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laila garin bob sousa5 Entrevista de Quinta: “Não me confundo com Elis”, diz Laila Garin, protagonista de Elis, a Musical

Atriz e cantora baiana, Laila Garin conquista Brasil ao viver Elis Regina nos palcos- Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

O Brasil descobre o talento de Laila Garin [a pronúncia correta é Garran]. A baiana, filha de uma brasileira e de um francês, conquista o público ao encarnar Elis Regina no espetáculo Elis, a Musical, que volta para São Paulo em mais duas sessões nos próximos dias 30 e 31 de agosto no Espaço das Américas, após temporada de sucesso no Teatro Alfa.

Laila recebe Bob Sousa e eu para esta Entrevista de Quinta no apart hotel onde está morando, na região da avenida Paulista, em São Paulo, cidade que faz parte de sua história, como revela depois.

De repente, a porta do elevador se abre e sua voz se impõe no ar. Chega ao saguão falando ao telefone. Parece que todo mundo quer falar com Laila.

No último sábado (16), Laila fez parte do melhor momento do programa Criança Esperança, na Globo, cantando, tal qual Elis, ao lado de Ney Matogrosso e de colegas de espetáculos musicais, a Canção da América. O Brasil inteiro ficou boquiaberto com o que viu e ouviu.

Durante a conversa com o Atores & Bastidores do R7, entre uma mordia e outra na maçã, falou de forma pausada, dando peso a cada palavra. Tal qual aquela cantora Pimentinha que o Brasil perdeu tão cedo e jamais se conformou.

Leia com toda a calma do mundo.

laila garin bob sousa2 Entrevista de Quinta: “Não me confundo com Elis”, diz Laila Garin, protagonista de Elis, a Musical

Laila Garin fez musical e teatro de pesquisa em São Paulo antes de encarar Elis - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Laila, a Elis é muito forte, marcante, como você faz para não virar a Elis diante deste sucesso todo?
Laila Garin — Pela própria abordagem da peça... Ninguém nunca quis que imitasse Elis. Meu trabalho não é imitação; mesmo. Acho que as pessoas entendem como uma homenagem, por mais que lembrem coisas relacionadas a Elis. Tem a parte da saudade de Elis, mas também tem muito de memórias pessoais, de coisa que as pessoas viveram.

Miguel Arcanjo Prado — É que cada um tem a sua Elis...
Laila Garin — Isso. A peça, contando a história da Elis, acaba contando a história da música e do País. São memórias que transcendem a Elis. E é o que a Elis fazia. As pessoas não são tão loucas por Elis só porque ela tem uma voz maravilhosa e ponto. Mas, porque o que ela faz cantando toca as pessoas em suas questões mais pessoais, até porque ela faz isso de uma forma pessoal também.

Miguel Arcanjo Prado — Tem quem pense que você é a Elis reencarnada?
Laila Garin — Eu não tenho como controlar a cabeça das pessoas, mas sinto que o público, quando vem falar comigo, ressalta minhas características como artista. E acho que vai depender também das coisas que vou fazer depois de Elis. Tem muita gente assistindo, graças a Deus. É teatro, não é TV, mas com essa peça a gente conseguiu atingir o máximo de espectadores. É grandioso demais. Mas também tinha gente que me conhecia de outros trabalhos. Eu não me confundo com Elis; de jeito nenhum! [risos]

Miguel Arcanjo Prado — Conheci você no palco do Teatro Itália, fazendo Eu Te Amo Mesmo Assim. Para mim foi uma aparição como foi a de Marisa Monte, fiquei impressionado com sua voz. Como você lida com o fato de um dia estar lá no Teatro Itália, em uma peça pequena, e agora estar neste turbilhão que é o musical, encabeçando uma superprodução, com você na proa de um navio?
Laila Garin — Eu acho que, primeiro, eu não tenho 20 anos de idade. Nem 18. Não sou deslumbrada. Segundo, que esta visão de que agora estou no navio é real porque é uma produção grande, é um navio gigante. Mas continua sendo teatro, é coletivo. Tenho os colegas em cena, preciso do cara da luz, do som, do Dennis [Carvalho, diretor]. Tem um trabalho danado. Essa visão de glamour é mais de fora. Tenho um dia a dia de atleta tendo que cuidar do que como, do que durmo. É uma trabalheira danada!

Miguel Arcanjo Prado — Quando você começou no teatro?
Laila Garin — Comecei cedo. A primeira vez que subi no palco tinha cinco anos. E a partir dos 11 eu nunca parei. Tenho uma visão do artesanato do teatro. E Elis foi construído em cada detalhe. Não é de uma hora para outra que as coisas acontecessem. Elis é um grande passo na minha carreira, nunca recebi e fui indicado para tantos prêmios [ela levou o Prêmio Shell de Melhor Atriz e está indicada ao Prêmio APCA na mesma categoria].

laila garin bob sousa4 Entrevista de Quinta: “Não me confundo com Elis”, diz Laila Garin, protagonista de Elis, a Musical

Leila Garin: "Eu não tenho 20 anos de idade. Nem 18. Não sou deslumbrada" - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você nunca tinha sentado no sofá do Jô Soares...
Laila Garin — Exatamente. Mas o meu trabalho veio num crescendo, que foi escolhido. Passei sete anos em São Paulo, dos quais cinco fiz teatro de pesquisa. Levava nove meses ensaiando uma peça para 80 espectadores, com o Cacá Carvalho, na Casa Laboratório. Depois, fui para o Rio de Janeiro trabalhar com o João Falcão, fazer Eu te Amo, que você viu. Por mais que fosse pequeno, era para fazer uma temporada e a gente fez sete, com uma repercussão qualitativa intensa. Depois veio o Gonzagão, que teve uma repercussão maior ainda. Você viu também, né?

Miguel Arcanjo Prado — Vi lá no Festival de Curitiba... Queria te perguntar uma coisa: você acha que hoje faz falta artistas que se coloquem politicamente e façam uma obra mais emblemática, que consiga ir além da voz, mas que transcenda?
Laila Garin — Eu acho. Mas estamos também em outro contexto. O momento político não é tão claro. Na época da Elis, os inimigos eram mais claros, vivíamos em uma ditadura e a gente precisava de liberdade de expressão. Talvez a gente tenha algumas músicas ou cantores que tomem algum partido. Você tem um hip hop, um rap que tem claramente um discurso social. Mas a Elis não era compositora... E a Elis também foi acusada de várias coisas, de ser muito fria, de ser muito técnica, de estar de um lado, até porque ela já era a cantora desde cedo. Para mim faz falta as vísceras mesmo. Não acho que tem de ficar sabendo da vida pessoal das pessoas, mas quando falo de cantar colocando de si é um engajamento artístico, de alma, de víscera. Às vezes parece que está tudo muito blasé e não tem muita diferença de um cantor para o outro.

Miguel Arcanjo Prado — É verdade.
Laila Garin — Minhas referencias estão todas na geração da Elis praticamente. Por mais que tenham algumas atuais que eu goste muito: eu adoro Renata Rosa [cantora paulistana] e Mayra Andrade [cantora cabo-verdiana]. Eu adoro cantores pop também, mas acho que esse diferencial, assim, está em poucos.

Miguel Arcanjo Prado — Para onde vai o musical?
Laila Garin — Depois de São Paulo, vamos fazer turnê por algumas capitais, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre e Curitiba.

Miguel Arcanjo Prado — E Salvador?
Laila Garin — Eu estou torcendo, estão organizando aí... Para mim vai ser muito especial ir para Salvador.

Miguel Arcanjo Prado — Você morou na França?
Laila Garin — Meu pai é francês, e eu passei cinco meses na França antes de vir para São Paulo em 2003. Então, passei sete anos aqui e depois fui para o Rio em 2010.

laila garin bob sousa3 Entrevista de Quinta: “Não me confundo com Elis”, diz Laila Garin, protagonista de Elis, a Musical

Laila Garin: "Em São Paulo, você exercita um anonimato que faz você pensar qual é o seu valor independentemente do reconhecimento e da aprovação do outro" - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você sofreu em São Paulo?
Laila Garin — Aqui eu aprendi a ser uma pessoa melhor. Além de ser filha única, a Bahia tem essa coisa de ser mãe. Na Bahia eu tinha um trabalho reconhecido dentro da classe teatral. Em São Paulo você exercita um anonimato que faz você pensar qual é o seu valor independentemente do reconhecimento e da aprovação do outro. Você tira de você mesmo. Talvez isso volte à sua pergunta primeira. Eu tive essa escola. Primeiro fui para Paris, que apesar de ser bem menor que São Paulo, foi uma porrada. Depois, São Paulo. Tive de chegar, dizer: "oi, sou fulana de tal". Eu vim fazer o musical Greese e pensei que iria conhecer todo mundo do teatro. E nada disso, só fiquei conhecendo o povo do musical.

Miguel Arcanjo Prado — O teatro de São Paulo tem muito disso, de turmas que não se misturam, tem o teatro da praça Roosevelt, o da pesquisa, o musical, o comercial...
Laila Garin — Exatamente. É tão grande e o mercado é tão diverso que conheci primeiro só o povo do musical. Depois passei cinco anos fazendo pesquisa e neguinho do musical nem sabia que eu estava aqui. Foi aqui que eu comecei a ter um pouquinho mais de autonomia. Eu gosto muito de São Paulo.

Miguel Arcanjo Prado — E o Rio?
Laila Garin — O Rio foi solar, foi bem mágico. E pela magia da cidade e pela magia de João Falcão. Fui trabalhar com ele. Eu ia fazer Carmen Miranda com ele e o projeto acabou não acontecendo e fiquei com essa frustração. Também queria ter feito o filme Máquina e não rolou.... Porque ele é dessa área música e teatro, que sempre acreditei. Estava com um projeto para fazer em Marselha e surgiu o Eu te Amo Mesmo Assim, mas ninguém sabia direito como iria ser. Só sabia que tinha de estrear tal dia. Eu falei: "vocês estão loucos?" Mas eu topei e me mudei para o Rio.

Miguel Arcanjo Prado — Laila, você canta muito bem, faz tempo que não surge no Brasil uma cantora que canta [risos]. E você canta. Não pensa em investir nisso?
Laila Garin — Obrigada [tímida]. O teatro sempre teve em primeiro plano, mas fiz muita coisa como cantora na Bahia. Em São Paulo a coisa não foi muito pra frente. No Rio, fiz um disco, fiz um Som Brasil...A gente está vendo isso agora. Eu sempre cantei atrás de um personagem. Foram estilos muito diversos, do canto lírico ao samba. Estou tentando entender que música pode me traduzir mais.

Miguel Arcanjo Prado — Achar seu recado artístico?
Laila Garin — Recado pode parecer pretensioso, que eu tenho alguma coisa para dizer. Eu não tenho. Tenho perguntas.

Miguel Arcanjo Prado — Já tem compositor mandando música?
Laila Garin — Tem gente que manda coisas... [pensativa] Eu não vou deixar de ser atriz. Estou pesquisando algumas coisas de música, mas o teatro é meu lugar também. Elis tem ainda uma vida longa, depois da turnê nacional a gente vai voltar par ao Rio. Tem de ver como vai isso... Tem coisa aí pela frente...

Miguel Arcanjo Prado — A cena mais importante sua no musical é a da entrevista final de Elis. É ali que você se coloca como atriz. Como é fazer esta cena?
Laila Garin — Essa cena foi especial. O Nelson [Motta, autor] e o Dennis [Carvalho, diretor] foram generosos e abertos. Eles aceitaram e a gente fez junto. A gente foi fechando, mexeu um pouquinho no texto, entraram algumas coisas que eu também pude escolher, isso é importante para aproximar, coisas que eu acredito também e que representam a Elis. isso é delicado. E foi lindo. Algumas pessoas aqui em São Paulo falaram que o musical era chapa branca, que fica muito leve no final, mas é uma citação de um show que a Elis fez com o Daniel Filho. Quando a Elis morreu muita gente ficou falando da autópsia e das questões das drogas, mais do que da perda daquela pessoa e daquela artista que deixaria um buraco imenso. Ficou mais com essa coisa mórbida, que é natural, porque a gente quer ver o corpo estendido no chão, mas já que a gente tem essa natureza ruim, é bom estimular outras coisas do espírito. O Caio Fernando Abreu escreveu na época, lembrando que era a Elis, a artista, que estava indo embora. A peça não tem a coisa realista, do copo de uísque e tudo mais, mas pelo menos tem a tentativa de mostrar o sofrimento, a dor. Tem essas camadas.

Miguel Arcanjo Prado — Laila, por que você é artista?
Laila Garin — Por que eu não tenho outra alternativa.

Miguel Arcanjo Prado — Eu acho que você está falando igual a Elis...
Laila Garin — Como é "falando igual a Elis"?

Miguel Arcanjo Prado — Com esse jeito pausado, dando peso a cada palavra, se colocando. A Elis falava assim.
Laila Garin — Talvez eu já falasse assim. Eu tenho uma mãe muito parecida com a Elis. Na franqueza, no temperamento — pelo menos do que eu vi de Elis, porque como ela mesmo diz, ninguém conhece ninguém. É da geração dessas mulheres fortes, que não são nenhum pouco perua, mulherzinha. Talvez até um pouco masculinas no jeito de agir, mas como diz Nelsinho [Motta], se Elis não fosse assim, não teria sobrevivido, até porque vivia num mundo masculino... Mas eu vi muito Elis, estou fazendo Elis cinco vezes por semana, posso estar falando mais pausado. Isso poderia acontecer com qualquer personagem que eu tivesse fazendo, não que a Elis seja uma personagem.

Miguel Arcanjo Prado — Mas não se preocupe, porque é lindo falar assim.
Laila Garin — É que eu tenho essa coisa já. E é o que eu gosto. A mulher que eu acho massa é essa mulher aí.

laila garin bob sousa1 Entrevista de Quinta: “Não me confundo com Elis”, diz Laila Garin, protagonista de Elis, a Musical

Laila Garin: "Sou artista porque não tenho outra alternativa" - Foto: Bob Sousa

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frederico reder bob sousa31 Entrevista de Quinta: “Theatro NET não tem preconceito”, diz Frederico Reder

Frederico Reder: aos 30 anos, ele tem um teatro no Rio e outro em São Paulo - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

O produtor Frederico Reder passou o último mês em uma correria desatada. Dono do Theatro NET São Paulo, que completa um mês de vida no próximo dia 18 de agosto no Shopping Vila Olímpia, ele se revezou entre administração, atendimento ao público, vendas na bilheteria, contato com os artistas e com a imprensa e o que mais aparecesse na sua frente.

Obsessivo, acompanha de perto o trabalho das cerca de 90 pessoas que fazem do Theatro NET Rio, há dois anos, e do Theatro NET São Paulo, há quase um mês, uma receita de sucesso. Com programação eclética, ele afirma que seu palco "não tem preconceito".

Nesta Entrevista de Quinta ao R7, concedida na plateia de sua sala paulistana, Reder falou de sua paixão pelos palcos e do tanto que aprendeu em São Paulo, quando mudou-se para a metrópole aos 19 anos a convite de Cíntia Abravanel, que fez história à frente do Teatro Imprensa até este ser fechado por seu pai, Silvio Santos, em 2011.

O executivo do teatro, que tem apenas 30 anos, ainda afirmou que quer diálogo com a classe artística paulistana e declarou que suas portas estão abertas a novas ideias.

Leia com toda calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado — Você é o carioca que veio para conquistar as terras paulistanas?
Frederico Reder – Não. Eu quero conquistar o Brasil e o mundo, São Paulo ainda é pequeno [risos]. Estou brincando. Conquistei São Paulo dentro de mim quando vim morar aqui com 19 anos. Eu nasci no Rio e a Cíntia Abravanel me convidou para vir para cá em 2002 e em 2003 eu vim. Agora, volto com um teatro que é uma receita de sucesso no Rio. Conquistar São Paulo é uma delícia, é minha segunda casa. Desde 2003 tenho casa aqui e quero ficar.

frederico reder bob sousa11 Entrevista de Quinta: “Theatro NET não tem preconceito”, diz Frederico Reder

Frederico Reder: antes de abrir dois teatros, ele teve preciosas lições com Cíntia Abravanel - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Então você é cria da Cintia Abravanel e daquela turma dela do Teatro Imprensa?
Frederico Reder – Eu tinha uma produção de um espetáculo, que era o Cantarolando. Era um infantil onde eu já era louco, produzia, dirigia, fazia cenário, figurino, maquiagem. A Cíntia achou lindo e maravilhoso. Que bom que ela gostou. Porque aí minha vida mudou e eu vim morar aqui. Depois do Imprensa fizemos várias temporadas em São Paulo. Fui muito feliz, minha filha nasceu, muita coisa mudou.

Miguel Arcanjo Prado — Como surgiu a ideia do Theatro NET no Rio e como ele chegou em São Paulo?
Frederico Reder –
Primeiro, uma coisa que sempre digo é que nunca sonhei em ter um teatro. Eu sempre sonhei em ter um circo. E eu tive meu circo. Mas depois de um tempo surgiu a oportunidade de revitalizar o Theatro Tereza Rachel no Rio. Ainda em São Paulo, um amigo produtor me propôs revitalizar um teatro. Mas, tinha 20 anos e achei aquilo muito longe da minha realidade. No fim de 2009 e começo de 2010, chegou o momento e comecei uma negociação com a Tereza Rachel que durou dois anos. Em 4 de abril de 2012 inauguramos e inventamos esse palco para todas as artes, com plateia para todos os públicos. Sempre tentando acertar e colocando em prática tudo que nós pudemos conviver em outras praças e casas e ser o melhor para o artista e o público.

Miguel Arcanjo Prado — Como veio o nome NET?
Frederico Reder –
A NET já era minha patrocinadora no projeto Circuito Cultural. Então, resolvi convidar a NET para ser mantenedora. Será que você não me ajuda a pagar essa conta e fazer tudo bem feito? Ela topou e foi uma delícia. Estamos aqui, dois anos e meio de sucesso no Rio, e quase um mês de sucesso em São Paulo.

Miguel Arcanjo Prado — Sei que foi uma correria a véspera da inauguração do teatro, vocês tiveram de cancelar uma apresentação para convidados do show do Gil. Foi um parto difícil?
Frederico Reder –
Foram alguns meses de parto, estou me recuperando ainda, o pós-parto é doloroso. Principalmente um teatro de 2.000 metros quadrados, 800 lugares e um teatro que inaugura com Gilberto Gil. Imagina o tamanho desta minha barriga. Mas pari e estou feliz. A criança é linda, as pessoas estão gostando, está no berçário, já saiu da incubadora e agora é rumo ao sucesso.

Miguel Arcanjo Prado — Todo mundo que chega aqui no Theatro NET São Paulo percebe que o clima de teatro não rola só no palco. Tem toda uma ambientação que faz você se sentir em um cenário o tempo todo. Como foi essa ideia?
Frederico Reder –
Sempre acreditei que a noite precisa ser um espetáculo. A saída com o cônjuge, o primo, o filho, a avó, a tia ou mesmo sozinho, você quer que o programas seja completo. Para isso o espetáculo e o atendimento tem de ser incrível. Acredito muito neste "sistema Disney de operação". Se a gente puder sempre se dedicar para a pessoa se surpreender do banheiro ao foyer a forma como o público vai ser recebido no teatro, que ótimo. É nosso foco. Quero melhorar a cada dia!

Miguel Arcanjo Prado — Por que o Gil para abrir?
Frederico Reder –
No Rio eu tive a alegria de Bibi Ferreira inaugurar meu palco. O Gil tinha feito a comemoração dos dois anos do Theatro NET Rio e resolvemos abrir aqui com ele, com pé direito. Gil é um dos maiores artistas deste País. É nosso ex-ministro e um grande articulador da cultura. Bibi e Gil são os primeiros da minha lista sempre.

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Dono de teatro no Rio e em São Paulo, Frederico Reder comanda equipe de 90 pessoas - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Como você faz a programação?
Frederico Reder – Eu não faço nada e ao mesmo tempo faço tudo. Coordeno uma equipe grande, com cerca de 30 pessoas. É a mesma que faz Theatro NET Rio e Theatro NET São Paulo. E cada teatro tem mais 30 pessoas para operar, então são quase cem pessoas. Na realidade, quero que o espaço seja democrático. Eu quero tudo. Abrimos com Gil, agora estreia O Grande Circo Místico, um dos maiores musicais, com músicas do Edu Lobo e do Chico Buarque.

Miguel Arcanjo Prado — O Theatro NET é um teatro sem preconceito?
Frederico Reder – Totalmente. O Theatro NET não tem preconceito. Acho que preconceito não mora aqui e não tem vez no nosso palco. A cortina não abre para o preconceito por aqui. Ele não existe nem na coxia.

Miguel Arcanjo Prado — A gente sabe que o teatro paulistano tem sua turma, suas especificidades, sua tradição. Você abre o teatro nesta cidade onde ele é muito importante. O que você tem a dizer para a classe teatral paulistana?
Frederico Reder – Primeiro, quero dizer que a  cortina vermelha é a minha praia mais do que a areia. Então, mesmo sendo carioca, mesmo morando no Rio, o teatro é mais  minha praia do que o mar. E eu sou muito mais “paulistano” da forma de fazer do que carioca. Sou carioca com muito orgulho, na verdade eu sou fluminense, porque nasci em São Gonçalo. Mas aprendi muito com São Paulo, nesta coisa do atendimento, do serviço de excelência. Os grupos paulistanos são muito bem-vindos. Quero que me procurem, porque eu já estou atrás deles. Convido todo mundo da classe teatral a vir aqui. Mas deixo uma dica: quero fazer coisas diferentes. Não venha me oferecer o que já foi feito. Este palco é para ousar. É para a gente ir além e provocar o público. Vamos inventar moda. Estou aqui para isso.

frederico reder bob sousa41 Entrevista de Quinta: “Theatro NET não tem preconceito”, diz Frederico Reder

Frederico Reder, do Theatro NET: "Vamos inventar moda. Estou aqui para isso" - Foto: Bob Sousa

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ronnie von 2 Entrevista de Quinta: Ronnie Von libera tudo; autor diz: Medo de biografia é pra quem tem rabo preso

Ronnie Von, nos tempos em que ganhou o apelido Pequeno Príncipe - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Elegante é ser amante dos livros; não proibi-los. Pois um dos homens mais sofisticados da história da Música Popular Brasileira resolveu fechar os olhos para o que diziam dele. Ou melhor, para o que escreviam sobre ele.

O cantor emblemático da década de 1960 e 1970, aquele que descobriu os Beatles por estas bandas, que deu o nome do grupo Os Mutantes e que muito tempo depois se tornaria o apresentador comportado da atualidade preferiu deixar a cargo dos jornalistas Antonio Guerreiro e Luiz Cesar Pimentel a missão de contar sua história, repleta de altos e baixos.

livro Entrevista de Quinta: Ronnie Von libera tudo; autor diz: Medo de biografia é pra quem tem rabo preso

Capa da biografia de Ronnie Von - Foto: Divulgação

Tudo está condensado no livro Ronnie Von - O Príncipe que Podia ser Rei (Editora Planeta, R$ 34,90). O lançamento é nesta sexta (1º), na Livraria Fnac (av. Paulista, 901), em São Paulo, a partir das 19h. Com direito até a pocket show do biografado.

A obra celebra os 70 anos de vida de Ronnie Von, completados no dia 17 deste mês. Durante a feitura do livro, ele colaborou com memórias doces e também amargas, em mais de cem horas de entrevistas — outras cem horas foram dedicadas a 50 pessoas que o rodeiam.

Após tanta conversa, os biógrafos encontraram fôlego para esta Entrevista de Quinta. Guerreiro, diretor-geral de Novas Mídias da Record e diretor-geral do R7, e Pimentel, diretor de conteúdo do mesmo portal, contaram como foi o trabalho de recriar a vida do Pequeno Príncipe, apelido dado por Hebe Camargo.

Revelam dificuldades, fatos marcantes e a surpreendente liberdade dada pelo personagem central. Quem ganha é o futuro.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado — Qual foi a história mais difícil de arrancar de Ronnie Von?
Antonio Guerreiro — Não posso dizer que houve história difícil. Houve momentos mais tensos, mas que é natural na vida de qualquer pessoa. Ronnie conduz a narrativa de maneira tão elegante que mesmo os temas mais áridos ganhavam contornos mais leves. E isso acaba por ser um grande desafio para quem escreve o livro.
Luiz Cesar Pimentel — Ronnie tem uma postura muito positiva em relação à vida, o que acaba transferindo para as pessoas e, por sua vez, acaba contaminando até seu modo de enxergar adversidades. Dito isso, o mais difícil foi trazer à tona os assuntos nas suas reais dimensões, pois ele sempre tende a, talvez por defesa, editar na memória afetiva o que foi positivo de cada coisa. Assuntos de carreira não foram difíceis, mas os sentimentais sempre existia um certo desconforto, como os quatro casamentos por que passou.

Guerreiro  045 foto Edu Moraes Entrevista de Quinta: Ronnie Von libera tudo; autor diz: Medo de biografia é pra quem tem rabo preso

Antonio Guerreiro: "Houve momentos tensos, mas é natural na vida de qualquer pessoa" - Foto: Edu Moraes

Miguel Arcanjo Prado — Quais são os três fatos que consideram mais marcantes na vida dele?
Luiz Cesar Pimentel — Os pais, principalmente o pai, pois foi quem o levou indiretamente à música. Essa história é sensacional e está, claro, no livro. A doença “incurável” (aspas necessárias), que ele venceu em 1980. A biografia dele. Já leu? [risos] Brincadeira. Colocaria como terceiro a sequência de discos psicodélicos que gravou no final dos 1960 e inídico da década de 1970, e que foram redescobertos recentemente e o posicionaram junto à nova geração.
Antonio Guerreiro — Concordo com o que o Luiz disse, mas existem vários top 3 como o momento do boom como cantor, a separação de sua primeira mulher e a carreira como apresentador.

Miguel Arcanjo Prado — Os dois atualmente ocupam postos de gerenciamento à frente da redação do R7. Como foi, ao fazer o livro, voltar ao lugar de repórter, de entrevistador?
Luiz Cesar Pimentel — Você bem sabe que uma vez repórter, sempre repórter. A gente (ou eu, pois posso falar por mim) acaba exercendo isso todos os dias na função dentro de um veículo de comunicação. Quanto mais próximo do administrativo, mais há que se ter atenção em exercitar essa musculatura, tanto de repórter quanto de redator. E, cá entre nós, não é sacrifício nenhum. Aliás, são as coisas que mais gosto na nossa profissão – conversar, cavar e contar uma boa história. Foi isso que nos levou à faculdade de jornalismo, né?
Antonio Guerreiro — Confesso que se pensar nisso eu não escreveria nem a biografia nem qualquer outra coisa. A solução é dormir três horas por dia.

pimentel Entrevista de Quinta: Ronnie Von libera tudo; autor diz: Medo de biografia é pra quem tem rabo preso

O jornalista Luiz Cesar Pimentel: "Medo de biografia é pra quem tem o rabo preso"- Foto: Divulgação

Miguel Arcanjo Prado — Vi que Ronnie não fez o papel de censor de sua própria história, como querem outros grandes nomes da MPB. Qual a importância de terem tido essa liberdade e também deste exemplo do Ronnie para a futura relação entre outros artistas e futuros biógrafos?
Luiz Cesar Pimentel — Claro que é o mundo ideal. Te dá liberdade plena de exercício. Mas por outro lado, para biografar um cara como ele, se torna até arriscado. Calma que explico. O Ronnie é um cara dificílimo de encontrar alguém que fale mal. Não por ele ser sobrehumano, nada disso. Mas porque ele tem um bom caráter. Ótimo, aliás. Pessoas assim não prejudicam deliberadamente ninguém. Nessa, as referências que íamos encontrando nas entrevistas com pessoas que participaram da vida dele sempre eram positivas. O que poderia tender a uma chapa-branca no veículo que pilotamos. Sendo que tudo que queríamos era humanizá-lo, sem julgamento. E conseguimos, com boa parte de falhas que o próprio nos forneceu em sua trajetória. Medo de biografia, cá pra nós, é pra quem tem o rabo preso, né, não?

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fagundes emanuel 3 Entrevista de Quinta: Não tem essa de TV ou teatro, somos todos atores, diz Fagundes Emanuel

Antes da Globo, Fagundes Emanuel fez o CPT de Antunes Filho e a SP Escola de Teatro - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A carinha não engana. O ator Fagundes Emanuel só tem 20 anos. Mas o pernambucano de nascimento e paulistano do coração tem currículo de deixar muita gente por aí de queixo caído. Depois de transitar pelo teatro paulistano, o jovem faz no momento sua primeira novela, Geração Brasil, no horário das 19h da Globo, na qual faz o personagem Mosca.

A trama já lhe traz reconhecimento nas ruas, mas o rapaz mantém o mesmo jeito de menino do teatro que sempre teve. Quem já o viu no bloco carnavalesco Agora Vai, no Minhocão, sabe muito bem. É desencanado e nada deslumbrado. Tanto que pegou o trem para se encontrar com a reportagem do R7 no Memorial da América Latina, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, para esta Entrevista de Quinta.

Afinal, Fagundes Emanuel não é só um rostinho jovem da TV: tem trajetória de peso no teatro paulistano. Vindo do projeto Teatro Vocacional no CEU Perus, na periferia da metrópole, logo se enturmou com companhias teatrais de respeito, como a Cia. do Feijão e a Cia. São Jorge de Variedades. Ainda cursou humor na prestigiada SP Escola de Teatro e fez o CPT (Centro de Pesquisa Teatral), de Antunes Filho, atuando na última peça do mestre, Nossa Cidade. A obra foi sucesso de público e de crítica, com o Troféu APCA de melhor espetáculo e o Prêmio Shell de melhor direção em 2013.

À vontade e sempre com um sorriso no rosto, Fagundes deu uma entrevista cheia de sinceridade. Coisa rara nos dias de hoje.

Leia com toda a calma do mundo.

fagundes emanuel 7 Entrevista de Quinta: Não tem essa de TV ou teatro, somos todos atores, diz Fagundes Emanuel

Fagundes Emanuel vive entre o Rio e SP: "São Paulo está no coração" - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado — Como você foi parar na novela Geração Brasil?
Fagundes Emanuel — Aconteceu por acaso, foi engraçado como se deu, tudo começou quando eu estava numa festa de aniversário de um amigo, que é fundador do Bloco Agora Vai, do qual faço parte em São Paulo. Estava rolando uma roda de samba, e eu tocava pandeiro, foi quando me chegou uma moça e perguntou se eu era músico, respondi a ela que não e disse que sou ator. Ela disse que trabalhava na TV Globo com cadastro de novos atores e perguntou-me se eu poderia fazer um cadastro na Globo São Paulo, pois, estavam procurando atores com o meu perfil.

Miguel Arcanjo Prado — E aí?
Fagundes Emanuel — Passou-se um tempo, um ano talvez, e participei do clipe/curta dirigido pelo Heitor Dhalia da música Moon, do querido Thiago Pethit. Certo dia me ligaram já da Globo Rio, dizendo que tinham me visto no clipe e que queriam fazer um teste comigo. No primeiro momento, recusei, fiquei em dúvida, pois nunca tinha ido ao Rio de Janeiro, perguntei se não haveria a possibilidade do teste ser em São Paulo mesmo, ela disse que não e que os diretores queriam me conhecer e falar comigo, me ver pessoalmente.

fagundes emanuel 4 Entrevista de Quinta: Não tem essa de TV ou teatro, somos todos atores, diz Fagundes Emanuel

Fagundes Emanuel conseguiu entrar na TV a partir de um convite em uma festa - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado — E o que você fez?
Fagundes Emanuel — Eu respondi dizendo que ia pensar e ligaria mais tarde. Pensei dois segundos depois da ligação terminada, e retornei, já comprando as passagens e pedindo o texto do teste [risos]. Fiz o teste e passei.

Miguel Arcanjo Prado — Como foi recebido pelos atores de televisão?
Fagundes Emanuel — Acho que não tem essa distinção de ator de televisão, ator de cinema, ator de teatro, acho que somos todos apenas atores, que se adaptam a cada veículo de forma que sempre mantendo sua essência e sem perder o valor que a arte tem. Da mesma forma que o palhaço se adapta para o palco, o ator se adapta para o teatro de rua, para a televisão, para a praça. Imagino sempre que estou brincando de teatro. Mas respondendo à sua pergunta, fui otimamente recebido por todos, e já de cara fiz amizade.

Miguel Arcanjo Prado — Com quem?
Fagundes Emanuel — Sempre tive a sorte grande de fazer amizades em todos os trabalhos que passo, e dessa vez não foi diferente, logo de cara encontrei um povo lindo de Pernambuco, meus conterrâneos e vizinhos de prédio, os músicos e atores Johnny Hooker, Samuel Vieira e Julia Konrad. Além de Titina Medeiros e Luis Miranda, que é nosso padrinho, no caso nossa grande mãe (Dorothy), dentre tantos outros queridos, que não me deixam sozinho no Rio.

fagundes emanuel 6 Entrevista de Quinta: Não tem essa de TV ou teatro, somos todos atores, diz Fagundes Emanuel

Fagundes Emanuel começou no teatro no CEU Perus, em São Paulo - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado — Por que resolveu ser ator?
Fagundes Emanuel — Não, nunca resolvi ser ator, desde criança brinco disso. Lembro que na pré-escola sempre me vestia de palhaço, ficava fazendo graça, sempre fui o mais levado dos meninos e um dos mais ridículos. Via beleza no ridículo e ainda vejo [risos]. Não foi bem uma coisa que eu escolhi. Aconteceu, e acontece.

Miguel Arcanjo Prado — Você nasceu onde?
Fagundes Emanuel — Nasci em Taquaritinga do Norte, uma cidadezinha do agreste de Pernambuco, pois onde meus pais moravam na época, na vizinha Santa Maria do Cambucá, não tinha maternidade. Não tenho lembranças claras de lá, meus pais foram morar em São Paulo quando tinha mais ou menos dois anos de idade. Fui criado até os 6 anos em Caieiras, município da Grande São Paulo, e vivi a maior parte da minha vida no bairro do coração, em Perus, na periferia de São Paulo capital, no conjunto habitacional Recanto dos Humildes.

Miguel Arcanjo Prado — Do que gostava de brincar quando criança?
Fagundes Emanuel — Acho difícil essa pergunta, porque não tinha uma coisa apenas, brincava de tudo [risos]. Mas, acho o que mais me marcou foi o futebol, as relações, a competição, o jogo, olhos nos olhos, parceria, ódio. Tudo rola num jogo de futebol! Sempre me atraiu também os jogos de tabuleiro e de lógicas,  claro que não poderia faltar os video-games [risos].

fagundes emanuel 2 Entrevista de Quinta: Não tem essa de TV ou teatro, somos todos atores, diz Fagundes Emanuel

Logo que começou no teatro, Fagundes Emanuel se interessou pela linguagem do palhaço e do humor e resolveu investir nisso - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado — Quando e onde começou a fazer teatro?
Fagundes Emanuel — Comecei a fazer teatro aos 13 anos, no CEU Perus (Centro Educacional Unificado), no Projeto Vocacional, um programa municipal que reúne diversos artistas valiosos que dão aulas em equipamentos públicos nas periferias e no centro de São Paulo. Mais uma vez tive a sorte de ter professores, no caso artistas orientadores, como são chamados no projeto, maravilhosos. Considero como minha primeira professora a artista e amiga Paula Klein. No mesmo ano com uma iniciativa do projeto de pesquisar os arredores, e a história do seu bairro, foi quando plantaram a sementinha do teatro em mim. Começamos a pesquisar a história do bairro de Perus e descobrimos uma fábrica de cimento abandonada uma greve que durou sete anos, Queixadas, Pelegos. Um cemitério com vala comum dos
militares da ditadura. Foi inevitável um espetáculo marcante em minha vida! Fizemos com dramaturgia própria uma peça a céu aberto e itinerante chamada A Revolta dos Perus, com o grupo até então amador chamado Grupo Pandora, que fazia parte do Vocacional.

Miguel Arcanjo Prado — Aí você começou a estudar atuação?
Fagundes Emanuel — No ano seguinte ao que comecei a fazer teatro, peguei gosto pela coisa, estava apaixonado não tinha como explicar... Virei, como dizem por aí, "Rato de oficina". Em São Paulo tem muita coisa boa rolando. E assim fui, bebendo de várias fontes, a primeira e acho que uma das mais importantes em minha formação como ator, foi uma oficina que a Cia. do Feijão oferecia nos quatro cantos da cidade: norte, sul, leste, oeste. Que tinha como mote principal: memória e utopia.

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Assim que descobriu o palco, Fagundes Emanuel virou "rato de oficina" - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado — Bem interessante...
Fagundes Emanuel — Foi maravilhoso tive o prazer de conviver com os artistas incríveis da Cia. do Feijão durante quase um ano, onde o trabalho era bem focado no ator, aprendi muito com minha capitã e querida Vera Lamy. De lá não parei mais, e fui começando a experimentar novas linguagens dentro do teatro, foi quando descobri a máscara do palhaço e o brincante popular, foquei nisso por um tempão! Como não tinha idade pra fazer teatro-escola, fazia o que podia de oficinas.

Miguel Arcanjo Prado — Foi nesta época que você conheceu a turma da Cia. São Jorge de Variedades:
Fagundes Emanuel — Assim que terminei o colégio comecei a frequentar a Cia. São Jorge de Variedades, eles estavam no processo de Barafonda, fui muito bem recebido, me sentia em casa, lá fiz de tudo, de produção a construção de adereços e figurinos, até que entrei na peça e fiz umas participações como músico-ator. Em paralelo tinha meu grupo na época para experimentar coisas que surgiam e já caminhávamos para o profissionalismo.

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Fagundes Emanuel fez Barafonda, da Cia. São Jorge, e toca no bloco Agora, Vai - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado — E quando você entrou na SP Escola de Teatro?
Fagundes Emanuel —
Prestei vestibular para a SP Escola de Teatro no curso de Humor, para continuar e fortalecer minha pesquisa no palhaço e humor no teatro. Passei e fiz o primeiro módulo do curso. Foi quando o Raul Teixeira, que é coordenador de sonoplastia na escola e do CPT (Centro de Pesquisa Teatral) do Antunes Filho, me parou no corredor da escola e me perguntou se eu não queria fazer um teste no CPT. Disse que sim, fiz o teste e passei.

Miguel Arcanjo Prado — Você e seus testes... [risos]
Fagundes Emanuel — O CPT foi o inicio de um processo incrível com duração de quase dois anos, e essa sim foi minha escola de formação profissional. Com a convivência com o mestre Antunes Filho, tive a chance e o prazer de aprender um pouco o método de ator que ele desenvolve no decorrer de sua vida. E, sem dúvidas, ter o privilégio de passar por uma das escolas mais importantes do teatro brasileiro. Só tenho a agradecer!

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Quando recebeu o convite da Globo, Fagundes Emanuel precisou sair da peça Nossa Cidade, de Antunes Filho: ele precisou tomar a decisão que lhe traz certo sofrimento ainda nos dias de hoje - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado — Como foi pra você ter de sair de Nossa Cidade para fazer a novela na Globo? Como foi a conversa com o Antunes?
Fagundes Emanuel — Minha conversa com Antunes não existiu, aconteceu tudo tão de repente que acabei não tendo tempo de conversar diretamente com ele, e quando tive tempo, a coragem e a vergonha me impediram... É uma divida amarga que carrego comigo! Saí da peça quando ela estava no melhor momento, estava engatada, tudo rolando, tínhamos acabado de ganhar o APCA, o elenco em harmonia, foi e é uma dor no peito ter que largar um trabalho tão lindo e sensível dessa forma, às pressas. Mas são escolhas, né? Duro, mas é a realidade. Não sei se fiz a escolha certa, mas me arrisquei. Vim experimentar coisas novas e estou tendo a chance de aprender uma nova linguagem, que não é menor ou maior que qualquer outra.

Miguel Arcanjo Prado — O que pretende fazer depois que a novela acabar? Fica no Rio ou volta pra São Paulo?
Fagundes Emanuel —
Ainda não pensei sobre isso, o primeiro pensamento é voltar pra terra da garoa. Talvez, começar um novo projeto, não sei... Vamos com calma, tudo depende, ainda tenho muito tempo. O Rio realmente é encantador. Mas São Paulo está no coração.

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O ator Fagundes Emanuel, aos 20 anos: "Ainda tenho muito tempo" - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado — Qual a melhor e a pior coisa de ser ator?
Fagundes Emanuel —
A melhor coisa... Acho que seja essa liberdade de fazer e ser o que quiser, poder transitar por diversos mundos, usando sempre o poder de comunicar algo ao outro, explorar e descobrir. E a pior, não sei se classificaria assim, mas já que esta é a palavra, seria a desvalorização do artista, não é nem do ator, do artista. Tenho tantos amigos que são formados e até mesmo mestres em artes e estão sempre em crise com falta de apoio, isso realmente assombra todos nós, e me deixa muito triste essa instabilidade financeira e de mercado. É realmente cruel e, infelizmente, é uma realidade que não é de hoje. Sempre fomos mambembes. Comendo pão com ovo!

Miguel Arcanjo Prado — O que dá para adiantar do seu personagem em Geração Brasil?
Fagundes Emanuel —
Ah! [risos] Não posso dizer... Tem de ser surpresa!

fagundes emanuel 1 Entrevista de Quinta: Não tem essa de TV ou teatro, somos todos atores, diz Fagundes Emanuel

Fagundes Emanuel: "A melhor coisa em ser ator é transitar por diversos mundos" - Foto: Miguel Arcanjo Prado

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alessandro ubirajara foto bob sousa2 Entrevista de Quinta: “Misturo sabores e alimento artistas”, diz Alessandro Ubirajara, chef do Oficina

Ator, artista plástico e chef: Alessandro Ubirajara cuida da comida do Oficina - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

As peças do Teat(r)o Oficina exigem muito fisicamente de seus artistas. Nos espetáculos-ritual comandados por José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, estar com vigor é fundamental.

No coro do grupo, um ator sempre se destacou, por sua intensidade: Alessandro Ubirajara. Com o tempo, um outro talento do jovem, que também é artista plástico, conquistou o paladar de seus colegas: as comidinhas que ele trazia para o camarim, todas minuciosamente preparadas.

Há um ano, resolveu que teria de ser um artista a comandar o posto de alimentar os artistas do Oficina. E assumiu o posto de chef do grupo.

Gaúcho radicado em São Paulo desde 2007, Ubirajara desenvolve pesquisa potente e pioneira sobre a comida no teatro. De forma antropofágica, diz: “Misturo cheiros e sabores para alimentar artistas”.

Quem quiser provar seu tempero pode ir hoje ao Jantar Orgânico que ele vai promover no restaurante A Leiteria da Canastra, no Butantã, zona oeste de São Paulo [veja serviço ao fim].

Em uma tarde de inverno no Oficina, Ubirajara conversou com o Atores & Bastidores do R7 nesta Entrevista de Quinta sobre este seu momento e também contou sua trajetória. Artimanha do destino, revelou que conheceu Zé Celso na Polícia Federal, onde trabalhava no setor de passaportes.

Leia com toda a calma do mundo.

alessandro ubirajara foto bob sousa3 Entrevista de Quinta: “Misturo sabores e alimento artistas”, diz Alessandro Ubirajara, chef do Oficina

Radicado em São Paulo desde 2007, o gaúcho Alessandro Ubirajara é artista de diversas frentes; atualmente, busca aliar a alimentação saudável ao teatro no Oficina - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado —Por que Ubirajara?
Alessandro Ubirajara — Meu pai também é Ubirajara. Meu avô lia muito José de Alencar [risos].

Miguel Arcanjo Prado — De onde você é? Quem é sua família?
Alessandro Ubirajara — De Pinheiro Machado, no Rio Grande do Sul, bem perto da fronteira com o Uruguai. Lá faz muito frio. Até neva... Sou o mais velho da Maria do Carmo e do Charlei Ubirajara, meus pais. Tenho avó japonesa, avô negro do Uruguai, e também sangue italiano, alemão e índio.

Miguel Arcanjo Prado — Isso é que é antropofagia. E o que você queria ser quando crescesse?
Alessandro Ubirajara — Artista plástico. Tanto que me formei na área lá em Porto Alegre. Morei muito tempo em Sapucaia, que é perto. Meu avô era agente ferroviário. Cheguei a morar em muitas estações de trem. Sempre mudei muito.

Miguel Arcanjo Prado — Como você era quando pequenino?
Alessandro Ubirajara — Eu gostava de desenhar, colorir, pintar. Meu apelido na escola era Pintor. Todo mundo em Sapucaia lembra quando eu pintei o túnel da cidade...

Miguel Arcanjo Prado — E como você chegou em São Paulo?
Alessandro Ubirajara — Foi em 2007. Sempre ouvia falar daqui, do Masp, da Pinacoteca, da USP. Queria muito viver em São Paulo. Mas, cheguei tão ingênuo que fui nas galerias com uma pastinha na mão apresentar meus trabalhos, achando que iria expor de cara.

alessandro ubirajara foto bob sousa51 Entrevista de Quinta: “Misturo sabores e alimento artistas”, diz Alessandro Ubirajara, chef do Oficina

Alessandro Ubirajara mudou-se para São Paulo com uma pasta debaixo do braço - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Levou muitos nãos?
Alessandro Ubirajara — Sim. Só a Casa da Xiclet, na Vila Madalena, aceitou meu trabalho. São Paulo tem uma frieza e um anonimato. Mas também tem uma liberdade absoluta. Quando eu me sinto inseguro, vou a lugares de arte, a museus e bibliotecas. Eu busquei o anticorpo para me possibilitar sobreviver na cidade.

Miguel Arcanjo Prado — E como você sobreviveu?
Alessandro Ubirajara — Foi difícil. Fui morar com uma amiga. Comecei em Guaianases [na zona leste], muito depois fui para Santa Cecília [bairro do centro]. Arrumei um emprego no setor de passaportes da Polícia Federal, na Lapa. Fiquei lá dois anos. E isso foi muito importante, porque um dia atendi a uma pessoa muito especial.

Miguel Arcanjo Prado — Quem?
Alessandro Ubirajara — O Zé Celso. Eu já tinha visto Os Bandidos em Porto Alegre e fiquei impressionado com o Oficina. Vendo aquela peça, parecia que tudo me entendia. Era completo e epifânico. Acho que meu destino era o Oficina. O Zé entrou na PF lendo um livro, como se não estivesse em lugar nenhum. Estava ligado na busca dele, em sua perspectiva artística. Isso mexeu comigo. Fiquei louco.

Miguel Arcanjo Prado — E vocês se aproximaram a partir daí?
Alessandro Ubirajara — Sim. Eu fiz o passaporte dele. E fiquei com aquilo do Oficina na cabeça. Ele me convidou para ver a exposição Ocupação Zé Celso. Quando cheguei lá, falei par ele: “eu quero ser artista”. No dia seguinte, ele me ligou e me chamou para fazer Cacilda !!.

alessandro ubirajara foto bob sousa6 Entrevista de Quinta: “Misturo sabores e alimento artistas”, diz Alessandro Ubirajara, chef do Oficina

No começo no Oficina, Alessandro Ubirajara conciliou trabalho na Polícia Federal, onde conheceu Zé Celso no setor de passaportes, e teatro: sempre um ator ativo e intenso nas peças - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — E você conciliou a Polícia Federal com o Oficina?
Alessandro Ubirajara — No começo, sim. Era muito engraçado. Mas aí eu resolvi sair de lá, porque comecei a viajar com as peças. Fui aprendendo a produzir também, com a Elisete Jeremias, que era a diretora de cena do Oficina. Morei com ela um ano e aprendi muita coisa. Passei a ter de sobreviver de forma antropofágica, trabalhando e aprendendo.

Miguel Arcanjo Prado — E como veio a cozinha na sua vida?
Alessandro Ubirajara — A cozinha entrou nesse meu aprendizado antropofágico. É o lugar onde exploro potencialidades. Em 2012, fizemos um circo no terreno aqui ao lado do Oficina. E criamos um bar, eu, a Danielle Rosa e o Bruno Nogueira. Chamava-se Bambambã Cabaret Bar. Comecei a me interessar em pesquisar a cozinha no teatro. Era uma habilidade que eu já tinha, todo mundo amava minha polenta.

Miguel Arcanjo Prado — E você foi se aprofundando na cozinha?
Alessandro Ubirajara — Sim. Percebi que a cozinha era um ponto central, um ponto de encontro. Fizemos uma festa junina no Oficina que foi linda. Eu criei muitas comidas, assumi a cozinha, vieram vários chefes que me ensinaram muita coisa. Gente como a Bia Magalhães, a Elaine Vargas, o Paulo Franco.

alessandro ubirajara foto bob sousa4 Entrevista de Quinta: “Misturo sabores e alimento artistas”, diz Alessandro Ubirajara, chef do Oficina

Alessandro Ubirajara, o artista da cozinha do Teat(r)o Oficina - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você se divide entre cozinha e palco?
Alessandro Ubirajara — Sim. Até Walmor y Cacilda 64: Robogolpe eu fiz isso. No Cacilda!!!!!, que estreia no fim do mês, eu vou ficar só na cozinha. Vai ser o primeiro que não vou estar em cena. Eu comecei uma pesquisa sobre a comida do ator, pensando na sua saúde e nutrição. Porque para fazer uma peça do oficina tem de estar forte, é comida de atleta, mas não pode ser pesada. Tem de ter comida no camarim. E, para que ela existisse de verdade, alguém precisava assumir isso. Adoro acordar cedo e ir na zona cerealista buscar os ingredientes. E faço de tudo: o Zé é cardíaco e tenho de fazer algo que não prejudique o coração dele. Já a Camila Mota é macrobiótica. Os nordestinos não comem sem carne. Então, alimento os corpos destes artistas diversos.

Miguel Arcanjo Prado — Você é um artista da cozinha?
Alessandro Ubirajara — Sim. A comida é ritual, é uma ligação. Ela dialoga. É um personagem. Sinto que estou ligado por este trabalho. O Zé Celso disse que minha força maior está na cozinha de teatro. A minha pesquisa artista neste momento é esta. Estou misturando sabores e cheiros. Eu já fui primeiro artista plástico, depois ator, agora chef. Estou buscando meu lugar, mas, durante a busca, não paro de criar.

alessandro ubirajara foto bob sousa11 Entrevista de Quinta: “Misturo sabores e alimento artistas”, diz Alessandro Ubirajara, chef do Oficina

Alessandro Ubirajara, no palco do Oficina: ele alimenta artistas com consciência - Foto: Bob Sousa

Jantar Orgânico pelo chef Alessandro Ubirajara
Quando: Quinta (3/7/2014), 18h às 21h
Onde: A Leiteria da Canastra (rua Major Almeida Queiroz, 18, Butantã, São Paulo, tel. 0/xx/11 4563-9525 ou 0/xx/11 9-8120-1471)
Quanto: Couvert (R$ 10); jantar adulto (R$ 35); jantar infantil (R$ 20); taça de vinho (R$ 15); taça de suco de uva ou mexerica (R$ 4); aceita dinheiro e cheque
Classificação etária: livre

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michelle ferreira foto bob sousa51 Entrevista de Quinta: “Não sei qual é a cara do meu trabalho, mas sei que tem”, diz Michelle Ferreira

Michelle Ferreira: atriz formada na EAD vira dramaturga de sucesso - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

Michelle Ferreira desconstrói a imagem que muita gente ainda tem da figura do dramaturgo. Jovem, bonita, articulada e decidida, já é um dos novos nomes da cena teatral paulistana, sobretudo após a ter escrito e dirigido a elogiada peça Os Adultos Estão na Sala.

Nesta sexta (27), vive momento marcante. Estreia no palco do Teatro Anchieta do Sesc Consolação, um dos mais tradicionais de São Paulo, sua peça Sit Down Drama, com elenco de 12 atores capitaneados pelo diretor Eric Lenate. A obra conta a história de um humorista que se dá mal após fazer uma piada ao vivo na TV.

A estreia é uma espécie de volta para a casa. Já que integrou por oito anos o Círculo de Dramaturgia do CPT (Centro de Pesquisa Teatral), sob comando de Antunes Filho, que fica no mesmo prédio do teatro.

Em uma tarde de sol de inverno no Teat(r)o Oficina, ela se encontrou com o Atores & Bastidores do R7 nesta Entrevista de Quinta.

Falou sobre o enredo de sua peça se parecer com a história real ocorrida com Rafinha Bastos e Wanessa Camargo, contou seu começo com uma peça escolar e falou sobre este momento de destaque.

Leia com toda a calma do mundo.

michelle ferreira foto bob sousa32 Entrevista de Quinta: “Não sei qual é a cara do meu trabalho, mas sei que tem”, diz Michelle Ferreira

Michelle Ferreira é autora da peça Sit Down Drama, que estreia em SP - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — A história da sua peça lembra muito o caso Rafinha Bastos versus Wanessa Camargo. Se alguém falar que você se inspirou nele o que você diz?
Michelle Ferreira — Que é mentira. Porque eu escrevi a peça antes de tudo isso acontecer. Vou até brincar: ele que deveria me pagar os direitos da própria história [risos]. Desenvolvi a história de 2008 para 2009 [o episódio Rafinha x Wanessa, quando ele disse no ar no CQC que comeria Wanessa e seu bebê, gerando sua demissão da Band, ocorreu em 2011]. E a história não é igual ao que aconteceu com ele. É só parecida. Sit Down Drama representa outras coisas também.

Miguel Arcanjo Prado — O que você acha dessa coincidência de escrever um argumento que logo depois aconteceu de verdade?
Michelle Ferreira — A coincidência é engraçada, louca, inusitada. Eu não acredito em nada, sou ateia, mas as coisas estão aí... A gente respira o mesmo ar...

Miguel Arcanjo Prado —Você quis em sua peça criticar o politicamente correto?
Michelle Ferreira — A gente vive um momento de muito politicamente correto. O que aconteceu com o Rafinha Bastos é por causa desse “Vigiar e Punir” quem cria. Tomara que ele vá assistir. Eu respeito a história dele, mas a peça não é ela, é muito mais do que isso. A diferença para o Rafinha Bastos é que meu personagem não se redime. É através dessa derrocada que o personagem se entende.

Miguel Arcanjo Prado — Como você escreve?
Michelle Ferreira — Depende. Quando estava no CPT [Centro de Pesquisa Teatral do Sesc Consolação, comandado por Antunes Filho] e não tinha perspectiva em montar, tomava mais tempo... Mas, você sabe, o melhor amigo do escritor é o deadline.

Miguel Arcanjo Prado — Do jornalista também.
Michelle Ferreira — Pois é. Normalmente, escrevo rápido. Preciso de uma teia mental antes para sentar e escrever. Mas, no momento em que escrevo, não consigo sossegar até acabar. Sou obsessiva. É vertical o negócio. Quando estou escrevendo, nem vivo direito.

Miguel Arcanjo Prado — Como você começou a escrever?
Michelle Ferreira — Desde muito criança. Eu dizia na EAD [Escola de Arte Dramática da USP], logo que eu entrei, com uns 20 anos, que eu já tinha 20 anos de carreira. Porque a minha avó me emprestou bebê para fazer o presépio vivo. Fiz o Menino Jesus, um grande papel [risos].

Miguel Arcanjo Prado — Como foi sua infância?
Michelle Ferreira — Sim. Sou filha única. Na verdade, sou neta única, porque fui criada pelos meus avós. Então, minhas companheiras de brincadeira eram a enciclopédia Barsa e o livro do Alexandre Dumas. Fui alfabetizada muito cedo. Gostava mais do mundo dos adultos do que das crianças.

Miguel Arcanjo Prado — Onde você morava?
Michelle Ferreira — Em Atibaia [região serrana próxima a São Paulo], em uma casa de campo. Fiquei lá dos sete aos 14 anos. Ficava isolada, não tinha vizinho. E meu avô me deu uma Olivetti [máquina de datilografia] quando eu tinha nove anos. Comecei a escrever muito.

Miguel Arcanjo Prado — E na escola?
Michelle Ferreira — Tinha uma professora de português descendente de alemães, chamada Hildegard, e um dia a contrariei.

Miguel Arcanjo Prado —Por quê?
Michelle Ferreira — Ela propôs de montarmos a peça Quem Casa Quer Casar, do Martins Pena. Achei uó. Eu já tinha visto muito coisa, muito cinema, nas fitas do meu avô: vi tudo do Charles Chaplin, O Poderoso Chefão, 2001 — Uma Odisseia no Espaço, Taxi Driver... Então, queria fazer outra coisa.

Miguel Arcanjo Prado —E você brigou com a professora?
Michelle Ferreira — Eu falei que não gostava da peça. Aí ela falou que já que eu achava a peça ruim, por que então não escrevia uma. Passei o fim de semana escrevendo e, na segunda, entreguei a ela minha primeira peça.

Miguel Arcanjo Prado — E ela montou?
Michelle Ferreira — Sim! Se chamava A Ascensão e Queda de um Político Corrupto. Estávamos na Era Collor, então criei um personagem que nascia no morro e terminava no Planalto. Mas tinha um fim moralista que hoje eu mudaria. O personagem termina a peça no inferno [risos].

michelle ferreira foto bob sousa41 Entrevista de Quinta: “Não sei qual é a cara do meu trabalho, mas sei que tem”, diz Michelle Ferreira

Michelle Ferreira escreveu sua primeira peça na infância - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você já sabia que faria teatro profissionalmente?
Michelle Ferreira — Sabia. Sempre soube. Outra coisa não ia dar... Meus avós sempre me deram muita força. Quando fiquei adolescente a gente voltou para São Paulo, porque queria me preparar para o vestibular, fazer um colegial mais forte. Eles me deram toda força. Fui muito estimulada. Mas antes do vestibular fiz intercâmbio.

Miguel Arcanjo Prado — Onde?
Michelle Ferreira — Connecticut, nos Estados Unidos. Fui crescer, me virar.

Miguel Arcanjo Prado — E o que fez na volta?
Michelle Ferreira — Queria fazer cinema por um tempo. Mas aí prestei vestibular para ciências sociais na FFLCH [Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP]. No segundo ano da faculdade, passei na EAD. Cheguei a fazer as duas juntas por dois anos, mas depois fiquei só na EAD.

Miguel Arcanjo Prado — Como era na EAD?
Michelle Ferreira — É um curso muito focado para atuação. Mas eu continuei a escrever por conta própria.

Miguel Arcanjo Prado — E como entrou para o Círculo de Dramaturgia do CPT?
Michelle Ferreira — Recebi um recorte de uma notinha no jornal, falando que estavam com processo seletivo aberto. Mandei dois textos e passei. Fiquei oito anos, de 2003 a 2011.

Miguel Arcanjo Prado — Como foi?
Michelle Ferreira — Era tudo focado na produção independente de casa um. A gente levava porrada do Antunes, mas sempre dentro do nosso universo. Foi no CPT que me tornei uma dramaturga de fato. Ele acabou comigo e me mandou ir em frente. O Antunes diz que é mais fácil ser campeão de Fórmula 1 do que um bom dramaturgo. A primeira peça que escrevi lá é Urubu Comum, que ainda não foi montada.

Miguel Arcanjo Prado —E a carreira foi deslanchando?
Michelle Ferreira — Pois é. Fui conhecendo muita gente. A primeira peça montada é metade minha e metade do Germano Mello, que é Como Ser uma Pessoa Pior, com a Lulu Pavarin. A segunda também não é só minha, Estudo Hamlet.com, que fiz para o Cacá Carvalho. A primeira só minha montada profissionalmente foi Os Adultos Estão na Sala, com a Má Cia. Provoca, que é o meu grupo.

Miguel Arcanjo Prado —Você descontrói a imagem que muita gente tem do dramaturgo.
Michelle Ferreira — Todo mundo pensa no velho barbudo no gabinete, né? [risos]

Miguel Arcanjo Prado —E Sit Down Drama?
Michelle Ferreira — O Ricardo Grasson me pediu uma peça para poucos atores. Falei: não tenho condição agora de fazer uma nova. E ofereci essa. Ele leu, gostou, aí eu joguei o nome do Eric Lenate para dirigir, porque sempre quis trabalhar com ele. Só que ele me pediu uma peça com poucos atores e são 12 pessoas em cena! [risos]

Miguel Arcanjo Prado — Como você lida com essa repercussão do seu trabalho na classe artística e também junto aos críticos?
Michelle Ferreira — Eu tento achar tudo normal, embora não seja [risos]. Acho tudo louco. Isso de estrear sexta agora na casa do mestre. Chego lá no Teatro Anchieta do Sesc Consolação com o maior respeito. Não sei como vai ser. Vamos ver o que as pessoas vão achar. Podemos sair aplaudidos ou dentro de um camburão. O que é bom também, porque faz parte do folclore.

Miguel Arcanjo Prado — Tem novos projetos?
Michelle Ferreira — Vou estrear no segundo semestre Reality Final, que é uma peça que faz dupla com Sit Down Drama. Vai ser com meu grupo, a Má Cia. Provoca, que tem eu, a Flávia Strongoli, a Michelle Boeschie, o Ramiro Silveira, a Maura Hayas e a Solange Akerman. Também tenho uma produtora audiovisual, a No Cubo Filmes. Tenho feito pilotos para TV... Em julho, estreia em Porto Alegre a peça A Vida Dele. Neste ano, também vai estrear Animais na Pista, outro texto meu.

Miguel Arcanjo Prado — Você quer fazer, além de teatro, cinema e TV?
Michelle Ferreira — Sim. Eu gosto do sim para tudo.

Miguel Arcanjo Prado —Qual é a cara do seu trabalho?
Michelle Ferreira — [pensativa] Qualquer outra pessoa responderia essa sua pergunta muito melhor do que eu... Voltando à sua pergunta, não sei que cara que é, mas sei que tem.

michelle ferreira foto bob sousa21 Entrevista de Quinta: “Não sei qual é a cara do meu trabalho, mas sei que tem”, diz Michelle Ferreira

"Não sei qual é a cara do meu trabalho, mas sei que tem", diz Michelle Ferreira - Foto: Bob Sousa

Sit Down Drama
Quando: Sexta e sábado, 21h, domingo, 18h. 80 min. Até 10/8/2014
Onde: Sesc Consolação - Teatro Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo, tel. 0/xx/11 3234-3000)
Quanto: R$ 6 a R$ 30
Classificação etária: 16 anos

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guilherme marques bob sousa5 Entrevista de Quinta: “Prédio e cultura podem coexistir, diz Guilherme Marques do CIT Ecum

Vitória da especulação imobiliária? O teatro CIT-Ecum, dirigido por Guilherme Marques em São Paulo, está com seu fim decretado para o próximo dia 30 de junho - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de BOB SOUSA

A figura da namoradeira pensativa na janela para o pátio interno do casarão localizado em uma das ruas mais movimentadas do centro paulistano cria a ilusão de que estamos em Minas Gerais.

Quando entramos na cozinha, a sensação é ainda mais interiorana. Estão lá o filtro de barro com água fresca e o café recém-coado estão à nossa espera.

Sentado na mesa de madeira do espaçoso e iluminado cômodo está Guilherme Marques, diretor geral do CIT-Ecum (Centro Internacional de Teatro Ecum). Apesar da calma na fala, seu rosto denuncia a tensão do momento. E não é pelo resultado do Brasil na Copa do Mundo, que começa nesta quinta (12).

No próximo dia 30, se o cenário desfavorável não mudar, Marques terá de juntar sua equipe de 15 pessoas e deixar o colorido imóvel na rua da Consolação, 1623.

Após um ano e dois meses de atividades que envolveram boa parte da classe e do público teatral, com mais de mil postos indiretos de trabalho criados pela programação de qualidade capitaneada pelo diretor artístico Ruy Cortez, o lugar pode fechar suas portas por conta do interesse da proprietária de despejar os inquilinos e vender o imóvel para uma construtora.

A notícia agitou a comunidade teatral, que se mobiliza em redes sociais e até em campanhas junto ao poder público para tentar impedir o esmagamento da cultura pela especulação imobiliária.

Cidadão do mundo e mineiro de Peçanha, cidade com 17 mil habitantes, Marques conversou com exclusividade com o Atores & Bastidores do R7 sobre este complicado momento.

Leia com toda a calma do mundo.

guilherme marques bob sousa4 Entrevista de Quinta: “Prédio e cultura podem coexistir, diz Guilherme Marques do CIT Ecum

Guilherme Marques, em frente à colorida fachada do CIT-Ecum: "Dói muito sair" - Foto - Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — O CIT-Ecum vai fechar?
Guilherme Marques — O contrato finda agora, dia 30 de junho. Estamos tentando renegociar com a proprietária. A situação é delicada porque viemos na transição de um contrato antigo, que era do Teatro Coletivo, e, em um acordo com a família, o transformamos no CIT-Ecum.

Miguel Arcanjo Prado —Qual o prazo você pediu para prorrogar?
Guilherme Marques — Pelo menos mais seis meses. O ideal seria um contrato de cinco anos. Não sei se vamos conseguir reverter.

Miguel Arcanjo Prado — Vocês têm recebido muito apoio?
Guilherme Marques — Sim. Tem uma campanha forte na classe artística e até na revista teatral Antro Positivo em defesa dos teatros da cidade. Particularmente, eles a desenvolvem neste momento porque o espaço que está mais ameaçado é o CIT-Ecum.

Miguel Arcanjo Prado — Se tiverem de ir para a rua o que farão com todas as coisas do teatro?
Guilherme Marques —
É muito difícil abandonar este espaço... Já conversei com a Prefeitura que nos cedeu um depósito para deixarmos nosso acervo. É doloroso ter de desmontar uma casa com repercussão tão positiva. Dói muito. Mas eu sou do sertão, nasci na roça, tenho essa capacidade de renovação, de recriar, de buscar forças para ir atrás de um novo espaço.

Miguel Arcanjo Prado — Fervilha no teatro brasileiro a discussão sobre a especulação imobiliária. O Zé Celso e a turma do Teatro Oficina brigam com o Silvio Santos há anos. Os Fofos Encenam também quase fecharam o espaço deles e Os Satyros chegaram a anunciar que deixariam a praça Roosevelt. Como você avalia este cenário?
Guilherme Marques — Um diálogo é possível. A construtora não pode abrir o diálogo? Em vez de acabar com o teatro, não dá para anexar ao empreendimento um centro cultural? Eu entendo o lado do proprietário. Mas, é nosso papel abrir para o diálogo e trazer a comunidade para essa discussão de preservação de espaços importantes na cidade. São Paulo não pode só construir prédio, tem de ter cultura também. O movimento cultural também precisa prosperar e crescer. E isso é possível caminhar junto. Em Belo Horizonte, nós temos duas experiências interessantes: o Pedro Paulo Cava manteve o Teatro da Cidade em parceria com a construtora. E a Fundação de Educação Artística da Berenice Menegali também. Os espaços culturais coexistem maravilhosamente bem com os prédios acima deles.

Miguel Arcanjo Prado —Você vê possibilidade de isso acontecer em São Paulo?
Guilherme Marques — Sim. É preciso abrir o diálogo. Existe um movimento, Movimento dos Teatros Independentes de São Paulo, o MoTIn, que luta pela preservação dos teatros. A Erica Teodoro participa, representando o CIT-Ecum. Eles estão trabalhando muito.

 

guilherme marques miguel arcanjo foto bob sousa Entrevista de Quinta: “Prédio e cultura podem coexistir, diz Guilherme Marques do CIT Ecum

Marques fala ao R7: "A construtora não pode abrir o diálogo? É possível coexistir prédio e cultura" - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Quem são seus braços direitos no CIT-Ecum?
Guilherme Marques —
Gostaria de destacar o trabalho da equipe. O Rafael Esteinhauser, que é nosso diretor financeiro e tem sido um colaborador incansável. A Érica Teodoro, a nossa diretora de produção, e o Ruy Cortez, nosso diretor artístico pedagógico, são fundamentais. E o Fernando Mencarelli, que é nosso colaborador mais antigo, é nosso diretor artístico associado. A Ana Teixeira, do Rio, também é importante. Assim como a Maria Thais e o Antônio Araújo, na curadoria artística. O Antônio Araújo é mineiro também.

Miguel Arcanjo Prado — Se tiverem de fechar as portas aqui vocês vão para onde?
Guilherme Marques — É uma boa pergunta. Na verdade ainda não temos nada em vista. É difícil achar um espaço com este perfil de três salas. A programação foi pensada muito pelo perfil do espaço de ter uma programação onde pudesse ter até seis espetáculos acontecendo simultaneamente. Isso é raro. Não temos ainda um local certo em mente. Mas vamos buscá-lo se for preciso.

Miguel Arcanjo Prado — Quando fizeram o contrato vocês não pensaram que um dia ele iria acabar e vocês teriam de ir embora?
Guilherme Marques — Sim, pensamos. O Serginho, do Teatro Coletivo, tinha um contrato bem antigo. Aí começou uma conversa entre o advogado da família e levantou-se a possibilidade da venda do espaço. Mas também foi conversado, naquele momento, a possibilidade da renovação do contrato. Só que a coisa foi caminhando para outro rumo. Aí se consumou a intenção da venda do espaço.

Miguel Arcanjo Prado — Quantos vocês gastaram nas reformas?
Miguel Arcanjo Prado — Quase R$ 350 mil.

Miguel Arcanjo Prado — Vocês foram inocentes de gastar tanto dinheiro em reformar um lugar que não era de vocês e que o dono um dia pudesse pedir para vocês irem embora?
Guilherme Marques — Inocentes, não. Sabíamos do risco que estávamos correndo. Por acreditar, por sermos artistas, por queremos implementar na cidade um projeto como o CIT-Ecum, artístico e pedagógico... A nossa inocência, se houve, foi acreditar que reverteríamos a história. E isso não aconteceu.

Miguel Arcanjo Prado — Surgiu o movimento de tombamento do CIT-Ecum. Você acha que isso vai acontecer?
Guilherme Marques — Estamos muito felizes com esse movimento. Primeiro, porque começou de forma espontânea, pela Cooperativa Paulista de Teatro. Logo a revista Antro Positivo começou um movimento também. Vários artistas se propuseram a ajudar. Estamos conversando na esfera do município. Fomos ao Conselho Municipal do Patrimônio. Tem uma discussão muito interessante que é o pedido de tombamento do patrimônio imaterial, que surgiu no âmbito federal quando o Juca Ferreira, hoje secretário municipal de Cultura, foi ministro da Cultura. Estamos tendo um apoio da população, do movimento teatral, e a imprensa em geral tem nos apoiado muito, como você. A gente nunca sabe... Mas, acho que é possível reverter qualquer situação a partir da mobilização popular.

Miguel Arcanjo Prado —Existe a possibilidade de comprarem um lugar?
Guilherme Marques —
Não. Teríamos de ir para uma sala de produção. A ideia é conseguir um apoio governamental para ir para um teatro. Ou então, ir até para uma sala até reverter a situação.

Miguel Arcanjo Prado — São Paulo tem muitos espaços públicos sem utilização. Vocês gostariam de um convite do poder público para ocupar algum desses prédios ociosos?
Guilherme Marques —
Gostaríamos. Mas se tivermos autonomia para fazer o trabalho que fazemos aqui. Senão, ficamos engessados. As secretarias Municipal e Estadual de Cultura estão nos apoiando.

guilherme marques bob sousa1 Entrevista de Quinta: “Prédio e cultura podem coexistir, diz Guilherme Marques do CIT Ecum

Um futuro para o CIT-Ecum: Guilherme Marques espera ajuda do poder público - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Qual o objetivo do CIT-Ecum?
Guilherme Marques — Olha, Miguel, desde quando pensamos a programação com o Ruy Cortez, foi primordial esse diálogo com os coletivos teatrais. Isso foi muito importante para a casa. Isso é o Ecum desde o início. O Fórum foi pensado para isso.

Miguel Arcanjo Prado — Para quem não conhece a história de vocês, explique como chegaram aqui.

Guilherme Marques — O Fórum Mundial das Artes Cênicas surgiu em 1998, em Belo Horizonte. Levamos os grandes pensadores do teatro. Foram muitas caravanas e, desde então, ele desperta o interesse dos artistas. Em 2009, no Ano da França no Brasil, criamos um centro internacional de pesquisa em artes cênicas, que é o CIT-Ecum.

Miguel Arcanjo Prado — Vocês chegaram a São Paulo bem. O teatro fez muito barulho. E também criaram a MIT-SP, a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Ela também pode acabar?
Guilherme Marques —
A MIT-SP surgiu em Belo Horizonte, após uma conversa que tive com o Antônio Araújo, do Teatro da Vertigem. Trabalhei no Festival Internacional de Teatro de Caracas, na Venezuela, em 1992, e o diretor Carlos Jimenez me perguntou como andava o “Festival da Ruth Escobar”, falando que marcou a cena latino-americana. Eu fique com isso na cabeça. Em 2008, retomei essa conversa com o Tor [Antonio Araújo], falando que São Paulo precisava de voltar a ter um festival assim. Com a mudança para São Paulo, apresentei o projeto e conseguimos de cara o apoio do Marcelo Araújo [secretário Estadual de Cultura], do Juca Ferreira [secretário Municipal de Cultura] e do Banco Itaú.

Miguel Arcanjo Prado — Mas a MIT-SP continua?
Guilherme Marques — A MIT-SP vai continuar no ano que vem. E gratuita. Quer uma informação em primeira mão?

Miguel Arcanjo Prado — Quero. Jornalista adora furo.
Guilherme Marques — A segunda edição será de 6 a 15 de março de 2015 e terá uma novidade: a única atividade que vamos cobrar ingresso vai ser o Cabaré, um bar do festival, um lugar para o encontro de artistas e público depois da peça. Ele será na Praça das Artes, no centro, estamos negociando ainda com a Prefeitura.

Miguel Arcanjo Prado — Como foi para você vir para São Paulo?
Guilherme Marques — Eu me mudei para São Paulo em 2011, a convite do Ruy Cortez. Ele foi participar das ações da escola em Belo Horizonte, e ficou encantado. Estava numa fase que perdi patrocínio em BH, com época política de transição bem difícil. Aí ele deu a ideia de trazer o projeto para São Paulo.

Miguel Arcanjo Prado — Como a cidade lhe recebeu?
Guilherme Marques —
Sou um cara de muita sorte. São Paulo me recebeu bem. Aos 53 anos, posso te afirmar que estou na melhor fase da minha vida. Porque essa idade está me oferecendo oportunidades que eu nunca tive em Belo Horizonte. E olha que fizemos muita coisa em Belo Horizonte também! Saí de casa muito cedo, aos 15 anos, de Peçanha, no Vale do Rio Doce, Minas Gerais. Então, já morei em muitos lugares. Morei na Espanha, Venezuela, Cuba, Rio, e viajei muito [risos].

guilherme marques bob sousa6 Entrevista de Quinta: “Prédio e cultura podem coexistir, diz Guilherme Marques do CIT Ecum

Na janela lateral: esperança no CIT-Ecum - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — “Sou do mundo sou Minas Gerais...”
Guilherme Marques — É [risos]

Miguel Arcanjo Prado — Mas a namoradeira não sai da janela, e o café não sai da cozinha nem o filtro de barro...
Guilherme Marques —
O engraçado é que quando voltei para Belo Horizonte queria ir para o interior ou até voltar para Peçanha [risos]. Aí veio convite para vir São Paulo... Eu comprei um terreno ali perto do Inhotim, em Brumadinho [arredores de Belo Horizonte]. Eu estava com a ideia, ainda tenho, de construir a sede do CIT-Ecum neste terreno, com o pé na água, à beira da montanha, fazer uma cozinha grande, uma hospedaria para receber os artistas...

Miguel Arcanjo Prado — Uma Woodstock do teatro?
Guilherme Marques — Sim! Adorei isso de Woodstock do teatro [risos]. E o Bob vai ser nosso fotógrafo oficial.

guilherme marques bob sousa3 Entrevista de Quinta: “Prédio e cultura podem coexistir, diz Guilherme Marques do CIT Ecum

Guilherme Marques, do CIT-Ecum: "Sou do sertão, tenho capacidade de renovação" - Foto: Bob Sousa

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pedro granato foto bob sousa4 Entrevista de Quinta: “Divisão entre artes vai cair, quero misturar tudo”, diz diretor Pedro Granato

O diretor paulistano Pedro Granato: o teatro dele tem múltiplas caras - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de BOB SOUSA

Pedro Granato é um dos diretores mais inventivos da nova geração do teatro brasileiro. Eclético, atua em várias nuances do teatro, porque não gosta de se repetir e quer mudar sempre.

Ele é dono do Teatro Pequeno Ato, que anda reavivando a rua Teadoro Baima como reduto teatral paulistano. É lá que fica também o histórico Teatro de Arena, seu vizinho.

Ele mantém no cartaz até 11 de junho sua peça Quanto Custa?, na qual disseca as relações de poder tendo como base Bertold Brecht (1898-1956), com cuidadosa estética soturna.

Granato também dirigiu Il Viaggio, no qual mergulhou no universo dos sonhos do cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993).

Referências não faltam ao diretor, filho de artista plástico e formado em cinema pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Há mais de uma década, se enveredou pelo teatro, seja no tablado, na caixa preta ou na rua, sem deixar de flertar com o cinema e a música sempre que pode.

Num começo de uma tarde fria de outono, enquanto o centro paulistano fervilhava do lado de fora, Pedro Granato recebeu o Atores & Bastidores do R7 no Teatro Pequeno Ato para esta Entrevista de Quinta. Falou sobre sua vida e seu teatro.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado — Como foi sua infância?
Pedro Granato — Foi bem paulistana. Fui criado na esquina das avenidas Rebouças e Henrique Schaumann. Nasci rodeado de arte, com meu pai montando a exposição dele na Bienal...

Miguel Arcanjo Prado — Quem são seus pais?
Pedro Granato —Meu pai é o artista plástico Ivald Granato. E minha mãe, Lais Granato, é psicóloga e ceramista. Sou o caçula.

Miguel Arcanjo Prado — Do que você gostava de brincar quando era pequeno?
Pedro Granato — Brincava fazendo quadrinhos com meu irmão, o Diogo Granato, que hoje é bailarino. Também gostávamos de fazer instalações com cobertas, criávamos montanhas [risos].

Miguel Arcanjo Prado — E na adolescência: você era do tipo rebelde ou do tipo introspectivo?
Pedro Granato —Tive todas as fases. Fui nerd, depois fui rebelde, depois fui o que fazia piadas no fundo da sala, depois o fã de punk rock, o popular que organiza festas, o politizado do grêmio...

pedro granato foto bob sousa2 Entrevista de Quinta: “Divisão entre artes vai cair, quero misturar tudo”, diz diretor Pedro Granato

Filho de artistas, Pedro Granato viveu desde pequeno rodeado de arte - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Pelo jeito você era inquieto!
Pedro Granato — Sim. Minha casa era uma loucura! Minha música de infância era Bob Dylan e Lou Reed. Não tem como não ser um pouco maluco naquela casa [risos].

Miguel Arcanjo Prado — Essa coisa de ser filho de artistas lhe influenciou?
Pedro Granato — Sim. Eu logo fui fazer oficinas de tudo que você possa imaginar. Como meu irmão dançava, fiz dança, circo, teatro... Até que veio o vestibular e entrei no cinema na ECA [Escola de Comunicações e Artes] da USP [Universidade de São Paulo].

Miguel Arcanjo Prado — Você já queria dirigir?
Pedro Granato — Já. Era final dos anos 1990 e tinha aquela coisa de falarem que diretor de cinema não sabe dirigir ator. Então, fui fazer teatro no Grupo Tapa e no Folias. Foi assim que comecei no teatro.

Miguel Arcanjo Prado — E aí foi se enturmando com a turma dos palcos?
Pedro Granato — Sim. Fiquei amigo de um monte de gente da EAD [Escola de Arte Dramática da USP]. Acabamos montando o grupo Ivo 60, que durou 12 anos. Era eu, a Ana Flávia Chrispiniano, que hoje está morando no Rio, o Felipe Sant’Angelo, que virou roteirista, a Mariana Leite, que se mudou para Chicago, e o Pedro Felício, que ainda está no teatro e atua em Quanto Custa?. Mas, mesmo com o grupo, sempre deixei claro que gostaria de fazer as minhas coisas também, de forma paralela.

Miguel Arcanjo Prado — E o cinema?
Pedro Granato — Fui fazendo curtas. Fiz um, chamado X, que tinha o Rafael Cortez, que hoje ficou famoso e apresenta programa na Record. Ele fazia uma versão do Ben Silver, o protagonista de Roda Viva, peça do Chico Buarque. O meu curta de formatura foi Uma Tragédia Brutal, com Gustavo Machado e Tatiana Thomé; era uma coisa meio Beijo no Asfalto do século 21. Gravamos na esquina onde fica hoje o Teatro Pequeno Ato, na Ipiranga com Teodoro Baima. Engraçado, porque nem pensava que um dia teria um teatro aqui...

Miguel Arcanjo Prado — Você gosta do Nelson Rodrigues?
Pedro Granato — Adoro. Ele é meu livro de cabeceira sempre. Nelson é o cara do nosso teatro!

pedro granato foto bob sousa1 Entrevista de Quinta: “Divisão entre artes vai cair, quero misturar tudo”, diz diretor Pedro Granato

Pedro Granato é bem relacionado na turma do teatro: "Conheço quase todo mundo" - Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você tem muitos amigos no teatro?
Pedro Granato — Conheço quase todo mundo. Na época do Ivo 60 ganhamos cinco Fomentos [programa municipal de financiamento teatral de SP]. Então, nos aproximamos muito do movimento do teatro de grupo, do pessoal da Cia. São Jorge de Variedades, do Bartolomeu... Não me vejo como um cara do cinema. Acho que sou mais um cara do teatro.

Miguel Arcanjo Prado — Quem é o Berlam?
Pedro Granato — Ele foi um personagem que eu criei [risos]. Fazia muitos shows com ele, era meio cabaré, fiz shows em circos. Ele é muito divertido, afetado e as pessoas adoram. Mas aí decidi parar porque ele começou a ficar muito famoso e as pessoas me confundiam com ele [risos].

Miguel Arcanjo Prado — Onde ele foi parar?
Pedro Granato — Eu mandei o Berlam para umas férias na Bahia [risos]. Mas devo a ele uma aproximação grande com o mundo musical.

Miguel Arcanjo Prado — Você também dá aula?
Pedro Granato — Dou. Sou professor há três anos no Teatro Escola Célia Helena. Adoro ser professor, de incentivar as pessoas a fazerem teatro. Porque é muito foda. Eu vim de família de artistas, mas nem todo mundo tem essa sorte. Então, o que eu puder botar pilha nos outros eu boto. Dando aula, as relações ficam mais profundas. Dá para meter o dedo na ferida, bater de frente. Com jeito, é claro.

Miguel Arcanjo Prado — Qual a cara do seu teatro?
Pedro Granato — Nunca tive a pretensão de ter só um grupo, ou fazer só um tipo de teatro. Sempre quis ser diretor. E gosto que os atores estejam no centro da minha obra, se desdobrando em vários personagens. Que estejam fazendo mesmo a peça acontecer em cena, manipulando o cenário, a luz. Esteticamente, gosto muito de variar.

Miguel Arcanjo Prado — Por quê?
Pedro Granato — Porque gosto que cada trabalho tenha sua cara própria, sua concepção visual. Gosto que um trabalho seja esteticamente diferente do outro. Tenho essa coisa brechtiana do humor, de brincar com a linguagem. Também tenho muito cuidado com a direção de arte das minhas obras. Tenho essa herança familiar das artes plásticas. Geralmente, começo uma peça pela imagem que eu vejo dela.

Miguel Arcanjo Prado — Quem são suas referências?
Pedro Granato — Olha, a Cristiane Paoli-Quito foi muito importante para mim; estudei palhaço com ela. Também aprendi muito com a Tiche Vianna, o Ésio Magalhães e a Bete Dorgam. E depois tive o prazer de dirigir esses meus professores. E também a cineasta Laís Bodanzky, com quem trabalhei e é uma grande referência também. No cinema, eu piro em Almodóvar, Kubrick e Fellini. Este último me pegou muito quando dirigi Il Viaggio.

Miguel Arcanjo Prado — Quais são os novos projetos?
Pedro Granato — O Teatro Pequeno Ato segue a todo vapor. Resolvi continuar com o espaço depois que o Ivo 60 acabou. E ele tem dado certo, tenho mantido espetáculos em cartaz e alugado também para outros grupos ensaiarem. É uma fábrica de arte. O Ed Moraes, por exemplo, ensaia a nova peça dele aqui. Estou dirigindo um solo da Paula Cohen e um espetáculo de rua. Também estou gostando muito de escrever.

Miguel Arcanjo Prado — Aonde você quer chegar?
Pedro Granato — Prefiro al andar se hace el camino.... Agora, vou estudar em julho um mês no Lincoln Center, em Nova York. Vou fazer um laboratório de diretores, para pensar o teatro para as novas gerações. É preciso que o teatro se renove com essa gente que está chegando. Eu nunca fui do teatro clássico, de fazer tragédia grega para depois fazer Shakespeare. Sempre fui fazendo o meu teatro. E acho que essa divisão entre as artes vai cair. Quero misturar tudo, construir coisas novas, híbridas. Quero dar grandes pulos, não pulinhos. Quero dirigir teatro, show, rua, solos e, quem sabe, uma ópera... Adoro dirigir, construir histórias. As crises e inquietações da minha própria vida estão em todas as obras minhas. E eu gosto de público. Acho que saí do cinema e fui para o teatro porque tinha uma urgência de comunicação com o público. Gosto de fazer e ver as pessoas responderem ali, na minha cara e, quem sabe, mudar tudo no dia seguinte.

pedro granato foto bob sousa3 Entrevista de Quinta: “Divisão entre artes vai cair, quero misturar tudo”, diz diretor Pedro Granato

O diretor Pedro Granato: "Quero misturar tudo, construir coisas novas, híbridas" - Foto: Bob Sousa

Quanto Custa?
Avaliação: Muito bom
Quando: Terça e quarta, 21h30. 60 min. Até 11/6/2014
Onde: Teatro Pequeno Ato (r. Teodoro Baima, 78, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 99642-8350)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Muito Bom R7 Teatro PQ Entrevista de Quinta: “Divisão entre artes vai cair, quero misturar tudo”, diz diretor Pedro Granato

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barbara salome foto eduardo enomoto ENO 0094 Entrevista de Quinta: Bárbara Salomé é Neusa Sueli nos palcos e decreta: Hoje, velhice não tem idade

A atriz Bárbara Salomé conquista teatro paulista e vira Neusa Sueli: a emblemática prostituta de Plínio Marcos, na peça Por Acaso, Navalha, da Cia. Caxote - Foto: Eduardo Enomoto

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de EDUARDO ENOMOTO

Não é fácil para uma atriz encarar a prostituta decadente Neusa Sueli, personagem emblemático do dramaturgo paulista Plínio Marcos (1935-1999). Cheia de coragem e talento, a atriz Bárbara Salomé assume tal missão.

Ao lado de Humberto Caligari, como o travesti Veludo, e Murilo Inforsato, como o cafetão Vado, ela é a estrela da peça Por Acaso, Navalha. O papel de Neusa Sueli já foi vivido por grandes atrizes, como Vera Fischer.

Na versão intimista do diretor Fernando Aveiro, da Cia. Caxote, apenas 20 pessoas assistem cada sessão no Espaço Mínimo, na Pompeia, zona oeste paulistana [veja serviço ao fim].

Bárbara ganhou a personagem da produtora Camila Biodan, que preferiu ficar nos bastidores e deu Neusa Sueli de presente para a amiga.

Bem humorada, a atriz, que também é palhaça e está em cartaz com a peça infantil Mitos Indígenas com o grupo Os Satyros, conversou com exclusividade com o Atores & Bastidores do R7 nesta Entrevista de Quinta.

Contou desde o comecinho, na pequena Piedade de Ponte Nova, no interior mineiro, até o desafio de viver hoje uma das personagens mais importantes de nossa dramaturgia.

Leia com toda a calma do mundo.

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Bárbara Salomé é a estrela da peça Por Acaso, Navalha, em cartaz em São Paulo - Foto: Eduardo Enomoto

Miguel Arcanjo Prado — Você é de Minas também, né?
Bárbara Salomé — Sou de Piedade de Ponte Nova.

Miguel Arcanjo Prado — Quantos habitantes tem?
Bárbara Salomé — Uns 4.000, fica na Zona da Mata.

Miguel Arcanjo Prado —Você é filha de quem?
Bárbara Salomé —Meu pai era policial, Sebastião, e minha mãe, Dejaci, era professora. Eles estão aposentados hoje. Apesar da profissão, meu pai é muito sensível, gosta de desenhar...

Miguel Arcanjo Prado —Foi dele que você puxou a veia artística?
Bárbara Salomé — Foi. E da minha avó materna também. A dona Jacira. Ela gostava muito de teatro. Na minha família os homens são mais sensíveis e as mulheres, mais fortes.

barbara salome foto eduardo enomoto ENO 0118 Entrevista de Quinta: Bárbara Salomé é Neusa Sueli nos palcos e decreta: Hoje, velhice não tem idade

Mineirinha de Piedade de Ponte Nova, Bárbara Salomé conquista o Brasil - Foto: Eduardo Enomoto

Miguel Arcanjo Prado —A dona Jacira fazia teatro em Piedade de Ponte Nova?
Bárbara Salomé — Fazia. Quando ela ficou caduca, só se lembrava dos textos das peças. Porque em Minas as pessoas ficam caducas. Essa história de Alzheimer eu só fui ouvir aqui em São Paulo [risos].

Miguel Arcanjo Prado —Você tem irmãos?
Bárbara Salomé — Tenho, o Aurélio, que é mais novo. Na verdade, tive dois, porque uma irmã minha, a Thyanna, morreu quando éramos bem pequenas.

Miguel Arcanjo Prado — Como foi viver uma situação forte tão cedo?
Bárbara Salomé — Foi um baque. Minha mãe ficou muito mal, fiquei uns tempos com minha avó. Mas criança tem um jeito de lidar bem com qualquer situação. Era muito pequena, brincava na rua, não ficava pensando naquilo. Tinha muitas mães na vizinhança que cuidavam de mim. Porque interior tem disso: um cuida do outro.

Miguel Arcanjo Prado —Quando você começou no teatro?
Bárbara Salomé — Foi na escola e na igreja. Também fazia jazz. Adorava inventar apresentação nas festas da cidade. Colocava texto e tudo. Aí, quando fiz 15 anos, um grupo de Ouro Preto foi se apresentar lá. Fiquei encantada. Lembro que as atrizes usavam umas roupas modernas, com meias diferentes e óculos escuros. Vi e pensei: quero ser assim.

Miguel Arcanjo Prado — E quando você saiu de lá?
Bárbara Salomé — Foi aos 16 anos. Prestei para o curso de teatro da Universidade Federal de Ouro Preto e passei.

barbara salome foto eduardo enomoto ENO 0113 Entrevista de Quinta: Bárbara Salomé é Neusa Sueli nos palcos e decreta: Hoje, velhice não tem idade

Aos 16 anos, Bárbara Salomé saiu de casa em busca do sonho de atriz - Foto: Eduardo Enomoto

Miguel Arcanjo Prado —Como foi a mudança?
Bárbara Salomé — Foi uma loucura. Primeiro fui morar com um amigo. Depois, fui morar em uma porão que tinha um doido vizinho que batia na janela de noite. Eu morria de medo! Depois, fui para a república Escândalo. Fiz amigos que estão comigo até hoje.

Miguel Arcanjo Prado —E como você lidava com a loucura estudantil?
Bárbara Salomé —Era muito nova. Não bebia nem fumava. Fui fazendo minhas coisas, em meio às festas. Fiz meu primeiro monólogo lá: Brazil Quem USA sou EUA, escrito pelo Ricardo Silva. Era um texto muito politizado e muito debochado também. Tem muita coisa boa que acontece no teatro fora de São Paulo. Muitas vezes quem vive aqui não faz ideia.

Miguel Arcanjo Prado —E o que você fez quando o curso acabou?
Bárbara Salomé —Entrei para o Oficinão do Grupo Galpão, em Belo Horizonte. Aos 19 anos, estava me mudando outra vez. BH foi mais difícil que Ouro Preto.

Miguel Arcanjo Prado —Onde você foi morar?
Bárbara Salomé —Fui para uma pensão que só tinha velhas, na avenida Augusto de Lima, perto do Edifício Maleta.

Miguel Arcanjo Prado — E era bom?
Bárbara Salomé —Era o horror [risos]. Em BH lidei mais com essa coisa da profissionalização. Era tudo muito competitivo. Fiz A Vida É Sonho, do Julio Maciel, e também Decameron, com o Kalluh Araújo.

Miguel Arcanjo Prado —Eu vi essa peça! Todo mundo nu... Lembro que todo mundo comentava o espetáculo em BH na época [risos]
Bárbara Salomé —Pois é. Eu nunca tinha ficado pelada no palco. E o diretor amava o Zé Celso. Foi uma grande experiência. Eu fui fazendo, fui vivendo, seguindo o fluxo.

barbara salome foto eduardo enomoto ENO 0079 Entrevista de Quinta: Bárbara Salomé é Neusa Sueli nos palcos e decreta: Hoje, velhice não tem idade

Após estudar teatro em Ouro Preto, na UFOP, Bárbara foi atuar em Belo Horizonte - Foto: Eduardo Enomoto

Miguel Arcanjo Prado —E seus pais?
Bárbara Salomé —Sempre me deram apoio. Claro que tem sempre aquela pergunta: tem certeza que você quer isso mesmo? Por que você não faz teatro por hobby? [risos]

Miguel Arcanjo Prado —E como você veio parar em São Paulo?
Bárbara Salomé — Cheguei a São Paulo em 2007. Antes, fiz um espetáculo empresarial para a Vale e viajei o Brasil todo. Aprendi muito. Foi nessa época, passei a admirar o trabalho do Thiago Lopes, que hoje tem o grupo Território do Avesso, em Governador Valadares. Ele é um excelente palhaço, muito talentoso. Foi por causa dele que quis ser palhaça também.

Miguel Arcanjo Prado —E você veio para São Paulo ser palhaça e tentar a vida no teatro?
Bárbara Salomé — Sim. O primeiro ano foi horrível. Morava perto do aeroporto de Congonhas. Então, meu passeio era ir ao Extra e ao Habbibs. Depois, morei em repúblicas, passei muito perrengue.Tentei tudo que você pode imaginar. Fiz teste pro Antunes [Filho, diretor], e não passei. Fiquei acabada. Desisti do teatro e fiquei dois anos só fazendo palhaço com os Amigos do Nariz Vermelho. Minha palhaça se chamava Judith. Fiz muita coisa empresarial.

barbara salome foto eduardo enomoto ENO 0041 Entrevista de Quinta: Bárbara Salomé é Neusa Sueli nos palcos e decreta: Hoje, velhice não tem idade

Bárbara Salomé chegou a São Paulo em 2007: árduo caminho até o palco - Foto: Eduardo Enomoto

Miguel Arcanjo Prado —E quando o teatro voltou?
Bárbara Salomé —Em 2009, consegui juntar uma grana e ir morar sozinha na Santa Cecília, no centro. Minha vida mudou completamente. Amo aquele bairro até hoje! Prestei a SP Escola de Teatro e fiz parte da primeira turma de humor. Conheci um monte de gente! Um dia, o Rodolfo [García Vázquez, diretor do Satyros e professor da escola] me chamou para fazer uma substituição em Zucco. Foi aí que voltei pro palco. A personagem era bem pequenininha: uma prostituta. Fiz ela engraçada e me inspirei na Amy Winehouse! Depois, trabalhei também com a Luciana Ramin, do Andar7 Agrupamento. Fiz Fausto in Progress, no Tusp, e também com a ExCompanhia de Teatro, no projeto Eu - Negociando Sentidos, que foi muito bacana também.

Miguel Arcanjo Prado —E agora você volta a fazer outra prostituta, só que desta vez como protagonista: a Neusa Sueli, criada por Plínio Marcos. Como foi encarar esta personagem?
Bárbara Salomé — Recebi o convite dos meninos da Cia Caxote no fim de 2013. Na terceira leitura, me apaixonei pela personagem. Comecei a ver Neusas Suelis por toda a parte.

barbara salome foto eduardo enomoto ENO 0034 Entrevista de Quinta: Bárbara Salomé é Neusa Sueli nos palcos e decreta: Hoje, velhice não tem idade

Bárbara Salomé criou uma Neusa Sueli arquetípica: "tem muita mulher gasta por aí" - Foto: Eduardo Enomoto

Miguel Arcanjo Prado —Como é a sua Neusa Sueli?
Bárbara Salomé —Primeiro pensei: como vou fazer essa mulher de 50 anos? Depois pensei: tem menina de 25 que já é gasta, que não fez escolhas na vida. A vida foi levando e ela ficou gasta. A minha Neusa é arquetípica. Quis ampliá-la. Essa pergunta: "será que eu sou gente?" não é só para prostituta. Minha amiga tem uma irmã modelo que está em crise porque fez 23 anos e está se sentindo velha, entende? Hoje, a questão da velhice está descolada da idade.

Miguel Arcanjo Prado —Você fez laboratório?
Bárbara Salomé —Vi muito filme do Fellini, documentários, fui na Luz [centro de prostituição no centro paulistano]. Também usei a Joana D'arc; queria outras referências, dar uma mesclada.

barbara salome foto eduardo enomoto ENO 0021 Entrevista de Quinta: Bárbara Salomé é Neusa Sueli nos palcos e decreta: Hoje, velhice não tem idade

"Não tem divisão entre palco e plateia", diz Bárbara Salomé sobre a montagem Por Acaso, Navalha, uma adaptação de Navalha na Carne, texto clássico do teatro brasileiro, de Plínio Marcos - Foto: Eduardo Enomoto

Miguel Arcanjo Prado —Como está a temporada?
Bárbara Salomé —Está ótima. É bem intimista. Só para 20 pessoas. Não tem divisão entre palco e plateia. Então, muda todo dia. É ótimo fazer porque é um desafio enorme.

Miguel Arcanjo Prado —Você tem vontade de fazer cinema e TV?
Bárbara Salomé —Tenho muita vontade de fazer cinema e também televisão. Mas, tem de ter a oportunidade. Eu confio muito no meu trabalho. Essa coisa de ficar em casa esperando ser chamado não dá. Tem de trabalhar, tem de fazer. Tem de ter a troca antes para gerar frutos depois.

barbara salome foto eduardo enomoto ENO 0171 Entrevista de Quinta: Bárbara Salomé é Neusa Sueli nos palcos e decreta: Hoje, velhice não tem idade

Bárbara Salomé acaba de fazer 30 anos: ´"Saí do buraco da lacraia" - Foto: Eduardo Enomoto

Miguel Arcanjo Prado —Como foi fazer 30 anos?
Bárbara Salomé —Fazer 30 é maravilhoso. Essa coisa de ter 28, 29 é que é horrível. É o buraco da lacraia [risos]. Passei essa fase no limbo. Mas, aí fiz 30 e mudei completamente. Até mudei de nome. Antes era Bárbara Mello. Agora, virei Bárbara Salomé.

Miguel Arcanjo Prado —Por quê?
Bárbara Salomé — Minas é muito felliniana... Todo mundo tem apelido.... Mas, respondendo à sua pergunta, não sei. Mudei porque mudei. Porque precisava. Veio da intuição. Acho que foi um sopro. Falando desse jeito o povo vai pensar que eu virei a Baby do Brasil [risos].

barbara salome foto eduardo enomoto ENO 0090 Entrevista de Quinta: Bárbara Salomé é Neusa Sueli nos palcos e decreta: Hoje, velhice não tem idade

Bárbara Salomé, que antes era Bárbara Mello: "Mudei porque mudei. Veio da intuição. Acho que foi um sopro. Desse jeito o povo vai pensar que virei a Baby do Brasil" - Foto: Eduardo Enomoto

Por Acaso, Navalha
Quando: Sábado, 21h; domingo, 19h; segunda, 21. 55 min. Até 4/8/2014
Onde: Espaço Mínimo (r. Barão do Bananal, 854, Pompeia, São Paulo, tel. 0/xx/11 9-8919-2773)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

 

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eloisa vitz eduardo enomoto Entrevista de Quinta: “Teatro precisa de apoio, só bilheteria não o mantém”, diz Eloisa Vitz, do Gattu

Eloisa Vitz: em meio ao caos, diretora do Grupo Gattu escreveu peça - Foto: Eduardo Enomoto

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de EDUARDO ENOMOTO

Geralmente, momentos de caos costumam aguçar a criatividade artística. Foi assim com o aguerrido Grupo Gattu de Teatro, que acaba de abrir uma sala própria na zona norte de São Paulo: o Teatro do Sol, no bairro Santana, onde encena a comédia política Reino. O espaço é uma vitória após um grande pesadelo.

O nome é uma forma de espantar a tristeza que a companhia sentiu ao ter de fechar sua antiga sede, um belo casarão na rua dos Ingleses, na Bela Vista, região central de São Paulo, por não conseguir mais dar conta do alto aluguel.

Contudo, em vez de se afundar na depressão, o Gattu resolveu levantar a cabeça e seguir em frente com sua arte, mesmo sem apoio governamental.

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, a diretora da trupe, Eloisa Vitz, conta como foi o processo que culminou na criação do espetáculo Reino, que conta os ditames de uma rainha que não quer abandonar o poder. O público que interprete o recado como quiser.

Eloisa, que é formada pela Escola de Arte Dramática da USP (Universidade de São Paulo) e já integrou o Grupo Tapa, faz observações importantes nesta conversa, como a dificuldade de sobrevivência teatral sem o apoio governamental — o que é oferecido atualmente não dá conta de toda a produção teatral paulistana.

Leia com toda a calma do mundo.

eloisa vitz eduardo enomoto 4 Entrevista de Quinta: “Teatro precisa de apoio, só bilheteria não o mantém”, diz Eloisa Vitz, do Gattu

Eloisa Vitz: Grupo Gattu passou por um pesadelo de sobrevivência - Foto: Eduardo Enomoto

Miguel Arcanjo Prado – Vocês chegaram a abrir sede na Bela Vista, mas que teve de ser fechada depois. Foi o preço do aluguel que expulsou vocês do centro?
Eloisa Vitz – Foi. Abrimos a sede e não conseguimos arcar com o aluguel. Ficou muito pesado e sem apoio nenhum, foi difícil, falimos, mas conseguimos nos recuperar!

Miguel Arcanjo Prado – O que acha de outros teatros estarem sofrendo com a especulação imobiliária?
Eloisa Vitz – Não acho que seja a especulação imobiliária que está afetando outros teatros, ou pelo menos não só. Há outros fatores que afetam grupos de pesquisa teatral como o Grupo Gattu. Muitos grupos precisam do apoio do Fomento ao Teatro [programa de incentivo da Prefeitura de São Paulo] para manter suas sedes. A bilheteria não consegue mais manter o grupo. E aí ficamos em uma encruzilhada, porque poucos grupos são contemplados e muitos ficam de fora. O apoio governamental seria fundamental para dar continuidade à pesquisa teatral.

Miguel Arcanjo Prado – Por que o Gattu foi para a zona norte paulistana?
Eloisa Vitz – Primeiro, porque tenho uma relação afetiva com o bairro, sou de Santana, nasci lá e amo aquele bairro. Depois, achamos interessante descentralizar a opção de cultura e levar para a zona norte mais um polo teatral. E construímos o Teatro do Sol, que ficou lindo, e charmoso. E agora é mais um teatro para a cidade de São Paulo. Parece que temos esta missão de construir teatros [risos].

eloisa vitz eduardo enomoto 2 Entrevista de Quinta: “Teatro precisa de apoio, só bilheteria não o mantém”, diz Eloisa Vitz, do Gattu

Eloisa Vitz é formada pela Escola de Arte Dramática da USP e criou o Grupo Gattu - Foto: Eduardo Enomoto

Miguel Arcanjo Prado – Como é voltar à região onde você cresceu?
Eloisa Vitz – Você sabe que fomos tão bem recebidos, a região norte pareceu bastante receptiva com a nossa vinda. Fiquei lisonjeada pela acolhida. Este reencontro está sendo muito produtivo. Estamos criando laços com várias outras companhias que também estão na região.

Miguel Arcanjo Prado – Você acha que o teatro precisa descentralizar e criar o hábito de frequentá-lo em outras regiões da cidade?
Eloisa Vitz – A cidade de São Paulo é enorme e temos um problema de mobilidade. Acreditamos ser de fundamental importância criar polos de Cultura em todas as regiões, garantindo acessibilidade à cultura de qualidade. Ainda mais que esta peça está com ingressos gratuitos. É lindo e apaixonante poder oferecer este espetáculo assim, totalmente sem empecilhos para a população e seguirmos com a nossa outra missão a de formação de plateia.

Miguel Arcanjo Prado – Como o público tem reagido?
Eloisa Vitz – O público está reagindo de forma fantástica ao espetáculo. As gargalhadas são nosso maior trunfo!

Miguel Arcanjo Prado – Como surgiu a ideia da peça; como foi o processo?
Eloisa Vitz – O processo da peça foi muito interessante. Eu estava destruída, devolvendo a casa, meus atores faziam a mudança e eu não conseguia ajudar a desmontar o teatro lá na rua dos Ingleses. Então, sentei no sofá no meio do caos e comecei a escrever a peça. Foi minha salvação! Depois, estávamos exaustos, eles de carregar refletores, tapetes, cenários e eu de escrever. Parávamos e eu lia as cenas para eles. Estava nascendo O Reino no meio do caos. Estávamos pesquisando a comédia. Depois dos quatro Nelson Rodrigues, queríamos estudar a comédia. Aí, eles me desafiaram a escrever. A princípio não tive coragem de assinar o texto e arranjei o pseudônimo Tito Sianini. Como Tito, fiz Frizante e Rapunzel. Com a peça Reino, tomei coragem e assino [risos].

reino grupo gattu Amanda Semerjion Entrevista de Quinta: “Teatro precisa de apoio, só bilheteria não o mantém”, diz Eloisa Vitz, do Gattu

Eloisa Vitz, com a coroa, posa com o elenco de O Reino, nova peça do Gattu - Foto: Amanda Semerjion

Miguel Arcanjo Prado – Já estava na hora! Como é o enredo?
Eloisa Vitz – O Reino é uma comédia política que tem como mote a trajetória de uma rainha que faz de tudo para manter-se no poder. O humor é nossa maior arma. Não temos como mudar nada. Mas denunciamos. Apontamos.

Miguel Arcanjo Prado – Como foi a seleção do elenco?
Eloisa Vitz – Somos um Grupo com repertório e atores que já trabalham comigo há muitos anos. Então, só escolho dentro do meu elenco, aquele que se encaixa melhor para o personagem.

Miguel Arcanjo Prado – Como o Gattu sobrevive há 14 anos?
Eloisa Vitz – Com paixão. Vivemos com paixão pelo teatro. Isso inclui muito trabalho, de seis a oito horas de ensaio por dia. E o desafio de captar recurso através de Leis de Incentivo Fiscal.

Miguel Arcanjo Prado – Você acha que a Copa prejudicou o teatro?
Eloisa Vitz – Não. Eu acho a Copa maravilhosa para o Brasil. A questão com a Copa não é o evento em si, mas sim como os políticos aplicaram a verba pública. O que irrita é a corrupção. O desvio de verbas e o superfaturamento das obras. Poderia ser um evento maravilhoso, trazendo divisas, turismo e prosperidade para o País.

Miguel Arcanjo Prado – O Gattu faz também teatro infantil. Qual a importância disso na formação de público?
Eloisa Vitz – Antes não fazíamos, mas confesso que depois da Rapunzel, eu me apaixonei pelo teatro infantil. Amo estar na plateia e ouvir as gargalhadas das crianças! Acho que queremos mais e penso que fazer um teatro infantil de qualidade forma um público fiel ao teatro.

Miguel Arcanjo Prado – Quais são os projetos para 2014 do grupo? E para 2015?
Eloisa Vitz – Primeiro é ficarmos ricos [risos]. Depois, temos o projeto de uma longa temporada com o Reino e outra peça adulta para o segundo semestre, que já estamos ensaiando. Para 2015, um infantil sobre uma lenda brasileira e outra peça adulta!

Miguel Arcanjo Prado – Qual é a cara do teatro que o Gattu faz?
Eloisa Vitz – A excelência artística é a cara do Grupo Gattu. É nosso norte. Depois, temos o humor que nos acompanha sempre e certo ar despretensioso [risos].

eloisa vitz eduardo enomoto 3 Entrevista de Quinta: “Teatro precisa de apoio, só bilheteria não o mantém”, diz Eloisa Vitz, do Gattu

Eloisa Vitz: "O Grupo Gattu tem humor e certo ar despretensioso" - Foto: Eduardo Enomoto

Reino, com Grupo Gattu
Quando: Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 20h. 75 min. Em cartaz por tempo indeterminado
Onde: Teatro do Sol (rua Damiana da Cunha, 413, Santana, São Paulo, tel. 0/xx/11 3091-2023)
Quanto: Grátis
Classificação etária: 14 anos

Conheça a trajetória de Eloisa Vitz

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