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DSC4512 1024x1024 Entrevista de Quinta   Aos 35 anos, Dan Rosseto diz: Passa de 20 o número de espetáculos que dirigi

Dan Rosseto, atualmente, com três peças em cartaz - Foto: Caio Gallucci

Por BRUNA CRISTINA FERREIRA*

Algumas vezes na entrevista, Dan Rosseto falou sobre como as coisas em sua vida aconteceram um pouco ao acaso. Como se formou em comunicação, como veio parar em São Paulo, como passou de ator a diretor e como conseguiu ficar atualmente com três peças em cartaz ao mesmo tempo.

A primeira a estrear foi O Colecionador de Universos, no Viga Espaço Cênico. Depois foi a vez de Lisbela e o Prisioneiro - O Musical, no Teatro Nair Bello. Recentemente, Tardzio estreou no Parlapatões. Até o fim do ano, ele ainda dirige mais duas peças de sua autoria, Antes de Tudo, no Teatro Augusta, e O Palhaço e as Bailarinas.

Para completar, ele está cada vez mais inclinado a voltar aos palcos como ator e garante que não encana ao ser dirigido.

Proprietário e diretor da escola de teatro musical Applauzo, conheça um pouco mais sobre Dan Rosseto, que apesar de falar  sobre o acaso, é um jovem diretor trabalhador, inteligente e cuja trajetória mostra um tanto de determinação e amor pelo que faz.

BRUNA CRISTINA FERREIRA - Me parece que você está com três peças em cartaz atualmente. Como isso foi acontecer? Não é cansativo?

DAN ROSSETO – Na verdade, eu sabia que isso aconteceria desde o início do Ano. No dia 15 de janeiro, eu já tinha fechado cinco projetos de direção para esse ano. Eu topei o desafio, porque os textos eram bem diferentes entre si. A estética também é diferente. Eu poderia navegar por mares bem distintos.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Mas como você consegue tempo pra tudo isso?

DAN ROSSETO – Eu fiz um planejamento muito certinho, tenho uma equipe muito boa por trás, assistentes e produção que possibilitam essa matemática louca. E eu frequento todos os espetáculos, mesmo com eles em cartaz.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Como assim?

DAN ROSSETO – Depois que o espetáculo entra em cartaz, se o diretor não é do grupo teatral, ele entrega a criança e vai embora. O trabalho do diretor acabou ali. Eu tenho uma relação diferente com os meus trabalhos. Frequento todos eles, todos os dias. Faço manutenção dos três espetáculos.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Como é o seu dia no fim de semana?

DAN ROSSETO – Começa por volta das 16h. Colecionador começa às 17h, Lisbela é às 21h e termino meia-noite, na Praça Roosevelt, no Parlapatões. Enquanto puder, vou acompanhar. No segundo semestre não será mais possível, pois Lisbela viaja para Porto Alegre, Curitiba, Joinville, Rio de Janeiro e algumas cidades do Nordeste. Colecionador ainda não sabemos quais, mas entrará em festivais. Tardzio fica até o fim de junho e pode seguir viagem ou continuar em cartaz.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Qual é a sua formação?

DAN ROSSETO – Eu sou formado em comunicação social com habilitação em publicidade e jornalismo. Depois fiz cinema e pós-graduação em teoria da comunicação e crítica de arte. Fiz a especialização em São Paulo, na Cásper Líbero, mas a faculdade fiz em Presidente Prudente. Eu sou de lá. Estou em São Paulo há 14 anos.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você é novo, acabou emendando um curso no outro, né?

DAN ROSSETO – Sim. Eu entrei na universidade muito cedo, eu tinha 17 anos.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Sua formação em comunicação te ajuda em algo hoje?

DAN ROSSETO – Engraçado, pois ajuda, sim. Eu trabalhei em agência de publicidade antes de fazer teatro. Eu fazia redação publicitária, atendimento, produção geral de comercial. Essa experiência me deu uma noção muito grande em planejamento.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Como veio para São Paulo?

DAN ROSSETO – Eu tinha 21 anos, vim sozinho. Não tinha menor noção do que ia encontrar. Eu só sabia que o interior já tinha me dado tudo o que eu precisava. Eu quis fazer faculdade no exterior, mas não consegui. Vim para cá sem a ideia de ficar, com uma mala pequena. Não sabia nem andar de metrô. Tem uma história engraçada sobre a minha chegada, uma loteria que eu fiz...

LIGIA E DAN Entrevista de Quinta   Aos 35 anos, Dan Rosseto diz: Passa de 20 o número de espetáculos que dirigi

Ligia Paula Machado, diretora e atriz, ao lado de Dan Rosseto - Foto: Caio Gallucci

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Que ótimo! Conta, por favor...

DAN ROSSETO – Desembarquei na Barra Funda sem saber para onde ia. Só sabia que precisava arrumar um pensionato. Aí decidi olhar os nomes de todas as estações de metrô e escolher aquela que tinha um nome interessante. Escolhi Ana Rosa. Fui até lá e encontrei um pensionato e foi onde fiquei morando [risos].

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você teve medo quando chegou?

DAN ROSSETO – Eu tinha uma ilusão de que São Paulo era uma cidade muito violenta, a gente ouve um monte de histórias. Quando dava 17h30, eu já não queria sair do pensionato. Com o tempo, fui me acostumando, saindo, conhecendo as pessoas.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Como era sua relação com o teatro naquela época?

DAN ROSSETO -  Eu trabalhava como ator no interior, tinha experiência em companhia de teatro. Eu pensava em continuar estudando teatro aqui em São Paulo, junto com uma carreira em comunicação. Ia tentar os dois, trabalhar durante o dia, fazer cursos à noite. Fiz Fátima Toledo, fiquei lá três anos, aprendi bastante com ela. O método era diferente, os cursos eram mais longos. Comecei a estudar e projetar algumas coisas, mas ainda como ator.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – E como você se tornou diretor?

DAN ROSSETO – As portas se abriram meio por acaso. Um amigo meu queria produzir um espetáculo, Dois Irmãos, e perguntou se eu poderia dirigir a peça. Topei, mas pedi um prazo maior, tive uns cinco meses para entender como funcionava. Ele entendeu meu pedido e não me deu prazo. De lá para cá, perdi a conta, mas passa de 20 o número de espetáculos que dirigi. Minha carreira de ator foi ficando menor. Não tinha tempo para me dedicar. Acabei trocando uma carreira pela outra.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Qual foi sua última peça como ator?

DAN ROSSETO – Foi em 2008, fiz O Imperador e Galileu, com direção do Sérgio Ferrara, no elenco tinha o Caco Ciocler. Para não dizer que não quebrei o jejum, em 2009, eu dirigia O Primo Basílio, o Musical, e ficou quatro anos em cartaz. Na última temporada, em 2012, eu atuei como ator, mas era um espetáculo que eu conhecia. O desafio de construir um personagem do zero, não tive mais.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você voltará a atuar?

DAN ROSSETO – Existem algumas propostas. Talvez no segundo semestre. Estou naquela fase de negociação. Não sou um ser humano resistente a ser dirigido e sinto que as pessoas têm um pouco de medo de me chamar. Se eu encontrar, serei dirigido, não vou dar opinião. Preciso apenas conciliar a agenda.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você gosta de estar atarefado...

DAN ROSSETO – Também vou estrear mais uma peça no Teatro Augusta, em novembro, e estamos procurando elenco. Eu não paro. Tenho uma produtora de teatro. Por aí, você imagina como é minha rotina [risos]!

*BRUNA CRISTINA FERREIRA é repórter do Portal R7 e cobre o blog interinamente durante as férias do colunista e editor de cultura Miguel Arcanjo Prado.

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por Elisa Gaivota 100ANCELMO Entrevista de Quinta – A voz de veludo de Maria Ceiça: “Tinha dúvida se seria atriz ou cantora”

Maria Ceiça será a dona de casa Encantada - Foto: Elisa Gaivota/Divulgação

Por BRUNA CRISTINA FERREIRA*

Maria Ceiça é uma daquelas pessoas que imagino sorrir apenas pela voz. A atriz conversou com o Atores & Bastidores logo cedo ao telefone no início desta semana. A conversa era para falar sobre a estreia do espetáculo Por Dentro da Música, que estreia no dia 22 de maio, no Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro.

Na peça, Ceiça e Ilka Villardo soltam a voz na companha de Oscar Milito (piano), Pascoal Meirelles (na bateria) e Alex Rocha (no contrabaixo). O espetáculo conta as histórias por trás de grandes músicas de Gonzaguinha, Dorival Caymmi, Chico Buarque, Tom Jobim entre tantos outros.

Gravando a novela Os Dez Mandamentos, da Record, e prestes a estrear a peça, o tempo de Ceiça está escasso, entre um ensaio e outro, mas a alegria de voltar aos palcos cantando é evidente. Em Por Dentro da Música, ela é a dona de casa Encantada, que durante os afazeres domésticos sonha com as cantoras da rádio.

Para completar, ela ainda deu uma canjinha ao telefone. Para ler e reler, de preferência ao som de Dolores Duran.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Como você está conseguindo estrear uma peça junto com Os Dez Mandamentos?
MARIA CEIÇA – Está puxadíssimo [risos]! Na verdade, os dias em que eu não gravo a novela, eu ensaio a peça. O espetáculo é um musical e eu divido o palco com a Ilka [Villardo]. Nos dias em que não posso ensaiar, a equipe faz preparação com ela e assim vamos nos adaptando.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você sente falta de cantar?
MARIA CEIÇA – Pois é, eu estou sentindo muita falta disso. A música sempre me acompanhou na minha carreira artística. Lá no início, quando eu comecei, eu tinha dúvida se seria atriz ou cantora. Já tem muito tempo, que eu não faço trabalho com música, aí surgiu essa oportunidade.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Quando foi sua última peça de teatro?
MARIA CEIÇA – Foi em 2012, com Gimba, O Presidente dos Valentes, com o Silvio Guindane. Eu estava com muita vontade de voltar aos palcos e também estou produzindo o espetáculo. É a minha produtora, a Luminis, que está cuidando disso. Há um tempo eu vinha produzindo muito, mas a vontade de cantar e atuar falou mais alto.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – No espetáculo, vocês relembram vários nomes da música. Quem escolheu os homenageados?
MARIA CEIÇA – Na verdade, a ideia do espetáculo partiu muito de curiosidades nossas. A gente gosta muito de música, tem canções que marcaram no adolescência, infância, nossos romances e memórias, e tínhamos vontade de saber como os artistas criaram essas músicas. Passamos a nos questionar a motivação deles. A gente não faz ideia de como as músicas são criadas.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Alguma história te marcou em especial?
MARIA CEIÇA – A Dolores Duran, por exemplo, é uma compositora que eu adoro. Tem uma música que todos nós conhecemos, A Noite do Meu Bem, usamos muito para seresta.

[Neste momento, Ceiça canta um pouquinho ao telefone um trecho da música]

“Hoje, eu quero a rosa mais linda que houver e a primeira estrela que vier para enfeitar a noite do meu bem”

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Que lindo!
MARIA CEIÇA – Então, mas eu s[o vou contar a história dessa música lá na peça [risos]!

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Onde estará em cartaz?
MARIA CEIÇA – No Teatro Tom Jobim. E é ótimo que esteja lá, né? Ele é um dos artistas que relembramos na peça.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você disse que está há um tempo longe do teatro, mas 2012 não é tanto tempo assim... Você começou no teatro?
MARIA CEIÇA – Eu comecei nos palcos, mas minha carreira na televisão começou quase que ao mesmo tempo. Logo já estava fazendo novela da Globo, uma que fez muito sucesso foi Felicidade. Depois fiz Por Amor, do Manoel Carlos, fiz Fera Ferida. Fiz Tocaia Grande, na Manchete, e agora estou na Record. Gostaria de estar mais próxima ao teatro...

BRUNA CRISTINA FEREIRA – Mas você não parou nesse período, parou?
MARIA CEIÇA – Eu fiz muita televisão e cinema. Eu estou falando do teatro, mas também estava com saudade de fazer televisão. Já estava há quatro anos sem fazer novela. Voltei com tudo ao mesmo tempo [risos]!

BRUNA CRISTINA – E ainda conseguiu unir teatro à música.
MARIA CEIÇA – Sim! Os meus trabalhos eram bastante musicais também. Quando eu fiz Fera Ferida, não se falou muito na época, mas eu gravei a música-tema da minha personagem e entrou na trilha sonora. No filme Cruz e Souza, O Poeta do Desterro, eu canto em cena.

Por Dentro da Música por Elisa Gaivota 7 Entrevista de Quinta – A voz de veludo de Maria Ceiça: “Tinha dúvida se seria atriz ou cantora”

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você me disse que precisou escolher entre a música e a atuação, mas isso já não é mais assim. O que você acha?
MARIA CEIÇA – Com certeza, na época que eu comecei a trabalhar em televisão, existia uma coisa pejorativa, um preconceito. As pessoas diziam: “Olha, ela quer aproveitar a projeção para se lançar como cantora”. Agora não tem mais essa divisão. O artista precisa ser completo. Hoje em dia, todas as atividades somam.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – E os trabalhos na sua produtora?
MARIA CEIÇA – Eu montei Calango Deu! Os Causos da Dona Zaninha e viajamos todo o Brasil. Estamos em cartaz desde 2012 e ainda estou fazendo um documentário. Estou a mil [risos]! O documentário vai se chamar Que Bom Te Ver no Filme, uma homenagem aos nossos artistas negros brasileiros como o Antônio Pitanga e alguns atores mais jovens como Lázaro Ramos. O documentário está em processo. Quero terminar a novela e continuar.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Esse tempo em que ficou afastada da TV e dos palcos te mobilizou a trabalhar como produtora?
MARIA CEIÇA – Com certeza. A gente amadurece, consegue ver os caminhos a seguir. Eu tenho esse lado de produtora, sou uma pessoa de muitas ideias, já estou planejando outro longa-metragem. Vamos ver o que vai rolar!

*BRUNA CRISTINA FERREIRA é repórter do Portal R7 e cobre o blog interinamente durante as férias do colunista e editor de cultura Miguel Arcanjo Prado.

Por Dentro da Música
Quando: estreia 22 de maio, sextas e sábado, 21h, domingos, 20h. Até o dia 21/6/2015
Onde: Teatro Tom Jobim (r. Jardim Botânico, 1008, Rio de Janeiro. Telefone 0/xx/21 2274-4012)
Duração: 120 minutos.
Quanto: R$ 40
Classificação: 12 anos

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cleo de paris bob sousa3 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

A atriz Cléo De Páris, gaúcha radicada em SP: "Ninguém vai viver algo igual ao que eu vivi. Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, porque fiz uma história lá que é só minha" - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A atriz Cléo De Páris está atarefada ainda em sua sala na SP Escola de Teatro quando chego. Tanta um lugar tranquilo na escola para conversamos. Não consegue. A sala já está ocupada por aulas. Propõe irmos a uma padaria perto, dessas bem comuns, na República, bairro do centro paulistano. Antes, pergunta se chove. Enquanto ela vai pegar o guarda-chuvas, dou uma olhada na recepção no folheto da peça que ela está em cartaz, Ludwig e Suas Irmãs, no Centro Cultural São Paulo [veja serviço ao fim].

Cléo chega. Guardo o papel no bolso. Saímos. A chuva é bem fina. Entramos na padaria. É começo da tarde. São Paulo corre, apressada, ao redor. Ocupamos uma mesa no canto, de frente à parede de vidro que descortina o movimento da rua. Peço um café com leite, ela, água. Na parede do outro lado, uma TV ligada mostra o ator Miguel Falabella em sua volta ao programa Vídeo Show. Rimos disso. Falo que vou ligar o gravador. Ela dá o ok. Miro em direção a seus profundos olhos azuis. Começa sua primeira Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7.

Leia com toda a calma do mundo.

cleo de paris bob sousa31 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris: "Continuo querendo plantar flores. As pessoas não se olham, sempre estressadas" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — A última vez que nos encontramos, você falava que queria um dia largar tudo e ir plantar flores. E hoje?
CLÉO DE PÁRIS — Continuo querendo plantar flores [risos]. Estou numa fase que não sei mais para onde ir. Essa loucura da cidade, essa opressão, essa violência, nem sempre direta, mas indireta também, mexe com a cabeça da gente. As pessoas não se olham, vivem no frenesi, sempre estressadas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você sairia de São Paulo?
CLÉO DE PÁRIS — Tem aquela coisa de ir para o interior, mas ter de conviver com pessoas de cabeça fechada, conservadoras, com homofobia... Acho que o problema é sempre as pessoas [risos]. Só sendo um eremita em cima de uma montanha meditando... [risos]

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem quanto tempo de São Paulo?
CLÉO DE PÁRIS — Uns 12 anos. Sou me confundo com o tempo. Como estou no Satyros há 11 anos, devo estar em São Paulo há 12. Minha medida é o Satyros.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você falou do Satyros. A pergunta que não quer calar é: você está no Satyros ou saiu do grupo?
CLÉO DE PÁRIS — Olha, eu me afastei, mas é um grupo que ainda é meu. Eu tenho amores lá, minha história, então, possivelmente, mais dia, menos dia, eu volte. O Ivam [Cabral, ator e dramaturgo do Satyros] foi ver minha peça, falou que está orgulhoso. O Rodolfo [García Vázquez, diretor do Satyros] não foi ainda porque viajou para a Suécia. E eles querem que eu volte a fazer peça com eles.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você ainda é do grupo? Na ficha-técnica ainda tem seu nome?
CLÉO DE PÁRIS — Eu sou do grupo. Tem. O que acontece é que primeiro fiquei um ano sem fazer teatro depois de Édipo na Praça, no Satyros, e Nosferatu, que já foi sem o Satyros. Foi uma fase que queria descansar, porque também trabalho na SP Escola de Teatro. Estava fazendo jornada dupla, muito estressada. Falei para mim: eu não preciso disso, não vou salvar o mundo fazendo teatro sem parar, eu posso me dar um tempo para me reciclar inclusive.

cleo de paris bob sousa41 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris no camarim do Satyros, durante a peça Cabaret Stravaganza: "Ninguém vai ocupar meu lugar" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você fazia uma peça atrás da outra.
CLÉO DE PÁRIS — Sim, estava há muito tempo sem parar. O artista precisa desse respiro. Li uma entrevista do Daniel Day-Lewis, que é o ator mais extraordinário do mundo, e ele contava que uma vez parou quatro anos e foi ser sapateiro numa cidadezinha do interior. Ele dizia que o artista que morava nele precisava daquilo. Isso me tocou profundamente. Eu pensei, eu preciso arrumar meus sapatos, meu caminho, onde vou pisar a partir de agora, foi uma metáfora muito bonita para mim o que ele disse.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Sua ausência nas peças do Satyros gerou um burburinho na classe teatral e no público. Muitos internautas me mandaram mensagem falando para eu descobrir o que havia acontecido e por que você não estava nas peças novas do Satyros.
CLÉO DE PÁRIS — Chegou um momento que minhas intenções artísticas e estéticas não estavam de acordo com o que o grupo estava fazendo. Não que não gostasse. Até porque fiz muito teatro performativo, que o Rodolfo é referência. Estava sentindo falta de personagem, de quarta parede, do teatrão clássico. E o grupo estava com outra pegada e eu queria descansar. Juntou a falta de fome com a falta de vontade de comer.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você achou de o Satyros voltar agora ao Marquês de Sade? Foi ver Juliette?
CLÉO DE PÁRIS — Não consegui ver porque estou em cartaz. Mas quero ver. Acho fundamental [a volta a Sade], porque toda pesquisa do grupo tem muito a ver com isso. Com essa questão de mexer em valores sociais burgueses através do Sade. E o Rodolfo foi bem fundo nisso, sem pudor algum. Acho que o grupo faz muito bem isso. Montar Juliette vai dar um ar novo a essa trajetória do Sade. Mas acho muito especial remontar A Filosofia na Alcova e Os 120 Dias de Sodoma, que é a minha preferida.

cleo de paris bob sousa cabaret stravaganza Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris ao lado de Ivam Cabral, na peça Cabaret Stravaganza, de 2011, do Satyros - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o público adora essas peças.
CLÉO DE PÁRIS — Eu me pergunto muito que tipo de teatro que o público quer. E acho que esse é um teatro que o público quer ver. Tem de ser feito. É sempre um sucesso.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem medo de dar esse tempo e ter alguém lá no Satyros querendo ser a nova Cléo De Páris?
CLÉO DE PÁRIS — A gente tem que se movimentar, sair da zona de conforto e tentar outras possibilidades. Mas ninguém vai viver algo igual ao que eu vivi. Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, porque fiz uma história lá que é só minha. E, talvez, essa gente nova que está lá nem queira ser igual a mim, talvez nem saibam que eu existo. Teatro é muito efêmero...

cleo de paris bob sousa Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris: "Parece que está tudo mais careta" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o que acha dessas peças do Sade neste novo contexto político do País que parece mais conservador do que quando as peças foram montadas pela primeira vez?
CLÉO DE PÁRIS — É triste, porque parece que está tudo mais careta. A gente está retrocedendo. Essa questão toda de conservadorismo, de gente brigando porque Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro se beijaram na novela e aceitando todo tipo de violência como se fosse normal. O mundo está ficando muito triste. Acho mesmo que agora pode ser que choque muito mais. Parece inconcebível. A gente deveria evoluir, mas estamos retrocedendo. As pessoas aceitam menos agora. Parece que é um horror alguém ficar nu em cena. Mas no Carnaval pode ter um monte de gente pelada na televisão de manhã e à tarde, para as crianças verem. Mas não pode fazer topless na praia. É tudo tão hipócrita. Não faz sentido para mim.

MIGUEL ARCANJO PRADO — A gente está ficando amargo demais ou o mundo que está ficando amargo demais para a nossa doçura?
CLÉO DE PÁRIS — Acho que o mundo que está ficando amargo demais para a nossa doçura. E a gente precisa se defender de algum jeito. Acho que a gente acaba ficando [amargo]. Eu sinto que estou muito amarga. E eu não era assim. Mas, senão, você fica uma “Pollyanna”. Você tem de arrumar um jeito de se impor, de se colocar e de se defender disso tudo. Nem sei se é o melhor movimento, mas é o que a gente consegue.

DSC00620 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris em cena de Ludwig e Suas Irmãs: "Trabalhar com o Eric Lenate me jogou com tudo em minha fragilidade e aprendi que ser frágil tem seus encantos" - Foto: Leekyung Kim/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vamos falar de Ludwig. Como você entrou na peça?
CLÉO DE PÁRIS — O Eric Lenate [diretor da peça] queria montar há seis anos, desde que entrou em contato com o texto no CPT [Centro de Pesquisa Teatral]. Ele juntou Lavinia Pannunzio, Jorge Emil e eu há um ano para fazer uma leitura e todos nós gostamos muito. Ele disse que teria de ser com nós três, que era o elenco ideal. Ganhamos o ProAc e tivemos só dois meses de ensaio. Foi muito difícil.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi o processo de trabalhar com outras pessoas, com uma outra forma de se fazer teatro?
CLÉO DE PÁRIS — Foi muito difícil. Pensei até em sair da peça durante o processo. Eu estava trabalhando há muito tempo com o teatro performativo, que te dá certas liberdades. Acho que meu rendimento nos ensaios no começo ficou aquém, porque fiquei travada. E o Eric é muito exigente, muito. E a gente tem muita intimidade. Então, chegou um momento que ficou um processo mais difícil do que prazeroso para mim. Tivemos muitos atritos, a gente não chegou a brigar, assim, mas acho que ele me tratava muito mal nos ensaios. Eu falava: você não trata os outros atores como você me trata. Foi muito difícil trabalhar com ele, muito mesmo. É muito complicado. Não sei se vou repetir. Trabalhei muito tempo com o Rodolfo, que é uma doçura, tem outra pegada. Não estou falando que um seja melhor ou pior. São diferentes. Mas o resultado foi o lugar que queria chegar, sinto que tive um progresso como atriz. Mas eu nunca gosto dessa coisa os fins justificam os meios, sabe? Sabe aquelas pessoas que trabalham com o Lars von Trier e nunca mais falam com ele? Não estou falando que foi nesse nível, mas foi complicado para mim. Não foi fácil, mas o Eric consegue ótimos resultados, isso é uma realidade.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual análise você faz disso tudo?
CLÉO DE PÁRIS — Trabalhar com o Eric me jogou com tudo em minha fragilidade e eu aprendi que ser frágil tem seus encantos e tem força bruta, porque abre um mar de possibilidades. E que acho que serei grata um dia por viver esse desespero.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o texto da peça?
CLÉO DE PÁRIS — É muito difícil, complexo, impiedoso. Tem um formato enlouquecedor. Ele faz um ato inteiro só com as duas irmãs contando que o irmão vai chegar do sanatório. É um ato inteiro preparando a chegada do Ludwig. E depois são dois atos com ele, com uma demência maravilhosa.

MIGUEL ARCANJO PRADO — É difícil fazer a peça?
CLÉO DE PÁRIS — Sim. Muito. Acho que só quando fiz uma cega tive um desafio assim. É um estado de presentificação muito grande. E é difícil ficar em cena sem texto, só reagindo, é mais difícil do que fazer uma ação ou dando texto. É um desafio muito louco essa peça.

Ludwig e suas irmãs 23 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris, Jorge Emil e Lavínia Pannunzio em Ludwig e Suas Irmãs: "Os três são pessoas que não conseguem se adaptar ao mundo. Apesar de vociferarem, não fazem nada" - Foto: Leekyung Kim/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Os personagens são todos loucos?
CLÉO DE PÁRIS — Os três são pessoas que não conseguem se adaptar ao mundo. O Eric linkava muito essas histórias às manifestações que a gente teve. Porque o texto acaba com tudo, com o mecenato da arte, com a burguesia, não deixa pedra sobre pedra. Apesar de eles vociferarem e falarem coisas lúcidas, eles não fazem nada. Ficam naquela casa, lendo biografias de artistas e tomando chazinho. Eles não fazem nada para mudar, só gritam. O Eric falava: esses personagens são as pessoas que foram reclamar pelo aumento de 20 centavos e depois aumentou 50 centavos e não fizeram nada. Então, era só pelos 20 centavos mesmo. Eles queriam dizer: aumentem direito se é para aumentar, porque 20 é muito pouco. Os personagens falam, falam, mas não saem do lugar. O Ludwig é um tsunami que, quando chega à praia, recua. Só ameaça, mas não faz nada. Tem muita munição e não dá em nada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — É um texto de desesperança. Acho que voltamos ao começo da nossa conversa. É um problema da nossa geração?
CLÉO DE PÁRIS — Sim. É uma desesperança. Acho que o mais triste porque é uma desesperança que nem é conformista. Eles não se conformam, mas não fazem nada. Não é: tudo bem como está e vou levar minha vida. Não se conforma, mas não faz nada. Isso é mais triste. Não se conformar e não reagir.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como o público está reagindo?
CLÉO DE PÁRIS — Acho engraçado tratar o público como essa massa uniforme. Mas é engraçado, isso acontece mesmo, de as pessoas quando estarem juntas terem uma mesma intenção. Estreamos numa Sexta-feira Santa e está indo muito bem. Até porque o teatro é enorme. Se você tem cem pessoas tem um terço do teatro. No Satyros era só 40! E o público está ótimo, mas não sei se ele entende o que está acontecendo lá. Se não embarca, não consegue aproveitar. O que o Thomas Bernhard faz ali é muito específico, mexe com padrões no conteúdo e na forma... O texto não é palatável, mas a gente não quer fazer O Rapto das Cebolinhas. Você falou para mim que viu o documentário do David Bowie. Então, o David Bowie hoje apareceria hoje no Faustão? Não. E graças a Deus! Então, vamos continuar sendo David Bowie.

cleo de paris bob sousa4 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris com Alberto Guzik na peça Liz, do Satyros, em 2009: "O Alberto Guzik, que foi meu mentor, falava que somos responsáveis por nossas escolhas", diz a atriz - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que o teatro te deu e o que ele te tirou?
CLÉO DE PÁRIS — Ele me tirou o convívio com minha família. Eu quero ver o Ian, meu sobrinho crescer. Tem o aniversário dele em setembro, nesse dia, mesmo se for uma apresentação para o Papa eu não vou fazer. Eu quero ver o primeiro dentinho dele. Eu acho que eu não tive filho porque me dediquei muito ao teatro. Não é uma desculpa, mas minha paixão pelo teatro foi muito intensa. Agora, ela está esmorecendo, mas talvez o fundo do poço tenha porão e eu pegue impulso e volte, como diz uma amiga. Eu vivi e respirei teatro o tempo todo nos últimos dez anos. Passei mais tempo no teatro do que em casa e com muito prazer. Só que agora, quando olho para trás, às vezes eu penso: será que não era melhor ter tido uma vidinha mais pacata? Será que eu deveria ter tido um filho e deixar de pensar: não, agora, porque eu vou para a Suécia, não depois, porque eu vou fazer peça em Cuba... O Alberto Guzik, que foi meu mentor, falava que somos responsáveis por nossas escolhas. Ninguém colocou um revólver na minha cabeça, falando: faça teatro 24 horas por dia. Se foi uma escolha errada, eu tenho de ver daqui para frente e lidar com isso. Mas o teatro também me deu amigos, pessoas importantes que eu posso confiar. Ele conseguiu extrair de mim sabedoria, coragem, sensibilidade. Inclusive para fazer essa escola maluca que a gente fez, a SP Escola de Teatro. E me deu coragem também para desistir, para parar uma hora, porque eu sou gente.  E é ainda uma resistência nossa levar as pessoas para verem gente. Tirar o público de casa para ir lá ver outra pessoa igual a ela. Isso está muito difícil, né? As pessoas querem olhar umas para as outras por meio das fotos lindas trabalhadas com filtros no IPhone. No palco, não temos filtro, estamos parados ali, sem rede de proteção, passíveis de erro, de sermos execrados ou amados. E a gente continua fazendo isso. Meu medo é que isso se perca um dia. As pessoas estão cada vez mais isoladas, não param de construir prédios na cidade, cada vez mais minúsculos, para as pessoas viverem sozinhas, em seu compartimento, interagindo com outras pessoas através de máquinas, de computadores.

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Cléo De Páris: "O teatro que faço tem que me dar prazer" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E qual futuro você pensa para você?
CLÉO DE PÁRIS — Estou contaminada por esse clima de desesperança. Mesmo no teatro não sei o que quero fazer depois de Ludwig. Espero que essa peça tenha ainda uma vida grande. E se eu voltar a fazer outra peça, quero que seja devagar. Com um período mais longo entre um trabalho e outro. Não quero me sacrificar mais pelo teatro. Eu me sacrificaria mais pelas flores do que pelo teatro. Estou muito desiludida com a humanidade. É tão violento o ato criativo que não sei se compensa. E não estou falando de compensação financeira, mas afetiva mesmo. É uma energia grande que você dá e não sei se a balança é favorável. Ainda estou digerindo o processo dessa peça, que foi rápido, intenso e difícil. Tenho de redescobrir meus movimentos internos e meu olhar para os movimentos externos. Porque nunca me coloquei como “a atriz”. Eu fui fazendo trabalhos... Não quero ficar famosa, não é minha pegada, recusei muita coisa na TV por isso. Porque gosto de ter meu anonimato, vou na contramão disso. É claro que gosto de ter prestígio, que as pessoas valorizem o que faço, de conversar com você, nesta entrevista, mas não gosto de uma coisa que possa alterar minha vida. Tudo certo para quem consegue lidar com isso, não acho que é ruim fazer, mas não é a minha pegada. Não tenho essa vaidade de ser famosa, de ganhar prêmio. Então, o teatro que faço tem que me dar prazer e me mostrar que eu faço diferença em algum lugar. Senão, não faz sentido para mim. Tenho avaliado se tudo isso vale a pena para eu ser fiel a mim mesma.

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Cléo De Páris em ensaio para divulgação da peça Ludwig e Suas Irmãs: "Tenho de redescobrir meus movimentos internos e meu olhar para os movimentos externos" - Foto: Laerte Késsimos

Ludwig e Suas Irmãs
Quando: Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h. 80 min. Até 17/5/2015.
Onde: Centro Cultural São Paulo (r. Vergueiro, 1.000, metrô Vergueiro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3397-4002)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

Leia também: Cléo De Páris, a musa do teatro de um tempo e de um lugar chamado praça Roosevelt

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20150422 164554 768x1024 Entrevista de Quinta   Talento não acaba quando envelhecemos, diz atriz Arllete Montenegro

Arllete Montenegro faz parte da história da TV e da dublagem no Brasil - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

É fim de tarde, os carros avançam pelo Minhocão e a chuva começa a cair em São Paulo quando a porta do apartamento no 11º andar no prédio na praça Marechal Deodoro se abre. Do outro lado está a atriz Arllete Montenegro, ícone da história da televisão.

Ela estreia nesta sexta (24), no Teatro Bibi Ferreira, a comédia De Artista e Louco Todo Mundo Tem um Pouco, com texto de Ronaldo Ciambroni e direção de Jacques Lagoa [veja serviço ao fim].

Com um sorriso no rosto, conta que acaba de retornar de uma dublagem. Estava aproveitando o tempinho livre para ver Ghost - Do Outro Lado da Vida na Sessão da Tarde. "Adoro este filme", conta, enquanto vai buscar a revista Contigo! que o porteiro acaba de entregar. Vez ou outra, vendo TV, escuta a própria voz.

Arllete foi uma das criadoras não só da teledramaturgia brasileira como também da dublagem. Começou no rádio, no fim da adolescência, quando inscreveu-se no concurso Procura-se uma Estrela da Rádio São Paulo. Tirou primeiro lugar.

Logo, virou realmente estrela de radionovelas. Daí para a televisão, foi um pulo. Começou na extinta Tupi, em 1956. No ano seguinte, foi contratada pela Record. Fez novela ao vivo e clássicos como a primeira versão de Éramos Seis. Em 1960, já muito famosa, foi contratada pela Excelsior, que vivia seu auge. Foi lá que fez A Muralha, sucesso absoluto em 1968, onde era nora de Fernanda Montenegro, sua xará duas vezes, já que o verdadeiro nome de Fernanda é Arlete.

Em 1971, retornou à Tupi, onde fez clássicos como A Viagem, em 1975, e permaneceu até o triste fim da primeira emissora brasileira.  Fez mais de 50 novelas. A partir daí, viu todos os seus colegas se transferirem para o Rio, para trabalhar na Globo.

Por precisar cuidar do marido e da mãe doentes, permaneceu em São Paulo, fazendo apenas participações esporádicas nas novelas. O teatro acabou sendo sua forma de manter viva a atuação em sua vida. E a dublagem, que nunca a abandonou.

Histórias não faltam para ela contar nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7. Leia com toda a calma do mundo.

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Arllette Montenegro, ao lado de Milton Levy, Cláudio Andrade e Dani Marcondes, colegas de elenco na peça De Artista e Louco Todo Mundo Tem um Pouco, em cartaz no Teatro Bibi Ferreira - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi o convite para fazer a peça De Artista e Louco Todo Mundo Tem um Pouco?
ARLLETE MONTENEGRO — A peça é um pouco nonsense, bem louca, é uma coisa do Ciambrone. É bem atual. Muita gente me disse que tem parente assim. Sabe gente que está despirocada mesmo? Ela é assim. As pessoas morrem de rir.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Está feliz?
ARLLETE MONTENEGRO — Sim. O Jacques Lagoa, que é o diretor, é meu amigo de muito tempo, mais de 30 anos. Fizemos a peça Descalços no Parque, de Neil Simon, que ganhou todos os prêmios. Ele me convidou e fiquei muito feliz. Ano passado eu fiz La Mamma como stand-in da Rosi Campos. Esta é a volta dele ao teatro. Jacques é o rei da comédia. É um excelente diretor de comédia.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Sua personagem é uma mãe possessiva?
ARLLETE MONTENEGRO — Mãe possessiva tem aos montes. Essa, além de possessiva, é louca mesmo. Acho que ela tem Alzheimer, porque esquece coisas, inventa coisas...

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você gosta de fazer teatro popular?
ARLLETE MONTENEGRO — É excelente encontrar o grande público de comédia. Eles são muito receptivos. Tenho notado que o público quer ver isso. Quando é algo mais complicado, de pensar um pouquinho, o público não tem paciência. Isso está acontecendo muito na dramaturgia.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Por quê?
ARLLETE MONTENEGRO — Sei lá... Acho que o mundo anda tão estranho que o pessoal está querendo rir de qualquer coisa.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Estava falando há pouco com uma outra atriz, a Cléo De Páris, justamente sobre isso, sobre essa desesperança. Como você vê isso hoje?
ARLLETE MONTENEGRO — Tem de tudo. Eu sou espiritualista. Acho que faz parte de um processo de limpeza e purificação. Então, está havendo avanços. É que a gente só ouve notícia ruim. Porque a mídia só divulga coisa ruim. A notícia ruim dá ibope. As coisas boas que acontecem não são divulgadas. Isso é que cria esse clima. Acho que os jornalistas deveriam encerrar o jornal com alguma notícia boa, para não deixar o povo tão desesperançado.

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Arllete Montenegro com Edgar Franco em A Muralha, na década de 1960, na Excelsior - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi sua relação com a ditadura?
ARLLETE MONTENEGRO — Na época eu era muito alienada. Eu me lembro que no dia 31 de março de 1964 os militares entraram com metralhadoras no estúdio da Excelsior. Estávamos gravando a novela e eles, que eram tão burros, acharam que a gente iria botar a estação no ar. Eles nos prenderam a noite inteira. Até para ir ao banheiro tinha de ir acompanhado. Mas eu era muito criança, muito bobona, não tinha noção da gravidade de tudo aquilo. De manhã é que fomos saber que havia sido dado o golpe.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você se lembra de alguma perseguição?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu não fui perseguida, porque era muito boba. Mas eu me lembro do Dionísio de Azevedo queimando livros no quintal junto do Lima Duarte, porque se eles encontrassem um livro de capa vermelha já diziam que você era comunista.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o que você acha dessa gente que pede a volta dos militares?
ARLLETE MONTENEGRO — Isso é loucura, é uma ignorância crassa. Imagina, voltar àquele estado de terror? Isso é absurdo. Assim como pedir o impeachment da outra, porque não vai adiantar nada, a gente só vai perder tempo e desestabilizar o País. Temos de fazer as passeatas e reclamar, sim. Eu até fui em umas aí. Mas de outro modo, forçando os políticos. Essa coisa de impeachment é bobagem. Ela entrou agora, vai gastar um dinheirão de novo, paralisar tudo. É preciso fazer o Congresso mudar.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vamos falar de TV, porque você ajudou a criar o veículo no Brasil.
ARLLETE MONTENEGRO —Eu brinco que sou da época da TV movida a lenha.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você vê São Paulo ter perdido a teledramaturgia para o Rio?
ARLLETE MONTENEGRO —São Paulo deu bobeira. Porque quando a Tupi faliu era obrigação do SBT ter pegado aquela herança de teledramaturgia. Mas deixou o Rio tomar conta de tudo, com a Globo. Até a Record faz novela no Rio. E ninguém chama a gente. Só querem gente nova.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Eu, particularmente, gosto dos personagens feitos por atores com trajetória, da antiga, talentosos.
ARLLETE MONTENEGRO — Tem pouca da terceira idade. Hoje em dia nas novelas ninguém mais tem mãe, tia, avó, cunhada. Ninguém tem família. É tudo jovem. O próprio jovem fazendo papel de pai e mãe.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Eu me lembro da Camila Pitanga fazer mãe de gente de 20 anos. Ficava até engraçado.
ARLLETE MONTENEGRO — Tem acontecido muito isso. Só tem jovem nas novelas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você acha disso?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu fico muito triste. Mando e-mail para eles me oferecendo para trabalhar, porque tem de ter mais terceira idade nas novelas. Eu quero trabalhar. Não é porque a gente envelhece que o talento acaba.

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Regina Duarte, Susana Vieira, Maria Izabel e Arllete Montenegro em 1966 - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você não foi para o Rio como os colegas da sua geração fazer novela na Globo?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu não pude fazer. Na época recebi vários convites, mas estava com marido doente, tinha filho pequeno. Não tinha como ir. Todo mundo foi, menos eu. Teve novela de eu terminar sem o galã, que ele pediu demissão e foi para o Rio.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que ficar em São Paulo lhe trouxe de bom?
ARLLETE MONTENEGRO — Foi bom porque eu fui fazer teatro. Porque eu não tinha feito teatro... Antes eu só estava fazendo televisão. Eu fazia novela ao vivo na Record, que ainda era no Aeroporto de Congonhas. Na Record eu fiz locução de cabine, telejornal, tudo! Só fui fazer teatro com 20 anos de televisão, mas eu já dublava...

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você é uma das dubladoras mais tradicionais.
ARLLETE MONTENEGRO — Eu faço a voz da Meryl Streep. Fiz O Diabo Veste Prada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você dubla muito?
ARLLETE MONTENEGRO — Dublo em todos os estúdios de São Paulo. Até a professora do Bob Esponja eu faço.

MIGUEL ARCANJO PRADO —É difícil dublar? Qual o segredo?
ARLLETE MONTENEGRO — Dublar é um paradoxo: você tem que estar zen e ligadão. Você já viu isso? Só gente louca consegue. É uma coisa que você tem de ter muito controle motor. Você ouve uma língua no seu ouvido, emboca na tela com um ator que não tem o seu tempo e precisa fazer com a mesma emoção. É uma coisa de gente louca. Quando começou a dublagem eles foram buscar a gente na rádio. Tentaram com o povo do teatro da época, mas não deu certo, porque eles falavam alto, para a última fila, com a voz empostada. Então, foram buscar a gente na rádio, que falava baixinho, sussurrado.

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Arllete Montenegro com Flávio Galvão na extinta TV Tupi - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Sua família achou ruim de você ser artista?
ARLLETE MONTENEGRO — No começo foi uma briga, porque achavam que era tudo puta e viado [risos]. Eu me inscrevi no Procura-se uma Estrela. Na época eu morava na Casa Verde, que naquela época era na China, e trabalhava numa ótica na rua São Caetano. Mas me inscrevi na rádio São Paulo e ganhei primeiro lugar.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o seu nome, com surgiu?
ARLLETE MONTENEGRO — Era Arlete Branco, mas eles acharam que não tinha sonoridade. Queriam tirar o Arlete também, mas eu não deixei. Aí eu escolhi o Montenegro. Na época não sabia da Fernanda. Ela já estava trabalhando, mas no Rio. E, naquela época, São Paulo e Rio eram mundos muito distantes. Se eu soubesse que já tinha o dela não teria escolhido.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vocês trabalharam juntas?
ARLLETE MONTENEGRO — Fizemos A Muralha, ela era minha sogra, foi um sucesso estrondoso. Foi aí que descobri que tínhamos o mesmo nome. Porque eu comprei ovos de páscoa na Record, no corredor, que descontava no holerite. Aí um dia a camareira levou a Fernandinha, filha dela, para brincar com meu filho, que era mais novinho, o Fábio, aí ela me falou: A Fernanda pagou todos os seus ovos. E eu: como assim? Ela me respondeu: Ela se chama Arlete Pinheiro Torres. Viram Arllete Montenegro e pensaram que era ela dela. Olha que engraçado. Até aniversário fazemos juntas. Ela faz no dia 15 de outubro e eu no dia 16.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O povo pensa que vocês são irmãs?
ARLLETE MONTENEGRO — Pensa. E ela fala que sim, porque ela fala que tem preguiça de ficar contando a história.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual tipo de teatro você gosta?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu gosto muito do teatro americano. Gosto de Tennessee Williams e Neil Simon.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quando você entrou na Globo?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu só fui nos anos 1990, depois que minha mãe morreu, para fazer Cara & Coroa. A mais recente que fiz na Globo foi O Profeta.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que as emissoras de São Paulo deveriam investir mais em teledramaturgia?
ARLLETE MONTENEGRO — Claro! Tudo começou aqui. O SBT deveria investir mais e a Record deveria trazer as novelas para São Paulo. Temos um mercado ótimo de atores aqui. Tenho gostado muito da GNT, que tem feito muito dramaturgia. Coisas excelentes. Eu vejo tudo. Também quero fazer um bom filme. O cinema brasileiro está ótimo. Cineastas, podem me chamar que eu topo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Falta nos produtores, diretores conhecer a história da TV e quem a construiu?
ARLLETE MONTENEGRO — Sim. Se eu vou em alguma emissora agora, me perguntam: trouxe book, tem três fotos? Eles não fazem ideia da minha trajetória. Quando fui fazer Cara & Coroa, que foi o Wolf Maya quem me chamou, junto do Luis Mello e da Marilena Ansaldi, muita gente achava que eu era só de teatro. Quando me viram gravar a primeira cena ficaram impressionados porque eu fiz de primeira, não tinha dificuldade nenhuma. Eu falei, gente, mas eu faço novela desde os anos 1950! [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO —Você é mestre. E esse curso que você fez não tem em lugar nenhum.
ARLLETE MONTENEGRO — Eu aprendi fazendo. Nós criamos tanto a dublagem quanto a televisão. Só o teatro que a gente não criou [risos].

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Arllete Montenegro: "Só o teatro que a gente não criou" - Foto: Miguel Arcanjo Prado

De Artista e Louco Todo Mundo Tem um Pouco
Quando: Sexta e sábado, 21h, domingo, 20h. 70 min. Até 28/6/2015
Onde: Teatro Bibi Ferreira (av. Brigadeiro Luís Antonio, São Paulo, tel. 0/xx/11 3105-3129)
Quanto: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos

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FOTO 4 Entrevista de Quinta   Teatro é encontro de seres que se escutam, diz Rodrigo Spina

Rodrigo Spina dirige peça de autor romeno com grupo Os Barulhentos em SP- Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O nome do espetáculo é longo. Mas, as referências são muitas.

Aqui Estamos com Milhares de Cães Vindos do Mar é a nova peça da Cia. Os Barulhentos, com direção de Rodrigo Spina, em cartaz no Espaço Elevador, em São Paulo [veja serviço ao fim].

O espetáculo saiu do livro Cuidado com as Velhinhas Carentes e Solitárias, do autor romeno contemporâneo Matéi Visniec, radicado na França desde 1987.

A trupe, que fez sucesso nos palcos em 2013 com Muito Barulho por Nada, agora investiga solidão humana no mundo contemporâneo, num mundo cada vez mais tecnológico e vazio de sentidos, onde o privado e o público se misturam com facilidade, gerando angústia constante.

A encenação é um compilado de 15 peças curtas, que se entrecruzam. Para fazer a colcha de retalhos cênica dar certo, o diretor utilizou os conhecimentos que tem em teatro e em cinema.

No elenco estão Cadu Cardoso, Clara Rocha, Domitila Gonzalez, Gustavo Pompiani, Lia Maria, Lucas Horita, Lucas Paranhos, Marina Campanatti, Murilo Zibetti e Pedro Camilo.
Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Rodrigo Spina descortina um pouco da obra e de sua carreira. Formado em cinema pela ECA-USP e mestre em artes pela Unicamp, onde é doutorando em artes da cena, ele conta, entre outras coisas, que seu diretor preferido é o italiano Fellini: "Pois sua arte sonha".

Leia com toda a calma do mundo.

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Roupas espalhadas: peça tem instigante cenário criado por Moshe Motta - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Rodrigo, fiquei sabendo que sua peça está toda em tons de cinza; por quê?
RODRIGO SPINA — Ao começarmos a ensaiar a peça, senti que as cenas deveriam ser realistas, críveis, porém com algum tipo de estranhamento, algo que deixasse o espectador com uma sensação esquisita. Assim, ao ver uma realidade fidedigna à sua frente, porém sem cor, o espectador, como alguns já relataram inclusive, tem a sensação de que algo de sua percepção visual foi modificada ou está falha, alguma coisa está fora da ordem comum – conteúdo de todas as cenas do espetáculo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Interessante esta provocação estética.
RODRIGO SPINA — Diferentemente do cinema em preto e branco, que resulta nessa qualidade visual pela captação ou por filtros colocados a posteriori, o teatro completamente em tons de cinza, gera uma sensação de deslocamento da realidade, pois vemos um ator vivo em cena, na nossa frente e sem cor alguma – de acordo com o que Visniec tem no cerne de sua dramaturgia: o estado de coma do mundo contemporâneo, onde estamos cada vez mais acostumados a ver uma vida (?) tornando-se pasteurizada, com menos nuances de cores e sentimentos.

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Falta de cores foi opção estética do diretor - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Que poético isso que falou. É por aí mesmo... Mudando de assunto: você se formou em cinema e artes cênicas. Misturou as duas artes na peça?
RODRIGO SPINA — Como diretor, eu conduzo a obra teatral como algo audiovisual, uma combinação de imagens cênicas e sons. Obviamente, essas imagens cênicas são construídas pelos atores, que são ocentro nervoso do teatro, e o sons são combinações de suas vozes, ruídos, as trilhas musicais e seus silêncios. Como sou preparador vocal em teatro e professor de voz para atores, priorizei a aproximação dos atores às palavras de Visniec, a construção de suas imagens internas em seus próprios corpos. Assim, esses atores, jovens brasileiros, poderiam – pela palavra – instaurar questões da guerra do Leste Europeu, por exemplo.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Você fez doutorado na Unicamp sobre voz do ator?
RODRIGO SPINA — Meu doutorado foca em estudar a qualidade da escuta do ator e como ela desemboca em sua expressão vocal, ou seja, quero tirar das mãos do ator a exigência de uma impecabilidade fono-articulatória e colocar toda sua atenção no que ele escuta do outro, pelo jogo cênico. Assim, sua voz será resultado de trocas sensíveis entre os interpretes e não de um treinamento isolado e tecnicista.  Sinto que é momento de voltarmos a ter no jogo dos atores a maior fonte fomentadora da cena teatral e não partir das aptidões trabalhadas apartadas de um todo, em busca de um perfeccionismo esvaziado de histórias e cicatrizes.

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Peça é compilado de 15 cenas curtas que se entrecruzam - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Voltando à peça, em que mais ter feito cinema lhe ajudou na direção?
RODRIGO SPINA — Outra vantagem em ter estudado cinema, foi poder “montar” as cenas soltas num fio narrativo – o conhecimento de edição cinematográfico foi muito usado neste espetáculo – quadros de imagens que se resignificam por seu contexto. Por exemplo: um casal discutindo sua relação depois do sexo é totalmente redimensionado, pois é uma ação simultânea a um menino aprendendo a matar pessoas numa fronteira. Como a peça é composta de 14 cenas curtas encadeadas e simultâneas, o espetáculo torna-se um “filme multiplot”, desses que contem várias narrativas entrecortadas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você escolheu o texto?
RODRIGO SPINA — Esse texto surgiu depois de um passeio por uma livraria em São Paulo, onde vi a coleção do Visniec publicada. Vendo os títulos, um deles chamou minha atenção: Cuidado com as Velhinhas Carentes e Solitárias. Ao pegar o livro e começar a ler, não consegui parar, levei ao grupo e todos se apaixonaram pelas cenas e começamos a montar a peça.

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"Teatro é encontro de seres que se escutam", diz Rodrigo Spina - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como se aproximou do autor, Matéi Visniec?
RODRIGO SPINA — Procurei Visniec virtualmente e encontrei-o pelo Facebook. Ele sempre foi muito solícito conosco e ajuda a divulgar sempre que possível. Enviei fotos do espetáculo para ele explicando como tinha feito o encaixe das cenas e as opções estéticas e ele respondeu: “Esse é o tipo de teatro que eu realmente gosto.” Obviamente, fiquei extremamente feliz, pois sinto que existe um encontro muito profícuo entre nós — os Barulhentos e suas palavras.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você também é ator da Cia. Elevador Panorâmico. Como é agora estar no papel de diretor com o grupo Barulhentos?
RODRIGO SPINA — Aprendi a fazer teatro no Elevador. É impossível dizer o contrário. E fazer teatro de grupo – passando por todos setores – montei cenário, operei som e luz, fiz faxina e reformas na sede do grupo e também atuei... [risos]. Meu diretor, o Marcelo Lazzaratto, é meu grande orientador na vida artística. Ele sempre acompanha os processos que dirijo e problematiza algumas escolhas, sugere soluções. Enfim, sinto que o Lazzaratto é um avô artístico dos Barulhentos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Dirigir mudou algo em você?
RODRIGO SPINA — Poder dirigir um grupo de atores tem transformado minha própria vida no palco, pois a maneira com que você esclarece alguma cena a um ator ou conduz o mesmo a fazer certa coisa faz com que você tenha que esclarecer procedimentos de criação de imaginário para si mesmo para que possa esclarecer ao outro. Assim, muito do que venho falado aos meus atores, tento colocar em prática nos espetáculos do Elevador, como ator.

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Peça discute a solidão dos seres humanos nos tempos atuais - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que o teatro ainda tem importância política no Brasil de hoje?
RODRIGO SPINA — Sim, eu não faria teatro se não acreditasse nisso. A cultura (e no meu caso, meu ofício o teatro) é de fundamental importância para enxergarmos a realidade como ela é. Sinto que as mídias estão cada vez mais controladoras de opiniões e por consequência, as ações dos indivíduos, às vezes, as mais absurdas. Estamos cada vez mais copiando e colando opiniões em nossos “murais” eletrônicos, distanciados cada vez mais de uma relação verdadeira com os outros.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem razão.
RODRIGO SPINA — Há uma certa banalização no uso da palavra hoje em dia, e quero que meu teatro fuja disso. Peço sempre aos atores terem cuidado com a palavra dita e vivida por eles em cena, cuidado em criar as imagens potentes que elas possuem a priori, sentidos profundos e vitais. E o teatro ainda é o lugar de encontro humano, nada além disso – o encontro entre seres que se escutam, onde há lugar para troca real. Isso, de início, já pode ser uma transformação política radical, hoje em dia.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quais são seus diretores preferidos em cinema e teatro?
RODRIGO SPINA — Meu diretor predileto é o Fellini, pois sua arte sonha. Existe algo na obra dele que cala e faz rir. Algo que é gracioso, ao mesmo tempo, totalmente silenciador. Sinto que é quase impossível colocá-lo num único gênero. E esse tipo de arte me atrai. Diretores de cinema e teatro que conseguem ser plurais – abarcando mais sensibilidades humanas do que possíveis rótulos, tornando sua arte polissêmica e abrangente. Gosto muito de cinema mudo de Chaplin e Buster Keaton, o silêncio de Bergman, as cores de Almodóvar e no teatro é inevitável dizer, mas gosto muito do trabalho do Lazzaratto, por motivos óbvios, e do Felipe Hirsch, Márcio Meirelles e o trabalho dos Clowns de Shakespeare.

Aqui Estamos com Milhares de Cães Vindos do Mar
Quando: Sábado, 20h, domingo, 19h. 110 min. Até 31/5/2015
Onde: Espaço Elevador (r. Treze de Maio, 222, Bela Vista, São Paulo, tel. 0/xx/11 3477-7732)
Quanto: R$ 30
Classificação etária: 14 anos

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Velson DSouza03398x10 low res Entrevista de Quinta   Velson D’Souza troca SP por Nova York e conquista Broadway

Ator Velson D'Souza trocou São Paulo por Nova York e não se arrepende - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O ator brasileiro Velson D’Souza realiza o sonho de muitos colegas de profissão: atualmente trabalha na Broadway, em Nova York.

O moço está no elenco da peça I Catch You Dreaming, escrita pelo porto-riquenho Rafael Albarran e que transformou-se em sucesso de público na maior cidade dos EUA, no Teatro Flamboyan.

Na obra, faz o papel de um jovem gay que tem uma família católica e se apaixona por um ator.

A carreira do rapaz em solo norte-americano é cuidada pela agente Ann Steele, além dos menagers da Richard Rosenwald Associates. Ele ainda atua com dublagens na Stewart Talent e na Abrams Agency. Inclusive foi convocado para dublar o craque Neymar na campanha mundial da Nike na última Copa.

Antes de partir para o sonho americano, Velson atuou em espetáculos como o infantil A Odisséia de Arlequino, que levou o Prêmio APCA de melhor elenco, e A Sessão da Tarde, sucesso da Cia. Teatro Rock que ganhou o Prêmio Femsa.

O Atores & Bastidores do R7  conversou com o rapaz sobre o atual momento internacional de sua carreira nesta Entrevista de Quinta. Ele confessou que o ator é mais respeitado nos EUA do que no Brasil.

Leia com toda a calma do mundo.

I Catch You Dreaming 1 Entrevista de Quinta   Velson D’Souza troca SP por Nova York e conquista Broadway

Cena da peça I Catch You Dreaming: sucesso da Broadway tem brasileiro no elenco - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi partir para o sonho de atuar nos EUA?
VELSON D’SOUZA — Quis fazer um intercâmbio entre as duas culturas. Sempre fui fascinado pela cultura norte-americana. Quando houve a possibilidade de fazer a mudança, não pensei duas vezes. O desafio também me interessou muito.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você pensa em voltar?
VELSON D’SOUZA — Hoje minha base é aqui em Nova York e tenho projetos neste momento que impossibilitam minha ida ao Brasil. E minha intenção é continuar fazendo o intercâmbio entre as duas culturas aqui nos EUA e executar aqui projetos culturais similares aos que fiz parte no Brasil.  Mas recebi sondagens ano passado e esse ano para projetos de cinema e teatro em São Paulo. Seria um prazer poder trabalhar em projetos no Brasil no futuro, não sei quando acontecerá. Tudo depende do projeto e se este se encaixa na agenda daqui.

I Catch You Dreaming 3 Entrevista de Quinta   Velson D’Souza troca SP por Nova York e conquista Broadway

O ator em cena de I Catch You Dreaming - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi se adaptar a Nova York? Foi desafiante?
VELSON D’SOUZA — A adaptação leva um tempo. Nova York é uma cidade muito cara e muita gente pensa que Nova York é a Times Square, a Estátua da Liberdade, etc. Nova York é muito mais que isso. Eu acho que a adaptação à culinária e ao estilo de vida de uma cidade que move num ritmo muito superior a uma cidade como São Paulo, por exemplo, são os grandes desafios. Ah! Para brasileiros, diria que com certeza o tempo. Em Nova York você tem a experiência das quatro estações do ano ao extremo. É tremendamente quente no verão e úmido. No inverno, é intensamente frio e seco!

MIGUEL ARCANJO PRADO — Onde percebeu mais dificuldade para um ator: em São Paulo ou em Nova York?
VELSON D’SOUZA — Depende. Cada lugar tem suas dificuldades e é diferente. No Brasil, existem poucas oportunidades para o ator. Produtores sérios passam anos tentando aprovar seus projetos em leis e depois anos tentando captar o dinheiro para realização do projeto. No Brasil, não existe um sindicato sério, que lute de verdade pelo ator. Bom, existir até existe. Acho que o ator no Brasil é muito explorado e pouco reconhecido. E também parece que é cada um por si. O povo só vai ao teatro no Brasil para ver ator famoso. Talvez eu esteja sendo um pouco radical, porém, é extremamente difícil para o ator viver só disso no Brasil. Nos EUA, é um pouco diferente. O ator é muito mais respeitado. O povo vai ao teatro, e eu não estou apenas falando de Broadway. Mas tem muito teatro regional que tem casa cheia todo espetáculo. Sem contar que nos Estados Unidos existem sindicatos para cada área que protegem o ator (não somente atores mas todos envolvidos, diretores, câmera man, etc). Pra você ter uma ideia, o ator que faz um comercial que vai passar em rede nacional tem contrato supervisionado pelo sindicato , SAG-AFTRA, recebe um valor fixo para gravar o comercial, e depois, recebe um valor por cada vez que o comercial passa na TV. O ator aqui é respeitado e protegido. Seria uma maravilha se isso acontecesse no Brasil. Claro que aqui tem suas dificuldades também, porém tem muito mais oportunidades.

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 Entrevista de Quinta   Sou a dramaturga da masmorra, diz Dione Carlos

A dramaturga Dione Carlos: em busca de um teatro que abarque as diferenças - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A manhã é de sol e o jardim da Casa das Rosas, em plena avenida Paulista, cria uma poesia em meio a tantos prédios. É como se o lugar fosse uma suspensão poética imersa no caos ao redor. É este ambiente que a dramaturga Dione Carlos escolheu para nossa conversa. Chego e ela já me espera sentada em uma das mesas do café.

Ela tem muita coisa a contar. Afinal de contas, seu 2015 já começou pulsante no teatro. Está com duas peças suas em cartaz ao mesmo tempo, Mamute, com a Cia. do Mofo, no Espaço da Cia. do Pássaro, e Bonita, no Sesc Ipiranga. A primeira usa uma notícia de jornal sobre um corpo mumificado para discutir as relações frias nos tempos de hoje. A segunda é inspirada em Maria Bonita, mulher de Lampião.

No segundo semestre, estreia ainda outro texto: Mariposas, com direção de Vanessa Bruno. Também ainda prevista para este ano está Rubro,  peça a ser montada em Manaus, no Amazonas, por Danilo Reis.

Carioca radicada em São Paulo, dramaturga formada pela SP Escola de Teatro e mãe de três filhos, Dione Carlos encontra, aos 37 anos, a segurança de uma escolha profissional que tanto buscou.

Este foi um dos temas, entre tantos outros, nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, na qual fala sobre sua vida e seu teatro.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como surgiu a dramaturga em você?
DIONE CARLOS — Comecei a escrever na adolescência, com diários. Nunca me vi como escritora. Achava algo distante. Venho de família simples, sem referência de artista ou escritor na família. Mas as pessoas me diziam que deveria investir. Fazia teatro na escola, mas via a carreira artística como algo distante.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você queria ser?
DIONE CARLOS — Eu queria ser jornalista e cheguei a cursar na Metodista, em São Paulo, mas não terminei. Vi que não era a minha. Uma professora me disse que meus textos eram muito poéticos e que eu estava no lugar errado [risos].

 Entrevista de Quinta   Sou a dramaturga da masmorra, diz Dione Carlos

Dione Carlos: por pouco a dramaturga não foi jornalista - Foto: Angela Belei

MIGUEL ARCANJO PRADO — E aí surgiu o teatro?
DIONE CARLOS — Acabei indo para o teatro tarde. Tentei várias coisas antes. Foi difícil lidar com a frustração de não ter gostado de jornalismo, porque era uma certeza que eu tinha muito. Quando tentei medicina veterinária vi que era o fundo do poço de não saber o que queria. Aí fui fazer teatro. Ganhei um presente do meu marido: um curso no Globe-SP, com a direção artística do Ulysses Cruz. No curso vi que realmente era minha vocação. Estava com 28 anos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Mas é bom começar tarde porque você não perde tempo.
DIONE CARLOS — A informação encontra a vivência e vira conhecimento. Lembro que o curso era muito voltado para televisão e propaganda. Mas o Marcos Daud, o coordenador pedagógico, me dizia que meu lance era o teatro.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E a escrita?
DIONE CARLOS — Sempre tive relação próxima com textos. A primeira vez que li Macbeth, de Shakespeare, fiquei muito impressionada. Enquanto as pessoas estavam se aquecendo eu estava relendo o texto, tentando compreender como aquilo foi criado.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vamos voltar um pouco. Onde você nasceu?
DIONE CARLOS — No Rio, sou carioca. Fui criada no Rio, primeiro na área rural, em Santíssimo, até os cinco anos. Tinha boi passando no quintal. Minha mãe é auxiliar de enfermagem e meu pai era vendedor. Morávamos em um lugar afastado de tudo. Aos seis anos, fui para o subúrbio, morar em Quintino, o bairro do Zico, que era outra realidade. Saí do bucólico e caí no Nelson Rodrigues, com as vizinhas fofoqueiras. Sempre morei no Rio de Janeiro que não era o das novelas de Manoel Carlos [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO — E São Paulo?
DIONE CARLOS — Eu me apaixonei por um paulistano, o Carlos Lima. Vim para cá e estou com ele até hoje. Vinte anos já. Tinha 19 anos quando cheguei em São Paulo, e cheguei com primeiro filho, o Danilo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Dizem que é bom ter filho cedo.
DIONE CARLOS — É... Eu também acho. Para mulher faz toda a diferença. Você vê: eu fiz o caminho todo inverso, primeiro a família, e depois a profissão. Então, agora é a minha hora [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO — E você teve mais filhos?
DIONE CARLOS — Depois vieram os gêmeos, Dionne e Malcom , que agora vão fazer 13. O Danilo já está com 18 anos.

 Entrevista de Quinta   Sou a dramaturga da masmorra, diz Dione Carlos

Dione Carlos, em retrato feito por Bob Sousa - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o teatro foi ficando mais forte?
DIONE CARLOS — Sim. Antes de terminar a Globe-SP, fiz Oficina do Teatro Promíscuo do Renato Borghi e do Elcio Nogueira. Tinham mais de 200 candidatos e eles escolheram 20 atores e fui selecionada. Passei dois anos estudando com eles. Sempre escrevia minhas cenas, acho que ali já tinha a dramaturga. Pegamos um Proac circulação e viajamos São Paulo. Foi quando descobri que minha filha tinha autismo. Aí eu tive de optar.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi?
DIONE CARLOS — Foi com a menina, a Dionne. Primeiro é um luto, você sofre um baque. Ninguém se prepara para ter uma criança especial. Ela cumpriu todas as etapas esperadas até os dois anos. Então, não percebi nada. Quando tirei a amamentação, ela começou a apresentar os sintomas, ficava com olhar parado, ficava horas olhando a parede. Mãe sente. Comecei a ver que minha filha era diferente. A pediatra falava que era absurdo comparar a menina com o menino. Quando procurei a fonoaudióloga ela me disse que minha filha tinha características do autismo. Ao mesmo tempo era o momento que eu estava começando a me descobrir profissionalmente. Mas o amor de mãe é maior e eu resolvi parar para apoiá-la. Meu marido achou um absurdo, porque ele sempre me apoiou no teatro.

dione carlos malcom lima Entrevista de Quinta   Sou a dramaturga da masmorra, diz Dione Carlos

Dione Carlos descobriu na escrita para o teatro sua vocação - Foto: Malcom Lima

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você voltou para o teatro?
DIONE CARLOS — Meu marido me avisou que iriam abrir a SP Escola de Teatro e que teria curso de dramaturgia. Fui fazer o teste com a Marici Salomão e passei. Fui da primeira turma. Foi um presente do destino. Conheci muita gente, Rogério Toscano, Noemi Marinho, Newton Moreno, a própria Marici...

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi ter o contato com a técnica?
DIONE CARLOS — Foi fundamental. Acredito muito na intuição, mas a formação é fundamental. Você precisa de ferramentas para expandir o seu repertório. E o dramaturgo precisa de repertório. Tem que viver.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vida não te falta.
DIONE CARLOS — Não mesmo. Tem que viver, ler, se informar, conhecer outros dramaturgos, os ancestrais, se não olha para trás você não constrói nada. Sou muito ligada à oralidade, venho de família com religião de tradição africana, que é de base oral, passada de boca em boca, isso tem uma riqueza muito grande. Tenho muita admiração por essa forma poética de habitar o mundo através da fala. Para mim foi fundamental entrar em contato com o que já havia sido feito e com quem estava fazendo teatro naquele momento, foi uma troca muito grande na SP Escola de Teatro.

MAMUTE foto Tathy Yazigi baixa2 Entrevista de Quinta   Sou a dramaturga da masmorra, diz Dione Carlos

Imagem de divulgação da peça Mamute, de Dione Carlos, em cartaz no Espaço da Cia. do Pássaro, em São Paulo - Foto: Tathy Yazigi

MIGUEL ARCANJO PRADO — Tem o dramaturgo de gabinete, o dos processos colaborativos... Qual tipo de dramaturga é você?
DIONE CARLOS — Eu brinco que sou a dramaturga da masmorra. É a masmorra interior em que eu me coloco, da crueldade artaudiana. O primeiro desafio que eu crio para mim é aceitar as sugestões e os desejos dos diretores. E, uma vez na masmorra, que não chega a ser uma masmorra medieval, mas é dura e necessária para a criação, eu consigo me desafiar e me expandir. Porque, quando sento e escrevo, sempre o texto vai para lugares inesperados.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como surgiu Mamute?
DIONE CARLOS — Eu fui assistir a Hotel Trombose, a peça anterior dos meninos da Cia. do Mofo. Na saída, o Fernando Gimenes, o diretor, me procurou e me disse que havia lido uma noticia de jornal de uma mulher que ficou mumificada 42 anos em um apartamento. Fui atrás da noticia e encontrei várias histórias semelhantes, inclusive em São Paulo. Disse que queriam fazer uma peça a partir disso. Pensei no mamute que foi encontrado ainda com sangue. E pensei na indiferença nas relações na sociedade que a gente vive. Quis trazer para a cena a alteridade no sentido da diferença.  Eu tenho uma filha autista e sempre vou trazer a diferença para o meu teatro. Quero que as pessoas se acostumem a ver coisas que elas não reconhecem. Para não ficarem só acostumadas a visões estereotipadas do gay, da criança especial, do gringo com sotaque. É importante ter quebras, expandir o "realismo".

SERVIÇO DAS PEÇAS:

Mamute, de Dione Carlos, com direção de Fernando Gimenes e Carla Zanini (Cia. do Mofo)
Quando: Sábado, 21h, domingo, 20h. 60 min. Até 29/3/2015.
Onde: Espaço Cia. do Pássaro (r. Álvaro de Carvalho, 177, metrô Anhangabaú, São Paulo, tel. 0/xx/11 94151-3055)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

Bonita, de Dione Carlos com direção de Alex Araújo (Teatro Mínimo)
Quando: Terça e quarta, 21h30. 40 min. Até 15/4/2015.
Onde: Sesc Ipiranga (r. Bom Pastor, 822, Ipiranga, tel. 0/xx/11 3340-2000)
Quanto: R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia-entrada) e R$ 6 (comerciários)
Classificação etária: 14 anos

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IMG 9725 Entrevista de Quinta   Patrícia Vilela faz viciada em drogas no filme Nóia e vive desespero em cena

Patrícia Vilela em cena do filme Noia, de Elder Fraga: lançamento nesta quinta (26) - Foto: Glauco Bernardino

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O mundo de alguém entregue ao vício é desvendado no filme Nóia, dirigido por Elder Fraga e com roteiro de Maristela Bueno. E quem dá vida a todo este desespero é a atriz Patrícia Vilela, gaúcha radicada em São Paulo. O curta será lançado nesta quinta (26), às 20h, no MuBE (av. Europa, 218, Jardins, São Paulo; ingresso a R$ 5). Ainda estão no elenco Alexandre Barros, Angela Barros e Fransérgio Araújo.

A história é baseada em fatos reais e mostra a angústia de uma mulher completamente em crise por conta de sua dependência química. Maristela Bueno, que criou o roteiro após pesquisa com familiares de usuárias de drogas e mulheres que se envolveram com traficantes e usuários, afirma que foi o trabalho de Patrícia no teatro que a fez ganhar o papel. "Precisava de uma atriz com atuação visceral, despida de freios morais, pois a personagem exigia alguém que superasse suas limitações e ao mesmo tempo expressasse com delicadeza a subsistência de uma mulher abandonada à própria sorte", afirma.

A roteirista elogia o resultado: "Patrícia foi muito além do que o texto propunha, doou-se completamente, exacerbando seu talento numa atuação selvagem e sublinhada de emoções contraditórias. Houve uma sinergia tão forte entre o elenco que resultou num excelente conjunto de interpretações".

Elder Fraga, o diretor, também ressalta a entrega. "Patrícia fez um trabalho excelente. Pegou um personagem difícil e deu humanidade. Minha sorte foi ter um elenco incrível. Patrícia é grande atriz e espero voltar logo para o set com ela, que bateu um bolão com os outros atores, Alexandre Barros, Angela Barros e Fransergio Araújo. Achei fantástico poder pesquisar e trabalhar em cima das alucinações que muitos usuários de drogas tem, as vozes que eles ouvem, enfim, não posso contar muito senão entrego o filme e estrago a surpresa".

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Patrícia Vilela fala sobre o desafio de viver uma personagem tão complexa.

Leia com toda a calma do mundo.

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Patrícia Vilela vive viciada em drogas que entra em desespero no filme Noia - Foto: Glauco Bernardino

MIGUEL ARCANJO PRADO —Como surgiu o convite do curta?
PATRÍCIA VILELA — O convite partiu da roteirista e produtora Maristela Bueno, que está investindo muito em produção para cinema, inclusive com outros projetos de curtas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual o maior desafio em fazer esta personagem?
PATRÍCIA VILELA — Personagens são sempre um desafio. Com a experiência fiquei mais segura, mas não menos ansiosa e preocupada em fazer o melhor. O desafio desta personagem foi imprimir humanidade e verdade, porque personagens assim correm o risco de cair no estereótipo ou overacting, principalmente para o cinema, onde a tela aumenta cem vezes o seu rosto.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você construiu a personagem?
PATRÍCIA VILELA — A partir dos ensaios e, através da orientação e direção firme do Elder Fraga, fui entendendo a personagem e todo o problema de dependência química envolvido. Pesquisei as reações físicas de dependentes e me concentrei na paranoia, no desespero e todas as angústias que envolvem as pessoas que vivem numa situação de limite. Fiquei muito livre para criá-la, me senti segura nas gravações com uma equipe superprofissional, colegas de cena talentosos e um diretor, Elder Fraga, focado no trabalho do ator.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Mudando um pouco de assunto, você gostou de Birdman, do mexicano Iñarritu, ter ganhado o Oscar?
PATRÍCIA VILELA — Ainda não vi o filme. Mas achei ótimo um latino-americano ganhar. A América é multicultural. Se o vencedor é talentoso e mereceu, é isso que importa. Os latino-americanos vêm se destacando e é natural receber prêmios e o respeito do público e crítica.

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Patrícia Vilela contracena com o ator Alexandre Barros em Noia - Foto: Glauco Bernardino

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem relação frequente com o cinema como atriz?
PATRÍCIA VILELA — Atuei nos curtas Dark Angel, de Paulo Suckow, O Homen Perfeito e Suas Mentiras, de Thais Vetorelli, Versus, com roteiro de Roberto Soares e direção de Rodrigo Macedo, e Olho Mágico, de Wagner Molina. E, com direção de Cauê Angeli, o longa Whisky e Hambúrguer, que está em processo de finalização, com a trilha sonora composta especialmente por Marcelo Gross, guitarrista da banda Cachorro Grande. O filme é a peça escrita e dirigida por Mário Bortolotto, com que divido a cena e que estreou no ano passado no Festival de Teatro de Curitiba. E ainda tem mais dois curtas para este ano. E quero fazer muito mais cinema, porque sempre foi minha paixão.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Tem mais projetos para 2015?
PATRÍCIA VILELA — No momento, estou captando para um projeto de peça infantil que vou dirigir e produzir, e uma peça adulta onde vou atuar e produzir.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Patrícia, vamos falar de outro tema bem atual: você está com medo da crise hídrica?
PATRÍCIA VILELA — Tenho muita preocupação sim. Infelizmente muitas coisas no nosso país são resolvidas tardiamente. Sem planejamento algum, estamos à mercê da sorte que a chuva venha. Mas me espanta que muitas pessoas nunca pensaram que isso poderia acontecer. Nunca pensaram sequer em economia da água, desperdiçando sem dó. Pena que só no perigo eminente as pessoas têm consciência.

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Patrícia Vilela (dir.) abraça a atriz Ângela Barros no set de Noia - Foto: Glauco Bernardino

MIGUEL ARCANJO PRADO — Voltando à temática do filme, você é a favor da liberação da maconha no Brasil como ocorreu no Uruguai?
PATRÍCIA VILELA — Sou a favor da liberdade. Da liberdade de pensamento, de criação, expressão principalmente liberdade das escolhas do indivíduo. Mas escolhas implicam em responsabilidade. Será que o Brasil está preparado para isso?

MIGUEL ARCANJO PRADO — E como acha que o problema das drogas deveria ser resolvido? É um caso de polícia ou de caos social?
PATRÍCIA VILELA — Acho que é mais um problema de saúde pública do que policial ou social. O que falta é dar suporte aos dependentes. Se o governo oferecesse este suporte já seria um bom começo para resolver o problema.

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Patrícia Vilela em cena do curta Noia: "Falta dar suporte aos dependentes" - Foto: Glauco Bernardino

 

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ENO 0117 Entrevista de Quinta: Voltamos à idade média, diz Ary Fontoura

O ator Ary Fontoura, curitibano, 82 anos, em SP com a peça O Comediante - Foto: Eduardo Enomoto

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos EDUARDO ENOMOTO

Ary Fontoura, quando anda por São Paulo, lembra-se de sua adolescência. Foi na cidade, aos 17 anos, durante uma visita com sua turma de escola, que viu, fugido de seu professor, Cacilda Becker no palco do TBC. Ali, decidiu que ser ator era sua vida.

Deu certo o sonho daquele menino. Aos 82 anos, 50 deles como ator contratado da Globo, tornou-se um dos artistas mais conhecidos e admirados do País.

Ele está em cartaz até o dia 15 de março em São Paulo, no Teatro Raul Cortez, com a peça O Comediante. A montagem é a última direção de José Wilker no teatro, que morreu repentinamente, vítima de um infarto, em abril do ano passado, durante o processo de ensaios. Anderson Cunha, que era seu assistente, tomou as rédeas e finalizou a obra, que já esteve em cartaz no Rio, com sucesso.

O texto de Joseph Meyer mostra um ator, Walter Delon, papel de Fontoura, que vive preso às lembranças do passado e tenta recuperar o sucesso perdido com uma autobiografia. No processo do livro, revive suas lembranças, imersas numa mistura de realidade e ficção.

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Ary Fontoura fala sobre a peça, a partida de Wilker e o que pensa do teatro e do desrespeitos que artistas de sua geração sofrem nos dias atuais.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você é um artista que trabalha muito, sempre com reconhecimento. Teve algum período que você gostou mais?
ARY FONTOURA — Olha, havia uma época na televisão muito boa. Falo do fim dos 1960, 1970. Eu era um dos atores preferidos do Dias Gomes, que perdemos inclusive aqui em São Paulo, num acidente de carro. Eu fiz dez novelas com ele: A Ponte dos Suspiros, Bandeira 2, Assim na Terra como no Céu, O Espigão, Roque Santeiro... Trabalhar com ele é uma saudade que eu tenho. Tenho 50 anos de Globo e foi esta a época que eu mais gostei. Você sabe como o dia começou na Globo?

ENO 0119 Entrevista de Quinta: Voltamos à idade média, diz Ary Fontoura

Para Ary Fontoura, parceria com Dias Gomes foi glória na carreira - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como?
ARY FONTOURA — Ele já escrevia para teatro e cinema. E aí o doutor Roberto [Marinho] queria ele no time de autores da Globo. O Dias começou a escrever na Globo praticamente foragido, por conta da política, que naquela época era tudo muito complicado [Dias Gomes era comunista e o Brasil vivia tempos de ditadura]. O doutor Roberto sabia de seu talento e queria ele de qualquer jeito. Ele falou, eu não posso, doutor Roberto, assinar "uma novela de Dias Gomes". Vão censurar. Aí botaram o nome dele de Stela Calderón. Foi o pseudônimo que ele usou para começar. Foi a Stela Calderón que fez A Ponte dos Suspiros, a primeira novela dele na Globo e eu estava nela.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Ary, falando um pouco da peça, vocês estavam ensaiando quando o Wilker morreu. Imagino que foi um momento muito difícil para todos.
ARY FONTOURA — O que acontece é o seguinte. Eu conheço o Wilker desde 1964. Ele era do Ceará, e eu, de Curitiba. Frequentamos muito no Rio os mesmos lugares do teatro, igual aqui em São Paulo tem o Gigetto. Começamos trabalhando juntos no teatro, na época difícil da ditadura militar. Ele merece ser lembrado com humor. A ida repentina dele foi uma brincadeira.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Realmente foi uma morte inesperada naquela manhã de sábado, 5 de abril de 2014...
ARY FONTOURA — Na sexta-feira anterior à morte, soube que ele iria a Nova York, onde faria uma consulta médica dos olhos, uma cirurgia de catarata. Ele falou: "Amanhã, antes da viagem, vamos passar tudo". Aí, eu perguntei: "E a cena final?". Ele me deu aquele sorriso irônico e me disse: "A última cena a gente marca depois"... A gente se acostuma com a vida, mas não solucionou a morte, sobretudo a que vem inesperadamente. Eu demorei alguns dias para entender que ele foi embora.

ENO 0106 Entrevista de Quinta: Voltamos à idade média, diz Ary Fontoura

Ary Fontoura conta que morte de Wilker abalou o elenco, que resolveu homenageá-lo seguindo adiante com o trabalho da peça O Comediante - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como vocês resolveram continuar a peça?
ARY FONTOURA — No teatro a gente lida com emoções no palco, mas não atua 24 horas por dia. Nos reunimos para tratar do assunto e chegamos a uma certeza: que o Anderson tinha de continuar o espetáculo. Ele é jovem, simpático, gentil, com as mesmas características do Wilker e com vontade de crescer. Ele é tão dedicado que tinha todas as anotações dos ensaios. Porque o Wilker era muito metódico.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que lhe chamou a atenção em O Comediante?
ARY FONTOURA — Queria fazer uma peça que me desafiasse. O texto é de um autor jovem. A peça é baseada em Crepúsculo dos Deuses, é uma peça muito ligada ao cinema. O Wilker queria fazer uma coisa tecnológica, aí ele foi para Nova York e voltou zangado, porque um ator do Breaking Bad estava fazendo uma coisa parecida com o que ele queria fazer, interagindo com o público e com imagens. Eu só falava para ele: "Tomara que tenha público". O equipamento que ele queria usar custava o dobro do patrocínio que tínhamos do Bradesco! E iria precisar de 18 técnicos, imagine só viajar com isso? Eu falava para ele: "Você está querendo fazer um musical da Broadway". E ele me respondia: "A gente tem de pensar grande". E eu devolvia: "Você pensa grande demais. Se você voltar outra vez a Nova York onde vamos parar?" [risos]. Depois, ele voltou e me disse. "Eu acho que a peça é muito mais que uma projeção, mas não é uma simples projeção!" [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO — Foi complicado estrear a peça sem ele?
ARY FONTOURA — Sim. Primeiro, achamos que fazer uma homenagem não era conveniente. Pensamos: será que não vão pensar que estávamos nos aproveitando da morte dele? Nós precisávamos era trabalhar. Voltamos para a mesma sala de ensaios. Às vezes, você precisa enfrentar. Vai doer? Vai, mas é preciso. Agora, vamos deixar o Wilker descansando.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Está certo. Você estava afastado do teatro havia cinco anos?
ARY FONTOURA — Sim. Está muito difícil fazer teatro hoje. Antes, você pensava assim: tinha 50 mil, vendia o telefone e montava uma peça. Aí... era um sucesso ou um fracasso [risos]. Agora, você não consegue montar uma peça sem um auxílio extra. Voltamos à era medieval! Você precisa de apoio de hotel, da companhia aérea, de restaurante. E cada apoio custa muito. Não existe mais o público que banca a obra. Até porque todo mundo paga meia-entrada, quando paga. Idoso, mesmo os que têm dinheiro, pagam meia, estudante, mesmo que não estude, também paga meia... Resultado, a bilheteria é fraquíssima! Não poderíamos sobreviver de bilheteria. E na política cultural dos governantes, o teatro sempre é assunto secundário.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por quê?
ARY FONTOURA — Porque não querem deixar o povo raciocinar. Vejo colocando a gente sempre no canto. Falam de democracia do povo para o povo, é tudo mentira, tudo literatura. Isso afeta a vida de todos nós, não vai afetar a diversão? O teatro é cultura, mas também é diversão. Você precisa de cuidar de outras coisas para sobreviver. Tem de ter educação, saúde.

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Ary Fontoura não acredita nas promessas de políticos para o teatro - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você não acredita quando os políticos dizem que vão ajudar o teatro?
ARY FONTOURA — Não. As promessas são infundadas. Quando chego a São Paulo e vejo uma maravilha de teatro como o Raul Cortez, onde a gente está agora, a gente não acredita. Eu tenho 82 anos e sempre foi assim, os governantes nunca ligaram para o teatro. Infelizmente, as coisas mudam para pior. Moro há muitos anos no Rio e lá, há 20 anos, não se constrói novos teatros. Se bem que teve esse novo, que custou milhões, o Cidade das Artes, que é um monstro cinza, não tem uma bandeira ou um cartaz na porta que diga: aqui se faz teatro. É horroroso. Até o jardim é mal cuidado. Tudo é ruim. Não há interesse no teatro. Essa é a política cultural que nos oprime. E isso é o que existe neste País.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quais são suas lembranças de São Paulo?
ARY FONTOURA — Na verdade não sou carioca nem paulista, sou curitibano. Morava em Curitiba e, quando comecei a fazer teatro, a cidade tinha 200 mil habitantes. Eu sabia que minha permanência lá seria por tempo determinado. Aí houve uma apresentação da EAD [Escola de Arte Dramática] do dr. Alfredo Mesquita lá em Curitiba. Aquilo me bateu, eu tinha 17 anos. Pensei, eu tenho que sair daqui e ir para São Paulo, meu Deus é isso que eu tenho de fazer! Perguntei ao doutor Alfredo, que estava lá em Curitiba, como seria a vida de ator em São Paulo. Ele me deu umas coordenadas. Fiquei com isso guardado.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E quando veio para São Paulo pela primeira vez?
ARY FONTOURA — Aí, quando eu tinha 19 anos, eu vim para um simpósio de literatura infanto-juvenil com a turma do Colégio Estadual do Paraná, no Teatro Cultura Artística. Basta te dizer que eu apareci muito pouco no seminários [risos]. Foram dez dias que vi muito teatro. Fui ao TBC [Teatro Brasileiro de Comédia], vi Cacilda Becker, me encantei por São Paulo de uma maneira tal que não queria mais sair.

ENO 0124 Entrevista de Quinta: Voltamos à idade média, diz Ary Fontoura

Ary Fontoura: "Tirava foto no vale do Anhangabaú para provar que estava em São Paulo" - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — E você ficou?
ARY FONTOURA — Não! Estávamos hospedados no Estádio do Pacaembu. No domingo, quando teríamos que ir embora para Curitiba, eu me escondi no banheiro, mas me esqueci que dava para ver, por cima, que eu estava lá. O maldito do professor teve a ideia de subir numa cadeira e me viu pelo alto do boxe. Ele me disse: "você  pode até ficar depois, mas agora vai ter de voltar comigo, se quiser ficar tem de vir por você mesmo". Foi a pior viagem da minha vida, 24 horas dentro de um trem, eu chorando. Foi horrível voltar para Curitiba, eu não queria ficar lá, minha família me oprimia. Depois, vim para São Paulo por conta própria. Tirava fotografia no vale do Anhangabaú para mandar para a minha família e provar que eu estava em São Paulo. Então, sempre venho com prazer para cá. O Rio acabou sendo a minha casa, o lugar que escolhi para viver, até porque comecei a fazer televisão, mas eu amo São Paulo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O Comediante lida com um ator mais velho que tenta voltar aos holofotes. Como é a questão do ego na profissão de ator?
ARY FONTOURA — O ego é a pior coisa de todas na vida de qualquer ator. É uma profissão onde a gente exerce sobretudo esse culto ao eu. Baseado nisso, me agrada muito que o personagem seja engraçado, porque ele é tragicômico e profundamente humano. É uma histórica que provoca uma série de problemas no sentido do futuro. A pior coisa na arte é um individuo querer aparecer novamente e não poder. Há milhares pessoas que caem de repente e não são mais tão midiáticos. E isso acontece de uma maneira cruel dentro da própria televisão. Hoje em dia, o numero de atores da maior idade estão sendo jogado de escanteio. Está certo que os jovens cheguem e tomem seus lugares. Acredito que é preciso que haja renovação, mas é preciso que haja também entendimento de que quem ainda está aí tem uma capacidade de realizar e tem uma história, que hoje em dia, em pouquíssimas ocasiões, é respeitada. Você chega e as pessoas perguntam que nome você tem. Você trabalha anos e anos em uma organização e quando vai assinar um contrato tem um executivo da vida que entrou ali outro dia e não tem nada a ver com sua área e lhe pergunta: "Você veio assinar o contrato? Qual é seu nome, por favor?". Aí, ou você fica ou vai embora, não é? O Delon, meu personagem na peça, está inserido neste contexto. É uma pessoa esquecida. E, por ser esquecido, vive todo um conflito de uma profissão.

O Comediante
Quando: Sexta, 21h30; sábado, 21h, domingo, 19h. 90 min. Até 15/3/2015
Onde: Teatro Raul Cortez (r. Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, metrô Trianon-Masp, São Paulo, tel. 0/xx/11 3254-1631)
Quanto: R$ 70 (sexta) e R$ 80 (sábado e domingo)
Classificação etária: 12 anos

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Valquiria Ribeiro 7 Entrevista de Quinta   Valquiria Ribeiro faz 30 anos de Carnaval: Foi entrada para carreira de atriz

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Musa da Vai-Vai e da Mangueira, além de ser atriz da Record, a paulistana Valquiria Ribeiro conta os minutos para começar a folia. Afinal, neste 2015 ela completa 30 anos de Carnaval.

A efeméride não é para qualquer uma, ela sabe muito bem. Foi por brilhar na avenida que ela acabou galgando passos importantes na carreira de atriz.

A Vai-Vai homenageia Elis Regina em seu desfile deste ano. Já a Mangueira, no Rio, desfilará o enredo Mulher Brasileira em Primeiro Lugar. Ambas escolas destacaram lugar importante a Valquiria em sua passagem pelo sambódromo.

Em São Paulo, ela desfila na madrugada de sábado. No Rio, na de domingo. Assim, revela, nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, que será uma correria danada o seu Carnaval.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você está completando 30 anos de Carnaval em 2015. O que a folia representa na sua vida?
VALQUIRIA RIBEIRO — Eu não consigo viver sem o Carnaval. Completar 30 anos de avenida, não é fácil. É muita dedicação, empenho e principalmente saúde. Mas quando se ama, qualquer esforço vale a pena. O Carnaval, inclusive, foi uma grande entrada para minha carreira como atriz, a exposição positiva me ajudou muito quando comecei a estudar teatro e ingressar nos primeiros trabalhos.

Valquiria Ribeiro 4 Entrevista de Quinta   Valquiria Ribeiro faz 30 anos de Carnaval: Foi entrada para carreira de atriz

Valquiria Ribeiro: 30 anos desfilando no sambódromo - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você virá de musa da Vai-Vai mais uma vez neste ano. Qual será sua fantasia?
VALQUIRIA RIBEIRO — Vou representar a canção Aquarela do Brasil, no enredo que exalta a vida de uma das mulheres mais influentes e poderosas da história da música brasileira, Elis Regina.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E qual será a fantasia na Mangueira?
VALQUÍRIA RIBEIRO — Em São Paulo, a Vai-Vai conta a vida de uma grande mulher e, coincidência, ou não, a Mangueira também fala sobre a força da mulher no cenário atual. Com o enredo Mulher Brasileira em Primeiro Lugar, que é o refrão de uma música de Benito di Paula, que inspirou o enredo. A escola mostrará a força e status  da mulher brasileira. Vou estar à frente do quinto carro, que fará uma homenagem às grandes autoras e escritoras, que revolucionaram a sociedade e deixaram sua marca.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem algum cuidado especial?
VALQUIRIA RIBEIRO — Eu malho bastante e me alimento bem. Quando chega essa época de Carnaval, eu sempre fecho a boca e troco o treino aeróbio por um treino de hipertrofia. Assim, o corpo aguenta o impacto de sambar sem parar por mais de uma hora na avenida sem ter lesões.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E você vai aguentar desfilar em São Paulo e, logo depois, no Rio?
VALQUIRIA RIBEIRO —Olha, vou sair da avenida direto pro aeroporto! Não sei nem se vou conseguir dormir o suficiente. Me preparei psicologicamente pra isso e sei que dará tudo certo!

Valquiria Ribeiro 3 Entrevista de Quinta   Valquiria Ribeiro faz 30 anos de Carnaval: Foi entrada para carreira de atriz

Valquiria Ribeiro desfila na Vai-Vai, em SP, e na Mangueira, no Rio - Foto: Divulgação

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