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Entredentes Credito Bob Sousa Crítica: Gerald Thomas solta grito entalado Entredentes e convida Brasil a pensar

Maria de Lima, Edi Botelho, Gerald Thomas e Ney Latorraca: preguiça ao Brasil em Entredentes - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de BOB SOUSA

Uma cena poderia resumir o espírito de Entredentes, a nova peça de Gerald Thomas, em cartaz no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo.

Ela se dá quando a atriz portuguesa Maria de Lima começa a esbravejar contra o Brasil, dizendo questões pertinentes e provocativas sobre questões histórico-sociais que não conseguimos ainda resolver.

Em seguida, a atriz explica à plateia que a fala não é dela, mas, sim, do diretor e autor, Gerald Thomas. Há um riso, de certo alívio. Mas é aí que ela, em primeira pessoa, passa a dizer o que ama no Brasil, citando como motivos coisas das quais não nos orgulhamos, como nossas favelas e o cheiro de xixi nas ruas.

Atônita com o discurso, a figura de Ney Latorraca só consegue uma saída diante da situação incômoda: a vaia.

Como em toda peça, muitas coisas estão implícitas nesta cena, cheia de signos fragmentados que permitem ao espectador diversas leituras. Não há discurso hegemônico, mas um convite ao espectador para ser uma espécie de coautor da encenação, preenchendo-a de significados.

entredentes foto alisson louback 8778 Crítica: Gerald Thomas solta grito entalado Entredentes e convida Brasil a pensar

Confronto entre Maria e Ney: verdade dita por boca do colonizador - Foto: Alison Louback

Na cena do confronto entre Maria e Ney, é preciso que a "verdade" seja dita por boca estrangeira. Mesmo assim, é necessário o grito para que seja escutada, evidenciando uma dependência brasileira ao olhar do Primeiro Mundo.

E tal discurso vem com sotaque colonizador. Talvez seja por tal ressentimento que este não é legitimado por Ney. Ou sequer contestado. A reação escolhida é quase que infantil, e bem brasileira. Em vez de partir para uma discussão dialética, o personagem de Ney prefere tentar desestabilizar seu interlocutor pela vaia e cortar o diálogo.

Thomas reúne três atores potentes no palco: Latorraca, Lima e Edi Botelho, este último o artista com quem mais trabalhou. Entregues ao jogo, Latorraca e Botelho fazem dupla. Primeiro, dois astronautas lunáticos. Depois, se alguém sente falta de historinha, um vira judeu e o outro, palestino.  Tudo diante de um painel com uma enorme vagina ou de um pichado Muro das Lamentações.

Diante do delírio, ambos são capazes de dizer coisas profundas que retumbam na cabeça do espectador.

Latorraca, para quem a peça foi escrita, faz excelente performance. Incorpora a si próprio em cena, que usa elementos de sua própria história, como a internação recente e a quase partida para o lado de lá. É ótimo ator e aproveita as liberdades do teatro de Thomas para apostar em seu tempo cômico, que ao mesmo tempo provoca o riso e desconcerta. Como quando diz: "It's amazing".

Entrevista: "É uma idiotice, um horror", diz Gerald Thomas

Outro grande destaque é Maria de Lima. Ela entra na peça, num primeiro momento, como alegoria sublinhada, como se a direção fizesse concessão ao didatismo que tal público está acostumado.

Logo sua personagem ganha peso e, em muitos momentos, se torna centro das atenções. Botelho chega a ir para a plateia para permitir que o duo de force entre Lima e Latorraca se faça sem interferências, como na cena que abriu esta crítica.

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Ney Latorraca, em primeiro plano, e Edi Botelho, em cena de Entredentes - Foto: Alison Louback

Em seu teatro próximo à performance e com farta assinatura do diretor, Thomas abre a porteira para temas que perpassam o contemporâneo: desde a tensão política na Ucrânia após a invasão da Crimeia pela Rússia até a obsessão do povo brasileiro em acompanhar com afinco as telenovelas de roteiros repetidos.

Há uma preguiça para o Brasil - e os brasileiros - implícita na peça. Uma preguiça para um povo que não se cansa de retumbar às margens do rio Ipiranga, como diz uma das provocantes sacadas do texto, e que precisa terminar tudo em samba e Carnaval.

O recado de Entredentes não tem a obviedade que necessita quem busca riso fácil ou choro emotivo convulsivo, ou, como agora é moda, na relação de compromisso afetivo com artistas que ressuscitam no palco. Vai além disso.

É um teatro que se propõe a pensar a partir da quebra das estruturas sociais e comportamentais que move a sociedade e o pensamento brasileiros. A começar por quebrar a historinha. É fragmentado, propositivo e analítico.

Na obra que está mais para brado retumbante do que para revelação entredentes, Thomas cutuca a dormência anencéfala e tira a casca do verniz, revelando a mediocridade de nossa gente, tentando, ao mesmo tempo, despertá-la da alienação e do conformismo. É um mérito.

Entretendes
Avaliação: Muito bom
Quando: Sábado, 21h, domingo, 18h. 80 min. Até 11/5/2014
Onde: Teatro Anchieta do Sesc Consolação (r. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, metrô Santa Cecília, São Paulo, tel. 0/xx/11 3234-3000)
Quanto: R$ 35
Classificação etária: 16 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Gerald Thomas solta grito entalado Entredentes e convida Brasil a pensar

entredentes foto © Bob Sousa DSC 8852 Crítica: Gerald Thomas solta grito entalado Entredentes e convida Brasil a pensar

Gerald Thomas (ao centro, em pé) com elenco de Entredentes: Maria de Lima, Ney Latorraca e Edi Botelho - Foto: Bob Sousa

 

Entrevista: "É uma idiotice, um horror", diz Gerald Thomas

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PHEDRA ANDRE STEFANO Crítica: Satyros inverte lógica e Phedra D. Córdoba vive intensamente e canta Beatles em Não Morrerás

A diva cubana Phedra D. Córdoba canta Something, dos Beatles, em Não Morrerás, da Cia. Os Satyros: "I don't want to leave her now You know I believe and how" - Foto: André Stéfano

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Phedra D. Córdoba é um mar de signos. E o diretor Rodolfo García Vázquez parece saber disso muito bem ao colocá-la no centro do espetáculo Não Morrerás, do grupo Os Satyros, que tem texto do médico Drauzio Varella.

A obra faz parte da série E Se Fez a Humanidade Ciborgue em Sete Dias, com sete distintas montagens. Esta aborda a finitude da vida e também as diversas formas de corpos atuais, incluindo aí aqueles construídos, seja em mesas de cirurgias ou por meios digitalizados.

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A diva cubana Phedra D. Córdoba surge em cena com sua presença evidente de sempre. Faz um número musical, ao vivo, Something, dos Beatles, que começa com os versos "Alguma coisa no jeito que ela se move me atrai como nenhum outro amor". Uma verdadeira ode ao carisma de Phedra.

Os atores Bruno Gael, Fabio Ock, Fábio Penna, Tiago Leal e Henrique Mello são como pajens, rodeando as duas figuras centrais da obra.

BONECA ANDRE STEFANO POSTER Crítica: Satyros inverte lógica e Phedra D. Córdoba vive intensamente e canta Beatles em Não Morrerás

Rodeada pelos atores Henrique Mello e Bruno Gael, a atriz Katia Calsavara se transforma em uma boneca quase perfeita, não fosse a falta de vida, na peça Não Morrerás, do grupo Os Satyros - Foto: André Stéfano

Porque, em contraponto a Phedra, está a personagem de Katia Calsavara, uma boneca ciborgue cujo rosto coberto pela tela de um tablet vai sendo modificado ad infinitum, tal qual os obcecados por plásticas dos tempos atuais. Uma direta e poética crítica à ditadura da beleza.

E o público logo percebe que a personagem de Katia, que a constrói de forma sensível, é desprovida de vida, mesmo diante de toda beleza pré-fabricada. A seu lado, ali, no auge dos seus 75 anos, com sua beleza concreta e histórica, Phedra está muito mais viva e plena do que aquela boneca, praticamente morta em sua beleza inventada.

É por inverter a lógica óbvia que Não Morrerás se destaca. E, claro, por colocar Phedra no lugar em que merece estar: o de diva maior da praça Roosevelt, reinando sobre o palco mais inquieto do teatro alternativo paulistano.

Não Morrerás
Avaliação: Muito bom
Quando: Domingo, 15h30. 50 min. Até 28/9/2014
Onde: Espaço dos Satyros 1 (praça Roosevelt, 214, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Satyros inverte lógica e Phedra D. Córdoba vive intensamente e canta Beatles em Não Morrerás

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genet bob sousa Crítica: Genet, o Poeta Ladrão grita contra caretice

Iluminação de Rodrigo Alves cria ambiente poético para Genet, o Poeta Ladrão - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto de BOB SOUSA

O gheto no qual habitam prostitutas, garotos de programa e gente viciada em toda espécie de drogas e  na vida bandida é o abrigo do espetáculo Genet, o Poeta Ladrão, encenação de Sergio Ferrara para texto de Zean Salles.

Se num primeiro aquele excesso de homens semidesnudos de corpos esculturais reforça signos homoeróticos, sugerindo que esta parcela da população seria seu público, sua força está justamente em conseguir chegar a uma diversidade maior da sociedade. Afinal, é esta quem precisa perceber o recado contestatório de Genet.

A montagem é uma espécie de homenagem a Jean Genet (1910-1986), o grande poeta francês do submundo. Ele próprio esteve no Brasil para acompanhar a montagem histórica de seu texto O Balcão, dirigida pelo argentino Victor Garcia no Teatro Ruth Escobar, em um Brasil mergulhado no horror da ditadura militar no fatídico ano de 1969. Tal acontecimento serve de pretexto para que a obra comece, para voltar rapidamente ao passado de juventude de Genet, filho de prostituta e de pai desconhecido, perambulando entre a cadeia e as ruas da capital francesa.

A direção aposta em imagens poéticas, reforçadas pela iluminação precisa e propositiva de Rodrigo Alves. Isso atenua o excesso de concretude do texto, muitas vezes escatológico e sexualmente verborrágico. O figurino de Iraci de Jesus veste os homens robustos do elenco com signos femininos, criando uma atmosfera onde os limites sexuais não são dados ou impostos.

Ricardo Gelli, como o protagonista, é o destaque no elenco de dez atores, com nove homens e uma mulher - Gabrielle Lopez. No decorrer da obra, ele vai se impondo aos poucos, para, no ponto extremo da crise quase convulsiva de seu personagem, conquistar de vez o respeito do espectador.

Fransérgio Araújo, como o trôpego parceiro de rua por quem Genet se apaixona, faz uma atuação que caminha próxima à performance. No elenco, ainda estão Nicolas Trevijano, Felipe Palhares, Ralph Maizza, Jhe Oliveira, Magno Argolo, Bruno Bianchi e Rogério Brito, que se destaca com seu tempo próprio para o humor.

Em um mundo no qual o conservadorismo ganha força, o espetáculo Genet, o Poeta Ladrão cumpre missão de apontar um olhar mais libertário para a sexualidade e a vida em si.

Se num primeiro momento o texto pode parecer excessivo em suas expressões chulas e no compromisso com uma vida vista como decadente por boa parte da sociedade, em um segundo olhar, mais preciso, percebe-se que a obra tem aí mesmo seu grito de resistência contra a dita moral, sempre acompanhada dos tais bons costumes. Livrar-se destas amarras comportamentais é o caminho para qualquer olhar inteligente sobre o mundo. E a peça de Ferrara faz isso com os recursos que tem a seu dispor.

Genet, o Poeta Ladrão
Avaliação: Bom
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Genet, o Poeta Ladrão grita contra caretice

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Camille OSullivan in The Rape of Lucrece Photo by Keith Pattison Crítica: Inglesa brada contra estupro em The Rape of Lucrece no Festival de Curitiba

Dor que não vai: Camille O'Sullivan em The Rape of Lucrece: estrela no Festival de Curitiba - Foto: Keith Pattison

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*

Uma plateia concentrada quase por total, não fosse a espectadora que resolveu levar um bebê de meses à obra e precisou sair às pressas por conta do choro infantil, assistiu, emocionada, à atriz e cantora inglesa Camille O'Sulivan bradar contra o estupro.

Acompanhada de um virtuoso pianista, ela protagonizou a obra musical-dramática The Rape of Lucrece (O Estupro de Lucrécia), atração internacional mais esperada do Festival de Teatro de Curitiba, apresentada no Teatro da Reitoria nos últimos dias 4 e 5 de abril.

O tema, tão delicado e necessário de ser tocado, está mais do que atual por aqui. Já que o Brasil contemporâneo, apesar da revolução feminista e da posição da mulher no mercado de trabalho, ainda escancara um machismo retrógrado. Pensamento que permite que um quarto da população admita em pensar que uma mulher "merece ser atacada" por conta das roupas que veste.

THE RAPE OF LUCRECE 02 Camille OSullivan Credito Keith Pattison bxa Crítica: Inglesa brada contra estupro em The Rape of Lucrece no Festival de Curitiba

Atriz interpreta vítima e seu algoz - Foto: Keith Pattison

Mas, quem pensa que o espetáculo é fruto de uma dramaturgia contemporânea se engana. A peça é baseada em um poema escrito em 1594 por William Shakespeare (1564-1616), adaptada por Elizabeth Frestone, a diretora, Feargal Murray, o pianista em cena, e Camille O'Sullivan, a grande estrela, em uma realização da Royal Shakespeare Company, de Londres.

O cenário é mínimo, mas iluminado com sensibilidade: apenas grandes quadros pendurados, o piano ao canto do palco e, ao redor, pilhas de papeis manuscritos que remetem à feitura da obra.

Nele, Camille dona de belíssima voz que será arranhada aos poucos pelo sofrimento de sua personagem, Lucrece, também dá vida de forma impressionante a seu algoz, Tarquin, que a estupra a mulher do oficial romano Collatine no meio da noite, tirando para todo o sempre sua vontade de viver.

A atriz consegue construir a dor da violação da qual sua personagem é vítima, explicitando a vergonha, o nojo, a culpa e a perda da dignidade da vítima, para sempre maculada por seu algoz. Em seu grito de dor está presente a dor de toda mulher maltratada pela força bruta de um homem, seja por meio de atos violentos físicos ou verbais. Ela representa a fragilidade feminina dilacerada.

A encenação cria uma situação comovedora de intimidade entre artista e público. O fato de a atriz estar ali, praticamente sozinha no palco, acompanhada apenas de sua música, faz com que a plateia tenha vontade de acalentá-la e livrá-la daquele sofrimento. Sofrimento este que, de fato, nenhuma mulher merece.

The Rape of Lucrece
Avaliação: Muito bom
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Inglesa brada contra estupro em The Rape of Lucrece no Festival de Curitiba

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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jim 3 Crítica: Verborragia tira força de peça homenagem a Jim Morrison com Eriberto Leão em Curitiba

Eriberto Leão em Jim: ele não vive Jim Morrison, mas um fã - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos de ANNELIZE TOZETTO/Clix

Jim Morrison, que morreu em uma banheira em 1971 sob suspeita de overdose de heroína aos 27 anos, foi um dos maiores nomes do rock mundial. Autêntico, criou com sua banda, The Doors, um estilo musical que seria fartamente copiado nos anos vindouros.

Ícone da geração jovem da década de 1960, ele mergulhou fundo nas drogas em busca do autoconhecimento, reforçado no discurso psicodélico que bebia na fonte da geração beat e em nomes como Rimbaud e Nietzche.

Quem vai à peça Jim — protagonizada por Eriberto Leão, rosto conhecido da TV — à espera de um show cover do The Doors não se decepciona de todo. Na sessão da obra no Festival de Teatro de Curitiba, boa parte da plateia estampava camisetas do grupo de rock californiano. Muitos pareciam ávidos por ver Jim Morrison ressurreto no palco.

Festival de Curitiba 2014 teve público de 230 mil pessoas

Na sessão da última quarta (2), no Teatro Guairão, Leão se esforçou para cantar os 11 hits do repertório, mesmo com uma evidente rouquidão. Pelos fartos aplausos ao fim, a peça agradou aos fãs da banda neste quesito. Destaque para o grupo de músicos no palco, os excelentes roqueiros Zé Luiz Zambianchi, no teclado, Felipe Brandão, na guitarra, e Rorato, na bateria. Certamente, os melhores em cena.

Contudo, quem foi à espera da parte "teatro" da obra, divulgada também como um drama, logo percebeu que não havia consistência para tanto. Primeiro, porque a peça não é biográfica e não aposta no que teria de melhor para contar: a vida de Jim Morrison. Vai por caminho oposto. Apenas usa o cantor de pretexto para contar a história de João Motta, um insosso fã do The Doors interpretado por Leão. Um homem descrente, cansado de fracassos e à beira de acabar com a própria vida. O enredo até poderia tornar-se algo interessante, mas, a dramaturgia de Walter Daguerre nada mais é do que um compilado de citações.

jim 4 Crítica: Verborragia tira força de peça homenagem a Jim Morrison com Eriberto Leão em Curitiba

Eriberto Leão e Renata Guida: par no palco em meio à música do The Doors - Foto: Annelize Tozetto/Clix

A direção de Paulo de Moraes opta em um protagonista que diz frases em um mesmo tom monocórdico. O mesmo ocorre com Renata Guida, que surge no meio da peça como um  par etéreo do protagonista. A obra poderia ser um pouco mais interessante se os atores demonstrassem na atuação serem atravessados pelo que dizem. A sensação é de automatismo.

Por mais que os personagens possam estar mergulhados em uma viagem letárgica, é enfadonho para o público a falta de peso diferenciado para frases distintas.

jim 2 Crítica: Verborragia tira força de peça homenagem a Jim Morrison com Eriberto Leão em Curitiba

Eriberto Leão canta 11 hits do The Doors - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Assim como acontece durante os números musicais, a luz de Maneco Quinderé também alivia a mesmice textual, já que dialoga com os momentos soturnos do personagem e propõe novas nuances.

Apesar dos percalços, é perceptível a entrega de Eriberto Leão ao projeto. Fã confesso de Jim Morrison, ele parece usar a obra como forma de catapultar um discurso estagnado em sua garganta.

Ao fim dos aplausos na sessão vista pelo R7, o ator deixou isso evidente ao fazer um discurso politizado, no qual bradou: "Ano de Copa é o caralho. É ano de eleições". Pelo jeito, o mergulho na obra do The Doors serviu para inquietar o artista.

É evidente que, sobretudo pelo forte apelo emocional, Jim agrada aos fãs do ídolo homenageado. Contudo, a dependência afetiva, que habita o inconsciente coletivo dos fãs, não permite que se manifeste um discernimento sobre a qualidade artística do espetáculo em sua totalidade.

Tal fenômeno também está presente nas plateias de musicais biográficos recentes de ídolos brasileiros.

Mas, fato é, que, como espetáculo teatral, Jim, assim como alguns outros, ainda tem largo caminho a percorrer.

jim 1 Crítica: Verborragia tira força de peça homenagem a Jim Morrison com Eriberto Leão em Curitiba

Eriberto Leão, em Jim: fãs curtem show-homenagem; mas falta teatro - Foto: Annelize Tozetto/Clix

Jim
Avaliação: Regular
Avalicacao Regular R7 Teatro PQ Crítica: Verborragia tira força de peça homenagem a Jim Morrison com Eriberto Leão em Curitiba

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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Mostra Conselhodeclasse foto LinaSumizono 2W2A9566 Crítica: Conselho de Classe arrebata Festival de Curitiba com olhar sobre caos do ensino público

Interpretadas por elenco masculino, professoras conquistam Festival de Curitiba - Foto: Lina Sumizono/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos de LINA SUMIZONO/Clix

Se num passado distante algumas escolas públicas brasileiras chegaram a ser exemplos de ensino de qualidade, hoje o ensino público virou sinônimo de completo descaso e caos. Uma verdadeira balbúrdia na qual professores mal remunerados precisam enfrentar, sozinhos e desamparados pelas autoridades, o nível abissal da educação de um País que, ironicamente, teve um Paulo Freire.

A Cia. dos Atores, do Rio de Janeiro, expõe esta dura realidade de forma inventiva, mas também ferina, na peça Conselho de Classe, apresentada no Sesc da Esquina, dentro da programação da mostra oficial do 23º Festival de Teatro de Curitiba. A obra é exemplo do melhor teatro possível. Aquele que revela e questiona sua sociedade.

Mostra Conselhodeclasse foto LinaSumizono 2W2A9568 Crítica: Conselho de Classe arrebata Festival de Curitiba com olhar sobre caos do ensino público

Perfis diferentes de professoras duelam entre si na peça - Foto: Lina Sumizono/Clix

Com humor refinado e discurso perspicaz, a dramaturgia de Jô Bilac consegue agarrar a plateia para dentro da história. A identificação com aquele cenário de escola pública no palco é imediata, sobretudo para quem estudou a vida inteira em instituições de ensino municipais, estaduais ou federais - como é o caso deste vosso crítico teatral.

As diretoras Bel Garcia e Susana Ribeiro imprimem ritmo intenso e inteligente à encenação e conseguem levar o público para a convenção proposta. Esta mostra um grupo de professoras, todas interpretadas por atores homens, em um conselho de classe de fim de ano improvisado - já que a maioria sequer apareceu e preferiu ir à praia, culpa do verão infernal carioca, que também serve de metáfora para a panela de pressão prestes a explodir que é a própria escola.

As educadoras precisam resolver uma crise política na qual a instituição está mergulhada, após uma revolta dos alunos insuflada por uma das docentes. Um diretor provisório (um intenso Paulo Verlings), enviado pela Secretaria de Educação, precisa acalmar os ânimos naquela quadra que mais parece um campo onde a guerra fria de tempos atrás se tornou peleja real, com quase mortos e feridos.

Em sintonia, Cesar Augusto, Leonardo Netto, Marcelo Olinto e Thierry Trémouroux dão vida às professoras. Cada qual faz uma construção minuciosa de sua personagem. Todas facilmente parte da realidade de qualquer escola pública brasileira.

Mostra Conselhodeclasse foto LinaSumizono 2W2A9545 Crítica: Conselho de Classe arrebata Festival de Curitiba com olhar sobre caos do ensino público

Conselho de Classe presta serviço ao País ao lançar uma discussão social importante - Foto: Lina Sumizono/Clix

Está lá a professora que as décadas de magistério tiraram da sala de aula e a colocaram na biblioteca, mas que resiste bravamente em ser descartada. Também está presente aquela mais preocupada em vender seus cosméticos e bugigangas às colegas do que com o ensino. Ainda há lugar para a cética professora de educação física com leves pitadas de tirania, defensora da ordem acima de tudo e sabedora das artimanhas legais para defender sua mediocridade. E, claro, existe, acuada, a professora de artes idealista que acaba por perceber que a realidade é bem mais complexa do que lhe ensinou a cartilha da universidade.

Em Conselho de Classe, a Cia. dos Atores presta um serviço importante ao País ao levar para o holofote do palco do maior festival teatral brasileiro uma discussão que poucos gostam de fazer, sobretudo os governantes: o abismo no qual está mergulhada a educação pública brasileira, sobretudo as de níveis fundamental e médio.

Mostra Conselhodeclasse foto LinaSumizono 2W2A9564 Crítica: Conselho de Classe arrebata Festival de Curitiba com olhar sobre caos do ensino público

Cena de Conselho de Classe: calor infernal do Rio serve de metáfora - Foto: Lina Sumizono/Clix

Ao ver a peça, que consegue a proeza de ser leve e bem-humorada ao mesmo tempo em que é inteligentíssima em sua confrontação, o público ri de nervoso, porque está também tão descrente quanto aquelas professoras no palco.

E o que esperar de um País onde todos - população e governantes - já deram como vencida a guerra por uma educação de qualidade no ensino público. É a pergunta que fica no ar, com sabor amargo.

O que o grupo de artistas da Cia. dos Atores faz é dar um grito artístico que esfrega na cara da sociedade o mal que a resignação faz. Com mediocridade e olho para o próprio umbigo, nenhuma mudança se faz.

Conselho de Classe deveria ser vista por todos os educadores e gestores de educação do País e, mais ainda, pelos políticos corruptos que costumam roubar até a verba da merenda escolar, empurrando a nossa educação ainda mais para o fosso que parece sem fundo.

Mostra Conselhodeclasse foto LinaSumizono 2W2A9575 Crítica: Conselho de Classe arrebata Festival de Curitiba com olhar sobre caos do ensino público

Trabalho potente da Cia. dos Atores, do Rio, Conselho de Classe mostra o buraco sem fundo no qual nossa educação pública está mergulhada - Foto: Lina Sumizono/Clix

Conselho de Classe
Avaliação: Muito bom
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Conselho de Classe arrebata Festival de Curitiba com olhar sobre caos do ensino público

 

 

 

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.


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o dia em que sam morreu foto juliana hilal1 Crítica: Armazém enfia dedo na crise político social

Otto Jr contracena com Jopa Moraes na peça do Armazém: a força do sistema é contestada pela utopia de aparência fraca; contradições presentes em O Dia em que Sam Morreu - Foto: Juliana Hilal/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Foto JULIANA HILAL/Clix

Os protestos que começaram em junho de 2013 desencadearam poucas mudanças políticas efetivas – fora o não aumento da tarifa de ônibus –, mas ainda reverberam nos palcos brasileiros.

O Armazém, um dos mais prestigiados grupos do País, oriundo de Londrina (PR) e radicado no Rio, levou ao Festival de Teatro de Curitiba 2014 a estreia nacional da peça O Dia em Que Sam Morreu no Teatro Guairinha. Nela, coloca o dedo na ferida político-social brasileira. E o faz com a sensibilidade do olhar poético que é identidade da trupe, e que não deixa de ser contundente.

O espetáculo aborda os bastidores de um hospital, onde pacientes são salvos pelo dinheiro que têm, e onde reina um cirurgião inescrupuloso, dominando a todos com sua arrogância e capacidade de jogo.

Otto Jr. assume o papel cheio de potência e força bruta, uma espécie de macho alfa que paira no ar até ser contestado por um jovem enfermeiro idealista, personagem de Jopa Moraes, que começa titubeante no posto de protagonista, mas que ganha força com a evolução da encenação.

o dia em que sam morreu foto juliana hilal2 Crítica: Armazém enfia dedo na crise político social

Patrícia Selonk e Lisa E. Fávero: boas atrizes no palco do Teatro Guairinha - Foto: Juliana Hilal/Clix

Completam o elenco coeso Marcos Martins, Ricardo Martins, Lisa Fávero e Patrícia Selonk. Estas duas últimas, as mulheres do elenco, chamam tudo para si quando estão em cena. Sempre intensas. Ambas igualmente boas atrizes.

O texto de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes, que dirige a montagem, consegue expor de forma crua o desprezo pela vida alheia quando a própria vida é posta em primeiro plano, jogando para debaixo do tapete todo discurso ético.

Detalhe para o simples e ao mesmo tempo complexo cenário de Paulo de Moraes e Carla Berri, bem como para a iluminação de Maneco Quinderé, que contribui para a evolução da dramaturgia. A música executada ao vivo, sob comando de Ricco Viana, também dá potência à obra, explicitando os sentimentos dos personagens.

O espetáculo do Armazém mostra que o problema político-social brasileiro vai bem mais além dos discursos eloquentes ou de cartazes improvisados para passeatas: ele mora no âmago da sociedade, nas relações interpessoais que estabelecemos no jogo do “jeitinho brasileiro”, no qual tudo é possível e permitido sem escrúpulos.

O modelo de civilização no Brasil é posto em xeque pela obra, que expõe suas amarras cruéis e a falta de utopia reinante na sociedade. Tal utopia é representada pelo jovem enfermeiro Samuel, que teima crer em um mundo melhor e mais justo mesmo que tudo ao seu redor diga a ele que isso jamais será possível.

Mergulhado no teatro pós-moderno, o personagem e seu drama representam o grito sonhado na geração pós-desilusão. Como num movimento cíclico, o jovem em cena representa a mesma coragem que levantou jovens 50 anos atrás contra o regime totalitário que deixou ares tenebrosos no País por 21 anos. Contudo, atitudes contestatórias estão cada vez mais em desuso nos tempos em que crianças são educadas para vencer na vida a qualquer custo.

Questionamentos como estes são levantados em O Dia em que Sam Morreu. A obra aponta que não há vencedores nem derrotados. Todos estão mortos. Sem dó, o Armazém joga na cara da plateia de classe média o quão sua sobrevivência na corda bamba da vida pode ser medíocre e desprovida de sonhos. E, por isso, vazia. Tal qual a imagem de um palhaço sem memória e de riso perdido.

O Dia em que Sam Morreu
Avaliação: Muito bom
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Crítica: Armazém enfia dedo na crise político social

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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sobre o tropeco Crítica: Grupo Volátil encontra luz no fim do túnel em Sobre o Tropeço no Festival de Curitiba

Túnel de nuvens psicodélicas envolve público em Sobre o Tropeço, do Grupo Volátil - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*

O Coletivo de Pequenos Conteúdos, que integra o Fringe, a mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba, tem grupos jovens da capital paranaense que buscam um lugar ao sol no mundo cênico. Querem a luz no fim do túnel. Um deles, o Grupo Volátil, a encontrou.

Em Sobre o Tropeço, peça com menos de 40 minutos de duração, o Volátil mandou seu recado sobre o caos contemporâneo. Fez um grito poético e sintético das aflições de sua geração.

Caio Monczak, Bianca Guimarães, Marcela Mancino e Victor Castro, que fizeram direção coletiva, construíram uma encenação na qual o sonho – ou a falta dele – se materializa em imagens cheias de psicodelia.

Com um corpo mais do que presente, o grupo faz um teatro próximo ao performativo, no qual, sem medo de suas limitações, explicita as dores do mundo de hoje: como a violência à espreita ou o medo de chegar ao topo do mundo e tropeçar.

O elenco demonstra tanto vigor que parte do público embarca na viagem proposta. Viagem esta que vai de encontro a quem espera um teatrão careta e convencional.

A turma do Volátil é cheia de juventude e coragem de ousar, de se arriscar. Assim, consegue extrair poesia de patins que escorregam no tablado, de sapatilhas de ponta que quase não se sustentam, de um salto alto que arranha tudo ao redor ou de um pé-de-pato em tremelique.

E desvenda, aos poucos, a luz no fim do túnel que se aproxima do público em um corredor psicodélico de nuvens – uma das mais belas e inventivas imagens cênicas já construídas no Fringe.

O Grupo Volátil encerra o festival de alma lavada. Deu seu recado cheio de risco. E ele retumbou para os aforas do TUC (Teatro Universitário de Curitiba). Este é seu maior mérito.

Sobre o Tropeço
Avaliação: Bom
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Grupo Volátil encontra luz no fim do túnel em Sobre o Tropeço no Festival de Curitiba

 *O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

Leia a cobertura completa do R7 no Festival de Teatro de Curitiba!

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sala de espera giorgio donofrio2 Crítica: Peça Sala de Espera faz grito contra burrice do sistema com humor fino e inteligente

Sala de Espera: grito contra o sistema com humor inteligente - Foto: Giorgio Donofrio

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Uma estudante conta à amiga que quase foi agredida porque confundiu o número de sua senha em uma sala de espera e, por pouco, não passou na frente de uma senhora, que começou a insultá-la com veemência.

Em um apertado guichê de uma repartição federal, novos imigrantes paulistanos penam para conseguir vistos de permanência no País. Atendentes são pouco claros quanto aos documentos exigidos, fazendo com que o processo seja penoso e duradouro. Porque sempre falta um documento ou uma autenticação.

Situações angustiantes e corriqueiras como estas estão por toda parte, em cada sala de espera espalhada pelo mundo. A energia destes locais, aos quais só vamos se obrigados pelas circunstâncias, costuma ser mesmo pesada. É possível sentir no ar a irritação de todos naquele tempo suspenso, quase sem fim.

sala de espera giorgio donofrio4 Crítica: Peça Sala de Espera faz grito contra burrice do sistema com humor fino e inteligente

Carimbos e autenticações: a burrice do sistema é exposta no espetáculo Sala de Espera - Foto: Giorgio Donofrio

O grupo Eco Teatral resolveu lançar um olhar poético e artístico para tal situação incômoda e incontornável na peça Sala de Espera.

Na montagem, o diretor Thiago Franco Balieiro – que contou com assistência de Bruna Lima – abusa de imagens e coreografias com seu elenco para criar situações com as quais qualquer um se identifica. É uma obra que comunica com o homem, explicitando como as pequenas situações de poder geralmente andam casadas com a mediocridade. Assim, Sala de Espera é uma obra universal.

O enredo foi inspirado na fábula Diante da Porta da Lei, integrante do livro O Processo, do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Nele, um homem se vê diante da burocracia na qual está mergulhado um detentor de poder público.

A repartição, com toda sua frieza, se instaura no palco, onde o homem, acompanhado de outros três reclamantes na fila, precisa, pacientemente, aguardar sua vez, com a senha em mãos, em meio a muita espera.

A encenação aposta em uma teatralidade inspirada no cinema mudo, com gestos grandes e próximos ao mundo circense. Assim, boa parte dos sons emitidos pelos personagens são ininteligíveis, sem prejudicar, contudo, a compreensão das cenas.

A direção aposta em signos simples que são reforçados por uma atuação intencionalmente exagerada. Contudo, surge um pequeno ruído: nas cenas em que o homem (Luiz Gustavo Luvizotto) e o funcionário público (Paulo Balistrieri) falam português audível, há um embate com a estética já estabelecida na obra. Assim, tais cenas vão de encontro ao todo da montagem, já que tiram o espectador da fantasia na qual já embarcou. Ouvir palavras conhecidas parece sublinhar desnecessariamente o que já estava subtendido com a intenção tão presente no elenco.

O grupo de atores está unido e coeso na proposta da encenação. A energia masculina domina a montagem, com a força a todo o momento entrando em confronto com a razão – até porque a razão presente parece irracional.

O trio que faz o coro é a grande costura na dramaturgia. São eles quem dão sentido a tudo simplesmente com sua permanência, ora violenta, ora resignada.

João Attuy surge simples e poético com sua gaita, com um corpo já amansado pela espera e a desilusão. Já Chico Ribas abusa da ironia na construção de seu personagem. Rafael Lozano também tem ótimos momentos, sobretudo quando sustenta ares de macho alfa naquele grupo de personagens à beira do fracasso moral.

sala de espera giorgio donofrio3 Crítica: Peça Sala de Espera faz grito contra burrice do sistema com humor fino e inteligente

O tempo não passa: angústia das salas de espera mundo afora é explicitada - Foto: Giorgio Donofrio

Luvizotto mergulha na angústia de forma crível, com uma atuação que caminha por linha tênue, mas condizente com a obra. O desespero de seu personagem é perceptível e chega à plateia. No momento em que seu personagem resolve agir de forma revolucionária e enfrentar o sistema, sofre as consequências de tal decisão, como sempre acontece.

Se Balistrieri parece exagerado no começo da obra, logo seu frenesi é justificado pela estética da encenação – e até mesmo pela dramaturgia, que explicita a excitação com cheiradas que mantêm o personagem ligado em sua função.

Como diretor, Balieiro se destaca ao pensar o palco como um quadro no qual desenha belas imagens – algumas até flertando com a dança para criar coreografias. A cena do hospital é realmente um grande achado na encenação, pela simplicidade e veracidade com que transforma tudo como num passe de mágica.

Sala de Espera é um espetáculo de humor fino e inteligente, que toca em um assunto recorrente de uma forma simples, mas que consegue unir poesia à força de um grande ataque. O espetáculo é um curto grito contra a burrice do sistema, antes que surja alguém para abafá-lo.

Sala de Espera
Avaliação: Bom
Quando: Sexta, 21h. 50 min. Até 30/5/2014
Onde: Espaço dos Parlapatões (pça. Roosevelt, 158, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-4449)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Peça Sala de Espera faz grito contra burrice do sistema com humor fino e inteligente

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a ultima sessao1 Crítica: Com dramaturgia confusa, elenco guerreiro e tarimbado sustenta espetáculo A Última Sessão

Elenco potente segura o espetáculo A Última Sessão, em cartaz em SP - Foto: João Caldas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Um time de atores tarimbados nos palcos dá ao espetáculo A Última Sessão o suporte que a dramaturgia deixa faltar. Por isso, o elenco guerreiro é o grande destaque desta montagem.

É claro que merece forte aplauso a realização de um espetáculo com atores na faixa etária acima dos 60, 70 e até 80 anos. Em um País onde se cultua o jovem incessantemente, a iniciativa do autor e diretor Odilon Wagner merece elogios fartos.

Contudo, a sensação que se tem ao ver a peça é que o texto não está à altura do elenco que a produção conseguiu reunir.

No palco, Laura Cardoso, Nívea Maria, Etty Fraser, Sylvio Zilber, Miriam Mehler, Sonia Guedes, Gésio Amadeu, Yunes Chami, Gabriela Rabelo e Marlene Collé formam um grupo de pessoas na terceira idade que acabam por fazer um embate revelador de seus respectivos passados de erros, culpas e ressentimentos.

Se a montagem acerta ao mostrar estes idosos como pessoas comuns, com erros e acertos, não infantilizando a velhice, falta estopo a alguns personagens e há ainda situações incômodas: como o racismo explícito sofrido pelo personagem de Gésio Amadeu, com palavras duras que deixam a plateia constrangida. E o pior: depois a cena é vergonhosamente justificada e atenuada pelo próprio texto. Alguns personagens não se desenvolvem: a de Gabriela Rabelo parece sequer ter função na história. Em alguns momentos, a trama mergulha em enredos dignos da novelista cubana Glória Magadan.

ultimasessão Crítica: Com dramaturgia confusa, elenco guerreiro e tarimbado sustenta espetáculo A Última Sessão

Cena de A Última Sessão: elenco é mais potente do que a dramaturgia - Foto: João Caldas

Mesmo com tais empecilhos, a peça consegue, aos poucos, abarcar o público para a convenção proposta. Contudo, quando o espectador consegue finalmente mergulhar na história, ele é sacudido na cadeira por uma guinada perigosa da trama, que mergulha num abismo profundo de emoções psicodramáticas, quebrando o clima e a convenção até então estabelecidos.

O elenco faz milagre com o que tem. Laura Cardoso se destaca como uma senhora moderníssima, libertária e livre de culpas. É realmente uma atriz conhecedora de seu ofício e sabe como dominar a plateia. Sonia Guedes, com sua personagem contida e angustiada, também é outro destaque justamente indo por outro lado: com uma proposta sutil e crível. Etty Fraser também é outra que conquista a plateia sobretudo com os fartos palavrões na boca de sua personagem – coisa que os brasileiros adoram ouvir.

O elenco de A Última Sessão é realmente guerreiro, porque consegue segurar a verossimilhança e carisma de seus personagens mesmo quando a peça imerge em uma confusão psicodramática.

A Última Sessão
Avaliação: Bom
Quando:  Quinta, 16h; sexta e sábado, 21h; domingo, 18h. 90 min. Até 27/4/2014
Onde: Teatro Shopping Frei Caneca (r. Frei Caneca, 569, 7º piso, metrô Consolação, São Paulo, tel. 0/xx/11 3472-2229)
Quanto: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Com dramaturgia confusa, elenco guerreiro e tarimbado sustenta espetáculo A Última Sessão

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