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bob sousa foto isabela sousa Entrevista de Quinta: Meu livro Retratos do Teatro está da Escola Wolf Maya à EAD, diz Bob Sousa

O fotógrafo do teatro Bob Sousa: exposição para abrir e fechar 2014 - Foto: Isabela Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O fotógrafo paulistano Bob Sousa começou o ano de 2014 com a exposição de fotografias de cenas teatrais Revelando a Caixa Preta no Sesc Consolação, em São Paulo. E vai encerrá-lo da mesma forma: com a exposição Retratos do Teatro, no Sesc Thermas de Presidente Prudente, interior do Estado. É a primeira de seu livro homônimo, lançado há um ano pela Editora Unesp.

A mostra fica em cartaz a partir desta sexta (21) e vai até 21 de dezembro, com entrada gratuita, de terça a domingo, das 9h às 18h. Ela faz parte da 21º edição do Fentepp (Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente), organizado pelo Sesc São Paulo em parceria com a Prefeitura da cidade e o Governo de São Paulo.

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Bob, que tem no portal a coluna O Retrato do Bob, falou sobre a repercussão de seu livro, da exposição, de seu trabalho, de seu mestrado, além de se definir: "Sou um cara do teatro".

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Esta é a primeira exposição do Retratos do Teatro?
BOB SOUSA — Sim. Depois do lançamento do livro, no final do ano passado, esta é a primeira mostra que será apresentada com parte dos retratos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como surgiu a ideia desta exposição? Como foi a parceria com o Sesc?
BOB SOUSA — A Adriana Macedo, que integra a equipe de curadoria do festival neste ano, foi quem teve a ideia de levar a exposição para o festival, pois já tínhamos realizado o lançamento do livro e a mostra Revelando a Caixa Preta em parceria com o Sesc. O convite foi feito pela unidade do Sesc de Presidente Prudente, na figura do João Roberto, gerente adjunto da unidade. A Mariana Fessel, programadora de artes visuais, está cuidando de tudo. E, claro, o Danilo Santos de Miranda [diretor regional do Sesc São Paulo], que tem um olhar perspicaz para meu trabalho e foi quem apresentou meu livro no lançamento.

antunes ze celso bob sousa Entrevista de Quinta: Meu livro Retratos do Teatro está da Escola Wolf Maya à EAD, diz Bob Sousa

Dois mestres de nosso teatro: Antunes Filho e Zé Celso no olhar de Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Dá frio na barriga estar em um festival com Antunes e Zé Celso como é o caso do Fentepp neste ano?
BOB SOUSA — É uma grande responsabilidade. A ideia da exposição no festival vem do fato de ter estes dois grandes nomes abrindo e fechando o Fentepp, e o livro também foi elaborado com essa disposição: os guardiões do teatro brasileiro abrem e fecham as páginas do livro, que começa com Antunes e termina com Zé Celso, igualzinho ao festival.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quem são os 20 retratados escolhidos? O que eles representam?
BOB SOUSA — Tentei ser o mais abrangente possível já que seriam apenas 20 retratos. É muito difícil realizar a curadoria de um projeto como esse, mas tive a ajuda do pesquisador teatral Alexandre Mate. Além dos mestres já citados, teremos Maria Alice Vergueiro, Cacá Rosset, Ivam Cabral e Antonio Fagundes, entre outros.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você também fará uma palestra?
BOB SOUSA — A ideia é contar um pouco como foi o projeto do livro. Cada retrato tem uma história e foi muito bonito vivenciar tudo isso. Acho que o grande público tem interesse em saber um pouco sobre esses grandes artistas que construíram a nossa cena teatral.

caca rosset bob sousa Entrevista de Quinta: Meu livro Retratos do Teatro está da Escola Wolf Maya à EAD, diz Bob Sousa

O ator e diretor Cacá Rosset está na exposição Retratos do Teatro - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — O lançamento do livro Retratos do Teatro completou um ano, qual avaliação você faz da trajetória dele?
BOB SOUSA — A distribuição foi bastante abrangente e o livro já é fonte de consulta em diversos espaços voltados às artes cênicas. A Marta Suplicy, ex-ministra da Cultura, conheceu a obra e solicitou que as bibliotecas dos CEUS's recebessem o livro. Os artistas também têm muito carinho pelo livro e ajudam na divulgação. O livro já foi apresentados para alunos de diversas escolas de teatro e universidades: do Wolf Maya à EAD.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual o papel que o fotógrafo teatral tem neste meio artístico?
BOB SOUSA — O fotógrafo é o olhar da sociedade. No teatro, ele cumpre o papel de guardião de uma memória, de um tempo. É por meio de fotografias que muitos dos espetáculos serão lembrados posteriormente. Fotografar encenações teatrais exige muito preparo e doação e apesar da explosão digital e das redes sociais, os fotógrafos de teatro ainda são poucos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quando e como você começou a fotografar teatro?
BOB SOUSA — Foi no começo do século [risos]. Meu trabalho já tem mais de uma década. São mais de 500 retratos e 300 espetáculos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você achou da cena teatral paulistana neste ano?
BOB SOUSA — Por conta dos estudos do mestrado no Instituto de Artes da Unesp, orientado pelo Alexandre Mate, tenho acompanhado a cena teatral com menos intensidade, mas penso que foi um ano bastante produtivo para o teatro paulistano. Destaco os 25 anos da Cia. dos Satyros como grande acontecimento deste ano e que será comemorado na Satyrianas que começa nesta quinta.

ivam cabral bob sousa Entrevista de Quinta: Meu livro Retratos do Teatro está da Escola Wolf Maya à EAD, diz Bob Sousa

Ivam Cabral, fundador do grupo Os Satyros, foi clicado por Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você já está terminando o mestrado?
BOB SOUSA — Essa experiência tem sido muito intensa. Me interessava encontrar "o lugar da fotografia na cena teatral paulistana". A minha carreira surgiu da minha curiosidade e vasculhei os quatro cantos da cena teatral paulistana tentando encontrar um lugar para o meu trabalho. Hoje sei que sou um cara do teatro.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você estudou e trabalhou muito neste ano. Vai tirar férias?
BOB SOUSA — Este ano começou com uma exposição no Sesc Consolação e termina com a exposição no Fentepp. Fui da semiótica à história do teatro mundial. Preciso de férias. Eu mereço.

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teatrodebonecas fotoBobSousa4 Entrevista de Quinta: Muitas vezes em cena você é mais você do que na vida, diz atriz Milena Filó

A atriz Milena Filó, em cena da peça Teatro de Bonecas, em cartaz em SP - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A atriz Milena Filó é a verdadeira mãe do espetáculo Teatro de Bonecas, em cartaz no Teatro Pequeno Ato, em São Paulo, até o fim do mês [veja serviço ao fim].

Na peça, na qual atua ao lado de Jaqueline Stefanski, sob direção de Adriano Cypriano, investida os limites entre a realidade e a arte, tendo como inspiração o clássico texto Casa de Bonecas, escrito pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen em 1879.

O mergulho foi tão profundo no espetáculo que ela foi tema do mestrado em artes que a atriz concluiu na Unesp, onde também se graduou em artes cênicas.

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Milena falou sobre a peça, sobre sua vida, sua arte, seu sonho.

Leia com toda a calma do mundo.

teatrodebonecas fotoBobSousa5 Entrevista de Quinta: Muitas vezes em cena você é mais você do que na vida, diz atriz Milena Filó

Milena Filó em cena do espetáculo que fica em cartaz até o fim do mês em SP - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que Teatro de Bonecas?
MILENA FILÓ — Porque é inspirado no texto Casa de Bonecas, do Ibsen, mas, principalmente, em uma fala da personagem Nora, quando ela diz para o marido: “Esta casa nunca passou de um teatro”. Ela diz isso quando está indo embora, porque ela quer dizer que nunca foi ela mesma lá, que sempre interpretou. Isso é a base, a camada principal da peça. A gente fala dessa relação, principalmente das atrizes, de viver interpretando, e quase nunca ser você mesmo. É uma dualidade. Muitas vezes em cena você é mais você do que na vida.

MIGUEL ARCANJO PRADO — A vida é um grande teatro?
MILENA FILÓ — Exatamente, trazemos esta questão para a peça. O quanto a gente ficcionaliza as nossas relações, os encontros, o quanto a gente cria uma ficção... A gente inventa coisas que não existiu no encontro para a história ficar melhor. Na busca de interpretar essa personagem, essas duas atrizes, eu e Jaqueline, acabamos nos identificando muito com as situações, como término de relacionamento, busca de espaço e de identidade. A gente coloca muito de nós duas na peça.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que as redes sociais ajudaram a aumentar essa representação social?
MILENA FILÓ — Bastante. No Facebook, às vezes a gente posta imagens, mesmo de momentos da vida, que parecem uma coisa incrível. A imagem é muito bonita, ficcional e nem sempre corresponde à realidade. Muitas vezes, a pessoa estava sozinha, triste naquele lugar, e para os amigos de Facebook parece que aquilo foi um grande acontecimento. Tudo fica maior.

teatrodebonecas fotoBobSousa3 Entrevista de Quinta: Muitas vezes em cena você é mais você do que na vida, diz atriz Milena Filó

Jaqueline Stefanski e Milena Filó: parceria no palco entre as duas atrizes - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Isso mexe com você?
MILENA FILÓ — Muito. O acesso e a rapidez, uma informação você consegue que chegue em cem pessoas em um segundo. É muito rápido, é instantâneo. Antes, você esperava semanas por uma cartas. Hoje, é tudo muito rápido, veloz. Antes, essa representação existia, mas de forma mais moderada.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Representar sem parar dá um vazio na vida?
MILENA FILÓ — Esse grau de exigência do outro, de ter de corresponder a essa demanda, chega o momento que você não é nada. Essa é uma fala da peça: "Parece que de fato eu nunca fiz nada". São tantas coisas para agradar o outro que no final você acaba não tendo nada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Tudo isso é muito pessimista. O que a gente faz?
MILENA FILÓ — É uma constatação de que atualmente a gente vive com um grau de rapidez muito grande. Mas tem o lado bom, é que você consegue transformar as coisas, fazer mudanças. Antes, você ficava muito tempo apegado a algo. Agora, você consegue dialogar mais. O espetáculo tem várias camadas. O Alexandre Mate, que orientou meu mestrado na Unesp, que foi sobre a peça, fala que o espetáculo é um palimpsesto, que é como uma cebola, que tem várias camadas, que vão sendo desvendadas. Elas vão se despelando pelo olhar do público. E não é necessário que todos vejam todas as camadas. O melhor é que isso é o que o pós-moderno trás. Você tem a camada da personagem, da atriz, das amigas, da irmã, você consegue ter todas as camadas ali.

teatrodebonecas fotoBobSousa2 Entrevista de Quinta: Muitas vezes em cena você é mais você do que na vida, diz atriz Milena Filó

Milena Filó transformou a pesquisa para a peça Teatro de Bonecas em mestrado - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você fez um mestrado sobre a peça?
MILENA FILÓ — O meu mestrado, na Unesp, fala exatamente dessa questão de dualidade. Chama-se Alteridade Trocadas – O Encontro de Duas Ficções. É a mistura do que é real e do que é ficcional. Muitas vezes, o teatro se torna muito mais real do que qualquer realidade. A lupa dele torna tudo muito mais real. E no mestrado eu falo também de um termo das artes plásticas que se chama pentimentos, que significa arrependimento: é o traço que o pintor fez e passa uma tinta em cima e depois de muito tempo, esta vai se descascando e vemos o traço que ele se arrependeu. A peça traz esse inacabado para mostrar o processo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Onde você nasceu?
MILENA FILÓ — Eu nasci em São Paulo e passei a infância em Bragança Paulista até os nove anos. Depois, voltei para cá.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem uma irmã atriz, a Aline Filócomo. Como é isso para você?
MILENA FILÓ — São as dores e as delícias. De irmão. Minha irmã é minha melhor amiga. Começamos a fazer dança juntos, fizemos piano juntas, violão juntas e depois teatro. Só que cada uma foi para um caminho... A gente sempre troca experiências. Eu faço uma participação no espetáculo do grupo dela, a Cia. Hiato, Ficção, que ela fala de mim, da relação de irmãs atrizes. E ela fala nesse monólogo todo o espetáculo Teatro de Bonecas, e eu entro no final. E ela usa essa dança, da nossa peça, no monólogo dela. A minha relação com minha irmã muita gente conhece por uma peça.

teatrodebonecas fotoBobSousa1 Entrevista de Quinta: Muitas vezes em cena você é mais você do que na vida, diz atriz Milena Filó

"Minhas referências são Pina Baush e Marina Abramovic", diz atriz Milena Filó - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E sua relação com a Jaqueline Stefanski, a outra atriz da peça?
MILENA FILÓ — Tem uma história engraçada. A Jaqueline é irmã de atriz também. Ela é irmã da Fernanda Stefanski, que trabalha junto com minha irmã, a Aline, na Cia. Hiato. E as duas são as mais velhas e eu e a Jaqueline somos as mais novas [risos]. E tem mais: a Aline e a Fernanda estudaram juntas na USP. Já a Jaqueline e eu estudamos juntas na Unesp. São muitas coincidências [risos]. A gente sempre se encontrava indo ver as peças das irmãs. Eu comecei a pesquisa desse espetáculo com uma outra atriz. Aí, por percalços da vida, esta atriz teve que sair e surgiu a Jaqueline; foi quase olhar para o lado. Foi incrível porque a gente se sente super bem em cena. A gente tem um jogo gostoso, descobrimos coisas novas todos os dias. Gostamos de mudar, experimentar, colocar. Eu trouxe um texto novo outro dia e ela falou: "Tudo bem, vamos lá". Ela se joga. Também não posso deixar de falar do diretor, Adriano Cypriano, e da Kika, responsável pela trilha sonora, que são outros parceiros de longa data. E principalmente o diretor, que comprou a minha ideia desde o início.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você quer fazer daqui a 30 anos?
MILENA FILÓ — Eu quero fazer teatro, estar atuando e escrevendo cada vez mais. Essa é minha primeira dramaturgia adulta, já tinha escrito o infantil A Viagem de Ultravioleta, com o Fábio Superti. Eu quero cada vez mais me aprimorar nisso. Sou uma pessoa que gosta muito de experimentar. Minhas referências são Pina Bausch e Marina Abramovic, gente que trouxe coisas novas e instigantes para a arte.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você virou atriz?
MILENA FILÓ — A minha mãe foi uma grande incentivadora neste sentido, ela era professora e sempre adorava dança e teatro. Desde pequena, colocou minha irmã e eu para fazermos dança. Não era uma coisa que a gente ia de má vontade. A gente gostava. Eu dou aula para criança e sei que, quando ela não quer fazer, é tortura. Nas férias, na casa da minha avó, a gente fazia peças para a família no porão. Isso já era uma diversão e um trabalho que a gente fazia, cobrava, fazia divulgação. E depois esse caminho só foi estreitando. Quando fui escolher uma faculdade eu já fazia curso técnico de teatro. Aos 15, já ia para festival de teatro e dança desde a adolescência, pelo interior do Estado. Já estava ali. A arte sempre foi o meu lugar.

Teatro de Bonecas
Quando: Sábado, 21h, domingo, 19h. 75 min. Até 30/11/2014
Onde: Teatro Pequeno Ato (r. Teodoro Baima, 78, República, São Paulo, tel. 0/xx/11 99642-8350)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos

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Alexandre DAngeli performance 436 foto Léo Pinheiro 5 Entrevista de Quinta   Desmemória com ditadura é conveniência política, diz Alexandre DAngeli

O ator e performer Alexandre D'Angeli: lembrança de tempos tenebrosos no Memorial da Resistência, na Luz, em São Paulo, entre 19 e 25 de outubro, na performance 436, com entrada gratuita - Foto: Léo Pinheiro

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Foi na escola que o artista Alexandre D'Angeli descobriu que havia passado sua infância durante um dos mais tristes períodos da história brasileira: a ditadura civil-militar. Foi naquele momento que ganhou a consciência política que sempre invade sua arte.

Ele coloca o dedo na ferida ao realizar, entre 19 e 25 de outubro, a performance 436, com entrada gratuita. O título remete ao número de pessoas desaparecidas ou assassinadas pelo regime ditatorial que serão lembradas no ato, que contará com a participação do público, confeccionando 436 máscaras com ele, uma com o nome de cada vítima.

O lugar não poderia ser mais apropriado: o Memorial da Resistência (largo General Osório, 66, Luz), onde funcionou o temido Departamento Estadual de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo (Deops/SP), centro de torturas da ditadura. Hoje, o lugar é uma espécie de museu que se dedica a mostrar a todos os brasileiros de hoje e do futuro que o horror é possível.

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Alexandre D'Angeli, que além de ator é bonequeiro e figurinista, fala sobre a performance 436, a ditadura que vigorou entre 1964 e 1985 e a nova onda de conservadorismo que invade o País.

Leia com toda a calma do mundo.

Alexandre DAngeli performance 436 foto Léo Pinheiro 8 Entrevista de Quinta   Desmemória com ditadura é conveniência política, diz Alexandre DAngeli

Cada máscara terá o nome de um desaparecido político durante a ditadura - Foto: Léo Pinheiro

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tinha qual idade na época da ditadura, se lembra dessa época?
ALEXANDRE D'ANGELI — Estava com um ano de idade quando terminou o governo Médici em 1974, que foi o final do chamado “anos de chumbo”. Em 1979, quando iniciei no ensino fundamental e por viver numa cidade pacata do interior de São Paulo, não imaginava que essas atrocidades aconteciam.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quando você entendeu o que foi a ditadura?
ALEXANDRE D'ANGELI — Em 1985, o colégio onde eu estudava organizou uma semana para discutir a importância e se colocar a favor da luta pela anistia de políticos brasileiros e a respeito das eleições diretas para presidente da República. O tema me mobilizou de tal forma que naqueles dias participei de todas as atividades da programação e deixei loucos meus professores, tamanha minha curiosidade sobre o assunto.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Dá pra ver que você era uma criança interessada...
ALEXANDRE D'ANGELI — Além disso, havia em mim uma surpresa de tudo aquilo ter ocorrido durante minha infância, de ser algo tão próximo. De certa forma, fiquei aliviado por ter minha família sempre ao meu lado, imaginando o quão triste seria crescer sem tê-los por perto em razão de perseguições políticas. Penso que foi aí que comecei a ser mais crítico com o que lia e via sendo veiculado nos telejornais. Havia mesmo muitos elementos que caracterizavam aquilo como ditadura e não apenas como uma situação de autoridade.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem alguma história familiar com a ditadura?
ALEXANDRE D'ANGELI — Não. Apenas relatos. Minha mãe, que era uma jovem estudante em 1968, conta que havia um professor contra o regime, que em sala de aula atentava para os que quisessem criticar a política e a situação do país, que o fizessem apenas em sua aula, jamais em frente ao colégio. Outra situação que ela me contou é que houve um período, nos dias do golpe, que a volta para casa depois da aula era feita com escolta de militares do exército.

Alexandre DAngeli performance 436 foto Léo Pinheiro 4 Entrevista de Quinta   Desmemória com ditadura é conveniência política, diz Alexandre DAngeli

Artista Alexandre D'Angeli vai se encontrar com o público do Memorial da Resistência, para confeccionar máscaras que representam mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar - Foto: Léo Pinheiro

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que os brasileiros já se esqueceram dos horrores da ditadura?
ALEXANDRE D'ANGELI — Esquecer? Creio que não e penso que isso nem deva ser uma opção, sobretudo, pelo fato de cerca de 60% da atual população brasileira não ter vivido os tempos da ditadura. É necessário que se fale a respeito, que se conte o que realmente aconteceu e mantenha isso presente, conforme a frase dita por D. Paulo Evaristo Arns: “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”. É importante destacar que neste momento, além de pesquisas, eventos e publicações; temos as Comissões em diversas instâncias, mobilizadas em descobrir a verdade, além das secretarias que avançam lentamente nas investigações, tensionando a Justiça brasileira na busca e punição dos culpados. Há diversos outros órgãos e institutos, como é o caso do Instituto Zuzu Angel e do Instituto Vladimir Herzog.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que, ao contrário de países como o Chile e Argentina, que mantêm sempre viva a memória dos anos de chumbo, o Brasil deixa essa parte de seu passado esquecida?
ALEXANDRE D'ANGELI — Há uma resistência que luta para que isso se mantenha no passado. Recentemente acompanhamos perplexos a liminar concedida pelo STF suspendendo a ação contra cinco militares reformados acusados pelo homicídio e ocultação de cadáver do ex-deputado Rubens Paiva. É triste e lamentável que ainda hoje isso ocorra – é a eternização da tortura, frase dita por Vera Paiva, filha de Rubens após saber da decisão. Do outro lado, temos iniciativas como é o caso do Memorial da Resistência de São Paulo, local onde realizo a performance 436, que desenvolve um trabalho maravilhoso e incansável. Um espaço de memória, que preserva registros importantes e está sempre mobilizado a desenvolver ações que nos sensibilizem para a compreensão e elaboração dos fatos. Um bom exemplo é a exposição 119 do artista chileno Cristian Kirby, que terá abertura neste sábado com 120 intervenções gráficas sobre fotografias de desaparecidos políticos durante a ditadura no Chile.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual o perigo desse esquecimento?
ALEXANDRE D'ANGELI — Prefiro chamar de “desmemória”, pois não é um esquecimento, mas uma conveniência política. Isso é ainda mais grave, pois nos distância da compreensão do que de fato ocorreu, impedindo que reconheçamos quais são as ferramentas usadas por um regime ditatorial. Essa “desmemória” também permite, por exemplo, que “Bolsonaros” sejam eleitos e o fato se reduza a mera discussão política, o que nos faz perceber qual o grau de despolitização e desconhecimento da sociedade. O grau de tolerância para com esses fatos e práticas repressivas do governo de São Paulo ocorridas durante os manifestos do ano passado é prova do quanto estamos anestesiados.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você resolveu fazer essa performance?
ALEXANDRE D'ANGELI — Há tempos pensava em desenvolver 436. Na ocasião não tinha certo se seria uma ação performativa, mas me indignava muito pensar o que significa a condição de desaparecido para os familiares das pessoas que foram vítimas do regime militar. Sem dúvida, continuar desaparecido é a prova maior de que a repressão existe e ainda nos assombra. Dessa forma, quis criar uma obra onde pudesse materializar esse desejo. Os rostos de papel que monto durante a performance, – máscaras – estão destituídas de sua função cênica, como adereços que caracterizam tipos, personagens ou que faz referência à representação. Procurei utilizar a máscara como desejo pela presentificação, uma tentativa na busca da ideia “desse” outro – o desaparecido. Além disso, proponho pensar o esquecimento no sentido político, a partir do questionamento sobre o que se esqueceu ou o que deve ser esquecido, afim de que se possa construir novas memórias, menos amedrontadas e mais fidedignas ao que de fato ocorreu.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual a importância desse contato direto com o público para você?
ALEXANDRE D'ANGELI — Fundamental, tanto que tenho ampliado as ações em espaços públicos, como é o caso da intervenção OBJETOS DE VALOR que teve início no Terminal Rodoviário do Tietê durante a Virada Cultural de 2010, já passou por diversas cidades e Estados e em dezembro acontece na Avenida Paulista ou ainda LISTENING TO THE SHEEP SLEEPING, onde as pessoas podem deitar-se ao meu lado e escutar textos escritos especialmente para a obra pelo cartunista Caco Galhardo. A ação, que passou pelo Projeto É Logo Ali, do Sesc Ipiranga, retorna a partir de 7 de novembro na Casa das Rosas. Vale destacar, que uma ação performativa, como é o caso de 436, o público, ou a audiência, como costumamos chamar, pois as pessoas não irão ao Memorial para assistir a um espetáculo, mas para integrarem a obra. Os visitantes articulam como elemento colaborador para a existência daquela ação. A performance depende necessariamente da interação física e sensorial dessa audiência, sendo peça “construtiva” da proposição do artista, sem essa imersão a performance não se faz como performance.

Alexandre DAngeli performance 436 foto Léo Pinheiro 1 Entrevista de Quinta   Desmemória com ditadura é conveniência política, diz Alexandre DAngeli

"Em um encontro não há nada previamente definido", diz Alexandre D'Angeli sobre performance 436 - Foto: Léo Pinheiro

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você espera alguma reação das pessoas?
ALEXANDRE D'ANGELI — Trata-se de um encontro, portanto, a reação se dará no momento em que ambos estivermos frente a frente. Em um encontro não há nada previamente definido. O que há é uma grande preparação para manter-se disponível e sensível, pois será o Alexandre, performer e não um personagem, propondo e dividindo a montagem dos rostos de papel. Serão exatamente quatrocentos e trinta e seis encontros com pessoas desconhecidas e que continuarão desconhecidas, pois a ação prevê que não conversemos durante a ação. O que importa é a potência desse encontro e a peça resultante disso – a máscara.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quando foi a primeira vez que você foi ao Memorial da Resistência? O que sentiu?
ALEXANDRE D'ANGELI — Minha primeira visita se deu em 2010. Visitar a exposição permanente foi um mergulho em um dos recortes mais chocantes da história do País. Em diversos momentos senti calafrios ao saber das atrocidades que aconteceram naquele edifício, local que até 1983 sediou o Departamento Estadual de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo (Deops/SP). Se pensarmos que memória não é algo confiável, é transitável, é humana, é social e, portanto, está suscetível ao esquecimento, locais como o Memorial da Resistência tem um papel fundamental na evolução política do país. Além disso, destaco a importância no que se refere a documentação, conservação e das ações de comunição desenvolvidas pelo Memorial por meio de suas exposições e núcleo educativo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você enxerga esse novo conservadorismo presente na sociedade brasileira? Você tem medo dele? Por quê?
ALEXANDRE D'ANGELI — Procuro estar muito atento a esses acontecimentos, sobretudo, quando esse conservadorismo motiva intolerância com as camadas menos favorecidas, como foi o caso da eleição de Marco Feliciano à presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Algo que me envergonha como cidadão. Creio ainda que isso não seja exclusividade só do Brasil, esse novo conservadorismo está presente em diversas partes do mundo. O que me preocupa são os poderosos instrumentos de convencimento e alienação, e o individualismo instaurado que não valoriza o convívio entre as pessoas e a importância do coletivo na sociedade.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que o Brasil pode vir a ter outra ditadura militar num futuro próximo?
ALEXANDRE D'ANGELI — Mais do que achar que podemos ter uma nova ditadura no país, prefiro admitir que há conflitos de interesse e que é necessário lutar fazendo resistência, nos mobilizando para afirmar os interesses ligados a preservação da vida e o exercício da nossa liberdade enquanto sujeitos. O que vejo e fico indignado é o quanto a força e a violência, armas que foram tão usadas pela ditadura, continuam sendo empregadas, sobretudo, nas ações comandadas pelo governo, em especial no Estado de São Paulo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Em quem você pretende votar no segundo turno? Por quê?
ALEXANDRE D'ANGELI — No primeiro turno votei em Luciana Genro do PSOL. Neste segundo turno, é certo que não votarei no Aécio Neves por um conjunto de ações que envolvem a ideia que o candidato tem sobre censura, corrupção, infração às leis ou ainda o histórico do seu governo em Minas Gerais nas áreas de Educação e Saúde, além de episódios ligados à violência contra a mulher.

Você acha que os torturadores da ditadura militar devam ser punidos?

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nao conte ricardo correa 2 Entrevista de Quinta É preciso falar das minorias, diz Ricardo Corrêa, da peça Não Conte a Ninguém

Ricardo Corrêa, autor de Não Conte a Ninguém, no Espaço dos Parlapatões - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Enquanto o Brasil pega fogo nesta véspera segundo turno, o ator e dramaturgo Ricardo Corrêa prefere ir além das redes sociais e dar seu recado no palco.

Escreveu a peça Não Conte a Ninguém, encenada até 28 de outubro no Espaço dos Parlapatões, em São Paulo, sempre às terças, às 21h, com entrada a R$ 30 a inteira e R$ 15 a meia-entrada.

A obra fala de amor e conta a história do adolescente Deco, que começa a descobrir sua primeira paixão e precisa lidar com isso e também com a reação social a ela. A peça toca em tabus que estão mexendo com a sociedade brasileira contemporânea.

Com direção de Davi Reis, a obra da Cia. Artera de Teatro se coloca no papel de discutir a sexualidade sem preconceitos. No elenco, estão Ana Paula Justino, Davi Reis, Jessica Drago, Rodrigo Pasquali, além do próprio Ricardo.

Nesta Entrevista de Quinta ao R7, Ricardo Corrêa fala sobre como a obra foi desenvolvida e ainda diz o que pensa de temas polêmicos da atualidade. Ele ainda declara qem quem votará no segundo turno.

Leia com toda a calma do mundo.

nao conte ricardo correa 5 Entrevista de Quinta É preciso falar das minorias, diz Ricardo Corrêa, da peça Não Conte a Ninguém

Ricardo Corrêa e Davi Reis em cena da peça Não Conte a Ninguém, em São Paulo - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi o processo criativo?
RICARDO CORRÊA —
A primeira versão da peça nasceu em 2004, depois de alguns anos decidi montá-la. Foi um processo árduo de descobertas. Deixei meus personagens soltos, eles foram me dizendo quais eram seus caminhos na história. O diretor e ator Davi Reis soube trilhar o caminho da encenação junto com o elenco. Também as canções (cantamos ao vivo) do Diogo Soares e Thiago Maziero transformaram muito do que escrevi em música e sonoridade e inserções em audiovisual e animações criadas pelo Zeca Rodrigues, que são parceiros fundamentais da Cia Artera.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como surgiu a ideia da peça? É seu primeiro texto? Como foi escrever?
RICARDO CORRÊA —
Eu queria escrever uma peça que mostrasse que as pessoas são iguais, que elogiasse a descoberta do amor na adolescência. Não é a minha primeira peça, já escrevi outras. Depois de anos, a inscrevi em um edital e ganhei o prêmio para montá-la. Nesses anos, me deparei com a necessidade de ir mexendo no texto, que foi um aprendizado, está sendo muito prazeroso fazer este espetáculo para o jovem e para a população LGBT, num momento no qual a discussão está em vigor.

nao conte ricardo correa 4 Entrevista de Quinta É preciso falar das minorias, diz Ricardo Corrêa, da peça Não Conte a Ninguém

Sem preconceito: peça discute o amor - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que vocês resolveram discutir esses temas?
RICARDO CORRÊA — Acho que tem pouca coisa pro jovem e acho que é necessário se falar das minorias. Queríamos falar poeticamente desse universo tão delicado. Este espetáculo é um elogio ao amor. Existe um conjunto de assuntos que nós na Cia. Artera gostamos de falar e são assuntos que tem a ver normalmente com intolerância, preconceito, minorias, às vezes de maneira mais pesada, às vezes de uma maneira mais leve, mais lírica, mais poética como em Não Conte a Ninguém.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quando você era pequeno do que gostava de brincar?
RICARDO CORRÊA —
Colecionava bonecos em miniatura e gostava de inventar histórias com eles.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você começou no teatro?
Como foi sua adolescência?
RICARDO CORRÊA —
Era um adolescente como outro qualquer, cheio de incertezas, buscando pertencimento ao mundo, inadequado. O teatro me direcionou, comecei a fazer teatro muito jovem na cidade de Taboão da Serra, onde meus amigos eram pessoas mais maduras. Minha adolescência se deu no meio teatral.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você gostaria de voltar a ser adolescente?
RICARDO CORRÊA —
Não, só se fosse como no filme Peggy Sue - Seu Passado a Espera, onde a personagem da atriz Kathleen Turner à beira do divórcio desmaia e volta no tempo e vê a vida com o olhar mais maduro.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Onde você estudou? Qual boa lembrança tem dessa época?
RICARDO CORRÊA —
Estudei a vida inteira em escola pública. Tenho saudade da minha primeira professora, das reuniões na casa de amigos pra fazer trabalho e do cheiro que o mimeógrafo deixava nas folhas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você vê o aumento do conservadorismo no Brasil?
RICARDO CORRÊA —
Bem, cada um tem o direito civil de agir e seguir a religião que queira, logo não há justificativa para o Estado restringir comportamentos homoafetivos ou de outra natureza. Enquanto se discute sobre direitos humanos, vemos o aumento do conservadorismo no país e a violência nas ruas. Quando o argumento deixa de ser político, relacionando-o à religião, temos um sério problema: a intolerância e a falta de proteção a liberdade humana.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que o Brasil está caminhando para a direita? Por quê?
RICARDO CORRÊA —
O gigante acordou nervoso e ele quer socar alguém. Mas como que esse gigante despolitizado vai saber em quem que ele quer bater? Ser politizado é entender como funcionam as relações de poder em cada sociedade e no mundo em geral. É compreender que, por trás das relações de troca no mercado existem relações de exploração. Que, por trás das relações de voto, existem relações de dominação. Que, por trás das relações de informação, há um processo de alienação. Se houvesse educação nesse país as coisas seriam diferentes.

nao conte ricardo correa 3 Entrevista de Quinta É preciso falar das minorias, diz Ricardo Corrêa, da peça Não Conte a Ninguém

Não Conte a Ninguém pode ser vista até o fim do mês: toda terça, 21h, no Parlapatões - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual o principal problema da sociedade brasileira hoje em sua visão?
RICARDO CORRÊA — Nossa sociedade enfrenta hoje em dia problemas que estão muito ligados às obrigações do governo, como a violência, saúde e corrupção.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como viu as declarações do candidato Levy Fidelix durante os debates?
RICARDO CORRÊA — Eu vi como uma fala odiosa e homofóbica, fiquei perplexo em constatar que um sujeito como ele estava se candidatando a Presidente da República. Ele incitou à violência e à discriminação contra a população LGBT através de um verdadeiro discurso de ódio e ofensa à comunidade LGBT em geral.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você já decidiu o voto no segundo turno? Por quê?
RICARDO CORRÊA — Sim. Vou de Dilma. Por que o PT tem um projeto de políticas sociais.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você faz teatro?
RICARDO CORRÊA — É como se no teatro existisse a possibilidade de um refúgio, a possibilidade de experimentar uma outra realidade, um outro tipo de organização social. É como se o teatro pudesse me salvar do caos, me permitisse a loucura, mas tendo a “coerência” absoluta do mundo ao redor, e ao mesmo tempo a possibilidade de sonhar, de cantar, de dançar, sonhos que são de uma banalidade extrema… que é o de tentar transformar. Fazer teatro é falar outra língua, um idioma incompreensível, indizível, o teatro nos faz traduzir esse idioma incompreensível, significá-lo para nós mesmos e para o espectador, para que ele também possa dialogar em seu idioma mais secreto e íntimo.

nao conte ricardo correa1 Entrevista de Quinta É preciso falar das minorias, diz Ricardo Corrêa, da peça Não Conte a Ninguém

O ator e dramaturgo Ricardo Corrêa: "Fazer teatro é falar outra língua" - Foto: Divulgação

Não Conte a Ninguém
Quando: Terça, 21h. 60 min. Até 28/10/2014
Onde: Espaço dos Parlapatões (praça Franklin Roosevelt, 158, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-4449)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

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nash laila foto bob sousa2 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

Nash Laila: musa do novíssimo cinema brasileiro e também do Oficina - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A pequenina Nash Laila é dona de um talento gigante. Quem a vê no palco do Teat(r)o Oficina sabe muito bem. Quem viu seus filmes também. É atriz intensa e potente.

Tanto que começou cedo e logo se destacou no cinema brasileiro, em longas como Deserto Feliz — com o qual levou o prêmio de melhor atriz do Festival do Cinema Brasileiro em Paris —, Amor, Plático e Barulho — que lhe rendeu o Troféu Candango de melhor atriz coadjuvante do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro — e Tatuagem, melhor filme no Festival de Gramado.

É uma das musas do novíssimo cinema nacional de qualidade.

Em São Paulo, esta pernambucana filha da cabeleireira Cida Silva e do transportador Carlos Medeiros assumiu as rédeas da própria vida.

Dona do próprio nariz, deu esta Entrevista de Quinta ao R7 na plateia do Oficina, lugar no qual se sente livre.

Falou sobre sua trajetória e ainda desabafou: "O mundo está muito caretão". Tem razão.

Leia com toda a calma do mundo.

nash laila foto bob sousa1 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

Nash Laila está vivendo há dois anos e meio em São Paulo - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você está há quanto tempo em São Paulo?
Nash Laila — Há dois anos e meio. Fiz o filme Tatuagem, do Hilton Lacerda, e achei que era o momento de dar uma virada e me mudar para cá.

Miguel Arcanjo Prado —Você é de Recife?
Nash Laila — Cresci em Jaboatão, que fica do lado. Morava no bairro Sucupira, com rua de terra, perto da mata. Adorava roubar fruta na árvore, passei a infância brincando na rua. Com 16 anos, fui morar em Olinda.

Miguel Arcanjo Prado — Nesta época já pensava em ser atriz?
Nash Laila — Desde criança eu queria ser atriz. Fazia sempre o auto de Natal [risos]. Aos 13 anos, entrei em um curso de teatro. Depois fui trabalhar com o diretor Jorge Clésio. Fiquei três anos com ele, dos 15 aos 18. Saí para fazer meu primeiro filme, Deserto Feliz.

Miguel Arcanjo Prado — Foi neste que você virou musa do Festival do Rio?
Nash Laila — Foi muito engraçado, porque concorria com um monte de famosa e o povo devia pensar: quem é essa. Foi muito bacana. O filme era muito forte, era uma menina que sofria exploração sexual e terminava se apaixonando por um alemão.

nash laila foto bob sousa4 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

Nash Laila foi criada brincando na rua, subindo em árvore para pegar fruta - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Foi difícil para você fazer este filme tão novinha?
Nash Laila — Foi um susto. Mas diante do abismo, eu pulei. O Paulo Caldas [diretor do filme] me ouvia muito. Foi um trabalho que me marcou. Viajei bastante por conta do filme. Um ano depois de terminar de filmar este filme estávamos no Festival de Berlim. Foi muito doido. Muita responsabilidade. Cinema é um processo de várias mãos. No teatro, é a gente e o público. Cinema é edição, montagem, o olhar do diretor...

Miguel Arcanjo Prado — E aí você virou a garota do novo cinema pernambucano?
Nash Laila — Pois é [risos]... Eu fiquei dois anos divulgando o filme. Já estava meio que na correnteza, sabe? Agora, vai, pensei. Aí eu passei no vestibular da UFPE [Universidade Federal de Pernambuco], para artes cênicas e fui fazer um intercâmbio na França, em Clermont-Ferrand. Foi ótimo, uma experiência incrível. Mas, voltei e senti um certo vazio.

Miguel Arcanjo Prado —Por quê?
Nash Laila — Recife é muito cultural, mas, ao mesmo tempo, é muito paradona em determinadas épocas. Aí eu fiz a minissérie Santo por Acaso e uma participação em O País do Desejo. Aí surgiu o Tatuagem.

Miguel Arcanjo Prado — Como você entrou para o elenco?
Nash Laila — Logo que voltei da França, fiz a o processo de seleção com o Hilton Lacerda [diretor de Tatuagem]. Eu estava com muita vontade de fazer o filme. Acabou dando certo. O processo foi todo colaborativo. Então, esse núcleo, do Chão de Estrelas, meio que carregava o filme consigo.

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Nash Laila ainda tem jeito de menina, apesar de já ser uma atriz potente - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — O que você acha do cinema fora do eixo Rio-São Paulo?
Nash Laila — Acho maravilhoso. Essa galera de Recife, Ceará, Minas, está buscando seu lugar no cinema brasileiro e quebrando muitos tabus. Recife é uma cidade com artistas que estão buscando seu lugar, sua própria produção. Já tem a Escola de Cinema da UFPE, uma lei para o setor.

Miguel Arcanjo Prado — Depois de Tatuagem você fez outro filme?
Nash Laila — Fiz Amor, Plástico e Barulho, da Renata Pinheiro, que tinha feito a direção de arte de Tatuagem. Esse é um filme de mulher: dirigido por mulher, montado por mulher.

Miguel Arcanjo Prado — Como você foi parar no Oficina?
Nash Laila — Em 2007, vi Os Sertões lá em Recife. E isso mudou minha vida. Eu precisava fazer isso. Eu fui fazendo amigos. Depois que acabou o Tatuagem, ficou aquele clima... Então, resolvi arriscar. No Oficina, comecei sendo público e isso modificou o rumo das minhas escolhas. Estar aqui hoje é como uma síntese das coisas.

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"O Oficina é o lugar onde me sinto à vontade", diz atriz Nash Laila - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Por quê?
Nash Laila — No Teat(r)o Oficina me sinto à vontade. É um lugar no qual consigo me libertar no teatro, me identifico com muita coisa. A música aqui é muito forte, impulsiona. O Oficina mistura tudo o que eu gosto. Estou no Oficina desde 5 de maio de 2012. Já fiz seis peças com o Zé [Celso, diretor do Oficina].

Miguel Arcanjo Prado — Como é lidar com tantos artistas no Oficina?
Nash Laila — A grande força do Oficina é o coro, isso que me arrebatou. O Zé é muito ligado nas pessoas. Ele é muito sensível ao presente. Toda vez que ele saca que a pessoa está presente, ele vai junto.

Miguel Arcanjo Prado — Como é sua relação com São Paulo?
Nash Laila — É muito louca. De desde quando falava: jamais moro em São Paulo. Até agora que grande parte dos meus amigos moram aqui. Fui criando uma rotina, um jeito de viver. Antes, morava com meus pais. Aqui, eu me vi sozinha, tendo de fazer minhas coisas. Hoje, em São Paulo eu me sinto em casa. Claro que estou cansada do barulho, sinto saudade do mar... Acho que sou um peixinho. São Paulo para mim é maravilhosa, desde que eu vá e volte.

nash laila foto bob sousa6 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

Nash Laila, com Cacilda ao fundo, no Oficina: "Tento me colocar o máximo" - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado —Você fez no Oficina papeis importantes, como a Cacilda menina.
Nash Laila — O Zé fala de atuadores. Essa palavra tem um grande símbolo. O atuador se coloca mais do que o ator. Tanto nas escolhas quanto no processo eu tento me colocar o máximo.

Miguel Arcanjo Prado — O que você quer da vida?
Nash Laila — Eu? Tanta coisa... A gente está vivendo um momento muito sensível. O mundo está muito caretão. A gente tem que quebrar tudo, para ter um pouco de afeto. No nosso trabalho, mexemos com fogo. Gente é uma coisa que amo e odeio.

nash laila foto bob sousa7 Entrevista de Quinta: O mundo está caretão, diz Nash Laila, musa do Oficina e do cinema brasileiro

"O mundo está muito caretão. Tem que quebrar tudo, para ter afeto", diz Nash - Foto: Bob Sousa

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jaime lorca Entrevista de Quinta: “Teatro não precisa ser difícil para ser bom”, diz chileno Jaime Lorca no Mirada

O ator e diretor chileno Jaime Lorca: teatro simples, sensível e inteligente no Mirada; sua peça Otelo é um dos destaques do Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos - Foto: La Segunda/Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Santos*

O ator, dramaturgo e diretor chileno Jaime Lorca fuma tranquilamente seu cigarro na calçada em frente ao Teatro Guarany, no centro histórico de Santos, litoral paulista. Afinal, precisa de um pouco de calma após viver um turbilhão de emoções no palco com Otelo. A peça que já é apontada como um dos grandes destaques do Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, promovido pelo Sesc São Paulo e que nesta terceira edição homenageia o teatro do Chile, com sete obras deste país na programação.

Enquanto conversa com o Atores & Bastidores do R7, nesta Entrevista de Quinta, o importante nome do teatro chileno precisa parar a fala várias vezes para agradecer aos gestos espontâneos do público, que não se cansa de parabenizá-lo.

Sua versão de Otelo é simples e sofisticada. O texto clássico de William Shakespeare sobre o marido que desconfia da mulher até um fim trágico ganha novas nuances, novas miradas.

Em cena, ele e a atriz Teresista Iacobelli manipulam marionetes com precisão técnica aliada a muita emoção, criando uma história na qual é impossível não mergulhar. Isso acrescido da companhia da música de José Salinas, do figurino de Loreto Monsalve e da luz de Tito Velásquez, num conjunto harmonioso.

Na conversa, Lorca falou sobre seu teatro simples e inteligente ao mesmo tempo e ainda do sucesso no Mirada com a peça de sua Cia. Viajeinmóvil.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Como vocês conseguem criar esta atmosfera tão impressionante como vista em Otelo?
Jaime Lorca – Fazemos sempre teatro com objeto, somando atores e marionetes. Até porque somos, antes de tudo, uma companhia de teatro. Os atores estão no centro.

Miguel Arcanjo Prado – Ficou impressionado com o aplauso tão caloroso, com direito a muitos gritos de “bravo” nas sessões de Otelo no Mirada?
Jaime Lorca – Foi uma reação muito linda. Eu creio que o público recebe a obra muito bem porque ela fala de temas que estão muito perto de cada um de nós. Shakespeare é universal, é próximo. Para entendê-lo, não é necessário ter antes uma gama de conhecimentos. Daí sua genialidade. Otelo é como um instrumento musical que tem todas as notas, desde aquelas mais difíceis e sublimas àquelas mais fáceis. Teatro não precisa ser difícil para ser bom.

Miguel Arcanjo Prado – Teatro pode ser inteligente e descomplicado?
Jaime Lorca – Sim! Claro. É bom lembrar que colocaram Shakespeare em um lugar difícil hoje em dia que não é o lugar dele. Ele escrevia suas peças nos anos 1600. Nessa época ninguém sabia ler e escrever. E ele se comunicava com todos. Por isso causa tanta comoção seus textos.

Miguel Arcanjo Prado – A obra tem múltiplas leituras?
Jaime Lorca – Sim. Muitas questões estão detrás de Otelo. No Chile, por exemplo, é muito associada ao femicídio, que é quando companheiros matam suas mulheres. É muito atual. Chegamos a apresentar a peça em uma prisão feminina e as detentas tinha reações muito fortes, comentavam a peça do começo ao fim. Gritavam, emocionadas: “assassino”, “estuprador”. Foi realmente muito impressionante. Fazer essa analogia com o homem de hoje é a nossa ideia.

Miguel Arcanjo Prado – É impressionante a sintonia sua com a companheira de cena, Teresita Iacobelli. Como vocês conseguem tamanha afinidade?
Jaime Lorca – A ideia da peça é fazer um jogo com os dois atores. Teresita e eu trabalhamos juntos há oito anos e desenvolvemos juntos essa técnica que você viu no palco.

Miguel Arcanjo Prado – A peça já viajou muito?
Jaime Lorca – Sim. No Brasil, já estivemos no Festival de Teatro de Curitiba, e também em Florianópolis e vamos para Belo Horizonte. Já viajamos muito. Agora, vamos começar uma turnê longa. Vamos passar por Argentina, Espanha, Portugal, México, Peru, Estados Unidos, Hungria e Bolívia.

Miguel Arcanjo Prado – Você não vai sair do avião...
Jaime Lorca – [risos] Isso mesmo... Nós gostamos muito do que fazemos. É artesanal. No Chile, também sempre percorremos o país de ponta a ponta. Teatro não é divertimento, é educação. Por isso, nossa peça quer dialogar com o público. Quero que as pessoas completem os espaços vazios. Não dá para comer pipoca no teatro.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo.

Leia a cobertura do R7 no Mirada

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alexandre borges foto bob sousa1 Entrevista de Quinta: Não quero me isolar, quero ser da turma do teatro, diz Alexandre Borges

O bom filho à casa torna: ator de sucesso na TV e no cinema, Alexandre Borges dirige dois espetáculos em São Paulo, cidade onde começou sua carreira nos palcos - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A calma no imponente saguão do hotel Maksoud Plaza contrasta com o trânsito caótico na região da avenida Paulista. Enquanto carros buzinam furiosos, Alexandre Borges surge com uma expressão tranquila e um sorriso aberto no rosto. O caos fica do lado de fora e a paz se instaura momentaneamente.

Apesar de ser uma estrela da TV e do cinema, afinal são 25 novelas e 28 filmes no currículo, ainda mantém aos 48 anos aquele menino que em 1985 saiu de Santos rumo a São Paulo com o sonho de se tornar ator.

Ele não só conseguiu realizá-lo muito bem, como agora também se aventura em outra função. Na última terça (2), estreou no Teatro Cemitério de Automóveis, a peça Uma Pilha de Pratos na Cozinha, de Mário Bortolotto, com sua direção.

Também está em cartaz na capital paulista até 26 de outubro outra peça com direção sua, Muro de Arrimo, no Teatro Brigadeiro, com Fioravante Almeida.

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Alexandre Borges falou sobre muitas coisas importantes para ele: a volta ao teatro paulistano, a relação com a família e os colegas de profissão, e até sobre a participação no último episódio de A Grande Família. E, claro, sobre o artista que quer continuar a ser.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado — Quer dizer que você agora é também diretor de teatro?
Alexandre Borges —
Pois é. Surgiram estes convites de amigos, pessoas que conheço há muito tempo, que admiro. Estou trabalhando com atores de uma geração mais nova. Foram pintando essas oportunidades. Resolvi topar. O Fioravante Almeida, do Muro de Arrimo, é meu amigo desde os tempos em que trabalhamos juntos no Oficina, quando ele estava começando. O Mário Bortolotto eu conheci em 2001, quando ele fez uma participação no filme O Invasor, do Beto Brant. De alguma maneira temos trajetórias parecidas. Somos de outra cidade e viemos para São Paulo.

Miguel Arcanjo Prado — Você é de Santos?
Alexandre Borges — Eu sou.

Miguel Arcanjo Prado — Estou indo agora para lá cobrir o Mirada [Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos]. Na sua época lá não tinha um festival tão grande assim...
Alexandre Borges — Não! Quem dera...[risos]

Miguel Arcanjo Prado — Como foi a estreia de Uma Pilha de Pratos na Cozinha?
Alexandre Borges — Foi ótimo! O Cemitério de Automóveis é um divisor de águas no teatro de São Paulo. O Bortolotto e aquela turma dele trouxeram uma linguagem nova. É um grupo importante, que renovou o teatro na cidade.

alexandre borges foto bob sousa21 Entrevista de Quinta: Não quero me isolar, quero ser da turma do teatro, diz Alexandre Borges

Alexandre Borges: "No começo fazia de tudo, figuração em comercial, feiras..." - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você também começou no teatro de grupo?
Alexandre Borges — Foi. Quando cheguei fiz parte do grupo Boi Voador, fiquei dez anos fazendo peças. Vim de Santos em 1985. Já fazia teatro infantil lá com meu pai, o Tanah Corrêa [um dos grandes nomes do teatro santista]. Sempre tive o sonho de ser ator. A família sempre preocupada [risos]. Meus pais são separados, e a família da minha mãe é mais tradicional... Em 1985, tomei coragem e vim para fazer um teste com o Antunes Filho, no CPT [Centro de Pesquisa Teatral], e passei. E o Boi Voador era muito ligado ao Antunes nessa época. Meu começo foi ali no Sesc Consolação, na rua Dr. Vila Nova.

Miguel Arcanjo Prado — Como foi sobreviver nesta época?
Alexandre Borges — Poxa, Miguel, era dureza [risos]. Fazia de tudo, figuração em comercial, feiras, qualquer coisa que pintasse. Mas é assim mesmo, tem de se virar, tentar a independência na profissão, viver disso. Foi assim no começo. Aí rolou o cinema. E a televisão só surgiu depois de dez anos em São Paulo.

Miguel Arcanjo Prado — Você vive no Rio há muito tempo. Qual sua relação hoje com São Paulo?
Alexandre Borges — Quando fui para o Rio, me casei [com a atriz Julia Lemmertz], comecei a fazer televisão – estou há 21 anos lá –, mas, sempre tive o vínculo com meus amigos, meus companheiros de luta, de começo de carreira em São Paulo. Isso marca muito. Fiz com a Júlia Eu Sei Que Vou te Amar, com o Jabor, que foi aqui em São Paulo. Aí meu filho, Miguel, nasceu eu dei um tempo de teatro.

Miguel Arcanjo Prado — Por quê?
Alexandre Borges — A televisão estava me exigindo bastante e eu quis ser um pai presente, estar junto, ver a evolução. Aí dei um tempo no teatro. Quatro anos atrás, retomei minha relação com o teatro. Aí surgiu Eu te Amo, outra montagem com o Jabor, e Poema Bar, um espetáculo de poesia que já fiz no Rio, em São Paulo e na Europa. Eu faço Vinícius de Moraes e Fernando Pessoa, com um pianista de Portugal. Depois, vieram os convites desses atores que me chamaram para dirigir.

Miguel Arcanjo Prado — Como você virou diretor?
Alexandre Borges — Foi o Fábio Amaral, produtor, quem falou que eu poderia dirigir uma peça. Dois anos depois surgiu Uma Pilha de Pratos na Cozinha. E depois veio a peça Muro de Arrimo, com o Fioravante. Falei: põe meu nome aí, estamos juntos.

Miguel Arcanjo Prado — Foi difícil encarar esta mudança?
Alexandre Borges — De alguma maneira, eu sempre fui me preparando para esse lado da direção. Fui observando, trabalhando, tendo o gosto de ver a coisa. Direção é desde o trabalho do ator, mas ao mesmo tempo o figurinista te traz um desenho, o cara do cenário te mostra algo, e você vai vendo o que é legal, o que precisa mudar... Em vez de ser luz azul pode ser vermelha, a foto do programa pode ser esta... Você vai participando de todo o processo em um trabalho conjunto. Acho que me preparei para isso, porque no teatro já operei som, fui contrarregra, fiz divulgação, produzi, ajudei montar luz, fui atrás de patrocínio, viajei... Aos poucos fui caminhando para este lugar.

Miguel Arcanjo Prado — Sua mulher é atriz, sua enteada [Luiza Lemmertz] também já começou a fazer teatro aqui em São Paulo, com o Zé Celso e o Antunes. Como é ser de uma família de artistas?
Alexandre Borges — Nunca tivemos expectativa de a Luiza seguir carreira... O Miguel não sabemos o que vai ser. Acho que o artístico é importante. Os pais têm de estimular, levar ao teatro, a uma exposição, a um museu, a um concerto. A criança precisa ser estimulada a ter um senso estético. Mais do que uma carreira artística, quero que o Miguel tenha esse olhar artístico, de sacar o que é uma música clássica, o que é um rock, o que é o trabalho do ator, do músico, da dança. Isso deixa a pessoa com um refinamento para a vida, não importa se vai ser jornalista, ator, engenheiro. Ele vem ver a peça em São Paulo, comenta. A Luiza foi a mesma coisa, a gente sempre procurou que ela participasse de nossa vida artística, viajasse com a gente. Ela já decidiu que quer ser atriz. Agora, o Miguel ainda não sabemos, ele ainda vai decidir.

alexandre borges foto bob sousa3 Entrevista de Quinta: Não quero me isolar, quero ser da turma do teatro, diz Alexandre Borges

"Não quero me isolar. Quero ser da turma do teatro", diz Alexandre Borges - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — O que você anda fazendo além do teatro?
Alexandre Borges — Em cinema, lancei o Getúlio, que foi um grande sucesso [no filme ele interpreta Carlos Lacerda, rival do presidente]. Na TV estou dando um tempo. Vou participar do último capítulo de A Grande Família. Vão ligar para o Lineu e dizer que estão pensando fazer um seriado e vão estudar a família dele como referência. Aí vem o Daniel Filho e a turma da TV pra casa deles. Cada ator convidado vai fazer um personagem como se fosse de A Grande Família. Eu vou fazer o Evandro Mesquita. Adorei este convite, porque sou fã da série.

Miguel Arcanjo Prado — Como é reencontrar São Paulo depois de 20 anos no Rio?
Alexandre Borges — Tem um pouco da memória emotiva, de você andar em mesmos lugares onde andou 25 anos atrás. Reencontrando pessoas e conhecendo pessoas novas. Para mim é um reencontro muito emocional, me renova. O artista sempre tem de estar em xeque, procurar coisas novas, desafio. Quero me colocar em uma situação que não é confortável. Agora tenho uma responsabilidade maior, preciso entregar um produto para o produtor, para o ator, para o público. Saí da minha zona de conforto. E eu sou isso: esse cara que quer fazer coisas novas, participar junto dos atores da nova geração, estar na roda.

Miguel Arcanjo Prado — Voltar a fazer parte da turma?
Alexandre Borges — Sim. Isso mesmo. Não quero me isolar. Quero ser da turma do teatro. Isso me rejuvenesce, me faz voltar ao estado anterior, onde tinha de me virar fazendo figuração, feira, teatro infantil...

Miguel Arcanjo Prado — E ainda não se hospedava no Maksoud Plaza...
Alexandre Borges — Exatamente. O Maksoud é um upgrade [risos]. Isso tudo me faz sentir vivo, atuante. E tudo é para o público. O público de São Paulo me dá muito carinho.

Miguel Arcanjo Prado — Mesmo na TV, você sempre é chamado para fazer paulistanos. Eu me lembro de você em A Próxima Vítima, que era uma novela bem de São Paulo. Também agora em Tititi...
Alexandre Borges — Eu levo um pouco de São Paulo para o Rio. Adoro o Rio, adoro estar lá, mas muito da poluição de São Paulo está impregnado aqui ó [bate no braço, mostrando as veias e sorrindo].

alexandre borges foto bob sousa4 Entrevista de Quinta: Não quero me isolar, quero ser da turma do teatro, diz Alexandre Borges

Alexandre Borges, de volta a SP: "O artista sempre tem de estar em xeque" - Foto: Bob Sousa

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leticia coura foto bob sousa6 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

A atriz e cantora Letícia Coura: ela gosta de samba, e de teatro também - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A mineirinha de Belo Horizonte Letícia Coura é uma das figuras emblemáticas do teatro paulistano. Na cidade há mais de 20 anos, logo se misturou à turma do palco e também ao pessoal da música. Transita pelas duas áreas com todo o conforto do mundo.

Ela integra o grupo Revista do Samba, que acaba de lançar seu quinto disco, Samba do Revista. O trio, que ainda tem Vitor da Trindade e Beto Bianchi, é considerado referência em seu estilo musical. Além de cantora, também é atriz e integra o elenco do Teat(r)o Oficina dirigido por Zé Celso.

Agora em setembro, estará com o grupo no Mirada, o Festival Ibero-americano de Artes Cênicas de Santos, apresentando a peça Walmor y Cacilda 64: Robogolpe, na qual vive a atriz Cleyde Yáconis, mais uma personagem emblemática para seu currículo, onde já figura Tarsila do Amaral.

Letícia recebeu o Atores & Bastidores do R7 para esta Entrevista de Quinta em uma tarde de sol no Teat(r)o Oficina, no Bixiga, região central de São Paulo.

Ao contar sua história, explicou sua batida perfeita entre a música e o teatro. E ainda revelou seu projeto futuro: construir a discografia das músicas das cinco décadas do Oficina.

Leia com toda a calma do mundo.

leticia coura foto bob sousa2 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

Letícia Coura e seu cavaquinho: ela quer construir a discografia do Teat(r)o Oficina - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você é de Belo Horizonte, né?
Letícia Coura — Sim, mas já estou tanto tempo aqui em São Paulo que, às vezes, parece que minha vida em BH foi em outra encarnação [risos]. Meus pais eram do interior de Minas, meu pai era desembargador e minha mãe, contadora.

Miguel Arcanjo Prado — Como era quando criança?
Letícia Coura — Era a mais animada da sala, na festa junina, então, era emprestada para as quadrilhas das outras salas. Sempre gostei de música. Fiz violão clássico, depois passei para o popular, cantei em coral... Como cantora sou ótima atriz e como atriz sou uma ótima cantora [risos].

Miguel Arcanjo Prado —E quando chegou a hora do vestibular?
Letícia Coura — Escolhi comunicação na UFMG, sou sua colega de curso. Tenho uma irmã médica e um irmão arquiteto. Já estudava música, mas fiz comunicação. Na época da faculdade, comecei a fazer performance e vídeo. Fiquei um ano fora, morei em Genebra e Londres, e um pouquinho na França. Lá na Suíça toquei numa banda. Estudei inglês, viajei...

Miguel Arcanjo Prado — E foi bom dar este tempo?
Letícia Coura — Foi bom sair de casa, porque me virei sozinha. Trabalhei em restaurante, essas coisas. Ir para a Europa me fez ver que eu era ligada à cultura brasileira. Vi que conhecia muito a música brasileira. E quis voltar para o Brasil.

leticia coura foto bob sousa4 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

Letícia Coura nasceu em Belo Horizonte, morou na Europa, mas foi parar em SP - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado —Aí você terminou o curso na Fafich [Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG]?
Letícia Coura — Terminei, fiz jornalismo e publicidade. Acho que fiz curso superior porque disseram para mim que se um dia eu fosse presa teria direito à cela especial [risos].

Miguel Arcanjo Prado — E o que você fez?
Letícia Coura — Abri uma produtora com amigos lá em BH. Aí fiz um concurso para ser jornalista do Tribunal do Trabalho e passei. Acho que foi a única felicidade que dei para a minha mãe [risos].

Miguel Arcanjo Prado — Mãe mineira adora ver filho passando em concurso público [risos]. E aí você virou servidora?
Letícia Coura — Sim. Mas este trabalho me possibilitou fazer um monte de coisa que tinha vontade. Estudei dança, fiz balé, gafieira, dança afro...E continuei na música. Era um trabalho que não atrapalhava... Tive muita influência do Clube da Esquina, comecei a fazer shows pelo DCE [Diretório Central dos Estudantes da UFMG]. Aí resolvi pedir transferência para São Paulo.

Miguel Arcanjo Prado — E conseguiu?
Letícia Coura — Sim. Cheguei em São Paulo em 1991. No começo, me dava uma angústia, sabe. Aí no prédio em que fui morar tinham dois músicos. Comecei a fazer a ULM [Universidade Livre de Música] e montei um show com o Chico Amaral [compositor mineiro, parceiro em vários sucessos do Skank] lá em BH. Ficava um pé lá, outro pé cá.

Miguel Arcanjo Prado — E o teatro?
Letícia Coura — A Titane [cantora mineira] estava morando em São Paulo e me indicou para fazer uma peça com a Beatriz Azevedo, porque ela precisava de uma cantora. Chamava-se I Love. Fizemos turnê em Campinas e tudo!

leticia coura foto bob sousa1 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

Foi ao ver peça do Oficina com Raul Cortez que Letícia ficou cativada pelo grupo - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — E o Oficina?
Letícia Coura — Morava na rua Vergueiro e fui ver As Boas do Oficina no Centro Cultural São Paulo, com o Raul Cortez no elenco. Era tão bonito! Lembro que pensei: ainda bem que me mudei para esta cidade que tem uma peça como essa. Aí a Beatriz me chamou para ir num ensaio de Hamlet, no Oficina. Lembro que era um Domingo de Ramos. Neste dia conheci o Zé [Celso, diretor do Oficina]. E aí acabei entrando para o Oficina e larguei o emprego no Tribunal do Trabalho.

Miguel Arcanjo Prado — Foi uma decisão difícil?
Letícia Coura — Foi. Estava tudo muito puxado, ensaios. E vi que não queria mais. Pedi para sair e não me arrependi. Já estava ligada ao teatro, então tive de fazer uma opção. É claro que de grana foi complicado. Comecei a dar aula de canto e aquilo me abriu um mundo.

Miguel Arcanjo Prado — Você resolveu investir na música?
Letícia Coura — Sim. Gravei o disco Bambambã, que é um disco com interpretações bem teatrais. Fiz turnê. Também fiz as Bacantes, no Oficina, na virada de 1999 para 2000. Depois, fui fazer peça no Satyros. Fiz a primeira peça com eles na praça Roosevelt. Lembro do Rodolfo [García Vázquez, diretor do Satyros] passando cera no chão antes de o teatro abrir [risos]. Conheci o Ivam [Cabral, ator] quando eles estavam voltando de Portugal. Ele tinha trazido um autor francês, Bernard-Marie Koltés e eu havia feito a tradução. Fizemos Retábulo da Avareza, Luxúria e Morte, no elenco tinha o Ivam, a Patrícia Vilela, o Daniel Gaggini, o Tadeu Perroni...

leticia coura foto bob sousa5 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

Letícia Coura integra o trio Revista do Samba, reconhecido até na Europa - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Ainda não tinha a Phedra D. Córdoba?
Letícia Coura — Não! Eu lembro do dia em que a Phedra foi ver o Retábulo pela primeira vez. Lembro que o Ivam ficou todo intrigado, perguntando quem era aquela senhora [risos]... Depois a Phedra fazia ótimas apresentações no bar dos Satyros!

Miguel Arcanjo Prado —E a música?
Letícia Coura — Aí lancei meu segundo disco, Vian, em um show no Satyros, com direção do Rodolfo, com os poemas do autor francês Boris Vian musicados. O Ivam foi muito importante nesta época e fazia o show comigo, criamos juntos. Era em linguagem de cabaret. Foi uma época boa... O Satyros tinha coisa a semana inteira. Quando não fazia meu show, ficava na bilheteria. Depois, montei a Revista do Samba, que é o trio no qual estou até hoje ao lado do Vitor da Trindade e do Beto Bianchi. Foi a gente que fez o show da reabertura do Bar Brahma, na clássica esquina da Ipiranga com São João.

Miguel Arcanjo Prado — O grupo tem muito prestígio.
Letícia Coura — Olha, gravamos o primeiro disco, Clássicos do Samba, e logo fizemos turnê na Europa. O segundo disco, Outras Bossas, só saiu na Europa. Em 2005, fizemos o projeto Revista Bixiga Oficina do Samba, resgatando sambas paulistanos e trabalhando com as crianças do bairro.

Miguel Arcanjo Prado — E aí você passou a se dividir entre o grupo e as peças do Oficina?
Letícia Coura — Sim. Fiz Os Sertões, O Banquete, tudo... Neste ano, em Walmor y Cacilda 64: Robogolpe, que agora vamos apresentar no Mirada, lá em Santos, faço a Cleyde Yáconis. Já fiz também a Tarsila do Amaral... São personagens muito ricas e emblemáticas. Sempre trabalho a música dentro do Oficina. E sabe qual é o meu grande sonho?

Miguel Arcanjo Prado — Qual?
Letícia Coura — É um dia consegui fazer a discografia inteira das peças do Oficina. Porque a história musical do grupo é muito rica e merece ser registrada para o futuro.

leticia coura foto bob sousa3 Entrevista de Quinta: Quero fazer a discografia do Oficina, diz atriz e cantora Letícia Coura

A cantora e atriz Letícia Coura, no Teat(r)o Oficina: onde une teatro e música - Foto: Bob Sousa

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laila garin bob sousa5 Entrevista de Quinta: “Não me confundo com Elis”, diz Laila Garin, protagonista de Elis, a Musical

Atriz e cantora baiana, Laila Garin conquista Brasil ao viver Elis Regina nos palcos- Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

O Brasil descobre o talento de Laila Garin [a pronúncia correta é Garran]. A baiana, filha de uma brasileira e de um francês, conquista o público ao encarnar Elis Regina no espetáculo Elis, a Musical, que volta para São Paulo em mais duas sessões nos próximos dias 30 e 31 de agosto no Espaço das Américas, após temporada de sucesso no Teatro Alfa.

Laila recebe Bob Sousa e eu para esta Entrevista de Quinta no apart hotel onde está morando, na região da avenida Paulista, em São Paulo, cidade que faz parte de sua história, como revela depois.

De repente, a porta do elevador se abre e sua voz se impõe no ar. Chega ao saguão falando ao telefone. Parece que todo mundo quer falar com Laila.

No último sábado (16), Laila fez parte do melhor momento do programa Criança Esperança, na Globo, cantando, tal qual Elis, ao lado de Ney Matogrosso e de colegas de espetáculos musicais, a Canção da América. O Brasil inteiro ficou boquiaberto com o que viu e ouviu.

Durante a conversa com o Atores & Bastidores do R7, entre uma mordia e outra na maçã, falou de forma pausada, dando peso a cada palavra. Tal qual aquela cantora Pimentinha que o Brasil perdeu tão cedo e jamais se conformou.

Leia com toda a calma do mundo.

laila garin bob sousa2 Entrevista de Quinta: “Não me confundo com Elis”, diz Laila Garin, protagonista de Elis, a Musical

Laila Garin fez musical e teatro de pesquisa em São Paulo antes de encarar Elis - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Laila, a Elis é muito forte, marcante, como você faz para não virar a Elis diante deste sucesso todo?
Laila Garin — Pela própria abordagem da peça... Ninguém nunca quis que imitasse Elis. Meu trabalho não é imitação; mesmo. Acho que as pessoas entendem como uma homenagem, por mais que lembrem coisas relacionadas a Elis. Tem a parte da saudade de Elis, mas também tem muito de memórias pessoais, de coisa que as pessoas viveram.

Miguel Arcanjo Prado — É que cada um tem a sua Elis...
Laila Garin — Isso. A peça, contando a história da Elis, acaba contando a história da música e do País. São memórias que transcendem a Elis. E é o que a Elis fazia. As pessoas não são tão loucas por Elis só porque ela tem uma voz maravilhosa e ponto. Mas, porque o que ela faz cantando toca as pessoas em suas questões mais pessoais, até porque ela faz isso de uma forma pessoal também.

Miguel Arcanjo Prado — Tem quem pense que você é a Elis reencarnada?
Laila Garin — Eu não tenho como controlar a cabeça das pessoas, mas sinto que o público, quando vem falar comigo, ressalta minhas características como artista. E acho que vai depender também das coisas que vou fazer depois de Elis. Tem muita gente assistindo, graças a Deus. É teatro, não é TV, mas com essa peça a gente conseguiu atingir o máximo de espectadores. É grandioso demais. Mas também tinha gente que me conhecia de outros trabalhos. Eu não me confundo com Elis; de jeito nenhum! [risos]

Miguel Arcanjo Prado — Conheci você no palco do Teatro Itália, fazendo Eu Te Amo Mesmo Assim. Para mim foi uma aparição como foi a de Marisa Monte, fiquei impressionado com sua voz. Como você lida com o fato de um dia estar lá no Teatro Itália, em uma peça pequena, e agora estar neste turbilhão que é o musical, encabeçando uma superprodução, com você na proa de um navio?
Laila Garin — Eu acho que, primeiro, eu não tenho 20 anos de idade. Nem 18. Não sou deslumbrada. Segundo, que esta visão de que agora estou no navio é real porque é uma produção grande, é um navio gigante. Mas continua sendo teatro, é coletivo. Tenho os colegas em cena, preciso do cara da luz, do som, do Dennis [Carvalho, diretor]. Tem um trabalho danado. Essa visão de glamour é mais de fora. Tenho um dia a dia de atleta tendo que cuidar do que como, do que durmo. É uma trabalheira danada!

Miguel Arcanjo Prado — Quando você começou no teatro?
Laila Garin — Comecei cedo. A primeira vez que subi no palco tinha cinco anos. E a partir dos 11 eu nunca parei. Tenho uma visão do artesanato do teatro. E Elis foi construído em cada detalhe. Não é de uma hora para outra que as coisas acontecessem. Elis é um grande passo na minha carreira, nunca recebi e fui indicada para tantos prêmios [ela levou o Prêmio Shell de Melhor Atriz e está indicada ao Prêmio APCA na mesma categoria].

laila garin bob sousa4 Entrevista de Quinta: “Não me confundo com Elis”, diz Laila Garin, protagonista de Elis, a Musical

Leila Garin: "Eu não tenho 20 anos de idade. Nem 18. Não sou deslumbrada" - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você nunca tinha sentado no sofá do Jô Soares...
Laila Garin — Exatamente. Mas o meu trabalho veio num crescendo, que foi escolhido. Passei sete anos em São Paulo, dos quais cinco fiz teatro de pesquisa. Levava nove meses ensaiando uma peça para 80 espectadores, com o Cacá Carvalho, na Casa Laboratório. Depois, fui para o Rio de Janeiro trabalhar com o João Falcão, fazer Eu te Amo, que você viu. Por mais que fosse pequeno, era para fazer uma temporada e a gente fez sete, com uma repercussão qualitativa intensa. Depois veio o Gonzagão, que teve uma repercussão maior ainda. Você viu também, né?

Miguel Arcanjo Prado — Vi lá no Festival de Curitiba... Queria te perguntar uma coisa: você acha que hoje fazem falta artistas que se coloquem politicamente e façam uma obra mais emblemática, que consiga ir além da voz, que transcenda?
Laila Garin — Eu acho. Mas estamos também em outro contexto. O momento político não é tão claro. Na época da Elis, os inimigos eram mais claros, vivíamos em uma ditadura e a gente precisava de liberdade de expressão. Talvez a gente tenha algumas músicas ou cantores que tomem algum partido. Você tem um hip hop, um rap que tem claramente um discurso social. Mas a Elis não era compositora... E a Elis também foi acusada de várias coisas, de ser muito fria, de ser muito técnica, de estar de um lado, até porque ela já era a cantora desde cedo. Para mim faz falta as vísceras mesmo. Não acho que tem de ficar sabendo da vida pessoal das pessoas, mas quando falo de cantar colocando de si é um engajamento artístico, de alma, de víscera. Às vezes parece que está tudo muito blasé e não tem muita diferença de um cantor para o outro.

Miguel Arcanjo Prado — É verdade.
Laila Garin — Minhas referencias estão todas na geração da Elis praticamente. Por mais que tenham algumas atuais que eu goste muito: eu adoro Renata Rosa [cantora paulistana] e Mayra Andrade [cantora cabo-verdiana]. Eu adoro cantores pop também, mas acho que esse diferencial, assim, está em poucos.

Miguel Arcanjo Prado — Para onde vai o musical?
Laila Garin — Depois de São Paulo, vamos fazer turnê por algumas capitais, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre e Curitiba.

Miguel Arcanjo Prado — E Salvador?
Laila Garin — Eu estou torcendo, estão organizando aí... Para mim vai ser muito especial ir para Salvador.

Miguel Arcanjo Prado — Você morou na França?
Laila Garin — Meu pai é francês, e eu passei cinco meses na França antes de vir para São Paulo em 2003. Então, passei sete anos aqui e depois fui para o Rio em 2010.

laila garin bob sousa3 Entrevista de Quinta: “Não me confundo com Elis”, diz Laila Garin, protagonista de Elis, a Musical

Laila Garin: "Em São Paulo, você exercita um anonimato que faz você pensar qual é o seu valor independentemente do reconhecimento e da aprovação do outro" - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você sofreu em São Paulo?
Laila Garin — Aqui eu aprendi a ser uma pessoa melhor. Além de ser filha única, a Bahia tem essa coisa de ser mãe. Na Bahia eu tinha um trabalho reconhecido dentro da classe teatral. Em São Paulo você exercita um anonimato que faz você pensar qual é o seu valor independentemente do reconhecimento e da aprovação do outro. Você tira de você mesmo. Talvez isso volte à sua pergunta primeira. Eu tive essa escola. Primeiro fui para Paris, que apesar de ser bem menor que São Paulo, foi uma porrada. Depois, São Paulo. Tive de chegar, dizer: "oi, sou fulana de tal". Eu vim fazer o musical Grease e pensei que iria conhecer todo mundo do teatro. E nada disso, só fiquei conhecendo o povo do musical.

Miguel Arcanjo Prado — O teatro de São Paulo tem muito disso, de turmas que não se misturam, tem o teatro da praça Roosevelt, o da pesquisa, o musical, o comercial...
Laila Garin — Exatamente. É tão grande e o mercado é tão diverso que conheci primeiro só o povo do musical. Depois passei cinco anos fazendo pesquisa e neguinho do musical nem sabia que eu estava aqui. Foi aqui que eu comecei a ter um pouquinho mais de autonomia. Eu gosto muito de São Paulo.

Miguel Arcanjo Prado — E o Rio?
Laila Garin — O Rio foi solar, foi bem mágico. E pela magia da cidade e pela magia de João Falcão. Fui trabalhar com ele. Eu ia fazer Carmen Miranda com ele e o projeto acabou não acontecendo e fiquei com essa frustração. Também queria ter feito o filme A Máquina e não rolou.... Porque ele é dessa área música e teatro, que sempre acreditei. Estava com um projeto para fazer em Marselha e surgiu o Eu te Amo Mesmo Assim, mas ninguém sabia direito como iria ser. Só sabia que tinha de estrear tal dia. Eu falei: "vocês estão loucos?" Mas eu topei e me mudei para o Rio.

Miguel Arcanjo Prado — Laila, você canta muito bem, faz tempo que não surge no Brasil uma cantora que canta [risos]. E você canta. Não pensa em investir nisso?
Laila Garin — Obrigada [tímida]. O teatro sempre teve em primeiro plano, mas fiz muita coisa como cantora na Bahia. Em São Paulo a coisa não foi muito pra frente. No Rio, fiz um disco, fiz um Som Brasil...A gente está vendo isso agora. Eu sempre cantei atrás de um personagem. Foram estilos muito diversos, do canto lírico ao samba. Estou tentando entender que música pode me traduzir mais.

Miguel Arcanjo Prado — Achar seu recado artístico?
Laila Garin — Recado pode parecer pretensioso, que eu tenho alguma coisa para dizer. Eu não tenho. Tenho perguntas.

Miguel Arcanjo Prado — Já tem compositor mandando música?
Laila Garin — Tem gente que manda coisas... [pensativa] Eu não vou deixar de ser atriz. Estou pesquisando algumas coisas de música, mas o teatro é meu lugar também. Elis tem ainda uma vida longa, depois da turnê nacional a gente vai voltar par ao Rio. Tem de ver como vai isso... Tem coisa aí pela frente...

Miguel Arcanjo Prado — A cena mais importante sua no musical é a da entrevista final de Elis. É ali que você se coloca como grande atriz. Como é fazer esta cena?
Laila Garin — Essa cena foi especial. O Nelson [Motta, autor] e o Dennis [Carvalho, diretor] foram generosos e abertos. Eles aceitaram e a gente fez junto. A gente foi fechando, mexeu um pouquinho no texto, entraram algumas coisas que eu também pude escolher, isso é importante para aproximar, coisas que eu acredito também e que representam a Elis. Isso é delicado. E foi lindo. Algumas pessoas aqui em São Paulo falaram que o musical era chapa branca, que fica muito leve no final, mas é uma citação de um show que a Elis fez com o Daniel Filho. Quando a Elis morreu muita gente ficou falando da autópsia e das questões das drogas, mais do que da perda daquela pessoa e daquela artista que deixaria um buraco imenso. Ficou mais com essa coisa mórbida, que é natural, porque a gente quer ver o corpo estendido no chão, mas já que a gente tem essa natureza ruim, é bom estimular outras coisas do espírito. O Caio Fernando Abreu escreveu na época, lembrando que era a Elis, a artista, que estava indo embora. A peça não tem a coisa realista, do copo de uísque e tudo mais, mas pelo menos tem a tentativa de mostrar o sofrimento, a dor. Tem essas camadas.

Miguel Arcanjo Prado — Laila, por que você é artista?
Laila Garin — Por que eu não tenho outra alternativa.

Miguel Arcanjo Prado — Eu acho que você está falando igual a Elis...
Laila Garin — Como é "falando igual a Elis"?

Miguel Arcanjo Prado — Com esse jeito pausado, dando peso a cada palavra, se colocando. A Elis falava assim.
Laila Garin — Talvez eu já falasse assim. Eu tenho uma mãe [a professora aposentada da Faculdade de Comunicação da UFBA, Nadja Miranda] muito parecida com a Elis. Na franqueza, no temperamento — pelo menos do que eu vi de Elis, porque como ela mesmo diz, ninguém conhece ninguém. É da geração dessas mulheres fortes, que não são nenhum pouco perua, mulherzinha. Talvez até um pouco masculinas no jeito de agir, mas como diz Nelsinho [Motta], se Elis não fosse assim, não teria sobrevivido, até porque vivia num mundo masculino... Mas eu vi muito Elis, estou fazendo Elis cinco vezes por semana, posso estar falando mais pausado. Isso poderia acontecer com qualquer personagem que eu tivesse fazendo, não que a Elis seja uma personagem.

Miguel Arcanjo Prado — Mas não se preocupe, porque é lindo falar assim.
Laila Garin — É que eu tenho essa coisa já. E é o que eu gosto. A mulher que eu acho massa é essa mulher aí.

laila garin bob sousa1 Entrevista de Quinta: “Não me confundo com Elis”, diz Laila Garin, protagonista de Elis, a Musical

Laila Garin: "Sou artista porque não tenho outra alternativa" - Foto: Bob Sousa

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frederico reder bob sousa31 Entrevista de Quinta: “Theatro NET não tem preconceito”, diz Frederico Reder

Frederico Reder: aos 30 anos, ele tem um teatro no Rio e outro em São Paulo - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

O produtor Frederico Reder passou o último mês em uma correria desatada. Dono do Theatro NET São Paulo, que completa um mês de vida no próximo dia 18 de agosto no Shopping Vila Olímpia, ele se revezou entre administração, atendimento ao público, vendas na bilheteria, contato com os artistas e com a imprensa e o que mais aparecesse na sua frente.

Obsessivo, acompanha de perto o trabalho das cerca de 90 pessoas que fazem do Theatro NET Rio, há dois anos, e do Theatro NET São Paulo, há quase um mês, uma receita de sucesso. Com programação eclética, ele afirma que seu palco "não tem preconceito".

Nesta Entrevista de Quinta ao R7, concedida na plateia de sua sala paulistana, Reder falou de sua paixão pelos palcos e do tanto que aprendeu em São Paulo, quando mudou-se para a metrópole aos 19 anos a convite de Cíntia Abravanel, que fez história à frente do Teatro Imprensa até este ser fechado por seu pai, Silvio Santos, em 2011.

O executivo do teatro, que tem apenas 30 anos, ainda afirmou que quer diálogo com a classe artística paulistana e declarou que suas portas estão abertas a novas ideias.

Leia com toda calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado — Você é o carioca que veio para conquistar as terras paulistanas?
Frederico Reder – Não. Eu quero conquistar o Brasil e o mundo, São Paulo ainda é pequeno [risos]. Estou brincando. Conquistei São Paulo dentro de mim quando vim morar aqui com 19 anos. Eu nasci no Rio e a Cíntia Abravanel me convidou para vir para cá em 2002 e em 2003 eu vim. Agora, volto com um teatro que é uma receita de sucesso no Rio. Conquistar São Paulo é uma delícia, é minha segunda casa. Desde 2003 tenho casa aqui e quero ficar.

frederico reder bob sousa11 Entrevista de Quinta: “Theatro NET não tem preconceito”, diz Frederico Reder

Frederico Reder: antes de abrir dois teatros, ele teve preciosas lições com Cíntia Abravanel - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Então você é cria da Cintia Abravanel e daquela turma dela do Teatro Imprensa?
Frederico Reder – Eu tinha uma produção de um espetáculo, que era o Cantarolando. Era um infantil onde eu já era louco, produzia, dirigia, fazia cenário, figurino, maquiagem. A Cíntia achou lindo e maravilhoso. Que bom que ela gostou. Porque aí minha vida mudou e eu vim morar aqui. Depois do Imprensa fizemos várias temporadas em São Paulo. Fui muito feliz, minha filha nasceu, muita coisa mudou.

Miguel Arcanjo Prado — Como surgiu a ideia do Theatro NET no Rio e como ele chegou em São Paulo?
Frederico Reder –
Primeiro, uma coisa que sempre digo é que nunca sonhei em ter um teatro. Eu sempre sonhei em ter um circo. E eu tive meu circo. Mas depois de um tempo surgiu a oportunidade de revitalizar o Theatro Tereza Rachel no Rio. Ainda em São Paulo, um amigo produtor me propôs revitalizar um teatro. Mas, tinha 20 anos e achei aquilo muito longe da minha realidade. No fim de 2009 e começo de 2010, chegou o momento e comecei uma negociação com a Tereza Rachel que durou dois anos. Em 4 de abril de 2012 inauguramos e inventamos esse palco para todas as artes, com plateia para todos os públicos. Sempre tentando acertar e colocando em prática tudo que nós pudemos conviver em outras praças e casas e ser o melhor para o artista e o público.

Miguel Arcanjo Prado — Como veio o nome NET?
Frederico Reder –
A NET já era minha patrocinadora no projeto Circuito Cultural. Então, resolvi convidar a NET para ser mantenedora. Será que você não me ajuda a pagar essa conta e fazer tudo bem feito? Ela topou e foi uma delícia. Estamos aqui, dois anos e meio de sucesso no Rio, e quase um mês de sucesso em São Paulo.

Miguel Arcanjo Prado — Sei que foi uma correria a véspera da inauguração do teatro, vocês tiveram de cancelar uma apresentação para convidados do show do Gil. Foi um parto difícil?
Frederico Reder –
Foram alguns meses de parto, estou me recuperando ainda, o pós-parto é doloroso. Principalmente um teatro de 2.000 metros quadrados, 800 lugares e um teatro que inaugura com Gilberto Gil. Imagina o tamanho desta minha barriga. Mas pari e estou feliz. A criança é linda, as pessoas estão gostando, está no berçário, já saiu da incubadora e agora é rumo ao sucesso.

Miguel Arcanjo Prado — Todo mundo que chega aqui no Theatro NET São Paulo percebe que o clima de teatro não rola só no palco. Tem toda uma ambientação que faz você se sentir em um cenário o tempo todo. Como foi essa ideia?
Frederico Reder –
Sempre acreditei que a noite precisa ser um espetáculo. A saída com o cônjuge, o primo, o filho, a avó, a tia ou mesmo sozinho, você quer que o programas seja completo. Para isso o espetáculo e o atendimento tem de ser incrível. Acredito muito neste "sistema Disney de operação". Se a gente puder sempre se dedicar para a pessoa se surpreender do banheiro ao foyer a forma como o público vai ser recebido no teatro, que ótimo. É nosso foco. Quero melhorar a cada dia!

Miguel Arcanjo Prado — Por que o Gil para abrir?
Frederico Reder –
No Rio eu tive a alegria de Bibi Ferreira inaugurar meu palco. O Gil tinha feito a comemoração dos dois anos do Theatro NET Rio e resolvemos abrir aqui com ele, com pé direito. Gil é um dos maiores artistas deste País. É nosso ex-ministro e um grande articulador da cultura. Bibi e Gil são os primeiros da minha lista sempre.

Leia também: Guerra põe amor à prova em O Grande Circo Místico

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Dono de teatro no Rio e em São Paulo, Frederico Reder comanda equipe de 90 pessoas - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Como você faz a programação?
Frederico Reder – Eu não faço nada e ao mesmo tempo faço tudo. Coordeno uma equipe grande, com cerca de 30 pessoas. É a mesma que faz Theatro NET Rio e Theatro NET São Paulo. E cada teatro tem mais 30 pessoas para operar, então são quase cem pessoas. Na realidade, quero que o espaço seja democrático. Eu quero tudo. Abrimos com Gil, agora estreia O Grande Circo Místico, um dos maiores musicais, com músicas do Edu Lobo e do Chico Buarque.

Miguel Arcanjo Prado — O Theatro NET é um teatro sem preconceito?
Frederico Reder – Totalmente. O Theatro NET não tem preconceito. Acho que preconceito não mora aqui e não tem vez no nosso palco. A cortina não abre para o preconceito por aqui. Ele não existe nem na coxia.

Miguel Arcanjo Prado — A gente sabe que o teatro paulistano tem sua turma, suas especificidades, sua tradição. Você abre o teatro nesta cidade onde ele é muito importante. O que você tem a dizer para a classe teatral paulistana?
Frederico Reder – Primeiro, quero dizer que a  cortina vermelha é a minha praia mais do que a areia. Então, mesmo sendo carioca, mesmo morando no Rio, o teatro é mais  minha praia do que o mar. E eu sou muito mais “paulistano” da forma de fazer do que carioca. Sou carioca com muito orgulho, na verdade eu sou fluminense, porque nasci em São Gonçalo. Mas aprendi muito com São Paulo, nesta coisa do atendimento, do serviço de excelência. Os grupos paulistanos são muito bem-vindos. Quero que me procurem, porque eu já estou atrás deles. Convido todo mundo da classe teatral a vir aqui. Mas deixo uma dica: quero fazer coisas diferentes. Não venha me oferecer o que já foi feito. Este palco é para ousar. É para a gente ir além e provocar o público. Vamos inventar moda. Estou aqui para isso.

frederico reder bob sousa41 Entrevista de Quinta: “Theatro NET não tem preconceito”, diz Frederico Reder

Frederico Reder, do Theatro NET: "Vamos inventar moda. Estou aqui para isso" - Foto: Bob Sousa

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