Posts com a tag "crônica"

joao ubaldo ribeiro flavio moares João Ubaldo Ribeiro abriu nossas cabeças

João Ubaldo Ribeiro nos ensinou em seus romances que desejo não é pecado - Foto: Flávio Moraes

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

João Ubaldo Ribeiro, que morreu nesta sexta (18), aos 73 anos, em sua casa, no Rio, foi o maior libertador de nossa sexualidade na literatura brasileira.

a casa dos budas ditosos João Ubaldo Ribeiro abriu nossas cabeças

Fernanda Torres na adaptação para os palcos de A Casa dos Budas Ditosos, com direção de Domingos de Oliveira: texto emblemático de João Ubaldo Ribeiro - Foto: Divulgação

Seu romance A Casa dos Budas Ditosos, adaptado brilhantemente para o teatro por Domingos de Oliveira no melhor espetáculo da carreira de Fernanda Torres, é uma aula de sensualidade, sem repressão, sem culpa.

O escritor baiano, nascido na paradisíaca Ilha de Itaparica, soube como ninguém construir com maestria em sua prosa elegante o fogo de nosso povo. Povo que ele amava e que deu título a outro romance seu reconhecido mundialmente, Viva o Povo Brasileiro. Vinha da mesma forma de Jorge Amado, outro baiano romântico e sensual.

Ler João Ubaldo Ribeiro é tornar-se seu cúmplice. E também de seus personagens abrasados, que sucumbem ao chamado do instinto, do corpo, da vida.

O Brasil, sem João Ubaldo Ribeiro, fica ainda mais careta. Mais quadrado. Mais chato.

Vai fazer uma falta enorme este homem debochado e ao mesmo tempo sincero, que mostrou a todos que não há pecado do lado de baixo do Equador. Ele nos ensinou que ter fogo não é feio, não é errado. Muito pelo contrário, é o que somos. E é o que nos faz belos. Vivos.

Por isso, os romances que criou são à base do desejo. Quem não pode ser reprimido nem acusado.

João Ubaldo Ribeiro abriu nossas cabeças.

Ai, que falta enorme que ele já faz...

Curta nossa página no Facebook!

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos bastidores

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer está num só lugar: veja!

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

bonner poeta Globo joga culpa do fracasso do Brasil na Argentina

Bonner bufa na bancada do Jornal Nacional após Argentina chegar à final - Foto: Reprodução/Globo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O espetáculo foi deplorável. Com o mocinho da história se revelando vilão para seus fãs, desmontando sonhos e expectativas de glória.

A seleção brasileira encerrou, neste sábado (12), sua participação na Copa do Mundo do Brasil 2014 de forma deplorável. O quarto lugar depois de deixar a Holanda fazer 3 a 0 já nem assustou a cansada torcida brasileira que viu, na terça (8), seu país perder de 7 a 1 para a Alemanha nas semifinais do Mundial.

O que chama a atenção nos últimos dias, tanto quanto nossa vergonhosa seleção, é o intuito da Globo em jogar parte da culpa da mediocridade apresentada pelo nosso futebol nas costas da Argentina. Mesmo que isso não faça nenhum sentido.

A tática da Globo, que detém os direitos de transmissão do futebol brasileiro, é clara: empurrar a revolta que brasileiros estão tendo de sua própria seleção para os hermanos. Assim, tenta preservar o que ainda sobra de seu bem precioso, com o qual tanto dinheiro ganha. Para não perder seu público cativo, a Globo faz a baixeza de culpar que não tem culpa nenhuma.

Nestes últimos dias, a emissora, parceira de longa data da CBF e da Fifa, passou dos limites em atuações questionáveis de sua equipe. No dia em que a Argentina foi classificada, como noticiou a colunista do R7 Fabíola Reipert, o apresentador do Jornal Nacional, William Bonner, rompeu o padrão do próprio noticiário que afirma ser imparcial, ao emitir opinião clara sobre uma notícia sem usar o formato de editorial. Usou seu espaço privilegiado para dizer, como se estivesse em uma mesa de bar, que não gostou da Argentina ter chegado à final. Sua colega de bancada, Patrícia Poeta, no mesmo dia, seguiu seu editor-chefe, e abriu o JN dizendo: "A dor de nossa derrota é agravada por nossos rivais".

Como bem observou o colega jornalista Mauricio Stycer, a Globo manipulou, inclusive, a fala de nosso craque Neymar, quando, para surpresa da emissora, ele afirmou que vai torcer para a Argentina ganhar a Copa do Brasil, porque é amigo de Messi e Mascherano. O mesmo Jornal Nacional editou a fala para que parecesse exatamente o contrário do que ele disse.

Afinal, na visão da Globo, o vilão da Copa não é nossa fraca seleção, tampouco seu técnico, Felipão, desde o começo colocada por ela nos papéis de mocinhos. A emissora já escalou há muito tempo o malvado desta história: a Argentina. E, pelo jeito, não pretende mudar seu roteiro do espetáculo às vésperas de cair o pano.

brasil3 Globo joga culpa do fracasso do Brasil na Argentina

Holanda faz o segundo gol em cima do Brasil em Brasília, neste sábado (12); final foi de 3 a 0 para os europeus, o que nos deixou no quarto lugar da Copa realizada em nossa casa - Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino

Curta nossa página no Facebook!

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos bastidores

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer está num só lugar: veja!

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

joelhada ou cotovelada Domingou: Joelhada em Neymar ou cotovelada de Leonardo? É preciso acalmar os ânimos...

Neymar fica fora da Copa 2014 ao levar uma joelhada do colombiano Zuniga; em 1994, o brasileiro Leonardo dá forte cotovelada que tira Tab Ramos, dos EUA, do Mundial de 20 anos atrás - Foto: Getty Images

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O lance que tirou Neymar da Copa do Mundo na última sexta (4), depois de levar uma forte joelhada pelas costas do colombiano Zuñiga, tirou também muitos brasileiros do sério.

É compreensível, afinal nos vimos sem o nosso maior craque no principal momento de uma Copa em nosso País. Até aí tudo bem. Que o jogador colombiano foi covarde e merece ser punido também. A dor nacional é grande. Contudo, o ódio em muitos passou dos limites, partindo para a falta de civilização e violência compulsória.

A partir da confirmação de que nosso craque estava fora do Mundial, muita gente por aí passou a atacar com violência desmedida não só Zuñiga, como também sua família e seus compatriotas. Em claro exemplo de sanha desmedida.

Já diz a máxima que violência gera violência, ao que o poeta de rua muito bem contrapôs: "Gentileza gera gentileza".

neymar sofre Domingou: Joelhada em Neymar ou cotovelada de Leonardo? É preciso acalmar os ânimos...

Neymar sofre, após receber a joelhada nas costas: não podemos perder a razão - Foto: Getty Images

Em qualquer campo de várzea do Brasil ou de qualquer lugar do mundo, a coisa mais comum é um jogador sair ferido após um carrinho ou entrada mais dura do adversário. Quem nunca jogou uma pelada com aquele amigo marrento? Quantas delas não imobilizaram joelhos e tornozelos por aí? Nem por isso, vi o País inteiro pedindo o linchamento sumário do colega de bairro mais agressivo.

É óbvio que o futebol precisa de paz, e os jogadores carecem de mais espírito esportivo. Mas, como mostra a vaia monumental ao hino do adversário, boa parte da torcida brasileira não sabe o que é isso.

Demonstra ser um bando de gente que vai para o jogo como se estivesse a caminho das cruzadas medievais. Aquelas nas quais se matava em nome de Deus. No raciocínio de quem reage de forma selvagem, aquele que feriu nosso soldado deve ser morto. Simples assim.

leonardo cartao vermelho Domingou: Joelhada em Neymar ou cotovelada de Leonardo? É preciso acalmar os ânimos...

Leonardo leva sua punição após fraturar crânio e maxilar do jogador dos EUA: cartão vermelho - Foto: Getty Images

Nestes tempos de tanta irresponsabilidade, inclusive parte da imprensa, incitando bem mais do que uma punição, mas o ódio eterno ao jogador colombiano e a seu país por tabela, não custa nada lembrar de uma fatídica partida da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, mais precisamente no estádio da cidade de São Francisco. Exatamente 20 anos atrás.

Foi quando o nosso lateral Leonardo deu uma forte cotovelada na cabeça do jogador Tab Ramos, dos Estados Unidos, encerrando a participação deste naquela Copa com fraturas no crânio e no maxilar. Na época, Leonardo levou apenas um cartão vermelho, o que deixou os brasileiros desolados.

Até hoje, Ramos, uruguaio naturalizado norte-americano, sente dores na cabeça por conta da agressão do brasileiro. Na época, não vi nenhum brasileiro ou membro de nossa imprensa pedir o linchamento público de Leonardo. Muito pelo contrário, ele foi consagrado como um dos heróis do nosso tetra.

Como diria minha mãe, lá em Minas, pimenta no olho dos outros é colírio. E ela ainda acrescentaria: não dá para jogar pedra no telhado dos outros se o nosso é de vidro. É preciso acalmar os ânimos...

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e detesta violência. A coluna Domingou, uma crônica semanal, é publicada todo domingo no blog Atores & Bastidores do R7.

Curta nossa página no Facebook!

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos bastidores

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer está num só lugar: veja!

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

 

neymar messi getty Domingou: Ódio ao outro não ganha Copa

Neymar e Messi, rivais só no campo: "Ódio ao outro não ganha Copa, mas bom futebol" - Fotos: Getty Images

Por MIGUEL ARCANJO PRADO*

Outro dia, vi, em uma rede social, a foto de um cachorro da raça pit bull destroçando uma camisa da seleção argentina. Com todo ódio do mundo, é claro. Tudo comemorado pelo dono, com alta dose de orgulho.

Nesta semana, ouvi uma apresentadora dizer, no ar, que os brasileiros estavam tratando bem os turistas nesta Copa e soltou: "até os argentinos". Nas entrelinhas, a ideia de que o normal seria maltratá-los.

Por que tanto ódio ao outro? Não há confiança no futebol próprio? É preciso espinafrar o vizinho para tentar garantir algo?

comercial skol xenofobico Domingou: Ódio ao outro não ganha Copa

Incentivando o ódio, comercial da Skol explode os argentinos dentro de uma casa - Foto: Reprodução

A publicidade é rainha em disseminar ódio ao outro. Recente comercial de conhecida marca de cerveja brasileira debocha do Hino Nacional da Argentina, dizendo que ninguém aqui sabe cantá-lo. Como se os argentinos soubessem cantar o Hino do Brasil, coisa que nem o brasileiro sabe fazer direito até o fim. Para terminar de forma deplorável, o tal comercial termina com boa dose de violência: enxota um grupo de argentinos em uma casa, logo explodida feito um foguete.

Agora, de norte-americano ninguém debocha. Será mais fácil rir de nosso primo tão pobre quanto nós?

Entretanto, o ódio não é exclusivo para argentinos. Neste sábado (28), vi, com vergonha, parte dos brasileiros vaiar o Hino do Chile durante sua execução no Mineirão. Uma absoluta falta de respeito com o símbolo pátrio alheio. Uma pergunta: se fizessem o mesmo com o Brasil lá fora, como nos sentiríamos?

Mas, se não tratam com educação nem a presidente de seu país vão respeitar o hino dos outros? Não custa nada reforçar que o mundo já viu um povo achar que era superior aos demais: a Alemanha de Hitler.

Até vi como castigo merecido o sufoco que os canarinhos passaram para colocar o País nas quartas de final, deixando todos nós com o coração na mão até o último pênalti batido. E, verdade seja dita: o Chile jogou mais.

É lamentável que o Brasil, que se propõe a entrar para o time dos grandes países do mundo, ainda se comporte dessa forma com seus vizinhos. É bom o brasileiro entender que incentivar o ódio ao outro não ganha Copa. O que leva à vitória é algo bem mais simples e saudável: o bom futebol.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e prefere o amor ao ódio. A coluna Domingou, uma crônica semanal, é publicada todo domingo no blog Atores & Bastidores do R7.

Curta nossa página no Facebook!

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos bastidores

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer está num só lugar: veja!

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

danielle rosa foto eduardo enomoto 2 Domingou:  A presença da atriz Danielle Rosa

Danielle Rosa: sua presença é fundamental no Oficina - Foto: Eduardo Enomoto

Por MIGUEL ARCANJO PRADO*
Fotos de EDUARDO ENOMOTO

No teatro, o estado de presença é fundamental. José Celso Martinez Corrêa, nosso Zé Celso, do Teat(r)o Oficina, é sabedor disso, com seu teatro ritual.

danielle rosa foto eduardo enomoto 3 Domingou:  A presença da atriz Danielle Rosa

Danielle Rosa: baiana cheia de poesia e vigor - Foto: Eduardo Enomoto

Esta presença indiscutível no palco projetado por Lina Bo Bardi no coração do Bixiga, em São Paulo, é cristalizada hoje pela figura de uma atriz baiana cheia de potência, com poesia até no nome: Danielle Rosa.

Neste sábado (14), dia em que o grupo lembrou os 45 anos da morte de Cacilda Becker no palco e também homenageou a cantora do rádio Marlene, que partiu na última sexta (13), a primeira imagem de impacto na entrada do Oficina, logo no começo da peça Walmor y Cacilda 64: Robogolpe, era a figura de Danielle Rosa.

Com a potência de seu corpo exuberante, a artista exala uma brasilidade tão próxima a nós, repleta de doçura e vigor desavergonhado.

Danielle, que está até em capa de revista nas bancas de jornal, cheia de liberdade, é uma espécie de síntese destes tantos jovens que chega a São Paulo em busca simplesmente de se encontrar na arte, cheia de percalços no caminho. Porque não é fácil.

Mas ela tem doçura, pega pela mão, embala o canto de tupi or not tupi. Oswald se mistura a Mário de Andrade e Macunaíma somos todos na antropofagia de seu teatro.

Falar de Danielle Rosa é celebrar a reexistência do teatro brasileiro, que, como diz Zé Celso, precisou ressuscitar após o coma com a morte de Cacilda. E o faz na força de jovens artistas como ela. Por isso, celebremos Danielle Rosa, a nossa atriz presente.

Leia também: Danielle Rosa, o furacão sereno do Oficina

danielle rosa foto eduardo enomoto Domingou:  A presença da atriz Danielle Rosa

Danielle Rosa no palco do Teat(r)o Oficina, em São Paulo: uma atriz sempre presente - Foto: Eduardo Enomoto

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e, também, um tanto quanto antropofágico. A coluna Domingou, uma crônica semanal, é publicada todo domingo no blog Atores & Bastidores do R7.

Leia mais sobre Danielle Rosa

Curta nossa página no Facebook!

Leia também:

Fique por dentro do que rola no mundo teatral

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer ler está em um só lugar. Veja só!

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

ruth de souza Domingou: O teatro do negro e o negro no teatro

A atriz Ruth de Souza, um dos ícones do teatro brasileiro - Foto: Divulgação

"Aliás, por que a maioria dos elencos é branca? Por que não há negros nem nas plateias de teatro, e quando há, contam-se nos dedos? "

fabio oliveira Domingou: O teatro do negro e o negro no teatro

O ator Fabio Oliveira - Foto: Divulgação

Por FABIO OLIVEIRA*
Especial para o Atores & Bastidores

Os nossos 388 anos de escravidão sempre cobrarão seu preço. Nossa sociedade foi construída com base nessa exclusão. E a nós, cidadãos negros, pardos, indígenas, é cobrada a invisibilidade – como porteiros, domésticas, motoristas, ou como presidiários, mendigos, excluídos de todo tipo.

Ser artista e negro no Brasil é um paradoxo: se somos invisíveis, como é que estamos lá, querendo ocupar um espaço?

Vivemos um apartheid, velado, mas presente. Na faculdade, negros éramos apenas eu e mais uma menina. Viemos de onde há pouco ou nada e não somos bem-vindos aonde chegamos: por entrar por meio de cotas, uma moça me disse “então foi você que roubou o lugar da minha prima?”. A prima em questão era branca.

Na formação há quem diga que tem papéis que não são pra você – o advogado, a mulher refinada, a pessoa inteligente – e os que são pra você – a prostituta, o cafetão, o traficante.

É uma formação cara, mais acessível a pessoas brancas. Essas mesmas pessoas são de um lugar social onde a maioria é branca. Poucos convivem com pessoas negras que não sejam empregados, poucos têm amigos negros. Então, o negro é sempre o outro, é sempre de outra realidade.

Se um artista se forma sem questionar esses lugares, tende a replicar esse modelo. Qualquer pessoa negra, em sua obra, estará no limite que impõe o estereótipo: o diferente, o exótico, o outro.

Os donos dos meios de produção no Brasil, inclusive os artísticos, são na maioria brancos. Os negros são técnicos, carregadores, camareiras.

Somos os atores invisíveis nessa construção cultural. E essa mesma classe, dos donos dos meios de produção, protesta quando existe a possibilidade de um edital para artistas negros.

São muito raros os elencos com diversidade étnica. O que não é visto como um problema. Mas deveria. E por isso é fundamental e ao mesmo tempo triste que haja no Brasil grupos negros.

É fundamental para que possamos resistir como artistas, e é triste por que demonstra o pouco espaço em outros lugares, o quanto há ainda de racismo.

Muitos verão esse teatro negro como fenômeno sociológico, antes de fenômeno artístico. Mas e os elencos exclusivamente brancos? Não são também um fenômeno sociológico? Por que seriam mais artísticos?

Aliás, por que a maioria dos elencos é branca? Por que não há negros nem nas plateias de teatro, e quando há, contam-se nos dedos?

Por que a maioria dos produtores é branca? Por que não há diretoras negras no teatro, ou se há, é uma infinita minoria? Por que Chiquinha Gonzaga, negra, foi interpretada por uma mulher branca na TV?

Quantos negros no País foram Hamlet ou Medeia?

Isso está mudando, eu sei. Há exceções. Mas por que tão poucas? O mundo da arte muitas vezes apenas reflete a sociedade racista que temos. Embora após a Lei Áurea possamos andar livremente em qualquer lugar, não, não somos bem-vindos em qualquer lugar.

Ocupamos ainda o espaço da desconfiança, o espaço do medo, o espaço do “outro” em uma sociedade que ainda sonha em ser Europa, ou ao menos, como diz Chico Buarque, sonha tornar-se um imenso Portugal.

*Fabio Oliveira é ator, produtor e cantor, formado pela Universidade Anhembi Morumbi e pela Escola Livre de Teatro. Atuou nos espetáculo Till, dirigido por Renata Zhaneta, Bodas de Sangue, com direção de Simoni Boer, e A Respeito do Caso Dessa Tal de Mafalda, dirigido por Guilherme Sant'anna. A coluna Domingou, uma crônica semanal, é publicada todo domingo no blog Atores & Bastidores do R7.

Curta nossa página no Facebook!

Leia também:

Fique por dentro do que rola no mundo teatral

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer ler está em um só lugar. Veja só!

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

roberto carlos Domingou: Roberto, não proíba mais um livro!

Roberto Carlos, sempre no holofote: não proíba mais um livro, por favor - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO*

Como não é bobo, Paulo Cesar de Araújo lançou nesta semana, sem alarde, seu livro O Réu e o Rei, pela Companhia das Letras, no qual esmiúça sua relação de amor e ódio com o cantor e compositor Roberto Carlos. Afinal, ele é gato escaldado.

Não dá para esquecer que o Rei conseguiu na Justiça o direito de recolher nas livrarias a biografia que Araújo escreveu sobre ele, lançada em 2007: Roberto Carlos em Detalhes. Hoje, os exemplares que sobraram são disputados por colecionadores.

Em entrevista exclusiva à repórter do R7 Paola Corrêa, Araújo contou o que pensa sobre seu antigo ídolo e hoje virou inimigo nos tribunais. “Roberto Carlos quer ter o controle de tudo”.

Tal pretensão soa inconcebível para uma figura pública. Desde o momento em que Roberto quis ser famoso – e lutou um bocado para isso –, deveria ter consciência de que estaria trilhando uma história que não pertence só a ele.

Agora, pelo menos parte dessa história não pertence mais apenas a ele: a briga na Justiça com Araújo foi pública e pertence aos dois, cada qual com sua versão. E o público tem o direito de ouvir — e ler — ambas.

É lamentável um artista transformar seu biógrafo em réu. Se Araújo houvesse feito um livro de má fé, repleto de inverdades inventadas, seria compreensível o ódio de Roberto. Mas, não. O livro é fruto de trabalho árduo, entrevistas intermináveis, mesmo aquelas depois desmentidas, como fez Chico Buarque, que logo precisou voltar atrás após Araújo apresentar provas, levando a moral do autor de Pedro Pedreiro lá para baixo.

Os advogados de Roberto, por sua vez, já anunciaram que estão lendo a nova obra de Araújo. Aos defensores da liberdade de pensamento e de informação, só resta pedir, com todo carinho do mundo: Por favor, Roberto, não proíba o segundo livro do cara! Você não merece entrar para a história como um artista que mandou duas obras para a fogueira.

Roberto Carlos precisa entender que não durará para sempre. E que as futuras gerações têm o direito de saber quem ele foi, o que fez, em uma visão mais isenta, que é a de um pesquisador.

O Brasil precisa acordar para o perigo que é transformar uma história em peça de marketing aprovada pelo protagonista. Geralmente, atitudes desse tipo são comuns a ditadores. Não a artistas.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e é contra a censura. A coluna Domingou, uma crônica semanal, é publicada todo domingo no blog Atores & Bastidores do R7.

Curta nossa página no Facebook!

Leia também:

Fique por dentro do que rola no mundo teatral

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer ler está em um só lugar. Veja só!

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

Redação JB anos 80 Domingou: História do Jornalismo no Brasil ou simplesmente um texto para Angela Carrato

"Angela falava de gente como João do Rio, Claudio Abramo e Samuel Wainer" - Foto: Redação do JB nos anos 80

Por MIGUEL ARCANJO PRADO*

Outro dia, estava na correria, frente ao computador, e eis que pipoca na rede social um pedido de amizade que me fez voltar no tempo. Dessas viagens imediatas e sem aviso prévio.

Tratava-se de Angela Carrato, minha primeira professora de jornalismo na Fafich, a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, onde me formei em comunicação social. Angela foi minha professora antes de tudo. Explico.

Antes de fazer jornalismo, cursei dois anos de geografia, também na UFMG. Contudo, o tempo foi passando e, assim como metade da minha turma, não estava muito satisfeito com a tal da geomorfologia climática estrutural. Nem com a aula de estatística.

Resolvi que precisava de um respiro. E, para desanuviar a cabeça, matriculei-me em uma disciplina optativa do jornalismo, lugar que, no fundo, sabia ser meu destino. O nome da matéria era História do Jornalismo no Brasil. E era Angela Carrato quem ministrava.

Desde a primeira aula, eu mal podia esperar pela próxima. Angela falava de gente como João do Rio, Claudio Abramo e Samuel Wainer. E sempre com muita propriedade. Ela sabia de tudo. E contava nos mínimos detalhes. Lembro-me que até trouxe o José Maria Rabelo, do histórico jornal O Binômio, para dar uma palestra no auditório. Foi um sucesso.

Nesta mesma época, o Roberto Drummond, jornalista que escreveu Hilda Furacão, também esteve para um debate com os alunos na minha velha conhecida arena da Fafich. Ouvia em deleite suas respostas.

E foi, assim, no cotidiano das aulas de Angela Carrato que decidi que o jornalismo era mesmo meu destino imprescindível. Foi ali, vendo ela falar com tanto orgulho de nomes que marcaram esta profissão tão dura e tão importante no Brasil que decidi abandonar meus colegas geógrafos do Instituto de Geociências e rumar sem volta para o curso de comunicação social da Fafich.

Foi uma das decisões mais acertadas da minha vida. E alguma parte do jornalista que sou hoje se deve a Angela Carrato, que agora, para meu espanto, está a um clique no espaço pós-moderno que é a rede social.

Ainda não tive coragem de falar nada com ela. Porque, diante de alguém com tanto peso na minha formação, não poderia ser uma conversa banal, supérflua, de internet. Sou mineiro. E ela também. Por isso, preferi este texto tão simples e tão verdadeiro.

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e tem saudade da Fafich. A coluna Domingou, uma crônica semanal, é publicada todo domingo no blog Atores & Bastidores do R7.

Curta nossa página no Facebook!

Leia também:

Fique por dentro do que rola no mundo teatral

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer ler está em um só lugar. Veja só!

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

rosa papel crepom Domingou: Feliz Dia das Mães!

"Com medo de que se amassassem, escolhia um cantinho estratégico para colocar a rosa e o cartão"

Por MIGUEL ARCANJO PRADO*

Na escola, a gente sempre fazia uma rosa de papel para dar para ela. Durante a semana, a professora logo avisava que todos teriam de ilustrar também seus respectivos cartões para entregá-la em seu dia.

Era todo um frenesi. Uma boa quantidade de lápis de cor sobre a mesa, para dar aquele belo colorido. Quem não tinha tantas opções assim, recorria aos colegas mais afortunados, aqueles que tinham caixas de 24, 36 cores, o suprassumo.

E, junto do cartão, tinha a rosa de papel crepom. Que, se molhada, soltava tinta. A gente mesmo fazia, uma a uma, com a ajuda da professora. Os mais desenvoltos ajudavam os desastrados. Afinal, era bem trabalhoso. Tinha de ter todo o cuidado do mundo.

E aí a gente levava tudo escondido na mochila, ao fim da aula de sexta-feira. Com medo de que se amassassem, escolhia um cantinho estratégico para colocar a rosa e o cartão. O sábado demorava a passar. A ansiedade pelo domingo era grande.

Até que, após o sono rápido de criança, amanhecia. A gente acordava correndo. E, antes mesmo de lavar o rosto ou escovar os dentes, buscava as preciosidades no cantinho secreto e corria para o quarto dela.

E ela, meio sonolenta ainda, abria aquele sorriso ao ver a gente, com o cartão e a rosa na mão, dizer da forma mais carinhosa e simples do mundo: Feliz Dia das Mães!

Para Nina, minha mãe

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e acha a sua mãe a melhor mãe do mundo. A coluna Domingou, uma crônica semanal, é publicada todo domingo no blog Atores & Bastidores do R7.

Curta nossa página no Facebook!

Leia também:

Fique por dentro do que rola no mundo teatral

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer ler está em um só lugar. Veja só!

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

juana molina 4 Domingou: A sensibilidade de Juana Molina

A argentina Juana Molina: ela transforma qualquer som em notas musicais de qualidade - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO*

O som que rola é tão bom, que até o latido de um cachorro insistente se incorpora a ele, tornando-se apenas mais uma nota musical. Tal sensibilidade é de uma artista que, se fosse possível estabelecer uma lista dos dez mais talentosos músicos contemporâneos, seu nome certamente: a argentina Juana Molina.

juana molina Domingou: A sensibilidade de Juana Molina

Juana Molina: ela é moderna e sensível - Foto: Divulgação

A cantora portenha é um verdadeiro oásis de música conceitual feita com toda a sensibilidade do mundo. E se engana quem pensa que a ela só se interessa instrumentos autóctones; muito pelo contrário, Juana é, ao mesmo tempo, moderna, folclórica, eletrônica. Faz de sintetizadores sua marca. Mas não é uma deslumbrada tecnológica. Muito pelo contrário, transforma sons possíveis pela máquina em música sensível, quase acústica. Artista de seu tempo, compõe com o caos que o mundo atual lhe dá.

Tanto talento está no sangue; é filha do cantor de tango Horacio Molina e da atriz Chunchuna Villafañe. Nascida em 1º de outubro de 1962, em Buenos Aires, começou na música ainda na infância, tocando violão. O toque cosmopolita para seu trabalho veio com o exílio da família em Paris entre 1976 e 1981, por conta da ditadura militar na Argentina.

Assim que retornaram, ela logo se misturou aos artistas que movimentavam a Buenos Aires dos anos 1980, época de puro rock nacional. E acabou se enveredando pelo mundo da atuação. Tornou-se conhecida aos 26 anos, atuando em um programa humorístico na TV. Logo, ganhou programa próprio, Juana e sus Hermanas, no qual debochava do mundo latino-americano.

Mas foi em 1996 que tomou sua decisão mais acertada: mergulhar fundo na música, ouvindo o chamado de seu passado. Seu primeiro disco, já trazia no nome a impossibilidade de defini-la. Chamava-se simplesmente Rara.

juana molina show Domingou: A sensibilidade de Juana Molina

Juana Molina: força tanto gravada quanto em concertos ao vivo, em Buenos Aires e pelo mundo - Foto: Divulgação

Enquanto o Brasil ainda teima em virar as costas para o país vizinho, consumindo qualquer imposição musical interna ou que venha dos Estados Unidos, o mundo já descobriu a potência de Juana Molina.

Tanto que ela costuma fazer turnês disputadas em cidades como Londres, Madri, Chicago, Seatle, São Francisco, Paris, Berlim, Praga, Tóquio e Hong Kong, além de se apresentar cotidianamente em sua Argentina natal.

Para quem precisa de referências alheias, o New York Times chegou a colocar seu terceiro disco, Três Cosas, entre os dez melhores lançados em 2004. E muita gente tarimbada por aí diz que ela é uma Björk da nova geração.

O que Juana Molina propõe com sua música visceral é uma verdadeira experiência sensorial. A artista, que gravada traz o mesmo vigor que exibe em seus concertos, prende seu ouvinte e o leva junto de si para viagens complexas e cheias de significados possíveis. Basta ceder a mão e acompanhá-la em seu som conceitual, cosmopolita e, ao mesmo tempo, altamente próximo de qualquer pessoa sensível.

Para Juan Manuel Tellategui, Diego Herrera, Julio Etchepare, Bruno Machado e Rodrigo Sampaio, ouvintes de Juana Molina.

Ouça uma música de Juana Molina

Assista a uma apresentação de Juana Molina

*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e acredita em música como expressão artística. A coluna Domingou, uma crônica semanal, é publicada todo domingo no blog Atores & Bastidores do R7.

Curta nossa página no Facebook!

Leia também:

Fique por dentro do que rola no mundo teatral

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer ler está em um só lugar. Veja só!

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009- Rádio e Televisão Record S/A
exceda.com