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FOTO 4 Entrevista de Quinta   Teatro é encontro de seres que se escutam, diz Rodrigo Spina

Rodrigo Spina dirige peça de autor romeno com grupo Os Barulhentos em SP- Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O nome do espetáculo é longo. Mas, as referências são muitas.

Aqui Estamos com Milhares de Cães Vindos do Mar é a nova peça da Cia. Os Barulhentos, com direção de Rodrigo Spina, em cartaz no Espaço Elevador, em São Paulo [veja serviço ao fim].

O espetáculo saiu do livro Cuidado com as Velhinhas Carentes e Solitárias, do autor romeno contemporâneo Matéi Visniec, radicado na França desde 1987.

A trupe, que fez sucesso nos palcos em 2013 com Muito Barulho por Nada, agora investiga solidão humana no mundo contemporâneo, num mundo cada vez mais tecnológico e vazio de sentidos, onde o privado e o público se misturam com facilidade, gerando angústia constante.

A encenação é um compilado de 15 peças curtas, que se entrecruzam. Para fazer a colcha de retalhos cênica dar certo, o diretor utilizou os conhecimentos que tem em teatro e em cinema.

No elenco estão Cadu Cardoso, Clara Rocha, Domitila Gonzalez, Gustavo Pompiani, Lia Maria, Lucas Horita, Lucas Paranhos, Marina Campanatti, Murilo Zibetti e Pedro Camilo.
Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Rodrigo Spina descortina um pouco da obra e de sua carreira. Formado em cinema pela ECA-USP e mestre em artes pela Unicamp, onde é doutorando em artes da cena, ele conta, entre outras coisas, que seu diretor preferido é o italiano Fellini: "Pois sua arte sonha".

Leia com toda a calma do mundo.

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Roupas espalhadas: peça tem instigante cenário criado por Moshe Motta - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Rodrigo, fiquei sabendo que sua peça está toda em tons de cinza; por quê?
RODRIGO SPINA — Ao começarmos a ensaiar a peça, senti que as cenas deveriam ser realistas, críveis, porém com algum tipo de estranhamento, algo que deixasse o espectador com uma sensação esquisita. Assim, ao ver uma realidade fidedigna à sua frente, porém sem cor, o espectador, como alguns já relataram inclusive, tem a sensação de que algo de sua percepção visual foi modificada ou está falha, alguma coisa está fora da ordem comum – conteúdo de todas as cenas do espetáculo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Interessante esta provocação estética.
RODRIGO SPINA — Diferentemente do cinema em preto e branco, que resulta nessa qualidade visual pela captação ou por filtros colocados a posteriori, o teatro completamente em tons de cinza, gera uma sensação de deslocamento da realidade, pois vemos um ator vivo em cena, na nossa frente e sem cor alguma – de acordo com o que Visniec tem no cerne de sua dramaturgia: o estado de coma do mundo contemporâneo, onde estamos cada vez mais acostumados a ver uma vida (?) tornando-se pasteurizada, com menos nuances de cores e sentimentos.

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Falta de cores foi opção estética do diretor - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Que poético isso que falou. É por aí mesmo... Mudando de assunto: você se formou em cinema e artes cênicas. Misturou as duas artes na peça?
RODRIGO SPINA — Como diretor, eu conduzo a obra teatral como algo audiovisual, uma combinação de imagens cênicas e sons. Obviamente, essas imagens cênicas são construídas pelos atores, que são ocentro nervoso do teatro, e o sons são combinações de suas vozes, ruídos, as trilhas musicais e seus silêncios. Como sou preparador vocal em teatro e professor de voz para atores, priorizei a aproximação dos atores às palavras de Visniec, a construção de suas imagens internas em seus próprios corpos. Assim, esses atores, jovens brasileiros, poderiam – pela palavra – instaurar questões da guerra do Leste Europeu, por exemplo.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Você fez doutorado na Unicamp sobre voz do ator?
RODRIGO SPINA — Meu doutorado foca em estudar a qualidade da escuta do ator e como ela desemboca em sua expressão vocal, ou seja, quero tirar das mãos do ator a exigência de uma impecabilidade fono-articulatória e colocar toda sua atenção no que ele escuta do outro, pelo jogo cênico. Assim, sua voz será resultado de trocas sensíveis entre os interpretes e não de um treinamento isolado e tecnicista.  Sinto que é momento de voltarmos a ter no jogo dos atores a maior fonte fomentadora da cena teatral e não partir das aptidões trabalhadas apartadas de um todo, em busca de um perfeccionismo esvaziado de histórias e cicatrizes.

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Peça é compilado de 15 cenas curtas que se entrecruzam - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Voltando à peça, em que mais ter feito cinema lhe ajudou na direção?
RODRIGO SPINA — Outra vantagem em ter estudado cinema, foi poder “montar” as cenas soltas num fio narrativo – o conhecimento de edição cinematográfico foi muito usado neste espetáculo – quadros de imagens que se resignificam por seu contexto. Por exemplo: um casal discutindo sua relação depois do sexo é totalmente redimensionado, pois é uma ação simultânea a um menino aprendendo a matar pessoas numa fronteira. Como a peça é composta de 14 cenas curtas encadeadas e simultâneas, o espetáculo torna-se um “filme multiplot”, desses que contem várias narrativas entrecortadas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você escolheu o texto?
RODRIGO SPINA — Esse texto surgiu depois de um passeio por uma livraria em São Paulo, onde vi a coleção do Visniec publicada. Vendo os títulos, um deles chamou minha atenção: Cuidado com as Velhinhas Carentes e Solitárias. Ao pegar o livro e começar a ler, não consegui parar, levei ao grupo e todos se apaixonaram pelas cenas e começamos a montar a peça.

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"Teatro é encontro de seres que se escutam", diz Rodrigo Spina - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como se aproximou do autor, Matéi Visniec?
RODRIGO SPINA — Procurei Visniec virtualmente e encontrei-o pelo Facebook. Ele sempre foi muito solícito conosco e ajuda a divulgar sempre que possível. Enviei fotos do espetáculo para ele explicando como tinha feito o encaixe das cenas e as opções estéticas e ele respondeu: “Esse é o tipo de teatro que eu realmente gosto.” Obviamente, fiquei extremamente feliz, pois sinto que existe um encontro muito profícuo entre nós — os Barulhentos e suas palavras.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você também é ator da Cia. Elevador Panorâmico. Como é agora estar no papel de diretor com o grupo Barulhentos?
RODRIGO SPINA — Aprendi a fazer teatro no Elevador. É impossível dizer o contrário. E fazer teatro de grupo – passando por todos setores – montei cenário, operei som e luz, fiz faxina e reformas na sede do grupo e também atuei... [risos]. Meu diretor, o Marcelo Lazzaratto, é meu grande orientador na vida artística. Ele sempre acompanha os processos que dirijo e problematiza algumas escolhas, sugere soluções. Enfim, sinto que o Lazzaratto é um avô artístico dos Barulhentos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Dirigir mudou algo em você?
RODRIGO SPINA — Poder dirigir um grupo de atores tem transformado minha própria vida no palco, pois a maneira com que você esclarece alguma cena a um ator ou conduz o mesmo a fazer certa coisa faz com que você tenha que esclarecer procedimentos de criação de imaginário para si mesmo para que possa esclarecer ao outro. Assim, muito do que venho falado aos meus atores, tento colocar em prática nos espetáculos do Elevador, como ator.

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Peça discute a solidão dos seres humanos nos tempos atuais - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que o teatro ainda tem importância política no Brasil de hoje?
RODRIGO SPINA — Sim, eu não faria teatro se não acreditasse nisso. A cultura (e no meu caso, meu ofício o teatro) é de fundamental importância para enxergarmos a realidade como ela é. Sinto que as mídias estão cada vez mais controladoras de opiniões e por consequência, as ações dos indivíduos, às vezes, as mais absurdas. Estamos cada vez mais copiando e colando opiniões em nossos “murais” eletrônicos, distanciados cada vez mais de uma relação verdadeira com os outros.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem razão.
RODRIGO SPINA — Há uma certa banalização no uso da palavra hoje em dia, e quero que meu teatro fuja disso. Peço sempre aos atores terem cuidado com a palavra dita e vivida por eles em cena, cuidado em criar as imagens potentes que elas possuem a priori, sentidos profundos e vitais. E o teatro ainda é o lugar de encontro humano, nada além disso – o encontro entre seres que se escutam, onde há lugar para troca real. Isso, de início, já pode ser uma transformação política radical, hoje em dia.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quais são seus diretores preferidos em cinema e teatro?
RODRIGO SPINA — Meu diretor predileto é o Fellini, pois sua arte sonha. Existe algo na obra dele que cala e faz rir. Algo que é gracioso, ao mesmo tempo, totalmente silenciador. Sinto que é quase impossível colocá-lo num único gênero. E esse tipo de arte me atrai. Diretores de cinema e teatro que conseguem ser plurais – abarcando mais sensibilidades humanas do que possíveis rótulos, tornando sua arte polissêmica e abrangente. Gosto muito de cinema mudo de Chaplin e Buster Keaton, o silêncio de Bergman, as cores de Almodóvar e no teatro é inevitável dizer, mas gosto muito do trabalho do Lazzaratto, por motivos óbvios, e do Felipe Hirsch, Márcio Meirelles e o trabalho dos Clowns de Shakespeare.

Aqui Estamos com Milhares de Cães Vindos do Mar
Quando: Sábado, 20h, domingo, 19h. 110 min. Até 31/5/2015
Onde: Espaço Elevador (r. Treze de Maio, 222, Bela Vista, São Paulo, tel. 0/xx/11 3477-7732)
Quanto: R$ 30
Classificação etária: 14 anos

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Velson DSouza03398x10 low res Entrevista de Quinta   Velson D’Souza troca SP por Nova York e conquista Broadway

Ator Velson D'Souza trocou São Paulo por Nova York e não se arrepende - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O ator brasileiro Velson D’Souza realiza o sonho de muitos colegas de profissão: atualmente trabalha na Broadway, em Nova York.

O moço está no elenco da peça I Catch You Dreaming, escrita pelo porto-riquenho Rafael Albarran e que transformou-se em sucesso de público na maior cidade dos EUA, no Teatro Flamboyan.

Na obra, faz o papel de um jovem gay que tem uma família católica e se apaixona por um ator.

A carreira do rapaz em solo norte-americano é cuidada pela agente Ann Steele, além dos menagers da Richard Rosenwald Associates. Ele ainda atua com dublagens na Stewart Talent e na Abrams Agency. Inclusive foi convocado para dublar o craque Neymar na campanha mundial da Nike na última Copa.

Antes de partir para o sonho americano, Velson atuou em espetáculos como o infantil A Odisséia de Arlequino, que levou o Prêmio APCA de melhor elenco, e A Sessão da Tarde, sucesso da Cia. Teatro Rock que ganhou o Prêmio Femsa.

O Atores & Bastidores do R7  conversou com o rapaz sobre o atual momento internacional de sua carreira nesta Entrevista de Quinta. Ele confessou que o ator é mais respeitado nos EUA do que no Brasil.

Leia com toda a calma do mundo.

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Cena da peça I Catch You Dreaming: sucesso da Broadway tem brasileiro no elenco - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi partir para o sonho de atuar nos EUA?
VELSON D’SOUZA — Quis fazer um intercâmbio entre as duas culturas. Sempre fui fascinado pela cultura norte-americana. Quando houve a possibilidade de fazer a mudança, não pensei duas vezes. O desafio também me interessou muito.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você pensa em voltar?
VELSON D’SOUZA — Hoje minha base é aqui em Nova York e tenho projetos neste momento que impossibilitam minha ida ao Brasil. E minha intenção é continuar fazendo o intercâmbio entre as duas culturas aqui nos EUA e executar aqui projetos culturais similares aos que fiz parte no Brasil.  Mas recebi sondagens ano passado e esse ano para projetos de cinema e teatro em São Paulo. Seria um prazer poder trabalhar em projetos no Brasil no futuro, não sei quando acontecerá. Tudo depende do projeto e se este se encaixa na agenda daqui.

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O ator em cena de I Catch You Dreaming - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi se adaptar a Nova York? Foi desafiante?
VELSON D’SOUZA — A adaptação leva um tempo. Nova York é uma cidade muito cara e muita gente pensa que Nova York é a Times Square, a Estátua da Liberdade, etc. Nova York é muito mais que isso. Eu acho que a adaptação à culinária e ao estilo de vida de uma cidade que move num ritmo muito superior a uma cidade como São Paulo, por exemplo, são os grandes desafios. Ah! Para brasileiros, diria que com certeza o tempo. Em Nova York você tem a experiência das quatro estações do ano ao extremo. É tremendamente quente no verão e úmido. No inverno, é intensamente frio e seco!

MIGUEL ARCANJO PRADO — Onde percebeu mais dificuldade para um ator: em São Paulo ou em Nova York?
VELSON D’SOUZA — Depende. Cada lugar tem suas dificuldades e é diferente. No Brasil, existem poucas oportunidades para o ator. Produtores sérios passam anos tentando aprovar seus projetos em leis e depois anos tentando captar o dinheiro para realização do projeto. No Brasil, não existe um sindicato sério, que lute de verdade pelo ator. Bom, existir até existe. Acho que o ator no Brasil é muito explorado e pouco reconhecido. E também parece que é cada um por si. O povo só vai ao teatro no Brasil para ver ator famoso. Talvez eu esteja sendo um pouco radical, porém, é extremamente difícil para o ator viver só disso no Brasil. Nos EUA, é um pouco diferente. O ator é muito mais respeitado. O povo vai ao teatro, e eu não estou apenas falando de Broadway. Mas tem muito teatro regional que tem casa cheia todo espetáculo. Sem contar que nos Estados Unidos existem sindicatos para cada área que protegem o ator (não somente atores mas todos envolvidos, diretores, câmera man, etc). Pra você ter uma ideia, o ator que faz um comercial que vai passar em rede nacional tem contrato supervisionado pelo sindicato , SAG-AFTRA, recebe um valor fixo para gravar o comercial, e depois, recebe um valor por cada vez que o comercial passa na TV. O ator aqui é respeitado e protegido. Seria uma maravilha se isso acontecesse no Brasil. Claro que aqui tem suas dificuldades também, porém tem muito mais oportunidades.

Acompanhe em tempo real o R7 no Festival de Teatro de Curitiba 2015!

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 Entrevista de Quinta   Sou a dramaturga da masmorra, diz Dione Carlos

A dramaturga Dione Carlos: em busca de um teatro que abarque as diferenças - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A manhã é de sol e o jardim da Casa das Rosas, em plena avenida Paulista, cria uma poesia em meio a tantos prédios. É como se o lugar fosse uma suspensão poética imersa no caos ao redor. É este ambiente que a dramaturga Dione Carlos escolheu para nossa conversa. Chego e ela já me espera sentada em uma das mesas do café.

Ela tem muita coisa a contar. Afinal de contas, seu 2015 já começou pulsante no teatro. Está com duas peças suas em cartaz ao mesmo tempo, Mamute, com a Cia. do Mofo, no Espaço da Cia. do Pássaro, e Bonita, no Sesc Ipiranga. A primeira usa uma notícia de jornal sobre um corpo mumificado para discutir as relações frias nos tempos de hoje. A segunda é inspirada em Maria Bonita, mulher de Lampião.

No segundo semestre, estreia ainda outro texto: Mariposas, com direção de Vanessa Bruno. Também ainda prevista para este ano está Rubro,  peça a ser montada em Manaus, no Amazonas, por Danilo Reis.

Carioca radicada em São Paulo, dramaturga formada pela SP Escola de Teatro e mãe de três filhos, Dione Carlos encontra, aos 37 anos, a segurança de uma escolha profissional que tanto buscou.

Este foi um dos temas, entre tantos outros, nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, na qual fala sobre sua vida e seu teatro.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como surgiu a dramaturga em você?
DIONE CARLOS — Comecei a escrever na adolescência, com diários. Nunca me vi como escritora. Achava algo distante. Venho de família simples, sem referência de artista ou escritor na família. Mas as pessoas me diziam que deveria investir. Fazia teatro na escola, mas via a carreira artística como algo distante.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você queria ser?
DIONE CARLOS — Eu queria ser jornalista e cheguei a cursar na Metodista, em São Paulo, mas não terminei. Vi que não era a minha. Uma professora me disse que meus textos eram muito poéticos e que eu estava no lugar errado [risos].

 Entrevista de Quinta   Sou a dramaturga da masmorra, diz Dione Carlos

Dione Carlos: por pouco a dramaturga não foi jornalista - Foto: Angela Belei

MIGUEL ARCANJO PRADO — E aí surgiu o teatro?
DIONE CARLOS — Acabei indo para o teatro tarde. Tentei várias coisas antes. Foi difícil lidar com a frustração de não ter gostado de jornalismo, porque era uma certeza que eu tinha muito. Quando tentei medicina veterinária vi que era o fundo do poço de não saber o que queria. Aí fui fazer teatro. Ganhei um presente do meu marido: um curso no Globe-SP, com a direção artística do Ulysses Cruz. No curso vi que realmente era minha vocação. Estava com 28 anos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Mas é bom começar tarde porque você não perde tempo.
DIONE CARLOS — A informação encontra a vivência e vira conhecimento. Lembro que o curso era muito voltado para televisão e propaganda. Mas o Marcos Daud, o coordenador pedagógico, me dizia que meu lance era o teatro.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E a escrita?
DIONE CARLOS — Sempre tive relação próxima com textos. A primeira vez que li Macbeth, de Shakespeare, fiquei muito impressionada. Enquanto as pessoas estavam se aquecendo eu estava relendo o texto, tentando compreender como aquilo foi criado.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vamos voltar um pouco. Onde você nasceu?
DIONE CARLOS — No Rio, sou carioca. Fui criada no Rio, primeiro na área rural, em Santíssimo, até os cinco anos. Tinha boi passando no quintal. Minha mãe é auxiliar de enfermagem e meu pai era vendedor. Morávamos em um lugar afastado de tudo. Aos seis anos, fui para o subúrbio, morar em Quintino, o bairro do Zico, que era outra realidade. Saí do bucólico e caí no Nelson Rodrigues, com as vizinhas fofoqueiras. Sempre morei no Rio de Janeiro que não era o das novelas de Manoel Carlos [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO — E São Paulo?
DIONE CARLOS — Eu me apaixonei por um paulistano, o Carlos Lima. Vim para cá e estou com ele até hoje. Vinte anos já. Tinha 19 anos quando cheguei em São Paulo, e cheguei com primeiro filho, o Danilo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Dizem que é bom ter filho cedo.
DIONE CARLOS — É... Eu também acho. Para mulher faz toda a diferença. Você vê: eu fiz o caminho todo inverso, primeiro a família, e depois a profissão. Então, agora é a minha hora [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO — E você teve mais filhos?
DIONE CARLOS — Depois vieram os gêmeos, Dionne e Malcom , que agora vão fazer 13. O Danilo já está com 18 anos.

 Entrevista de Quinta   Sou a dramaturga da masmorra, diz Dione Carlos

Dione Carlos, em retrato feito por Bob Sousa - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o teatro foi ficando mais forte?
DIONE CARLOS — Sim. Antes de terminar a Globe-SP, fiz Oficina do Teatro Promíscuo do Renato Borghi e do Elcio Nogueira. Tinham mais de 200 candidatos e eles escolheram 20 atores e fui selecionada. Passei dois anos estudando com eles. Sempre escrevia minhas cenas, acho que ali já tinha a dramaturga. Pegamos um Proac circulação e viajamos São Paulo. Foi quando descobri que minha filha tinha autismo. Aí eu tive de optar.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi?
DIONE CARLOS — Foi com a menina, a Dionne. Primeiro é um luto, você sofre um baque. Ninguém se prepara para ter uma criança especial. Ela cumpriu todas as etapas esperadas até os dois anos. Então, não percebi nada. Quando tirei a amamentação, ela começou a apresentar os sintomas, ficava com olhar parado, ficava horas olhando a parede. Mãe sente. Comecei a ver que minha filha era diferente. A pediatra falava que era absurdo comparar a menina com o menino. Quando procurei a fonoaudióloga ela me disse que minha filha tinha características do autismo. Ao mesmo tempo era o momento que eu estava começando a me descobrir profissionalmente. Mas o amor de mãe é maior e eu resolvi parar para apoiá-la. Meu marido achou um absurdo, porque ele sempre me apoiou no teatro.

dione carlos malcom lima Entrevista de Quinta   Sou a dramaturga da masmorra, diz Dione Carlos

Dione Carlos descobriu na escrita para o teatro sua vocação - Foto: Malcom Lima

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você voltou para o teatro?
DIONE CARLOS — Meu marido me avisou que iriam abrir a SP Escola de Teatro e que teria curso de dramaturgia. Fui fazer o teste com a Marici Salomão e passei. Fui da primeira turma. Foi um presente do destino. Conheci muita gente, Rogério Toscano, Noemi Marinho, Newton Moreno, a própria Marici...

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi ter o contato com a técnica?
DIONE CARLOS — Foi fundamental. Acredito muito na intuição, mas a formação é fundamental. Você precisa de ferramentas para expandir o seu repertório. E o dramaturgo precisa de repertório. Tem que viver.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vida não te falta.
DIONE CARLOS — Não mesmo. Tem que viver, ler, se informar, conhecer outros dramaturgos, os ancestrais, se não olha para trás você não constrói nada. Sou muito ligada à oralidade, venho de família com religião de tradição africana, que é de base oral, passada de boca em boca, isso tem uma riqueza muito grande. Tenho muita admiração por essa forma poética de habitar o mundo através da fala. Para mim foi fundamental entrar em contato com o que já havia sido feito e com quem estava fazendo teatro naquele momento, foi uma troca muito grande na SP Escola de Teatro.

MAMUTE foto Tathy Yazigi baixa2 Entrevista de Quinta   Sou a dramaturga da masmorra, diz Dione Carlos

Imagem de divulgação da peça Mamute, de Dione Carlos, em cartaz no Espaço da Cia. do Pássaro, em São Paulo - Foto: Tathy Yazigi

MIGUEL ARCANJO PRADO — Tem o dramaturgo de gabinete, o dos processos colaborativos... Qual tipo de dramaturga é você?
DIONE CARLOS — Eu brinco que sou a dramaturga da masmorra. É a masmorra interior em que eu me coloco, da crueldade artaudiana. O primeiro desafio que eu crio para mim é aceitar as sugestões e os desejos dos diretores. E, uma vez na masmorra, que não chega a ser uma masmorra medieval, mas é dura e necessária para a criação, eu consigo me desafiar e me expandir. Porque, quando sento e escrevo, sempre o texto vai para lugares inesperados.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como surgiu Mamute?
DIONE CARLOS — Eu fui assistir a Hotel Trombose, a peça anterior dos meninos da Cia. do Mofo. Na saída, o Fernando Gimenes, o diretor, me procurou e me disse que havia lido uma noticia de jornal de uma mulher que ficou mumificada 42 anos em um apartamento. Fui atrás da noticia e encontrei várias histórias semelhantes, inclusive em São Paulo. Disse que queriam fazer uma peça a partir disso. Pensei no mamute que foi encontrado ainda com sangue. E pensei na indiferença nas relações na sociedade que a gente vive. Quis trazer para a cena a alteridade no sentido da diferença.  Eu tenho uma filha autista e sempre vou trazer a diferença para o meu teatro. Quero que as pessoas se acostumem a ver coisas que elas não reconhecem. Para não ficarem só acostumadas a visões estereotipadas do gay, da criança especial, do gringo com sotaque. É importante ter quebras, expandir o "realismo".

SERVIÇO DAS PEÇAS:

Mamute, de Dione Carlos, com direção de Fernando Gimenes e Carla Zanini (Cia. do Mofo)
Quando: Sábado, 21h, domingo, 20h. 60 min. Até 29/3/2015.
Onde: Espaço Cia. do Pássaro (r. Álvaro de Carvalho, 177, metrô Anhangabaú, São Paulo, tel. 0/xx/11 94151-3055)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

Bonita, de Dione Carlos com direção de Alex Araújo (Teatro Mínimo)
Quando: Terça e quarta, 21h30. 40 min. Até 15/4/2015.
Onde: Sesc Ipiranga (r. Bom Pastor, 822, Ipiranga, tel. 0/xx/11 3340-2000)
Quanto: R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia-entrada) e R$ 6 (comerciários)
Classificação etária: 14 anos

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IMG 9725 Entrevista de Quinta   Patrícia Vilela faz viciada em drogas no filme Nóia e vive desespero em cena

Patrícia Vilela em cena do filme Noia, de Elder Fraga: lançamento nesta quinta (26) - Foto: Glauco Bernardino

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O mundo de alguém entregue ao vício é desvendado no filme Nóia, dirigido por Elder Fraga e com roteiro de Maristela Bueno. E quem dá vida a todo este desespero é a atriz Patrícia Vilela, gaúcha radicada em São Paulo. O curta será lançado nesta quinta (26), às 20h, no MuBE (av. Europa, 218, Jardins, São Paulo; ingresso a R$ 5). Ainda estão no elenco Alexandre Barros, Angela Barros e Fransérgio Araújo.

A história é baseada em fatos reais e mostra a angústia de uma mulher completamente em crise por conta de sua dependência química. Maristela Bueno, que criou o roteiro após pesquisa com familiares de usuárias de drogas e mulheres que se envolveram com traficantes e usuários, afirma que foi o trabalho de Patrícia no teatro que a fez ganhar o papel. "Precisava de uma atriz com atuação visceral, despida de freios morais, pois a personagem exigia alguém que superasse suas limitações e ao mesmo tempo expressasse com delicadeza a subsistência de uma mulher abandonada à própria sorte", afirma.

A roteirista elogia o resultado: "Patrícia foi muito além do que o texto propunha, doou-se completamente, exacerbando seu talento numa atuação selvagem e sublinhada de emoções contraditórias. Houve uma sinergia tão forte entre o elenco que resultou num excelente conjunto de interpretações".

Elder Fraga, o diretor, também ressalta a entrega. "Patrícia fez um trabalho excelente. Pegou um personagem difícil e deu humanidade. Minha sorte foi ter um elenco incrível. Patrícia é grande atriz e espero voltar logo para o set com ela, que bateu um bolão com os outros atores, Alexandre Barros, Angela Barros e Fransergio Araújo. Achei fantástico poder pesquisar e trabalhar em cima das alucinações que muitos usuários de drogas tem, as vozes que eles ouvem, enfim, não posso contar muito senão entrego o filme e estrago a surpresa".

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Patrícia Vilela fala sobre o desafio de viver uma personagem tão complexa.

Leia com toda a calma do mundo.

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Patrícia Vilela vive viciada em drogas que entra em desespero no filme Noia - Foto: Glauco Bernardino

MIGUEL ARCANJO PRADO —Como surgiu o convite do curta?
PATRÍCIA VILELA — O convite partiu da roteirista e produtora Maristela Bueno, que está investindo muito em produção para cinema, inclusive com outros projetos de curtas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual o maior desafio em fazer esta personagem?
PATRÍCIA VILELA — Personagens são sempre um desafio. Com a experiência fiquei mais segura, mas não menos ansiosa e preocupada em fazer o melhor. O desafio desta personagem foi imprimir humanidade e verdade, porque personagens assim correm o risco de cair no estereótipo ou overacting, principalmente para o cinema, onde a tela aumenta cem vezes o seu rosto.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você construiu a personagem?
PATRÍCIA VILELA — A partir dos ensaios e, através da orientação e direção firme do Elder Fraga, fui entendendo a personagem e todo o problema de dependência química envolvido. Pesquisei as reações físicas de dependentes e me concentrei na paranoia, no desespero e todas as angústias que envolvem as pessoas que vivem numa situação de limite. Fiquei muito livre para criá-la, me senti segura nas gravações com uma equipe superprofissional, colegas de cena talentosos e um diretor, Elder Fraga, focado no trabalho do ator.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Mudando um pouco de assunto, você gostou de Birdman, do mexicano Iñarritu, ter ganhado o Oscar?
PATRÍCIA VILELA — Ainda não vi o filme. Mas achei ótimo um latino-americano ganhar. A América é multicultural. Se o vencedor é talentoso e mereceu, é isso que importa. Os latino-americanos vêm se destacando e é natural receber prêmios e o respeito do público e crítica.

IMG 9604 Entrevista de Quinta   Patrícia Vilela faz viciada em drogas no filme Nóia e vive desespero em cena

Patrícia Vilela contracena com o ator Alexandre Barros em Noia - Foto: Glauco Bernardino

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem relação frequente com o cinema como atriz?
PATRÍCIA VILELA — Atuei nos curtas Dark Angel, de Paulo Suckow, O Homen Perfeito e Suas Mentiras, de Thais Vetorelli, Versus, com roteiro de Roberto Soares e direção de Rodrigo Macedo, e Olho Mágico, de Wagner Molina. E, com direção de Cauê Angeli, o longa Whisky e Hambúrguer, que está em processo de finalização, com a trilha sonora composta especialmente por Marcelo Gross, guitarrista da banda Cachorro Grande. O filme é a peça escrita e dirigida por Mário Bortolotto, com que divido a cena e que estreou no ano passado no Festival de Teatro de Curitiba. E ainda tem mais dois curtas para este ano. E quero fazer muito mais cinema, porque sempre foi minha paixão.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Tem mais projetos para 2015?
PATRÍCIA VILELA — No momento, estou captando para um projeto de peça infantil que vou dirigir e produzir, e uma peça adulta onde vou atuar e produzir.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Patrícia, vamos falar de outro tema bem atual: você está com medo da crise hídrica?
PATRÍCIA VILELA — Tenho muita preocupação sim. Infelizmente muitas coisas no nosso país são resolvidas tardiamente. Sem planejamento algum, estamos à mercê da sorte que a chuva venha. Mas me espanta que muitas pessoas nunca pensaram que isso poderia acontecer. Nunca pensaram sequer em economia da água, desperdiçando sem dó. Pena que só no perigo eminente as pessoas têm consciência.

IMG 9944 Entrevista de Quinta   Patrícia Vilela faz viciada em drogas no filme Nóia e vive desespero em cena

Patrícia Vilela (dir.) abraça a atriz Ângela Barros no set de Noia - Foto: Glauco Bernardino

MIGUEL ARCANJO PRADO — Voltando à temática do filme, você é a favor da liberação da maconha no Brasil como ocorreu no Uruguai?
PATRÍCIA VILELA — Sou a favor da liberdade. Da liberdade de pensamento, de criação, expressão principalmente liberdade das escolhas do indivíduo. Mas escolhas implicam em responsabilidade. Será que o Brasil está preparado para isso?

MIGUEL ARCANJO PRADO — E como acha que o problema das drogas deveria ser resolvido? É um caso de polícia ou de caos social?
PATRÍCIA VILELA — Acho que é mais um problema de saúde pública do que policial ou social. O que falta é dar suporte aos dependentes. Se o governo oferecesse este suporte já seria um bom começo para resolver o problema.

IMG 9686 Entrevista de Quinta   Patrícia Vilela faz viciada em drogas no filme Nóia e vive desespero em cena

Patrícia Vilela em cena do curta Noia: "Falta dar suporte aos dependentes" - Foto: Glauco Bernardino

 

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ENO 0117 Entrevista de Quinta: Voltamos à idade média, diz Ary Fontoura

O ator Ary Fontoura, curitibano, 82 anos, em SP com a peça O Comediante - Foto: Eduardo Enomoto

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos EDUARDO ENOMOTO

Ary Fontoura, quando anda por São Paulo, lembra-se de sua adolescência. Foi na cidade, aos 17 anos, durante uma visita com sua turma de escola, que viu, fugido de seu professor, Cacilda Becker no palco do TBC. Ali, decidiu que ser ator era sua vida.

Deu certo o sonho daquele menino. Aos 82 anos, 50 deles como ator contratado da Globo, tornou-se um dos artistas mais conhecidos e admirados do País.

Ele está em cartaz até o dia 15 de março em São Paulo, no Teatro Raul Cortez, com a peça O Comediante. A montagem é a última direção de José Wilker no teatro, que morreu repentinamente, vítima de um infarto, em abril do ano passado, durante o processo de ensaios. Anderson Cunha, que era seu assistente, tomou as rédeas e finalizou a obra, que já esteve em cartaz no Rio, com sucesso.

O texto de Joseph Meyer mostra um ator, Walter Delon, papel de Fontoura, que vive preso às lembranças do passado e tenta recuperar o sucesso perdido com uma autobiografia. No processo do livro, revive suas lembranças, imersas numa mistura de realidade e ficção.

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Ary Fontoura fala sobre a peça, a partida de Wilker e o que pensa do teatro e do desrespeitos que artistas de sua geração sofrem nos dias atuais.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você é um artista que trabalha muito, sempre com reconhecimento. Teve algum período que você gostou mais?
ARY FONTOURA — Olha, havia uma época na televisão muito boa. Falo do fim dos 1960, 1970. Eu era um dos atores preferidos do Dias Gomes, que perdemos inclusive aqui em São Paulo, num acidente de carro. Eu fiz dez novelas com ele: A Ponte dos Suspiros, Bandeira 2, Assim na Terra como no Céu, O Espigão, Roque Santeiro... Trabalhar com ele é uma saudade que eu tenho. Tenho 50 anos de Globo e foi esta a época que eu mais gostei. Você sabe como o dia começou na Globo?

ENO 0119 Entrevista de Quinta: Voltamos à idade média, diz Ary Fontoura

Para Ary Fontoura, parceria com Dias Gomes foi glória na carreira - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como?
ARY FONTOURA — Ele já escrevia para teatro e cinema. E aí o doutor Roberto [Marinho] queria ele no time de autores da Globo. O Dias começou a escrever na Globo praticamente foragido, por conta da política, que naquela época era tudo muito complicado [Dias Gomes era comunista e o Brasil vivia tempos de ditadura]. O doutor Roberto sabia de seu talento e queria ele de qualquer jeito. Ele falou, eu não posso, doutor Roberto, assinar "uma novela de Dias Gomes". Vão censurar. Aí botaram o nome dele de Stela Calderón. Foi o pseudônimo que ele usou para começar. Foi a Stela Calderón que fez A Ponte dos Suspiros, a primeira novela dele na Globo e eu estava nela.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Ary, falando um pouco da peça, vocês estavam ensaiando quando o Wilker morreu. Imagino que foi um momento muito difícil para todos.
ARY FONTOURA — O que acontece é o seguinte. Eu conheço o Wilker desde 1964. Ele era do Ceará, e eu, de Curitiba. Frequentamos muito no Rio os mesmos lugares do teatro, igual aqui em São Paulo tem o Gigetto. Começamos trabalhando juntos no teatro, na época difícil da ditadura militar. Ele merece ser lembrado com humor. A ida repentina dele foi uma brincadeira.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Realmente foi uma morte inesperada naquela manhã de sábado, 5 de abril de 2014...
ARY FONTOURA — Na sexta-feira anterior à morte, soube que ele iria a Nova York, onde faria uma consulta médica dos olhos, uma cirurgia de catarata. Ele falou: "Amanhã, antes da viagem, vamos passar tudo". Aí, eu perguntei: "E a cena final?". Ele me deu aquele sorriso irônico e me disse: "A última cena a gente marca depois"... A gente se acostuma com a vida, mas não solucionou a morte, sobretudo a que vem inesperadamente. Eu demorei alguns dias para entender que ele foi embora.

ENO 0106 Entrevista de Quinta: Voltamos à idade média, diz Ary Fontoura

Ary Fontoura conta que morte de Wilker abalou o elenco, que resolveu homenageá-lo seguindo adiante com o trabalho da peça O Comediante - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como vocês resolveram continuar a peça?
ARY FONTOURA — No teatro a gente lida com emoções no palco, mas não atua 24 horas por dia. Nos reunimos para tratar do assunto e chegamos a uma certeza: que o Anderson tinha de continuar o espetáculo. Ele é jovem, simpático, gentil, com as mesmas características do Wilker e com vontade de crescer. Ele é tão dedicado que tinha todas as anotações dos ensaios. Porque o Wilker era muito metódico.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que lhe chamou a atenção em O Comediante?
ARY FONTOURA — Queria fazer uma peça que me desafiasse. O texto é de um autor jovem. A peça é baseada em Crepúsculo dos Deuses, é uma peça muito ligada ao cinema. O Wilker queria fazer uma coisa tecnológica, aí ele foi para Nova York e voltou zangado, porque um ator do Breaking Bad estava fazendo uma coisa parecida com o que ele queria fazer, interagindo com o público e com imagens. Eu só falava para ele: "Tomara que tenha público". O equipamento que ele queria usar custava o dobro do patrocínio que tínhamos do Bradesco! E iria precisar de 18 técnicos, imagine só viajar com isso? Eu falava para ele: "Você está querendo fazer um musical da Broadway". E ele me respondia: "A gente tem de pensar grande". E eu devolvia: "Você pensa grande demais. Se você voltar outra vez a Nova York onde vamos parar?" [risos]. Depois, ele voltou e me disse. "Eu acho que a peça é muito mais que uma projeção, mas não é uma simples projeção!" [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO — Foi complicado estrear a peça sem ele?
ARY FONTOURA — Sim. Primeiro, achamos que fazer uma homenagem não era conveniente. Pensamos: será que não vão pensar que estávamos nos aproveitando da morte dele? Nós precisávamos era trabalhar. Voltamos para a mesma sala de ensaios. Às vezes, você precisa enfrentar. Vai doer? Vai, mas é preciso. Agora, vamos deixar o Wilker descansando.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Está certo. Você estava afastado do teatro havia cinco anos?
ARY FONTOURA — Sim. Está muito difícil fazer teatro hoje. Antes, você pensava assim: tinha 50 mil, vendia o telefone e montava uma peça. Aí... era um sucesso ou um fracasso [risos]. Agora, você não consegue montar uma peça sem um auxílio extra. Voltamos à era medieval! Você precisa de apoio de hotel, da companhia aérea, de restaurante. E cada apoio custa muito. Não existe mais o público que banca a obra. Até porque todo mundo paga meia-entrada, quando paga. Idoso, mesmo os que têm dinheiro, pagam meia, estudante, mesmo que não estude, também paga meia... Resultado, a bilheteria é fraquíssima! Não poderíamos sobreviver de bilheteria. E na política cultural dos governantes, o teatro sempre é assunto secundário.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por quê?
ARY FONTOURA — Porque não querem deixar o povo raciocinar. Vejo colocando a gente sempre no canto. Falam de democracia do povo para o povo, é tudo mentira, tudo literatura. Isso afeta a vida de todos nós, não vai afetar a diversão? O teatro é cultura, mas também é diversão. Você precisa de cuidar de outras coisas para sobreviver. Tem de ter educação, saúde.

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Ary Fontoura não acredita nas promessas de políticos para o teatro - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você não acredita quando os políticos dizem que vão ajudar o teatro?
ARY FONTOURA — Não. As promessas são infundadas. Quando chego a São Paulo e vejo uma maravilha de teatro como o Raul Cortez, onde a gente está agora, a gente não acredita. Eu tenho 82 anos e sempre foi assim, os governantes nunca ligaram para o teatro. Infelizmente, as coisas mudam para pior. Moro há muitos anos no Rio e lá, há 20 anos, não se constrói novos teatros. Se bem que teve esse novo, que custou milhões, o Cidade das Artes, que é um monstro cinza, não tem uma bandeira ou um cartaz na porta que diga: aqui se faz teatro. É horroroso. Até o jardim é mal cuidado. Tudo é ruim. Não há interesse no teatro. Essa é a política cultural que nos oprime. E isso é o que existe neste País.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quais são suas lembranças de São Paulo?
ARY FONTOURA — Na verdade não sou carioca nem paulista, sou curitibano. Morava em Curitiba e, quando comecei a fazer teatro, a cidade tinha 200 mil habitantes. Eu sabia que minha permanência lá seria por tempo determinado. Aí houve uma apresentação da EAD [Escola de Arte Dramática] do dr. Alfredo Mesquita lá em Curitiba. Aquilo me bateu, eu tinha 17 anos. Pensei, eu tenho que sair daqui e ir para São Paulo, meu Deus é isso que eu tenho de fazer! Perguntei ao doutor Alfredo, que estava lá em Curitiba, como seria a vida de ator em São Paulo. Ele me deu umas coordenadas. Fiquei com isso guardado.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E quando veio para São Paulo pela primeira vez?
ARY FONTOURA — Aí, quando eu tinha 19 anos, eu vim para um simpósio de literatura infanto-juvenil com a turma do Colégio Estadual do Paraná, no Teatro Cultura Artística. Basta te dizer que eu apareci muito pouco no seminários [risos]. Foram dez dias que vi muito teatro. Fui ao TBC [Teatro Brasileiro de Comédia], vi Cacilda Becker, me encantei por São Paulo de uma maneira tal que não queria mais sair.

ENO 0124 Entrevista de Quinta: Voltamos à idade média, diz Ary Fontoura

Ary Fontoura: "Tirava foto no vale do Anhangabaú para provar que estava em São Paulo" - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — E você ficou?
ARY FONTOURA — Não! Estávamos hospedados no Estádio do Pacaembu. No domingo, quando teríamos que ir embora para Curitiba, eu me escondi no banheiro, mas me esqueci que dava para ver, por cima, que eu estava lá. O maldito do professor teve a ideia de subir numa cadeira e me viu pelo alto do boxe. Ele me disse: "você  pode até ficar depois, mas agora vai ter de voltar comigo, se quiser ficar tem de vir por você mesmo". Foi a pior viagem da minha vida, 24 horas dentro de um trem, eu chorando. Foi horrível voltar para Curitiba, eu não queria ficar lá, minha família me oprimia. Depois, vim para São Paulo por conta própria. Tirava fotografia no vale do Anhangabaú para mandar para a minha família e provar que eu estava em São Paulo. Então, sempre venho com prazer para cá. O Rio acabou sendo a minha casa, o lugar que escolhi para viver, até porque comecei a fazer televisão, mas eu amo São Paulo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O Comediante lida com um ator mais velho que tenta voltar aos holofotes. Como é a questão do ego na profissão de ator?
ARY FONTOURA — O ego é a pior coisa de todas na vida de qualquer ator. É uma profissão onde a gente exerce sobretudo esse culto ao eu. Baseado nisso, me agrada muito que o personagem seja engraçado, porque ele é tragicômico e profundamente humano. É uma histórica que provoca uma série de problemas no sentido do futuro. A pior coisa na arte é um individuo querer aparecer novamente e não poder. Há milhares pessoas que caem de repente e não são mais tão midiáticos. E isso acontece de uma maneira cruel dentro da própria televisão. Hoje em dia, o numero de atores da maior idade estão sendo jogado de escanteio. Está certo que os jovens cheguem e tomem seus lugares. Acredito que é preciso que haja renovação, mas é preciso que haja também entendimento de que quem ainda está aí tem uma capacidade de realizar e tem uma história, que hoje em dia, em pouquíssimas ocasiões, é respeitada. Você chega e as pessoas perguntam que nome você tem. Você trabalha anos e anos em uma organização e quando vai assinar um contrato tem um executivo da vida que entrou ali outro dia e não tem nada a ver com sua área e lhe pergunta: "Você veio assinar o contrato? Qual é seu nome, por favor?". Aí, ou você fica ou vai embora, não é? O Delon, meu personagem na peça, está inserido neste contexto. É uma pessoa esquecida. E, por ser esquecido, vive todo um conflito de uma profissão.

O Comediante
Quando: Sexta, 21h30; sábado, 21h, domingo, 19h. 90 min. Até 15/3/2015
Onde: Teatro Raul Cortez (r. Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, metrô Trianon-Masp, São Paulo, tel. 0/xx/11 3254-1631)
Quanto: R$ 70 (sexta) e R$ 80 (sábado e domingo)
Classificação etária: 12 anos

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Valquiria Ribeiro 7 Entrevista de Quinta   Valquiria Ribeiro faz 30 anos de Carnaval: Foi entrada para carreira de atriz

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Musa da Vai-Vai e da Mangueira, além de ser atriz da Record, a paulistana Valquiria Ribeiro conta os minutos para começar a folia. Afinal, neste 2015 ela completa 30 anos de Carnaval.

A efeméride não é para qualquer uma, ela sabe muito bem. Foi por brilhar na avenida que ela acabou galgando passos importantes na carreira de atriz.

A Vai-Vai homenageia Elis Regina em seu desfile deste ano. Já a Mangueira, no Rio, desfilará o enredo Mulher Brasileira em Primeiro Lugar. Ambas escolas destacaram lugar importante a Valquiria em sua passagem pelo sambódromo.

Em São Paulo, ela desfila na madrugada de sábado. No Rio, na de domingo. Assim, revela, nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, que será uma correria danada o seu Carnaval.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você está completando 30 anos de Carnaval em 2015. O que a folia representa na sua vida?
VALQUIRIA RIBEIRO — Eu não consigo viver sem o Carnaval. Completar 30 anos de avenida, não é fácil. É muita dedicação, empenho e principalmente saúde. Mas quando se ama, qualquer esforço vale a pena. O Carnaval, inclusive, foi uma grande entrada para minha carreira como atriz, a exposição positiva me ajudou muito quando comecei a estudar teatro e ingressar nos primeiros trabalhos.

Valquiria Ribeiro 4 Entrevista de Quinta   Valquiria Ribeiro faz 30 anos de Carnaval: Foi entrada para carreira de atriz

Valquiria Ribeiro: 30 anos desfilando no sambódromo - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você virá de musa da Vai-Vai mais uma vez neste ano. Qual será sua fantasia?
VALQUIRIA RIBEIRO — Vou representar a canção Aquarela do Brasil, no enredo que exalta a vida de uma das mulheres mais influentes e poderosas da história da música brasileira, Elis Regina.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E qual será a fantasia na Mangueira?
VALQUÍRIA RIBEIRO — Em São Paulo, a Vai-Vai conta a vida de uma grande mulher e, coincidência, ou não, a Mangueira também fala sobre a força da mulher no cenário atual. Com o enredo Mulher Brasileira em Primeiro Lugar, que é o refrão de uma música de Benito di Paula, que inspirou o enredo. A escola mostrará a força e status  da mulher brasileira. Vou estar à frente do quinto carro, que fará uma homenagem às grandes autoras e escritoras, que revolucionaram a sociedade e deixaram sua marca.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem algum cuidado especial?
VALQUIRIA RIBEIRO — Eu malho bastante e me alimento bem. Quando chega essa época de Carnaval, eu sempre fecho a boca e troco o treino aeróbio por um treino de hipertrofia. Assim, o corpo aguenta o impacto de sambar sem parar por mais de uma hora na avenida sem ter lesões.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E você vai aguentar desfilar em São Paulo e, logo depois, no Rio?
VALQUIRIA RIBEIRO —Olha, vou sair da avenida direto pro aeroporto! Não sei nem se vou conseguir dormir o suficiente. Me preparei psicologicamente pra isso e sei que dará tudo certo!

Valquiria Ribeiro 3 Entrevista de Quinta   Valquiria Ribeiro faz 30 anos de Carnaval: Foi entrada para carreira de atriz

Valquiria Ribeiro desfila na Vai-Vai, em SP, e na Mangueira, no Rio - Foto: Divulgação

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Allan e Andre NY Entrevista de Quinta: Dupla quer botar Ceará no mapa dos grandes musicais

O diretor André Gress (ao centro) e o produtor Allan Deberton (ao fundo, à dir.) com o elenco norte-americano de Avenida Q, em Nova York: eles vão produzir o musical no Ceará - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O produtor Allan Deberton e o diretor André Gress só têm uma coisa em mente nos próximos meses. Produzir o musical Avenida Q em Fortaleza, no Ceará. A temporada já está marcada: será no mês de julho deste ano, no Teatro ViaSul, com sessões de quinta a domingo.

Ousada, a superprodução quer colocar o Ceará no mapa dos grandes musicais brasileiros, ao lado de São Paulo e do Rio. As inscrições para interessados em participar das audições que formarão o elenco estão abertas até 10 de fevereiro no site do musical. Nove artistas serão selecionados. Haverá audições em Fortaleza e também no Rio.

O musical conta a história de uma avenida do subúrbio nova-iorquino e seus personagens cheios de sonhos. A versão brasileira é de Claudio Botelho, que fez sucesso recentemente em produção no Rio e em São Paulo (leia crítica). Agora, é a vez de Fortaleza.

O Atores & Bastidores do R7 conversou com os artistas responsáveis por este ambicioso projeto nesta Entrevista de Quinta.

Leia com toda a calma do mundo.

Allan e Andre NY Avenue Q Entrevista de Quinta: Dupla quer botar Ceará no mapa dos grandes musicais

André e Allan no cenário de Avenida Q na Broadway - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO – Avenida Q será o primeiro musical da Broadway produzido no Nordeste?
ALLAN DEBERTON – Pelo que temos conhecimento,  com direitos profissionais de produção, com toda a estrutura técnica necessária, montado regionalmente, sim. Avenida Q estreia em Fortaleza com grande parte da equipe com técnicos locais, diretor e produtor cearenses. O espetáculo pretende inaugurar o conceito de temporada deste segmento, ficando em cartaz de quinta a domingo em julho deste ano.

MIGUEL ARCANJO PRADO – Vocês darão prioridade a artistas do Ceará e do Nordeste nas audições?
ALLAN DEBERTON – Nosso desejo é fomentar regionalmente, descobrir e revelar novos talentos, profissionalizar e desenvolver o setor. Artistas locais competem de igual para igual com candidatos de outros Estados, mas, na hora de escalar o elenco, privilegiaremos o candidato ou candidata mais preparado para dar vida aos personagens.
ANDRÉ GRESS – É um espetáculo que exige muito do ator, pois geralmente interpretam mais de um personagem, com personalidades bem distintas. Além disso, manipulam bonecos, cantam e dançam.

MIGUEL ARCANJO PRADO – Como surgiu a ideia do projeto?
ALLAN DEBERTON – Nos últimos anos tenho assistido quase todos os musicais montados no Brasil. Lembro que Avenida Q, quando estreou no Rio, em 2009, foi uma das produções mais elogiadas, com teatro sempre cheio e público que não parava de rir. Assisti mais de cinco vezes. E queria muito que os cearenses tivessem essa experiência que eu tive. Comecei a negociar em 2011 os direitos para produzir o espetáculo e, em 2012, conseguimos a autorização. Foi quando conheci André Gress e o convidei para fazer a direção do espetáculo. Sonhador, perfeccionista, audacioso e artista preparado, André trabalhou com grandes diretores da Broadway. Sonhamos juntos e, com ajuda de profissionais competentes, estamos transformando este sonho em realidade.

MIGUEL ARCANJO PRADO – O que este musical tem a dizer ao cearense?
ALLAN DEBERTON – Avenida Q é uma das comédias mais irreverentes da Broadway. Divertido e sarcástico, possui um texto universal, pois a Avenida Q pode ser uma avenida qualquer da Argentina, da China, da Inglaterra e, por que não do Ceará? Moramos na terra do humor, Avenida Q combina muito com Fortaleza.

Allan Deberton Produtor  Entrevista de Quinta: Dupla quer botar Ceará no mapa dos grandes musicais

O produtor teatral Allan Deberton: ele promete colocar Fortaleza entre as grandes capitais do musical no Brasil - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO – Como vocês esperam que o público de Fortaleza receba o musical?
ALLAN DEBERTON – Esperamos que a plateia tenha uma nova experiência. Que aqueles que nunca assistiram a um musical se encantem com o gênero, este encontro será possível porque nossos ingressos serão a preços populares.
ANDRÉ GRESS – E que também aqueles mais viajados, que já assistiram musicais no Brasil ou no exterior, saiam impressionados com nossa produção. Estamos trabalhando para fazer bonito.

MIGUEL ARCANJO PRADO – Acha que esta montagem abrirá portas para o teatro musical local?
ALLAN DEBERTON – Queremos desenvolver o setor aqui, potencializar. Fortaleza é uma das maiores capitais do Brasil, já recebe grandes shows, tem o segundo maior Réveillon do País e é uma cidade muito turística!  Produzir um musical não é fácil, ainda mais sendo o primeiro deste porte. Mas estamos muito confiantes. Não mediremos forças para oferecer o melhor para nosso público e construir uma história na cidade.

MIGUEL ARCANJO PRADO – Quem está apoiando o projeto?
ALLAN DEBERTON – Os Correios estão apresentando o espetáculo, nosso patrocinador master, com realização do Ministério da Cultura e apoio cultural da Caixa, FazAuto, Ceará Motos, Ceará Motor, Newland, Bandeirantes Midia Exterior e FisioVida.

MIGUEL ARCANJO PRADO – Qual a importância de um projeto como este para o mercado artístico local?
ALLAN DEBERTON – Acreditamos que estamos contribuindo com o fortalecimento da classe artística e com a descoberta de novos talentos. Queremos desenvolver a cena local, incentivar, oferecer treinamento, possibilitar visibilidade, formar público. Temos um projeto nobre e estamos em busca de incentivadores.

MIGUEL ARCANJO PRADO – Como você vê a cena artística daqui a dez anos em Fortaleza para o mercado musical?
ALLAN DEBERTON – Percebemos Fortaleza como uma cidade cada vez mais internacional. A cena cultural tem mudado. De um tempo pra cá foram inaugurados novos cinemas, novos teatros, o Carnaval da cidade está ficando cada vez mais forte e artistas locais são revelados na TV, no cinema, na música e no teatro. O cearense quer que nosso Estado se desenvolva, gostamos de nos sentir capazes. Daqui a dez anos queremos produzir musicais com histórias nossas e que eles tenham tanto sucesso como outros espetáculos da Broadway! Estamos formando um time competente de sonhadores.

Andre Gress diretor Entrevista de Quinta: Dupla quer botar Ceará no mapa dos grandes musicais

O diretor André Gress - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO – Qual dos musicais da Broadway produzidos recentemente no Brasil você mais gostou?
ANDRÉ GRESS – Se for no sentido de musical, fiquei apaixonado pela montagem do diretor João Falcão que retratou a vida de Luiz Gonzaga com muita delicadeza, Gonzagão (leia crítica). Na linha de grandes produções da Broadway fico com a montagem de Priscila, Rainha do Deserto (leia crítica). Fiquei impressionado com a qualidade e beleza do espetáculo.
ALLAN DEBERTON – Adorei Book of Mormons, produção acadêmica da Unirio. Tantos jovens talentos juntos, amor a teatro musical e brilho no olhar destes estudantes me emocionaram muito! O resultado foi um espetáculo que não perdia em nada para a qualidade técnica de musicais profissionais. Hoje, o Leo Bahia, um dos protagonistas da peça, é do elenco de Chacrinha, o Musical.

MIGUEL ARCANJO PRADO – André, por que você trabalha com arte?
ANDRÉ GRESS – Trabalho com arte para suprir uma necessidade de contar histórias. Acredito que cada pessoa tem um papel muito importante na sociedade. Através de produções que misturam várias formas de arte, como canto, dança e interpretação eu me encontro em um local de realização, onde o foco principal é fazer com que o espectador entre em imersão no universo mágico desenvolvido unicamente para retratar uma experiência única e sensorial.

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teatro invertido guto muniz Entrevista de Quinta: “Queremos nos virar pelo avesso”, dizem atores do Teatro Invertido

Fim do mundo à beira da piscina: cena de Noturno, peça do Teatro Invertido - Foto: Guto Muniz

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O último fim de semana foi de frio na barriga para o grupo mineiro Teatro Invertido, que celebra dez anos de existência neste 2015. A companhia estreou sua sétima peça, Noturno, no Teatro Oi Futuro Klauss Vianna, em Belo Horizonte.

A peça abriu o festival Verão Arte Contemporânea, o VAC. As últimas apresentações começam nesta quinta (15) e vão até domingo (18) [veja serviço ao fim].

O texto é assinado por Sara Pinheiro, jovem dramaturga da cena belo-horizontina e fala sobre o fim do mundo na visão de cinco antigos colegas de adolescência, que passam suas vidas a limpo, à beira da piscina, antes que tudo termine.

Monica Ribeiro e Yara de Novaes foram convocadas pelo grupo para assinar a direção a quatro mãos. Compõem o elenco os atores Dimitrius Possidônio, Kelly Crifer, Leonardo Lessa, Rita Maia, Robson Vieira e a atriz convidada Juliene Lellis.

Nesta Entrevista de Quinta, o Atores & Bastidores do R7 conversou com dois deles: Leonardo Lessa e Rita Maia. Falaram que o objetivo do grupo é se virar pelo avesso.

Leia com toda a calma do mundo.

noturno 3 Entrevista de Quinta: “Queremos nos virar pelo avesso”, dizem atores do Teatro Invertido

Sétima peça do Teatro Invertido, Noturno pode ser vista em BH até este domingo (18) - Foto: Guto Muniz

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi trabalhar conjuntamente com a Yara de Novaes e a Monica Ribeiro na direção?
LEONARDO LESSA —
Sempre foi um desejo trabalhar com a diretora Yara de Novaes. Nesse ano de comemoração de nossos 10 anos, nos propusemos a um desafio inédito em nossa trajetória: iniciar uma nova criação a partir de um texto previamente escrito. O nome de Yara nos veio forte e decisivo. Afinal, para inaugurar esse novo caminho, seria fundamental a experiência e a qualidade características de seu trabalho no trato com o texto teatral. Monica, além de grande parceira de Yara em BH, trouxe com muita força o trabalho com o movimento, com a relação tempo-espaço e com a rítmica do corpo-voz.
RITA MAIA — Esse encontro trouxe para nossa atuação um profundo trabalho com a palavra e com os movimentos para a construção da cena. Foram desafios diários que, além de questionar referências e conceitos arraigados desde nossa formação (sem, no entanto, desprezá-los), fortaleceram nossas escolhas como artistas e como grupo.

noturno 4 Entrevista de Quinta: “Queremos nos virar pelo avesso”, dizem atores do Teatro Invertido

Noturno: o mundo está para acabar - Foto: Guto Muniz

MIGUEL ARCANJO PRADO — Já se vão dez anos de Teatro Invertido: qual a análise vocês fazem da trajetória do grupo?
RITA MAIA —
O caminho que traçamos até aqui têm nos dado muito orgulho e satisfação. É sempre bom celebrar e ritualizar uma passagem. Não à toa, estamos nos colocando novos desafios e nos invertendo nesse novo processo criativo.
LEONARDO LESSA — Todos os integrantes do grupo compartilham um desejo de se reinventar sempre, de sair do eixo, virar-se do avesso. Lançando um olhar sobre essa década, temos a certeza de que tudo foi construído aos poucos, com paciência, mas também com coragem para as mudanças e para os novos desafios.
MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual é o principal objetivo para o Invertido em 2015?
RITA MAIA —
Em primeiro lugar (e isso se renova a cada ano) fortalecer cada vez mais nosso funcionamento interno: artístico e produtivo. Um grupo de teatro é uma junção de criadores com características diversas, mas que comungam de um mesmo projeto de arte e de vida. Por isso, também é feito de gestão e planejamento. Uma casa bem organizada é uma casa feliz e produtiva.
LEONARDO LESSA — Nesse momento, alimentamos o grande desejo de expandir fronteiras, inclusive internacionalmente. Para isso, em 2013 criamos, em parceria com nossos conterrâneos dos grupos Espanca!, Luna Lunera e Teatro Andante, a Platô – Plataforma de Internacionalização do Teatro, que é coordenada por Marcelo Bones e tem como objetivo central viabilizar a circulação internacional de nossa produção artística.

noturno 2 Entrevista de Quinta: “Queremos nos virar pelo avesso”, dizem atores do Teatro Invertido

Peça de classe média: texto de Noturno é assinado pela dramaturga mineira Sara Pinheiro - Foto: Guto Muniz

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual é a cara do teatro feito pelo Invertido? Qual é o recado que vocês querem dar?
RITA MAIA —
A nossa cara, talvez, seja não ter uma única cara... Pelo contrário, investimos na possibilidade de reinventar-nos coletivamente a cada novo projeto criativo. Não queremos nos comprometer com padrões estéticos reconhecíveis de antemão.
LEONARDO LESSA — Eticamente, entretanto, temos um compromisso bem definido. Através de nossos espetáculos, interessa-nos falar sobre os dias de hoje, provocar reflexões diretas sobre o homem e a sociedade contemporâneos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Além do VAC, vocês já têm outros festivais em mente? Quais? Vão para Curitiba?
RITA MAIA —
Um espetáculo precisa do encontro com o público para ganhar vida e circular. Para ”Noturno” esse ciclo se inicia efetivamente agora, após nossa estreia em Belo Horizonte.
LEONARDO LESSA — Estamos em contato com curadorias de diversos festivais do País na expectativa de que o trabalho possa ganhar a estrada rapidamente. Em 2015 também planejamos realizar uma temporada do espetáculo em São Paulo, onde estivemos no ano passado com Os Ancestrais e fomos muito bem recebidos.

Noturno
Quando: Quinta a sábado, 21h, domingo, 19h. 60 min. Até 18/1/2015
Onde: Teatro Oi Futuro Klauss Vianna (av. Afonso Pena, 4001, Mangabeiras, Belo Horizonte)
Quanto: R$ 16 (inteira) e R$ 8 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

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entrevista de quinta miguel arcanjo prado foto eduardo enomoto 3 Entrevista de Quinta: O teatro está mais vivo do que nunca, diz Miguel Arcanjo Prado

O jornalista Miguel Arcanjo Prado, autor do blog Atores & Bastidores - Foto: Eduardo Enomoto

Por BRUNA FERREIRA*
Fotos EDUARDO ENOMOTO

Antes que você se pergunte o que está acontecendo, sim, esta é uma Entrevista de Quinta com o dono da casa. Encontramos ele na janela lateral do quarto de dormir. Gritamos um “oi” da rua de paralelepípedo e ele respondeu prontamente: “Entra! Vou passar um café”.

Bom, não foi isso o que aconteceu, mas é sempre assim que imagino o Miguel Arcanjo Prado, recebendo suas visitas todas, em uma cidade mineira incrustada numa cadeia de montanhas, suas cachoeiras e seus papos no portão.

Jornalista, colunista de teatro, editor de Cultura do R7, formado pela UFMG e pós-graduado pela USP, ele é também crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Miguelito, como é chamado pelos amigos, defende o teatro como defende o jornalismo.

Aqui, para começarmos o ano nos sentindo em casa, ele conta um pouco de sua trajetória e do Atores & Bastidores: uma aventura cheia de Paulos, Fernandonas e até uma entrevista sentado na privada.

Leia com toda a calma do mundo.

BRUNA FERREIRA — Quando você começou a cobrir teatro?
MIGUEL ARCANJO PRADO — Foi logo que entrei para fazer estágio na TV Globo Minas, em 2005. Pedi ao meu chefe de então, o Paulo Valladares, para entrevistar para o site da emissora os artistas que iam divulgar suas peças no telejornal MGTV 1ª Edição. Foi assim que entrevistei nomes como Marco Nanini, Paulo Autran, Marília Gabriela e Lilia Cabral antes mesmo de me formar. Quando me formei, me mudei no começo de 2007 para São Paulo, porque havia passado no Curso Abril de Jornalismo, da Editora Abril. Tive aulas com nomes como Mônica Bergamo, Carlos Tramontina, JR Duran, Roberto Civita e Thomaz Souto Corrêa, que é o meu grande padrinho na minha chegada em São Paulo — as madrinhas são Wania Capelli e Alice Cruz, que também trabalhavam na Abril. Depois, fui trabalhar de repórter na Contigo!, onde a Denise Gianoglio, editora-chefe, me deu a coluna de Teatro, que na época tinha duas páginas semanais. Depois fui pra Ilustrada da Folha Online, e mais uma vez o teatro apareceu. O então editor da Ilustrada, Sergio Ripardo, me convocou para cobrir o Festival de Teatro de Curitiba, onde acabei me enturmando com o pessoal do teatro de vez e passei a escrever críticas. Depois, fui para o jornal Agora São Paulo e, ao saber que gostava de teatro, a editora do caderno Show me deu a coluna de teatro, com críticas, notas e entrevistas, que saía toda sexta-feira. E aí veio o R7 e a história se repetiu... Geralmente, o teatro acaba ganhando cobertura nos veículos quando tem um jornalista na redação que é apaixonado por ele, como é o meu caso.

BRUNA FERREIRA — É verdade que você quase não virou jornalista?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
É verdade, por pouco eu virei geógrafo! Minhas disciplinas preferidas eram Geografia e História. Quando fiz o vestibular de 2001, passei em História na UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) e Geografia na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Escolhi a UFMG porque era em BH, minha cidade. Acho que Geografia foi importante porque me deu uma base de conhecimentos gerais que me ajudou no jornalismo. Mas, quando fui chegando à metade do curso, percebi que não estava feliz. Fui fazer uma disciplina optativa no curso de Comunicação Social, chamada História do Jornalismo Brasileiro, com a professora Ângela Carrato. Ao ouvi-la, fiquei encantado e resolvi que aquela seria minha profissão. Troquei de curso e, no começo de 2003, começava Comunicação Social. Às vezes penso em terminar Geografia... Parece brincadeira, mas eu já estudei muita rocha nos trabalhos de campo no interior de Minas para a disciplina Geomorfologia Climática Estrutural! [risos]

entrevista de quinta miguel arcanjo prado foto eduardo enomoto 2 Entrevista de Quinta: O teatro está mais vivo do que nunca, diz Miguel Arcanjo Prado

"Gosto da forma como os mineiros enxergam o mundo", diz Arcanjo - Foto: Eduardo Enomoto

BRUNA FERREIRA — Acho engraçado que você sempre se apresenta como um “jornalista mineiro”. Por quê?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Como diz o Drummond, Minas é sempre um retrato na parede. E, ai, como dói! [risos] Na verdade, mesmo lá em BH, eu tinha uma amiga do curso de Geografia, a Luiza Barros, que dizia que eu era “um anjo barroco mineiro com alma baiana e jeito carioca”. Acho que só sobrou o barroco mineiro [risos]. Gosto da "mineiridade", da forma como os mineiros enxergam o mundo, do alto da montanha, sempre com calma, sem essa afobação paulistana. Em Minas, o tempo é outro. E, modéstia à parte, mineiros costumam ser bons jornalistas e bons escritores [risos]. Meu primeiro texto publicado na imprensa, em 2003, no jornal O Pasquim 21, foi apresentado por um mineiro, o Zélio Alves Pinto, irmão do Ziraldo. Era uma crônica sobre um garotinho chamado Lucas, que conheci no bandejão da Faculdade de Direito da UFMG, na praça Afonso Arinos... Quer coisa mais mineira?

BRUNA FERREIRA — Sem sair de Minas Gerais, você tem uma mania que quem te conhece já ouviu: adora citar um conhecimento antigo, um ditado, que aprendeu com sua mãe ou outra pessoa de sua família [risos]. Eles são muito importantes na sua formação?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Minha mãe gosta de dizer: é de pequeno que se torce o pepino. Os ditados populares sempre fizeram parte da minha vida. Minha avó Oneida, nascida em Ouro Preto, sempre tinha um ditado para cada situação. E minha mãe, Nina, também tem até hoje. Acabo nem percebendo quando uso esse tipo de expressão. Sai de forma natural mesmo, uai... [risos].

BRUNA FERREIRA — Quando o blog Atores & Bastidores nasceu, lembro de que foi uma conquista. Como isso aconteceu?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
O blog foi um projeto que desenvolvi com muito carinho. Era um sonho antigo poder me dedicar integralmente à cobertura cultural e, sobretudo, à cobertura teatral, depois do começo da carreira dividido com o jornalismo de celebridades, com o qual aprendi muito. Fiquei muito feliz quando o Antonio Guerreiro, o diretor do R7 e grande amante do teatro, aprovou a ideia, que logo recebeu apoio também do diretor de conteúdo do portal, o Luiz Pimentel. Outra grande incentivadora do blog foi a Fabíola Reipert, que é uma jornalista de coração enorme, divertidíssima e que senta-se ao meu lado na redação. O blog vai completar três anos em 1º de março de 2015. É um dos mais lidos do portal e é campeão nacional em sua categoria. Hoje, tem o respeito do público, da imprensa e da classe artística. Isso é fruto de trabalho árduo diário e me enche de orgulho.

BRUNA FERREIRA — Na estreia do blog, você recebeu palavras de incentivo de pessoas importantes da classe artística. Alguém em especial te impressionou com as palavras?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Muitos foram generosos e deram lindos depoimentos para a abertura do blog. Gente querida como o Manoel Carlos, o Aguinaldo Silva, o Gilberto Braga, o Alcides Nogueira, a Beth Goulart, o Antunes Filho, a Beatriz Segall, o Ivam Cabral... Mas um depoimento foi marcante, porque foi dado pessoalmente. Logo antes de o blog estrear, me encontrei com a Fernanda Montenegro na saída do Teatro João Caetano, na praça Tiradentes, no Rio. Parei para conversar com ela e comentei do blog que estava para sair e disse que adoraria ter um depoimento dela abrindo. Ela falou: "Pode anotar aí". E completou: "Quanto mais se falar de teatro e, principalmente, por meio de seu blog, melhor para todos nós. Com este novo espaço, Miguel Arcanjo nos ajuda e muito. Desejo um resultado lindo e que o teatro seja sempre o foco dessa brilhante iniciativa". Fiquei emocionado. Foi assim que o Atores & Bastidores estreou com pé direito, tendo Fernanda Montenegro como madrinha.

entrevista de quinta miguel arcanjo prado foto eduardo enomoto 1 Entrevista de Quinta: O teatro está mais vivo do que nunca, diz Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado já recebeu ligação de Paulo Autran, agradecendo uma matéria - Foto: Eduardo Enomoto

BRUNA FERREIRA — O blog terá novidades em 2015?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Neste janeiro, voltei da folga de Réveillon em Minas e entrei em uma correria desatada. Já tenho dois blogs: o Atores & Bastidores e o R7 Cultura, que nasceu há poucos meses e também já é um dos mais lidos do portal. Além disso, estou fazendo até o dia 26 deste mês o blog da Fabíola Reipert, que saiu de férias e me pediu para segurar as pontas até sua volta. Mas, assim que conseguir um respiro, quero pensar coisas novas. Penso em dar mais voz ao internauta e investir mais em perfis e ensaios dos artistas do teatro, além de manter as críticas e as colunas que são sucesso: O Retrato do Bob, Entrevista de Quinta, Por trás do pano - Rapidinhas Teatrais, Dois ou Um e Domingou. E quero continuar trabalhando com os dois melhores fotógrafos do mundo: Eduardo Enomoto e Bob Sousa. Além de ter a inteligência do Átila Moreno no Rio. E ter o luxo de ter você, Bruna Ferreira, me substituindo quando eu entrar de férias. Mas isso ainda vai demorar alguns meses... Ah, quero também cobrir mais festivais de teatro neste ano. Pode convidar que eu vou.

BRUNA FERREIRA - Alguma situação lhe marcou muito na cobertura teatral?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Sim. Todos os meus contatos com o Paulo Autran. A primeira vez que o entrevistei, ainda era estagiário da TV Globo Minas, e ele estava em Belo Horizonte para fazer a peça Adivinhe Quem Vem para Rezar. Lembro que ele foi muito carinhoso comigo e falou que eu era muito novinho [risos]. Depois, nos reencontramos em São Paulo em 2007, quando já estava fazendo a coluna de teatro da revista Contigo!. Ainda era novinho, tinha 25 anos [risos]. Fiz uma matéria com ele sobre a inauguração do Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros. No dia em que a revista saiu, o telefone da redação tocou e Shirley Souza, da secretaria, falou: "Miguel, tem um Paulo querendo falar com você". Quando atendi, para minha surpresa, do outro lado da linha era o Paulo Autran, dizendo que havia comprado a revista na banca, lido e gostado muito da minha matéria com ele. Falou que sabia que eu devia estar muito ocupado e que não se estenderia muito, que só havia ligado para agradecer. Fiquei boquiaberto com o gesto humilde dele. Pouco tempo depois ele morreu.... Infelizmente, artistas assim não existem mais...

BRUNA FERREIRA — Falando nos mestres, já dividi com você a responsabilidade de cobrir algumas tristes despedidas para a classe artística: Cleyde Yáconis, Walmor Chagas, Paulo Goulart... Nunca esqueço do cuidado que você tem com o texto, a foto... Por quê?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Olha, Bruna, no país sem memória, fazer uma despedida à altura do artista que morreu é uma obrigação do jornalismo cultural, cada vez mais maltratado e jogado no escanteio. Acho que cobrir com cuidado e carinho e, sobretudo, com ética, é o maior tributo que podemos prestar a estes artistas em sua partida. A profissão de jornalista tem muita responsabilidade neste momento. E o público sempre reconhece e valoriza uma cobertura bem feita. Você é testemunha disso.

BRUNA FERREIRA — O internauta que entra em seu blog já se acostumou com as votações que você promove. Musas, musos e até os melhores do ano. Você se surpreende com os resultados?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Claro! O Muso e a Musa do Teatro foi uma brincadeira que eu propus, e a classe artística teve o bom humor em embarcar. O teatro tem de parar de querer ser essa coisa sisuda, antiga, chata, cheirando a museu. O teatro é vivo, é feito também por gente jovem, descolada. Por que não um pouco de bom humor? O jornalismo não pode perder o bom humor. Agora teve esse atentado horroroso lá em Paris, que é um atentado contra a imprensa como um todo, contra a liberdade de expressão. Não podemos aceitar. Eu comecei em O Pasquim 21, um semanário bem humorado e politizado. E tento manter isso sempre. A coluna Por Trás do Pano - Rapidinhas Teatrais também tem esse clima, é meio que uma homenagem aos grandes colunistas que o Brasil já teve, com texto cheio de personalidade, gente como Ricardo Amaral e o Zózimo Barrozo do Amaral. Já na votação dos Melhores do Teatro R7, o fotógrafo Bob Sousa, meu fiel companheiro na cobertura teatral, e eu indicamos sete nomes em cada categoria. Depois, é o público quem decide. Quem consegue conquistar mais votos leva. É democrático.

BRUNA FERREIRA — Nestes últimos anos, li muitas entrevistas no blog. A Entrevista de Quinta já virou uma marca. Se tivesse que escolher as mais marcantes, quais seriam?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Entrevista boa é aquela que o entrevistado expõe seu pensamento sem medo, sem culpa. O público não aguenta mais artista querendo ser certinho, politicamente correto. Eu me inspirei nas entrevistonas do Pasquim para fazer a Entrevista de Quinta. Hoje, é um dos poucos espaços que restam na grande imprensa para o artista do teatro expor seu pensamento. Não é uma materinha com uma aspa por e-mail no meio. É uma conversa de verdade! As mais marcantes, ambas na companhia do Bob Sousa, sem dúvida, foram a do Antunes Filho, que me deu exclusividade sobre sua última peça, Nossa Cidade, que depois ganhou todos os prêmios, e, claro, a do Zé Celso Martinez Corrêa, que resolveu me dar entrevista no banheiro de seu apartamento e me colocou sentado na privada! Essa entrou para a história do teatro nacional e repercute até hoje. Muitos coleguinhas vêm zoar, perguntando o que eu fui fazer com o Zé Celso no banheiro [risos]!

BRUNA FERREIRA — Quando você faz uma crítica de peça, nem sempre o que tem a dizer sobre o espetáculo é bom. Já passou perrengue na hora de falar mal de uma peça?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Aprendi com meu professor de crítica teatral, o Kil Abreu, que "a crítica não deve ser o exercício da maldade". Acho essa frase ótima. Sempre que vejo uma peça vou de coração aberto. Agora, é claro que quando não gosto, preciso expor meu pensamento. É meu trabalho. Mas minhas críticas são respeitosas e sempre argumento o porquê de não ter gostado. Muitos artistas têm maturidade para respeitar. Claro que sempre tem aquele que leva no pessoal, vai no Facebook desabafar, ataca o crítico, faz baixaria. Acho isso lamentável. O artista tem de estar preparado para o diálogo com o outro. E, sobretudo, para ouvir o que o outro tem a dizer. Se ainda não está preparado para respeitar o crítico, é melhor não convidá-lo. Melhor ainda: faz o espetáculo em casa, para a mãe e a avó. Assim, só vai ouvir elogios.

entrevista de quinta miguel arcanjo prado foto eduardo enomoto 4 Entrevista de Quinta: O teatro está mais vivo do que nunca, diz Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado: "O teatro está mais vivo do que nunca" - Foto: Eduardo Enomoto

BRUNA FERREIRA — Três perguntas bem rápidas: qual sua peça favorita? O que está lendo? O que anda ouvindo?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Vou falar as que mais me marcaram: primeiro, O Mistério da Feiurinha, que vi ainda criança no Teatro Sesi Minas, lá em BH. A segunda, vi no fim da adolescência, também em BH: Todas as Belezas do Mundo, da Cia. Clara, dirigida pelo Anderson Aníbal e que tinha a Grace Passô no elenco, ainda começando a carreira, mas já uma grande atriz. Para terminar, uma de São Paulo: Luis Antonio - Gabriela, da Cia. Mugunzá, que foi muito emocionante. Vi a estreia no porão do Centro Cultural São Paulo e lembro-me que fiquei impactado. De livro, sempre estou lendo algo. Li muita coisa da pós-graduação, Bauman, Jung, Thompson, Kellner, mas, de romance, li recentemente Boquitas Pintadas, uma novela do escritor argentino Manuel Puig. Ando ouvindo muito os discos do Caetano nos anos 1970, em especial Cinema Transcendental, Transa, Bicho e Joia. E também o novo disco do cantor uruguaio Jorge Drexler, Bailar en la Cueva. É ótimo e tem uma música que se chama Bolívia, que me faz lembrar da nossa amiga boliviana Elba Kriss. Ah, também ouço muito Fito Paez e Fabiana Cantilo, roqueiros argentinos. Além da turma do Clube da Esquina, porque mineiro de verdade nunca deixa de ouvir.

BRUNA FERREIRA — Recentemente você fez especialização na USP?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Pois é, agora sou especialista em Mídia, Informação e Cultural pela ECA. Chique, né? [risos] Mas você, Bruna, é mais chique, porque já está na metade do mestrado [risos]. Minha dissertação foi a cobertura atual dos grupos Os Satyros e Oficina nos jornais Folha e Estadão. Meu recorte pegou o período das manifestações de junho de 2013 e ambas companhias levaram a questão política para o palco. Foi uma pesquisa muito prazerosa e instigante e tive um orientador ótimo, o Dr. Danilo Oliveira, que é jovem e gosta de teatro. Gostei muito de retomar a vida acadêmica e quem sabe entro no mestrado em 2015?

BRUNA FERREIRA — Nestes dez anos de cobertura teatral, o que conseguiu encontrar?
MIGUEL ARCANJO PRADO —
Encontrei muitas pessoas interessantes. Muitos artistas instigantes. Zé Celso, Antunes Filho, Phedra D. Córdoba, Marba Goicochea, Zé Henrique de Paula, Yara de Novaes, Pedro Granato, Eva Wilma, Leopoldo Pacheco, Amanda Acosta, Angelo Antonio, Paulo Autran, Ivam Cabral, Rodolfo García Vázquez e tantos outros... Todos dialogaram comigo de alguma forma. E também muita gente bacana nos bastidores, como a Célia, a Beth, a Dani e a Selma, da Morente Forte, a Adriana Balsanelli, o Renato Fernandes, a Eliane Verbena, o Leandro Knopfholz, do Festival de Curitiba, o Michel Ferrabbiamo, produtor cultural lá de Ipatinga, os meninos do Magiluth, de Recife, o Phillipe Serra, leitor fiel do blog que mora no Espírito Santo... É tanta gente do bem! Costumo dizer que prefiro cobrir teatro a TV porque os artistas do teatro são mais inteligentes. É claro que tem gente inteligente na televisão também, mas os do teatro costumam ser mais verdadeiros, menos marqueteiros, sabe? Eu gosto de gente de verdade. Esse negócio de pose, de ar blasé, não faz muito meu estilo. E tem muita gente batalhando neste país para fazer teatro. Apesar de sempre quererem a morte dele, o teatro está mais vivo do que nunca. Acho que o que mais me motiva neste trabalho é dar voz a estes artistas. Deixar essa turma mandar seu recado. E acho que o teatro é parceiro do blog porque entendeu que ele joga luz, traz um glamour, uma vida nova ao mundo dos palcos. Com uma pitada de mineirice, é claro! [risos].

*Bruna Ferreira é repórter do R7. É formada em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP (Universidade de São Paulo), onde cursa mestrado.

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anette naiman bobsousa9 Entrevista de Quinta: A classe teatral precisa se unir mais, diz Anette Naiman, do Teatro Garagem

A atriz Anette Naiman no espelho do camarim de seu Teatro Garagem - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto BOB SOUSA

A atriz Anette Naiman é criadora do Teatro Garagem, em São Paulo. Tudo começou com um sonho antigo, de poder fazer arte sem se preocupar com o espaço. O início foi uma reforma na garagem de sua casa, na zona oeste paulistana. Acabou tendo a ideia de transformar o lugar em um teatro, que logo ganhou uma cara rock’n’roll.

O Teatro Garagem completa 10 anos de existência. Para celebrar, a artista encena o monólogo Frederic Chpin por George Sand, até 20 de dezembro, sexta e sábado, 21h, com ingresso a R$ 40 a inteira. O endereço é rua Silveira Rodrigues, 331, Vila Romana (tel. 0/xx/11 9-9122-8696).

Ernesto Hypólito, que foi criador do programa Metrópole, da TV Cultura, dirige a obra que inaugura o projeto Concerto Teatro e que ainda tem participação do pianista Adriano Heidrich.

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Anette fala sobre o desafio de manter um centro cultural, o projeto de expansão em 2015 e ainda comenta a crise atual que vive os teatros paulistanos.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual é o conceito do seu teatro?
ANETTE NAIMAN — É um teatro independente, que na verdade é minha própria casa. Eu estudei no Indac [escola de atores de SP], que era uma casa, e essa influência ficou em mim. Fazíamos muitos experimentos pelas salas e quartos da casa que eram as salas de aula. Quando me formei, vi a luta para conseguir espaço para ensaiar e se apresentar. Isso me assustava e via que era fundamental para meu trabalho ter um espaço para conseguir levantar uma peça.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Aí resolveu criar um teatro em casa?
ANETTE NAIMAN — Estava grávida e resolvi criar um mezanino dentro da garagem, que tinha pé direito alto. Uma espécie de quarto de bagunça para as crianças. Nesta construção, teve de ser feito um desnível para o portão da garagem poder abrir. Aí me veio a ideia de que eu poderia fazer parte também da sala de bagunça. Comecei a chamar amigos, propor leituras, esse desejo que tinha de ter liberdade para criar se concretizou. Virou o Teatro Garagem.

anette Entrevista de Quinta: A classe teatral precisa se unir mais, diz Anette Naiman, do Teatro Garagem

A atriz Anette Naiman na porta do Teatro Garagem, em São Paulo - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi esse começo do espaço?
ANETTE NAIMAN — Li um texto de Ligia Fagundes Telles e resolvi montar. Procurei a Ligia em um evento, e uma amiga dela me perguntou quem era eu. Falei que era uma atriz que estava com um teatro em casa, e ela me sugeriu montar outro texto da Ligia, Apenas um Saxofone. Fiz com direção do Caetano Vilela. Começamos uma linguagem rock’n’roll e inauguramos a garagem, em um começo do sonho de ter um teatro independente e livre de burocracias. Desde então, mergulhei na literatura feminina. Agora, estou na Hilda Hilst.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E como você fez com a burocracia?
ANETTE NAIMAN — Começou um teatro clandestino [risos]. Fui na Prefeitura e exigiram muitas coisas. Nunca incomodei vizinhos, inclusive os convidava para assistir. No começo foi muito tranquilo. Vinha público, mas não era uma coisa que bombava e não fazia questão de alardear porque ainda era um teatro experimental. Consegui ficar em cartaz entre 2004 e 2008 com um espetáculo solo. Em 2005, fui para o Fringe do Festival de Curitiba e foi muito boa a repercussão. Em 2008, senti necessidade de abrir o espaço. Comecei a elaborar a ideia de transformar a casa num espaço cultural.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você ainda mora no Teatro Garagem?
ANETTE NAIMAN — Não. Morei lá até o final de 2011, quando fui morar em uma casinha no Sumaré, onde estou até hoje. Fiz inúmeros parceiros, como Sergio Roveri, Pascoal da Conceição, Vinícius Piedade, Roberto Borenstein, Clóvys Torres, Jarbas Capusso, Manoela Ramalho... O teatro expandiu. Começou com 27 lugares, e agora expandimos. Em 2011, compramos a casa vizinha. A ideia de expansão se solidificou. Agora são duas casas, a Casa 1 e a Casa 2.

anette2 Entrevista de Quinta: A classe teatral precisa se unir mais, diz Anette Naiman, do Teatro Garagem

Interior de um dos espaços para o Teatro Garagem, em São Paulo - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você consegue sobreviver?
ANETTE NAIMAN — Na verdade, vale a pena registrar que meu grande apoiador e patrocinador é meu marido, o engenheiro Daniel Rosembaum, da Solonet, que faz projetos de fundações. Ele é a minha fundação. É legal contar que quando eu inaugurei o teatro ele era o bilheteiro e meus filhos, Sean, que hoje tem 14 anos, e Zoë, que está com 17 anos, ajudavam em tudo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você esta situação de teatros sendo fechados pela especulação imobiliária, que culminou no despejo do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos na semana passada, que é seu vizinho?
ANETTE NAIMAN — Em homenagem a todos esses fechamentos de teatro, essa coisa agressiva, convidei o Pascoal da Conceição para fazer essa abertura em 2014. Esta é minha mensagem. Mesmo tendo o espaço, também sofri muito. Nosso alvará só veio em 2013. Eu me mudei em 2011 e fiquei esperando até o final de 2013 a liberação desse alvará de funcionamento do Instituto Cultural. A partir do final de 2013 me senti livre para expandir. Poder ter um teatro neste momento é uma sensação ambígua, ter o privilégio de poder ser dona de um espaço, uma coisa que vislumbrei lá atrás, quando ainda era estudante e já vislumbrava as dificuldades. De certa forma, eu fui visionária nisso. A primeira coisa que me moveu a criar meu espaço foi ser livre em um espaço meu. Era ali que tinha minha liberdade e minha autonomia de ser artista. Apenas uma década depois eu vejo esse movimento que eu comecei lá atrás eu me sinto precursora. Eu batalhei muito lá atrás e hoje eu quero te dizer que eu me sinto muito triste de ver essa realidade do nosso teatro. Eu mesma tenho dificuldade de captar dinheiro. Nós somos muito solitários nesta luta. Eu acho que força da classe precisa ser maior. A classe teatral precisa se unir mais.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que planeja pra 2015?
ANETTE NAIMAN — Em 2015, como o espaço se ampliou, a gente quer receber propostas e projetos de artistas da cidade. A gente tem oito espaços de ocupação. E vamos inaugurar a nova garagem em 2015. Quero dizer que minha casa está aberta a todos os artistas. Dentro dessa crise horrível do teatro na qual as pessoas estão sendo despejados, e eu me incluo porque já passei por isso, eu tenho um privilegio de ter um espaço e poder dizer a todos os artistas que meu espaço está aberto sempre a receber companhias e grupos.

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