Eloisa Vitz é atriz potente. Faz uma rainha que não titubeia e reina sobre a peça. Ela tem uma das vozes femininas mais bonitas do teatro paulistano; assim, ouvi-la é sempre um grande prazer. Além disso, sabe dar peso exato a cada palavra, coisa rara hoje em dia.

reino 7 Crítica: Na comédia Reino, Grupo Gattu renova teatro político com leveza, ironia e inteligência

A autora e diretora de Reino, Eloisa Vitz - Foto: Ary Brandi

Outro achado no elenco é Marilia Goes, que se divide em variados papéis. A atriz tem frescor e um tempo para comédia evidente. Nas coreografias — sim, os personagens dançam muitas vezes, o que é ótimo — é a que baila com maior graça, sincronia e destreza.

Miriam Jardim faz o papel de uma espécie de escada para o humor da peça, como o assessor-capacho da rainha. Seu personagem serve até para cutucar a soberba da crítica de arte preguiçosa e pretensiosamente intelectualizada. Ainda completam o elenco em sintonia os atores Daniel Gonzales, Laura Vidotto e Victor Delboni, este substituindo temporariamente Mariana Fidelis, e a cantora lírica Gabriela Pastorin.

A peça é encenada no novo espaço aberto pela trupe, o Teatro do Sol, na zona norte paulistana. Charmoso e sofisticado como as melhores salas alternativas do teatro europeu, portenho ou nova-iorquino. A turma do Gattu tem bom gosto, demonstrado já no hall de entrada e confirmado nas poltronas vermelhas e confortáveis na qual recebe seu público e até no monumental espelho do banheiro.

Em Reino, o que Eloisa Vitz e o Grupo Gattu fazem é um grande desabafo. De quem quer fazer teatro neste País que pouco dá valor às artes. A peça renova o teatro político brasileiro, aproximando-o do grande público, aquele tanto necessita refletir. E compartilha com este o seu discurso, dando ao espectador o poder de decisão do final da obra. Ao descortinar as entranhas do poder com deboche, o Grupo Gattu mostra que é guerreiro, resistente e que não desistirá assim tão fácil.

Melhor para o teatro brasileiro e para todos nós.

Reino
Avaliação: Muito bom
Quando: Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 20h. 75 min. Até 28/9/2014 com possibilidade de prorrogar
Onde: Teatro do Sol (r. Damiana da Cunha, 413, Santa Terezinha, Santana, São Paulo, tel. 0/xx/11 3791-2023)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Na comédia Reino, Grupo Gattu renova teatro político com leveza, ironia e inteligência

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nao fornicaras Crítica: Satyros se reencontra em Não Fornicarás

Como nos velhos tempos: Satyros volta a ser ousado e debochado em Não Fornicarás - Foto: André Stéfano

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Uma forma inimaginável de dublagem da delicada canção Codinome Beija-Flor, de Cazuza, surge diante dos olhos do público da peça Não Fornicarás, em performance do ator Ivam Cabral. A entrega é desmedida e digna de respeito.

Diante do impacto, o espectador costumeiro do grupo Os Satyros se satisfaz em reencontrar aquela velha conhecida ousadia que se mistura à própria história da trupe e que andava um pouco sumida ultimamente. Em Não Fornicarás, vemos o Satyros dos velhos tempos.

A montagem, dirigida por Rodolfo García Vázquez, faz parte do pacote comemorativo dos 25 anos da trupe da praça Roosevelt no projeto E Se Fez a Humanidade Ciborgue em 7 Dias. Em pauta, as relações do homem com a tecnologia.

Em Não Fornicarás, o texto-provocação da colunista do R7 Rosana Hermann serve de base para explicitar como o homem não detém seus impulsos sexuais primitivos diante da máquina. Muito pelo contrário, a utiliza como forma de obter prazeres inconfessáveis.

A encenação de Vázquez abusa de recursos simples, porém eficientes, para criar o clima no qual o pecado mora ao lado. Ou, melhor, bem próximo, a um clique.

satyros Crítica: Satyros se reencontra em Não Fornicarás

Acima, Robson Catalunha brinca com a boneca inflável; abaixo, Julia Bobrow discute a perda da inocência e o abuso tecnológico - Foto: André Stéfano

Cheio de libido, o elenco está comprometido com o discurso da obra e leva o público o tempo todo à atmosfera proibida que a peça revela.

O horário da meia-noite, no qual o R7 viu a montagem, talvez fosse mais apropriado, já que ajudava a entrar no clima — agora, a peça está no horário carola de domingo, às 19h, mas nada que a prejudique.

O ator Robson Catalunha é uma espécie de mestre de cerimônias, papel em que sempre se sai muito bem. Conversa com a plateia e conduz as cenas. Aos atores Fabio Penna e Julia Bobrow cabem viver as situações dramáticas apresentadas, como a da garotinha púbere que se vê conectada com um pedófilo.

É impressionante ver a mesma Bobrow que encarna a lascívia na cena da abertura, usando apenas sua voz, logo depois virar o retrato da inocência prestes a ser desmantelada.

Pablo Benitez Tiscornia e Giovanna Romanelli, desnudos, são uma espécie de Adão e Eva dos novos tempos tecnológicos, expondo seus corpos sem pudor aos olhares devoradores por todos os lados.

Completa o elenco o casal Marcelo Thomaz e Nina Nóbile. Ambos intensos sob a segunda pele de zebra e responsáveis pela cena que fez a fama da peça antes mesmo de sua estreia: o tal do sexo explícito transmitido pela internet para todo o mundo em tempo real. Esta crítica prefere não se ater aqui a detalhes sensacionalistas, mas dizer a quem morre de curiosidade para saber o que realmente se passa: vá ver a peça.

No dia em que o R7 assistiu à montagem, completaram o elenco Ivam Cabral, com sua perfomance de impacto já mencionada, e Henrique Mello, aniversariante do dia que entrou em cena para ganhar os parabéns — que público e elenco cantaram de bom grado no meio do espetáculo (nada mais Satyros).

E são coisas simples assim, sem pompas ou medos, que fazem da peça um reencontro do grupo consigo mesmo. Em Não Fornicarás, o Satyros lida muito bem com um tema que lhe é velho conhecido: o sexo, ainda visto por muitos como tabu.

Em uma encenação pulsante, volta a dialogar com seu público primeiro, aquele que lotava todas as sessões da Trilogia Libertina do Marquês de Sade, formado por jovens de todas as idades perdidos pela praça Roosevelt. Gente que encontra no palco do Satyros um sentido para o absurdo da repressão e da hipocrisia que rodeia a vida contemporânea.

Em Não Fornicarás, o Satyros volta para os braços do underground. É debochado, atrevido, contestador. É, sobretudo, jovem. É Satyros. Nem que por apenas mais uma sessão cheia de verdade artística.

Não Fornicarás
Avaliação: Muito bom
Quando: Domingo, 19h. 50 min. Até 28/9/2014
Onde: Espaço dos Satyros Um (praça Roosevelt, 214, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 18 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Satyros se reencontra em Não Fornicarás

nao fornicaras 2 Crítica: Satyros se reencontra em Não Fornicarás

Cena de Não Fornicarás: Satyros volta a tocar em tema que domina: sexo tabu - Foto: André Stéfano

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iepe Crítica: Em Iepe, Trupe Temdona faz crítica social com humor e conquista o público

Peça Iepe faz crítica social ferina ao confrontar beberrão e barão - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O destino não explica tudo, sobretudo o motivo de alguém se afundar na pobreza enquanto outro leva ma vida deitado em berço esplêndido.

Sempre, há muita coisa por detrás. Seja do poder ou do fracasso. Ninguém chega a estes lugares apenas com mérito próprio.

E justamente descortinar este tipo de reflexão de forma simples, mas nada inocente, é o grande mérito do espetáculo Iepe, com a Trupe Temdona, formada em 2013 com artistas saídos da Fundação das Artes de São Caetano do Sul, no ABC Paulista.

O texto é assinado por Luís Alberto Abreu. É instigante e competente ao contar a saga de Iepe, um beberrão camponês que, por ironia da vida, um dia se vê no papel de barão. E que será completamente influenciado por esta nova realidade.

O texto tem visão política e social aguçada. Apesar de em certos momentos reforçar estereótipos, em outros os desconstroi, como o imaginário do pobre bom e do rico ruim. Muito pelo contrário, na peça a esperteza e a maldade não é atributo de nenhuma classe social.

O espectador, intelectualizado ou não, embarca na história, que é contada pelos aguerridos artistas de forma épica com pitadas de teatro narrativo.

O R7 assistiu à primeira sessão de rua da montagem, realizada na calçada em frente ao Centro Livre de Artes Cênicas de São Bernardo do Campo, no último sábado (2). Vários transeuntes pararam para acompanhar o desenrolar da história, atraídos pelo carisma dos atores no palco, ou melhor, no passeio.

O diretor Pedro Alcântara imprime ritmo intenso à encenação, na qual os artistas trocam de personagens de forma convincente e rápida. Também é um achado o uso de teatro de bonecos, que encanta sobretudo as crianças, quebrando barreiras entre o teatro de rua, de palco e o de bonecos.

Outro destaque é a utilização de uma tenda-cenário que funciona de camarim para as trocas e também como caixa ressonante de efeitos sonoros executados pelos próprios atores fora de cena. O que dá à peça um ar cartoon.

O elenco é formado por André Félix, Thais Irentti, Rodrigo Sampaio e Rosane Rodrigues. Eles dão conta de mais de uma dezena de personagens.

As atuações em alguns momentos se aproximam do registro do teatro infantil, com certo exagero de caretas. Mas, o público parece gostar.

Entretanto, uma coisa é clara: os atores estão presentes na obra. Félix ganha a simpatia para seu Iepe, quase sempre bêbado — talvez devesse relaxar um pouco mais, sobretudo as mãos. Irentti, como a exagerada mulher rabugenta de Iepe, também conquista risadas. Mas o destaque no elenco fica com Sampaio, que mostra versatilidade ao assumir variados personagens e bom tempo cômico de improvisação. Já Rosanne Rodrigues, apesar de evidente dedicação, precisa estar mais atenta ao tom monocórdico com que diz as falas.

O grande recado de Iepe está mesmo em seu texto, que em certos momentos pode até soar como as montagem do antigo CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE (União Nacional dos Estudantes) da década de 1960.

Traz uma urgência em despertar a classe trabalhadora para a opressão em que esta vive e tirar de suas costas a culpa pelo fracasso cotidiano. Sabiamente, descortina todo um sistema viciado e de ares aparentemente imutáveis. Afinal, nada é tão simples assim.

Iepe
Avaliação: Bom
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Por Acaso Navalha Foto Ronaldo Dimer 8 Crítica: Por Acaso, Navalha expõe dureza sem saída

Bárbara Salomé como a prostituta Neusa Sueli na peça Por Acaso, Navalha - Foto: Ronaldo Dimer

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Todo mundo, quando nasce, traz consigo, pelo menos hipoteticamente, um mar de possibilidades. A prostituta Neusa Sueli sabe disso muito bem. Contudo, ao longo das escolhas e também das reais possibilidades da vida, nem sempre as coisas caminham para o rumo sonhado.

Muitas vezes, diante do passo errado, fica impossível voltar a outro caminho, tamanho o mergulho na dura realidade do presente.

Por Acaso, Navalha, peça dirigida por Fernando Aveiro e produzida por Camila Biodan com a Cia. Caxote a partir do texto Navalha na Carne, escrito em 1967 pelo jornalista e dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999), traz o desespero da consciência de onde a vida termina, mesmo que a morte ainda esteja distante. Até ela chegar, há uma longa e degradante espera.

O público que entra no teatro-instalação Espaço Mínimo, já se depara com um ambiente trôpego ao subir as escadas. O tom soturno é rodeado por espelhos, ruídos e bonecos. Quase vivos, quase mortos.

Por Acaso Navalha Foto Ronaldo Dimer 7 Crítica: Por Acaso, Navalha expõe dureza sem saída

Triângulo mostra a decadência da vida bandida - Foto: Ronaldo Dimer

Logo na entrada, os personagens estão ali, diante do espelho, à espera de ganharem vida. A cada degrau, surge uma memória de um tempo irrecuperável, até que o público chegue ao quarto de Neusa Sueli, onde se dá a encenação.

A direção acerta ao ambientar tudo em um quarto de verdade, onde fica clara a derrota cotidiana de Neusa Sueli, prostituta já no fim da carreira ingrata. No espelho, a frase escrita com batom “Isto NÃO é teatro” provoca o público, enquanto espera que os personagens subam as escadas e comecem tudo. Merece elogio o trabalho da diretora de arte Rosângela Ribeiro e do artista plástico Pedro Farled na ambientação.

No quarto, o espectador, mais do que olhar pelo buraco da fechadura, adentra como fantasma àquele ambiente de desespero.

É lá que Neusa Sueli é submetida aos desmandos violentos e cruéis do cafetão Vado. E também é lá que entra em peleja constante com o travesti Veludo, amigo e inimigo ao mesmo tempo.

O trio de atores está coeso, mas ganha maior força no decorrer da peça. Apesar do naturalismo proposto pela encenação, cada qual apresenta proposta distinta.

Bárbara Salomé constrói uma Neusa desesperançada, imersa no vício e no limbo ao mesmo tempo. A atriz começa mais dura, até que começa a transitar entre fantasia e realidade ao trazer consigo a dor vinda do concreto que nem a droga consegue deter. Neusa precisa de amor, mas não tem. E nem terá. E o pior: sabe disso. E a atriz deixa isso bem claro em sua atuação.

Murilo Inforsato começa com uma construção caricata para seu Vado. Mas, ao longo da encenação, vai tomando as rédeas do personagem e conquistando sua verossimilhança. Ele cresce, sobretudo, a partir do enfrentamento com o travesti Veludo, ganhando a crueldade necessária para a parte final da obra.

por acaso 2 Crítica: Por Acaso, Navalha expõe dureza sem saída

Humberto Caligari se destaca como o travesti Veludo em Por Acaso, Navalha - Foto: Ronaldo Dimer

Humberto Caligari faz de sua rápida, porém fundamental participação, como o travesti Veludo, o melhor momento da peça, quando se estabelece um triângulo, humano e baixo. O ator mistura empáfia, segurança, deboche e, sim, muita masculinidade em sua construção. Assim como o Cintura-Fina de Mateus Nachtergaele, na minissérie Hilda Furacão, seu travesti tem uma teatralidade pungente. Diante de um personagem que é caricato por si só, o ator prefere ficar no mínimo e se sobressai.

Por Acaso, Navalha mostra que Plínio Marcos ainda é contundente e atual. E que a vida continua a ser bandida com muita gente. E que não queremos (ou podemos?) arcar com as desgraças alheias. Por isso, tanta indiferença cotidiana.

Se muitos por aí conseguem dar reviravoltas e se reinventar, a outros o fundo do poço parece não ter escapatória. É uma dureza sem saída. O silêncio inescrutável no quarto após a saída derradeira de Neusa Sueli deixa isso claro de uma forma dilacerante.

Por Acaso, Navalha
Avaliação: Bom
Quando:
Segunda, 21h (última sessão). 60 min. Até 4/8/2014
Onde: Espaço Mínimo (r. Barão do Bananal, 854, Vila Pompeia, São Paulo, tel. 0/xx/98919-2773)
Quanto: R$ 30
Classificação etária: 16 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Por Acaso, Navalha expõe dureza sem saída

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the old woman 8 lucie jansch Crítica: Com Baryshnikov e Dafoe, Wilson traz o absurdo com pitada surreal em The Old Woman

Willem Dafoe e Mikhail Baryshnikov estão na nova peça de Bob Wilson em SP - Foto: Lucie Jansch; veja galeria

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Certo frenesi tomou conta da classe artística e do público teatral paulistano nos últimos dias. Todos imbuídos de um só objetivo: ver a peça The Old Woman (A Velha), de Robert Wilson, ou apenas Bob Wilson para os mais íntimos, e depois exibir o ingresso nas redes sociais, é claro.

the old woman 1 Crítica: Com Baryshnikov e Dafoe, Wilson traz o absurdo com pitada surreal em The Old Woman

The Old Woman fica em SP até 3/8 - Foto: Lucie Jansch

Nos novos tempos é preciso provar que realmente esteve em uma das disputadas sessões no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros. Vai que alguém duvida.

Também pudera tamanho afoitamento: o novo espetáculo do diretor texano traz um duelo cênico potente entre dois grandes nomes das artes cênicas: o russo Mikhail Baryshnikov, considerado um dos maiores bailarinos da história, e o ator estadunidense Willem Dafoe, estrela do cinema e também do teatro, já que foi integrante até 2005 do cultuado grupo nova-iorquino The Wooster Group.

Wilson, que já virou habitué da cena paulistana após bem-sucedida parceria com o Sesc São Paulo, desta vez apresenta uma obra de ritmo desconexo, mergulhada no absurdo, mas, ainda assim, presa de alguma forma à estética que dá fama ao diretor há quatro décadas.

Como bem definiu Zé Celso na semana passada, Bob Wilson é um artista plástico do teatro. E é bom lembrar que, apesar de ele estar há tanto tempo na estrada teatral, boa parte do público brasileiro só agora tem oportunidade de ver seu trabalho de perto. Assim, é até compreensível o deslumbre.

Mesmo tendo duas estrelas a seu dispor, Wilson as trata como marionetes, por mais que haja uma rebelião interna em cada uma delas. As 12 cenas-instalação são comandada pela figura de dois palhaços, diferentes e iguais ao mesmo tempo.

A sofisticação está no cenário minimalista de pitadas surreais, bem como na luz bem marcada de A.J. Weissbard ou nos figurinos de Jacques Reynaud – com a dupla usando o mesmo surrado terno, mas com gravatas diferenciadas: a de Dafoe é borboleta, a de Baryshnikov, tradicional.

the old Crítica: Com Baryshnikov e Dafoe, Wilson traz o absurdo com pitada surreal em The Old Woman

Dafoe e Baryshnikov fazem dupla no palco do Teatro Paulo Autran, em SP - Foto: Lucie Jansch; veja galeria

A peça foi criada a partir do livro escrito pelo russo surrealista Daniil Kharms, que morreu de fome em 1942 em um hospital psiquiátrico de Leningrado (hoje São Petersburgo), então cercada por tropas nazistas.

Mas, apesar de começar a obra justamente com um texto sobre a sensação cortante da fome, Wilson imprime ironia perspicaz ao espetáculo, ao estabelecer um jogo de sentido com o espectador, aproximando-se neste absurdo do surreal do próprio autor, a quem o próprio Wilson confessou não ter entendido bulhufas. E esse desentendimento desesperado acompanha a montagem.

the old woman 2 Crítica: Com Baryshnikov e Dafoe, Wilson traz o absurdo com pitada surreal em The Old Woman

Peça de Bob Wilson foi inspirada por livro de russo surrealista - Foto: Lucie Jansch; veja galeria

Se alguém aí exige uma dramaturgia linear tudo gira em torno de um escritor que encontra um cadáver de uma velha em seu apartamento. Pode ser uma dessas que caem pela janela. Ele resolve, então, guarda-lo em uma mala, com a qual parte em uma viagem de trem, onde a mala desaparece. Simples assim.

Em meio a esta simplicidade caótica, próxima ao desenho animado, observações ferinas surgem, como sobre a afetação feminina, as crianças com seu excesso de movimentação irritante ou mesmo a impossibilidade de contar até oito. Nos devaneios cabem até teoremas geométricos. É tudo um delírio, e os dois atores em cena embarcam no jogo proposto pelo diretor.

A entrega de ambos é total. Há trabalho evidente. E mais: conseguem colocar-se também como artistas diante da redoma que as obras de Wilson têm. Mesmo amarrados ao rigor técnico, Baryshnikov e Dafoe apresentam novas propostas e dialogam o tempo todo: com a obra, com o público, com o autor e com o severo diretor. Estão presentes, se divertem.

Há um ar cartoon na mútua destruição, tal qual Tom & Jerry, seguida do riso, da fuga permanente, do recurso das reiterações. Tem espaço até para o canto e a dança, humanos e patéticos em sua espetacularização. Até porque a realidade achata a vida. E o surrealismo imerso no absurdo a liberta de todos os limites, como é próprio do teatro.

The Old Woman (A Velha)
Avaliação: Muito bom
Quando: Quarta a sexta, 21h; sábado, 16h e 21h; domingo, 18h. 100 min. Até 3/8/2014
Onde: Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros (r. Paes Leme, 195, metrô Faria Lima, São Paulo, tel. 0/xx/11 3095-9400)
Quanto: R$ 60 (ingressos esgotados)
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Com Baryshnikov e Dafoe, Wilson traz o absurdo com pitada surreal em The Old Woman

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Adormecidos José Alessandro Sampaio Foto de Rodrigo Dionisio Frame1 Crítica: Satyros se dá bem com drama Adormecidos

José Sampaio, em Adormecidos: ator conquista respeito como idoso apaixonado - Foto: Rodrigo Dionisio

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A gente acaba sempre querendo muita coisa. O te amo pra sempre junto do te amo demais é uma das nossas obsessões. Às vezes, é possível. Às vezes, não. Na cidade fria erguida no concreto, essas dores podem ser mais intensas.

A Cia. Os Satyros, acostumada a desvendar tabus no palco, resolveu mergulhar na simplicidade do relacionamento a dois na peça Adormecidos.

Referência do teatro underground brasileiro, o diretor Rodolfo García Vázquez imprime seu olhar ao drama burguês contemporâneo.

O texto é do minimalista Jon Fosse, dramaturgo norueguês de 54 anos que vem conquistando espaço na cena mundial com suas peças.

Apresenta um jovem filho que conta a história de amor de seus pais e a de desamor de um outro casal que também morou naquele lugar. O primeiro casal está em constante sintonia fina por toda a vida; o outro se afoga na falta de comunicabilidade.

O amor intenso, a aventura barata, a traição, o cuidar do outro e o passar dos anos — sempre implacável — é acentuado na montagem, na qual inventivamente a direção brinca com espelhos —um acertado cenário criado por Luiza Gottschalk. Isso cria e desconstrói atmosferas e, mais, joga o público para dentro daqueles conflitos, que são de todos nós.

Adormecidos é simples, mas não superficial, sobretudo porque dialoga com expectativas que trazemos conosco.

adormecidos andrestefano Crítica: Satyros se dá bem com drama Adormecidos

Elenco se destaca em Adormecidos, do Satyros: em primeiro plano, o casal formado por Tiago Leal e Katia Calsavara, ao fundo e ao centro, o casal formado pelos atores José Sampaio e Luiza Gottschalk - Foto: André Stéfano

O elenco está afinado. Joga junto. Henrique Mello, na pele do filho e ao mesmo tempo executor da trilha, em cena, dialoga com aquele entorno onde a perda está sempre à espreita. Vai, acertadamente, no mínimo.

Atores experientes, Katia Calsavara e Tiago Leal concretizam o desencontro constante do casal que interpretam. Há um certo enfado no ar, de ambos, com aquela situação de amor forçado. Exigido. Os atores passam todos estes sentimentos com propriedade.

Com uma atuação repleta de força, Calsavara é um dos destaques da peça, ao lado do ator José Sampaio, que vive o casal eternamente apaixonado ao lado de Luiza Gottschalk. Sampaio está tão presente e intenso em cada cena que conquista o respeito do público, sobretudo quando seu personagem chega à velhice. Neste momento, o ator se impõe ainda mais, com uma atuação comovente.

O ar alternativo dos Satyros se fez presente na sessão vista pelo R7. A lanterna empunhada por Katia Calsavara não acendeu em uma cena em que era fundamental que isso ocorresse. Os Satyros precisa se dar conta que, em certos aspectos, não é preciso levar o espírito underground às últimas consequências. Ou não, que fique assim mesmo. Talvez seja já charme e parte do folclore.

Entretanto, antes que esta crítica termine, é preciso ressaltar a delicadeza com que Daise Neves compôs os figurinos da obra. Eles dialogam intensamente com a encenação. São belos e frágeis como o amor e a vida.

Leia a coluna Dois ou Um com o ator José Sampaio!

Adormecidos
Avaliação: Muito bom
Quando: Sábado (26/7/2014), 19h, última apresentação
Onde: Espaço dos Satyros Um (praça Roosevelt, 214, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Satyros se dá bem com drama Adormecidos

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gilberto gil palco bob sousa Gil cria realidade paralela ao reencontrar João

Gilberto Gil toca sambas consagrados por João Gilberto no Theatro NET São Paulo - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto BOB SOUSA

A lágrima clara sobre a pele escura de Gilberto Gil, no meio do show, faz lembrar muita coisa. Comove. Mexe com a gente.

Ele inaugurou o Theatro NET São Paulo neste fim de semana com o show de seu novo disco, Gilbertos Samba.

O álbum é uma volta ao começo, homenagem explícita a João Gilberto e seu violão.

Gil surge em palco enxuto, acompanhado de seu filho Bem Gil, de Domenico Lancelotti e Maestrinho, em sintonia fina.

Tudo começa com Aos Pés da Cruz, seguida de Você e Eu. A serenidade da bossa nova invade tudo e tira o ritmo frenético da metrópole. A gente embarca na doce viagem de Gil.

Ele diz que estar em São Paulo é uma satisfação e conta que o disco nasceu “das coisas naturais e fantasias da cabeça do artista”.

Foi em pleno deserto australiano que ele pegou o violão e as músicas de João foram surgindo, naturalmente, começando pela Aos Pés da Cruz. “Aí veio Doralice, O Pato... E me dei conta que era o disco de sambas do João Gilberto que estava vindo”. Gilbertos Samba, uma mistura dos dois.

Gil revela que fez nova música para o Rio, trilha do filme Rio, Eu te Amo. A cidade já ganhou a emblemática Aquele Abraço, quando ele partiu para o exílio em Londres mais de 40 anos atrás, deixando amargura no sorriso de quem ficou.

Explica o novo refrão, uma brincadeira com as palavras “choro e rio”. O público aprende rápido, e Gil comemora: “O Brasil tem essas coisas incríveis: São Paulo cantando para o Rio”.

Gil grita “Ajayô”. A banda responde, prontamente, “ê”. Os Filhos de Gandhy se fazem presentes num átimo de segundo antes de Doralice. “Cantar na atmosfera do João é tudo de bom”, pondera o cantor.

Diz que João abriu portas. “O João facilitou a vida da gente, prestou esse serviço a todos nós, cantar com nossas vozes, do nosso jeito”.

Conta que decidiu deixar um pouco o acordeom de lado e se aventurar no violão quando ouviu Chega de Saudade tocada e cantada por João na emblemática gravação de 1958. E lembra que não foi só ele: “Eu, Milton, Chico, Caetano, Edu... Todos nós fomos tocar violão por causa do João. Até rima [risos]”.

Gil se atreveu a colocar letra em Um Abraço no Bonfá, de João, durante uma viagem à Tunísia. Depois, para que houvesse reflexo no espelho musical criado por ele, compôs também, em Itajubá, Minas Gerais, Um Abraço no João, sem palavras.

Canta Ladeira da Preguiça e explica o porquê: “É uma forma de lembrar dela, a Pimentinha, que gravou essa canção”, referindo-se à amiga Elis Regina que o lançou para todo o Brasil. Curiosamente, é a voz dela que recebe o público antes de o show começar.

As coisas caminham para o fim, quando Gil anuncia: “Este samba vai para Dorival Caymmi, João Gilberto e Caetano Veloso”. A plateia delira e sucumbe à música. E ele vai mandando Aquele Abraço. O aplauso é forte. Gil sai do palco e fica difícil viver sem a realidade paralela criada por ele. E João.

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sóentrenós2 Crítica: Com texto de Franz Keppler, Só... Entre Nós é ousada no tema, mas conservadora na forma

Peça Só... Entre Nós aborda o tema da traição e do amor em polêmico triângulo - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Um triângulo amoroso é algo tido como ousado. Mas, todo mundo já viu um. Seja na vida fantasiosa dos palcos ou na vida real, na qual também pipoca em abundância.

Se é tema controverso, torna-se ainda mais, pelo menos pelos padrões morais conservadores da atual sociedade brasileira, quando há uma mulher e dois homens.

Aí mora a ousadia da peça Só... Entre Nós, de Franz Keppler, um dos dramaturgos da nova cena paulistana; escreveu também as recentes Córtex e Divórcio.

Só por subverter o triângulo da ótica machista costumeira o espetáculo já ganha pontos. Ainda mais por usar como referência explícita textos de Caio Fernando Abreu, nosso gaúcho que poetizou o sofrimento solitário na metrópole paulistana. Os prédios ao fundo, sempre espreitam tudo, mas não oferecem ajuda.

Se é ousada no tema, a montagem é conservadora na forma.

Pelo jeito, em vez de jogar gás na polêmica, o diretor da obra, Joca Andreazza, prefere transformá-la em delicadeza e usa um tom quase que reverente para contar a história, excessivamente narrada. Apresenta aqueles três seres humanos com seus amores concomitantes.

Andreazza impõe sua direção, segurando seus atuadores e demonstrando um respeito ao texto que soa excessivo em alguns momentos. Uma pequena dose de ousadia tivesse feito bem à obra e subvertesse um pouco a narrativa desprovida de ação.

O elenco respeita a marcação e faz o que pode. Os movimentos são básicos, quase robóticos. Os atores Marcia Nemer-Jentzsch, Ricardo Henrique e Tiago Martelli são talentosos, mas, se  tivessem ficado mais soltos, talvez conseguissem conversar mais com os sentimentos presentes no texto em sua atuação.

Afinal, um teatro narrativo não precisa ser estático emocionalmente. Pode, e é um alento, ser invadido pelo vigor. Fernanda Montenegro, na peça Viver sem Tempos Mortos, com direção de Felipe Hirsch, deu uma verdadeira lição de como isso é possível.

Só... Entre Nós
Avaliação: Bom
Quando:
Terça, 20h (último dia). Até 15/7/2014
Onde: Espaço Beta do Sesc Consolação (r. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo, tel. 0/xx/11 3234-3000)
Quanto: R$ 10
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Com texto de Franz Keppler, Só... Entre Nós é ousada no tema, mas conservadora na forma

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