Posts com a tag "entrevista de quinta"

lydia1 930x523 Entrevista de Quinta – Não queremos virar museu tão cedo, diz atriz e diretora do Grupo Galpão

Lydia Del Picchia: atriz e diretora do Galpão por acaso do destino - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Com 30 anos de história e o respeito da classe teatral de todo o País, o Grupo Galpão quer saber de cantar.

No musical De Tempo Somos, em cartaz até 12 de julho no Sesc Santana, em São Paulo, os atores de Belo Horizonte entoam músicas que marcaram a trajetória da trupe mais popular de Minas Gerais.

Nesta Entrevista de Quinta, o Atores & Bastidores do R7 conversa com Lydia Del Picchia, diretora do espetáculo na companhia de Simone Ordones e atriz do grupo há duas décadas.

Ela lembra sua formação artística, que começou em São Paulo, ainda menina, da relação com a dança em Belo Horizonte, e de sua entrada repentina para o Galpão, que a abocanhou sem opção de volta.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem uma formação meio mineira, meio paulista? Como assim?
LYDIA DEL PICCHIA —
Meus pais são músicos, meu pai é violinista e maestro e minha mãe é pianista e educadora. Eles viveram em SP a maior parte da minha infância, onde considero que iniciei meus estudos nas artes, pois tenho muito vivas as lembranças das aulas de musicalização e rítmica na Fundação das Artes de São Caetano do Sul – e de fato elas foram a base de todo meu aprendizado mais tarde. Mas foi quando me mudei para Belo Horizonte, aos 12 anos,  é que pude me dedicar integralmente à dança, no Transf.orma – Centro de Dança Contemporânea. Lá fui aluna, professora, bailarina, assistente artística e coreógrafa, enfim, uma formação bastante diversificada. E tive a oportunidade de trabalhar com vários artistas da dança, da música e diretores de teatro também.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Ser filha de artistas facilitou ou piorou as coisas?
LYDIA DEL PICCHIA —
Bem, no meu caso facilitou, sempre tive o apoio e incentivo dos meus pais e da família para minhas escolhas profissionais.

De Tempo Somos 1611 20141127 0642 Guto Muniz1 Entrevista de Quinta – Não queremos virar museu tão cedo, diz atriz e diretora do Grupo Galpão

Lydia (ao centro), em cena do musical De Tempo Somos, do Grupo Galpão - Foto: Guto Muniz

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você estudou música e dança até chegar ao teatro. Qual a importância destas primeiras formações?
LYDIA DEL PICCHIA —
A música foi mais na infância mesmo, e logo depois me interessei pela dança. Estudei no Trans-Forma por dez anos, durante os quais comecei também a dar aulas na escola e participar do grupo. A Nena [Marilene Martins], diretora da escola e do grupo, sempre foi uma artista antenada e à frente do seu tempo. Ela é a grande responsável, não só pela minha formação como artista, mas também de muita gente bacana em BH – Dudude Herrmann, Arnaldo Alvarenga, Lucia Ferreira, Rodrigo, Miriam e Pedro Pederneiras, Paola Rettore, Tarcísio Homem. Ela sempre foi muito criteriosa e cuidadosa em como passava os conteúdos para os professores da escola, em como iríamos conduzir as aulas e o programa. Além disso, pelo Trans-Forma passaram importantes nomes não só da dança, mas de música e teatro como Klauss e Angel Vianna, Ivaldo Bertazzo, Eid Ribeiro, Graciela Figueiroa, Paulo Cesar Bicalho, Rufo Herrera, José Adolfo Moura, Fred Romero, Sônia Mota, Rolf Gelewski, Bettina Bellomo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como eram as aulas?
LYDIA DEL PICCHIA —
Tínhamos aulas de improvisação, composição, didática, rítmica, apreciação musical, enfim, um mundo além das técnicas de dança, e isso abriu o olhar de quem passou por ali. Eu sou atriz integrante do Grupo Galpão desde 1995 e coordenadora pedagógica do Galpão Cine Horto desde 2004, e tenho certeza de que foi essa minha formação que me permitiu o trânsito para o teatro de uma maneira tranquila, é essa experiência que me orienta ainda hoje.

MIGUEL ARACANJO PRADO — Mas quando você entrou no Galpão?
LYDIA DEL PICCHIA —
Entrei no Galpão num momento em que estava querendo dar um tempo do trabalho com a dança, estava me desligando do Grupo 1º Ato, onde estive por três anos, e sem projetos concretos. Aí, na mesma semana, o Eduardo me ligou dizendo que estavam precisando de alguém para substituir a Simone em “A Rua da Amargura”. Ela estava grávida e teria que parar de atuar por uns seis meses. Acho que fui indicada pela Babaya, que fazia a preparação vocal do Galpão e estava também trabalhando com o 1º Ato naquele momento. Eu já havia trabalhado com o Grupo num espetáculo dirigido pela Carmen Paternostro, Triunfo – Um Delírio Barroco, com a Cia. De Dança do Palácio das Artes, onde eu fui assistente durante 10 anos. A gente já se conhecia, tínhamos afinidades. Foi uma delícia fazer aquela substituição, já tinha assistido ao espetáculo na estreia e brinquei com eles dizendo que quando precisassem de alguém poderiam me chamar... Durante a temporada do espetáculo em São Paulo, o grupo decidiu encarar a remontagem do Romeu e Julieta, eu fui convidada a participar também, e acabou que os seis meses viraram 20 anos...

De Tempo Somos 1611 20141127 0813 Guto Muniz1 1024x590 Entrevista de Quinta – Não queremos virar museu tão cedo, diz atriz e diretora do Grupo Galpão

Galpão resolveu recuperar canções que marcaram as três décadas do grupo - Foto: Guto Muniz

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que o teatro tem de especial em relação à dança e à música para você?
LYDIA DEL PICCHIA —
Minha formação foi na dança teatro, éramos todos apaixonados por Pina Baush... No Galpão, sempre trabalhamos com a criação dos atores sobre os personagens, ou temas, antes de definir a linguagem/estética que vamos perseguir. Não que a gente trabalhe com técnicas de dança, mas sempre tivemos práticas corporais na criação e manutenção dos espetáculos. Meus companheiros de grupo já sabem que a minha primeira abordagem, seja de um texto, ou de um personagem, vem sempre a partir do corpo, da musicalidade, do trabalho no espaço, essa é uma característica minha, minha maneira de entender o que eu faço. A partir daí consigo me relacionar com os outros atores e propor alguma coisa para o coletivo. Nesse espetáculo que estamos fazendo, De Tempo Somos, que dirigi junto com a Simone, a encenação é toda baseada em jogos de espaço, de dança, me senti muito à vontade para propor coisas ao grupo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você gosta de morar em Belo Horizonte, por quê?
LYDIA DEL PICCHIA —
BH é um ótimo lugar para se morar e trabalhar, e a oferta relacionada à cultura – exposições, shows, espetáculo, teatros e eventos – cresceu muito nos últimos dez anos! Gosto de dizer que BH é uma grande cidade do interior, pois ainda é possível manter relações próximas, cuidar da família, visitar os amigos e aproveitar o que a cidade oferece. E acho que é uma cidade que acolhe especialmente os coletivos de trabalho.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual o lugar de BH que você mais gosta?
LYDIA DEL PICCHIA —  Pode parecer que estou puxando a sardinha pro meu lado, mas eu adoro o Galpão Cine Horto, nosso centro cultural em BH. É um lugar de pessoas apaixonadas e comprometidas! Considero ali um lugar de formação importante pra mim, foi onde parei um pouco para estudar teatro, além de que fiz muitos amigos ali, desenvolvi projetos, me perdi e me achei... Outro lugar que adoro em BH é a Avenida do Contorno na primavera - quem conhece sabe do que estou falando - um caminho enorme de ipês amarelos e rosas, lindo demais! Me lembra um tempo que não conheci da Cidade Jardim...

MIGUEL ARCANJO PRADO — E como é estar em São Paulo? Qual sua relação com a cidade?
LYDIA DEL PICCHIA — Adoro São Paulo, sem demagogia! Tenho vários parentes e amigos aqui, e o público de São Paulo no assiste desde sempre, já apresentamos todos os nossos espetáculos aqui, é uma cidade que conhece e acompanha nossa história. Fazer essa temporada do De Tempo Somos em SP está tendo um gostinho especial!

De Tempo foto de Guto Muniz2 Entrevista de Quinta – Não queremos virar museu tão cedo, diz atriz e diretora do Grupo Galpão

De Tempo Somos está em cartaz no Sesc Santana, em São Paulo - Foto: Guto Muniz

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você é artista?
LYDIA DEL PICCHIA —
Vixe... Por que macaco gosta de banana? Sempre vivi no meio de artistas, sempre senti na pele a dor e a delícia... A arte me salvou da minha timidez, da minha introspecção, sempre me mostrando novas maneiras de ver o mundo, de enxergar o outro. Não sei, essa pergunta está muito difícil...

MIGUEL ARCANJO PRADO — Então, voltemos a falar de Galpão. Como o grupo lida com o grandioso que ele se tornou? Como fazer para não deixar o nome consagrado diminuir a vontade de inovar?
LYDIA DEL PICCHIA — Nós não pensamos o tempo todo nesse “grandioso”, não dá para construir alguma coisa a partir disso. Sabemos que somos uma referência importante, mas não queremos virar museu tão cedo... Acho que essa referência nos estimula mais em saber que estamos mostrando que é possível fazer e viver de teatro, é possível manter um coletivo de trabalho, podemos nos reinventar, enfim, a característica do grupo de ser um coletivo de atores – e somos 12 – sem um diretor fixo nos permite um movimento constante, as propostas surgem cada hora de uma pessoa, de um lugar diferente. A gente procura sempre olhar para as nossas falhas, para as lacunas, o que gostaríamos de conhecer e desenvolver a cada momento, e são essas dúvidas que nos conduzem para um novo projeto, é a partir daí que vamos descobrir o tema a ser pesquisado, se queremos ir para rua ou para dentro de um teatro, quem vamos convidar para dirigir. 

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que o Galpão é tão querido pelo público?
LYDIA DEL PICCHIA — Acho que tem muito a ver com os espetáculos de rua, com a linguagem popular do grupo, com a preocupação que temos de ser um grupo de pesquisa, mas também em como os espetáculos chegam ao público, com a comunicabilidade deles. O Galpão é um dos grupos que mais viaja pelo Brasil, estamos sempre em turnês não só pelas capitais e Festivais, mas também pelos interiores, e com a longevidade do grupo, temos conquistado um público que nos acompanha, assiste a vários espetáculos, muitas vezes quando nos apresentamos em uma cidade somos procurados por grupos que vem de longe nos assistir porque já nos viram em sua cidade... No De Tempo Somos fazemos uma homenagem ao nosso público dedicando algumas canções para personagens que passaram pela nossa história e que nos marcaram também. Para gente é importante o contato com o público também para além dos espetáculos. Sempre estivemos envolvidos em coordenações de festivais, oficinas, bate-papos, a criação do Galpão Cine Horto em BH é o maior exemplo disso, lá podemos compartilhar nossas ideias e projetos de criação e formação com a cidade.

De Tempo foto de Guto Muniz41 Entrevista de Quinta – Não queremos virar museu tão cedo, diz atriz e diretora do Grupo Galpão

Galpão é um dos grupos que mais viajam o Brasil com suas peças - Foto: Guto Muniz

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você também trabalha nos bastidores do Galpão? Como é este trabalho executivo no teatro?
LYDIA DEL PICCHIA —
Todos nós do elenco trabalhamos em alguma coisa além da atuação, seja na produção, comunicação, administração, organização do nosso espaço, no Cine Horto... Eu trabalho junto à nossa equipe técnica na logística, juntamente com a produção, e montagens dos espetáculos, camarins, organização da carga dos espetáculos em repertório e do nosso depósito de material, manutenção de cenários e figurinos, tem trabalho ali que não acaba mais e que quem vê o espetáculo pronto nem imagina! Quando estamos em turnês, geralmente o trabalho começa às 8h com a descarga do material no espaço e montagem do cenário, som e luz. A chegada do elenco se dá por volta de três a quatro horas antes dos espetáculos, dependendo se precisaremos fazer teste de microfones ou não. Fazemos um aquecimento corporal, vocal, passagem de som, maquiagem e entramos para o espetáculo. Na maioria das vezes, após o espetáculo desmontamos tudo, carregamos o caminhão e partimos para a próxima cidade, onde começa tudo de novo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que vocês quiseram fazer um musical justo agora?
LYDIA DEL PICCHIA — Na verdade esse é um desejo antigo do grupo. Já em 2000, quando montamos Um Trem Chamado Desejo, a ideia inicial era a gente fazer um pocket show com sambinhas dos anos 40/50 para ser apresentado em espaços menores. Aí a gente quis roteirizar as músicas, surgiram personagens interessantíssimos, convidamos o [Luis Alberto] Abreu para nos ajudar com o roteiro, o Tim Rescala com as músicas... E a coisa evolui para um espetáculo que adoro, mas ficou longe da ideia de pocket. Aí a ideia do musical foi adiada, até agora. No nosso último espetáculo, Os Gigantes da Montanha, temos dois atores/músicos convidados no elenco e apareceu a oportunidade de realizar esse desejo. O Luiz Rocha, um dos convidados, acabou fazendo a direção musical e os novos arranjos das músicas que selecionamos dentro de um repertório desses, pelo menos, 25 anos em que o grupo executa suas trilhas de espetáculos ao vivo. O trabalho com a música sempre foi muito caro ao Galpão.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por quê?
LYDIA DEL PICCHIA — Não só pela comunicação direta que ela tem com a plateia, mas com o que o esforço que tocar e cantar em grupo nos exige, a possibilidade do exercício do coletivo, o desafio de aprender as músicas, cantar a três ou quatro vozes, a atenção e presença que isso nos demanda, tudo isso é agregador ao trabalho do ator que vive em grupo. Não é só pelo resultado, mas pelos benefícios que o processo nos possibilita. De Tempo Somos é um espetáculo muito feliz nesse sentido, nos permitindo rever grande parte da nossa história sem ficarmos presos ao que já fomos. A ideia sempre foi atualizar, apesar de não gostar muito dessa palavra, nosso repertório, e a entrada do Luiz nesse contexto foi fundamental, por não estar apegado aos trabalhos e conseguir dar cara nova a várias músicas. Como diz um das músicas no espetáculo: “Por más que mires el rio que fluye delante de ti, nuca verás las mismas águas”...

De Tempo Somos
Quando: Sexta e sábado, 21h, domingo, 18h. 70 min. Até 12/7/2015
Onde: Sesc Santana (av. Luiz Dumont Villares, 579, Santana, metrô Jardim São Paulo, tel. 0/xx/11 2971-8700
Quanto: R$ 30
Classificação etária: 12 anos

Curta a nossa página no Facebook

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos palcos e nos bastidores

Descubra a cultura de uma maneira leve e inteligente

Conheça tudo sobre o R7 Play!

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

PADU4006 Entrevista de Quinta – Débora Falabella descobre o que Yara de Novaes pensa de Contrações; e vice versa

Yara de Novaes e Débora Falabella fazem as perguntas que sempre quiseram saber da colega de elenco na peça Contrações, em cartaz no Teatro Porto Seguro - Foto: Paduardo/AgNews

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

As atrizes mineiras Débora Falabella e Yara de Novaes estão de volta a São Paulo, cidade onde vivem e que lhes deu o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) de melhor atriz. O retorno ocorre após rodarem o país com a peça Contrações.

A montagem do Grupo 3 de Teatro dirigida pela mineira Grace Passô para o texto do britânico Mikle Bartlett mostra uma opressiva relação de poder entre uma chefe e uma funcionária. Algo, infelizmente, tão comum nos meios corporativos nos dias atuais.

A obra está em cartaz no Teatro Porto Seguro, às quartas, 21h, até o fim do mês de julho [veja serviço completo ao fim].

Débora dá vida a Emma, uma funcionária que se submete aos desmandos e manipulações da Gerente, papel de Yara de Novaes, e acaba por causar prejuízos irreparáveis à sua vida privada.

A peça é uma das melhores dos últimos tempos em palcos nacionais, apresentando um excelente embate entre duas atrizes potentes.

Nesta Entrevista de Quinta, o Atores & Bastidores do R7 resolveu inovar. Aproveitando a proximidade entre Débora e Yara, que são amigas desde os tempos em que moravam em Belo Horizonte, terra natal de ambas e do autor deste blog, são elas mesmas quem conduzem a conversa e fazem as perguntas que uma sempre quis fazer para a outra.

Leia com toda a calma do mundo.

PADU4024 Entrevista de Quinta – Débora Falabella descobre o que Yara de Novaes pensa de Contrações; e vice versa

Débora Falabella pergunta a Yara de Novaes o que sempre quis saber - Foto: Paduardo/AgNews

DÉBORA FALABELLA — Em contrações, você vive uma personagem que representa algo que abominamos. Você se afeta emocionalmente com o que faz em cena? Como você compreende a sua personagem?
YARA DE NOVAES —
Não me afeto emocionalmente, não! Eu a represento, apenas. Não me misturo com ela. Personagens como a Gerente precisam ser representadas para que nós e o público reflitamos sobre o seu papel social. Não há nela nenhuma psicologia ou interioridade, uma história pessoal, questionamentos existenciais, etc. Ela é a representação de um sistema manipulador e opressivo. Fico muito feliz em expor publicamente personagens desse tipo.

DÉBORA FALABELLA — Durante a temporada tivemos as mais diversas manifestações do público em relação a peça. O público era sempre muito presente.  Risadas em momentos não esperados, comentários sobre as personagens durante as cenas. Como você enxerga essas manifestações?
YARA DE NOVAES — Acho que Contrações recupera uma espécie de teatro onde a identificação e a reflexão caminham juntas e em tensão. O que ocorre na hora do espetáculo é um posicionamento do público em defesa da personagem oprimida. E isso só será de todo bom quando, finalmente, em casa, esse espectador tiver a consciência de que essa personagem com que ele se identificou, no caso a Ema, é uma mantenedora dessa relação de opressão. Apesar de parecer num primeiro momento, a peça não é maniqueísta e o que ela talvez pretenda é essas risadas, comentários, ruídos se transformem em um posicionamento crítico e insurgente em relação à nossa sociedade.

DÉBORA FALABELLA — Se você se colocasse no lugar do público, e pudesse assistir Contrações sem conhecer o espetáculo, o que acha que sentiria?
YARA DE NOVAES — Acho que eu adoraria! [risos] Tudo, texto, direção, atuação! Acho que eu iria pensar muito depois de assistir ao espetáculo, que eu iria revisar a minha vida, relacionar a obra com tudo. Acho que eu iria dizer: como é necessário falar disso hoje! E, por fim, sairia do teatro sua fã!

PADU4039 Entrevista de Quinta – Débora Falabella descobre o que Yara de Novaes pensa de Contrações; e vice versa

Yara de Novaes pergunta o que sempre quis saber de Débora Falabella - Foto: Paduardo/AgNews

YARA DE NOVAES — Lygia Fagundes Telles diz que um autor deve ser testemunha de seu tempo. Você acha que esse papel deve ser assumido também por um ator? Você faz isso em Contrações?
DÉBORA FALABELLA —
Acredito que sim. Assim como os autores, também nos tornamos criadores quando estamos em cena e quando fazemos escolhas nas nossas interpretações. No caso de Contrações, interpretamos um texto contemporâneo que fala do que acontece hoje. Fizemos essa escolha no grupo, pois queríamos falar sobre isso. Sobre o momento no qual vivemos. Sobre o nosso tempo. Por isso temos um grupo, por isso produzimos nossos trabalhos. Assim temos mais poder para escolher sobre o que queremos falar.

YARA DE NOVAES — Sobre a sua personagem, Emma, você acha que ela poderia ou deveria dizer não e se libertar da opressão que vive? De que modo?
DÉBORA FALABELLA — Claro que como a intérprete de Emma, tenho minha posição. E acredito que todos podem e são capazes de dizer não para esse sistema opressor. Apesar de saber que na prática, é mais difícil. Mas não posso julgar a personagem. Estaria também julgando a obra. E ela acontece dessa maneira, justamente para as pessoas saírem do teatro pensando sobre isso.

YARA DE NOVAES — O que mais lhe comove quando está em cena com Contrações?
DÉBORA FALABELLA — São muitas coisas. Temos um texto muito poderoso em mãos. E com isso temos a possibilidade de dizer algo para quem vem nos assistir. As pessoas se divertem, se entretém, mas acima de tudo saem com perguntas, e isso é muito precioso. Outra coisa que me emociona muito é estar em cena com uma grande parceira de vida. A liberdade que temos uma com a outra nos proporciona experiências novas a cada dia. E faz com que esse trabalho seja cada vez mais prazeroso.

contracoes fotodevitorzorzal2 1024x682 Entrevista de Quinta – Débora Falabella descobre o que Yara de Novaes pensa de Contrações; e vice versa

Débora Falabella e Yara de Novaes em cena de Contrações: forte crítica ao mundo corporativo que tira a vida pessoal de seus funcionários - Foto: Vitor Zorzal

Contrações
Avaliação: Ótimo (leia a crítica)
Quando: Quarta, 21h. 70 min. Até 29/7/2015
Onde: Teatro Porto Seguro (al. Barão de Piracicaba, 740, Campos Elíseos, São Paulo, tel. 0/xx/11 3226-7310)
Quanto: R$ 60 e R$ 80
Classificação etária: 14 anos
Avaliacao Otimo R7 Teatro PQ Entrevista de Quinta – Débora Falabella descobre o que Yara de Novaes pensa de Contrações; e vice versa

Curta a nossa página no Facebook

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos palcos e nos bastidores

Descubra a cultura de uma maneira leve e inteligente

Conheça tudo sobre o R7 Play!

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

ENO 0448 1024x681 Entrevista de Quinta   Atores do Oficina, Mariano Mattos Martins e Tony Reis comemoram vitória na Justiça contra acusação de padre

Liberdade de expressão artística: atores do Oficina, Mariano Mattos Martins e Tony Reis posam na redação do R7 após serem absolvidos pela Justiça de acusação de padre por conta de uma cena de peça de teatro - Foto: Eduardo Enomoto

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos EDUARDO ENOMOTO

Tony Reis e Mariano Mattos Martins estão aliviados. Os dois atores foram absolvidos na última segunda (8) pela Justiça Criminal de São Paulo no processo movido pelo padre goiano Luiz Carlos Lodi da Cruz. Este acusava os artistas do Teat(r)o Oficina e também o diretor José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, de ferir seu sentimento religioso em uma cena da peça Acordes.

A encenação aconteceu na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 2012 a convite da comunidade acadêmica, que estava em greve contra a posse da reitora Anna Cintra, que havia ficado em terceiro lugar na votação. O padre não estava presente nem viu a peça inteira, mas assistiu à cena pela internet, em vídeo subido no YouTube, e resolveu acionar a Justiça contra o grupo.

O juiz José Zoega Coelho, do Juizado Especial Criminal do Fórum da Barra Funda, emitiu sentença favorável aos artistas, que foram absolvidos, e Zé Celso, que tem 78 anos, teve a acusação prescrita por conta de sua idade avançada. Caso esta decisão não houvesse sido proferida, os artistas poderiam pegar até um ano de cadeia.

Os atores do Oficina, considerado o principal grupo teatral do Brasil e um dos mais respeitados em todo o mundo, foram defendidos pelos advogados Fernando Castelo Branco e Fernanda de Almeida Carneiro. A sentença ainda cabe recurso, mas, segundo os advogados do Oficina, o Ministério Público não costuma insistir em casos como este. Zé Celso não pode comparecer à audiência, pois está fortemente gripado.

Mariano, paulista de Osasco, e Tony, baiano de Salvador, aceitaram o convite do Atores & Bastidores e compareceram à redação do Portal R7 para esta exclusiva Entrevista de Quinta.

Falaram do medo que sentiram ao poderem pegar um ano de cadeia por fazer teatro e ainda a situação de marginalidade que a profissão de ator de teatro vive no Brasil.

Leia com toda a calma do mundo.

ENO 0505 1024x681 Entrevista de Quinta   Atores do Oficina, Mariano Mattos Martins e Tony Reis comemoram vitória na Justiça contra acusação de padre

Se não fossem absolvidos, como aconteceu, a acusação do padre poderia render até um ano de cadeia para os atores do Teat(r)o Oficina - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como vocês souberam que estavam sendo processados por fazer uma cena de uma peça de teatro e como vocês reagiram?
MARIANO MATTOS MARTINS — A gente soube pelo próprio Teat(r)o Oficina. Aí já veio intimação em nossa casa. Foi um susto. Precisamos acionar os advogados e correr atrás.
TONY REIS — Também foi o Oficina que me avisou. Chegou em casa um oficial de Justiça e me mandou assinar uma intimação. Não pensei que nossa performance poderia chegar a esse nível jurídico.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E qual a reação de ser processado criminalmente por uma atividade artística em tempos de suposta democracia?
MARIANO MATTOS MARTINS — No começo, ainda não estávamos enquadrados como crime. Era uma denúncia. Primeiro ficamos boladíssimos, porque não tínhamos conhecimento jurídico para saber o que ia acontecer. Falei para o Tony, "caramba, fizemos dois palhaços na peça, que maluco acontecer isso, os caras estão fazendo isso mesmo?". Estão! A gente teve de ir depor em uma delegacia de Perdizes [bairro da zona este paulistana onde fica a PUC, onde a peça foi encenada].
TONY REIS — Eu fui em um dia, e ele em outro.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Eu me lembro, eu cobri.
MARIANO MATTOS MARTINS — A gente pensou que iria acabar ali. Mas quando foram tendo audiências e virou um processo criminal, percebemos que aquilo estava ficando sério e precisava de uma resposta séria também. Começamos a conversar muito no Oficina para nos alimentarmos de argumentos para combater aquilo, que era uma coisa muito reacionária com a arte.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como suas famílias reagiram quando souberam que vocês estavam sendo processados?
TONY REIS — Eu venho de uma família muito simples de Salvador. Eles vivem na Bahia. Foi muito complicado. Minha irmã me ligou, muito nervosa, me perguntando se eu iria ser preso. Eu falei para ela ter calma, que não era isso que ela estava pensando. Eu expliquei que um padre de Goiás não havia gostado de uma apresentação que fizemos na PUC, que ele viu pela internet, e resolveu nos processar. Fui tentando acalmá-la, e tentando convencê-la de que não iríamos pegar essa detenção. Mas eu também estava muito preocupado, porque não tinha certeza de nada.
MARIANO MATTOS MARTINS — Minha família é pequena e ficou muito preocupada. Mas também recebemos muitas mensagens de amigos e desconhecidos, dando apoio, dizendo que estavam muito preocupados com este momento que o País está vivendo.
TONY REIS — Todo mundo mandou mensagens de apoio, achando ridículo tudo aquilo que estava acontecendo. Eu pensei: o que eu sei fazer é arte e se isso agora é crime o que eu vou fazer da minha vida?

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vocês ficaram com medo?
TONY REIS — Eu fiquei morrendo de medo, sim.
MARIANO MATTOS MARTINS — Claro. Nós somos jovens. Não somos como o Zé que tem mais de 70 anos e um monte de coisa prescreve. A gente ficou, cara, realmente com a perna bamba. A gente está trabalhando e estamos sendo ameaçados pelo próprio conteúdo do nosso trabalho? A gente achou tudo isso bem estranho. Mas os nossos advogados são muito bons e nos deram calma. Disseram que tinham feito uma defesa muito forte e que era para a gente ficar tranquilo. Até a audiência de segunda-feira, dia 8, a gente estava pensando: caramba, o que vai acontecer?

MIGUEL ARCANJO PRADO — O padre viu a cena no  YouTube. A gente sabe que teatro é presencial, só existe com o espectador e o ator ali, um de frente para o outro. O que acham disso ter acontecido: alguém que não viu a peça poder processá-la?
MARIANO MATTOS MARTINS —Acho que legalmente ele até possa ter tido o direito de fazer isso. Mas, acho que a própria Justiça dar voz a isso, ao mesmo tempo que é estranho, está sendo importante porque a gente está aqui, discutindo isso, não só a criminalização da arte como também a posição da cultura na sociedade. Como as outras esferas se comunicam com a cultura. Por um lado, vejo uma coisa bem bizarra alguém estar sentado na cadeira dele e, com um dedo no computador ver uma cena e em outro dedo ligar para denunciar. E ficar lá sentadinho no canto dele.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Eu queria perguntar isso: vocês conheceram o padre? Ele veio às audiências?
TONY REIS — Não. Nós não o conhecemos. Ele não veio em nenhum momento.

ENO 0470 1024x681 Entrevista de Quinta   Atores do Oficina, Mariano Mattos Martins e Tony Reis comemoram vitória na Justiça contra acusação de padre

Sombra e luz: atores do Oficina, Mariano Mattos Martins e Tony Reis ficaram assustados ao serem processados por fazer teatro - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Há muito preconceito contra o teatro?
TONY REIS — Sim. O teatro é discriminado 24 horas, não temos direito a nada, não temos patrocínio, somos marginalizados o tempo todo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vocês acham que na sociedade brasileira ainda existe o pensamento de que ator de verdade é só o que está fazendo novela na televisão e que o ator de teatro é só alguém que está tentando chegar na TV?
MARIANO MATTOS MARTINS — Sem dúvida. A minha família sempre me pergunta quando eu vou fazer novela. Peraí, eu já estou fazendo meu trabalho. Se houver um convite para fazer novela, eu vou pensar e posso aceitar, mas é só um outro trabalho de atuação. Eu já trabalho como ator no teatro. É uma profissão riquíssima e tive que estudar muito para trabalhar como trabalho, ralei muito. O próprio público com o advento da internet acabou indo para outros lugares. O teatro tende a ficar mais vazio, editais públicos são pouquíssimos, os patrocinadores não querem investir em teatro... Se você pegar a tabela de diária do Ministério da Cultura, a remuneração do ator de teatro é a mais baixa de todas. Poxa, por quê? Se você precisa fazer uma cena, você precisa do cenógrafo, do iluminador, do figurinista. Todo mundo ganha. Por que só o ator pode trabalhar de graça? É normal no teatro dizerem: "o ator não precisa receber cachê". Temos de fazer um grito contra essa miséria que nossa profissão está sendo colocada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O povo pensa que fazer teatro é hobby?
TONY REIS — Sim. As pessoas, infelizmente, ainda não veem como uma profissão. Pensam que estamos brincando. Me perguntam: "Você recebe mesmo? Como paga suas contas?". Gente, trabalhamos em um dos teatros mais respeitados do País e do mundo, que é o Oficina, com o Zé Celso, o maior diretor desse País. Eu chego no teatro toda tarde e não tenho hora para sair. É bem mais que as oito horas de quem trabalha em escritório. O povo só tem noção do tamanho do nosso trabalho quando vai assistir. Aí, fica boquiaberto.
MARIANO MATTOS MARTINS — E fora as cinco horas que estamos em cena, a gente ensaia muitas vezes oito horas por dia antes de a peça estrear. Trabalhamos muito.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Voltando ao processo, o padre alegou que a cena na qual o boneco parecido com o Papa era decapitado feriu seu sentimento religioso. Pensei no filme O Exorcista, que tem vários signos religiosos sendo ultrajados... Outras centenas de filmes de terror por aí usam muitos aspectos religiosos e ninguém fala nada. Vocês acham esse olhar que criminalizou a cena de vocês é um olhar absurdo para um produto artístico em um ambiente democrático?
MARIANO MATTOS MARTINS — Mais que um olhar absurdo é um olhar descontextualizado. Hoje, nós vivemos isso com a internet. Qualquer coisa fora de contexto pode ser classificada como cada um quiser. E você pode, inclusive, classificar como crime uma coisa que não é. A arte é soberana neste tipo de discussão, até porque, depois dos anos de ditadura, nós conquistamos a liberdade de expressão artística. E o mundo luta por isso. As pequenas liberdades precisam de luta diária para acontecerem. É um momento sinistro que vivemos no Brasil. Daqui a pouco processam Picasso porque ele fez o quadro Guernica, baseado na Guerra Civil Espanhola. Tudo pode coexistir: o evangélico, o negro, o gay, o teatro, o católico. Isso é uma democracia. Ninguém precisa convencer a outra pessoa. Todo mundo tem o poder próprio, inteligência, livre arbítrio de fazer escolhas. A visão que nos criminalizou menospreza o próprio público e sua capacidade de pensar: "é óbvio que este boneco não é o Papa, é um boneco de três metros de altura, é uma alegoria artística".

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que vocês acharam de a peça Edifício London, de Lucas Arantes com o grupo Os Satyros, haver sido proibida pela Justiça antes mesmo da estreia por ter sido inspirada no caso Isabella Nardoni?
MARIANO MATTOS MARTINS — Acho que proibir a arte de falar de qualquer assunto é ditadura. Agora mesmo foi votada a questão das biografias, que foram liberadas. A expressão artística tem a liberdade em sua essência. Se eu falo uma coisa e quero mostrar meu ponto de vista, vou me expressar pela arte e não me esconder atrás dela, como o promotor insinuou que a gente havia feito.
TONY REIS — Ele falou na cara da gente, na cara do Zé Celso, que a gente se escondia atrás da arte.
MARIANO MATTOS MARTINS — É exatamente o contrário. A arte não é esconderijo, a gente usa a arte como ferramenta para interpretar a realidade. A arte é isso. Ao invés de você ir lá e matar uma pessoa na vida real, você pode trazer a situação para a cena e colocar as pessoas para pensar. A arte diminui a violência, aumenta a consciência social, ambiental e tantas outras.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O palco é um lugar de diálogo?
MARIANO MATTOS MARTINS  — Claro! Totalmente. As pessoas não saem de uma peça sem entender nada. Alguma coisa comunica, mesmo que inconscientemente. Leva a pensar. Às vezes você pensa em uma peça por dias e ela vira uma referência para você.
TONY REIS — Teatro é pura cultura, não pode ser criminalizada. O que eles querem é que haja pouca gente no teatro, porque tocamos o público. A TV, o cinema, você consegue ser passivo. No Oficina, a gente fala olhando nos seus olhos.

ENO 0463 1024x681 Entrevista de Quinta   Atores do Oficina, Mariano Mattos Martins e Tony Reis comemoram vitória na Justiça contra acusação de padre

Mariano Mattos Martins e Tony Reis, com a cidade de São Paulo ao fundo: eles fazem teatro para colocar o público para refletir sobre sua realidade - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por isso o teatro incomoda tanto?
MARIANO MATTOS MARTINS — Sim. O teatro incomoda porque o teatro penetra, mesmo. Ele fala a real. Vai jogando com você. A teatro não deixa a pessoa numa posição passiva. O problema é que muita gente por aí não quer ter uma atitude ativa na vida. No teatro, quando você vê um ser humano de carne e osso ali na sua frente você automaticamente se projeta nele de algum modo. E passa a refletir.
TONY REIS — E estamos supervivos ali.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Que lição vocês estão tirando dessa situação que passaram?
MARIANO MATTOS MARTINS — Acho que isso fortalece a arte teatral. Fortalece uma discussão que precisamos ter sobre o posicionamento da cultura dentro da sociedade. Porque ela é importante, sim. E, ao mesmo tempo, ela convoca o público para olhar para o teatro com outros olhos. O teatro é importante, sim. É uma luta infinita. E essa história vai trazer as vozes de outros movimentos que estão sendo perseguidos de alguma forma.
TONY REIS — Vi quantos jovens nos escreveram, movimentaram o Facebook. Conseguimos mostrar o que estava acontecendo e chamar a atenção de todos eles. E foi muito positivo que isso não ficou oculto, e graças também a você, que cobriu a história desde o começo. Vi tudo isso e percebi que o teatro ainda tem quem o defenda, o valorize.
MARIANO MATTOS MARTINS — O Oficina foi para a Rússia e vimos que lá teatro é um programa diário.  Na França também. Depois de Paris, São Paulo é o lugar que mais tem teatro, eu já pesquisei isso. É um patrimônio da cidade, do País, é um gerador de trabalho para muita gente.

ENO 0529 681x1024 Entrevista de Quinta   Atores do Oficina, Mariano Mattos Martins e Tony Reis comemoram vitória na Justiça contra acusação de padre

O ator Mariano Mattos Martins: "Faço teatro como uma missão" - Foto: Eduardo Enomoto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você faz teatro?
MARIANO MATTOS MARTINS — Eu faço teatro porque alguma coisa dentro de mim quer fazer teatro desde que nasci. Faço como uma missão. Quando vejo que chega nas pessoas volta para mim, de arrepiar. Faço porque é importante. Não é a única coisa que sei fazer, mas das coisas que sei fazer é a mais humana e a mais transformadora de pessoas. Vem uma alegria, uma satisfação. Cheguei ao Oficina com 15 anos e foi um impacto. Faço teatro desde criança. Mas quando vi o Oficina me apaixonei perdidamente. Passei dez anos trabalhando lá. Ali tem uma chama de teatro, de ação, de conexão com o público. No Oficina, fiz minha segunda faculdade, mais um mestrado e um doutorado. É um teatro que primeiro de deforma e depois te reconstrói e abre sua cabeça para o mundo. Quando cheguei lá perguntei: como isso existe e eu não sabia? Isso é brasileiro. É um patrimônio.
TONY REIS — Sempre falo que fui escolhido pelos deuses do teatro. Acho lindo poder levar tantos sentimentos ao público. Quando vi que conseguia fazer isso percebi que era o que queria para minha vida. Comecei de brincadeira e depois levei a sério e comecei a estudar. Vivo uma situação complicada, sou negro, ator e o que me fez ficar no Oficina é porque é um teatro político, que valoriza o negro. Quando vi que no Oficina havia muitos atores negros e que os negros não faziam papéis subalternos eu percebi que ali era meu lugar. E no Oficina, que é um teatro ritualístico, eu sinto a mesma energia que eu sentia na Bahia. Eu me sinto em casa.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como está o Zé?
MARIANO MATTOS MARTINS — Ele ficou doente e não pode ir à audiência final.  Ainda está se recuperando da gripe. Falei com ele ao telefone. Ele ficou aliviado com a decisão da Justiça.  Até porque ele passou por coisas muito piores na época da ditadura, mas ele concordou comigo que o momento atual é delicado, é uma ditadura diferente, estamos sendo cercados de vários lados. E ele confia na gente.
TONY REIS — Vamos comemorar a decisão favorável a nós da Justiça no sábado agora, com a peça O Banquete, e no domingo, com a peça Pra Dar um Fim no Juízo de Deus. Queremos que todo mundo que nos apoiou apareça no Oficina para celebrar essa vitória com a gente!

ENO 0520 681x1024 Entrevista de Quinta   Atores do Oficina, Mariano Mattos Martins e Tony Reis comemoram vitória na Justiça contra acusação de padre

O ator Tony Reis: "O Oficina valoriza o negro, sinto a energia da Bahia" - Foto: Eduardo Enomoto

SERVIÇO:
Quando e o quê:
Dia 13/06, sábado – O Banquete – 18h (5h de duração)
Dia 14/06, domingo – Pra Dar um Fim no Juízo de Deus – 20h (1h de duração)
Dia 27/06, sábado – O Banquete – 18h (5h de duração)
Dia 28/06, domingo – Pra Dar um Fim no Juízo de Deus – 20h (1h de duração)
Onde: Teat(r)o Oficina (r. Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo, tel. 0/xx/11 3106-2818)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 18 anos

Leia mais:

Justiça analisa defesa do Oficina

Zé Celso e atores do Oficina podem ser presos

Justiça inocenta Zé Celso e atores do Oficina

Curta a nossa página no Facebook

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos palcos e nos bastidores

Descubra a cultura de uma maneira leve e inteligente

Todas as notícias que você quer saber em um só lugar

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

1934107 66983580330 2121 n 1 Entrevista de Quinta   Charles Paraventi: Gosto de ver o público rindo

Por BRUNA CRISTINA FERREIRA*

Charles Paraventi enxerga a comédia como um meio de fazer as pessoas saírem um pouco das loucuras que veem no mundo, do cotidiano duro, da realidade áspera. O objetivo é simples: fazer rir.

Nascido em Nova York, nos Estados Unidos, ele começou a carreira de artista com apenas cinco anos. Sim, ele confirma essa história ao Atores & Bastidores. Na época, ela fazia shows de mágica em um clube brasileiro e sua assistente de palco era sua mãe, grande incentivadora de sua carreira.

Em 1986, já no Brasil, se destaca entre os amigos com suas imitações, era elogiado pelos textos e interpretação fácil. Atualmente, ele está em cartaz na peça Congresso Nacional de Sexologia, no Teatro Bibi Ferreira, em São Paulo. O espetáculo fica em cartaz até o dia 26 de junho.

Na entrevista abaixo, você conhece um pouquinho mais sobre esse artista, que sempre soube seu lugar na profissão e não se deixou enveredar pelo caminho controverso da celebridade.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Como é a comédia Congresso Nacional de Sexologia?
CHARLES PARAVENTI – A peça é dividida em esquetes de humor. São três especialistas em sexo, que vão tratar de assuntos do cotidiano de todas as pessoas. Existem ainda algumas outras questões como abusos, a homossexualidade. Em uma das esquetes, um filho conta para o pai que é gay. O menino cresceu a vida inteira flamenguista por causa do pai, mas faremos uma brincadeira com a faixa da camisa do Vasco, que vira uma faixa de miss no contexto da peça.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – A peça, então, mistura temáticas para fazer humor.
CHARLES PARAVENTI – Sim. São seis histórias e três atores em cena.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Como foi a preparação? Você teve alguma liberdade para criar os personagens?
CHARLES PARAVENTI - O roteiro foi mais um guia para nós. Quando ele chega às mãos dos atores, vamos testando o que funciona e o que não funciona. Então, trabalhos bastante na peça. Acabamos de mudar o figurino, por exemplo, pois achamos que não deu certo.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Vocês se prepararam em quanto tempo?
CHARLES PARAVENTI - Juntos, nós ensaiamos por cinco meses. Antes disso, fiquei um tempo decorando o texto em casa. O processo todo foi bem legal, a gente se dá muito bem. O Lucas [Domso] eu conheço há muito tempo, mas a Daniela [Brescianini] conheci agora e estamos nos dando bem em cena.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Tenho a impressão de que você foi construindo boa parte de sua carreira no humor.
CHARLES PARAVENTI - Eu tenho, sim, uma história no humor. Acho que tenho uma facilidade. Eu gosto de ver o pessoal rir. Acho que são poucos os momentos que temos na vida para sentir prazer, são raros. As coisas andam tão complicadas, por isso gosto de ver o público rindo, se distraindo. Na comédia, essa resposta é mais imediata do que nos outros gêneros.

cns071 Entrevista de Quinta   Charles Paraventi: Gosto de ver o público rindo

Congresso Nacional de Sexologia - Foto: Divulgação

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Está difícil fazer humor com o politicamente correto?
CHARLES PARAVENTI - Eu acho que a comédia tem uma característica interessante em poder criticar as coisas de uma forma saudável. Pode brincar com a política, com os costumes, ela tem essa licença, mas é claro que não dá para abusar. Não dá para ferir a pessoa. Uma coisa é botar o dedo na ferida, outra é agredir moralmente uma pessoa.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Eu não sabia, mas você começou a trabalhar com cinco anos? Sério?
CHARLES PARAVENTI - É verdade. Eu comecei muito cedo. Eu nasci em Nova York e lá tinha um clube, onde eu fazia shows de mágica aos cincos anos. Minha mãe era minha assistente. Minha mãe viu aquela vontade que eu tinha e sempre me deu uma força. Eu sempre gostei de palco. A coisa do entretenimento eu fiz muito cedo. Sempre soube o que seria, qual seria minha carreira, e essa certeza me ajudou muito.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você sempre foi artista, então. Alguma vez você teve alguma crise com a coisa da celebridade, quando se tornou conhecido?
CHARLES PARAVENTI - Pois é. Eu nunca tive dúvidas de que seria artista, por isso não tenho crise. A fama eu achava um pouco efêmera. Isso tinha que ser uma consequência do trabalho.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Mas sempre foi assim?
CHARLES PARAVENTI - Já tive problemas. Acho que quando você vira celebridade, você perde um pouco do humano, do ser humano, da essência. Já sofri com paparazzo, não posso esperar no ponto de ônibus, que isso se torna uma coisa ruim.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Eu soube dessa história [Charles foi fotografado aguardando um ônibus em um ponto no bairro do Recreio, no Rio de Janeiro, no ano passado e acabou virando notícia].
CHARLES PARAVENTI - Não estou dizendo que o transporte público não é ruim. É ruim, sim [risos]! Só que isso não é anormal.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – O que você está planejando agora?
CHARLES PARAVENTI - Eu fiz muita coisa no cinema e agora estou escrevendo meu primeiro longa-metragem, que vai se chamar Cidade de Alá. Eu ando preocupado, pois o Brasil tem uma tradição de tolerância religiosa, muitas religiões convivem e formam o brasileiro, nós temos uma tradição de acolhimento. Tenho medo de que um dia se possa instalar um tipo de célula terrorista e escrevi o roteiro com essa ideia na cabeça.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Então, vai ser um drama?
CHARLES PARAVENTI - Sim, vai ser um drama. É um menino, que nasceu em uma comunidade no Rio de Janeiro, que tem uma história com o Carnaval. A mãe desse menino é jovem e solteira e acaba conhecendo um gringo, que trabalha com petróleo. Esse menino, então, vai parar no Oriente Médio e ter contato com o ódio aos Estados Unidos. A história se desenrola a partir de então. Estou quase finalizando, está quase tudo pronto.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Para encerrar falando novamente sobre a peça, você contou agora que brinca com Flamengo e Vasco. Aqui nos palcos de São Paulo, tem alguma chance de virar um Corinthians e Palmeiras?
CHARLES PARAVENTI - Eu tenho uma admiração muito grande pelo futebol paulista, mas vamos deixar as brincadeiras entre Flamengo e Vasco mesmo. Acho que a aceitação vai ser maior [risos]!

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Qual a diferença entre o palco no Rio de Janeiro e em São Paulo?
CHARLES PARAVENTI - Eu tenho um pouco de medo de fazer teatro em São Paulo. Não sei se é medo, vai... Tenho a impressão de que São Paulo tem um público que vai mais ao teatro, está mais ativo, pensa mais, lê mais jornal. O paulista tem um engajamento maior no cotidiano. O carioca é mais praia, menos preocupado com os problemas. Não quero falar mal do povo carioca, só acho o paulista mais exigente. O carioca é esperto. O paulista é perspicaz [risos]!

Congresso Nacional de Sexologia
Quando: Sábados, 19h. Até o dia 26/6/2015
Onde: Teatro Bibi Ferreira (av. Brigadeiro Luis Antônio, 931, Bela Vista. Informações: 0/xx/11 3105-3129)
Quanto: R$ 60
Duração: 80 minutos
Classificação: 16 anos

Curta a nossa página no Facebook

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos palcos e nos bastidores

Descubra a cultura de uma maneira leve e inteligente

Todas as notícias que você quer saber em um só lugar

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

DSC4512 1024x1024 Entrevista de Quinta   Aos 35 anos, Dan Rosseto diz: Passa de 20 o número de espetáculos que dirigi

Dan Rosseto, atualmente, com três peças em cartaz - Foto: Caio Gallucci

Por BRUNA CRISTINA FERREIRA*

Algumas vezes na entrevista, Dan Rosseto falou sobre como as coisas em sua vida aconteceram um pouco ao acaso. Como se formou em comunicação, como veio parar em São Paulo, como passou de ator a diretor e como conseguiu ficar atualmente com três peças em cartaz ao mesmo tempo.

A primeira a estrear foi O Colecionador de Universos, no Viga Espaço Cênico. Depois foi a vez de Lisbela e o Prisioneiro - O Musical, no Teatro Nair Bello. Recentemente, Tardzio estreou no Parlapatões. Até o fim do ano, ele ainda dirige mais duas peças de sua autoria, Antes de Tudo, no Teatro Augusta, e O Palhaço e as Bailarinas.

Para completar, ele está cada vez mais inclinado a voltar aos palcos como ator e garante que não encana ao ser dirigido.

Proprietário e diretor da escola de teatro musical Applauzo, conheça um pouco mais sobre Dan Rosseto, que apesar de falar  sobre o acaso, é um jovem diretor trabalhador, inteligente e cuja trajetória mostra um tanto de determinação e amor pelo que faz.

BRUNA CRISTINA FERREIRA - Me parece que você está com três peças em cartaz atualmente. Como isso foi acontecer? Não é cansativo?

DAN ROSSETO – Na verdade, eu sabia que isso aconteceria desde o início do Ano. No dia 15 de janeiro, eu já tinha fechado cinco projetos de direção para esse ano. Eu topei o desafio, porque os textos eram bem diferentes entre si. A estética também é diferente. Eu poderia navegar por mares bem distintos.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Mas como você consegue tempo pra tudo isso?

DAN ROSSETO – Eu fiz um planejamento muito certinho, tenho uma equipe muito boa por trás, assistentes e produção que possibilitam essa matemática louca. E eu frequento todos os espetáculos, mesmo com eles em cartaz.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Como assim?

DAN ROSSETO – Depois que o espetáculo entra em cartaz, se o diretor não é do grupo teatral, ele entrega a criança e vai embora. O trabalho do diretor acabou ali. Eu tenho uma relação diferente com os meus trabalhos. Frequento todos eles, todos os dias. Faço manutenção dos três espetáculos.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Como é o seu dia no fim de semana?

DAN ROSSETO – Começa por volta das 16h. Colecionador começa às 17h, Lisbela é às 21h e termino meia-noite, na Praça Roosevelt, no Parlapatões. Enquanto puder, vou acompanhar. No segundo semestre não será mais possível, pois Lisbela viaja para Porto Alegre, Curitiba, Joinville, Rio de Janeiro e algumas cidades do Nordeste. Colecionador ainda não sabemos quais, mas entrará em festivais. Tardzio fica até o fim de junho e pode seguir viagem ou continuar em cartaz.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Qual é a sua formação?

DAN ROSSETO – Eu sou formado em comunicação social com habilitação em publicidade e jornalismo. Depois fiz cinema e pós-graduação em teoria da comunicação e crítica de arte. Fiz a especialização em São Paulo, na Cásper Líbero, mas a faculdade fiz em Presidente Prudente. Eu sou de lá. Estou em São Paulo há 14 anos.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você é novo, acabou emendando um curso no outro, né?

DAN ROSSETO – Sim. Eu entrei na universidade muito cedo, eu tinha 17 anos.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Sua formação em comunicação te ajuda em algo hoje?

DAN ROSSETO – Engraçado, pois ajuda, sim. Eu trabalhei em agência de publicidade antes de fazer teatro. Eu fazia redação publicitária, atendimento, produção geral de comercial. Essa experiência me deu uma noção muito grande em planejamento.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Como veio para São Paulo?

DAN ROSSETO – Eu tinha 21 anos, vim sozinho. Não tinha menor noção do que ia encontrar. Eu só sabia que o interior já tinha me dado tudo o que eu precisava. Eu quis fazer faculdade no exterior, mas não consegui. Vim para cá sem a ideia de ficar, com uma mala pequena. Não sabia nem andar de metrô. Tem uma história engraçada sobre a minha chegada, uma loteria que eu fiz...

LIGIA E DAN Entrevista de Quinta   Aos 35 anos, Dan Rosseto diz: Passa de 20 o número de espetáculos que dirigi

Ligia Paula Machado, diretora e atriz, ao lado de Dan Rosseto - Foto: Caio Gallucci

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Que ótimo! Conta, por favor...

DAN ROSSETO – Desembarquei na Barra Funda sem saber para onde ia. Só sabia que precisava arrumar um pensionato. Aí decidi olhar os nomes de todas as estações de metrô e escolher aquela que tinha um nome interessante. Escolhi Ana Rosa. Fui até lá e encontrei um pensionato e foi onde fiquei morando [risos].

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você teve medo quando chegou?

DAN ROSSETO – Eu tinha uma ilusão de que São Paulo era uma cidade muito violenta, a gente ouve um monte de histórias. Quando dava 17h30, eu já não queria sair do pensionato. Com o tempo, fui me acostumando, saindo, conhecendo as pessoas.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Como era sua relação com o teatro naquela época?

DAN ROSSETO -  Eu trabalhava como ator no interior, tinha experiência em companhia de teatro. Eu pensava em continuar estudando teatro aqui em São Paulo, junto com uma carreira em comunicação. Ia tentar os dois, trabalhar durante o dia, fazer cursos à noite. Fiz Fátima Toledo, fiquei lá três anos, aprendi bastante com ela. O método era diferente, os cursos eram mais longos. Comecei a estudar e projetar algumas coisas, mas ainda como ator.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – E como você se tornou diretor?

DAN ROSSETO – As portas se abriram meio por acaso. Um amigo meu queria produzir um espetáculo, Dois Irmãos, e perguntou se eu poderia dirigir a peça. Topei, mas pedi um prazo maior, tive uns cinco meses para entender como funcionava. Ele entendeu meu pedido e não me deu prazo. De lá para cá, perdi a conta, mas passa de 20 o número de espetáculos que dirigi. Minha carreira de ator foi ficando menor. Não tinha tempo para me dedicar. Acabei trocando uma carreira pela outra.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Qual foi sua última peça como ator?

DAN ROSSETO – Foi em 2008, fiz O Imperador e Galileu, com direção do Sérgio Ferrara, no elenco tinha o Caco Ciocler. Para não dizer que não quebrei o jejum, em 2009, eu dirigia O Primo Basílio, o Musical, e ficou quatro anos em cartaz. Na última temporada, em 2012, eu atuei como ator, mas era um espetáculo que eu conhecia. O desafio de construir um personagem do zero, não tive mais.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você voltará a atuar?

DAN ROSSETO – Existem algumas propostas. Talvez no segundo semestre. Estou naquela fase de negociação. Não sou um ser humano resistente a ser dirigido e sinto que as pessoas têm um pouco de medo de me chamar. Se eu encontrar, serei dirigido, não vou dar opinião. Preciso apenas conciliar a agenda.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você gosta de estar atarefado...

DAN ROSSETO – Também vou estrear mais uma peça no Teatro Augusta, em novembro, e estamos procurando elenco. Eu não paro. Tenho uma produtora de teatro. Por aí, você imagina como é minha rotina [risos]!

*BRUNA CRISTINA FERREIRA é repórter do Portal R7 e cobre o blog interinamente durante as férias do colunista e editor de cultura Miguel Arcanjo Prado.

Curta a nossa página no Facebook

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos palcos e nos bastidores

Descubra a cultura de uma maneira leve e inteligente

Todas as notícias que você quer saber em um só lugar

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

por Elisa Gaivota 100ANCELMO Entrevista de Quinta – A voz de veludo de Maria Ceiça: “Tinha dúvida se seria atriz ou cantora”

Maria Ceiça será a dona de casa Encantada - Foto: Elisa Gaivota/Divulgação

Por BRUNA CRISTINA FERREIRA*

Maria Ceiça é uma daquelas pessoas que imagino sorrir apenas pela voz. A atriz conversou com o Atores & Bastidores logo cedo ao telefone no início desta semana. A conversa era para falar sobre a estreia do espetáculo Por Dentro da Música, que estreia no dia 22 de maio, no Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro.

Na peça, Ceiça e Ilka Villardo soltam a voz na companha de Oscar Milito (piano), Pascoal Meirelles (na bateria) e Alex Rocha (no contrabaixo). O espetáculo conta as histórias por trás de grandes músicas de Gonzaguinha, Dorival Caymmi, Chico Buarque, Tom Jobim entre tantos outros.

Gravando a novela Os Dez Mandamentos, da Record, e prestes a estrear a peça, o tempo de Ceiça está escasso, entre um ensaio e outro, mas a alegria de voltar aos palcos cantando é evidente. Em Por Dentro da Música, ela é a dona de casa Encantada, que durante os afazeres domésticos sonha com as cantoras da rádio.

Para completar, ela ainda deu uma canjinha ao telefone. Para ler e reler, de preferência ao som de Dolores Duran.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Como você está conseguindo estrear uma peça junto com Os Dez Mandamentos?
MARIA CEIÇA – Está puxadíssimo [risos]! Na verdade, os dias em que eu não gravo a novela, eu ensaio a peça. O espetáculo é um musical e eu divido o palco com a Ilka [Villardo]. Nos dias em que não posso ensaiar, a equipe faz preparação com ela e assim vamos nos adaptando.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você sente falta de cantar?
MARIA CEIÇA – Pois é, eu estou sentindo muita falta disso. A música sempre me acompanhou na minha carreira artística. Lá no início, quando eu comecei, eu tinha dúvida se seria atriz ou cantora. Já tem muito tempo, que eu não faço trabalho com música, aí surgiu essa oportunidade.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Quando foi sua última peça de teatro?
MARIA CEIÇA – Foi em 2012, com Gimba, O Presidente dos Valentes, com o Silvio Guindane. Eu estava com muita vontade de voltar aos palcos e também estou produzindo o espetáculo. É a minha produtora, a Luminis, que está cuidando disso. Há um tempo eu vinha produzindo muito, mas a vontade de cantar e atuar falou mais alto.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – No espetáculo, vocês relembram vários nomes da música. Quem escolheu os homenageados?
MARIA CEIÇA – Na verdade, a ideia do espetáculo partiu muito de curiosidades nossas. A gente gosta muito de música, tem canções que marcaram no adolescência, infância, nossos romances e memórias, e tínhamos vontade de saber como os artistas criaram essas músicas. Passamos a nos questionar a motivação deles. A gente não faz ideia de como as músicas são criadas.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Alguma história te marcou em especial?
MARIA CEIÇA – A Dolores Duran, por exemplo, é uma compositora que eu adoro. Tem uma música que todos nós conhecemos, A Noite do Meu Bem, usamos muito para seresta.

[Neste momento, Ceiça canta um pouquinho ao telefone um trecho da música]

“Hoje, eu quero a rosa mais linda que houver e a primeira estrela que vier para enfeitar a noite do meu bem”

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Que lindo!
MARIA CEIÇA – Então, mas eu s[o vou contar a história dessa música lá na peça [risos]!

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Onde estará em cartaz?
MARIA CEIÇA – No Teatro Tom Jobim. E é ótimo que esteja lá, né? Ele é um dos artistas que relembramos na peça.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você disse que está há um tempo longe do teatro, mas 2012 não é tanto tempo assim... Você começou no teatro?
MARIA CEIÇA – Eu comecei nos palcos, mas minha carreira na televisão começou quase que ao mesmo tempo. Logo já estava fazendo novela da Globo, uma que fez muito sucesso foi Felicidade. Depois fiz Por Amor, do Manoel Carlos, fiz Fera Ferida. Fiz Tocaia Grande, na Manchete, e agora estou na Record. Gostaria de estar mais próxima ao teatro...

BRUNA CRISTINA FEREIRA – Mas você não parou nesse período, parou?
MARIA CEIÇA – Eu fiz muita televisão e cinema. Eu estou falando do teatro, mas também estava com saudade de fazer televisão. Já estava há quatro anos sem fazer novela. Voltei com tudo ao mesmo tempo [risos]!

BRUNA CRISTINA – E ainda conseguiu unir teatro à música.
MARIA CEIÇA – Sim! Os meus trabalhos eram bastante musicais também. Quando eu fiz Fera Ferida, não se falou muito na época, mas eu gravei a música-tema da minha personagem e entrou na trilha sonora. No filme Cruz e Souza, O Poeta do Desterro, eu canto em cena.

Por Dentro da Música por Elisa Gaivota 7 Entrevista de Quinta – A voz de veludo de Maria Ceiça: “Tinha dúvida se seria atriz ou cantora”

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você me disse que precisou escolher entre a música e a atuação, mas isso já não é mais assim. O que você acha?
MARIA CEIÇA – Com certeza, na época que eu comecei a trabalhar em televisão, existia uma coisa pejorativa, um preconceito. As pessoas diziam: “Olha, ela quer aproveitar a projeção para se lançar como cantora”. Agora não tem mais essa divisão. O artista precisa ser completo. Hoje em dia, todas as atividades somam.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – E os trabalhos na sua produtora?
MARIA CEIÇA – Eu montei Calango Deu! Os Causos da Dona Zaninha e viajamos todo o Brasil. Estamos em cartaz desde 2012 e ainda estou fazendo um documentário. Estou a mil [risos]! O documentário vai se chamar Que Bom Te Ver no Filme, uma homenagem aos nossos artistas negros brasileiros como o Antônio Pitanga e alguns atores mais jovens como Lázaro Ramos. O documentário está em processo. Quero terminar a novela e continuar.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Esse tempo em que ficou afastada da TV e dos palcos te mobilizou a trabalhar como produtora?
MARIA CEIÇA – Com certeza. A gente amadurece, consegue ver os caminhos a seguir. Eu tenho esse lado de produtora, sou uma pessoa de muitas ideias, já estou planejando outro longa-metragem. Vamos ver o que vai rolar!

*BRUNA CRISTINA FERREIRA é repórter do Portal R7 e cobre o blog interinamente durante as férias do colunista e editor de cultura Miguel Arcanjo Prado.

Por Dentro da Música
Quando: estreia 22 de maio, sextas e sábado, 21h, domingos, 20h. Até o dia 21/6/2015
Onde: Teatro Tom Jobim (r. Jardim Botânico, 1008, Rio de Janeiro. Telefone 0/xx/21 2274-4012)
Duração: 120 minutos.
Quanto: R$ 40
Classificação: 12 anos

Curta a nossa página no Facebook

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos palcos e nos bastidores

Descubra a cultura de uma maneira leve e inteligente

Todas as notícias que você quer saber em um só lugar

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

cleo de paris bob sousa3 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

A atriz Cléo De Páris, gaúcha radicada em SP: "Ninguém vai viver algo igual ao que eu vivi. Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, porque fiz uma história lá que é só minha" - Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A atriz Cléo De Páris está atarefada ainda em sua sala na SP Escola de Teatro quando chego. Tanta um lugar tranquilo na escola para conversamos. Não consegue. A sala já está ocupada por aulas. Propõe irmos a uma padaria perto, dessas bem comuns, na República, bairro do centro paulistano. Antes, pergunta se chove. Enquanto ela vai pegar o guarda-chuvas, dou uma olhada na recepção no folheto da peça que ela está em cartaz, Ludwig e Suas Irmãs, no Centro Cultural São Paulo [veja serviço ao fim].

Cléo chega. Guardo o papel no bolso. Saímos. A chuva é bem fina. Entramos na padaria. É começo da tarde. São Paulo corre, apressada, ao redor. Ocupamos uma mesa no canto, de frente à parede de vidro que descortina o movimento da rua. Peço um café com leite, ela, água. Na parede do outro lado, uma TV ligada mostra o ator Miguel Falabella em sua volta ao programa Vídeo Show. Rimos disso. Falo que vou ligar o gravador. Ela dá o ok. Miro em direção a seus profundos olhos azuis. Começa sua primeira Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7.

Leia com toda a calma do mundo.

cleo de paris bob sousa31 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris: "Continuo querendo plantar flores. As pessoas não se olham, sempre estressadas" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — A última vez que nos encontramos, você falava que queria um dia largar tudo e ir plantar flores. E hoje?
CLÉO DE PÁRIS — Continuo querendo plantar flores [risos]. Estou numa fase que não sei mais para onde ir. Essa loucura da cidade, essa opressão, essa violência, nem sempre direta, mas indireta também, mexe com a cabeça da gente. As pessoas não se olham, vivem no frenesi, sempre estressadas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você sairia de São Paulo?
CLÉO DE PÁRIS — Tem aquela coisa de ir para o interior, mas ter de conviver com pessoas de cabeça fechada, conservadoras, com homofobia... Acho que o problema é sempre as pessoas [risos]. Só sendo um eremita em cima de uma montanha meditando... [risos]

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem quanto tempo de São Paulo?
CLÉO DE PÁRIS — Uns 12 anos. Sou me confundo com o tempo. Como estou no Satyros há 11 anos, devo estar em São Paulo há 12. Minha medida é o Satyros.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você falou do Satyros. A pergunta que não quer calar é: você está no Satyros ou saiu do grupo?
CLÉO DE PÁRIS — Olha, eu me afastei, mas é um grupo que ainda é meu. Eu tenho amores lá, minha história, então, possivelmente, mais dia, menos dia, eu volte. O Ivam [Cabral, ator e dramaturgo do Satyros] foi ver minha peça, falou que está orgulhoso. O Rodolfo [García Vázquez, diretor do Satyros] não foi ainda porque viajou para a Suécia. E eles querem que eu volte a fazer peça com eles.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você ainda é do grupo? Na ficha-técnica ainda tem seu nome?
CLÉO DE PÁRIS — Eu sou do grupo. Tem. O que acontece é que primeiro fiquei um ano sem fazer teatro depois de Édipo na Praça, no Satyros, e Nosferatu, que já foi sem o Satyros. Foi uma fase que queria descansar, porque também trabalho na SP Escola de Teatro. Estava fazendo jornada dupla, muito estressada. Falei para mim: eu não preciso disso, não vou salvar o mundo fazendo teatro sem parar, eu posso me dar um tempo para me reciclar inclusive.

cleo de paris bob sousa41 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris no camarim do Satyros, durante a peça Cabaret Stravaganza: "Ninguém vai ocupar meu lugar" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você fazia uma peça atrás da outra.
CLÉO DE PÁRIS — Sim, estava há muito tempo sem parar. O artista precisa desse respiro. Li uma entrevista do Daniel Day-Lewis, que é o ator mais extraordinário do mundo, e ele contava que uma vez parou quatro anos e foi ser sapateiro numa cidadezinha do interior. Ele dizia que o artista que morava nele precisava daquilo. Isso me tocou profundamente. Eu pensei, eu preciso arrumar meus sapatos, meu caminho, onde vou pisar a partir de agora, foi uma metáfora muito bonita para mim o que ele disse.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Sua ausência nas peças do Satyros gerou um burburinho na classe teatral e no público. Muitos internautas me mandaram mensagem falando para eu descobrir o que havia acontecido e por que você não estava nas peças novas do Satyros.
CLÉO DE PÁRIS — Chegou um momento que minhas intenções artísticas e estéticas não estavam de acordo com o que o grupo estava fazendo. Não que não gostasse. Até porque fiz muito teatro performativo, que o Rodolfo é referência. Estava sentindo falta de personagem, de quarta parede, do teatrão clássico. E o grupo estava com outra pegada e eu queria descansar. Juntou a falta de fome com a falta de vontade de comer.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você achou de o Satyros voltar agora ao Marquês de Sade? Foi ver Juliette?
CLÉO DE PÁRIS — Não consegui ver porque estou em cartaz. Mas quero ver. Acho fundamental [a volta a Sade], porque toda pesquisa do grupo tem muito a ver com isso. Com essa questão de mexer em valores sociais burgueses através do Sade. E o Rodolfo foi bem fundo nisso, sem pudor algum. Acho que o grupo faz muito bem isso. Montar Juliette vai dar um ar novo a essa trajetória do Sade. Mas acho muito especial remontar A Filosofia na Alcova e Os 120 Dias de Sodoma, que é a minha preferida.

cleo de paris bob sousa cabaret stravaganza Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris ao lado de Ivam Cabral, na peça Cabaret Stravaganza, de 2011, do Satyros - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o público adora essas peças.
CLÉO DE PÁRIS — Eu me pergunto muito que tipo de teatro que o público quer. E acho que esse é um teatro que o público quer ver. Tem de ser feito. É sempre um sucesso.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem medo de dar esse tempo e ter alguém lá no Satyros querendo ser a nova Cléo De Páris?
CLÉO DE PÁRIS — A gente tem que se movimentar, sair da zona de conforto e tentar outras possibilidades. Mas ninguém vai viver algo igual ao que eu vivi. Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, porque fiz uma história lá que é só minha. E, talvez, essa gente nova que está lá nem queira ser igual a mim, talvez nem saibam que eu existo. Teatro é muito efêmero...

cleo de paris bob sousa Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris: "Parece que está tudo mais careta" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o que acha dessas peças do Sade neste novo contexto político do País que parece mais conservador do que quando as peças foram montadas pela primeira vez?
CLÉO DE PÁRIS — É triste, porque parece que está tudo mais careta. A gente está retrocedendo. Essa questão toda de conservadorismo, de gente brigando porque Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro se beijaram na novela e aceitando todo tipo de violência como se fosse normal. O mundo está ficando muito triste. Acho mesmo que agora pode ser que choque muito mais. Parece inconcebível. A gente deveria evoluir, mas estamos retrocedendo. As pessoas aceitam menos agora. Parece que é um horror alguém ficar nu em cena. Mas no Carnaval pode ter um monte de gente pelada na televisão de manhã e à tarde, para as crianças verem. Mas não pode fazer topless na praia. É tudo tão hipócrita. Não faz sentido para mim.

MIGUEL ARCANJO PRADO — A gente está ficando amargo demais ou o mundo que está ficando amargo demais para a nossa doçura?
CLÉO DE PÁRIS — Acho que o mundo que está ficando amargo demais para a nossa doçura. E a gente precisa se defender de algum jeito. Acho que a gente acaba ficando [amargo]. Eu sinto que estou muito amarga. E eu não era assim. Mas, senão, você fica uma “Pollyanna”. Você tem de arrumar um jeito de se impor, de se colocar e de se defender disso tudo. Nem sei se é o melhor movimento, mas é o que a gente consegue.

DSC00620 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris em cena de Ludwig e Suas Irmãs: "Trabalhar com o Eric Lenate me jogou com tudo em minha fragilidade e aprendi que ser frágil tem seus encantos" - Foto: Leekyung Kim/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vamos falar de Ludwig. Como você entrou na peça?
CLÉO DE PÁRIS — O Eric Lenate [diretor da peça] queria montar há seis anos, desde que entrou em contato com o texto no CPT [Centro de Pesquisa Teatral]. Ele juntou Lavinia Pannunzio, Jorge Emil e eu há um ano para fazer uma leitura e todos nós gostamos muito. Ele disse que teria de ser com nós três, que era o elenco ideal. Ganhamos o ProAc e tivemos só dois meses de ensaio. Foi muito difícil.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi o processo de trabalhar com outras pessoas, com uma outra forma de se fazer teatro?
CLÉO DE PÁRIS — Foi muito difícil. Pensei até em sair da peça durante o processo. Eu estava trabalhando há muito tempo com o teatro performativo, que te dá certas liberdades. Acho que meu rendimento nos ensaios no começo ficou aquém, porque fiquei travada. E o Eric é muito exigente, muito. E a gente tem muita intimidade. Então, chegou um momento que ficou um processo mais difícil do que prazeroso para mim. Tivemos muitos atritos, a gente não chegou a brigar, assim, mas acho que ele me tratava muito mal nos ensaios. Eu falava: você não trata os outros atores como você me trata. Foi muito difícil trabalhar com ele, muito mesmo. É muito complicado. Não sei se vou repetir. Trabalhei muito tempo com o Rodolfo, que é uma doçura, tem outra pegada. Não estou falando que um seja melhor ou pior. São diferentes. Mas o resultado foi o lugar que queria chegar, sinto que tive um progresso como atriz. Mas eu nunca gosto dessa coisa os fins justificam os meios, sabe? Sabe aquelas pessoas que trabalham com o Lars von Trier e nunca mais falam com ele? Não estou falando que foi nesse nível, mas foi complicado para mim. Não foi fácil, mas o Eric consegue ótimos resultados, isso é uma realidade.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual análise você faz disso tudo?
CLÉO DE PÁRIS — Trabalhar com o Eric me jogou com tudo em minha fragilidade e eu aprendi que ser frágil tem seus encantos e tem força bruta, porque abre um mar de possibilidades. E que acho que serei grata um dia por viver esse desespero.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o texto da peça?
CLÉO DE PÁRIS — É muito difícil, complexo, impiedoso. Tem um formato enlouquecedor. Ele faz um ato inteiro só com as duas irmãs contando que o irmão vai chegar do sanatório. É um ato inteiro preparando a chegada do Ludwig. E depois são dois atos com ele, com uma demência maravilhosa.

MIGUEL ARCANJO PRADO — É difícil fazer a peça?
CLÉO DE PÁRIS — Sim. Muito. Acho que só quando fiz uma cega tive um desafio assim. É um estado de presentificação muito grande. E é difícil ficar em cena sem texto, só reagindo, é mais difícil do que fazer uma ação ou dando texto. É um desafio muito louco essa peça.

Ludwig e suas irmãs 23 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris, Jorge Emil e Lavínia Pannunzio em Ludwig e Suas Irmãs: "Os três são pessoas que não conseguem se adaptar ao mundo. Apesar de vociferarem, não fazem nada" - Foto: Leekyung Kim/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Os personagens são todos loucos?
CLÉO DE PÁRIS — Os três são pessoas que não conseguem se adaptar ao mundo. O Eric linkava muito essas histórias às manifestações que a gente teve. Porque o texto acaba com tudo, com o mecenato da arte, com a burguesia, não deixa pedra sobre pedra. Apesar de eles vociferarem e falarem coisas lúcidas, eles não fazem nada. Ficam naquela casa, lendo biografias de artistas e tomando chazinho. Eles não fazem nada para mudar, só gritam. O Eric falava: esses personagens são as pessoas que foram reclamar pelo aumento de 20 centavos e depois aumentou 50 centavos e não fizeram nada. Então, era só pelos 20 centavos mesmo. Eles queriam dizer: aumentem direito se é para aumentar, porque 20 é muito pouco. Os personagens falam, falam, mas não saem do lugar. O Ludwig é um tsunami que, quando chega à praia, recua. Só ameaça, mas não faz nada. Tem muita munição e não dá em nada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — É um texto de desesperança. Acho que voltamos ao começo da nossa conversa. É um problema da nossa geração?
CLÉO DE PÁRIS — Sim. É uma desesperança. Acho que o mais triste porque é uma desesperança que nem é conformista. Eles não se conformam, mas não fazem nada. Não é: tudo bem como está e vou levar minha vida. Não se conforma, mas não faz nada. Isso é mais triste. Não se conformar e não reagir.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como o público está reagindo?
CLÉO DE PÁRIS — Acho engraçado tratar o público como essa massa uniforme. Mas é engraçado, isso acontece mesmo, de as pessoas quando estarem juntas terem uma mesma intenção. Estreamos numa Sexta-feira Santa e está indo muito bem. Até porque o teatro é enorme. Se você tem cem pessoas tem um terço do teatro. No Satyros era só 40! E o público está ótimo, mas não sei se ele entende o que está acontecendo lá. Se não embarca, não consegue aproveitar. O que o Thomas Bernhard faz ali é muito específico, mexe com padrões no conteúdo e na forma... O texto não é palatável, mas a gente não quer fazer O Rapto das Cebolinhas. Você falou para mim que viu o documentário do David Bowie. Então, o David Bowie hoje apareceria hoje no Faustão? Não. E graças a Deus! Então, vamos continuar sendo David Bowie.

cleo de paris bob sousa4 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris com Alberto Guzik na peça Liz, do Satyros, em 2009: "O Alberto Guzik, que foi meu mentor, falava que somos responsáveis por nossas escolhas", diz a atriz - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que o teatro te deu e o que ele te tirou?
CLÉO DE PÁRIS — Ele me tirou o convívio com minha família. Eu quero ver o Ian, meu sobrinho crescer. Tem o aniversário dele em setembro, nesse dia, mesmo se for uma apresentação para o Papa eu não vou fazer. Eu quero ver o primeiro dentinho dele. Eu acho que eu não tive filho porque me dediquei muito ao teatro. Não é uma desculpa, mas minha paixão pelo teatro foi muito intensa. Agora, ela está esmorecendo, mas talvez o fundo do poço tenha porão e eu pegue impulso e volte, como diz uma amiga. Eu vivi e respirei teatro o tempo todo nos últimos dez anos. Passei mais tempo no teatro do que em casa e com muito prazer. Só que agora, quando olho para trás, às vezes eu penso: será que não era melhor ter tido uma vidinha mais pacata? Será que eu deveria ter tido um filho e deixar de pensar: não, agora, porque eu vou para a Suécia, não depois, porque eu vou fazer peça em Cuba... O Alberto Guzik, que foi meu mentor, falava que somos responsáveis por nossas escolhas. Ninguém colocou um revólver na minha cabeça, falando: faça teatro 24 horas por dia. Se foi uma escolha errada, eu tenho de ver daqui para frente e lidar com isso. Mas o teatro também me deu amigos, pessoas importantes que eu posso confiar. Ele conseguiu extrair de mim sabedoria, coragem, sensibilidade. Inclusive para fazer essa escola maluca que a gente fez, a SP Escola de Teatro. E me deu coragem também para desistir, para parar uma hora, porque eu sou gente.  E é ainda uma resistência nossa levar as pessoas para verem gente. Tirar o público de casa para ir lá ver outra pessoa igual a ela. Isso está muito difícil, né? As pessoas querem olhar umas para as outras por meio das fotos lindas trabalhadas com filtros no IPhone. No palco, não temos filtro, estamos parados ali, sem rede de proteção, passíveis de erro, de sermos execrados ou amados. E a gente continua fazendo isso. Meu medo é que isso se perca um dia. As pessoas estão cada vez mais isoladas, não param de construir prédios na cidade, cada vez mais minúsculos, para as pessoas viverem sozinhas, em seu compartimento, interagindo com outras pessoas através de máquinas, de computadores.

cleo de paris bob sousa2 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris: "O teatro que faço tem que me dar prazer" - Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E qual futuro você pensa para você?
CLÉO DE PÁRIS — Estou contaminada por esse clima de desesperança. Mesmo no teatro não sei o que quero fazer depois de Ludwig. Espero que essa peça tenha ainda uma vida grande. E se eu voltar a fazer outra peça, quero que seja devagar. Com um período mais longo entre um trabalho e outro. Não quero me sacrificar mais pelo teatro. Eu me sacrificaria mais pelas flores do que pelo teatro. Estou muito desiludida com a humanidade. É tão violento o ato criativo que não sei se compensa. E não estou falando de compensação financeira, mas afetiva mesmo. É uma energia grande que você dá e não sei se a balança é favorável. Ainda estou digerindo o processo dessa peça, que foi rápido, intenso e difícil. Tenho de redescobrir meus movimentos internos e meu olhar para os movimentos externos. Porque nunca me coloquei como “a atriz”. Eu fui fazendo trabalhos... Não quero ficar famosa, não é minha pegada, recusei muita coisa na TV por isso. Porque gosto de ter meu anonimato, vou na contramão disso. É claro que gosto de ter prestígio, que as pessoas valorizem o que faço, de conversar com você, nesta entrevista, mas não gosto de uma coisa que possa alterar minha vida. Tudo certo para quem consegue lidar com isso, não acho que é ruim fazer, mas não é a minha pegada. Não tenho essa vaidade de ser famosa, de ganhar prêmio. Então, o teatro que faço tem que me dar prazer e me mostrar que eu faço diferença em algum lugar. Senão, não faz sentido para mim. Tenho avaliado se tudo isso vale a pena para eu ser fiel a mim mesma.

LUD5 Entrevista de Quinta – Ninguém nunca vai ocupar meu lugar no Satyros, diz Cléo De Páris

Cléo De Páris em ensaio para divulgação da peça Ludwig e Suas Irmãs: "Tenho de redescobrir meus movimentos internos e meu olhar para os movimentos externos" - Foto: Laerte Késsimos

Ludwig e Suas Irmãs
Quando: Sexta e sábado, 21h. Domingo, 20h. 80 min. Até 17/5/2015.
Onde: Centro Cultural São Paulo (r. Vergueiro, 1.000, metrô Vergueiro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3397-4002)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

Leia também: Cléo De Páris, a musa do teatro de um tempo e de um lugar chamado praça Roosevelt

Curta a nossa página no Facebook

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos palcos e nos bastidores

Descubra a cultura de uma maneira leve e inteligente

Todas as notícias que você quer saber em um só lugar

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

20150422 164554 768x1024 Entrevista de Quinta   Talento não acaba quando envelhecemos, diz atriz Arllete Montenegro

Arllete Montenegro faz parte da história da TV e da dublagem no Brasil - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

É fim de tarde, os carros avançam pelo Minhocão e a chuva começa a cair em São Paulo quando a porta do apartamento no 11º andar no prédio na praça Marechal Deodoro se abre. Do outro lado está a atriz Arllete Montenegro, ícone da história da televisão.

Ela estreia nesta sexta (24), no Teatro Bibi Ferreira, a comédia De Artista e Louco Todo Mundo Tem um Pouco, com texto de Ronaldo Ciambroni e direção de Jacques Lagoa [veja serviço ao fim].

Com um sorriso no rosto, conta que acaba de retornar de uma dublagem. Estava aproveitando o tempinho livre para ver Ghost - Do Outro Lado da Vida na Sessão da Tarde. "Adoro este filme", conta, enquanto vai buscar a revista Contigo! que o porteiro acaba de entregar. Vez ou outra, vendo TV, escuta a própria voz.

Arllete foi uma das criadoras não só da teledramaturgia brasileira como também da dublagem. Começou no rádio, no fim da adolescência, quando inscreveu-se no concurso Procura-se uma Estrela da Rádio São Paulo. Tirou primeiro lugar.

Logo, virou realmente estrela de radionovelas. Daí para a televisão, foi um pulo. Começou na extinta Tupi, em 1956. No ano seguinte, foi contratada pela Record. Fez novela ao vivo e clássicos como a primeira versão de Éramos Seis. Em 1960, já muito famosa, foi contratada pela Excelsior, que vivia seu auge. Foi lá que fez A Muralha, sucesso absoluto em 1968, onde era nora de Fernanda Montenegro, sua xará duas vezes, já que o verdadeiro nome de Fernanda é Arlete.

Em 1971, retornou à Tupi, onde fez clássicos como A Viagem, em 1975, e permaneceu até o triste fim da primeira emissora brasileira.  Fez mais de 50 novelas. A partir daí, viu todos os seus colegas se transferirem para o Rio, para trabalhar na Globo.

Por precisar cuidar do marido e da mãe doentes, permaneceu em São Paulo, fazendo apenas participações esporádicas nas novelas. O teatro acabou sendo sua forma de manter viva a atuação em sua vida. E a dublagem, que nunca a abandonou.

Histórias não faltam para ela contar nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7. Leia com toda a calma do mundo.

todo mundo louco divulgacao 500x416 Entrevista de Quinta   Talento não acaba quando envelhecemos, diz atriz Arllete Montenegro

Arllette Montenegro, ao lado de Milton Levy, Cláudio Andrade e Dani Marcondes, colegas de elenco na peça De Artista e Louco Todo Mundo Tem um Pouco, em cartaz no Teatro Bibi Ferreira - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi o convite para fazer a peça De Artista e Louco Todo Mundo Tem um Pouco?
ARLLETE MONTENEGRO — A peça é um pouco nonsense, bem louca, é uma coisa do Ciambrone. É bem atual. Muita gente me disse que tem parente assim. Sabe gente que está despirocada mesmo? Ela é assim. As pessoas morrem de rir.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Está feliz?
ARLLETE MONTENEGRO — Sim. O Jacques Lagoa, que é o diretor, é meu amigo de muito tempo, mais de 30 anos. Fizemos a peça Descalços no Parque, de Neil Simon, que ganhou todos os prêmios. Ele me convidou e fiquei muito feliz. Ano passado eu fiz La Mamma como stand-in da Rosi Campos. Esta é a volta dele ao teatro. Jacques é o rei da comédia. É um excelente diretor de comédia.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Sua personagem é uma mãe possessiva?
ARLLETE MONTENEGRO — Mãe possessiva tem aos montes. Essa, além de possessiva, é louca mesmo. Acho que ela tem Alzheimer, porque esquece coisas, inventa coisas...

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você gosta de fazer teatro popular?
ARLLETE MONTENEGRO — É excelente encontrar o grande público de comédia. Eles são muito receptivos. Tenho notado que o público quer ver isso. Quando é algo mais complicado, de pensar um pouquinho, o público não tem paciência. Isso está acontecendo muito na dramaturgia.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Por quê?
ARLLETE MONTENEGRO — Sei lá... Acho que o mundo anda tão estranho que o pessoal está querendo rir de qualquer coisa.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Estava falando há pouco com uma outra atriz, a Cléo De Páris, justamente sobre isso, sobre essa desesperança. Como você vê isso hoje?
ARLLETE MONTENEGRO — Tem de tudo. Eu sou espiritualista. Acho que faz parte de um processo de limpeza e purificação. Então, está havendo avanços. É que a gente só ouve notícia ruim. Porque a mídia só divulga coisa ruim. A notícia ruim dá ibope. As coisas boas que acontecem não são divulgadas. Isso é que cria esse clima. Acho que os jornalistas deveriam encerrar o jornal com alguma notícia boa, para não deixar o povo tão desesperançado.

arlete montenegro edgar franco a muralha Entrevista de Quinta   Talento não acaba quando envelhecemos, diz atriz Arllete Montenegro

Arllete Montenegro com Edgar Franco em A Muralha, na década de 1960, na Excelsior - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi sua relação com a ditadura?
ARLLETE MONTENEGRO — Na época eu era muito alienada. Eu me lembro que no dia 31 de março de 1964 os militares entraram com metralhadoras no estúdio da Excelsior. Estávamos gravando a novela e eles, que eram tão burros, acharam que a gente iria botar a estação no ar. Eles nos prenderam a noite inteira. Até para ir ao banheiro tinha de ir acompanhado. Mas eu era muito criança, muito bobona, não tinha noção da gravidade de tudo aquilo. De manhã é que fomos saber que havia sido dado o golpe.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você se lembra de alguma perseguição?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu não fui perseguida, porque era muito boba. Mas eu me lembro do Dionísio de Azevedo queimando livros no quintal junto do Lima Duarte, porque se eles encontrassem um livro de capa vermelha já diziam que você era comunista.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o que você acha dessa gente que pede a volta dos militares?
ARLLETE MONTENEGRO — Isso é loucura, é uma ignorância crassa. Imagina, voltar àquele estado de terror? Isso é absurdo. Assim como pedir o impeachment da outra, porque não vai adiantar nada, a gente só vai perder tempo e desestabilizar o País. Temos de fazer as passeatas e reclamar, sim. Eu até fui em umas aí. Mas de outro modo, forçando os políticos. Essa coisa de impeachment é bobagem. Ela entrou agora, vai gastar um dinheirão de novo, paralisar tudo. É preciso fazer o Congresso mudar.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vamos falar de TV, porque você ajudou a criar o veículo no Brasil.
ARLLETE MONTENEGRO —Eu brinco que sou da época da TV movida a lenha.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você vê São Paulo ter perdido a teledramaturgia para o Rio?
ARLLETE MONTENEGRO —São Paulo deu bobeira. Porque quando a Tupi faliu era obrigação do SBT ter pegado aquela herança de teledramaturgia. Mas deixou o Rio tomar conta de tudo, com a Globo. Até a Record faz novela no Rio. E ninguém chama a gente. Só querem gente nova.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Eu, particularmente, gosto dos personagens feitos por atores com trajetória, da antiga, talentosos.
ARLLETE MONTENEGRO — Tem pouca da terceira idade. Hoje em dia nas novelas ninguém mais tem mãe, tia, avó, cunhada. Ninguém tem família. É tudo jovem. O próprio jovem fazendo papel de pai e mãe.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Eu me lembro da Camila Pitanga fazer mãe de gente de 20 anos. Ficava até engraçado.
ARLLETE MONTENEGRO — Tem acontecido muito isso. Só tem jovem nas novelas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você acha disso?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu fico muito triste. Mando e-mail para eles me oferecendo para trabalhar, porque tem de ter mais terceira idade nas novelas. Eu quero trabalhar. Não é porque a gente envelhece que o talento acaba.

arlete montenegro 2 Entrevista de Quinta   Talento não acaba quando envelhecemos, diz atriz Arllete Montenegro

Regina Duarte, Susana Vieira, Maria Izabel e Arllete Montenegro em 1966 - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você não foi para o Rio como os colegas da sua geração fazer novela na Globo?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu não pude fazer. Na época recebi vários convites, mas estava com marido doente, tinha filho pequeno. Não tinha como ir. Todo mundo foi, menos eu. Teve novela de eu terminar sem o galã, que ele pediu demissão e foi para o Rio.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que ficar em São Paulo lhe trouxe de bom?
ARLLETE MONTENEGRO — Foi bom porque eu fui fazer teatro. Porque eu não tinha feito teatro... Antes eu só estava fazendo televisão. Eu fazia novela ao vivo na Record, que ainda era no Aeroporto de Congonhas. Na Record eu fiz locução de cabine, telejornal, tudo! Só fui fazer teatro com 20 anos de televisão, mas eu já dublava...

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você é uma das dubladoras mais tradicionais.
ARLLETE MONTENEGRO — Eu faço a voz da Meryl Streep. Fiz O Diabo Veste Prada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você dubla muito?
ARLLETE MONTENEGRO — Dublo em todos os estúdios de São Paulo. Até a professora do Bob Esponja eu faço.

MIGUEL ARCANJO PRADO —É difícil dublar? Qual o segredo?
ARLLETE MONTENEGRO — Dublar é um paradoxo: você tem que estar zen e ligadão. Você já viu isso? Só gente louca consegue. É uma coisa que você tem de ter muito controle motor. Você ouve uma língua no seu ouvido, emboca na tela com um ator que não tem o seu tempo e precisa fazer com a mesma emoção. É uma coisa de gente louca. Quando começou a dublagem eles foram buscar a gente na rádio. Tentaram com o povo do teatro da época, mas não deu certo, porque eles falavam alto, para a última fila, com a voz empostada. Então, foram buscar a gente na rádio, que falava baixinho, sussurrado.

arlete flavio meuricoportugues Entrevista de Quinta   Talento não acaba quando envelhecemos, diz atriz Arllete Montenegro

Arllete Montenegro com Flávio Galvão na extinta TV Tupi - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Sua família achou ruim de você ser artista?
ARLLETE MONTENEGRO — No começo foi uma briga, porque achavam que era tudo puta e viado [risos]. Eu me inscrevi no Procura-se uma Estrela. Na época eu morava na Casa Verde, que naquela época era na China, e trabalhava numa ótica na rua São Caetano. Mas me inscrevi na rádio São Paulo e ganhei primeiro lugar.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o seu nome, com surgiu?
ARLLETE MONTENEGRO — Era Arlete Branco, mas eles acharam que não tinha sonoridade. Queriam tirar o Arlete também, mas eu não deixei. Aí eu escolhi o Montenegro. Na época não sabia da Fernanda. Ela já estava trabalhando, mas no Rio. E, naquela época, São Paulo e Rio eram mundos muito distantes. Se eu soubesse que já tinha o dela não teria escolhido.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vocês trabalharam juntas?
ARLLETE MONTENEGRO — Fizemos A Muralha, ela era minha sogra, foi um sucesso estrondoso. Foi aí que descobri que tínhamos o mesmo nome. Porque eu comprei ovos de páscoa na Record, no corredor, que descontava no holerite. Aí um dia a camareira levou a Fernandinha, filha dela, para brincar com meu filho, que era mais novinho, o Fábio, aí ela me falou: A Fernanda pagou todos os seus ovos. E eu: como assim? Ela me respondeu: Ela se chama Arlete Pinheiro Torres. Viram Arllete Montenegro e pensaram que era ela dela. Olha que engraçado. Até aniversário fazemos juntas. Ela faz no dia 15 de outubro e eu no dia 16.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O povo pensa que vocês são irmãs?
ARLLETE MONTENEGRO — Pensa. E ela fala que sim, porque ela fala que tem preguiça de ficar contando a história.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual tipo de teatro você gosta?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu gosto muito do teatro americano. Gosto de Tennessee Williams e Neil Simon.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quando você entrou na Globo?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu só fui nos anos 1990, depois que minha mãe morreu, para fazer Cara & Coroa. A mais recente que fiz na Globo foi O Profeta.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que as emissoras de São Paulo deveriam investir mais em teledramaturgia?
ARLLETE MONTENEGRO — Claro! Tudo começou aqui. O SBT deveria investir mais e a Record deveria trazer as novelas para São Paulo. Temos um mercado ótimo de atores aqui. Tenho gostado muito da GNT, que tem feito muito dramaturgia. Coisas excelentes. Eu vejo tudo. Também quero fazer um bom filme. O cinema brasileiro está ótimo. Cineastas, podem me chamar que eu topo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Falta nos produtores, diretores conhecer a história da TV e quem a construiu?
ARLLETE MONTENEGRO — Sim. Se eu vou em alguma emissora agora, me perguntam: trouxe book, tem três fotos? Eles não fazem ideia da minha trajetória. Quando fui fazer Cara & Coroa, que foi o Wolf Maya quem me chamou, junto do Luis Mello e da Marilena Ansaldi, muita gente achava que eu era só de teatro. Quando me viram gravar a primeira cena ficaram impressionados porque eu fiz de primeira, não tinha dificuldade nenhuma. Eu falei, gente, mas eu faço novela desde os anos 1950! [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO —Você é mestre. E esse curso que você fez não tem em lugar nenhum.
ARLLETE MONTENEGRO — Eu aprendi fazendo. Nós criamos tanto a dublagem quanto a televisão. Só o teatro que a gente não criou [risos].

20150422 164631 768x1024 Entrevista de Quinta   Talento não acaba quando envelhecemos, diz atriz Arllete Montenegro

Arllete Montenegro: "Só o teatro que a gente não criou" - Foto: Miguel Arcanjo Prado

De Artista e Louco Todo Mundo Tem um Pouco
Quando: Sexta e sábado, 21h, domingo, 20h. 70 min. Até 28/6/2015
Onde: Teatro Bibi Ferreira (av. Brigadeiro Luís Antonio, São Paulo, tel. 0/xx/11 3105-3129)
Quanto: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos

Curta nossa página no Facebook!

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos bastidores

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer está num só lugar: veja!

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

FOTO 4 Entrevista de Quinta   Teatro é encontro de seres que se escutam, diz Rodrigo Spina

Rodrigo Spina dirige peça de autor romeno com grupo Os Barulhentos em SP- Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O nome do espetáculo é longo. Mas, as referências são muitas.

Aqui Estamos com Milhares de Cães Vindos do Mar é a nova peça da Cia. Os Barulhentos, com direção de Rodrigo Spina, em cartaz no Espaço Elevador, em São Paulo [veja serviço ao fim].

O espetáculo saiu do livro Cuidado com as Velhinhas Carentes e Solitárias, do autor romeno contemporâneo Matéi Visniec, radicado na França desde 1987.

A trupe, que fez sucesso nos palcos em 2013 com Muito Barulho por Nada, agora investiga solidão humana no mundo contemporâneo, num mundo cada vez mais tecnológico e vazio de sentidos, onde o privado e o público se misturam com facilidade, gerando angústia constante.

A encenação é um compilado de 15 peças curtas, que se entrecruzam. Para fazer a colcha de retalhos cênica dar certo, o diretor utilizou os conhecimentos que tem em teatro e em cinema.

No elenco estão Cadu Cardoso, Clara Rocha, Domitila Gonzalez, Gustavo Pompiani, Lia Maria, Lucas Horita, Lucas Paranhos, Marina Campanatti, Murilo Zibetti e Pedro Camilo.
Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Rodrigo Spina descortina um pouco da obra e de sua carreira. Formado em cinema pela ECA-USP e mestre em artes pela Unicamp, onde é doutorando em artes da cena, ele conta, entre outras coisas, que seu diretor preferido é o italiano Fellini: "Pois sua arte sonha".

Leia com toda a calma do mundo.

aquiestamos1 1024x682 Entrevista de Quinta   Teatro é encontro de seres que se escutam, diz Rodrigo Spina

Roupas espalhadas: peça tem instigante cenário criado por Moshe Motta - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Rodrigo, fiquei sabendo que sua peça está toda em tons de cinza; por quê?
RODRIGO SPINA — Ao começarmos a ensaiar a peça, senti que as cenas deveriam ser realistas, críveis, porém com algum tipo de estranhamento, algo que deixasse o espectador com uma sensação esquisita. Assim, ao ver uma realidade fidedigna à sua frente, porém sem cor, o espectador, como alguns já relataram inclusive, tem a sensação de que algo de sua percepção visual foi modificada ou está falha, alguma coisa está fora da ordem comum – conteúdo de todas as cenas do espetáculo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Interessante esta provocação estética.
RODRIGO SPINA — Diferentemente do cinema em preto e branco, que resulta nessa qualidade visual pela captação ou por filtros colocados a posteriori, o teatro completamente em tons de cinza, gera uma sensação de deslocamento da realidade, pois vemos um ator vivo em cena, na nossa frente e sem cor alguma – de acordo com o que Visniec tem no cerne de sua dramaturgia: o estado de coma do mundo contemporâneo, onde estamos cada vez mais acostumados a ver uma vida (?) tornando-se pasteurizada, com menos nuances de cores e sentimentos.

aquiestamos2 Entrevista de Quinta   Teatro é encontro de seres que se escutam, diz Rodrigo Spina

Falta de cores foi opção estética do diretor - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Que poético isso que falou. É por aí mesmo... Mudando de assunto: você se formou em cinema e artes cênicas. Misturou as duas artes na peça?
RODRIGO SPINA — Como diretor, eu conduzo a obra teatral como algo audiovisual, uma combinação de imagens cênicas e sons. Obviamente, essas imagens cênicas são construídas pelos atores, que são ocentro nervoso do teatro, e o sons são combinações de suas vozes, ruídos, as trilhas musicais e seus silêncios. Como sou preparador vocal em teatro e professor de voz para atores, priorizei a aproximação dos atores às palavras de Visniec, a construção de suas imagens internas em seus próprios corpos. Assim, esses atores, jovens brasileiros, poderiam – pela palavra – instaurar questões da guerra do Leste Europeu, por exemplo.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Você fez doutorado na Unicamp sobre voz do ator?
RODRIGO SPINA — Meu doutorado foca em estudar a qualidade da escuta do ator e como ela desemboca em sua expressão vocal, ou seja, quero tirar das mãos do ator a exigência de uma impecabilidade fono-articulatória e colocar toda sua atenção no que ele escuta do outro, pelo jogo cênico. Assim, sua voz será resultado de trocas sensíveis entre os interpretes e não de um treinamento isolado e tecnicista.  Sinto que é momento de voltarmos a ter no jogo dos atores a maior fonte fomentadora da cena teatral e não partir das aptidões trabalhadas apartadas de um todo, em busca de um perfeccionismo esvaziado de histórias e cicatrizes.

aquiestamos3 1024x682 Entrevista de Quinta   Teatro é encontro de seres que se escutam, diz Rodrigo Spina

Peça é compilado de 15 cenas curtas que se entrecruzam - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Voltando à peça, em que mais ter feito cinema lhe ajudou na direção?
RODRIGO SPINA — Outra vantagem em ter estudado cinema, foi poder “montar” as cenas soltas num fio narrativo – o conhecimento de edição cinematográfico foi muito usado neste espetáculo – quadros de imagens que se resignificam por seu contexto. Por exemplo: um casal discutindo sua relação depois do sexo é totalmente redimensionado, pois é uma ação simultânea a um menino aprendendo a matar pessoas numa fronteira. Como a peça é composta de 14 cenas curtas encadeadas e simultâneas, o espetáculo torna-se um “filme multiplot”, desses que contem várias narrativas entrecortadas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você escolheu o texto?
RODRIGO SPINA — Esse texto surgiu depois de um passeio por uma livraria em São Paulo, onde vi a coleção do Visniec publicada. Vendo os títulos, um deles chamou minha atenção: Cuidado com as Velhinhas Carentes e Solitárias. Ao pegar o livro e começar a ler, não consegui parar, levei ao grupo e todos se apaixonaram pelas cenas e começamos a montar a peça.

aquiestamos4 Entrevista de Quinta   Teatro é encontro de seres que se escutam, diz Rodrigo Spina

"Teatro é encontro de seres que se escutam", diz Rodrigo Spina - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como se aproximou do autor, Matéi Visniec?
RODRIGO SPINA — Procurei Visniec virtualmente e encontrei-o pelo Facebook. Ele sempre foi muito solícito conosco e ajuda a divulgar sempre que possível. Enviei fotos do espetáculo para ele explicando como tinha feito o encaixe das cenas e as opções estéticas e ele respondeu: “Esse é o tipo de teatro que eu realmente gosto.” Obviamente, fiquei extremamente feliz, pois sinto que existe um encontro muito profícuo entre nós — os Barulhentos e suas palavras.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você também é ator da Cia. Elevador Panorâmico. Como é agora estar no papel de diretor com o grupo Barulhentos?
RODRIGO SPINA — Aprendi a fazer teatro no Elevador. É impossível dizer o contrário. E fazer teatro de grupo – passando por todos setores – montei cenário, operei som e luz, fiz faxina e reformas na sede do grupo e também atuei... [risos]. Meu diretor, o Marcelo Lazzaratto, é meu grande orientador na vida artística. Ele sempre acompanha os processos que dirijo e problematiza algumas escolhas, sugere soluções. Enfim, sinto que o Lazzaratto é um avô artístico dos Barulhentos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Dirigir mudou algo em você?
RODRIGO SPINA — Poder dirigir um grupo de atores tem transformado minha própria vida no palco, pois a maneira com que você esclarece alguma cena a um ator ou conduz o mesmo a fazer certa coisa faz com que você tenha que esclarecer procedimentos de criação de imaginário para si mesmo para que possa esclarecer ao outro. Assim, muito do que venho falado aos meus atores, tento colocar em prática nos espetáculos do Elevador, como ator.

aquiestamos5 Entrevista de Quinta   Teatro é encontro de seres que se escutam, diz Rodrigo Spina

Peça discute a solidão dos seres humanos nos tempos atuais - Foto: Valérie Mesquita

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que o teatro ainda tem importância política no Brasil de hoje?
RODRIGO SPINA — Sim, eu não faria teatro se não acreditasse nisso. A cultura (e no meu caso, meu ofício o teatro) é de fundamental importância para enxergarmos a realidade como ela é. Sinto que as mídias estão cada vez mais controladoras de opiniões e por consequência, as ações dos indivíduos, às vezes, as mais absurdas. Estamos cada vez mais copiando e colando opiniões em nossos “murais” eletrônicos, distanciados cada vez mais de uma relação verdadeira com os outros.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem razão.
RODRIGO SPINA — Há uma certa banalização no uso da palavra hoje em dia, e quero que meu teatro fuja disso. Peço sempre aos atores terem cuidado com a palavra dita e vivida por eles em cena, cuidado em criar as imagens potentes que elas possuem a priori, sentidos profundos e vitais. E o teatro ainda é o lugar de encontro humano, nada além disso – o encontro entre seres que se escutam, onde há lugar para troca real. Isso, de início, já pode ser uma transformação política radical, hoje em dia.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quais são seus diretores preferidos em cinema e teatro?
RODRIGO SPINA — Meu diretor predileto é o Fellini, pois sua arte sonha. Existe algo na obra dele que cala e faz rir. Algo que é gracioso, ao mesmo tempo, totalmente silenciador. Sinto que é quase impossível colocá-lo num único gênero. E esse tipo de arte me atrai. Diretores de cinema e teatro que conseguem ser plurais – abarcando mais sensibilidades humanas do que possíveis rótulos, tornando sua arte polissêmica e abrangente. Gosto muito de cinema mudo de Chaplin e Buster Keaton, o silêncio de Bergman, as cores de Almodóvar e no teatro é inevitável dizer, mas gosto muito do trabalho do Lazzaratto, por motivos óbvios, e do Felipe Hirsch, Márcio Meirelles e o trabalho dos Clowns de Shakespeare.

Aqui Estamos com Milhares de Cães Vindos do Mar
Quando: Sábado, 20h, domingo, 19h. 110 min. Até 31/5/2015
Onde: Espaço Elevador (r. Treze de Maio, 222, Bela Vista, São Paulo, tel. 0/xx/11 3477-7732)
Quanto: R$ 30
Classificação etária: 14 anos

Curta nossa página no Facebook!

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos bastidores

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer está num só lugar: veja!

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

Velson DSouza03398x10 low res Entrevista de Quinta   Velson D’Souza troca SP por Nova York e conquista Broadway

Ator Velson D'Souza trocou São Paulo por Nova York e não se arrepende - Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O ator brasileiro Velson D’Souza realiza o sonho de muitos colegas de profissão: atualmente trabalha na Broadway, em Nova York.

O moço está no elenco da peça I Catch You Dreaming, escrita pelo porto-riquenho Rafael Albarran e que transformou-se em sucesso de público na maior cidade dos EUA, no Teatro Flamboyan.

Na obra, faz o papel de um jovem gay que tem uma família católica e se apaixona por um ator.

A carreira do rapaz em solo norte-americano é cuidada pela agente Ann Steele, além dos menagers da Richard Rosenwald Associates. Ele ainda atua com dublagens na Stewart Talent e na Abrams Agency. Inclusive foi convocado para dublar o craque Neymar na campanha mundial da Nike na última Copa.

Antes de partir para o sonho americano, Velson atuou em espetáculos como o infantil A Odisséia de Arlequino, que levou o Prêmio APCA de melhor elenco, e A Sessão da Tarde, sucesso da Cia. Teatro Rock que ganhou o Prêmio Femsa.

O Atores & Bastidores do R7  conversou com o rapaz sobre o atual momento internacional de sua carreira nesta Entrevista de Quinta. Ele confessou que o ator é mais respeitado nos EUA do que no Brasil.

Leia com toda a calma do mundo.

I Catch You Dreaming 1 Entrevista de Quinta   Velson D’Souza troca SP por Nova York e conquista Broadway

Cena da peça I Catch You Dreaming: sucesso da Broadway tem brasileiro no elenco - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi partir para o sonho de atuar nos EUA?
VELSON D’SOUZA — Quis fazer um intercâmbio entre as duas culturas. Sempre fui fascinado pela cultura norte-americana. Quando houve a possibilidade de fazer a mudança, não pensei duas vezes. O desafio também me interessou muito.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você pensa em voltar?
VELSON D’SOUZA — Hoje minha base é aqui em Nova York e tenho projetos neste momento que impossibilitam minha ida ao Brasil. E minha intenção é continuar fazendo o intercâmbio entre as duas culturas aqui nos EUA e executar aqui projetos culturais similares aos que fiz parte no Brasil.  Mas recebi sondagens ano passado e esse ano para projetos de cinema e teatro em São Paulo. Seria um prazer poder trabalhar em projetos no Brasil no futuro, não sei quando acontecerá. Tudo depende do projeto e se este se encaixa na agenda daqui.

I Catch You Dreaming 3 Entrevista de Quinta   Velson D’Souza troca SP por Nova York e conquista Broadway

O ator em cena de I Catch You Dreaming - Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi se adaptar a Nova York? Foi desafiante?
VELSON D’SOUZA — A adaptação leva um tempo. Nova York é uma cidade muito cara e muita gente pensa que Nova York é a Times Square, a Estátua da Liberdade, etc. Nova York é muito mais que isso. Eu acho que a adaptação à culinária e ao estilo de vida de uma cidade que move num ritmo muito superior a uma cidade como São Paulo, por exemplo, são os grandes desafios. Ah! Para brasileiros, diria que com certeza o tempo. Em Nova York você tem a experiência das quatro estações do ano ao extremo. É tremendamente quente no verão e úmido. No inverno, é intensamente frio e seco!

MIGUEL ARCANJO PRADO — Onde percebeu mais dificuldade para um ator: em São Paulo ou em Nova York?
VELSON D’SOUZA — Depende. Cada lugar tem suas dificuldades e é diferente. No Brasil, existem poucas oportunidades para o ator. Produtores sérios passam anos tentando aprovar seus projetos em leis e depois anos tentando captar o dinheiro para realização do projeto. No Brasil, não existe um sindicato sério, que lute de verdade pelo ator. Bom, existir até existe. Acho que o ator no Brasil é muito explorado e pouco reconhecido. E também parece que é cada um por si. O povo só vai ao teatro no Brasil para ver ator famoso. Talvez eu esteja sendo um pouco radical, porém, é extremamente difícil para o ator viver só disso no Brasil. Nos EUA, é um pouco diferente. O ator é muito mais respeitado. O povo vai ao teatro, e eu não estou apenas falando de Broadway. Mas tem muito teatro regional que tem casa cheia todo espetáculo. Sem contar que nos Estados Unidos existem sindicatos para cada área que protegem o ator (não somente atores mas todos envolvidos, diretores, câmera man, etc). Pra você ter uma ideia, o ator que faz um comercial que vai passar em rede nacional tem contrato supervisionado pelo sindicato , SAG-AFTRA, recebe um valor fixo para gravar o comercial, e depois, recebe um valor por cada vez que o comercial passa na TV. O ator aqui é respeitado e protegido. Seria uma maravilha se isso acontecesse no Brasil. Claro que aqui tem suas dificuldades também, porém tem muito mais oportunidades.

Acompanhe em tempo real o R7 no Festival de Teatro de Curitiba 2015!

Curta a nossa página no Facebook

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos palcos e nos bastidores

Descubra a cultura de uma maneira leve e inteligente

Todas as notícias que você quer saber em um só lugar

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes