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beth goulart foto eduardo ielen Entrevista de Quinta: Vista por 700 mil pessoas, Beth Goulart sonha com público de 1 milhão para Simplesmente Eu, Clarice Lispector

Beth Goulart conta que sentiu o carinho do público nas mais de cem cidades onde esteve - Foto: Eduardo Ielen/Clix

Por Miguel Arcanjo Prado
Foto de Eduardo Ielen

Não é qualquer peça, no Brasil atual, ainda mais em se tratando de um monólogo, que pode comemorar os números que Beth Goulart vive com o espetáculo Simplesmente Eu – Clarice Lispector.

Na estrada há cinco anos, a montagem já foi vista por mais de 700 mil pessoas em 982 sessões em 118 cidades brasileiras.

E os números não querem parar de crescer. Afinal, a obra volta ao cartaz nesta sexta (17), no Teatro Fashion Mall, no Rio, onde fica até o fim de julho. Beth já sonha com a marca de 1 milhão de espectadores.

Na peça, Beth aproveita a semelhança física para criar, com força surpreendente, uma das mais lendárias escritoras de nossa literatura: Clarice Lispector. O desempenho soberbo da atriz no papel lhe rendeu o merecido Prêmio Shell de melhor atriz em 2010.

Nesta Entrevista de Quinta ao R7, Beth Goulart contou que sente o carinho do público a cada apresentação. Afinal, vem de uma família muito bem quista pelos brasileiros: é filha de Paulo Goulart e Nicette Bruno, um dos casais mais amados dos palcos e da TV.

Durante a conversa, Beth contou como a família lida com o tratamento do pai contra o câncer e torce por sua recuperação total. Ela também falou sobre o reencontro com o público carioca e explicou como consegue manter a obra tanto tempo em cartaz. E, ainda, revelou qual é seu maior desejo neste momento.

Leia com toda a calma do mundo:

simplesmente eu cartaz Entrevista de Quinta: Vista por 700 mil pessoas, Beth Goulart sonha com público de 1 milhão para Simplesmente Eu, Clarice Lispector

Semelhança absurda: cartaz da peça Simplesmente Eu, Clarice Lispector - Divulgação

Miguel Arcanjo Prado – Como é fazer um espetáculo que já tem cinco anos de estrada, sempre com tanto sucesso por onde passa?
Beth Goulart – É a maior alegria ter um trabalho que emociona e encanta tantas pessoas. Acredito que meu amor e admiração por Clarice me ajudaram a retratá-la com o coração. O espetáculo é meu olhar sobre ela e, neste sentido, coloco meus valores e minhas escolhas na concepção do espetáculo. Eu me utilizo de todos os elementos cênicos, como a luz, a música, a projeção, o cenário e os figurinos como auxiliares da narrativa. Com eles, desenho meus movimentos no espaço e as palavras ganham importância, assim como o silêncio. Vamos completar cinco anos de estrada em vários Estados e teatros do Brasil. Apesar de ser o mesmo espetáculo como estrutura, ele nunca é o mesmo e se renova em cada olhar.

Beth, me conta algumas apresentações marcantes, aquelas inesquecíveis.
Várias apresentações foram especiais, mas gostaria de ressaltar as apresentações no Teatro Odylo Costa Filho na UERJ, um teatro de 1.200 lugares lotados, em que fiz pela primeira vez o espetáculo em teatros grandes e senti que a magia não se perdeu. Ao contrário, se multiplicou. Outro que me marcou foi no Festival de Teatro de Curitiba, no Teatro da Reitoria, você estava lá. Foram duas apresentações muito especiais, em que senti a presença de Clarice Lispetor nos agradecimentos finais que foram de uma intensidade e de uma duração inexplicáveis e inesquecíveis. Foi muito emocionante! Para terminar, destaco o Teatro Riachuelo, em Natal, Rio Grande do Norte, com 1.500 lugares em apresentação única e totalmente lotada. Foi uma apresentação que parecia cinema, com uma boca de cena de 14 metros. Ficou lindo! Ah, lembrei de mais um. O Teatro da UFPE, em Recife, com 1.936 lugares cheios de emoção e aplausos. Na terra de Clarice fui abraçada pelo público e fiquei muito feliz.

Deve ter sido de arrepiar realmente. A peça já passou por quantas cidades?
A peça já esteve em 118 cidades pelo Brasil, vista até o momento por 703.993 pessoas em 982 sessões do espetáculo.

Uau! São números para cair para trás. E fico feliz de ver algo assim, porque hoje em dia é muito complicado peças ficarem muito tempo em cartaz. O que você acha deste movimento no teatro atual de temporadas bem curtas?
É uma pena ! É muito difícil fazer teatro no Brasil, enfrentamos muitas dificuldades.

O que espera dessa volta ao Rio?
Que tenhamos uma bela temporada para manter o espetáculo ainda por muito tempo.

Em qual tipo de teatro você acredita, Beth?
Acredito no teatro que é um espaço de liberdade, de reflexão, de atitude, de ideias. Acredito na capacidade de transformação do teatro e na força do coletivo.

simplesmente eu beth fabian Entrevista de Quinta: Vista por 700 mil pessoas, Beth Goulart sonha com público de 1 milhão para Simplesmente Eu, Clarice Lispector

Com monólogo, Beth Goulart levou o Prêmio Shell de melhor atriz em 2010 - Foto: Fabian

Quem foram seus maiores mestres no teatro?
Todos os diretores que trabalhei foram importantes e me ensinaram muito, mas gostaria de ressaltar Antonio Abujamra, meu primeiro diretor e mestre. Também destaco a Dulcina de Morais, pelo exemplo de dedicação e amor ao teatro, e Amir Haddad, um sábio na vida e na arte, que supervisionou este trabalho e alongou o meu olhar.

Como você conseguiu sustentar esta produção tanto tempo na estrada?
Tivemos patrocínio do Banco do Brasil para levantar o espetáculo e fazer as temporadas em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo . Conseguimos levar adiante o espetáculo graças ao apoio do Sesc Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio e do Sesi Rio . Também participamos de muitos festivais de teatro pelo Brasil afora.

Você pretende fazer a peça mais quanto tempo?
Enquanto houver interesse por parte do público, estarei a serviço do espetáculo.

Como foi para você levar o Prêmio Shell com este trabalho? O que sentiu na hora que viu seu nome anunciado?
Receber um prêmio sempre é um reconhecimento pelo nosso esforço e dedicação. Senti uma alegria imensa.

Se a visse agora a Clarice Lispector, o que falaria para ela?
Muito obrigada!!!

beth goulart foto fabian Entrevista de Quinta: Vista por 700 mil pessoas, Beth Goulart sonha com público de 1 milhão para Simplesmente Eu, Clarice Lispector

Beth Goulart "ressuscita" Clarice Lispector - Foto: Fabian

Beth, como você se mantém tão bonita sempre? Seu corpo é invejável, você sabe...
Agradeço o elogio. Tenho a sorte de uma genética que me favorece e tomo os cuidados normais de toda a mulher.

Você é de uma família muito querida do teatro e da TV brasileira. Sente esse carinho do público também na peça?
Com certeza, onde quer que eu vá, a imagem da família vai junto comigo. Meus pais são muito queridos e admirados .

Falando em família, como está o tratamento do seu pai [o ator Paulo Goulart, que luta contra o câncer]?
Está indo bem , se recuperando e continuando o tratamento.

A notícia da doença dele deixou a família mais unida?
Somos uma família muito amorosa. O que acontece com um atinge a todos nós. A união nos favorece.

Se você pudesse fazer um pedido agora para Deus, qual seria?
A total recuperação de meu pai. Saúde e paz para o mundo!

simplesmente eu fabian 3 Entrevista de Quinta: Vista por 700 mil pessoas, Beth Goulart sonha com público de 1 milhão para Simplesmente Eu, Clarice Lispector

De volta ao público carioca: atriz Beth Goulart fica em cartaz no Teatro Fashion Mall, no Rio, até fim de julho, com o monólogo Simplesmente Eu, Clarice Lispector - Foto: Fabian

Simplesmente Eu, Clarice Lispector
Avaliação: Ótimo
Quando: Sexta e sábado, 21h30; domingo, 20h. 60 min. Até 28/7/2013
Onde: Teatro Fashion Mall - Shopping Fashion Mall (estrada da Gávea, 899, São Conrado, Rio, tel. 0/xx/21 2422-9800)
Quanto: R$ 60 (sexta) e R$ 70 (sáb. e dom.)
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Otimo R7 Teatro PQ Entrevista de Quinta: Vista por 700 mil pessoas, Beth Goulart sonha com público de 1 milhão para Simplesmente Eu, Clarice Lispector

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marcio tito pellegrini Entrevista de Quinta – “Sou da geração do para de reclamar e vai fazer”, diz Marcio Tito Pellegrini

Membro da nova geração, Marcio Tito Pellegrini é dramaturgo, ator e diretor - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Por Miguel Arcanjo Prado

Marcio Tito Pellegrini acaba de fazer 22 anos. O que faz dele representante da nova geração do teatro brasileiro. Geração multiuso. É dramaturgo, diretor, ator, produtor, divulgador... Enfim, rala para fazer acontecer a arte na qual acredita. O sobrenome pomposo vem do irmão de seu bisavô, o ex-presidente argentino Carlos Pellegrini (1946-0906), mas conta que só sobrou a pompa.

Ele está em cartaz aos sábados, às 19h, até o fim do mês, com a primeira peça de seu grupo, A Tragédia Pop: Roberto e a Filologia das Estrelas. A obra causa burburinho no Espaço dos Satyros Um, na praça Roosevelt, reduto do teatro alternativo paulistano (leia a crítica).

Cria do Satyros, onde entrou para fazer a elenco de apoio na peça Roberto Zucco, Marcio Tito Pellegrini nasceu em São Paulo em 23 de abril de 1991. Estuda dramaturgia na SP Escola de Teatro e pensa em um dia cursar ciências sociais na USP. Enquanto isso, faz muito teatro. Do jeito que pode, de todos os modos.

Ele se encontrou com o Atores & Bastidores do R7 no bosque das esculturas do parque da Luz, no centro paulistano, em uma bela tarde de sol de outono. Falou de tudo. E se definiu como membro da “geração do para de reclamar e vai fazer”.

Leia com toda a calma do mundo:

marcio tito pellegrini 3 Entrevista de Quinta – “Sou da geração do para de reclamar e vai fazer”, diz Marcio Tito Pellegrini

Márcio Tito Pellegri é paulistano e diz que quer fazer um teatro político - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado – Você não é novo demais para se meter a escrever, dirigir e atuar?
Marcio Tito Pellegrini – Acho que sou novo, sim. É que comecei a fazer teatro com 15 anos. A vida do artista é muito intensa. No Satyros, tive uma vida muito efervescente. Montagens, amigos, projetos, enfim, muita coisa aconteceu.

Como foi sua infância?
Nasci em São Paulo, no bairro Higenópolis...

Nasceu rico.
Nasci rico, mas hoje em dia fudeu tudo [risos]... Sou de 23 de abril de 1991.

Você é do século passado, então.
Não, sou um jovem senhor dos anos 20 do século 21. Ah, faço aniversário junto com Shakespeare e o Léo Jaime [risos].

Quem são seus pais?
Minha mãe se chama Edinéia, e trabalha com alimentos, já meu pai, Mauro Pellegrini, sempre teve bar.

Você mora com os pais?
Eu moro com meus pais, mas vou voltar depois das três [risos]. Acho que isso coloca os pais no lugar de artistas também, porque de alguma forma viabilizam projetos. É tudo muito instável, eu sei, mas eles estão fazendo arte comigo.

Você namora?
Estou namorando a Amanda Magalhães. Ela é atriz e faz EAD [Escola de Arte Dramática da USP].

É filho único?
Não, isso é uma questão... Eu sou o único filho do meu pai e da minha mãe, mas tenho três meio-irmãos. Um por parte de mãe e dois por parte de pai, um deles com dois anos. Somos uma família moderna. Meu pai tem 64 anos e tem um filho bebê!

É. Seu pai está em ótima forma! [risos] O que você fazia quando era criança?
Eu lia muito. Eu sofria bullying e comecei a ler muito...

Te batiam na escola?
Não chegava a tanto. É que eu não era muito agregado.

marcio tito pellegrini 5 Entrevista de Quinta – “Sou da geração do para de reclamar e vai fazer”, diz Marcio Tito Pellegrini

Quando era criança, Marcio Tito Pellegrini gostava de ler na biblioteca - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Não se preocupa, eu também tinha um colega que me batia sempre. Hoje ele é policial militar! [risos]. Mas vamos falar de você. Você ficava lá quietinho na biblioteca da escola durante o recreio?
É... Eu passava os intervalos lendo na biblioteca. Engraçado, nunca joguei futebol, tentei jogar basquete e não deu certo... Eu não conseguia lidar com as coisas da minha idade de fato. Aí, entrei no mundo dos livros.

Como você começou teatro?
Foi aos 15 anos.

Foi por estar em uma crise?
Não, eu sempre fui assim. Eu não era de brigar, de ser revoltado. Se não gostava de algo, ignorava.

Não batia a porta do quarto na cara da sua mãe?
Não.

E como surgiu o teatro?
Como eu era essa pessoa retraída, meus pais me incentivaram a fazer teatro. Comecei a frequentar peças e fui fazer o curso da Escola de Atores Wolf Maya. Logo que entrei lá, vi que tinha uma coisa política a se fazer no teatro, mas vi que não era ali. Fiquei três anos e saí no último semestre para fazer Roberto Zucco nos Satyros.

Saiu logo na hora de tirar o DRT [registro profissional no Ministério do Trabalho]?
Pois é. Está vendo o que eu fiz na vida? Não tirei o DRT até hoje!

A Patrícia Vilela [atriz, atualmente no elenco de Malhação] foi sua professora?
Foi. Ela é ótima.

Eu gosto muito dela. E o Alberto Guzik [ator, jornalista e crítico teatral que morreu em 2010 vítima de câncer]?
Também. Ele me deu aula de história do teatro.

As pessoas têm muito preconceito com o Wolf, mas bons professores passam por lá, como a Patrícia, o Guzik, que é um cara que admiro muito. Ou seja, tem muita modelete, mas também tem como aprender, né?
Sim, no Wolf eu tive excelentes professores. Tive aula com o Zé Henrique de Paula, com a Sandra Corveloni, que ganhou melhor atriz em Cannes.

E foi o Guzik quem te levou para o Satyros?
Sim, ele convidava para ver as peças. Eu vi cinco vezes o Monólogo da Velha Apresentadora [peça na qual Guzik satirizava Hebe Camargo].

Eu também vi. Ele estava ótimo naquela peça. Acho que foi a última peça dele, né?
Pois é, ele era muito bom. Aí eu comecei a frequentar a Roosevelt e comecei a ficar sem grana para pagar o Wolf... Mas resolvi que não ia parar de fazer teatro. Chamei então a Priscilla Leão e o Marcos Santana e escrevi um texto para eles fazerm nas Satyrianas, As Dolosas Coxas.

Então, você já era meio capetinha, já tinha começado a descobrir os caminhos...
Sim, já era meio fervido. Aí, o Rodolfo precisava de alguém para parte do elenco de apoio de Roberto Zucco, aí eu fui fazer.

Você ficava pelado?
Não [risos]. Roberto Zucco foi minha primeira peça. E depois fiz as Satyrianas como dramaturgo.

Você tinha quantos anos nesta época?
17.

Ninguém devia dar bola para você...
Não dava, mas Os Satyros deu. O Rodolfo me chamou para dirigir o Satyros Teen, que acho que é o projeto mais importante que eu fiz na vida. Dirijo esse grupo, com jovens do centro da cidade há dois anos. É uma geração muito oprimida pela metrópole.

Bom, aí você foi se metendo em tudo. E você sabia o que queria da vida?
Na verdade eu sempre soube. Sempre quis ter uma postura política no teatro.

E como você entrou na SP?
O Rodolfo [García Vázquez, diretor dos Satyros] viu Cemitério dos Elefantes, peça minha que foi dirigida por Fábio Penna, e me deu uma puxada de orelha, falou “acho que não é por aí, você não quer estudar, não?”. Aí eu entrei em 2012 no curso de dramaturgia na SP Escola de Teatro.

marcio tito pellegrini 2 Entrevista de Quinta – “Sou da geração do para de reclamar e vai fazer”, diz Marcio Tito Pellegrini

"Sou cria do Satyros", diz Marcio Tito Pellegrini, fundador de A Tragédia Pop - Foto: Miguel Arcanjo Prado

E essa sua peça agora, Roberto e a Filologia das Estrelas. Como surgiu a ideia de ter seu próprio grupo de teatro?
No processo do espetáculo Satyros’ Satyricon, o Rodolfo propôs quem queria apresentar um projeto nas Satyrianas [festival teatral na primavera, na praça Roosevelt]. Eu tinha conhecido o Roberto Reiniger em uma oficina e tinha um texto sobre a vida dele. Aí me ofereci e comecei a ensaiar com atores que arregimentei no Satyricon, porque sou obsessivo. O Rodolfo viu e sugeriu que montássemos um grupo. Aí fundamos A Tragédia Pop.

Por que tem esse nome?
A minha visão como dramaturgo do grupo é que hoje em dia tudo é entendido pelo universo do pop. Se Édipo fosse hoje, a Beyoncé seria a Jocasta. Tudo que a gente louva no pop é uma coisa quase deprimente. Você escuta Thriller, do Michael Jackson, é uma música feliz, mas tem uma tristeza de fundo, um viés ressentido com o contemporâneo. E o Roberto, da peça, é um ressentido com o contemporâneo.

Como você define seu teatro?
Definir na primeira peça é difícil. Mas acho que vamos num caminho que aponta para a performatividade. Mas não importa a forma, nosso conteúdo será sempre político. Eu chamo de teatro contemporâneo. Mas o bom do contemporâneo é que está sempre no futuro.

Político de que lado?
O artista no Brasil não tem direito de querer ser petista nem tucano. Nem esquerda nem direita. Acho que temos de instaurar um lado novo, para inventar um novo Brasil. Este é o presente que vivemos? Está legal? Queremos viver à base de fármacos e McDonalds, que não deixa de ser um fármaco? Acho que o trabalho do Mano Brown nos Racionais é bom em termos de energia do discurso, de jogar essa bomba.

Você não tem vontade de fazer faculdade? Acho que você se daria bem na sociologia ou na filosofia...
É... Ainda dá tempo... Meu foco, neste ano é A Tragédia Pop. Estamos ensaiando mais duas peças. Um é teatro-dança baseado em O Estrangeiro, do Albert Cammus, e também uma outra peça, que vai se desdobrar em uma banda, baseada em Charles Bukowski. Se tudo correr bem, quero me formar na SP neste ano. E aí, no ano que vem, penso em fazer faculdade, penso muito em sociologia, em me preparar teoricamente.

Acho que vai ser importante para você. E como você dá conta de fazer esse monte de coisa: você estuda, ensaia, junta as pessoas, escreve, promove a peça no Facebook.
Acho que isso vem muito de uma insatisfação com o que tem sido feito. Então, mais do que reclamar, eu quero fazer. Sou da geração do para de reclamar e vai fazer.
E não dirijo por uma vontade clara. É que o dramaturgo hoje em dia tem de produzir. Enquanto o Zé Celso não me ligar pedindo peça, eu vou ter de me dirigir!

 

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Apesar do olhar triste nas fotos, Marcio Tito Pellegrini diz: "Sou um cara feliz" - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Você tem um olhar triste nas fotos. Mas ri aqui na entrevista. Você é triste ou feliz?
Eu sou um cara feliz. Acho que depois que a gente tem certa percepção de mundo, do sistema, a gente fica um pouco triste. Mas a gente também encontra brechas para não se deixar abater e tentar fazer alguma coisa transformadora. Só ainda não sei como administrar financeiramente o fazer teatro. Porque sobreviver disso é difícil.

Tem gente que te acha um menino que se acha demais?
Acho que muita gente evita conhecer seu trabalho para sair falando mal de você. Mesmo sem conhecer. Mas eu tenho amigos na Roosevelt e está tudo certo. Acho que, pelo menos lá, ninguém me odeia.  

Você é cria dos Satyros?
Sim, sem dúvida. Sou cria de uma visão crítica do Rodolfo. O olhar que ele imprime no Satyros para mim foi devastador. A escolha de repertório dos Satyros me move como criador, o meu olhar de mundo. É um caminho a ser seguido. Lado a lado. Porque os Satyros estão aí ainda. Quero fazer alguma coisa que faça barulho, que seja um grito como você mesmo definiu na crítica que fez da minha peça.

marcio tito pellegrini 4 Entrevista de Quinta – “Sou da geração do para de reclamar e vai fazer”, diz Marcio Tito Pellegrini

"Quero fazer alguma coisa que faça barulho", diz Marcio Tito Pellegrini - Foto: Miguel Arcanjo Prado

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lee taylor eduardo enomoto r7 Entrevista de Quinta – Antunes Filho continua meu mestre, diz Lee Taylor após saída do CPT

Lee Taylor deixou o CPT e agora comanda o NAC do Centro da Cultura Judaica - Foto: Eduardo Enomoto

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Eduardo Enomoto

Após quase uma década trabalhando diretamente com o diretor Antunes Filho, no Centro de Pesquisa Teatral, o CPT do Sesc Consolação, em São Paulo, o ator goiano Lee Taylor resolveu que era chegada a hora de seguir seu próprio caminho.

Logo após o anúncio de sua saída do CPT, notícia que causou burburinho nos meios teatrais, Lee assumiu a coordenação do NAC, o Núcleo de Artes Cênicas do Centro da Cultura Judaica, inaugurado no mês passado. 

Foi lá que ele se encontrou com Atores & Bastidores do R7 para esta Entrevista de Quinta.

Com a fala calma que lhe é característica, Lee esclareceu a polêmica sobre sua saída do CPT, onde fez história como protagonista das peças A Pedra do Reino (2006), Senhora dos Afogados (2008) e Policarpo Quaresma (2010), entre outras. Ele ainda contou como ficou a relação com Antunes, revelou os trabalhos no cinema e declarou com qual diretor pretende trabalhar.

Leia com toda a calma do mundo:

lee taylor eduardo enomoto r7 4 Entrevista de Quinta – Antunes Filho continua meu mestre, diz Lee Taylor após saída do CPT

"O mérito do mestre é habilitar o discípulo a fazer o seu próprio caminho", Lee Taylor - Foto: Eduardo Enomoto

Miguel Arcanjo Prado – Por que você resolveu sair do CPT?
Lee Taylor – Exclusivamente por uma questão financeira.

Como surgiu o convite para fazer o NAC?
Surgiu algumas semanas após a minha saída do CPT. Em um jantar informal a diretora executiva do Centro da Cultura Judaica, Yael Steiner, ao saber da minha saída, perguntou se eu teria interesse em enviar um projeto de artes cênicas para a instituição. Fiz o projeto do NAC, alguns dias depois ela aprovou sem nenhuma restrição. A Yael é a maior entusiasta do projeto, sempre aberta a novas propostas, procurando atender às nossas necessidades com muita disposição.

Qual linha você vai adotar como coordenador do projeto?
A linha da emancipação do indivíduo e consequentemente do artista, que procurará se lapidar nas experiências propostas no decorrer do curso. Vou colocar em prática a pesquisa que tenho realizado a respeito da arte do ator e de uma pedagogia para o ator.

Como é a abordagem?
É uma abordagem que buscará dar consciência ao sujeito, potencializando suas virtudes e não procurando formatá-lo em uma ou outra técnica de ator. O objetivo é dar condições para que o indivíduo alcance meios para desenvolver a sua própria técnica, pois entendo que quanto mais singular for sua poética, mais legítima ela será. Portanto, o curso terá uma abordagem múltipla que buscará diálogos individuais, sempre na tentativa de compartilhar experiências por meio de reflexões e práticas ligadas às necessidades artísticas de cada um. Com o tempo, as individualidades se articularão como grupo.

Você terá liberdade artística no NAC?
Na minha visão liberdade e artístico são uma coisa só. Não acredito em nada que se diga artístico sem a premissa da liberdade.

lee taylor eduardo enomoto r7 3 Entrevista de Quinta – Antunes Filho continua meu mestre, diz Lee Taylor após saída do CPT

"Pretendo ter uma relação de proximidade com os grupos latino-americanos", diz Lee Taylor - Foto: Eduardo Enomoto

Como Antunes Filho reagiu à sua saída do CPT?
Tivemos uma boa conversa. Apesar de não ser da vontade de ambos, ele entendeu o motivo. Nos falamos praticamente todos os dias. Eu ainda estou dando de duas a três aulas por semana no CPT.

Você acha que já era hora de dar os passos com suas próprias pernas e abandonar o mestre? Como foi este momento na sua cabeça?
Eu não o abandonei, ele continua e continuará sempre sendo meu mestre. Mas a condição de discípulo, no sentido da dependência, é temporária. O verdadeiro mérito do mestre é habilitar o discípulo a fazer o seu próprio caminho. Nesse sentido, depois de quase dez anos de trabalho, penso que esse momento uma hora ou outra iria chegar. Talvez seja a etapa mais importante do aprendizado que se configura nessa relação.

O que você pretende fazer no NAC?
Além do curso semestral gratuito para atores, teremos uma programação mensal também gratuita e em breve a produção de espetáculos profissionais. O curso será dividido em dois módulos. Módulo 1: Formação, três meses com atividades de segunda à quinta, das 18h às 22h. E Módulo 2: Montagem, no qual se produzirá um espetáculo, que visa compartilhar com o público a experiência vivenciada no NAC. Para a programação regular criamos a Mise en scène. São experimentações cênicas que acontecem uma vez por mês nos fins de semana, sempre às 17h30. A cada três meses troca-se a experimentação. Começamos com uma leitura que vai até junho. A partir de julho, a próxima Mise en scène será uma dança com a performer e dançarina de butoh Emilie Sugai. O primeiro espetáculo profissional provavelmente deverá acontecer em 2014.

Você vai trabalhar com parceiros no NAC?
O teatro é uma arte de natureza coletiva, já tenho sido procurado e venho procurando parcerias. Só temos a ganhar com propostas que fortaleçam a coletividade desde que não sejam em detrimento do indivíduo. Venho articulando uma parceria com artistas poloneses que me procuraram e pretendo ter uma relação de proximidade com os grupos latino-americanos, além de obviamente manter diálogos estreitos com os grupos e coletivos de São Paulo.

Você vai ser um coordenador bravo e forte como o Antunes? Qual será seu estilo à frente do núcleo?
Serei como o bambu, que enverga, mas não quebra.

Como está sua carreira acadêmica?
Estou na pós-graduação em Artes Cênicas na ECA/USP. Farei a qualificação de mestrado em breve, tenho mais um ano para apresentar a dissertação. Minha orientadora, Maria Thais, tem sido uma grande aliada nessa árdua tarefa de escrever sobre a pedagogia do Antunes.

Você é um ótimo ator. Vai continuar nos palcos?
Pretendo continuar meu trabalho como ator com a mesma frequência e com o mesmo comprometimento. Acredito que o trabalho de pesquisa acadêmica e a pedagogia teatral são complementares ao meu trabalho como ator.

Você tem vontade de ser dirigido por qual diretor no teatro?
Tenho uma grande admiração pelos trabalhos dirigidos pelo Eric Lenate. Vejo uma enorme potencialidade criativa em suas encenações. Inclusive, ele será o diretor da primeira montagem com os participantes do curso no NAC.

Como vai sua carreira no cinema?
No ano passado fiz dois filmes, Riocorrente do Paulo Sacramento e A Pele do Cordeiro do Paulo Moreli. Fiz também um curta-documentário, sobre o trabalho do ator, com a Cássia Kiss e o Yoshi Oida, direção da Laís Bodanzky. Tenho recebido alguns convites, mas com o mestrado e os trabalhos em teatro não tenho conseguido conciliar.

E TV? Ainda diz não ao veículo?
Não é o meu foco.

Você vai ser o Antunes Filho do futuro?
O Antunes é único.

lee taylor eduardo enomoto r7 2 Entrevista de Quinta – Antunes Filho continua meu mestre, diz Lee Taylor após saída do CPT

"Serei como o bambu, que enverga, mas não quebra", diz Lee Taylor, coordenador do NAC - Foto: Eduardo Enomoto

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Lulu Pavarin Eduardo Enomoto 3 Entrevista de Quinta   Lulu Pavarin, a atriz que faz o que quer: Hoje, eu acho que estou no ponto

Lulu Pavarin: cria de nomes como Antunes Filho, Plínio Marcos e Eduardo Tolentino - Foto: Eduardo Enomoto

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Eduardo Enomoto

Lulu Pavarin é uma das damas atuais do teatro brasileiro. Atriz de experiência farta, está em cartaz no Espaço dos Parlapatões, em São Paulo, toda quinta, às 21h, com o monólogo tragicômico Como Ser uma Pessoa Pior, no qual é dirigida por Mario Bortolotto.

Falando em diretor, Lulu tem currículo de impressionar qualquer um: foi dirigida por artistas reconhecidos como Antunes Filho, Eduardo Tolentino, Gabriel Villela, Hugo Possolo, Alexandre Reinecke e até o grande jornalista e dramaturgo Plínio Marcos, de quem se tornou amiga.

Além do monólogo, ela reestreia em junho, no Teatro João Caetano, em São Paulo, a peça Serpente Verde, Sabor Maçã, texto de Jô Bilac para a Cia. das Trevas, na qual é atriz convidada. E ainda batalha para conseguir patrocínio para sua nova peça, Não Somos Amigas, escrita por Michelle Ferreira.

Simpática e carinhosa, Lulu recebeu o Atores & Bastidores do R7 em seu apartamento, na região da av. Paulista, em São Paulo, para esta Entrevista de Quinta.

Leia com toda a calma do mundo:

Miguel Arcanjo Prado – Lulu, que história é essa de você ensinar a ser uma pessoa pior? São Paulo já não está cheio de gente mestre nisso? [risos]
Lulu Pavarin – [risos] É verdade, São Paulo já tem muita gente ruim [gargalhada]. Eu tive vontade de viver esta mulher, que é tão segura de si. Ela fala da codependência, que são pessoas que dependem de um relacionamento destrutivo para viver. A pessoa não existe se não se sentir importante para o outro.

Lulu Pavarin Eduardo Enomoto 1 Entrevista de Quinta   Lulu Pavarin, a atriz que faz o que quer: Hoje, eu acho que estou no ponto

Lulu Pavarin, atriz que domina o drama e a comédia: "Quando falava, todos riam" - Foto: Eduardo Enomoto

Está cheio de gente assim...
Eu tive uma amiga que foi dependente química. Aí fui visita-la na reabilitação e saí de lá entendendo melhor também esta questão da codependência. O argumento da peça é meu. Aí chamei o Germano Melo, com quem já havia trabalhado lá no Antunes [Filho], e a Michelle Ferreira, que é uma jovem dramaturga de muito talento. A peça foi montada aqui, nesta mesa, na sala da minha casa, onde estamos conversando. Na pesquisa, ouvi de pessoa codependente que falava que preferia que o outro morresse para ela conseguir dormir em paz.

E como foi a construção desta mulher que tenta deixar a obsessão?
O Mário Bortolotto [diretor] criou minha personagem no dia a dia. Ele falava: você não vai ser boazinha! Ele me deu a alma da personagem. Começamos fazendo o horário da meia-noite no Parlapatões, e foi aquele sucesso, viajamos muito e cheguei a apresentar para 750 pessoas em São João da Boa Vista [SP]. Agora, estamos voltando no horário da quinta nos Parlapatões, vamos ver o que vai acontecer. Eu investi um dinheirinho nesta peça! [risos]

As pessoas se identificam com esta mulher tão problemática?
Sim. As mulheres, sobretudo, se identificam muito. Tem gente que até leva caderninho para anotar as dicas [risos]. Eu tiro sarro de tudo! Não deixo sobrar nada. A personagem se curou lendo muitos livros de autoajuda.

Como é o nome dela?
Amábile. Peguei este nome agradável para contrapor. É o nome de uma tia minha. Ainda bem que ela não assistiu [risos]. Mas a personagem não é ruim, ela só quer se curar. As minhas companheiras de cena são uma samambaia e um copo de uísque [risos].

planiomarcos sergio araki ae 1974 redacaoestadodesaopaulo Entrevista de Quinta   Lulu Pavarin, a atriz que faz o que quer: Hoje, eu acho que estou no ponto

O jornalista e dramaturgo Plínio Marcos no extinto Jornal da Tarde, em 1974 - Foto: Sergio Araki/AE

É verdade que você foi amiga do Plínio Marcos?
Sim. Eu fui dirigida por ele com um texto dele. Ele chegou um dia no restaurante Orvieto [atual Luna di Capri, na região do Baixo Augusta, centro paulistano] e disse pra todo mundo: “Gente, ganhei uma verba da Prefeitura e vou fazer uma peça. Você, você, você [apontando para as pessoas nas mesas] vai trabalhar comigo.” Só que ele me pulou na hora de apontar. Aí eu fui embora para casa chorando. Aí, o Ênio Gonçalves [ator] e a Mara Faustino [atriz] me defenderam para ele. Disseram que eu era boa e que ele deveria me colocar na peça. Aí, ele respondeu: “Eu vou fazer o quê? Liga para esta menina e manda ela voltar”. Conclusão: fizemos a peça Jesus Homem e nos tornamos grandes amigos.

Como era o Plínio?
O Plínio começava a contar uma história na mesa do bar e, quando via que ninguém estava prestando atenção, ele falava: “aí, veio um carro de polícia e pá”. Aí, todo mundo voltava a prestar a atenção! [risos] Ele, além de dramaturgo, foi um grande jornalista. Ele sabia tornar uma história saborosa!

E seu caso de amor nos palcos com o Antunes Filho?
O Antunes foi me ver no teatro e cismou que eu tinha uma voz muito boa e me convidou para trabalhar com ele. A primeira peça foi Paraíso Zona Norte. Viajei para vários países com ele. Foi um grande mestre na minha vida.

E como foi trabalhar com o Gabriel Villela?
Olha, nunca ri tanto nos bastidores de uma peça como ria com o Gabriel Villela em Guerra Santa. Ele contava os "causos" de Minas e eram todos muito engraçados. E todos tinham a ver com a família dele, claro. Eu ri do dia em que entrei ao dia que saí.

Que tipo de atriz você é?
Eu sou dramática! Quem lê isso vai rir, mas o Antunes não me deixava fazer graça, porque dizia que as pessoas riam de mim com facilidade. Uma vez ele me deu só uma falinha, bem pequenininha, mas na hora em que eu falava, todo mundo ria. Aí, ele cortou. Já o Eduardo Tolentino, no Grupo Tapa, trabalhou essa coisa de careta. Hoje, eu consigo fazer o que eu quero. Eu abuso do drama e da comédia. Eu gosto de diretor. Sou uma atriz intuitiva, isso a gente tem, mas se o diretor não te der mais, não tem graça. Por isso, eu abuso mesmo dos meus diretores!

passione Entrevista de Quinta   Lulu Pavarin, a atriz que faz o que quer: Hoje, eu acho que estou no ponto

Lulu Pavarin contracena com Marcelo Médici em Passione: ela quer voltar à TV - Foto: João Miguel Jr./Globo

Sua novela mais recente foi Passione. Você tem vontade de voltar à TV?
Sim. Eu estou com saudade da TV. Tenho sentido falta de roteiro, de texto para decorar, de gravar, sabe? Quando comecei a fazer TV era muito difícil, tinha filho pequeno [o jornalista Guilherme Pavarin], então, era um sofrimento. Não tinha internet que nem hoje para dar tchauzinho pelo computador. Às vezes eu viajava também com as peças e tinha de esperar a telefonista da Venezuela por três horas até que ela conseguisse completar a ligação. Hoje, penso que seria uma delícia poder gravar minha novelinha no Rio. Acho que a gente, infelizmente, precisa ficar vleha para amadurecer. Então, eu acho que hoje eu estou no ponto.

Lulu Pavarin Eduardo Enomoto 6 Entrevista de Quinta   Lulu Pavarin, a atriz que faz o que quer: Hoje, eu acho que estou no ponto

Além de fazer teatro, Lulu Pavarin quer voltar à TV: "Hoje acho que estou no ponto" - Foto: Eduardo Enomoto

Como Ser uma Pessoa Pior
Quando: Quinta, 21h. 45 min. Até 9/5/2013
Onde: Espaço dos Parlapatões (praça Roosevelt, 158, centro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-4449 )
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

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fabiano augusto casa do zezinho Entrevista de Quinta: Fabiano Augusto, o moço do comercial que faz teatro em prol das crianças

O ator Fabiano Augusto veste a camisa de sua causa social no palco: espetáculo da noite desta quinta no Teatro das Artes terá toda a renda revertida para a Casa do Zezinho - Foto: Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado

O ator Fabiano Augusto é rosto conhecido de todo o Brasil, por conta de sua participação nos comerciais de uma loja de móveis e eletroeletrônicos, da qual foi garoto propaganda exclusivo por cinco anos e ainda faz comerciais esporádicos.

O que nem todo mundo sabe é que ele também é ator e cantor. E muita gente se surpreende ao vê-lo em cena.

Na noite desta quinta (18), ele sobe ao palco do Teatro das Artes, no shopping Eldorado, em São Paulo, para uma apresentação especial do musical infanto-juvenil A História do Incrível Peixe-Orelha.

Toda a renda será revertida para a Casa do Zezinho, entidade fundada em 1994 e que atende 1.200 crianças em situação de risco por ano, no Parque Santo Antônio, bairro da zona sul de São Paulo. O espetáculo começa às 20h e todos pagarão meia-entrada de R$ 25.

A montagem ajuda a conscientizar as crianças sobre a importância de se preservar a água, recurso primordial para a vida na Terra. No elenco, além de Fabiano Augusto, estão Alessandra Vertamatti, Luciana Ramanzini, Mariana Elisabetsky, Demian Pinto, Edgar Bustamante. A direção é de Kleber Montanheiro, com adaptação do dramaturgo Paulo Rogério Lopes para o conto de Edson Natale. A peça levou o Prêmio APCA 2012 de melhor figurino e cenário.

Pouco antes de sair para o teatro, Fabiano Augusto conversou com o Atores & Bastidores do R7 nesta Entrevista de Quinta, na qual falou sobre o projeto que embala com tanto carinho.

peixe2 Entrevista de Quinta: Fabiano Augusto, o moço do comercial que faz teatro em prol das crianças

Cena do musical infantil - Foto: João Caldas

Leia com toda a calma do mundo:

Miguel Arcanjo Prado – Vocês já apresentaram o espetáculos para as crianças da Casa do Zezinho?
Fabiano Augusto – Sim, e foi lindo. Hoje, eles vão tocar com a gente a última música. Apresentar para eles é sempre incrível. Eles estão muito abertos e a reação é completamente diferente. Muitos deles foram ao teatro pela primeira vez. É muito bom ver reações de falar junto, de participar, de questionar alto. É tudo muito vibrante.

Como surgiu a ideia de fazer o espetáculo com renda revertida para a Casa do Zezinho?
Conheço a entidade desde quando trabalhava na TV Cultura e fiz uma reportagem sobre eles há mais de dez anos. Fiquei com isso na cabeça. Ano passado, comecei a conhecer mais de ir lá e ver como eram as coisas. Fiquei impressionado com o trabalho da Tia Dag, que é a fundadora, e o trabalho que ela faz com os meninos. São mais de 1.000 crianças e jovens de idades variadas. E o mais impressionante é ver ex-integrantes da casa se tornando jornalista, professor ou músico. Não é um trabalho só assistencial, mas de educação continuada mesmo.

Eles têm uma orquestra?
Sim. E é ela quem vai tocar hoje com a gente no espetáculo. Eu fiquei impressionado com a orquestra Toca Zezinho. Ela está ameaçado a acabar por falta de dinheiro. Houve uma união de todos nós: a produtora, o autor, o dono do teatro, a equipe técnica. Todo mundo está trabalhando hoje à noite na camaradagem. Por isso, convido a todos irem para contribuir para uma causa tão importante.

O que você acha de o teatro fazer ações deste tipo, que saem do discurso social e vão para a prática?
Eu acho que isso é embrião de um projeto maior de teatro com renda revertida. Acho isso fundamental. Acho que é um desejo de todos nós artistas de fazer alguma coisa. Não consigo ficar tranquilo no carro vendo criança pedir dinheiro. Estou tentando fazer com o meu trabalho o que eu posso fazer.

O espetáculo vai continuar?
Demos uma parada agora, porque os atores terão outros trabalhos. Mas queremos voltar no segundo semestre. Mas vamos ainda circular pelo Projeto da Apa pelo interior de São Paulo, com apoio da Secretaria de Estado da Cultura.

Você vai fazer outra peça?
Vou fazer o musical Enlace – A Loja do Ourives nas capitais e no Rio, onde estreamos em 5 de julho. Mas vou para o Rio começar os ensaios em duas semanas.

Você fez durante muito tempo um comercial marcante na TV. As crianças lhe reconhecem?
Nesse espetáculo, em especial, estou completamente irreconhecível. O que era uma coisa engraçada é que quando fiz o Enlace, tinha gente que falava: “olha, ele é ator e cantor”. Fiz o comercial por cinco anos, de 2002 a 2007, e voltei há um mês, mas dessa vez para fazer trabalhos esporádicos, sem ser contratado exclusivo. A gente fica muito massificado por conta do comercial. E com a imagem ligada a uma empresa. Então, fazer teatro é bom para reverter tudo isso. Eu vejo como essa imagem se desmancha quando as pessoas me veem em cena. E fico muito feliz com isso!

peixe joao caldas Entrevista de Quinta: Fabiano Augusto, o moço do comercial que faz teatro em prol das crianças

Fabiano Augusto (no centro), à frente do elenco do musical A História do Incrível Peixe-Orelha, que será apresentado nesta quinta (18), no Teatro das Artes, em SP; renda será revertida para a Casa do Zezinho - Foto: João Caldas

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Veja a cobertura completa do R7 do Festival de Curitiba

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 Entrevista de Quinta: Filha de candangos e Fiona de Shrek, Sara Sarres diz como virou estrela de musical

A brasiliense Sara Sarres integrou os elencos dos maiores musicais do mundo no Brasil - Foto: Cassiano Grandi

Por Miguel Arcanjo Prado

Sara Sarres atualmente interpreta Fiona no musical Shrek, em cartaz no Teatro João Caetano, no Rio. É sua 13ª produção do gênero, o que a torna uma das grandes estrelas do teatro musical brasileiro.

Para citar alguns exemplos, ela carrega no currículo atuações em obras de peso, como O Fantasma da Ópera, Les Miserables, Cats, West Side Story e Godspell.

Brasiliense, filha de candangos, com pai carioca e mãe baiana, diz que é feita de boa mistura. E tal tempero genético é sentido no carisma que carrega consigo em todas as produções que participa.

Nesta Entrevista de Quinta, Sara fala um pouco mais sobre sua carreira, dá conselhos a quem deseja trilhar um caminho de sucesso profissional como o dela e aponta aspectos positivos e negativos dessa febre de musicais que o País vive.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Como foi a tomada da decisão de ser artista? Você teve apoio?
Sara Sarres – Meu pai diz que nasci artista e reconheceu que a minha paixão era séria muito cedo. Aos sete anos de idade já estudava na Escola de Música de Brasilia e na Academia Usha de Balet. Minha família sempre foi meu maior apoio, incentivo e porto seguro. Devo tudo a eles.

Você é da primeira geração dessa retomada de musicais. Foi difícil no começo?
Nada! Foi só alegria. Tinha me preparado muito, estudado feito louca até aquele momento e passei justamente para interpretar Cosette em Les Miserables, que era o meu musical favorito. Agradecia aos céus todos os dias por estar ali fazendo parte de tudo aquilo. Era um grande sonho se realizando. Quando entrei na sala de ensaio, no primeiro dia, e vi um palco giratório oficial queria ajoelhar e beijar o chão. E quando anunciaram o término da temporada ia chorando para o teatro o último mês inteiro. Não queria que acabasse.

 Entrevista de Quinta: Filha de candangos e Fiona de Shrek, Sara Sarres diz como virou estrela de musical

Sara Sarres é estrela dos musicais - Foto: Cassiano Grandi

O que mudou para melhor e o que mudou para pior desde então?
Para melhor: Finalmente temos uma aceitação incrível do público brasileiro, que abraçou os musicais, e hoje temos um mercado mais amplo, novas produtoras e vários títulos em cartaz ao mesmo tempo. Para pior: é que alguns dos novos produtores só visam lucro e se preocupam pouco em manter a qualidade e nível de exigência e excelência que batalhamos tanto para manter nos espetáculos. Deixando muitas vezes artistas e equipe desprotegidos ou buscando gente despreparada para exercer funções de extrema importância ou ferramentas fundamentais para a realização do espetáculo por valores e qualidade bem abaixo do normal. Aí, o barato sai caro. Isso reflete no palco e no público.

Qual o personagem que fez em musicais que você guarda com maior carinho?
Christine, de O Fantasma da Ópera.

Vamos falar agora de Shrek. Onde você foi buscar sua Fiona?
Em mim. Na minha infância, nas animações que cresci assistindo, os sonhos que construía, nas frustrações de crescer e entender que nem sempre as coisas acontecem do seu jeito. Mas ainda assim acreditar que o final feliz acontece para todos.

Qual a maior lição do musical Shrek?
Que o amor transforma.

Como está viver entre Rio e São Paulo, já que você mora aqui e faz o musical no Rio?
Cansativo, mas delicioso. A gente pensa que não, mas enfrentar aeroporto, trânsito e todos os pormenores de dois QG's, duas vezes por semana, cansa de verdade. Queria poder estar tendo mais tempo para estudar, dar aulas, fazer aulas. Mas o corpo pede arrego com tudo isso mais sete sessões de Shrek por semana.

Você gosta do Rio?
Fora isso, a correria, o Rio de Janeiro continua lindo. Estou apaixonada pela terra do meu paizão e o público incrível do Shrek. Sem deixar de amar São Paulo, claro. A cidade que não dorme é perfeita pra mim. Com garoa e tudo. ... Ok, sem a garoa [risos].

A TV ainda tem aproveitado pouco os artistas de musicais. Acha que deveria ter um maior intercâmbio?
Acho que sim. Mas é natural que aconteça aos poucos. Assim como os atores de TV começam a fazer musicais. Poucos são os que dominam as três vertentes [canto, dança e interpretação], mas alguns têm se aventurado. Alguns até investido em aulas para uma melhor performance no canto e na dança com ótimos resultados.

Como você cuida da sua voz? E do corpo?
Com a voz sou mais disciplinada do que com o corpo, confesso. Até porque o espetáculo é fisicamente tão intenso que já me mantém em forma. E tenho profissionais maravilhosos que me acompanham e me ajudam a manter a saúde vocal e física. Meu otorrino Dr. Reinaldo Yasaki e a fonoaudióloga Adriana Bezerra acompanham passo a passo as construções vocais dos meus personagens e as fisioterapeutas da FisioArte e Helio Nichioka do Instituto Vita sempre me socorrem com as lesões e exercícios preventivos direcionados para cada espetáculo.

Você construiu uma carreira de sucesso no mundo dos musicais. Qual o segredo?
Não acomodar. Não é porque conseguiu um bom personagem que estará para sempre no mercado. Ou sempre apto. Estudo muito até hoje. Eu me desafio, busco novas linguagens, métodos, técnicas. Nosso instrumento de trabalho é vivo e tem de estar em constante uso, manutenção e aperfeiçoamento.

O que você indica para os atores que querem seguir o caminho dos musicais?
Não deixar para estudar só em véspera de audição. Para poder estar inteiro e pleno naqueles poucos minutos terríveis de teste, sua técnica vocal, veracidade da interpretação e o controle do corpo tem que estar em total equilíbrio, fluindo no sangue de tão orgânico. Estar preparado é tudo e nunca sabemos quando a oportunidade baterá à porta.

Você tem vontade de fazer novela? E cinema?
Claro! Quero ter contato com todas as maneiras possíveis de se contar uma boa história.

diego luri e sara sarres1 Entrevista de Quinta: Filha de candangos e Fiona de Shrek, Sara Sarres diz como virou estrela de musical

Sara Sarres, a Fiona, e Diego Luri, o Shrek; musical está em cartaz no Rio de Janeiro - Foto: AgNews

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leandro knopfholz 1 daniel sorrentino Entrevista de Quinta   Diretor do Festival de Curitiba, Leandro Knopfholz diz que é aberto a todos: Quem tem crítica vem falar comigo

Leandro Knopfholz comanda há mais de duas décadas o Festival de Curitiba - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Aos 39 anos, o empresário curitibano Leandro Knopfholz é um dos homens mais poderosos da cultura nacional. Afinal, é ele quem dirige por duas décadas o maior festival de teatro do Brasil, o Festival de Curitiba. O evento começa no próximo dia 26 de março e vai até 7 de abril, voltando todos os olhares artísticos para os palcos da capital paranaense.

Às vésperas de a 22ª edição começar, com mais de 400 espetáculos na programação – dos quais 32 estão na mostra principal –, Leandro não para. Resolve problemas o tempo inteiro, para que tudo dê certo. E ainda precisa lidar com críticas ao festival surgidas no próprio meio teatral.

Entre um problema e outro, parou para dar esta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores  do R7. Bacharel em administração pela Universidade Federal do Paraná (UFRP), pós-graduado em gestão de negócios pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e mestre em gestão de artes pela City University de Londres, Leandro falou de polêmicas e novidades.

Leia com toda a calma do mundo:

Miguel Arcanjo Prado – Como é o momento que antecede o começo do Festival de Curitiba para você?
Leandro Knopfholz – O pré-evento é a maior ansiedade. Fazemos um grande encontro. A característica do Festival de Curitiba é ser um festival de teatro feito por gente, dentro de fora do palco. É a hora de preparar a casa para receber as pessoas. Reunir 400 e tantos espetáculos exige combinação de vários fatores. Cada espetáculo tem sua característica, cada ator tem sua agenda. Então, a gente cuida para receber todo mundo bem.

É um grande trabalho de logística?
Exatamente. Fazer esse grande mosaico harmonioso é nosso grande desafio. E nos espetáculos que convidamos, que são os da Mostra, o desafio é ainda maior. Tudo que foi combinado precisa ser cumprido. E é por isso que as pessoas continuam vindo.

Leandro, algumas pessoas do teatro sempre criticam o Festival de Curitiba. A Cooperativa Paulista de Teatro, por exemplo, publicou recentemente um texto criticando o evento. Por que este tipo de crítica surge?
A gente convive com muita gente. Estamos suscetíveis a todos os tipos de comentários. É claro que me incomoda a crítica desse modo. Se alguém quiser debater, estou sempre disponível. Falar mal de mim não tem problema nenhum. Mas fala comigo na frente.

leandro knopfholz 2 daniel sorrentino Entrevista de Quinta   Diretor do Festival de Curitiba, Leandro Knopfholz diz que é aberto a todos: Quem tem crítica vem falar comigo

Leandro Knopfholz: "O Festival de Curitiba é coerente com sua proposta" - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Você tenta trazer ao festival o teatro alternativo?
Claro. Neste ano, temos um espetáculo feito para 14 pessoas, do grupo OPOVOEMPÉ. No ano passado, trouxemos O Idiota, da mundana companhia. Temos a visão de olhar para a pesquisa, para a tendência, para o experimental, para o risco. Sempre apostamos no diferente.

Então, por que tem gente que fala mal do festival?
As pessoas falam. Mas acho que quando falam mal deveriam argumentar comigo. Acho que cada um tem o direito de falar o que quiser. A nossa fila não anda, a nossa roda aumenta. Apesar das críticas feitas, o festival estimula o carinho pela proximidade, e a proximidade permite também a crítica. Em especial às criticas da Cooperativa, eu tenho argumentos para responder, mas não vou responder aqui nesta entrevista. Se eles quiserem ouvir, deveriam vir falar comigo.

Você acha que algumas pessoas criticam o Festival de Curitiba por que não são convidadas a participar dele?
O Festival tem restrições orçamentárias. Não dá para convidar todo mundo. Tem o Fringe, que é aberto a todo mundo participar... Existe uma cultura no teatro que é a de criticar. A cultura do manifesto. Quem trabalha nesta área sabe que isso é comum. Ter declarações conjuntas assinadas por um grupo. Eu não gosto muito disso. Acho que cada um tem de ter sua opinião e assumi-la. Esse consenso externado por representantes sempre é distorcido. Acho ótimo que as pessoas critiquem e se manifestem. Mas também digo que elas são sempre bem-vindas para vir conversar e reclamar comigo. Sou aberto às reclamações pertinentes e procuro responder com uma ação que faça melhorar os pontos apontados neste tipo de crítica construtiva.

Você acha que falam mal do festival porque ele se tornou o maior do País? Sabe aquela história do ninguém bate em cachorro morto...?
A gente quer ser vitrine. E ser vitrine é estar exposto a qualquer um ter o direito de opinar sobre isso. Eu realmente fico feliz de sermos o centro de alguns debates, porque mostra que a gente está fazendo um bom trabalho.

O que haverá de novo na 22ª edição do Festival de Curitiba?
Os curadores sempre se reúnem comigo para criar um parâmetro curatorial. Nesta edição, procuramos companhias estáveis, dramaturgia nacional, fusão de linguagens, espetáculos de grupo. Foi o que aconteceu num primeiro momento. Num segundo, veio a importância da música como parte da cena. Outra dúvida que surgiu foi que algumas coisas não iriam acontecer se não empurrássemos. Veio a questão: mas a gente não faz um retrato? Mas tinha coisas que não estavam acontecendo. Aí, junto com o Itaú Cultural, a gente propôs um desafio, como para o Parlapatões misturar Angeli e Titãs. Fazer a coisa acontecer. O retrato disso é um festival que busca entender o momento e, além disso, propõe possibilidades novas. Estamos apresentando um festival coerente com sua proposta.

Vai ter lugar para as pessoas se encontrarem fora dos espetáculos?
Para quem está na Mostra tem o restaurante, onde todos almoçam e jantam juntos. Além disso, todos ficam praticamente nos mesmos hotéis. Também teremos neste ano duas festas agendadas: a Cafeína, no Bar do Simão, no sábado, dia 30, e a Fanfarra, no Espaço Cult, no dia 6, o último sábado do festival.

Você acha que os grandes nomes da TV que participam do festival geram ciúme nos artistas que só fazem testro?
Não procuramos espetáculos pelo potencial comercial. A gente não vende mais o espetáculo que tem gente da TV do que os que não têm. Todos são trabalhados do mesmo jeito. O Marco Nanini esteve aqui nos anos 90 e está voltando agora. É bom lembrar também que a Renata Sorrah, que é uma atriz consagrada tanto na TV quanto no teatro - ela acabou de ganhar o Prêmio Shell de melhor atriz -, é uma personagem importante na história do festival. Quando estávamos começando, ela gravou um vídeo dando apoio para a gente. Além disso, muita gente esteve aqui antes da fama. Não são situações oportunistas trazer estes grandes nomes. Como escreveu Shakespeare, rei que é rei não usa coroa. Me dá orgulho saber que essas pessoas vêm aceitando as condições do festival. Se isso gera ciúme, eu não posso dizer. Só sei que ciúme é sentimento mesquinho. Não sei o que se passa na cabeça dos outros. O que posso dizer é que todos são bem-vindos. Ninguém não é chamado por questão pessoal, é que não dá para chamar todos.

O que você vai fazer quando o furacão do Festival de Curitiba passar?
Eu vou continuar fazendo isso. No final das contas, eu gosto. É claro que tem este momento ápice. Mas, quando todo mundo vai embora, tem um rescaldo. E, depois, em maio, vou viajar para a Europa por duas semanas para tomar cerveja.

Conheça a programação do Festival de Curitiba

festival de curitiba publico daniel sorrentino clix picnik Entrevista de Quinta   Diretor do Festival de Curitiba, Leandro Knopfholz diz que é aberto a todos: Quem tem crítica vem falar comigo

Ruas da capital paranaense respiram teatro no Festival de Curitiba - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Veja o Festival de Curitiba na Agenda Cultural da Record News:

[r7video http://noticias.r7.com/videos/festival-de-teatro-agita-curitiba-pr-veja-a-agenda-cultural-do-fim-de-semana/idmedia/514c7bd56b7157e9309c1288.html]

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andre torquato amauri nehn Entrevista de Quinta: André Torquato, o ator de 19 anos que chegou ao topo do teatro musical

Apesar da pouca idade, André Torquato já é estrela das superproduções - Foto: Amauri Nehn/AgNews

Por Miguel Arcanjo Prado

Parece inacreditável que alguém nascido em 17 de junho de 1993 já seja uma das grandes estrelas do teatro musical brasileiro. Mas é verdade. O nome em questão é o do brasiliense André Torquato, atualmente em cartaz como o Espantalho no musical O Mágico de Oz, no Teatro Alfa, em São Paulo.

Apesar de ter chegado tão cedo ao topo, o rapaz de 19 anos demonstra humildade e tem fala tranquila e centrada. Mora em São Paulo desde 2009, no bairro Vila Mariana, onde divide apartamento com o primo Rafael Villar, que é seu professor de canto.

No palco, costuma surpreender o público não só com a voz, mas também com uma postura corporal impecável.

André deixou a família em Brasília, há quatro anos, quando foi aprovado para viver uma das crianças do musical A Noviça Rebelde, dirigido pela tarimbada dupla Charles Möeller e Claudio Botelho, a mesma que agora o convidou para ser um dos protagonistas de O Mágico de Oz.

O convite veio após ele ganhar o respeito da crítica como a espevitada drag queen Felícia, do musical Priscilla, Rainha do Deserto, que encerrou temporada no fim de 2012 com casa lotada.

Ouvinte de jazz e fã do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, André Torquato conversou com o Atores & Bastidores do R7 com exclusividade. Falou sobre sucesso, juventude e futuro.

Leia com toda a calma do mundo:

andre torquato2 Entrevista de Quinta: André Torquato, o ator de 19 anos que chegou ao topo do teatro musical

André Torquato nasceu em Brasília (DF) - Divulgação

Miguel Arcanjo Prado – André, você se destacou em Priscilla, e agora nem fez teste para O Mágico de Oz, foi convidado. Você chegou muito cedo aonde muito ator quer chegar. Como você se segura para não ficar se achando demais?
André Torquato – Em toda profissão, não só a de ator, você nunca chega ao topo. Tem sempre de estudar, buscar novas técnicas e ter pé no chão para sempre ter em mente que precisa aprender. Ninguém é melhor do que ninguém. Cada um tem seu próprio mérito por suas conquistas. Eu cheguei a um lugar legal, mas sempre tem onde chegar mais e aprender mais.

Miguel Arcanjo Prado – O que vc vai fazer depois deste espetáculo?
André Torquato – Vou para Nova York passar seis meses estudando. Como comecei muito cedo, ainda não tive tempo de parar para estudar. Vou para lá estudar teatro.

Miguel Arcanjo Prado – Isso mesmo, porque você está em uma idade na qual todo mundo está começando a faculdade...
André Torquato – É isso mesmo. Por isso, quero estudar para crescer como pessoa também.

andre torquato novica Entrevista de Quinta: André Torquato, o ator de 19 anos que chegou ao topo do teatro musical

O começo nos musicais: André Torquato (acima, à esq.) em A Noviça Rebelde - Divulgação

Miguel Arcanjo Prado – Eu me lembro de você começando, em A Noviça Rebelde. O fato de ter iniciado muito jovem lhe ajudou a perder o medo e também não se deslumbrar com a profissão?
André Torquato – Eu me lembro que eu era muito deslumbrado no começo. Porque era muito novo mesmo, como você falou.  Tinha 14, 15 anos. Depois que comecei a trabalhar mais, o deslumbre caiu, porque comecei a fazer parte daquilo. Foi bom eu ter começado com personagem menor em Noviça, depois fiz Gipsy e As Bruxas de Eastwick... Aí veio Priscilla e esse boom. E, agora, o Espantalho. Mas você nunca está acomodado, porque o teatro musical é uma arte que se renova muito. Sempre aparecem pessoas novas e muito boas.

andre torquato priscilla onibus Entrevista de Quinta: André Torquato, o ator de 19 anos que chegou ao topo do teatro musical

Grande momento em 2012: André Torquato canta sobre o ônibus de Priscilla, Rainha do Deserto - Divulgação

Miguel Arcanjo Prado – Priscilla foi um grande momento. Como segurou a peteca de ver todo mundo aos seus pés? Deu vontade de que aquilo durasse para sempre?
André Torquato – Tem de ter um trabalho psicológico para desapegar do personagem. No final é difícil, principalmente Priscilla, que foi especial em todos os aspectos. Mudou a vida de todo mundo que fez. Espero que de quem assistiu também. Priscilla mudou a forma que eu encarava o papel de artista. Depois de Bruxas, eu me senti um pouco de funcionário público. O Priscilla me resgatou essa coisa de ser um artista. De contar uma história que transforme as pessoas. Meu papel é esse! Plantar uma semente por meio da arte, sem levantar bandeira ou fazer protesto. Foi muito difícil dizer adeus [para a personagem Felícia]. Porque estávamos com a expectativa de ir para o Rio e estava lotando até o final. Mas, por questões de patrocínio e produção, acabou. Mas o desapego faz parte da nossa função como ator.

Miguel Arcanjo Prado – Mas você deu sorte de terminar um e receber convite para outro, o que é coisa rara...
André Torquato – Fui convidado, graças a Deus. Porque teste é um horror. Eu detesto teste. É terrível. Sempre fico muito nervoso.

Miguel Arcanjo Prado – Como é fazer o Espantalho?
André Torquato – É diferente de tudo que eu já fiz. É desafiador. A Felícia [personagem em Priscilla] era mais fácil, porque tinha essa coisa explosiva. E eu tenho muito isso, essa coisa à flor da pele, tenho 19 anos, não tem como, né? [risos] Já o espantalho tem essa coisa de articulação frouxa... Então, tenho de me preparar mais antes do Espantalho do que para a Felícia.

Miguel Arcanjo Prado – O teatro musical valoriza muito o corpo. E você tem 19 anos. O que vai fazer quando não for tão novinho e bonitinho? Você tem medo de envelhecer?
André Torquato – Acho que não. Quando o ator envelhece, ganha mais vivência. A idade vai me dar sentimentos que eu ainda nunca vivi, porque tenho 19 anos. Então, o tempo vai me dar mais recursos para criar bons personagens. Por isso não tenho medo de envelhecer. Sei que é fato que o teatro musical exige muito fisicamente do ator. Eu quero curtir essa fase agora, enquanto posso. Mais para frente, penso fazer teatro convencional, TV e cinema. Enquanto isso não chega, quero sugar tudo que puder do teatro musical.

andre torquato magico Entrevista de Quinta: André Torquato, o ator de 19 anos que chegou ao topo do teatro musical

André Torquato (à dir.) posa com o elenco do musical O Mágico de Oz, em cartaz em São Paulo - Divulgação

Miguel Arcanjo Prado – Você pensa em fazer alguma faculdade?
André Torquato – Sim. Eu tenho um pouco a veia de produção no meu sangue. Meu pai é muito empreendedor, minha irmã também, minha mãe adora produção... Estava na dúvida se fazia faculdade ou não. Acho que, quando voltar de Nova York, vou entrar numa faculdade de produção cultural.

Miguel Arcanjo Prado – Você vai virar um Claudio Botelho do futuro?
André Torquato – [risos] Olha, o Claudio é muito talentoso, é compositor, produtor, diretor... Aí eu já não sei. Depende de onde o curso vai me levar... Eu não achava nunca que seria o Espantalho e cá estou eu [risos].

Miguel Arcanjo Prado – Você quer chegar aonde?
André Torquato – Quero poder continuar transformando as pessoas, no palco, na minha função de artista. É isso que mais amo fazer. Quero fazer isso para o resto da minha vida, não importa que seja no musical, no teatro convencional, no cinema ou na produção.

andre torquato espantalho Entrevista de Quinta: André Torquato, o ator de 19 anos que chegou ao topo do teatro musical

Papel sem fazer teste: André Torquato foi convidado para viver Espantalho de O Mágico de Oz - Divulgação

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kil abreu foto miguelarcanjoprado Entrevista de Quinta: Novo curador teatral do CCSP, Kil Abreu quer palco inteligente e popular

Kil Abreu: "Estou com Brook: 'é preciso saber fazer com ou sem dinheiro'" - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Por Miguel Arcanjo Prado

O jornalista, crítico e estudioso do teatro Kil Abreu é uma das principais cabeças que pensam as artes cênicas contemporâneas.

Ele acaba de assumir uma missão e tanto: ser curador da programação de teatro do Centro Cultural São Paulo, um dos principais espaços artísticos da capital paulista.

Nascido em Belém do Pará, em 5 de outubro de 1968, Kil está radicado em São Paulo desde 1995. É responsável pela formação de críticos e artistas da nova geração, com suas aulas cheias de teoria teatral misturada com um olhar aguçado para o palco na SP Escola de Teatro. E também pela consagração de artistas: foi jurado do Prêmio Shell, curador do Festival de Curitiba e é membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes).

Kil também já foi diretor do Departamento de Teatro da Secretaria Municipal de Cultura, durante a gestão de Marta Suplicy, quando coordenou, entre outras coisas, a implantação da tão necessária Lei de Fomento ao Teatro, o Programa de Formação de Público e o Teatro Vocacional.

Além de jornalista, é mestre em Artes Cênicas pela USP (Universidade de São Paulo) e foi crítico teatral do jornal Folha de S.Paulo e da revista Bravo!.

Homem simples e generoso, apesar do impressionante currículo, Kil Abreu recebeu o Atores & Bastidores do R7 para este bate-papo sobre seu atual momento.

Leia com toda a calma do mundo:

Miguel Arcanjo Prado – Qual será a cara da sua gestão à frente da área de teatro do CCSP?
Kil Abreu – O quadro do teatro no CCSP tem avanços e demandas. Do ponto de vista estrutural, o Centro está saindo de uma reforma importante. Temos uma Sala Jardel Filho em melhores condições, e isto é ótimo. Por outro lado, a Sala Paulo Emílio agora é só para Cinema, e temos o Espaço cênico Ademar Guerra, que pela sua característica – a de ser um espaço experimental – é hoje o mais concorrido, mas ainda precisa de ajustes que estão em projeto.

kil abreu foto miguelarcanjoprado 3 Entrevista de Quinta: Novo curador teatral do CCSP, Kil Abreu quer palco inteligente e popular

Kil Abreu posa para o R7 no Centro Cultural São Paulo - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado – O CCSP é um espaço muito querido...
Kil Abreu – O fato é que o Centro Cultural é um espaço de grande importância, referencial, para os artistas e para a população. Há projetos para novas salas, que eu espero que ganhem andamento, mas isto é no longo prazo. No momento, as salas que temos, que têm boa estrutura, são divididas com a dança e com a música.

Miguel Arcanjo Prado – E o que fazer diante dessa falta de espaço?
Kil Abreu – Diante deste quadro, uma das minhas propostas, que esbarra na questão das verbas, é estender o conceito da programação na direção de outros espaços – os externos do próprio CCSP, mas também os espaços públicos da cidade. Inclusive porque uma parte importante da produção já não tem interesse nas salas. Gostaria (e digo isto propositalmente na condicional) de ver a programação avançar para fora do espaço físico da instituição. É claro que isto é quase uma utopia, mas é preciso começar olhando lá longe. Vamos ver o quanto podemos avançar.

Miguel Arcanjo Prado – Quais são os principais projetos que você quer trabalhar?
Kil Abreu – Neste momento o mais adequado seria falar em diretrizes. Há uma vocação do CCSP que já indica os caminhos que julgo mais produtivos. Devemos trabalhar com um teatro mais próximo ao experimental e à pesquisa artística e ao mesmo tempo popular no acesso.

Miguel Arcanjo Prado – E dá para conjugar essas duas coisas?
Kil Abreu – São coisas que podem perfeitamente seguir alinhadas. É claro que quando digo “experimental” vejo nisso a necessidade de que a experiência tenha estofo formal e de pensamento, não é um vale-tudo. De todo modo, este diálogo entre a aventura artística e o acesso popular é da maior importância. Interessa tanto a uma parte do melhor teatro criado em São Paulo quanto à possibilidade de que ele possa ser visto pelo público comum, não especializado.

Miguel Arcanjo Prado – Isso é bom. Não fazer teatro só para a classe artística...
Kil Abreu – Se a matéria artística, ainda que experimental, for de boa qualidade isto pode ser um excelente modo de formação de plateias, e por vias mais sofisticadas que as usuais. Ainda não sei se será possível, mas pretendo pautar espetáculos “frescos”, que estejam estreando no Centro ou que venham de temporadas recentes. É uma maneira de tentar renovar o interesse do público também.

Miguel Arcanjo Prado – Está preparado para as críticas que sempre vêm quando alguém assume um cargo público?
Kil Abreu – Sim, mas não creio que seja uma função de tanta visibilidade a ponto de mobilizar o interesse profundo das pessoas. É um trabalho importante como o são o de todos os outros parceiros e parceiras que trabalham nas curadorias do CCSP.

ccsp joao carlos renno divulgacao Entrevista de Quinta: Novo curador teatral do CCSP, Kil Abreu quer palco inteligente e popular

Centro Cultural São Paulo - Foto: Carlos Rennó

Miguel Arcanjo Prado – É um trabalho de equipe, assim como o teatro.
Kil Abreu – Sim, e é uma equipe grande e bacana. De qualquer maneira, não é a primeira vez que passo pelo serviço público. Fui diretor do Departamento de Teatro da Secretaria Municipal de Cultura nos dois últimos anos da gestão Marta Suplicy e ali gerenciei junto a um pequeno batalhão de agentes culturais, entre outras coisas, os primeiros momentos de implantação da Lei de Fomento ao Teatro, o Programa Formação de público (que atendeu a centenas de milhares de estudantes e docentes), o Teatro Vocacional, etc. Foi uma aventura intensa e com todos os problemas que já conhecemos a respeito do processo de uma política cultural mais avançada dentro da máquina, que tende a só reconhecer a si mesma e é o avesso da cultura. Aquele momento foi rico neste aspecto também: para nos colocar no centro da avaliação, o que é mais que justo. Acho não só natural como necessário. Mesmo em posições modestas como esta uma gestão que não reconhece a crítica tende a também não reconhecer a diferença entre o público e o privado. E a tarefa é cuidar do bem comum, que não é pessoal, é da cidade.

Miguel Arcanjo Prado – Você acha que este novo governo municipal, do Fernando Haddad, vai olhar mais para a turma do teatro?  
Kil Abreu – Sinceramente, não julgo que o teatro em São Paulo esteja desamparado, nem que o Governo Kassab não tenha olhado para ele. Eu desejaria a mesma situação para a grande maioria das capitais, Brasil afora, que vivem quadros calamitosos não só no teatro, mas em todos os aspectos da política cultural. É claro que sempre se pode avançar e não são poucas as demandas para uma cidade deste tamanho. Mas, em São Paulo há instrumentos legais que forçam esse olhar na direção do teatro e que são frutos da mobilização dos artistas. É uma garantia. Não tenho nenhuma dúvida de que a nova gestão vai cuidar muito bem disso.

Miguel Arcanjo Prado – E como será a verba que você vai administrar?
Kil Abreu – É uma verba modesta. Em princípio, não haveria do que reclamar porque a ocupação das salas é feita tendo como contrapartida a bilheteria, que vai para o artista ou grupo. Mas, se observarmos que não se trata de um espaço vocacionado para o teatro comercial e que os preços dos ingressos são – têm que ser – acessíveis, aí já teremos uma boa tarefa, que é a seguinte: como manter a qualidade de uma programação que não pode ser pautada sob a promessa de sobrevivência através da bilheteria?

Miguel Arcanjo Prado – É uma questão complicada...
Kil Abreu – No meu ponto de vista, há de novo a questão do interesse público. Se é uma produção que carrega consigo um capital simbólico que interessa ao fomento da arte e ao usufruto da população, e que não sobrevive sozinha, deve haver uma contrapartida da gestão na direção dela. Não é porque a arte tem que ser necessariamente subvencionada. É que a arte que aquele espaço abriga, com razão, tende a não sobreviver em um esquema de bilheteria, como no teatro comercial. E há, além dos espetáculos, a programação de outras tantas atividades que o Centro pode comportar e que pedem investimento também. De todo modo, penso junto com o Peter Brook: é preciso saber o que fazer com ou sem dinheiro. Porque podemos fazer coisas ruins com muito dinheiro também.

kil abreu foto miguelarcanjoprado 2 Entrevista de Quinta: Novo curador teatral do CCSP, Kil Abreu quer palco inteligente e popular

Kil Abreu quer levar a programação teatral do CCSP para outros lugares - Foto: Miguel Arcanjo Prado

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rodolfo lima1 Entrevista de Quinta   peça <i>Réquiem</i> faz 10 anos e Rodolfo Lima dispara: Alice é mais popular que eu

Prestes a começar mestrado na Unicamp, Rodolfo Lima faz mostra teatral em SP - Foto: Eduardo Enomoto

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Eduardo Enomoto

Rodolfo Lima é um dos nomes fortes do teatro alternativo e resistente paulistano. Contudo, nunca se prendeu à metrópole. Aos trancos e barrancos, cheio de coragem, leva sua arte aos quatro cantos do País, do jeito que pode, com a ajuda de amigos, sempre.

Sua obra mais conhecida é Réquiem para um Rapaz Triste, que completa dez anos de existência. No monólogo, baseado nas personagens femininas de Caio Fernando Abreu, ele interpreta Alice, uma mulher de meia idade que carrega um bocado de sofrimento nas costas. O público costuma sair das sessões com um nó na garganta. O desempenho no trabalho rendeu ao ator a indicação a Melhor Ator R7 de 2012.

Para celebrar a montagem, Lima criou uma mostra que vai até o dia 23 na Casa Contemporânea, na Vila Mariana, em São Paulo (saiba mais).

Além de voltar com a peça que o consagrou, o ator ainda apresenta as montagens Bicha Oca e Cerimônia do Adeus.

Prestes a iniciar mestrado na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Rodolfo Lima se encontrou com o Atores & Bastidores do R7 em um descontraído almoço na Sala São Paulo, no centro paulistano, onde falou sobre este momento especial em sua trajetória artística.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Como você conseguiu manter um espetáculo por dez anos de forma independente? Fez algum milagre?
Rodolfo Lima – [risos] Eu não sei qual a receita para que o trabalho atravessasse todos esses anos. Foi acontecendo. Como ele é muito fácil de ser produzido, isso facilitava os convites. Mas antes de tudo o meu desejo de me expressar e de levar para o outro um trabalho que o tocasse e modificasse o seu olhar, impulsionava meu desejo para que eu abrisse mão de outros desejos para poder realizar a peça. Então, é um misto de desejo, sonho realizado, ajuda dos amigos e convite de quem acreditava que o trabalho tinha o que comunicar.

rodolfo lima2 Entrevista de Quinta   peça <i>Réquiem</i> faz 10 anos e Rodolfo Lima dispara: Alice é mais popular que eu

Rodolfo Lima dá vida a Alice - Foto: Eduardo Enomoto

Miguel Arcanjo Prado – Por que você resolveu fazer um espetáculo com textos do Caio Fernando Abreu?
Rodolfo Lima – Caio é meu escritor de cabeceira. Sempre quis ter um – aos 15 anos já era rato de biblioteca – e quando me deparei com o livro Os Dragões Não Conhecem o Paraíso vi ali, um autor que me traduzia, me inquietava, me estimulava e não me fazia tão solitário. Daí para querer encená-lo foi um pulo. Meu primeiro desejo, na verdade, foi encenar À Beira do Mar Aberto, o primeiro texto dele que me arrebatou.

Miguel Arcanjo Prado – Você acabou chegando na Alice, de Réquiem para um Rapaz Triste... Você teve medo de interpretar um personagem feminino?
Rodolfo Lima – Tive medo de não ser verdadeiro. De não desgrudar da minha personalidade. Não necessariamente do universo feminino. Cresci rodeado pelo ele e era natural que eu expurgasse em algum momento essas referências. Quanto à falta de vaidade, o desapego com o corpo... Eu era considerado um estranho. A peça era a minha chance de provar que eu podia fazer algo. Que eu tinha o que comunicar.

Miguel Arcanjo Prado – Como a peça foi recebida quando estreou?
Rodolfo Lima – As pessoas reagiram bem. Precisava de ajustes, claro, mas a recepção foi bem estimuladora. Do Teatro de Arena - Eugênio Kusnet (2002), para o FRINGE (2003) [mostra de teatro independente dentro do Festival de Curitiba] houve mudanças, cheguei no formato ideal. Na época, a crítica atestou e daí, o trabalho começou a ter mais relevância. As pessoas já olhavam com outros olhos.

Miguel Arcanjo Prado – Qual a reação das pessoas na peça? Já teve alguma história inusitada?
Rodolfo Lima – No Réquiem já houve de tudo um pouco [risos]. Gente que quis beijar a personagem, namorada ciumenta que não entendia o encantamento do namorado pela Alice, gente que cantou para ela em cena, que chorou junto, que deu cigarro, lingerie, joias... As pessoas veem a peça e querem ser amiga da personagem. Ela é definitivamente muito mais popular do que eu [risos].

Miguel Arcanjo Prado – É verdade que a turnê na Bahia foi cheia de "acontecimentos"?
Rodolfo Lima – Na Bahia, apresentei a peça em diversos lugares em Salvador, Porto Seguro, Alagoinhas e Santo Amaro da Purificação. Há muitas historias, sim. Afinal, saí  do Sudeste e fui girar o Nordeste. Quando cheguei em Santo Amaro para me apresentar no Teatro Dona Canô, um belo espaço com 400 lugares, pensei: “Meu Deus, e agora?” Não tive dúvidas, reloquei a peça para o hall do teatro - que tem uma escada belíssima - à la Crepúsculo dos Deuses - e disse: “Vou fazer aqui, abra as portas e deixa todo mundo entrar”. A diretora me tachou de louco, eu disse: “Eu sei o que estou fazendo, confie em mim”. E foi assim... no halll do teatro Dona Canô que o publico santoamarense conheceu Alice, com as portas abertas.

Miguel Arcanjo Prado – Conte como foi a passagem da peça pelo Festival de Curitiba?
Rodolfo Lima – Ir a Curitiba era meu sonho. Então, realizá-lo me satisfez completamente, porque saiu uma foto e uma critica na Folha de S.Paulo, assinada pelo Sergio Salvia Coelho. Eram esses meus três sonhos: Curitiba, critica no jornal e foto. Quanta ingenuidade, né? Mas acho bonito isso. Pois eu poderia ter parado de fazer teatro ali. Teria me realizado. Mas a peça, a personagem e as pessoas foram exigindo mais e mais e mais. E cá estou. Comemorando os dez anos, com uma casa só para ela, com toda a sua historia nas paredes.

Miguel Arcanjo Prado – Como a Alice veio para você? Ela te faz sofrer também, porque é muito sofrida, tadinha...
Rodolfo Lima – No começo eu sofria, sim. Sou introspectivo, tenho um processo de mergulho, de vivenciar aquela dor, para saber diferenciar o que é meu e o que é dela. Com o passar do tempo, foi aprendendo que eu não precisava viver aquilo. Que por mais que minha historia burlasse em alguns aspectos com a dela, eu não era ela. O Réquiem foi minha grande escola de interpretação. Gosto de teóricos como o Grotowski, algumas coisas do Stanislavisk, do Artaud e pude aos poucos experimentar no meu corpo e no meu humilde trabalho o que esses homens defendem em seus livros. Hoje, não sofro mais. Ela fica devidamente no lugar dela, e eu saio para rir com os amigos. Mas, sim, ela me esgota energeticamente. No outro dia, preciso ficar recluso, me recuperando da energia desprendida.

Miguel Arcanjo Prado – Como surgiu a ideia dos dez anos da peça uma mostra?
Rodolfo Lima – Queria retornar para todos que me ajudaram - e foram muitas pessoas - um agradecimento público. Então, na Casa Contemporânea, há fotos, textos, rascunhos de projetos, trechos do blog, vídeos sobre o processo, notificando todos que passaram pela história do trabalho. Tenho mais de mil fotos e nunca paguei nenhum fotografo para isso, por exemplo. Minha história, a história da peça foi feita com  ajuda das pessoas que se comoviam ao me ver em cena, com a minha luta, com o drama da personagem. O evento na Casa é para dizer: Obrigado, sem vocês não teria chegado aqui. Pena que muitas das pessoas que fizeram essa história comigo não estarão presente para verificar. Mas eu tentei.

Miguel Arcanjo Prado – Além de Réquiem, tem outras peças também?
Rodolfo Lima – Sim, resolvi colocar outras coisas na mostra. Tem Todas as Horas do Fim, também com textos do Caio Fernando Abreu, Bicha Oca com textos do Marcelino Freire, e devo estrear ainda neste semestre Desamador, com textos de Fabricio Carpinejar. E a Alice ganhou uma continuação para o evento, intitulado Cerimônia do Adeus. Como diretor, também vou fazer Epifanias e Epifanias 2, ambos com crônicas de Abreu.

Miguel Arcanjo Prado – E o que aconteceu com a Alice dez anos depois?
Rodolfo Lima – Sextas e sábados as 21hs até o dia 23 é a chance de você vir conferir [risos]. Não posso revelar, né? Mas o que posso dizer é que a reação das pessoas está sendo de indignação. Gosto dessa reação. Gosto de manifestações, não importa quais. Ficou mais bonito e mais pontual o final, do que eu imaginava, mas... é isso ai. Criamos algo, e quando levamos ao público ele não nos pertence mais, é do público. Então, estou a digerir o que foi feito dela, dez anos depois. É um processo para mim também.

Miguel Arcanjo Prado – O que você pretende fazer daqui pra frente? Quais são seus projetos futuros?
Rodolfo Lima – Agora eu me recolho para cursar o mestrado na Unicamp, onde vou analisar a obra homoerótica do autor Newton Moreno. Também tento dar conta da minha produção crítica, já que escrevi durante seis anos sobre teatro, quero reunir alguns trechos do meu blog para um possível livro e pretendo continuar outras pesquisas, parada por causa das peças que sempre estavam em algum canto do Brasil. Mas, até o meio do ano, vou trazer à cena Desamador, meu novo solo com os textos do Carpinejar. Era para ter estreado no evento, mas não fiquei feliz com o resultado e adiei. Então, estarei estudando e gestando a nova cria. Um processo bastante amoroso e pessoal.

Saiba mais sobre a Mostra Réquiem para um Rapaz Triste - 10 Anos

rodolfo lima3 Entrevista de Quinta   peça <i>Réquiem</i> faz 10 anos e Rodolfo Lima dispara: Alice é mais popular que eu

Rodolfo Lima fez a história de Réquiem para um Rapaz Triste com ajuda de amigos - Foto: Eduardo Enomoto

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