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anette naiman bobsousa9 Entrevista de Quinta: A classe teatral precisa se unir mais, diz Anette Naiman, do Teatro Garagem

A atriz Anette Naiman no espelho do camarim de seu Teatro Garagem - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto BOB SOUSA

A atriz Anette Naiman é criadora do Teatro Garagem, em São Paulo. Tudo começou com um sonho antigo, de poder fazer arte sem se preocupar com o espaço. O início foi uma reforma na garagem de sua casa, na zona oeste paulistana. Acabou tendo a ideia de transformar o lugar em um teatro, que logo ganhou uma cara rock’n’roll.

O Teatro Garagem completa 10 anos de existência. Para celebrar, a artista encena o monólogo Frederic Chpin por George Sand, até 20 de dezembro, sexta e sábado, 21h, com ingresso a R$ 40 a inteira. O endereço é rua Silveira Rodrigues, 331, Vila Romana (tel. 0/xx/11 9-9122-8696).

Ernesto Hypólito, que foi criador do programa Metrópole, da TV Cultura, dirige a obra que inaugura o projeto Concerto Teatro e que ainda tem participação do pianista Adriano Heidrich.

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Anette fala sobre o desafio de manter um centro cultural, o projeto de expansão em 2015 e ainda comenta a crise atual que vive os teatros paulistanos.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual é o conceito do seu teatro?
ANETTE NAIMAN — É um teatro independente, que na verdade é minha própria casa. Eu estudei no Indac [escola de atores de SP], que era uma casa, e essa influência ficou em mim. Fazíamos muitos experimentos pelas salas e quartos da casa que eram as salas de aula. Quando me formei, vi a luta para conseguir espaço para ensaiar e se apresentar. Isso me assustava e via que era fundamental para meu trabalho ter um espaço para conseguir levantar uma peça.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Aí resolveu criar um teatro em casa?
ANETTE NAIMAN — Estava grávida e resolvi criar um mezanino dentro da garagem, que tinha pé direito alto. Uma espécie de quarto de bagunça para as crianças. Nesta construção, teve de ser feito um desnível para o portão da garagem poder abrir. Aí me veio a ideia de que eu poderia fazer parte também da sala de bagunça. Comecei a chamar amigos, propor leituras, esse desejo que tinha de ter liberdade para criar se concretizou. Virou o Teatro Garagem.

anette Entrevista de Quinta: A classe teatral precisa se unir mais, diz Anette Naiman, do Teatro Garagem

A atriz Anette Naiman na porta do Teatro Garagem, em São Paulo - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi esse começo do espaço?
ANETTE NAIMAN — Li um texto de Ligia Fagundes Telles e resolvi montar. Procurei a Ligia em um evento, e uma amiga dela me perguntou quem era eu. Falei que era uma atriz que estava com um teatro em casa, e ela me sugeriu montar outro texto da Ligia, Apenas um Saxofone. Fiz com direção do Caetano Vilela. Começamos uma linguagem rock’n’roll e inauguramos a garagem, em um começo do sonho de ter um teatro independente e livre de burocracias. Desde então, mergulhei na literatura feminina. Agora, estou na Hilda Hilst.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E como você fez com a burocracia?
ANETTE NAIMAN — Começou um teatro clandestino [risos]. Fui na Prefeitura e exigiram muitas coisas. Nunca incomodei vizinhos, inclusive os convidava para assistir. No começo foi muito tranquilo. Vinha público, mas não era uma coisa que bombava e não fazia questão de alardear porque ainda era um teatro experimental. Consegui ficar em cartaz entre 2004 e 2008 com um espetáculo solo. Em 2005, fui para o Fringe do Festival de Curitiba e foi muito boa a repercussão. Em 2008, senti necessidade de abrir o espaço. Comecei a elaborar a ideia de transformar a casa num espaço cultural.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você ainda mora no Teatro Garagem?
ANETTE NAIMAN — Não. Morei lá até o final de 2011, quando fui morar em uma casinha no Sumaré, onde estou até hoje. Fiz inúmeros parceiros, como Sergio Roveri, Pascoal da Conceição, Vinícius Piedade, Roberto Borenstein, Clóvys Torres, Jarbas Capusso, Manoela Ramalho... O teatro expandiu. Começou com 27 lugares, e agora expandimos. Em 2011, compramos a casa vizinha. A ideia de expansão se solidificou. Agora são duas casas, a Casa 1 e a Casa 2.

anette2 Entrevista de Quinta: A classe teatral precisa se unir mais, diz Anette Naiman, do Teatro Garagem

Interior de um dos espaços para o Teatro Garagem, em São Paulo - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você consegue sobreviver?
ANETTE NAIMAN — Na verdade, vale a pena registrar que meu grande apoiador e patrocinador é meu marido, o engenheiro Daniel Rosembaum, da Solonet, que faz projetos de fundações. Ele é a minha fundação. É legal contar que quando eu inaugurei o teatro ele era o bilheteiro e meus filhos, Sean, que hoje tem 14 anos, e Zoë, que está com 17 anos, ajudavam em tudo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você esta situação de teatros sendo fechados pela especulação imobiliária, que culminou no despejo do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos na semana passada, que é seu vizinho?
ANETTE NAIMAN — Em homenagem a todos esses fechamentos de teatro, essa coisa agressiva, convidei o Pascoal da Conceição para fazer essa abertura em 2014. Esta é minha mensagem. Mesmo tendo o espaço, também sofri muito. Nosso alvará só veio em 2013. Eu me mudei em 2011 e fiquei esperando até o final de 2013 a liberação desse alvará de funcionamento do Instituto Cultural. A partir do final de 2013 me senti livre para expandir. Poder ter um teatro neste momento é uma sensação ambígua, ter o privilégio de poder ser dona de um espaço, uma coisa que vislumbrei lá atrás, quando ainda era estudante e já vislumbrava as dificuldades. De certa forma, eu fui visionária nisso. A primeira coisa que me moveu a criar meu espaço foi ser livre em um espaço meu. Era ali que tinha minha liberdade e minha autonomia de ser artista. Apenas uma década depois eu vejo esse movimento que eu comecei lá atrás eu me sinto precursora. Eu batalhei muito lá atrás e hoje eu quero te dizer que eu me sinto muito triste de ver essa realidade do nosso teatro. Eu mesma tenho dificuldade de captar dinheiro. Nós somos muito solitários nesta luta. Eu acho que força da classe precisa ser maior. A classe teatral precisa se unir mais.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que planeja pra 2015?
ANETTE NAIMAN — Em 2015, como o espaço se ampliou, a gente quer receber propostas e projetos de artistas da cidade. A gente tem oito espaços de ocupação. E vamos inaugurar a nova garagem em 2015. Quero dizer que minha casa está aberta a todos os artistas. Dentro dessa crise horrível do teatro na qual as pessoas estão sendo despejados, e eu me incluo porque já passei por isso, eu tenho um privilegio de ter um espaço e poder dizer a todos os artistas que meu espaço está aberto sempre a receber companhias e grupos.

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ivam cabral bob sousa6 Entrevista de Quinta: O diagnóstico veio um dia antes da Satyrianas, diz Ivam Cabral

Ator e dramaturgo do grupo Os Satyros e diretor da SP Escola de Teatro, o paranaense Ivam Cabral é uma das forças que movem o teatro brasileiro contemporâneo - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto BOB SOUSA

A chuva se anuncia, enquanto funcionários da Prefeitura colocam luzes de Natal nas árvores da praça Roosevelt. A mesma praça que num passado recente era um lugar perigoso e violento, antes da chegada do grupo Os Satyros e seu teatro em diálogo constante com a cidade. É meio da tarde, faz um pouco de calor. No prédio ao lado do Espaço dos Satyros 1, ocupado pela SP Escola de Teatro, no terceiro andar uma porta se abre. Ivam Cabral surge com um sorriso no rosto. Dá boas vindas, pede que fiquemos à vontade. Tenta desanuviar o peso de uma notícia que precisa contar.

Paranaense de Ribeirão Claro, Ivam Cabral, 51 anos, é um dos mais bem sucedidos artistas do teatro brasileiro. Atuando apenas nos palcos, viu o Satyros conquistar o respeito do público, da crítica e da sociedade, além de atualmente comandar uma das mais importantes escolas artísticas do Brasil, onde nos recebeu para esta exclusiva Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7.

Na quarta-feira passada, 19 de novembro de 2014, enquanto se preparava para realizar a maior edição do festival Satyrianas da história de São Paulo, ele recebeu o diagnóstico de que estava com um tumor maligno na tireoide. A ordem médica foi cirurgia imediata, marcada para a próxima quarta (3), no Hospital Sírio-Libanês. Ele ainda aprende a lidar com esta realidade.

Com fala marcada pela emoção misturada à coragem, Ivam comemorou o ano intenso e falou sobre o delicado momento que vive.

Leia com toda a calma do mundo.

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Ivam Cabral, em sua sala na SP Escola de Teatro, na praça Roosevelt, aquela que foi transformada por seu grupo Os Satyros de um lugar perigoso e violento em polo cultural do teatro brasileiro - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como que você recebeu a indicação de Pessoas Perfeitas para o APCA de melhor espetáculo?
IVAM CABRAL — Foi surpreendente. A gente não esperava... É uma peça que a gente fez de forma despretensiosa, sem expectativa. Então, tudo o que acabou acontecendo com a peça foi surpreendente. A gente fez uma peça e, de repente, fez um sucesso. Estamos convidados, e isso te dou em primeira mão, para os festivais de Havana, Cabo Verde, Curitiba, Rio, Brasília e Porto Alegre. É maravilhoso que isso se deu de uma forma tão digna e espontânea.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vocês fizeram um ano vibrante para o Satyros, cheio de projetos. Como deu conta ?
IVAM CABRAL — Foi um ano surpreendente. Mas muitos projetos começaram antes. A gente viu o Satyros Cinema estrear com o filme Hipóteses para o Amor e a Verdade na Mostra Internacional de Cinema, mas o filme começou muito antes. O projeto E Se Fez a Humanidade Ciborgue em 7 Dias também foi gestado ano passado. 2014 foi um ano em que fizemos de tudo: livro, cinema e muito teatro, foram 12 peças inéditas! É uma equipe muito apaixonada. Mas também foi um ano que tivemos condições mínimas para trabalhar, pois tínhamos o incentivo do Fomento ao Teatro. Não é sempre assim. Agora vamos começar uma fase mais complicada, porque não temos subsídios. Mas isso também a gente já conhece, faz parte da nossa rotina ter momentos mais bacanas e momentos de maior aperto.

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O ator Ivam Cabral; no detalhe, capa do livro da peça Pessoas Perfeitas - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — A Satyrianas 2014 foi um grande sucesso, que sei que não aconteceu da noite para dia, afinal Os Satyros tem 25 anos e o festival, 15 edições. Mas é fato que hoje vocês chegaram a um lugar de muita importância na cidade. Como o  underground lida com agora ser mainstream?
IVAM CABRAL — Teve uma coisa que eu considero divisor de águas neste ano: a apropriação da Satyrianas pela classe teatral. Muitas companhias incríveis, que não participariam em edições passadas, agora procuraram a gente, quiseram estar juntas. E estar juntos não é só levar este selo da Satyrianas, mas estar junto na apropriação de um espaço público. Então, conquistar isso para nós foi surpreendente. Foi o ano que tivemos a relação mais legal com vizinhos. Por isso, foi surpreendente quando anunciei: 60 mil pessoas e zero de ocorrência policial. Não que a gente esperasse alguma coisa, mas estamos falando de um evento que acontece na rua, então, é involuntário que algum problema pudesse acontecer. Por isso, não ter nenhum registro policial é para se vibrar muito. É o teatro chegando num lugar onde ele tem saúde, tem maturidade. A gente recebe isso com uma alegria que você não tem ideia. Todo mundo que estava na Satyrianas, como você mesmo com sua cobertura no seu blog, estava se sentindo responsável por aquilo dar certo. Acho que o melhor não foi ter crescido em números, mas crescido em projetos, ideias, em maturidade do público e da classe teatral.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que vocês do Satyros vão encerrar mais cedo a temporada de Pessoas Perfeitas [prevista para ir até 14 de dezembro, a temporada termina no domingo, dia 30 de novembro; veja serviço ao fim]?
IVAM CABRAL — Então..., eu já algum tempo estava investigando... E eu descobri um tumor na tireoide. E daí a gente tem de parar para ver o que é que é, né? E eu comecei a ir atrás... E é maligno, e ele tem de ser retirado imediatamente. Não posso esperar mais nem uma semana. Então, eu vou fazer uma cirurgia na semana que vem, morrendo de medo... Mas vamos embora,  vamos ver o que é que é. Dos cânceres é o mais tranquilo, estou falando pelo que meus médicos me falaram. Pode parar aí e não ter nenhum problema, mas pode ter o problema da metástase, então, é isso que eu tenho de cuidar agora, para que não vá para outro lugar do meu corpo e essa história se encerre aí.

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O ator Ivam Cabral conversa com o jornalista Miguel Arcanjo Prado em sua sala de trabalho - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você recebeu a notícia?
IVAM CABRAL — Eu parei de fumar e quis ver como estava meu pulmão e quando você faz o exame, mostra daqui pra baixo [apontando o pescoço]. Daí meu pulmão estava ótimo, mas apareceu esse nódulo. Num primeiro momento, quando falava para as pessoas, elas diziam: "fulano tem, não é nada". Desde abril estou investigando, sempre achando que não era nada. Aí, fiz umas punções e as primeira não davam nada. E a última foi na véspera da Satyrianas. Passei a Satyrianas medindo pressão e coração, fugindo da muvuca... O diagnóstico veio um dia antes da Satyrianas... Voltando a falar deste ano incrível, parar a peça no dia 14 de dezembro já era muito cedo, a gente sempre pensou até próximo do dia 20 de dezembro. Ter de parar agora, então, é brochante. Dá uma dor, até porque tem uma equipe. São muitas pessoas trabalhando com você e de repente você ser responsável porque esse trem pare é chato, você ser o responsável por parar.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Nao tem de ter culpa nenhuma, Ivam. A saúde é o mais importante... Como você viu isso logo no fim de um ano que foi tão produtivo?
IVAM CABRAL — Será que são sinais para dar uma freada e parar? É muito trabalho, eu não fico menos do que oito, nove, dez, 11 horas aqui na SP Escola de Teatro. É todo dia. E daí tem os Satyros, e daí tem os meus projetos pessoais... Eu passei este ano dormindo quatro, cinco horas por noite e achando que isso era normal. Eu nunca achei que dormir menos do que cinco horas por noite não era normal. Pensava: "estou no meu pique, que legal". Talvez isso tudo venha para... Eu tive um problema de saúde muito grande, há três anos, que eu perdi a visão do meu olho direito. Aconteceu durante a peça Cabaret Stravaganza. Na época, poderia ser um tumor, mas não era, o doutor Drauzio Varella me ajudou muito. Mas eu cheguei perto desse horror da vida. Perder uma visão é muito cruel. Então, cara, na época do Cabaret isso já tinha sido um pouco um recado, mas agora vem de verdade. Porque agora é um câncer. E foda-se que ele ele é pequenininho, foda-se que eu vou sair dessa... Mas é para dormir mais, é para ter uma alimentação mais saudável, porque na onda de tudo isso, você não tem tempo para se cuidar, come em qualquer lugar...

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem de sair de São Paulo, parar de respirar esse ar, parar com tanta coisa...
IVAM CABRAL — Eu tenho uma casinha em Parelheiros [extremo sul de São Paulo], no meio do mato, que é uma delícia, mas eu não tenho tempo de ir para lá. Termina a peça aqui, eu vou para lá, só durmo, para acordar ouvindo o passarinho cantando, mas já volto para cá, porque tenho muitas coisas para resolver.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem fé?
IVAM CABRAL — Daí vem o lado caipira do Ivam... Eu sou do interior do Paraná [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO — E eu sou de Minas...
IVAM CABRAL — A minha colonização é toda mineira. A minha região foi ocupada pelos mineiros e a gente é muito mineiro nesse sentido. Eu sou muito cristão. Eu acredito em muitas coisas, não acredito só em uma. Então, eu tenho uma força muito grande. Puta que pariu, eu quero viver muito! Tem muita coisa que eu quero fazer! A SP Escola de Teatro está só engatinhando... Aqui na SP foi um ano de muitos projetos, a gente tem aprendizes dirigindo na Polônia, temos gente na África, na Europa, enfim, a gente quer abrir aqui a Coordenação de Cinema, a de Circo já começa a existir.. No Satyros temos planos de produzir e, sobretudo, levar adiante o Satyros Cinema que está começando. Então, eu tenho muita coisa para fazer, eu não posso ficar mal. Para eu continuar acreditando, o melhor é me apagar aos meu projetos e pensar que a vida segue, entende?

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Ivam Cabral: "O que todo mundo pode fazer é torcer para mim pra caramba" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como as pessoas do seu entorno reagiram?
IVAM CABRAL — Na verdade, nem todo mundo ainda sabe. Você tem uma coisa entre a vítima e o herói nessa hora. Eu posso falar, ai, Miguel, ninguém carrega um peso maior do que suporta. Você conhece a Andrea Zanelato [funcionária da SP Escola de Teatro que enfrenta um câncer]? Então, ela tem vivido essa história com um heroísmo absurdo. E você tem o extremo disso, que é aquela pessoa que começa a reclamar, "ai, vou morrer". Eu não queria ser protagonista nessa hora, eu não sei o que fazer. Aqui na escola pouca gente sabe. Então, é difícil você encontrar um equilíbrio... Eu fico pensando em tantas histórias. Imagina o que a Drica Moraes passou [atriz que enfrentou a leucemia]? O meu diagnóstico é uma fagulhazinha perto do que ela viveu. Se essa mulher chegou nesse ponto de superação, a gente vai encontrando bons exemplos pela vida para ir se inspirando neles para poder também pensar que a gente vai continuar aqui. Mas ainda eu não sei o que fazer com essa história.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Muita gente vai ler esta entrevista e ficar mexido com essa história, porque muita gente gosta de você. O que você diz a essas pessoas?
IVAM CABRAL — O que elas podem fazer é torcer por mim pra caramba, que seja só um susto e um aviso para eu ir mais devagar. Porque eu tenho muita coisa para fazer ainda. Eu estou muito tranquilo, não quero entrar nesse lugar, "ai, meu Deus", e nem de herói. Aí, cara, é só uma virada de história. Espero ainda rir disso, desse nosso encontro, de falar: "meu Deus eu pensava assim naquela época"...

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você quer agora?
IVAM CABRAL — Eu quero ficar bom de saúde. É só o que me interessa. E o que eu quero para o futuro é saúde. Porque capacidade de trabalho eu tenho. Eu costumo dizer que cheguei muito mais longe do que eu imaginaria, pela minha origem, da pobreza, do lugar de onde eu venho. Essa disposição é tudo na vida. E ela só vem se você pode respirar, levantar, ir à luta. Ter saúde. Porque aí eu posso sonhar. E sonho eu consigo transformar em algo real e vital. Agora, sem saúde é terrível. Torçam por mim.

ivam cabral  bob sousa5 Entrevista de Quinta: O diagnóstico veio um dia antes da Satyrianas, diz Ivam Cabral

O ator Ivam Cabral brinca com sua cachorra Cacilda, mascote da SP Escola de Teatro: "Eu quero ficar bom de saúde. É só o que me interessa", diz o artista - Foto: Bob Sousa

Pessoas Perfeitas
Avaliação: Muito Bom
Quando: Sexta, sábado e domingo, 21h. 80 min. Até 30/11/2014
Onde: Espaço dos Satyros 1 (praça Roosevelt, 214, República, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)
Quanto: R$ 20 (inteira); R$ 10 (meia-entrada) e R$ 5 (moradores da praça Roosevelt)
Classificação etária: 16 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Entrevista de Quinta: O diagnóstico veio um dia antes da Satyrianas, diz Ivam Cabral

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bob sousa foto isabela sousa Entrevista de Quinta: Meu livro Retratos do Teatro está da Escola Wolf Maya à EAD, diz Bob Sousa

O fotógrafo do teatro Bob Sousa: exposição para abrir e fechar 2014 - Foto: Isabela Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O fotógrafo paulistano Bob Sousa começou o ano de 2014 com a exposição de fotografias de cenas teatrais Revelando a Caixa Preta no Sesc Consolação, em São Paulo. E vai encerrá-lo da mesma forma: com a exposição Retratos do Teatro, no Sesc Thermas de Presidente Prudente, interior do Estado. É a primeira de seu livro homônimo, lançado há um ano pela Editora Unesp.

A mostra fica em cartaz a partir desta sexta (21) e vai até 21 de dezembro, com entrada gratuita, de terça a domingo, das 9h às 18h. Ela faz parte da 21º edição do Fentepp (Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente), organizado pelo Sesc São Paulo em parceria com a Prefeitura da cidade e o Governo de São Paulo.

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Bob, que tem no portal a coluna O Retrato do Bob, falou sobre a repercussão de seu livro, da exposição, de seu trabalho, de seu mestrado, além de se definir: "Sou um cara do teatro".

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Esta é a primeira exposição do Retratos do Teatro?
BOB SOUSA — Sim. Depois do lançamento do livro, no final do ano passado, esta é a primeira mostra que será apresentada com parte dos retratos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como surgiu a ideia desta exposição? Como foi a parceria com o Sesc?
BOB SOUSA — A Adriana Macedo, que integra a equipe de curadoria do festival neste ano, foi quem teve a ideia de levar a exposição para o festival, pois já tínhamos realizado o lançamento do livro e a mostra Revelando a Caixa Preta em parceria com o Sesc. O convite foi feito pela unidade do Sesc de Presidente Prudente, na figura do João Roberto, gerente adjunto da unidade. A Mariana Fessel, programadora de artes visuais, está cuidando de tudo. E, claro, o Danilo Santos de Miranda [diretor regional do Sesc São Paulo], que tem um olhar perspicaz para meu trabalho e foi quem apresentou meu livro no lançamento.

antunes ze celso bob sousa Entrevista de Quinta: Meu livro Retratos do Teatro está da Escola Wolf Maya à EAD, diz Bob Sousa

Dois mestres de nosso teatro: Antunes Filho e Zé Celso no olhar de Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Dá frio na barriga estar em um festival com Antunes e Zé Celso como é o caso do Fentepp neste ano?
BOB SOUSA — É uma grande responsabilidade. A ideia da exposição no festival vem do fato de ter estes dois grandes nomes abrindo e fechando o Fentepp, e o livro também foi elaborado com essa disposição: os guardiões do teatro brasileiro abrem e fecham as páginas do livro, que começa com Antunes e termina com Zé Celso, igualzinho ao festival.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quem são os 20 retratados escolhidos? O que eles representam?
BOB SOUSA — Tentei ser o mais abrangente possível já que seriam apenas 20 retratos. É muito difícil realizar a curadoria de um projeto como esse, mas tive a ajuda do pesquisador teatral Alexandre Mate. Além dos mestres já citados, teremos Maria Alice Vergueiro, Cacá Rosset, Ivam Cabral e Antonio Fagundes, entre outros.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você também fará uma palestra?
BOB SOUSA — A ideia é contar um pouco como foi o projeto do livro. Cada retrato tem uma história e foi muito bonito vivenciar tudo isso. Acho que o grande público tem interesse em saber um pouco sobre esses grandes artistas que construíram a nossa cena teatral.

caca rosset bob sousa Entrevista de Quinta: Meu livro Retratos do Teatro está da Escola Wolf Maya à EAD, diz Bob Sousa

O ator e diretor Cacá Rosset está na exposição Retratos do Teatro - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — O lançamento do livro Retratos do Teatro completou um ano, qual avaliação você faz da trajetória dele?
BOB SOUSA — A distribuição foi bastante abrangente e o livro já é fonte de consulta em diversos espaços voltados às artes cênicas. A Marta Suplicy, ex-ministra da Cultura, conheceu a obra e solicitou que as bibliotecas dos CEUS's recebessem o livro. Os artistas também têm muito carinho pelo livro e ajudam na divulgação. O livro já foi apresentados para alunos de diversas escolas de teatro e universidades: do Wolf Maya à EAD.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual o papel que o fotógrafo teatral tem neste meio artístico?
BOB SOUSA — O fotógrafo é o olhar da sociedade. No teatro, ele cumpre o papel de guardião de uma memória, de um tempo. É por meio de fotografias que muitos dos espetáculos serão lembrados posteriormente. Fotografar encenações teatrais exige muito preparo e doação e apesar da explosão digital e das redes sociais, os fotógrafos de teatro ainda são poucos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quando e como você começou a fotografar teatro?
BOB SOUSA — Foi no começo do século [risos]. Meu trabalho já tem mais de uma década. São mais de 500 retratos e 300 espetáculos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você achou da cena teatral paulistana neste ano?
BOB SOUSA — Por conta dos estudos do mestrado no Instituto de Artes da Unesp, orientado pelo Alexandre Mate, tenho acompanhado a cena teatral com menos intensidade, mas penso que foi um ano bastante produtivo para o teatro paulistano. Destaco os 25 anos da Cia. dos Satyros como grande acontecimento deste ano e que será comemorado na Satyrianas que começa nesta quinta.

ivam cabral bob sousa Entrevista de Quinta: Meu livro Retratos do Teatro está da Escola Wolf Maya à EAD, diz Bob Sousa

Ivam Cabral, fundador do grupo Os Satyros, foi clicado por Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você já está terminando o mestrado?
BOB SOUSA — Essa experiência tem sido muito intensa. Me interessava encontrar "o lugar da fotografia na cena teatral paulistana". A minha carreira surgiu da minha curiosidade e vasculhei os quatro cantos da cena teatral paulistana tentando encontrar um lugar para o meu trabalho. Hoje sei que sou um cara do teatro.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você estudou e trabalhou muito neste ano. Vai tirar férias?
BOB SOUSA — Este ano começou com uma exposição no Sesc Consolação e termina com a exposição no Fentepp. Fui da semiótica à história do teatro mundial. Preciso de férias. Eu mereço.

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teatrodebonecas fotoBobSousa4 Entrevista de Quinta: Muitas vezes em cena você é mais você do que na vida, diz atriz Milena Filó

A atriz Milena Filó, em cena da peça Teatro de Bonecas, em cartaz em SP - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A atriz Milena Filó é a verdadeira mãe do espetáculo Teatro de Bonecas, em cartaz no Teatro Pequeno Ato, em São Paulo, até o fim do mês [veja serviço ao fim].

Na peça, na qual atua ao lado de Jaqueline Stefanski, sob direção de Adriano Cypriano, investida os limites entre a realidade e a arte, tendo como inspiração o clássico texto Casa de Bonecas, escrito pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen em 1879.

O mergulho foi tão profundo no espetáculo que ela foi tema do mestrado em artes que a atriz concluiu na Unesp, onde também se graduou em artes cênicas.

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Milena falou sobre a peça, sobre sua vida, sua arte, seu sonho.

Leia com toda a calma do mundo.

teatrodebonecas fotoBobSousa5 Entrevista de Quinta: Muitas vezes em cena você é mais você do que na vida, diz atriz Milena Filó

Milena Filó em cena do espetáculo que fica em cartaz até o fim do mês em SP - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que Teatro de Bonecas?
MILENA FILÓ — Porque é inspirado no texto Casa de Bonecas, do Ibsen, mas, principalmente, em uma fala da personagem Nora, quando ela diz para o marido: “Esta casa nunca passou de um teatro”. Ela diz isso quando está indo embora, porque ela quer dizer que nunca foi ela mesma lá, que sempre interpretou. Isso é a base, a camada principal da peça. A gente fala dessa relação, principalmente das atrizes, de viver interpretando, e quase nunca ser você mesmo. É uma dualidade. Muitas vezes em cena você é mais você do que na vida.

MIGUEL ARCANJO PRADO — A vida é um grande teatro?
MILENA FILÓ — Exatamente, trazemos esta questão para a peça. O quanto a gente ficcionaliza as nossas relações, os encontros, o quanto a gente cria uma ficção... A gente inventa coisas que não existiu no encontro para a história ficar melhor. Na busca de interpretar essa personagem, essas duas atrizes, eu e Jaqueline, acabamos nos identificando muito com as situações, como término de relacionamento, busca de espaço e de identidade. A gente coloca muito de nós duas na peça.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que as redes sociais ajudaram a aumentar essa representação social?
MILENA FILÓ — Bastante. No Facebook, às vezes a gente posta imagens, mesmo de momentos da vida, que parecem uma coisa incrível. A imagem é muito bonita, ficcional e nem sempre corresponde à realidade. Muitas vezes, a pessoa estava sozinha, triste naquele lugar, e para os amigos de Facebook parece que aquilo foi um grande acontecimento. Tudo fica maior.

teatrodebonecas fotoBobSousa3 Entrevista de Quinta: Muitas vezes em cena você é mais você do que na vida, diz atriz Milena Filó

Jaqueline Stefanski e Milena Filó: parceria no palco entre as duas atrizes - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Isso mexe com você?
MILENA FILÓ — Muito. O acesso e a rapidez, uma informação você consegue que chegue em cem pessoas em um segundo. É muito rápido, é instantâneo. Antes, você esperava semanas por uma cartas. Hoje, é tudo muito rápido, veloz. Antes, essa representação existia, mas de forma mais moderada.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Representar sem parar dá um vazio na vida?
MILENA FILÓ — Esse grau de exigência do outro, de ter de corresponder a essa demanda, chega o momento que você não é nada. Essa é uma fala da peça: "Parece que de fato eu nunca fiz nada". São tantas coisas para agradar o outro que no final você acaba não tendo nada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Tudo isso é muito pessimista. O que a gente faz?
MILENA FILÓ — É uma constatação de que atualmente a gente vive com um grau de rapidez muito grande. Mas tem o lado bom, é que você consegue transformar as coisas, fazer mudanças. Antes, você ficava muito tempo apegado a algo. Agora, você consegue dialogar mais. O espetáculo tem várias camadas. O Alexandre Mate, que orientou meu mestrado na Unesp, que foi sobre a peça, fala que o espetáculo é um palimpsesto, que é como uma cebola, que tem várias camadas, que vão sendo desvendadas. Elas vão se despelando pelo olhar do público. E não é necessário que todos vejam todas as camadas. O melhor é que isso é o que o pós-moderno trás. Você tem a camada da personagem, da atriz, das amigas, da irmã, você consegue ter todas as camadas ali.

teatrodebonecas fotoBobSousa2 Entrevista de Quinta: Muitas vezes em cena você é mais você do que na vida, diz atriz Milena Filó

Milena Filó transformou a pesquisa para a peça Teatro de Bonecas em mestrado - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você fez um mestrado sobre a peça?
MILENA FILÓ — O meu mestrado, na Unesp, fala exatamente dessa questão de dualidade. Chama-se Alteridade Trocadas – O Encontro de Duas Ficções. É a mistura do que é real e do que é ficcional. Muitas vezes, o teatro se torna muito mais real do que qualquer realidade. A lupa dele torna tudo muito mais real. E no mestrado eu falo também de um termo das artes plásticas que se chama pentimentos, que significa arrependimento: é o traço que o pintor fez e passa uma tinta em cima e depois de muito tempo, esta vai se descascando e vemos o traço que ele se arrependeu. A peça traz esse inacabado para mostrar o processo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Onde você nasceu?
MILENA FILÓ — Eu nasci em São Paulo e passei a infância em Bragança Paulista até os nove anos. Depois, voltei para cá.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem uma irmã atriz, a Aline Filócomo. Como é isso para você?
MILENA FILÓ — São as dores e as delícias. De irmão. Minha irmã é minha melhor amiga. Começamos a fazer dança juntos, fizemos piano juntas, violão juntas e depois teatro. Só que cada uma foi para um caminho... A gente sempre troca experiências. Eu faço uma participação no espetáculo do grupo dela, a Cia. Hiato, Ficção, que ela fala de mim, da relação de irmãs atrizes. E ela fala nesse monólogo todo o espetáculo Teatro de Bonecas, e eu entro no final. E ela usa essa dança, da nossa peça, no monólogo dela. A minha relação com minha irmã muita gente conhece por uma peça.

teatrodebonecas fotoBobSousa1 Entrevista de Quinta: Muitas vezes em cena você é mais você do que na vida, diz atriz Milena Filó

"Minhas referências são Pina Baush e Marina Abramovic", diz atriz Milena Filó - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E sua relação com a Jaqueline Stefanski, a outra atriz da peça?
MILENA FILÓ — Tem uma história engraçada. A Jaqueline é irmã de atriz também. Ela é irmã da Fernanda Stefanski, que trabalha junto com minha irmã, a Aline, na Cia. Hiato. E as duas são as mais velhas e eu e a Jaqueline somos as mais novas [risos]. E tem mais: a Aline e a Fernanda estudaram juntas na USP. Já a Jaqueline e eu estudamos juntas na Unesp. São muitas coincidências [risos]. A gente sempre se encontrava indo ver as peças das irmãs. Eu comecei a pesquisa desse espetáculo com uma outra atriz. Aí, por percalços da vida, esta atriz teve que sair e surgiu a Jaqueline; foi quase olhar para o lado. Foi incrível porque a gente se sente super bem em cena. A gente tem um jogo gostoso, descobrimos coisas novas todos os dias. Gostamos de mudar, experimentar, colocar. Eu trouxe um texto novo outro dia e ela falou: "Tudo bem, vamos lá". Ela se joga. Também não posso deixar de falar do diretor, Adriano Cypriano, e da Kika, responsável pela trilha sonora, que são outros parceiros de longa data. E principalmente o diretor, que comprou a minha ideia desde o início.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você quer fazer daqui a 30 anos?
MILENA FILÓ — Eu quero fazer teatro, estar atuando e escrevendo cada vez mais. Essa é minha primeira dramaturgia adulta, já tinha escrito o infantil A Viagem de Ultravioleta, com o Fábio Superti. Eu quero cada vez mais me aprimorar nisso. Sou uma pessoa que gosta muito de experimentar. Minhas referências são Pina Bausch e Marina Abramovic, gente que trouxe coisas novas e instigantes para a arte.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você virou atriz?
MILENA FILÓ — A minha mãe foi uma grande incentivadora neste sentido, ela era professora e sempre adorava dança e teatro. Desde pequena, colocou minha irmã e eu para fazermos dança. Não era uma coisa que a gente ia de má vontade. A gente gostava. Eu dou aula para criança e sei que, quando ela não quer fazer, é tortura. Nas férias, na casa da minha avó, a gente fazia peças para a família no porão. Isso já era uma diversão e um trabalho que a gente fazia, cobrava, fazia divulgação. E depois esse caminho só foi estreitando. Quando fui escolher uma faculdade eu já fazia curso técnico de teatro. Aos 15, já ia para festival de teatro e dança desde a adolescência, pelo interior do Estado. Já estava ali. A arte sempre foi o meu lugar.

Teatro de Bonecas
Quando: Sábado, 21h, domingo, 19h. 75 min. Até 30/11/2014
Onde: Teatro Pequeno Ato (r. Teodoro Baima, 78, República, São Paulo, tel. 0/xx/11 99642-8350)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos

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Alexandre DAngeli performance 436 foto Léo Pinheiro 5 Entrevista de Quinta   Desmemória com ditadura é conveniência política, diz Alexandre DAngeli

O ator e performer Alexandre D'Angeli: lembrança de tempos tenebrosos no Memorial da Resistência, na Luz, em São Paulo, entre 19 e 25 de outubro, na performance 436, com entrada gratuita - Foto: Léo Pinheiro

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Foi na escola que o artista Alexandre D'Angeli descobriu que havia passado sua infância durante um dos mais tristes períodos da história brasileira: a ditadura civil-militar. Foi naquele momento que ganhou a consciência política que sempre invade sua arte.

Ele coloca o dedo na ferida ao realizar, entre 19 e 25 de outubro, a performance 436, com entrada gratuita. O título remete ao número de pessoas desaparecidas ou assassinadas pelo regime ditatorial que serão lembradas no ato, que contará com a participação do público, confeccionando 436 máscaras com ele, uma com o nome de cada vítima.

O lugar não poderia ser mais apropriado: o Memorial da Resistência (largo General Osório, 66, Luz), onde funcionou o temido Departamento Estadual de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo (Deops/SP), centro de torturas da ditadura. Hoje, o lugar é uma espécie de museu que se dedica a mostrar a todos os brasileiros de hoje e do futuro que o horror é possível.

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Alexandre D'Angeli, que além de ator é bonequeiro e figurinista, fala sobre a performance 436, a ditadura que vigorou entre 1964 e 1985 e a nova onda de conservadorismo que invade o País.

Leia com toda a calma do mundo.

Alexandre DAngeli performance 436 foto Léo Pinheiro 8 Entrevista de Quinta   Desmemória com ditadura é conveniência política, diz Alexandre DAngeli

Cada máscara terá o nome de um desaparecido político durante a ditadura - Foto: Léo Pinheiro

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tinha qual idade na época da ditadura, se lembra dessa época?
ALEXANDRE D'ANGELI — Estava com um ano de idade quando terminou o governo Médici em 1974, que foi o final do chamado “anos de chumbo”. Em 1979, quando iniciei no ensino fundamental e por viver numa cidade pacata do interior de São Paulo, não imaginava que essas atrocidades aconteciam.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quando você entendeu o que foi a ditadura?
ALEXANDRE D'ANGELI — Em 1985, o colégio onde eu estudava organizou uma semana para discutir a importância e se colocar a favor da luta pela anistia de políticos brasileiros e a respeito das eleições diretas para presidente da República. O tema me mobilizou de tal forma que naqueles dias participei de todas as atividades da programação e deixei loucos meus professores, tamanha minha curiosidade sobre o assunto.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Dá pra ver que você era uma criança interessada...
ALEXANDRE D'ANGELI — Além disso, havia em mim uma surpresa de tudo aquilo ter ocorrido durante minha infância, de ser algo tão próximo. De certa forma, fiquei aliviado por ter minha família sempre ao meu lado, imaginando o quão triste seria crescer sem tê-los por perto em razão de perseguições políticas. Penso que foi aí que comecei a ser mais crítico com o que lia e via sendo veiculado nos telejornais. Havia mesmo muitos elementos que caracterizavam aquilo como ditadura e não apenas como uma situação de autoridade.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem alguma história familiar com a ditadura?
ALEXANDRE D'ANGELI — Não. Apenas relatos. Minha mãe, que era uma jovem estudante em 1968, conta que havia um professor contra o regime, que em sala de aula atentava para os que quisessem criticar a política e a situação do país, que o fizessem apenas em sua aula, jamais em frente ao colégio. Outra situação que ela me contou é que houve um período, nos dias do golpe, que a volta para casa depois da aula era feita com escolta de militares do exército.

Alexandre DAngeli performance 436 foto Léo Pinheiro 4 Entrevista de Quinta   Desmemória com ditadura é conveniência política, diz Alexandre DAngeli

Artista Alexandre D'Angeli vai se encontrar com o público do Memorial da Resistência, para confeccionar máscaras que representam mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar - Foto: Léo Pinheiro

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que os brasileiros já se esqueceram dos horrores da ditadura?
ALEXANDRE D'ANGELI — Esquecer? Creio que não e penso que isso nem deva ser uma opção, sobretudo, pelo fato de cerca de 60% da atual população brasileira não ter vivido os tempos da ditadura. É necessário que se fale a respeito, que se conte o que realmente aconteceu e mantenha isso presente, conforme a frase dita por D. Paulo Evaristo Arns: “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”. É importante destacar que neste momento, além de pesquisas, eventos e publicações; temos as Comissões em diversas instâncias, mobilizadas em descobrir a verdade, além das secretarias que avançam lentamente nas investigações, tensionando a Justiça brasileira na busca e punição dos culpados. Há diversos outros órgãos e institutos, como é o caso do Instituto Zuzu Angel e do Instituto Vladimir Herzog.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que, ao contrário de países como o Chile e Argentina, que mantêm sempre viva a memória dos anos de chumbo, o Brasil deixa essa parte de seu passado esquecida?
ALEXANDRE D'ANGELI — Há uma resistência que luta para que isso se mantenha no passado. Recentemente acompanhamos perplexos a liminar concedida pelo STF suspendendo a ação contra cinco militares reformados acusados pelo homicídio e ocultação de cadáver do ex-deputado Rubens Paiva. É triste e lamentável que ainda hoje isso ocorra – é a eternização da tortura, frase dita por Vera Paiva, filha de Rubens após saber da decisão. Do outro lado, temos iniciativas como é o caso do Memorial da Resistência de São Paulo, local onde realizo a performance 436, que desenvolve um trabalho maravilhoso e incansável. Um espaço de memória, que preserva registros importantes e está sempre mobilizado a desenvolver ações que nos sensibilizem para a compreensão e elaboração dos fatos. Um bom exemplo é a exposição 119 do artista chileno Cristian Kirby, que terá abertura neste sábado com 120 intervenções gráficas sobre fotografias de desaparecidos políticos durante a ditadura no Chile.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual o perigo desse esquecimento?
ALEXANDRE D'ANGELI — Prefiro chamar de “desmemória”, pois não é um esquecimento, mas uma conveniência política. Isso é ainda mais grave, pois nos distância da compreensão do que de fato ocorreu, impedindo que reconheçamos quais são as ferramentas usadas por um regime ditatorial. Essa “desmemória” também permite, por exemplo, que “Bolsonaros” sejam eleitos e o fato se reduza a mera discussão política, o que nos faz perceber qual o grau de despolitização e desconhecimento da sociedade. O grau de tolerância para com esses fatos e práticas repressivas do governo de São Paulo ocorridas durante os manifestos do ano passado é prova do quanto estamos anestesiados.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você resolveu fazer essa performance?
ALEXANDRE D'ANGELI — Há tempos pensava em desenvolver 436. Na ocasião não tinha certo se seria uma ação performativa, mas me indignava muito pensar o que significa a condição de desaparecido para os familiares das pessoas que foram vítimas do regime militar. Sem dúvida, continuar desaparecido é a prova maior de que a repressão existe e ainda nos assombra. Dessa forma, quis criar uma obra onde pudesse materializar esse desejo. Os rostos de papel que monto durante a performance, – máscaras – estão destituídas de sua função cênica, como adereços que caracterizam tipos, personagens ou que faz referência à representação. Procurei utilizar a máscara como desejo pela presentificação, uma tentativa na busca da ideia “desse” outro – o desaparecido. Além disso, proponho pensar o esquecimento no sentido político, a partir do questionamento sobre o que se esqueceu ou o que deve ser esquecido, afim de que se possa construir novas memórias, menos amedrontadas e mais fidedignas ao que de fato ocorreu.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual a importância desse contato direto com o público para você?
ALEXANDRE D'ANGELI — Fundamental, tanto que tenho ampliado as ações em espaços públicos, como é o caso da intervenção OBJETOS DE VALOR que teve início no Terminal Rodoviário do Tietê durante a Virada Cultural de 2010, já passou por diversas cidades e Estados e em dezembro acontece na Avenida Paulista ou ainda LISTENING TO THE SHEEP SLEEPING, onde as pessoas podem deitar-se ao meu lado e escutar textos escritos especialmente para a obra pelo cartunista Caco Galhardo. A ação, que passou pelo Projeto É Logo Ali, do Sesc Ipiranga, retorna a partir de 7 de novembro na Casa das Rosas. Vale destacar, que uma ação performativa, como é o caso de 436, o público, ou a audiência, como costumamos chamar, pois as pessoas não irão ao Memorial para assistir a um espetáculo, mas para integrarem a obra. Os visitantes articulam como elemento colaborador para a existência daquela ação. A performance depende necessariamente da interação física e sensorial dessa audiência, sendo peça “construtiva” da proposição do artista, sem essa imersão a performance não se faz como performance.

Alexandre DAngeli performance 436 foto Léo Pinheiro 1 Entrevista de Quinta   Desmemória com ditadura é conveniência política, diz Alexandre DAngeli

"Em um encontro não há nada previamente definido", diz Alexandre D'Angeli sobre performance 436 - Foto: Léo Pinheiro

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você espera alguma reação das pessoas?
ALEXANDRE D'ANGELI — Trata-se de um encontro, portanto, a reação se dará no momento em que ambos estivermos frente a frente. Em um encontro não há nada previamente definido. O que há é uma grande preparação para manter-se disponível e sensível, pois será o Alexandre, performer e não um personagem, propondo e dividindo a montagem dos rostos de papel. Serão exatamente quatrocentos e trinta e seis encontros com pessoas desconhecidas e que continuarão desconhecidas, pois a ação prevê que não conversemos durante a ação. O que importa é a potência desse encontro e a peça resultante disso – a máscara.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quando foi a primeira vez que você foi ao Memorial da Resistência? O que sentiu?
ALEXANDRE D'ANGELI — Minha primeira visita se deu em 2010. Visitar a exposição permanente foi um mergulho em um dos recortes mais chocantes da história do País. Em diversos momentos senti calafrios ao saber das atrocidades que aconteceram naquele edifício, local que até 1983 sediou o Departamento Estadual de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo (Deops/SP). Se pensarmos que memória não é algo confiável, é transitável, é humana, é social e, portanto, está suscetível ao esquecimento, locais como o Memorial da Resistência tem um papel fundamental na evolução política do país. Além disso, destaco a importância no que se refere a documentação, conservação e das ações de comunição desenvolvidas pelo Memorial por meio de suas exposições e núcleo educativo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você enxerga esse novo conservadorismo presente na sociedade brasileira? Você tem medo dele? Por quê?
ALEXANDRE D'ANGELI — Procuro estar muito atento a esses acontecimentos, sobretudo, quando esse conservadorismo motiva intolerância com as camadas menos favorecidas, como foi o caso da eleição de Marco Feliciano à presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Algo que me envergonha como cidadão. Creio ainda que isso não seja exclusividade só do Brasil, esse novo conservadorismo está presente em diversas partes do mundo. O que me preocupa são os poderosos instrumentos de convencimento e alienação, e o individualismo instaurado que não valoriza o convívio entre as pessoas e a importância do coletivo na sociedade.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que o Brasil pode vir a ter outra ditadura militar num futuro próximo?
ALEXANDRE D'ANGELI — Mais do que achar que podemos ter uma nova ditadura no país, prefiro admitir que há conflitos de interesse e que é necessário lutar fazendo resistência, nos mobilizando para afirmar os interesses ligados a preservação da vida e o exercício da nossa liberdade enquanto sujeitos. O que vejo e fico indignado é o quanto a força e a violência, armas que foram tão usadas pela ditadura, continuam sendo empregadas, sobretudo, nas ações comandadas pelo governo, em especial no Estado de São Paulo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Em quem você pretende votar no segundo turno? Por quê?
ALEXANDRE D'ANGELI — No primeiro turno votei em Luciana Genro do PSOL. Neste segundo turno, é certo que não votarei no Aécio Neves por um conjunto de ações que envolvem a ideia que o candidato tem sobre censura, corrupção, infração às leis ou ainda o histórico do seu governo em Minas Gerais nas áreas de Educação e Saúde, além de episódios ligados à violência contra a mulher.

Você acha que os torturadores da ditadura militar devam ser punidos?

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nao conte ricardo correa 2 Entrevista de Quinta É preciso falar das minorias, diz Ricardo Corrêa, da peça Não Conte a Ninguém

Ricardo Corrêa, autor de Não Conte a Ninguém, no Espaço dos Parlapatões - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Enquanto o Brasil pega fogo nesta véspera segundo turno, o ator e dramaturgo Ricardo Corrêa prefere ir além das redes sociais e dar seu recado no palco.

Escreveu a peça Não Conte a Ninguém, encenada até 28 de outubro no Espaço dos Parlapatões, em São Paulo, sempre às terças, às 21h, com entrada a R$ 30 a inteira e R$ 15 a meia-entrada.

A obra fala de amor e conta a história do adolescente Deco, que começa a descobrir sua primeira paixão e precisa lidar com isso e também com a reação social a ela. A peça toca em tabus que estão mexendo com a sociedade brasileira contemporânea.

Com direção de Davi Reis, a obra da Cia. Artera de Teatro se coloca no papel de discutir a sexualidade sem preconceitos. No elenco, estão Ana Paula Justino, Davi Reis, Jessica Drago, Rodrigo Pasquali, além do próprio Ricardo.

Nesta Entrevista de Quinta ao R7, Ricardo Corrêa fala sobre como a obra foi desenvolvida e ainda diz o que pensa de temas polêmicos da atualidade. Ele ainda declara qem quem votará no segundo turno.

Leia com toda a calma do mundo.

nao conte ricardo correa 5 Entrevista de Quinta É preciso falar das minorias, diz Ricardo Corrêa, da peça Não Conte a Ninguém

Ricardo Corrêa e Davi Reis em cena da peça Não Conte a Ninguém, em São Paulo - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi o processo criativo?
RICARDO CORRÊA —
A primeira versão da peça nasceu em 2004, depois de alguns anos decidi montá-la. Foi um processo árduo de descobertas. Deixei meus personagens soltos, eles foram me dizendo quais eram seus caminhos na história. O diretor e ator Davi Reis soube trilhar o caminho da encenação junto com o elenco. Também as canções (cantamos ao vivo) do Diogo Soares e Thiago Maziero transformaram muito do que escrevi em música e sonoridade e inserções em audiovisual e animações criadas pelo Zeca Rodrigues, que são parceiros fundamentais da Cia Artera.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como surgiu a ideia da peça? É seu primeiro texto? Como foi escrever?
RICARDO CORRÊA —
Eu queria escrever uma peça que mostrasse que as pessoas são iguais, que elogiasse a descoberta do amor na adolescência. Não é a minha primeira peça, já escrevi outras. Depois de anos, a inscrevi em um edital e ganhei o prêmio para montá-la. Nesses anos, me deparei com a necessidade de ir mexendo no texto, que foi um aprendizado, está sendo muito prazeroso fazer este espetáculo para o jovem e para a população LGBT, num momento no qual a discussão está em vigor.

nao conte ricardo correa 4 Entrevista de Quinta É preciso falar das minorias, diz Ricardo Corrêa, da peça Não Conte a Ninguém

Sem preconceito: peça discute o amor - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que vocês resolveram discutir esses temas?
RICARDO CORRÊA — Acho que tem pouca coisa pro jovem e acho que é necessário se falar das minorias. Queríamos falar poeticamente desse universo tão delicado. Este espetáculo é um elogio ao amor. Existe um conjunto de assuntos que nós na Cia. Artera gostamos de falar e são assuntos que tem a ver normalmente com intolerância, preconceito, minorias, às vezes de maneira mais pesada, às vezes de uma maneira mais leve, mais lírica, mais poética como em Não Conte a Ninguém.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quando você era pequeno do que gostava de brincar?
RICARDO CORRÊA —
Colecionava bonecos em miniatura e gostava de inventar histórias com eles.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você começou no teatro?
Como foi sua adolescência?
RICARDO CORRÊA —
Era um adolescente como outro qualquer, cheio de incertezas, buscando pertencimento ao mundo, inadequado. O teatro me direcionou, comecei a fazer teatro muito jovem na cidade de Taboão da Serra, onde meus amigos eram pessoas mais maduras. Minha adolescência se deu no meio teatral.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você gostaria de voltar a ser adolescente?
RICARDO CORRÊA —
Não, só se fosse como no filme Peggy Sue - Seu Passado a Espera, onde a personagem da atriz Kathleen Turner à beira do divórcio desmaia e volta no tempo e vê a vida com o olhar mais maduro.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Onde você estudou? Qual boa lembrança tem dessa época?
RICARDO CORRÊA —
Estudei a vida inteira em escola pública. Tenho saudade da minha primeira professora, das reuniões na casa de amigos pra fazer trabalho e do cheiro que o mimeógrafo deixava nas folhas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você vê o aumento do conservadorismo no Brasil?
RICARDO CORRÊA —
Bem, cada um tem o direito civil de agir e seguir a religião que queira, logo não há justificativa para o Estado restringir comportamentos homoafetivos ou de outra natureza. Enquanto se discute sobre direitos humanos, vemos o aumento do conservadorismo no país e a violência nas ruas. Quando o argumento deixa de ser político, relacionando-o à religião, temos um sério problema: a intolerância e a falta de proteção a liberdade humana.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que o Brasil está caminhando para a direita? Por quê?
RICARDO CORRÊA —
O gigante acordou nervoso e ele quer socar alguém. Mas como que esse gigante despolitizado vai saber em quem que ele quer bater? Ser politizado é entender como funcionam as relações de poder em cada sociedade e no mundo em geral. É compreender que, por trás das relações de troca no mercado existem relações de exploração. Que, por trás das relações de voto, existem relações de dominação. Que, por trás das relações de informação, há um processo de alienação. Se houvesse educação nesse país as coisas seriam diferentes.

nao conte ricardo correa 3 Entrevista de Quinta É preciso falar das minorias, diz Ricardo Corrêa, da peça Não Conte a Ninguém

Não Conte a Ninguém pode ser vista até o fim do mês: toda terça, 21h, no Parlapatões - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual o principal problema da sociedade brasileira hoje em sua visão?
RICARDO CORRÊA — Nossa sociedade enfrenta hoje em dia problemas que estão muito ligados às obrigações do governo, como a violência, saúde e corrupção.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como viu as declarações do candidato Levy Fidelix durante os debates?
RICARDO CORRÊA — Eu vi como uma fala odiosa e homofóbica, fiquei perplexo em constatar que um sujeito como ele estava se candidatando a Presidente da República. Ele incitou à violência e à discriminação contra a população LGBT através de um verdadeiro discurso de ódio e ofensa à comunidade LGBT em geral.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você já decidiu o voto no segundo turno? Por quê?
RICARDO CORRÊA — Sim. Vou de Dilma. Por que o PT tem um projeto de políticas sociais.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você faz teatro?
RICARDO CORRÊA — É como se no teatro existisse a possibilidade de um refúgio, a possibilidade de experimentar uma outra realidade, um outro tipo de organização social. É como se o teatro pudesse me salvar do caos, me permitisse a loucura, mas tendo a “coerência” absoluta do mundo ao redor, e ao mesmo tempo a possibilidade de sonhar, de cantar, de dançar, sonhos que são de uma banalidade extrema… que é o de tentar transformar. Fazer teatro é falar outra língua, um idioma incompreensível, indizível, o teatro nos faz traduzir esse idioma incompreensível, significá-lo para nós mesmos e para o espectador, para que ele também possa dialogar em seu idioma mais secreto e íntimo.

nao conte ricardo correa1 Entrevista de Quinta É preciso falar das minorias, diz Ricardo Corrêa, da peça Não Conte a Ninguém

O ator e dramaturgo Ricardo Corrêa: "Fazer teatro é falar outra língua" - Foto: Divulgação

Não Conte a Ninguém
Quando: Terça, 21h. 60 min. Até 28/10/2014
Onde: Espaço dos Parlapatões (praça Franklin Roosevelt, 158, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-4449)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

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nash laila foto bob sousa2 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

Nash Laila: musa do novíssimo cinema brasileiro e também do Oficina - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A pequenina Nash Laila é dona de um talento gigante. Quem a vê no palco do Teat(r)o Oficina sabe muito bem. Quem viu seus filmes também. É atriz intensa e potente.

Tanto que começou cedo e logo se destacou no cinema brasileiro, em longas como Deserto Feliz — com o qual levou o prêmio de melhor atriz do Festival do Cinema Brasileiro em Paris —, Amor, Plático e Barulho — que lhe rendeu o Troféu Candango de melhor atriz coadjuvante do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro — e Tatuagem, melhor filme no Festival de Gramado.

É uma das musas do novíssimo cinema nacional de qualidade.

Em São Paulo, esta pernambucana filha da cabeleireira Cida Silva e do transportador Carlos Medeiros assumiu as rédeas da própria vida.

Dona do próprio nariz, deu esta Entrevista de Quinta ao R7 na plateia do Oficina, lugar no qual se sente livre.

Falou sobre sua trajetória e ainda desabafou: "O mundo está muito caretão". Tem razão.

Leia com toda a calma do mundo.

nash laila foto bob sousa1 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

Nash Laila está vivendo há dois anos e meio em São Paulo - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você está há quanto tempo em São Paulo?
Nash Laila — Há dois anos e meio. Fiz o filme Tatuagem, do Hilton Lacerda, e achei que era o momento de dar uma virada e me mudar para cá.

Miguel Arcanjo Prado —Você é de Recife?
Nash Laila — Cresci em Jaboatão, que fica do lado. Morava no bairro Sucupira, com rua de terra, perto da mata. Adorava roubar fruta na árvore, passei a infância brincando na rua. Com 16 anos, fui morar em Olinda.

Miguel Arcanjo Prado — Nesta época já pensava em ser atriz?
Nash Laila — Desde criança eu queria ser atriz. Fazia sempre o auto de Natal [risos]. Aos 13 anos, entrei em um curso de teatro. Depois fui trabalhar com o diretor Jorge Clésio. Fiquei três anos com ele, dos 15 aos 18. Saí para fazer meu primeiro filme, Deserto Feliz.

Miguel Arcanjo Prado — Foi neste que você virou musa do Festival do Rio?
Nash Laila — Foi muito engraçado, porque concorria com um monte de famosa e o povo devia pensar: quem é essa. Foi muito bacana. O filme era muito forte, era uma menina que sofria exploração sexual e terminava se apaixonando por um alemão.

nash laila foto bob sousa4 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

Nash Laila foi criada brincando na rua, subindo em árvore para pegar fruta - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Foi difícil para você fazer este filme tão novinha?
Nash Laila — Foi um susto. Mas diante do abismo, eu pulei. O Paulo Caldas [diretor do filme] me ouvia muito. Foi um trabalho que me marcou. Viajei bastante por conta do filme. Um ano depois de terminar de filmar este filme estávamos no Festival de Berlim. Foi muito doido. Muita responsabilidade. Cinema é um processo de várias mãos. No teatro, é a gente e o público. Cinema é edição, montagem, o olhar do diretor...

Miguel Arcanjo Prado — E aí você virou a garota do novo cinema pernambucano?
Nash Laila — Pois é [risos]... Eu fiquei dois anos divulgando o filme. Já estava meio que na correnteza, sabe? Agora, vai, pensei. Aí eu passei no vestibular da UFPE [Universidade Federal de Pernambuco], para artes cênicas e fui fazer um intercâmbio na França, em Clermont-Ferrand. Foi ótimo, uma experiência incrível. Mas, voltei e senti um certo vazio.

Miguel Arcanjo Prado —Por quê?
Nash Laila — Recife é muito cultural, mas, ao mesmo tempo, é muito paradona em determinadas épocas. Aí eu fiz a minissérie Santo por Acaso e uma participação em O País do Desejo. Aí surgiu o Tatuagem.

Miguel Arcanjo Prado — Como você entrou para o elenco?
Nash Laila — Logo que voltei da França, fiz a o processo de seleção com o Hilton Lacerda [diretor de Tatuagem]. Eu estava com muita vontade de fazer o filme. Acabou dando certo. O processo foi todo colaborativo. Então, esse núcleo, do Chão de Estrelas, meio que carregava o filme consigo.

nash laila foto bob sousa5 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

Nash Laila ainda tem jeito de menina, apesar de já ser uma atriz potente - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — O que você acha do cinema fora do eixo Rio-São Paulo?
Nash Laila — Acho maravilhoso. Essa galera de Recife, Ceará, Minas, está buscando seu lugar no cinema brasileiro e quebrando muitos tabus. Recife é uma cidade com artistas que estão buscando seu lugar, sua própria produção. Já tem a Escola de Cinema da UFPE, uma lei para o setor.

Miguel Arcanjo Prado — Depois de Tatuagem você fez outro filme?
Nash Laila — Fiz Amor, Plástico e Barulho, da Renata Pinheiro, que tinha feito a direção de arte de Tatuagem. Esse é um filme de mulher: dirigido por mulher, montado por mulher.

Miguel Arcanjo Prado — Como você foi parar no Oficina?
Nash Laila — Em 2007, vi Os Sertões lá em Recife. E isso mudou minha vida. Eu precisava fazer isso. Eu fui fazendo amigos. Depois que acabou o Tatuagem, ficou aquele clima... Então, resolvi arriscar. No Oficina, comecei sendo público e isso modificou o rumo das minhas escolhas. Estar aqui hoje é como uma síntese das coisas.

nash laila foto bob sousa3 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

"O Oficina é o lugar onde me sinto à vontade", diz atriz Nash Laila - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Por quê?
Nash Laila — No Teat(r)o Oficina me sinto à vontade. É um lugar no qual consigo me libertar no teatro, me identifico com muita coisa. A música aqui é muito forte, impulsiona. O Oficina mistura tudo o que eu gosto. Estou no Oficina desde 5 de maio de 2012. Já fiz seis peças com o Zé [Celso, diretor do Oficina].

Miguel Arcanjo Prado — Como é lidar com tantos artistas no Oficina?
Nash Laila — A grande força do Oficina é o coro, isso que me arrebatou. O Zé é muito ligado nas pessoas. Ele é muito sensível ao presente. Toda vez que ele saca que a pessoa está presente, ele vai junto.

Miguel Arcanjo Prado — Como é sua relação com São Paulo?
Nash Laila — É muito louca. De desde quando falava: jamais moro em São Paulo. Até agora que grande parte dos meus amigos moram aqui. Fui criando uma rotina, um jeito de viver. Antes, morava com meus pais. Aqui, eu me vi sozinha, tendo de fazer minhas coisas. Hoje, em São Paulo eu me sinto em casa. Claro que estou cansada do barulho, sinto saudade do mar... Acho que sou um peixinho. São Paulo para mim é maravilhosa, desde que eu vá e volte.

nash laila foto bob sousa6 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

Nash Laila, com Cacilda ao fundo, no Oficina: "Tento me colocar o máximo" - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado —Você fez no Oficina papeis importantes, como a Cacilda menina.
Nash Laila — O Zé fala de atuadores. Essa palavra tem um grande símbolo. O atuador se coloca mais do que o ator. Tanto nas escolhas quanto no processo eu tento me colocar o máximo.

Miguel Arcanjo Prado — O que você quer da vida?
Nash Laila — Eu? Tanta coisa... A gente está vivendo um momento muito sensível. O mundo está muito caretão. A gente tem que quebrar tudo, para ter um pouco de afeto. No nosso trabalho, mexemos com fogo. Gente é uma coisa que amo e odeio.

nash laila foto bob sousa7 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

"O mundo está muito caretão. Tem que quebrar tudo, para ter afeto", diz Nash - Foto: Bob Sousa

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jaime lorca Entrevista de Quinta: “Teatro não precisa ser difícil para ser bom”, diz chileno Jaime Lorca no Mirada

O ator e diretor chileno Jaime Lorca: teatro simples, sensível e inteligente no Mirada; sua peça Otelo é um dos destaques do Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos - Foto: La Segunda/Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Santos*

O ator, dramaturgo e diretor chileno Jaime Lorca fuma tranquilamente seu cigarro na calçada em frente ao Teatro Guarany, no centro histórico de Santos, litoral paulista. Afinal, precisa de um pouco de calma após viver um turbilhão de emoções no palco com Otelo. A peça que já é apontada como um dos grandes destaques do Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, promovido pelo Sesc São Paulo e que nesta terceira edição homenageia o teatro do Chile, com sete obras deste país na programação.

Enquanto conversa com o Atores & Bastidores do R7, nesta Entrevista de Quinta, o importante nome do teatro chileno precisa parar a fala várias vezes para agradecer aos gestos espontâneos do público, que não se cansa de parabenizá-lo.

Sua versão de Otelo é simples e sofisticada. O texto clássico de William Shakespeare sobre o marido que desconfia da mulher até um fim trágico ganha novas nuances, novas miradas.

Em cena, ele e a atriz Teresista Iacobelli manipulam marionetes com precisão técnica aliada a muita emoção, criando uma história na qual é impossível não mergulhar. Isso acrescido da companhia da música de José Salinas, do figurino de Loreto Monsalve e da luz de Tito Velásquez, num conjunto harmonioso.

Na conversa, Lorca falou sobre seu teatro simples e inteligente ao mesmo tempo e ainda do sucesso no Mirada com a peça de sua Cia. Viajeinmóvil.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Como vocês conseguem criar esta atmosfera tão impressionante como vista em Otelo?
Jaime Lorca – Fazemos sempre teatro com objeto, somando atores e marionetes. Até porque somos, antes de tudo, uma companhia de teatro. Os atores estão no centro.

Miguel Arcanjo Prado – Ficou impressionado com o aplauso tão caloroso, com direito a muitos gritos de “bravo” nas sessões de Otelo no Mirada?
Jaime Lorca – Foi uma reação muito linda. Eu creio que o público recebe a obra muito bem porque ela fala de temas que estão muito perto de cada um de nós. Shakespeare é universal, é próximo. Para entendê-lo, não é necessário ter antes uma gama de conhecimentos. Daí sua genialidade. Otelo é como um instrumento musical que tem todas as notas, desde aquelas mais difíceis e sublimas àquelas mais fáceis. Teatro não precisa ser difícil para ser bom.

Miguel Arcanjo Prado – Teatro pode ser inteligente e descomplicado?
Jaime Lorca – Sim! Claro. É bom lembrar que colocaram Shakespeare em um lugar difícil hoje em dia que não é o lugar dele. Ele escrevia suas peças nos anos 1600. Nessa época ninguém sabia ler e escrever. E ele se comunicava com todos. Por isso causa tanta comoção seus textos.

Miguel Arcanjo Prado – A obra tem múltiplas leituras?
Jaime Lorca – Sim. Muitas questões estão detrás de Otelo. No Chile, por exemplo, é muito associada ao femicídio, que é quando companheiros matam suas mulheres. É muito atual. Chegamos a apresentar a peça em uma prisão feminina e as detentas tinha reações muito fortes, comentavam a peça do começo ao fim. Gritavam, emocionadas: “assassino”, “estuprador”. Foi realmente muito impressionante. Fazer essa analogia com o homem de hoje é a nossa ideia.

Miguel Arcanjo Prado – É impressionante a sintonia sua com a companheira de cena, Teresita Iacobelli. Como vocês conseguem tamanha afinidade?
Jaime Lorca – A ideia da peça é fazer um jogo com os dois atores. Teresita e eu trabalhamos juntos há oito anos e desenvolvemos juntos essa técnica que você viu no palco.

Miguel Arcanjo Prado – A peça já viajou muito?
Jaime Lorca – Sim. No Brasil, já estivemos no Festival de Teatro de Curitiba, e também em Florianópolis e vamos para Belo Horizonte. Já viajamos muito. Agora, vamos começar uma turnê longa. Vamos passar por Argentina, Espanha, Portugal, México, Peru, Estados Unidos, Hungria e Bolívia.

Miguel Arcanjo Prado – Você não vai sair do avião...
Jaime Lorca – [risos] Isso mesmo... Nós gostamos muito do que fazemos. É artesanal. No Chile, também sempre percorremos o país de ponta a ponta. Teatro não é divertimento, é educação. Por isso, nossa peça quer dialogar com o público. Quero que as pessoas completem os espaços vazios. Não dá para comer pipoca no teatro.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo.

Leia a cobertura do R7 no Mirada

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alexandre borges foto bob sousa1 Entrevista de Quinta: Não quero me isolar, quero ser da turma do teatro, diz Alexandre Borges

O bom filho à casa torna: ator de sucesso na TV e no cinema, Alexandre Borges dirige dois espetáculos em São Paulo, cidade onde começou sua carreira nos palcos - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A calma no imponente saguão do hotel Maksoud Plaza contrasta com o trânsito caótico na região da avenida Paulista. Enquanto carros buzinam furiosos, Alexandre Borges surge com uma expressão tranquila e um sorriso aberto no rosto. O caos fica do lado de fora e a paz se instaura momentaneamente.

Apesar de ser uma estrela da TV e do cinema, afinal são 25 novelas e 28 filmes no currículo, ainda mantém aos 48 anos aquele menino que em 1985 saiu de Santos rumo a São Paulo com o sonho de se tornar ator.

Ele não só conseguiu realizá-lo muito bem, como agora também se aventura em outra função. Na última terça (2), estreou no Teatro Cemitério de Automóveis, a peça Uma Pilha de Pratos na Cozinha, de Mário Bortolotto, com sua direção.

Também está em cartaz na capital paulista até 26 de outubro outra peça com direção sua, Muro de Arrimo, no Teatro Brigadeiro, com Fioravante Almeida.

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Alexandre Borges falou sobre muitas coisas importantes para ele: a volta ao teatro paulistano, a relação com a família e os colegas de profissão, e até sobre a participação no último episódio de A Grande Família. E, claro, sobre o artista que quer continuar a ser.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado — Quer dizer que você agora é também diretor de teatro?
Alexandre Borges —
Pois é. Surgiram estes convites de amigos, pessoas que conheço há muito tempo, que admiro. Estou trabalhando com atores de uma geração mais nova. Foram pintando essas oportunidades. Resolvi topar. O Fioravante Almeida, do Muro de Arrimo, é meu amigo desde os tempos em que trabalhamos juntos no Oficina, quando ele estava começando. O Mário Bortolotto eu conheci em 2001, quando ele fez uma participação no filme O Invasor, do Beto Brant. De alguma maneira temos trajetórias parecidas. Somos de outra cidade e viemos para São Paulo.

Miguel Arcanjo Prado — Você é de Santos?
Alexandre Borges — Eu sou.

Miguel Arcanjo Prado — Estou indo agora para lá cobrir o Mirada [Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos]. Na sua época lá não tinha um festival tão grande assim...
Alexandre Borges — Não! Quem dera...[risos]

Miguel Arcanjo Prado — Como foi a estreia de Uma Pilha de Pratos na Cozinha?
Alexandre Borges — Foi ótimo! O Cemitério de Automóveis é um divisor de águas no teatro de São Paulo. O Bortolotto e aquela turma dele trouxeram uma linguagem nova. É um grupo importante, que renovou o teatro na cidade.

alexandre borges foto bob sousa21 Entrevista de Quinta: Não quero me isolar, quero ser da turma do teatro, diz Alexandre Borges

Alexandre Borges: "No começo fazia de tudo, figuração em comercial, feiras..." - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você também começou no teatro de grupo?
Alexandre Borges — Foi. Quando cheguei fiz parte do grupo Boi Voador, fiquei dez anos fazendo peças. Vim de Santos em 1985. Já fazia teatro infantil lá com meu pai, o Tanah Corrêa [um dos grandes nomes do teatro santista]. Sempre tive o sonho de ser ator. A família sempre preocupada [risos]. Meus pais são separados, e a família da minha mãe é mais tradicional... Em 1985, tomei coragem e vim para fazer um teste com o Antunes Filho, no CPT [Centro de Pesquisa Teatral], e passei. E o Boi Voador era muito ligado ao Antunes nessa época. Meu começo foi ali no Sesc Consolação, na rua Dr. Vila Nova.

Miguel Arcanjo Prado — Como foi sobreviver nesta época?
Alexandre Borges — Poxa, Miguel, era dureza [risos]. Fazia de tudo, figuração em comercial, feiras, qualquer coisa que pintasse. Mas é assim mesmo, tem de se virar, tentar a independência na profissão, viver disso. Foi assim no começo. Aí rolou o cinema. E a televisão só surgiu depois de dez anos em São Paulo.

Miguel Arcanjo Prado — Você vive no Rio há muito tempo. Qual sua relação hoje com São Paulo?
Alexandre Borges — Quando fui para o Rio, me casei [com a atriz Julia Lemmertz], comecei a fazer televisão – estou há 21 anos lá –, mas, sempre tive o vínculo com meus amigos, meus companheiros de luta, de começo de carreira em São Paulo. Isso marca muito. Fiz com a Júlia Eu Sei Que Vou te Amar, com o Jabor, que foi aqui em São Paulo. Aí meu filho, Miguel, nasceu eu dei um tempo de teatro.

Miguel Arcanjo Prado — Por quê?
Alexandre Borges — A televisão estava me exigindo bastante e eu quis ser um pai presente, estar junto, ver a evolução. Aí dei um tempo no teatro. Quatro anos atrás, retomei minha relação com o teatro. Aí surgiu Eu te Amo, outra montagem com o Jabor, e Poema Bar, um espetáculo de poesia que já fiz no Rio, em São Paulo e na Europa. Eu faço Vinícius de Moraes e Fernando Pessoa, com um pianista de Portugal. Depois, vieram os convites desses atores que me chamaram para dirigir.

Miguel Arcanjo Prado — Como você virou diretor?
Alexandre Borges — Foi o Fábio Amaral, produtor, quem falou que eu poderia dirigir uma peça. Dois anos depois surgiu Uma Pilha de Pratos na Cozinha. E depois veio a peça Muro de Arrimo, com o Fioravante. Falei: põe meu nome aí, estamos juntos.

Miguel Arcanjo Prado — Foi difícil encarar esta mudança?
Alexandre Borges — De alguma maneira, eu sempre fui me preparando para esse lado da direção. Fui observando, trabalhando, tendo o gosto de ver a coisa. Direção é desde o trabalho do ator, mas ao mesmo tempo o figurinista te traz um desenho, o cara do cenário te mostra algo, e você vai vendo o que é legal, o que precisa mudar... Em vez de ser luz azul pode ser vermelha, a foto do programa pode ser esta... Você vai participando de todo o processo em um trabalho conjunto. Acho que me preparei para isso, porque no teatro já operei som, fui contrarregra, fiz divulgação, produzi, ajudei montar luz, fui atrás de patrocínio, viajei... Aos poucos fui caminhando para este lugar.

Miguel Arcanjo Prado — Sua mulher é atriz, sua enteada [Luiza Lemmertz] também já começou a fazer teatro aqui em São Paulo, com o Zé Celso e o Antunes. Como é ser de uma família de artistas?
Alexandre Borges — Nunca tivemos expectativa de a Luiza seguir carreira... O Miguel não sabemos o que vai ser. Acho que o artístico é importante. Os pais têm de estimular, levar ao teatro, a uma exposição, a um museu, a um concerto. A criança precisa ser estimulada a ter um senso estético. Mais do que uma carreira artística, quero que o Miguel tenha esse olhar artístico, de sacar o que é uma música clássica, o que é um rock, o que é o trabalho do ator, do músico, da dança. Isso deixa a pessoa com um refinamento para a vida, não importa se vai ser jornalista, ator, engenheiro. Ele vem ver a peça em São Paulo, comenta. A Luiza foi a mesma coisa, a gente sempre procurou que ela participasse de nossa vida artística, viajasse com a gente. Ela já decidiu que quer ser atriz. Agora, o Miguel ainda não sabemos, ele ainda vai decidir.

alexandre borges foto bob sousa3 Entrevista de Quinta: Não quero me isolar, quero ser da turma do teatro, diz Alexandre Borges

"Não quero me isolar. Quero ser da turma do teatro", diz Alexandre Borges - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — O que você anda fazendo além do teatro?
Alexandre Borges — Em cinema, lancei o Getúlio, que foi um grande sucesso [no filme ele interpreta Carlos Lacerda, rival do presidente]. Na TV estou dando um tempo. Vou participar do último capítulo de A Grande Família. Vão ligar para o Lineu e dizer que estão pensando fazer um seriado e vão estudar a família dele como referência. Aí vem o Daniel Filho e a turma da TV pra casa deles. Cada ator convidado vai fazer um personagem como se fosse de A Grande Família. Eu vou fazer o Evandro Mesquita. Adorei este convite, porque sou fã da série.

Miguel Arcanjo Prado — Como é reencontrar São Paulo depois de 20 anos no Rio?
Alexandre Borges — Tem um pouco da memória emotiva, de você andar em mesmos lugares onde andou 25 anos atrás. Reencontrando pessoas e conhecendo pessoas novas. Para mim é um reencontro muito emocional, me renova. O artista sempre tem de estar em xeque, procurar coisas novas, desafio. Quero me colocar em uma situação que não é confortável. Agora tenho uma responsabilidade maior, preciso entregar um produto para o produtor, para o ator, para o público. Saí da minha zona de conforto. E eu sou isso: esse cara que quer fazer coisas novas, participar junto dos atores da nova geração, estar na roda.

Miguel Arcanjo Prado — Voltar a fazer parte da turma?
Alexandre Borges — Sim. Isso mesmo. Não quero me isolar. Quero ser da turma do teatro. Isso me rejuvenesce, me faz voltar ao estado anterior, onde tinha de me virar fazendo figuração, feira, teatro infantil...

Miguel Arcanjo Prado — E ainda não se hospedava no Maksoud Plaza...
Alexandre Borges — Exatamente. O Maksoud é um upgrade [risos]. Isso tudo me faz sentir vivo, atuante. E tudo é para o público. O público de São Paulo me dá muito carinho.

Miguel Arcanjo Prado — Mesmo na TV, você sempre é chamado para fazer paulistanos. Eu me lembro de você em A Próxima Vítima, que era uma novela bem de São Paulo. Também agora em Tititi...
Alexandre Borges — Eu levo um pouco de São Paulo para o Rio. Adoro o Rio, adoro estar lá, mas muito da poluição de São Paulo está impregnado aqui ó [bate no braço, mostrando as veias e sorrindo].

alexandre borges foto bob sousa4 Entrevista de Quinta: Não quero me isolar, quero ser da turma do teatro, diz Alexandre Borges

Alexandre Borges, de volta a SP: "O artista sempre tem de estar em xeque" - Foto: Bob Sousa

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leticia coura foto bob sousa6 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

A atriz e cantora Letícia Coura: ela gosta de samba, e de teatro também - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A mineirinha de Belo Horizonte Letícia Coura é uma das figuras emblemáticas do teatro paulistano. Na cidade há mais de 20 anos, logo se misturou à turma do palco e também ao pessoal da música. Transita pelas duas áreas com todo o conforto do mundo.

Ela integra o grupo Revista do Samba, que acaba de lançar seu quinto disco, Samba do Revista. O trio, que ainda tem Vitor da Trindade e Beto Bianchi, é considerado referência em seu estilo musical. Além de cantora, também é atriz e integra o elenco do Teat(r)o Oficina dirigido por Zé Celso.

Agora em setembro, estará com o grupo no Mirada, o Festival Ibero-americano de Artes Cênicas de Santos, apresentando a peça Walmor y Cacilda 64: Robogolpe, na qual vive a atriz Cleyde Yáconis, mais uma personagem emblemática para seu currículo, onde já figura Tarsila do Amaral.

Letícia recebeu o Atores & Bastidores do R7 para esta Entrevista de Quinta em uma tarde de sol no Teat(r)o Oficina, no Bixiga, região central de São Paulo.

Ao contar sua história, explicou sua batida perfeita entre a música e o teatro. E ainda revelou seu projeto futuro: construir a discografia das músicas das cinco décadas do Oficina.

Leia com toda a calma do mundo.

leticia coura foto bob sousa2 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

Letícia Coura e seu cavaquinho: ela quer construir a discografia do Teat(r)o Oficina - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você é de Belo Horizonte, né?
Letícia Coura — Sim, mas já estou tanto tempo aqui em São Paulo que, às vezes, parece que minha vida em BH foi em outra encarnação [risos]. Meus pais eram do interior de Minas, meu pai era desembargador e minha mãe, contadora.

Miguel Arcanjo Prado — Como era quando criança?
Letícia Coura — Era a mais animada da sala, na festa junina, então, era emprestada para as quadrilhas das outras salas. Sempre gostei de música. Fiz violão clássico, depois passei para o popular, cantei em coral... Como cantora sou ótima atriz e como atriz sou uma ótima cantora [risos].

Miguel Arcanjo Prado —E quando chegou a hora do vestibular?
Letícia Coura — Escolhi comunicação na UFMG, sou sua colega de curso. Tenho uma irmã médica e um irmão arquiteto. Já estudava música, mas fiz comunicação. Na época da faculdade, comecei a fazer performance e vídeo. Fiquei um ano fora, morei em Genebra e Londres, e um pouquinho na França. Lá na Suíça toquei numa banda. Estudei inglês, viajei...

Miguel Arcanjo Prado — E foi bom dar este tempo?
Letícia Coura — Foi bom sair de casa, porque me virei sozinha. Trabalhei em restaurante, essas coisas. Ir para a Europa me fez ver que eu era ligada à cultura brasileira. Vi que conhecia muito a música brasileira. E quis voltar para o Brasil.

leticia coura foto bob sousa4 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

Letícia Coura nasceu em Belo Horizonte, morou na Europa, mas foi parar em SP - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado —Aí você terminou o curso na Fafich [Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG]?
Letícia Coura — Terminei, fiz jornalismo e publicidade. Acho que fiz curso superior porque disseram para mim que se um dia eu fosse presa teria direito à cela especial [risos].

Miguel Arcanjo Prado — E o que você fez?
Letícia Coura — Abri uma produtora com amigos lá em BH. Aí fiz um concurso para ser jornalista do Tribunal do Trabalho e passei. Acho que foi a única felicidade que dei para a minha mãe [risos].

Miguel Arcanjo Prado — Mãe mineira adora ver filho passando em concurso público [risos]. E aí você virou servidora?
Letícia Coura — Sim. Mas este trabalho me possibilitou fazer um monte de coisa que tinha vontade. Estudei dança, fiz balé, gafieira, dança afro...E continuei na música. Era um trabalho que não atrapalhava... Tive muita influência do Clube da Esquina, comecei a fazer shows pelo DCE [Diretório Central dos Estudantes da UFMG]. Aí resolvi pedir transferência para São Paulo.

Miguel Arcanjo Prado — E conseguiu?
Letícia Coura — Sim. Cheguei em São Paulo em 1991. No começo, me dava uma angústia, sabe. Aí no prédio em que fui morar tinham dois músicos. Comecei a fazer a ULM [Universidade Livre de Música] e montei um show com o Chico Amaral [compositor mineiro, parceiro em vários sucessos do Skank] lá em BH. Ficava um pé lá, outro pé cá.

Miguel Arcanjo Prado — E o teatro?
Letícia Coura — A Titane [cantora mineira] estava morando em São Paulo e me indicou para fazer uma peça com a Beatriz Azevedo, porque ela precisava de uma cantora. Chamava-se I Love. Fizemos turnê em Campinas e tudo!

leticia coura foto bob sousa1 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

Foi ao ver peça do Oficina com Raul Cortez que Letícia ficou cativada pelo grupo - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — E o Oficina?
Letícia Coura — Morava na rua Vergueiro e fui ver As Boas do Oficina no Centro Cultural São Paulo, com o Raul Cortez no elenco. Era tão bonito! Lembro que pensei: ainda bem que me mudei para esta cidade que tem uma peça como essa. Aí a Beatriz me chamou para ir num ensaio de Hamlet, no Oficina. Lembro que era um Domingo de Ramos. Neste dia conheci o Zé [Celso, diretor do Oficina]. E aí acabei entrando para o Oficina e larguei o emprego no Tribunal do Trabalho.

Miguel Arcanjo Prado — Foi uma decisão difícil?
Letícia Coura — Foi. Estava tudo muito puxado, ensaios. E vi que não queria mais. Pedi para sair e não me arrependi. Já estava ligada ao teatro, então tive de fazer uma opção. É claro que de grana foi complicado. Comecei a dar aula de canto e aquilo me abriu um mundo.

Miguel Arcanjo Prado — Você resolveu investir na música?
Letícia Coura — Sim. Gravei o disco Bambambã, que é um disco com interpretações bem teatrais. Fiz turnê. Também fiz as Bacantes, no Oficina, na virada de 1999 para 2000. Depois, fui fazer peça no Satyros. Fiz a primeira peça com eles na praça Roosevelt. Lembro do Rodolfo [García Vázquez, diretor do Satyros] passando cera no chão antes de o teatro abrir [risos]. Conheci o Ivam [Cabral, ator] quando eles estavam voltando de Portugal. Ele tinha trazido um autor francês, Bernard-Marie Koltés e eu havia feito a tradução. Fizemos Retábulo da Avareza, Luxúria e Morte, no elenco tinha o Ivam, a Patrícia Vilela, o Daniel Gaggini, o Tadeu Perroni...

leticia coura foto bob sousa5 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

Letícia Coura integra o trio Revista do Samba, reconhecido até na Europa - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Ainda não tinha a Phedra D. Córdoba?
Letícia Coura — Não! Eu lembro do dia em que a Phedra foi ver o Retábulo pela primeira vez. Lembro que o Ivam ficou todo intrigado, perguntando quem era aquela senhora [risos]... Depois a Phedra fazia ótimas apresentações no bar dos Satyros!

Miguel Arcanjo Prado —E a música?
Letícia Coura — Aí lancei meu segundo disco, Vian, em um show no Satyros, com direção do Rodolfo, com os poemas do autor francês Boris Vian musicados. O Ivam foi muito importante nesta época e fazia o show comigo, criamos juntos. Era em linguagem de cabaret. Foi uma época boa... O Satyros tinha coisa a semana inteira. Quando não fazia meu show, ficava na bilheteria. Depois, montei a Revista do Samba, que é o trio no qual estou até hoje ao lado do Vitor da Trindade e do Beto Bianchi. Foi a gente que fez o show da reabertura do Bar Brahma, na clássica esquina da Ipiranga com São João.

Miguel Arcanjo Prado — O grupo tem muito prestígio.
Letícia Coura — Olha, gravamos o primeiro disco, Clássicos do Samba, e logo fizemos turnê na Europa. O segundo disco, Outras Bossas, só saiu na Europa. Em 2005, fizemos o projeto Revista Bixiga Oficina do Samba, resgatando sambas paulistanos e trabalhando com as crianças do bairro.

Miguel Arcanjo Prado — E aí você passou a se dividir entre o grupo e as peças do Oficina?
Letícia Coura — Sim. Fiz Os Sertões, O Banquete, tudo... Neste ano, em Walmor y Cacilda 64: Robogolpe, que agora vamos apresentar no Mirada, lá em Santos, faço a Cleyde Yáconis. Já fiz também a Tarsila do Amaral... São personagens muito ricas e emblemáticas. Sempre trabalho a música dentro do Oficina. E sabe qual é o meu grande sonho?

Miguel Arcanjo Prado — Qual?
Letícia Coura — É um dia consegui fazer a discografia inteira das peças do Oficina. Porque a história musical do grupo é muito rica e merece ser registrada para o futuro.

leticia coura foto bob sousa3 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

A cantora e atriz Letícia Coura, no Teat(r)o Oficina: onde une teatro e música - Foto: Bob Sousa

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